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independent author of the cosmos 𓆉
finalizada em: 27.05.2026.

No topo cintilante de um dos maiores arranha-céus da capital Montgomery, a última coisa que esperava ouvir era sobre flores.
O relógio mal tinha batido às três da tarde e a Zenith já tinha faturado quase trezentos mil dólares, mantendo sua reputação de gênios selvagens e intocáveis no universo pervertido da bolsa de valores. De acordo com o The New York Times, eles não passavam de uns merdinhas imunes aos problemas da vida real, sem medo nenhum de se enfiarem dentro da boca dos peixes grandes de Wall Street. Jeong especificamente, esse caipira mestiço que amava dinheiro tanto quanto um viciado amava heroína, estava no topo da lista. Na visão simplista do cara, apenas a morte não podia ser resolvida com um cartão de crédito.
Sua missão diária era fechar o dia com mais de meio milhão. Era um número razoável, segundo ele. Um dia, essa quantia não iria satisfazê-lo tanto assim e daí precisaria passar para a casa seguinte, os seiscentos mil. E quando isso não fosse o bastante, haveria o próximo degrau. Não importava se aquele tipo de feito fosse minimamente extravagante e perigoso, ou até mesmo impossível; era mais interessante e vantajoso a venda da ideia do que da realidade, pelo menos quando se tratava do CEO da Zenith Capital, com seus mais de duzentos funcionários que não podiam, em hipótese alguma, pensar de forma miserável sobre o futuro. Afinal, era graças a eles também que faturava.
Fui assim um dia, pensava ele quando se lembrava das pobres carinhas desesperadas suando frio por todo o setor comercial. E eles acham que, um dia, serão como eu.
Isso vai dar merda. — disse a voz de Jordan, seu sócio, do outro lado da linha. — Você tá se metendo numa conta grande demais. Nem o Alabama todo tem esse dinheiro.
— O Alabama nunca teve dinheiro. Esqueceu que o primeiro Mc Donald’s só chegou aqui há dez anos?
Engraçadinho. Os cretinos de Wall Street vão te pegar se essa sua artimanha der certo.
— Qual delas? A compra da Dark Pool ou meu novo empreendimento no setor de tecidos? — ele fez o que já estava morrendo de vontade de fazer: jogou as pernas para cima da mesa e acendeu seu cigarro, tragando a fumaça enquanto bebia um gole do whiskey Johnnie Walker sempre parado no mesmo lugar do tampo. Exatamente nessa ordem.
O amigo riu do outro lado da linha.
A terceira opção, seu idiota. A porra do seu casamento.
A expressão de não mudou. Ele jamais teria falado ou pensado no casamento, seja naquela conversa ou em outra. Não era um assunto interessante.
— Ah. É. O que tem?
Tem que você é um maluco.
— Por me casar? O que isso muda? Vamos continuar indo ao Taki’s toda sexta-feira, Jordan. — ele puxou mais fumaça do cigarro. — Também porque tenho certeza que você não teria um tostão pra continuar cobrindo o turno das prostitutas ilegais. Elas precisam fazer matrícula na previdência.
Foda-se as prostitutas. Você vai se casar com Naomi Robbie. Não era assim que eu pretendia passar o 4 de julho, mas você não me deu escolha.
— Você tem que estar lá. Chamei o superintendente pra gente ter aquela conversinha com ele depois. Sabe, sobre os impostos.
Já separou o dinheiro dele?
— Já. Dois milhões devem cobrir pelo menos os próximos um ano e meio. E pra abrir a filial de Nova York.
Jordan riu alto.
E como vai despistar o governo por lá?
— Já tenho um plano. E dessa vez, não vai ser com meu dinheiro. — ele sorriu ladino, batendo as cinzas do cigarro num cinzeiro de cristal.
Porra, Naomi é um doce mesmo nessas horas. Aposto que a ideia foi dela.
— Depois de gozar três vezes, toda mulher tem ótimas ideias.
Os dois riram de um jeito satírico e até maldoso. A cena da queridinha Naomi Robbie, filha de um conglomerado imobiliário que comanda Nova York, com peitos enormes e um rosto de boneca que amava os holofotes, bolando planos de ajuntar ainda mais dinheiro com seu belo noivo executivo enquanto ficava de quatro não era difícil de imaginar. Jordan mesmo já tinha feito isso várias vezes, apesar de que nunca falaria sobre isso. A união daqueles dois, tanto em nome quanto em carteiras, seria a garantia de um cheque dobrado no seu bolso todas as semanas pelos próximos cinco anos (era o tempo que ele achava que Naomi aguentaria as puladas de cerca e as drogas de antes que se tocasse da burrice que tinha feito).
Alguém bateu na porta com três socos leves num ritmo apressado e alto. balbuciou uma despedida para Jordan e pediu que entrassem, sem mudar de posição.
O homem de terno bem passado entrou devagar, fechou a porta e tomou cuidado de não cruzar o olhar tão diretamente com num primeiro momento. Era um comportamento padrão; seu chefe poderia estar fazendo tantas coisas ali dentro, e nenhuma delas o impediria de deixá-lo entrar. Jeong não tinha esse tipo de inibição.
Mas hoje ele só estava sentado atrás de sua mesa de carvalho naquela cobertura de vidro, com sua camisa social de gravata atipicamente torta, sua postura preguiçosa na cadeira de couro, seus papeis de contratos e o whiskey e o cigarro de sempre.
— Senhor Jeong. — cumprimentou.
— O que foi, John? Colocaram fogo na lixeira de novo? Estão deixando muito pó na bancada do banheiro?
— Hoje não. Chegou um recado pro senhor. — John tirou um pequeno saco plástico do bolso. — É da senhorita Robbie.
O saquinho pousou na mesa de , e ele imediatamente só fez rir. Principalmente por causa da cor.
A calcinha fio dental era de um verde musgo quase inebriante, combinando com os olhos lascivos de sua noiva e também com o seu cabelo ruivo nada natural, mas que a deixava com a cara que precisava ter. Até hoje ela pensava que essa fosse a cor favorita dele porque tinha dito que ficava bonito nela. Naomi raramente usava a cabeça para o que realmente precisava, e era exatamente por isso que era tão perfeita para ele.
Preso na barra fina da peça, estava um quadradinho quase delicado de bilhete, escrito na letra garranchada e sem costume dela: VÁ VER AS FLORES. PORRA.
Ele revirou os olhos, ainda achando graça, porém menos aliviado.
— A que horas devemos ir, senhor? — John perguntou em seu tom baixo. ainda demorou um pouco para responder.
— Isso não é trabalho da cerimonialista?
— Foi a única tarefa que a senhorita Robbie te deu sobre o casamento.
— É porque ela sabe que vou dar o mais importante depois do casamento. Não pode ir fazer essa besteira pra mim?
— Não po-
— Te dou dois mil dólares.
— É muita gentileza sua…
— Pro inferno com gentileza, estou te subornando. Prefiro aproveitar meu tempo ligando pra algum fodido de Wall Street e ver se diminuem minha taxa de repasse. Fora que flor é tudo flor.
— A senhorita Naomi disse que quer…
— Naomi. Jesus. Naomi quer, quer, quer, ela é incapaz de não querer alguma coisa. — ele bufou alto. Pensou em todas as possibilidades e míseras coisinhas que poderiam livrá-lo daquilo, mas já sentia o sentimento pesado de obrigação. Tinha sido mesmo a única coisa que ela tinha pedido.
Ele sentiu o olhar de John o observando e se colocou de pé, os lábios apertados.
— Beleza. Vamos ver as flores.
E deu uma grande tragada no cigarro caro antes de jogá-lo dentro do copo de whiskey.


Depois de alguns quilômetros, começou a pensar que as flores não eram tão má ideia assim.
Ele não costumava sair do escritório se não fosse para algo de extrema urgência monetária, seja para ganhar ou para gastar dinheiro num viés de ostentação que deixaria qualquer bom cidadão de cenho franzido. A vida, para ser boa de ser vivida, precisava vir regada de prazer. Ele amava dinheiro, sexo, whiskey, boas drogas e, quando ninguém estava olhando, bons livros. Seu objetivo era sempre ser o mais esperto, o mais inteligente, porque só esses caras chegavam ao topo, e esse tal ápice era o que sempre quis. Era o que garotos pobres do vilarejo de Black Belt precisavam querer.
Mas o que ele também amava, e estava sempre se esquecendo disso, era Montgomery. A capital de seus sonhos que era, no mínimo, uma grande contradição de seu estilo de vida e ambições. Homens conseguiam ganhar dinheiro no Alabama, é claro, mas se queriam dinheiro de verdade, precisavam ir à Nova York, eles diziam. Era lá a verdadeira roda da fortuna, o antro de libertinagem que gente de sua laia realmente pertencia. E Nova York era mesmo legal e tudo mais, mas Montgomery… aquelas ruas e prédios antigos da Old Alabama tinham alguma coisa difícil de explicar. Talvez fosse o céu azul. Talvez fosse todo aquele verde. E de que jeito uma capital de apenas trezentos mil habitantes podia ter tão poucos prédios altos? Como isso era atrativo?
A realidade era que todo esse sentimento era um resquício daquele garoto idiota, o imbecil de dezesseis anos que chegou a gostar daquele antro de lama em que vivia cheio de verde e chegou a pensar se Nova York, com toda a sua poluição e sua perpétua inabilidade de mostrar as estrelas realmente fossem uma opção tão boa assim.
Por sorte, essas memórias iam e vinham tão rápido que não eram dignas de preocupação. No fim, Montgomery não passava de um amontoado de passado, um retrato caipira que o enchia de estereótipos por todo canto em que passava, como se seu sotaque já não fosse o suficiente. A irritação transparecia na sua voz a cada vez que precisava se dirigir a alguém da costa leste.
A floricultura ficava na Perry Street, bem perto do Distrito Garden. A escolha tinha sido de Naomi, depois de ter visto a fachada do lugar no instagram e suas recomendações locais. Não era nada grandioso. Nada que a Oprah apresentaria no seu programa de TV ou que recebesse visitas de alguma estrela de cinema (só assim a escolha de Naomi por aquele amontoado de madeira faria sentido). Afinal, ostentação era o verdadeiro motivo daquela festa de casamento, nada mais.
— É aqui mesmo? — perguntou enquanto ajeitava a gravata. Tinha uma lata de lixo imunda na frente da vitrine, matando o já pobre visual.
John consultou o próprio telefone.
— Wild Aster. Rua Perry. É aqui mesmo.
— Quantas flores preciso encomendar?
— Cerca de cinco mil, senhor.
— Acha que essa espelunca vai dar conta disso? — ele franziu o nariz. Tinham apenas algumas pequenas amostras de margaridas e orquídeas brancas na vitrine, flores bonitas e bem podadas, mas simplistas demais. Ele comprava um ramalhete daqueles para qualquer acompanhante que contratava nos tempos das primeiras reuniões.
— Não sei, senhor. — John respondeu. — Precisa entrar e perguntar.
Suspirando uma última vez, resmungou e saiu para a calçada, sem esperar que John abrisse a porta para ele.
O sino da entrada tocou em um tom suave quando pisou dentro do estabelecimento. A primeira coisa que o atingiu em cheio foi o cheiro. Camadas e mais camadas de aromas doces e selvagens, explodindo nas suas narinas ao mesmo tempo que as diferentes cores explodiam nas suas órbitas, todas devidamente organizadas em paletas, formando montinhos de lá a cá, um rebuliço de azul, vermelho, amarelo, laranja, e verde. Era uma selva comprimida entre quatro paredes. Ele teve vontade de arrancar um ramo que encostou no seu terno italiano e grudou uma pétala branca na lapela, mas se conteve no momento em que alguém apareceu atrás do balcão.
— Bom dia, como posso ajudar? — a voz feminina veio de trás de um vaso de camélias rosadas. Era um tipo de flor que não via há muito tempo.
— Naomi Robbie entrou em contato com você? Eu sou…
— O noivo. Claro. Só um instante, eu vou-
A mulher finalmente levantou o rosto e se desprendeu das camélias, saindo de trás do balcão lotado de verde.
O que ela tinha a dizer, foi perdido assim que o viu. E a recíproca também foi verdadeira.
Na mesma hora, sem explicação lógica alguma, ouviu aquele som explodindo na mente mais do que aquelas flores, um som que não era ouvido há pelo menos dez anos: “Eu tenho pena de você”.
Eu não quero a sua pena”, a voz dele fazia eco de volta. Ainda estava fazendo até ele chegar a Los Angeles e descobrir a primeira pílula mágica que o apagava.
Mas ali, sob aquele teto colorido de flores, nenhuma droga seria potente o suficiente.
? — ela falou primeiro, num sopro quase mudo. Ele permaneceu estático, olhando para todos os detalhes do rosto dela, tentando ver se aquele whiskey de mais cedo não estava batizado. Mas ele era um cara que não permitia que ninguém (além dele) mexesse na sua percepção de realidade, então…
. — diferente dela, a voz dele era mais controlada e rígida, feita para lidar com imprevistos. — Bennett.
Ela assentiu devagar.
— Jeong .
— O que faz aqui? — a pergunta escapuliu em um tom apressado. De repente, ele estava maluco para voltar ao carro. Se enfiar na sua papelada de novo. Tramar a próxima noitada com Jordan. Fingir que nunca tinha visto o rosto dessa mulher, como vinha fazendo nos últimos anos.
Considerando o que conhecia de Bennett, o mesmo se aplicava a ela.
Mas não inventou uma dor de cabeça ou algo parecido para dar as costas e se esconder por trás daquela flor. Na verdade, se contentou em dar um passo para trás e afagar as pétalas macias de algumas hortênsias a tiracolo.
— Estou vendendo flores. Acho que deu pra notar.
Ele olhou para ela e depois para o entorno, como se só agora percebesse de verdade as florações, as cores, os cheiros, e ligando tudo isso à propriedade de .
— É. Flores.
— E você é…? — ela comprimiu os olhos com dúvida. segurou uma série de risos engasgados.
— Dono da Zenith Capital. Acionista majoritário. Acho que deu pra notar.
Ela não esboçou surpresa. Porra, ela estava de brincadeira? Não tinha ouvido falar nele naquele fim de mundo do vilarejo?
— Empresário, então. Estamos no mesmo barco.
Seu tom foi gentil, o que só serviu para deixá-lo com um princípio de irritação. Não, definitivamente não estamos no mesmo barco, não mais.
Ele olhou em volta de novo, colocando as duas mãos na cintura.
— Pega leve, Bennett. Isso aqui não deve fazer nem quatro milhões por ano.
Ele precisou sorrir, afinal de contas. abandonou sua vigília nas hortênsias e o encarou.
— Então, Naomi é sua noiva? Ela pediu um orçamento.
— Sim, claro que pediu. Por que veio pra Montgomery? — ele fitou uma bromélia amarela, dando contraste com outras rosas.
— Oportunidades de trabalho. Precisava aumentar a floricultura.
— Há quanto tempo está aqui?
— Há uns seis meses. Sobre o orçamento…
— Por que saiu de Black Belt?
— É melhor falarmos sobre o orçamento.
— Aham, quanto ficou? — ele levou a mão ao bolso de dentro do paletó, onde existiam todas as opções que ela quisesse: dinheiro, cartão, cheque. — Vou pagar agora.
franziu o cenho, finalmente sendo pega de surpresa.
— Ela pediu pra você escolher.
— Qualquer uma vai estar bom pra mim.
— São pro seu casamento.
— Sei muito bem disso.
parou com a boca semiaberta, experimentando uma necessidade quase inútil de tentar entender… alguma coisa. Definitivamente, tinham muitas coisas acontecendo naquele minuto.
— Hum… tenho girassóis, bromélias, rosas brancas e-
— Eu levo todas.
— Não é assim que funciona, as coisas exigem uma paleta.
— Tudo bem, quais são as mais caras? — ele voltou a estender o cartão de crédito. não se deu ao trabalho de olhar.
— Todas são bem caras. Qual delas combina mais com as outras decorações do casamento?
— Não faço a menor ideia. Por que escolheu um quadrado de lego pra montar uma loja? Você mal tem espaço pra um bebedouro.
segurou um suspiro. O perfume caro dele estava começando a se fazer presente, ofuscando os outros aromas.
— Por favor, escolha suas flores.
— Eu já disse que pode-
— Se não vai escolher, posso pedir pra senhorita Robbie fazer isso. Ela deve saber a paleta de cores da festa.
— Não, espera. — ele a impediu antes que ela se enfiasse para trás daquele balcão de novo e tirasse aquele rosto familiar de sua frente, um rosto que ele ainda estava processando. — Vou escolher as flores. Só… arruma mais duas opções.
— Não é necessário…
— Estou sendo muito exigente? Você acha que não consegue?
— Não é nada disso. As que tenho aqui-
— Não são dignas da minha atenção, se não for se ofender. É difícil até de respirar aqui dentro. O que me leva a perguntar de novo: por que se enfiou tão longe do centro? Sem falar na lata de lixo do lado de fora. A primeira impressão não é das melhores.
Ele não sabia o que estava falando. Só estava abrindo a boca e despejando a primeira coisa que vinha na sua mente. Era algo que há tempos não fazia.
O olhar agora irritado de deu a entender aquele eco de novo: tenho pena de você. Você é digno de pena.
— O que você quer, ?
— Mais opções de escolha. Variedade e exagero. Dez mil exemplares, pra ser exato.
— Dez mil? — ela arqueou a sobrancelha. — Vai se casar ou vai decorar o Grand Canyon?
— Você me deu uma ótima ideia.
— Tenho outros clientes pra atender.
— Pago pelos atendimentos extras.
— É o quê?
Ele sorriu ladino. Falar aquilo era tão bom que ele nem se importou com a clara expressão de raiva da mulher, o sentimento quente tomando-a por completo. Era uma emoção binária na família Bennett, raramente imperceptível.
Seu telefone vibrou no bolso, e foi um certo alívio. Chamou de volta para a realidade, o fez perceber onde estava e com quem estava, mesmo que parecesse loucura.
— Tenho que ir. Prepare as outras opções e verifico tudo de uma vez. — ele tirou seu cartão de visitas do bolso e o colocou em cima do balcão. — Provavelmente vou ficar com todas. Quem sabe assim você não consiga alugar um ponto sem latas de lixo.
E lançou um último olhar para toda aquela vivacidade colorida se avolumando em todas as direções, escapando para fora, desafrouxando a gravata que tinha ficado subitamente mais apertada.


O passado era uma porta pela qual não apenas queria evitar, como também criou barricadas com forquilhas e bombas e a separou de si mesmo a uma distância de um continente a outro.
Ser nascido e criado num fim de mundo como Black Belt não era motivo de orgulho nem se decidisse, por fim, ser garçom na capital. No meio corporativo, as pessoas ficariam facilmente iradas se soubessem que tinham sido ultrapassadas ou até subestimadas por um garoto vindo de um lugar tão improvável. achou que poderia usar isso para se vangloriar, mas logo pensou melhor. Preferia o mistério que girava em torno de sua reputação, gostava de plantar essa pulga atrás da orelha dos outros: ou ele veio do nada ou então veio de todos os lugares.
Entretanto, desde o dia em que topou com o rosto familiar e carregado de Bennett, tudo aquilo que estava longe foi puxado para perto, como se estivesse na ponta de um elástico que se soltou. Ele saiu do meio daquelas flores desnorteado, seguiu pelo caminho de volta ao escritório na mais profunda fúria absoluta e, antes que aquele dia terminasse, já estava pensando em opções inconvenientes e ridículas para vê-la de novo.
Por que exatamente queria fazer isso? Para quê? Ela era a própria estátua da Liberdade do seu país do passado, um símbolo para ficar no esquecimento.
E por que queria ver de novo a garota que, uma vez, disse continuamente que ele era digno de pena?
Por que ela tinha que estar ali? Existiam tantas outras cidades no Alabama que adorariam ceder alguns metros quadrados de calçada para um empreendimento de flores coloridas, mesmo que os cidadãos tivessem livre acesso a dezenas delas em cada esquina de quarteirão.
E por que Naomi quis justo aquelas flores? Eram apenas flores. Ele mandaria fabricar uma centena delas para a droga do casamento, se era isso que sua noiva queria. Precisava ter ido justo até ela?
Me diga se ainda sou digno de pena, Bennett”, ele mastigou um comprimido de Excedrin com força enquanto olhava seu próprio reflexo no vidro escuro do apartamento. Não parava de lembrar do rosto dela, do rosto que era novo e velho ao mesmo tempo, e da frase antiga perpassando aqueles lábios. “Olha pra mim e tenta falar uma coisa dessas de novo.
O problema era que não parecia tão mudada. O que significava que poderia não dar o que ele queria.
Foi pensando nisso que ele mal esperou John estacionar na frente da Wild Aster em menos de 72 horas depois de sua última visita e se pôs para fora do carro em um salto, desabotoando as mangas do paletó e entrando novamente na loja.
— Boa tarde, como pos-
Dessa vez, ela já estava ali no hall, agora segurando uma tesoura de poda e mexendo em um bonsai. A expressão que fez com a chegada do seu cliente foi qualquer coisa, menos entusiástica.
.
Ele ignorou o tom. Já tinha a atenção dela.
— Ainda não tenho o que você quer. — ela largou a tesoura ao lado do vaso.
— Eu sei que você ainda não tem. Meu telefone não tocou.
— Flores do casamento são com a Naomi. Você é só o cara que vai passar o cartão.
— Que insensível dizer isso pro noivo.
— Você é o primeiro noivo que vejo que não sabe a paleta de cores do próprio casamento.
— Jesus, de novo isso de paleta. Isso é tão importante assim? Não posso ter todas as cores? — ele bufou, uma das mãos gesticulando para fora do bolso da calça de alfaiataria. arqueou uma sobrancelha, tomando um ar de diplomacia que sempre o fazia se sentir minúsculo. — Então vai, me diga, qual a paleta do meu casamento?
— Como eu saberia disso?
— Tudo bem, pode ser a minha cor favorita. Você se lembra qual é a minha cor favorita, não é? — ele fixou aquelas pupilas quase sempre dilatadas pelas drogas bem dentro das dela. — Essa é a droga da paleta.
ficou em silêncio. Não houve nenhuma perturbação no seu rosto, nos cílios, na ponta dos lábios, nada. Mas ela nunca pareceu tão imóvel em toda sua vida.
— O que você veio fazer aqui mesmo? — ela disse depois de uma breve tossida para limpar a garganta. — Mencionou bem, eu não disquei seu número.
— Vim pagar o sinal. Ou a entrada, como queira chamar. Não é assim que funcionam essas negociações de casamento?
— Sua noiva já me pagou o adiantamento. Você só tinha que escolher.
— Mas eu dobrei a proposta, então acho que você vai precisar de mais um pouco. — ele sacou a carteira, dedilhando o dinheiro vivo e novo organizado no canto dianteiro. — Três mil dólares dá pra você trocar aquela caixa registradora? Ou trocar a parte elétrica? Percebi que o ar-condicionado não funciona.
Ela se segurou de novo para não revirar os olhos.
— Eu trabalho pra conseguir tudo o que tenho, senhor Jeong. Não precisa se preocupar.
— Esse dinheiro não é do seu trabalho?
— Você não está me pagando pelo trabalho, você tá tentando comprar o meu tempo. — ela cruzou os braços frouxos na frente da barriga. — Vai ser inútil. Não estou à venda.
“É isso que te torna digna de pena”, ele retrucou na própria cabeça. Queria sacudir todos os seus cartões na cara dela para fazê-la perceber isso. Queria tirar aquela expressão antiga e familiar de alguém que estava sempre pronta para rejeitar tudo que lhe era dado, e não conquistado.
Seria inteligente recuar agora. Mas algo estava fervilhando nas mãos, nos pés e nos olhos dele.
— Toma alguma coisa comigo.
franziu o cenho.
— Não.
— É uma reunião sobre as flores.
— Então chama a sua noiva e vamos juntos.
— Naomi está em Nova York. E deve estar com a voz terrível depois de ter passado a noite no show de algum cover do AC/DC, então nem adianta pedir uma chamada de vídeo. Acho que ela não está ouvindo direito também. Podemos ir tomar um café.
Ela abriu e fechou a boca. Certas ideias que envolviam ela e estavam totalmente na ala de proibidos. Ficar sozinha com ele fora daquela floricultura encabeçava essa lista.
— Eu estou trabalhando. — ela apontou para o entorno, caso ele tivesse se esquecido.
— Está quase na hora do intervalo.
— Não fecho no intervalo.
— Admirável. Mas te garanto que vinte minutos em qualquer espelunca desse bairro não vão te fazer perder nenhuma fortuna.
revirou os olhos de novo. Ele estava falando com superioridade de novo, um protótipo corporativo enfiado em um terno caro que sentia pena de tudo e todos que não gerassem os devidos zeros capazes de movimentar uma cidade, ou um país inteiro. Ou seja, um babaca.
Ela não tinha chegado até ali, na capital, para ser alvo de pena. Não queria pena.
— Vinte minutos. Nenhum a mais.
E virou a placa para Fechado.



Quando o carro parou, preferiu deixar as honras com a abertura de portas para John. Saiu ajeitando os punhos da camisa, marchando para dentro do café como se fosse o dono do imóvel — e, pelos próximos vinte minutos, tecnicamente era.
veio logo atrás, sem fazer questão de olhar para o chão ou para a fachada luxuosa. Olhava apenas para as costas dele.
O rosto de tampouco se chocou com qualquer detalhe do lado de dentro. Esse tipo de coisa não era suficiente para fazê-la se exasperar; seu negócio era mais exigente e complexo, profundo até. O mundo estava cheio de belezas artificiais, como dizia seu pai. Ainda que estalasse os dedos e fizesse surgir um garçom das sombras com uma garrafa de vinho que custava três meses de salário de um trabalhador comum, não iria fazê-la derreter.
— Château Margaux. — anunciou, sentando-se sem puxar a cadeira para ela. — Safra de 2010. O ano em que saí daquela pocilga onde a gente morava. Achei poético.
sentou-se. Estava olhando para uma caixa mal escondida aos pés de um armário de vidro, exibindo pelo menos meia dúzia de sacos de batata.
— Eu não bebo em serviço. Aceito uma água, sem gás.
riu. O som bateu nas paredes vazias da cafeteria. Ele fez um sinal para o garçom, que serviu o vinho para ele e a água para ela, tremendo levemente. Em seguida, os funcionários evaporaram, deixando os dois sozinhos com o zumbido do ar-condicionado.
— Você continua teimosa. — girou a taça, observando o líquido vermelho manchar o cristal. — E continua vestindo roupas de liquidação.
— E você continua um adorador dos números, aparentemente.
parou a taça no ar. De alguma maneira, seus olhos ficaram mais frios.
— É, os números, Bennett. Se conseguir dar conta da encomenda das flores, o orçamento tá aprovado. Quinze mil dólares, o dobro do valor. E quero tudo da melhor qualidade, nada daquelas margaridas de cemitério que você expõe na prateleira.
— Não precisa dobrar o valor, o orçamento de antes já é bem adequado ao pedido.
— Você não entendeu. Eu não estou pedindo. Estou mandando você lucrar. — ele se inclinou sobre a mesa, o cheiro de álcool e perfume caro invadindo o espaço dela. — Você veio pra Montgomery pra melhorar de vida, não? Uma vida que não seria melhorada em Black Belt, onde suas florzinhas violetas iriam parar longe por qualquer vagabundo bêbado que estivesse num dia ruim. Não foi isso que fizeram com seu carrinho de limonada?
arqueou as sobrancelhas.
— Você tem uma memória muito boa. — ela mesma já tinha quase esquecido aquela história. Black Belt era cheia de bêbados e de dias ruins, que se decidissem, chutariam sua mesa improvisada de fórmica na beira da calçada, deixando sua caixinha de moedas bem amassada e toda sua vidraria espalhadas violentamente pelo chão. — Mas se é por isso que quer bancar o filantropo comigo, pode guardar a carteira. Não guardo ressentimento daquela época.
A mandíbula de se apertou, e os olhos continuavam naquela escuridão intensa. Era um sentimento difícil de explicar aquele que tinha por uma pessoa que abandonava coisas. Que escolhia se esquecer daquilo que deveria lembrar para sempre, como o fato de um idiota ter chutado e acabado com seu trabalho de horas, um trabalho que precisou de dinheiro e que agora não serviria de mais nada.
Pessoas que faziam isso não mereciam ser esquecidas. Se elas decidiam chutar, então ele decidia se vingar.
— É claro que não guarda. Mas eu lembro das coisas. E sou um homem de palavra, não vejo mal em retribuir alguém que foi bom comigo. — com delicadeza, pegou a garrafa de vinho e verteu um pouco do líquido na outra taça além da sua. — Dá uma olhada em volta, . Fechei um estabelecimento na Old Alabama numa terça-feira à tarde, pedi um vinho que custa o seu aluguel e, se eu não me engano, esse cheiro é de uma fornada de suflê de Grand Marnier assando, se eles usaram todos os ingredientes que mandei. Tem homens na porta que estão vigiando a sua loja, o meu carro, respondendo recados e aguardando a próxima ordem que eu puder dar. E você ainda quer falar sobre orçamento adequado?
tomou um gole de água, bem devagar. Dava para perceber que uma parte da raiva dele ainda não tinha sido totalmente desligada.
— Eu quero falar sobre por que estou aqui. Já disse tudo que tinha pra dizer sobre o orçamento, e se está tudo certo, eu vou embora.
— O orçamento é só um dos motivos.
— Então por que…?
— O outro é você. Te chamei aqui porque eu quero olhar pra você.
A frase saiu crua. Por um longo momento, não soube o que dizer. Esperava, sim, que ele tocasse naquele assunto, mas não de uma forma tão descarada. E tão… difícil explicar.
não estava sentindo nenhuma euforia romântica, ou a mínima tendência a um flerte barato. Nunca soube fazer isso, e sendo um rapaz bem apessoado desde que veio ao mundo, nunca precisou de verdade. Quando se tratava de Bennett, o lance não era flerte ou conquista. Era simplesmente convencimento. A fome de ver um objetivo antigo numa vitrine e lembrar que agora tinha crédito para comprá-lo.
Percebendo essa realidade, não quis mais encará-lo.
— Você ficou maluco.
— Você não mudou nada. — ele continuou, a voz baixando um tom. — Ainda tem esse olhar de quem sabe mais do que todo mundo. O mesmo olhar que você me deu quando eu disse que ia embora.
— Você foi embora. — ela corrigiu, levantando o queixo. — Aliás, você fugiu. Mandou a vila toda pro inferno e sumiu no mundo. Ficou chocado comigo, mas sou quem deveria estar surpresa por te ver a apenas alguns quilômetros de lá.
— Não se iluda com isso. Não sou um idiota, . Montgomery foi um ótimo ponto de início e construí uma vida em torno dela e além, garantindo que essa cidade fosse minha e que testemunhasse o quanto eu poderia ser tão bom quanto Wall Street mesmo sem colocar meus pés lá. Eu venci. — bateu a base da taça na mesa. O cristal tiniu. — Existe uma diferença entre isso e a fuga. Eu saí do buraco, construí um império e vou me casar com uma mulher cujo sobrenome abre portas que você nem sabe que existem.
— Então por que está tremendo, ?
Ele travou. Olhou para a própria mão sobre a mesa. Estava firme, imóvel como uma estátua, mas a vibração estava lá, no ar, no vidro, no peito.
Mas não estava olhando para a mão dele e sim, para o rosto.
— Você me trouxe aqui só pra se exibir. Pra me mostrar o terno, o carro, o vinho. Você quer que eu me arrependa. Quer que eu olhe pra isso tudo e pense: "Nossa, olha só o que eu perdi”.
— É, você perdeu. — ele rosnou. — Você ficou com a poeira, com os bêbados, a febre tifoide e as dívidas. Eu tive pelo menos o cuidado de conquistar alguma parcela do mundo.
— Você não tem o mundo, você só tem um circo. — levantou-se. O movimento foi suave, sem o rompante dramático de novelas. — Naomi Robbie não vai ser sua esposa, só vai ser sua sócia. Esse vinho não é gostoso, ele só é caro. E qual é a grande vantagem em comandar funcionários que você nem vê como pessoas? Aposto que esses caras te odeiam, não importa o quanto você pague. — ela gesticulou para a fileira de homens de preto do outro lado do vidro, todos equipados com pontos de ouvido e relógios relativamente caros nos pulsos. — Você não é um vencedor, . Só ganhou um pouco mais de dinheiro e agora tá jogando banco imobiliário com os grandões. O que te dá medo, dá pra ver.
Ele ficou de pé num ímpeto, a cadeira arrastando no chão com certa violência.
— Não tenho medo de porra nenhuma. Parei de ter medo de qualquer coisa há quinze anos, . Você não me conhece mais.
— Mas você me conhece, e mesmo assim armou toda essa palhaçada.
— Esperava que você tivesse crescido. Ou melhor, que tinha aprendido o jogo da vida adulta, aprendido que sorrisinho e gentileza não pagam as contas. Aliás, aposto que as suas naquele cubículo devem ser muitas.
ficou em silêncio. Havia certas coisas que, por mais que ele estivesse falando a verdade, ela se recusaria a admitir. Pelo menos, pela boca.
percebeu tudo pelos olhos.
— É, você entendeu. Tô querendo te ajudar, Bennett. Posso comprar essa cidade inteira num piscar de olhos e te colocar no melhor ponto estratégico pra vender tulipas. Também posso pedir pra demolirem aquela construção depois de uma batida do departamento de agricultura. Você ficaria chateada e entraria com um recurso, mas sem grana pra um bom advogado, ia ficar sem abrir por um tempo indeterminado. Um dia talvez conseguisse reaver o contrato. Mas ia levar muito tempo, você tem esse tempo?
virou o rosto. O sol da tarde estava batendo mais laranja do lado de fora, criando sombras artificiais das duas pessoas que sempre foram especialistas em não desviar o olhar. Para , isso tinha ficado mais fácil, mas na época de Black Belt, sempre perdia para ela. tinha esse poder de potencializar um olhar, de queimar sua pele como uma lupa no raio de sol.
— Você pode comprar a loja, . Pode comprar a rua inteira, a cidade, o Alabama, todos os territórios do Sul. Pode imitar os antigos e comprar seu lugar no céu. Mas nunca vai conseguir comprar o que eu sinto quando coloco a cabeça no travesseiro. — ela olhou para ele daquele jeito, sabendo que ele se lembraria: pena devastadora. — Eu durmo. Você só desmaia. E talvez existam garotas em Montgomery que deixam você falar desse jeito, mas espero que ainda se lembre que não sou como elas.
se afastou até a porta com a boca contorcida. O sino tocou novamente na saída. Trim.
ficou sozinho, odiando o cheiro daquele vinho milionário, odiando a textura dele, a cor parecida com sangue velho. Odiou alguns pares de olhos que tentaram bisbilhotar sua expressão, mas que logo se voltaram para qualquer canto, achando de bom tom cuidarem da própria vida. Ele se sentiu como um moleque de novo, aquele se sentava na escadaria do Ronnie’s, a única lanchonete 24 horas do vilarejo, enquanto esperava a hora do seu turno e mastigava os últimos conselhos de sua namorada hiper sensata.
Se você conseguir ser honesto e eficiente nas pequenas coisas, , as grandes vão naturalmente te encontrar.
Bobagem. Ele tinha tentado isso. Tentou ser um ser humano decente e um homem espetacular antes de perceber que nada disso traria o que mais queria: dinheiro.
O bem bruto que devia ser abundante, chamando-o desde a capital, desde Nova York: vem me buscar, gracinha. Se não, vai ser um pé rapado a vida inteira e nunca vai ganhar aquelas sapatilhas da Dorothy de O Mágico de Oz.
As sapatilhas guardadas até hoje no mais fundo do armário mais esquecido de sua enorme casa nos confins da cidade.
Lembrança ruim. Lembrança de merda. Lembranças.
Ele virou o restante do vinho que estava na taça. Foi o pior vinho que tomou em toda a sua vida.


Mais tarde naquele mesmo dia, já estava sentindo os efeitos terríveis e assombrosos da presença de Bennett, e dentre eles, o pior sentimento de todos: a culpa.
A palavra era bonita e tudo mais, fazia parte do vocabulário diário da população e significava uma penca de coisas em uma penca de contextos, mas era praticamente nula se relacionada ao CEO da Zenith. Quando você decidia seguir por um caminho tomado pelo impossível, era necessário deixar certas palavras para trás. Culpa foi a primeira de uma montanha delas.
No entanto, lá estava ela, se embrenhando no meio do seu whiskey com gelo, no meio da sua sala decorada de um milhão de dólares na Comercce Street, no meio da sua cama king size vazia e no meio dos telefonemas de Naomi e Jordan que ele não fazia questão de atender.
Merda, ele não parava de pensar nela. No seu rosto, nas suas palavras, na sua determinação. No modo como ainda insistia em não abaixar a cabeça para quaisquer chacoalhões que recebesse da vida, mesmo que eles mostrassem explicitamente toda a sujeira verdadeira que regia o mundo. sempre teve toda a postura confiante de alguém que bateria a porta na cara de todos os presidentes da república se eles ousassem interrompê-la na sua sagrada hora do chá da tarde, um costume britânico que era perpetuado na sua pobre família do vilarejo, mesmo que nunca tenham pisado fora daquele agregado de mato em toda a sua vida.
Ela ainda amava chá? Ainda gostava de insetos? Ainda sonhava em ter um búfalo e se inscrever na marinha? Ainda era responsável pelas flores da droga do seu casamento?
Teria sido mais fácil se ela tivesse simplesmente gritado ou chorado. Ele se sentiria da mesma forma que estava se sentindo agora, mas saberia fingir a vitória melhor na cara dela. Deveria aceitar o destino inevitável de, mais uma vez, ficar longe de Bennett e sua carga pesada de passado que respingava diretamente sobre ele.
Mas tinha um defeito antigo, e esse defeito era útil na maioria de suas funções: a teimosia. Seria de grande utilidade que ele se preservasse naquela situação e lembrasse que era uma pessoa pública, de certa forma.
Em vez disso, estava entrando no Lamborghini Revuelto e dizendo para John dirigir a uma velocidade aceitável para a floricultura Wild Aster, tentando ignorar todas as palavras que estiveram riscando feito pedras de isqueiro na sua cabeça durante as últimas duas noites.
Na porta do estabelecimento, ele esperou um pouco antes de sair do carro e entrar. Não fazia ideia do que diria para ela. Não estava afim de encarar aquele olhar afiado que o assombrava de novo e de novo, soltando uma fagulha e outra, repreendendo suas atitudes de uma forma que ninguém mais tinha a ousadia de fazer.
Quando tomou a devida coragem, empurrou a porta e ouviu o sino acima de sua cabeça. Ela já estava sentada no balcão, olhando para a frente, claramente esperando por ele.
— Ainda teve a decência de aparecer antes do almoço. Que gentil. — estava com uma caneta na mão, preenchendo um livro grande de reservas. Sua voz não emitia surpresa nenhuma. — Não tenho suas flores prontas, não vou aceitar mais dinheiro e não vou a lugar nenhum com você. Se insistir, chamo a polícia.
Ele segurou o riso.
— Ah, é, você deve ter isso na sua folha de pagamento também. — ela arqueou uma sobrancelha. — Eles são tão corruptos aqui quanto os que têm em Black Belt.
— Poucas coisas são tão ruins quanto aquele aterro de merda. E pra sua informação, não pago policiais. — ele olhou para o outro lado, porque essa verdade era recente. Ele não pagava mais aos policiais, pelo menos os de Montgomery, porque precisava se preparar para pagar os de Nova York. — Não sou tão escroto quanto você pensa. Ou que você viu.
— Você fez questão de me mostrar quem é. O que queria que eu pensasse?
— Que minha situação melhorou. Não piorou. Deixei de ser um cara retardado que acha que dinheiro piora as coisas, . Isso é mentira. Dinheiro é a porra mais importante do mundo, você gostando ou não.
— Nunca disse que não era, só não gosto de idolatria.
— Idolatria. — ele riu engasgado. — Pois fique sabendo que se tivesse me tornado um idólatra mais cedo, quem sabe assim você teria conseguido salvar a vida do seu pai.
A cabeça de perdeu estática por cima de um ramalhete de azaleias. sentiu novamente aquela pontada no peito, um tipo de alerta de consciência que na maioria dos dias estava sempre calado. Ele não era o tipo de pessoa que se preocupava com as coisas que saía de sua boca, mas com ela as coisas sempre eram diferentes, contra a corrente. O olhar escuro e duro da mulher deixavam a mensagem clara: para onde está pensando que vai com essa conversa?
Ele baixou os ombros e desviou os olhos.
— Não quis dizer isso. Nem vim falar disso. Preciso saber das flores.
— Mas…
— Quando o casamento chegar e eu receber o título de homem de bem pela sociedade só pra cair fora pra Nova York, quero que seja em grande estilo. Nada de simplicidade, quero coisas que as pessoas só veem no Instagram. Sabe onde consigo encontrar isso?
Ele blefou sem tanta confiança, mas viu o olhar dela ir de um lado a outro, procurando no seu próprio entorno algo que o agradasse. Era uma atitude automática de , uma pessoa eternamente presa numa bolha de gentileza e bondade, e também um pouco de carência. No fundo, ela queria ajudá-lo, mesmo que não merecesse.
— As flores que eu trabalho…
— São bonitinhas, mas Naomi gosta de coisas mais chamativas. Nunca reparou nas roupas dela? Ela vai gritar com nós dois se eu assinar um cheque levando petúnias.
não disse nada. Se desconfiasse da informação um centímetro que seja, já teria argumentado contra, mas ela tinha falado com Naomi Robbie por telefone duas vezes e foram suficientes para que entendesse o arquétipo da mulher sem precisar olhá-la nos olhos.
Ela alisou as folhas do catálogo, umedecendo os lábios.
— Vou tentar achar alguma coisa.
— Tem quase uma semana que você tá dizendo isso. Tô começando a acreditar que você nem começou a procurar.
Ela nem se deu ao trabalho de negar de imediato. Estava cansada de fingir a atual realidade: ela, uma mulher de trinta anos, tinha acabado de reencontrar o ex-namorado, um homem que foi incapaz de aceitar uma vida simples, porém cheia de significados, que com certeza os faria feliz no longo prazo. Uma vida em que tivessem que comer mingau de aveia no almoço e no jantar, caçar vagalumes à noite, retirar blocos de neve do alpendre no inverno, comprar uma caminhonete de segunda mão, e outras coisas que nunca precisou fingir que gostava.
Um homem que , depois de um tempo pensando nisso e em todas as experiências que teve depois, foi o único que amou de verdade. E essas coisas até se esqueciam normalmente com o tempo, mas não iam embora. Ficavam separadas dentro da gente, assim como a raiva que ainda sentia por ele.
Sendo assim, unindo essas duas coisas, ficava meio complicado pensar em arranjos de flores que combinavam para o casamento dele.
— Achei que você procuraria outra florista. — disse ela, em um tom retraído. Ele abriu um sorrisinho de canto familiar, um presente surpresa sombrio de seu falecido pai.
— Naomi me mataria se eu fizesse isso. Ela quer muito você.
— É, eu sei. — fechou o catálogo. franziu o cenho.
— E como exatamente minha milionária noiva chegou até você?
Por incrível que pareça, não havia deboche na sua voz. esteve esperando ele perguntar isso desde que o viu colocar os pés no seu estabelecimento.
— Deve ser porque fiz arranjos pra Valentino no ano passado. E pra Dior. E também pra Hermès na semana de moda de Paris. São alguns que consigo lembrar agora.
Os ombros de caíram em um movimento só, e um brilho ferrenho tomou suas duas pupilas, encarando a garota não com choque, mas com um certo orgulho.
É claro que sim, ele pensou. É claro que você não se contentaria com Black Belt. É claro que perceberia como é inteligente. E é claro que esconderia essa parte de mim a todo custo.
Ela não estava escondendo, mas também não tinha pressa em se exibir. Por absolutamente nada. Bennett tinha uma lista cheia de encomendas e alguns voos para pegar nos meses em que tinha vontade, só quando seus negócios não poderiam ser resolvidos estritamente pela internet.
Depois de algum tempo, ela coçou a garganta e saiu de trás do balcão. Anotou alguma coisa num pequeno bloco de notas e esmagou o papel no peito dele.
— Às cinco da manhã. É quando os peixes e as flores chegam frescos lá no Porto. É a sua grande chance de escolher, então não se atrasa.
Sem esperar resposta, ela deu as costas e saiu por uma porta lateral, agarrando uma bolsa pequena de rosa creme. Ansiava por ar oxigênio mais do que ansiava que ele fosse embora dali.
E levou um tempo até ler o endereço no bilhete e sentir milhares de coisas por segundo. A mais importante delas, se tivesse esperado ali mais um pouco e analisasse por dois segundos, seria a do coração batendo convulsivamente, tomado por adrenalina e pânico.



sentiu algo como dor física apenas por abrir os olhos e não enxergar o sol já ardente do lado de fora.
Apesar do estilo de vida questionável, ele gostava de dormir. Achava maravilhoso fechar os olhos à noite e abri-los só com a entrada da luz do dia, e se não fosse assim, preferia vê-la aparecer no céu em tempo real, tomando um ou dois comprimidos de Modafinil para conseguir fazer isso. Despertar tão cedo o dava a sensação de estar drogado, e quanto mais tentava decidir mentalmente se estava ou não, mais dor parecia sentir.
Levou um tempo relativamente curto até seu cérebro ser capaz de se lembrar do que tinha levado-a à decisão de acordar tão cedo. Então, ele pôs de lado a raiva e a frustração dentro de si e ficou de pé.
Ele não sabia direito o que estava fazendo. Era assim que se sentia quando era um zé-ninguém há dez anos, sem um puto no bolso e revestido de ódio pela própria pelagem da realidade. Quando deu a partida no Cadillac, seu carro convencional, perguntou-se se realmente não iria parar e pensar melhor, perceber o que estava fazendo? Não tinha ninguém mesmo para agarrar pela manga da sua camisa quando ele passou pela porta? Ninguém para dizer que era melhor enfiar a cara na porta da geladeira do que fazer aquilo?
Não tinha, e mesmo se tivesse, era improvável que o impediria. Além de estar lidando com um casamento, estava lidando com a ex-namorada, o que era ainda pior, porque ela o deixava triplamente mais nervoso e adepto à impulsos. Ninguém nesse mundo o olhava como , ninguém nesse mundo o fazia refletir sobre suas falas e comportamentos no quarto de madrugada, ninguém jamais o tratou como se ele fosse um cara minimamente talvez decente.
Coisa mais idiota de se pensar. Ele não era decente, nunca almejou isso, nunca quis provar tal coisa. Na verdade, quando se está preocupado em sobreviver, você luta contra a tal decência que unje todos os poderes de te rebaixar para um nível de semi-existência, sob o qual todas as pessoas de Black Belt estavam acostumadas a lidar.
Então, dirigir pela avenida Madison em plenas cinco da manhã não era para provar nada. só queria ver o que ela queria provar.
A feirinha da madrugada da Curb Market acontecia nos confins da região norte, na divisa do Riverfront, o bairro mais grotesco que alguém do seu patamar poderia ser visto. Em torno do estacionamento improvisado, não se via uma única sombra de algo parecido com o conversível que ele dirigia, nada além de caminhonetes anos 70, motocicletas com pneus carecas e bikes carregadas de redes de pesca e porções de especiarias coletadas em becos e lugares que não gostava de pensar.
Ele apertou o carro entre uma Vespa e um Ford com a pintura lascada, que soltava fumaça mesmo que estivesse perfeitamente parado. Ele teve vontade de revirar os olhos. O dono daquela lata velha devia estar sempre bravo. Devia ter problemas diários com o óleo de motor que não funcionava ou pneus fracos que o deixariam no meio de qualquer avenida de Capitol às altas horas da noite todos os dias, deixando claro a vida de bosta que ele levava.
Era o jeito como vivia quando saiu do vilarejo e comprou seu primeiro Ford usado. Um montante de lata tão diferente da parafernália de luxo na qual ele colocava as mãos agora. Se o dono daquele carro o olhasse sentiria inveja, e ele, com toda a destreza possível adquirida, diria que o pobre homem poderia chegar lá. Que ele iria chegar lá. Se quisesse, o mostraria como. Ficaria extremamente desesperado para que o coitado abandonasse aquela merda de carro, imediatamente, agora mesmo.
Bufando, ele saiu rapidamente para fora do estacionamento e entrou na barulheira do galpão. Precisava parar de olhar para aquele carro e lembrar de certas coisas.
Lá dentro, o clima era fresco e as pessoas se amontoavam em barraquinhas de lona, observando uma gama de animais no gelo, todas as partes de um boi pendurados em ganchos de metal, artesanato barato do Alabama, frutas coloridas da estação, e…
— Acho que devíamos começar pela flor-morcego.
A voz dela veio de trás de suas costas, tão serena e baixa que precisou parar no meio do chão de pedra. estava bem ao lado, usando um vestido comprido de mangas e uma boina cinza que escondia sua franja.
— Com… o quê? — ele limpou a garganta. Tinha um nó se formando bem no meio da sua laringe.
— A flor-morcego. Geralmente é lá que a gente consegue as mudas mais novas, se a Rosa conseguiu colher a última safra. São grandes e muito fáceis de fazer arranjo, só tiveram o azar de estarem paradas bem na zona de impacto dos agrotóxicos, por isso você pode estranhar a cor. — ela puxou a alça da bolsa carteiro no ombro e começou a andar. continuou parado. — Você vem?
Ele piscou duas vezes e a seguiu, ajeitando a gola do suéter e esquecendo da sensação esquisita anterior.
— Então, o que é uma flor-morcego? É uma planta carnívora? Quer que eu perca uns dois dedos no dia do meu casamento?
— Dois dedos não atrapalhariam completamente a sua vida, já que pode pagar por novos. A pergunta é se Naomi aceitaria isso.
— Acha que ela escaparia do altar?
— Nunca. Não na frente de todo mundo, pelo menos. — se desvencilhou do ombro de uma das dezenas de pessoas passando, obrigando-a a ficar mais perto dele. — E não antes de ter um herdeiro.
olhou para ela de soslaio, mas a garota não virou a cabeça. Queria perguntar da onde tinha tirado aquela ideia, e torceu para não ser da fonte direta de Naomi Robbie.
Ter filhos era um bloco pouco falado na relação tão bem sucedida entre o maior corretor de valores do Alabama e a queridinha nova-yorkina. Apesar de saber que um dia precisaria ser pai, não por desejo verdadeiro, mas por uma conveniência social, a ideia ainda não era bem aceita pelo seu cérebro. Não tinha esse interesse, de jeito nenhum. Talvez a palavra certa nem fosse interesse, mas vocação. Havia tormenta demais, sangue ruim demais dentro dele. Havia saído do covil de Black Belt e mudado seu destino, mas sua criação sempre iria traí-lo em algum momento. E uma criança inocente não merecia beber nenhum gole disso.
Menos um ser vivo digno de pena vagando pelo mundo.
— Ainda não respondeu a pergunta. — ele continuou olhando em frente, deixando seu braço roçar no dela, como no tempo da escola. — Que flor é essa que vai deixar meus dedos intactos?
— Estamos quase chegando. Tem algum compromisso hoje?
— Tenho que trabalhar pra me sustentar. Por acaso acha que eu sou rico?
Os dois ficaram em silêncio por um minuto inteiro até que erguesse o queixo, olhasse para ele com atenção e caísse na risada. sentiu de novo aquela queimação, mas se deixou levar, mesmo que de uma forma mais contida. Rir era um reflexo tão particular para ele. Para qualquer pessoa, o empresário Jeong sorria o tempo todo. Era ácido e negligente com as palavras. Tinha um sorriso próprio de vencedor. Uma lábia profusamente experiente, determinada a te fazer pensar que seu lugar era ali, comprando seus fundos imobiliários e reforçando um pensamento de futuro que nem você e nem ele podia garantir.
Mas aquele riso espontâneo era algo de um passado remoto. Quando morava em Black Belt, ele ria o tempo todo com , e quando se afastou de lá, ficou sem aquele reflexo porque agora sabia quando e onde precisava mostrá-lo.
Você só está tentando ser algo que jamais vai poder ser de novo, sua consciência dizia. Não aqui nesse porto, não aqui nessa cidade, não em Nova York. Enterra aquele garoto de uma vez por todas.
— Chegamos. — disse , parando diante de uma banca que cairia aos pedaços se outro furacão Opal atingisse o estado, comandada por uma senhora que tinha mais rugas do que pétalas no seu inventário colorido.
ficou impressionado no primeiro minuto. Ao redor da barraca, via-se cores fortes e fragrâncias ainda mais intensas do que na Wild Aster, e algumas iguarias que, se subestimasse menos as pessoas, poderia pensar que foram feitas em laboratório (o que era improvável, porque a velha não tinha cara de quem guardava um diploma escondido por baixo daquele balcão).
E mesmo sem nunca ter cruzado com aquele tipo antes, ele não demorou a ver. A tal flor-morcego. Um tipo de espécie selvagem, arroxeada, um pouco medonha, que precisava ser observada de perto e por vários minutos para ser processada direito pelo córtex. Não era nada parecido com o que se encontra em mercados e lojas comuns, dentro de um plástico sufocante.
— Rosa, este é o . — apresentou com um sorriso. — Ele vai casar em menos de um mês e exigiu as melhores flores do mercado. E nem precisa se preocupar com dinheiro, parece que ele tem um monte. Você pode até inflacionar de propósito. Quer mostrar as opções?
esticou os braços e a velha Rosa mediu de cima a baixo. Sem nenhuma explicação, ele sentiu o peso do relógio no pulso, um objeto que custava o equivalente a dez safras da espécie mais excêntrica daquele cubículo e, pela primeira vez, se sentiu um idiota por usá-lo.
— Ele tem mãos de quem nunca pegou em uma enxada. — a velha resmungou, entregando um ramalhete pesado para . — E os olhos são de quem encomenda tempestades, desgraças, sofrimento, mas que sempre vão embora antes dessas coisas chegarem. São olhos bonitos, mas não servem muito. Cuidado, rapaz. O sol aqui no Alabama não costuma perdoar quem fica na corda bamba.
Ele pensou em retrucar. Pensou em dizer que a única tempestade que o preocupava era aquela que viria logo após uma queda das ações na bolsa de Tóquio. Ou até de Londres. Eram os únicos contextos que o fariam conciliar o sono só imaginando como resolveria aquele cano estourado jorrando dinheiro para o esgoto, e sempre que fazia isso, obtinha todos os resultados positivos no final. Jeong não era só palavras bonitas, afinal. Seu talento era também sempre chegar nas palavras certas.
Mas isso não aconteceu naquela hora porque o entregou o feixe de flores. Elas tinham o caule grosso e pétalas de um rosado quase salmão. O contato com elas era frio e úmido, a seiva sujava o punho de sua camisa de linho.
— Segura. — ela ordenou. — E observa.
não sabia exatamente o que precisava observar, mas ficou parado. Talvez por dois minutos, talvez por dez. Tempo suficiente para que seu celular vibrasse três vezes com qualquer coisa urgente da Zenith, qualquer coisa que foi ignorada. começou a separar as pétalas, e a conversar baixinho com a anciã da barraquinha, que deixava uma folha de hortelã rolando de um lado para o outro na boca enquanto amarrava mais arranjos, tudo com lentidão e sem noção alguma de pressa.
Essa foi uma das coisas que mais o chamou atenção. Talvez estivesse mais estupefato com isso do que com a imagem das flores que segurava. As duas não tinham pressa nenhuma. O mundo lá fora podia estar pegando fogo, o mercadinho podia colapsar, a Dollar City e a clínica veterinária da esquina poderia explodir com todos os seus bichos de estimação dentro, mas ali, entre o balbucio dos produtores rurais e o grito dos leiloeiros de gado, o tempo para aquelas duas tinha outra densidade.
E observando isso, passou a ter para também.
Ele tentou de novo. A flor era diferente de tudo que já tinha visto, linda e bem apessoada, ficaria claramente muito bem decorando o salão de luxo da The 1616 House, e não precisaria ouvir nenhuma reclamação de Naomi. Ela gostaria de sua escolha. Mas… o que tinha nela? O que queria que ele reparasse?
Quando já estava se sentindo quase desesperado, procurando o significado, ele viu que ela o estava encarando de novo.
— O que eu tenho que ver? — ele tentou esconder a impaciência. — Ela não cabe num vaso grande? Têm muito agrotóxico? Ou quer que eu desamarre e amarre de novo?
riu pelo nariz. Até mesmo Rosa estalou a língua, continuando o foco na arrumação.
— Você sempre adivinha tudo tão mal assim?
— Geralmente, as pessoas não me pedem pra adivinhar nada. — ele balançou o feixe, fazendo subir um perfume almiscarado forte que certamente grudaria na sua camisa. — E pra falar a verdade, você só colocar um monte de plantas na minha mão sem nem ao menos expli-
Ele parou de falar quando uma das pétalas se prendeu no ombro, uma que saiu dos ramos mais maduros. A pétala ficou exposta contra a luz indireta das lâmpadas amarelas da barraca de Rosa e também dos primeiros raios de sol do dia nascendo aos poucos, a alvorada ordinariamente programada para lançar uma aquarela singular, que faziam cores diversas ir e vir no céu infinito e quase sempre limpo de Montgomery.
Foi naquele momento que ele capturou o que com certeza estava querendo mostrar. E dessa vez, tudo que conseguia pensar era: Black Belt. Os donuts do Ronnie’s. Fins de tarde consertando correntes de bicicleta. Quatorze anos e um beijo súbito na garota mais linda e legal da escola. Beber milk-shake de péssima qualidade na beira da calçada, onde era mais quente e o gelo em blocos da bebida derretia mais rápido. Pássaros carniceiros zanzando por cima da sua cabeça no fim do inverno.
Ele capturou outra imagem: ao pé da pessegueira, esperando-o com um sorriso e uma cesta de piquenique (também cheia de pêssegos).
Pêssegos.
Olhou de volta para a flor. Em seguida, engoliu a seco.
— Não acredito que se lembrou disso…
— Pensou que só você tinha uma boa memória? — ela terminou um laço forte que estava fazendo em um ramalhete de orquídeas. — Eu sou uma profissional, Jeong. Na verdade, já sabia quais flores te mostrar assim que fez uma escolha.
— Qual escolha?
— Da cor. Queria flores da sua cor favorita. E essa é o melhor exemplo. — ela chegou mais perto, alisando uma pétala. — Ranúnculos. São resistentes pra caramba. Sobreviveram ao calor, aos testes de laboratório e tudo que uma planta pode sofrer. Vão estar novinhas em folha até a cerimônia.
se virou para ele, de novo embaixo da luz da manhã que ia se abrindo e se alargando, finalmente começando a atravessar as frestas do telhado de zinco, atingindo seu rosto, destacando suas pintas espalhadas que ele nunca mais viu em rosto nenhum — ou nunca mais reparou o bastante nesse tipo de coisa. E fazer aquilo, naquela hora, ejetou de dentro do seu coração alguma coisa, jorrando pelos seus braços e pernas, perdendo o controle.
O que isso queria dizer, pouco importava. Só lhe parecia impossível olhar para ela agora e não fazer de tudo para capturar a sua imagem. Se possível, já queria planejar fazer isso mais vezes.
percebeu o jeito como ele estava olhando, e deixou acontecer. Na solidão do seu pequeno apartamento ou do estoque minúsculo da floricultura, talvez se martirizaria por olhar para Jeong e pensar coisas. Certas coisas que não deveriam ser pensadas sobre um homem comprometido, e principalmente um homem que deixou um rastro de ruína em sua própria vida, um homem que a abandonou. Mas a sensação, ou seja lá o que fosse aquele fogo queimando em labaredas no seu peito toda vez que o via (e principalmente agora, quando ele se vestia como um civil, falava como um civil e gastava como um civil), persistiu, e ia persistindo cada vez mais, enchendo-a de ideias de relance e de vontades absurdas.
— Elas combinam com você. — comentou, mesmo que não fizesse muito sentido. — Vão combinar com Naomi também.
A última frase apertou sua garganta, e ela tentou desviar rápido o olhar, mas foi tarde demais; ele percebeu. Percebeu algo que nunca imaginaria, e ficou completamente imóvel e impotente.

— Você me consegue dez mil dessas? — apoiou as mãos na bancada de madeira de Rosa. — Nem faz essa cara. É a exigência do noivo, o que eu posso fazer? Fiquei sabendo que ele ama dar adiantamentos.
Rosa levantou os olhos pela primeira vez em muito tempo para observar o rapaz alto ainda segurando as flores cor de pêssego.
Aturdido, ele ficou calado, voltando à atenção só quando fez um movimento para dar um tapinha na sua lombar e ele a encarou pelo canto de olho.
— Ah. É. Claro, claro. — ele foi puxando a carteira, fechando uma das mãos nos caules das flores de um jeito protetor. — A senhora aceita cartão de crédito?
— Não aceito nada além de uma impressão verdinha com a cara do Benjamin Franklin sorrindo pra mim, garoto.
Ele tinha acabado de tocar no cartão black quando ela disse. Suspirando, abriu a parte lateral da carteira e contou algumas notas.
— É tudo que eu tenho agora. — esticou o maço de notas para ela. — Se precisar de mais, dou um jeito de trazer pra senhora.
— Aham. E vai vir de smoking e maleta preta, aposto. — a velha contou nota por nota, abrindo um sorriso instantâneo ao ver cada algarismo subir. — Mas felizmente isso aqui deve dar, filho. Escolhi viver dessas terras há muito tempo pra pensar em enriquecer agora. disse que o casamento era especial, então aceitei a proposta. Nunca faço isso pra mais ninguém.
tentou não se virar com tudo para sua companheira, mas foi mais forte do que ele. imediatamente limpou a garganta.
— Tudo certo, então, né Rosa? São dez mil ranúnculos até o 4 de julho. Vou te passar as informações mais tarde, sobre quem vem buscar. E não se preocupa que dessa vez eu vou bem atrás da caminhonete, pronta pra dar minha vida por essas flores.
— É assim que se fala, menina. — ela voltou a olhar para . — E você, meu filho, não vai dizer nada sobre as flores?
Ele engoliu a seco. Percebeu que ainda estava segurando aquele ramalhete com força, tendo um sentimento estranho.
Demorou um pouco até que dissesse:
— Elas são… lindas. De verdade.
E não soube mais o que falar. Não havia lábia, não havia contrato, não havia sensatez que desse conta daquela resposta. Tinha um filme passando por trás de suas pálpebras e Rosa, sendo velha e muito observadora, estava praticamente assistindo junto com ele. Sentia a tensão no ar entre os dois, sentia sua doce cliente mensal ficar desconcertada de um jeito que não ficava com ninguém. Como se toda a autoconfiança dela fosse derretendo aos poucos ao lado dele, revelando uma versão animal de si mesma, um ser que não tinha noção dos próprios sentidos.
Rosa abriu um sorrisinho que durou pouco. Sentiu o gosto daquela imagem, cheirou o sentimento e logo retornou:
— Que bom que gostou. Agora andem, ou vão atrapalhar a fila da clientela. — ela fez um gesto, os afastando, e logo voltou a se concentrar nas outras flores por trás do balcão.
Rapidamente, pegou as flores da mão de .
— Vamos lá. Você tem um império para gerir e eu tenho um casamento pra decorar.
Ela começou a andar, a boina cinza sumindo na multidão. a seguiu, sentindo o rastro de seiva na própria pele como uma marca de ferro, que não pretendia lavar tão cedo.


quase se esqueceu do jantar anual dos fundadores da família Robbie.
Isso era inédito dentro dos seus quase cinco anos sendo o namorado/amante/casinho e, recentemente, noivo de Naomi Robbie. A vida em Nova York exigia muita atenção e respeito quanto à certas datas anciãs que, honestamente, não o interessavam em absolutamente nada, mas Naomi e sua linhagem eram o meio para um fim, então se misturar em seus costumes tornava-se prazeroso até certo ponto.
No entanto, desta vez, ele mal conseguia se lembrar de como atendeu o telefone, de quais palavras usou para falar com a noiva, de quando preparou uma mala rápida e entrou no jato particular que o deixaria em Nova York em duas horas. Não se lembrava nem de que som estava tocando nos seus fones de ouvido. Só sabia que havia um som, porque precisava haver um, se quisesse não começar o dia demitindo um camareiro qualquer.
Dizem que o oxigênio em altitudes elevadas é mais rarefeito, mas ninguém te avisa que, em uma cobertura no 220 Central Park South, o ar não é apenas fino, ele se torna quase exclusivo — da mesma maneira que usar um terno Kiton K-50 era exclusivo. Esse fato já tinha sido ponderado e aceito por , considerando que já era praticamente um homem de Nova York. Sem nenhum restinho de poeira do Alabama se esgueirando na sua pessoa.
Lá em cima, ele estava sentado à mesa vitoriana dos Robbie, sentindo a gravata se transformar em uma jiboia de seda disposta a encerrar sua carreira antes do prato principal. Ao seu lado, Naomi brilhava, e não apenas por causa do vestido da Givenchy carregado de lantejoulas ou da maquiagem em pó que contornava os olhos, mas porque brilhar estava no subconsciente de Naomi Robbie. Ela parecia ter sido esculpida diretamente do mesmo mármore que decorava o hall de entrada da mansão. Era perfeita, simétrica e, naquele momento, completamente entediante para Jeong .
Percepção mais do que nova. Naomi sempre tinha sido seu lado B, seu reflexo, seu investimento de longo prazo que ele carregava como um chaveirinho, algo fácil de lidar e manejar, principalmente porque ela mesma estava ciente disso e adorava. Naomi se tornava ligeiramente diferente das outras garotas não por causa da aparência ou da farta herança, mas porque, por baixo de tanta maquiagem, procedimentos estéticos e roupas de grife, escondia-se alguém com uma carência e devoção tamanhas que lhe rendiam uma enorme gratidão ao receber qualquer fiapo de afeição do noivo, sendo gestos grandes ou pequenos, significativos ou não, verdadeiros ou não. Esquecia de si mesma e estava muito feliz assim, obrigada.
Ela era perfeita para ele, sem mais. Mas pensar nisso ali, naquela hora, estava fazendo seu estômago dar voltas, e não era por causa do fois gras.
, querido. — chamou a mãe de Naomi, uma senhora de cinquenta anos ou mais que não perdeu a oportunidade de se enfiar em spas e mesas de cirurgia para enganar muitos olhos por aí. — Estávamos comentando sobre a sua... expedição botânica. Dez mil ranúnculos? Realmente, ninguém esperava que você fosse do time dos românticos.
— Foi só uma questão de mercado, senhora Robbie. — ele respondeu, com a sua voz preparada, bem polida. — Se quase ninguém tem, está aí o maior motivo pra se querer ter. Ninguém precisa decorar um salão com dez mil ranúnculos, mas como eu poderia levar sua filha ao altar sem demonstrar pra vocês que estavam fazendo a coisa certa? Naomi sempre merece o melhor.
Um murmúrio de aprovação percorreu a mesa, risadinhas treinadas e contidas.
— É assim que se fala, meu rapaz. — o senhor Robbie, o grande patriarca, ergueu a taça de champanhe e fez um brinde solitário para o genro, sendo acompanhado dos outros convidados do jantar mais importante da elite de Nova York.
normalmente gostava do senhor Robbie. Ele tinha jogado as preocupações anteriores do velho em relação à sua querida filha de escanteio desde que apareceu, porque Naomi sempre fora uma garota, digamos, rebelde demais. Saía à noite e voltava de manhã, pensava continuamente em ter o próprio negócio e se envolvia com homens medianos por uma única noite, homens nada confiáveis e que sempre faziam o velho se distrair do próprio trabalho, deixando-o imaginar com qual ser maltrapilho sua filha mais velha estava se enroscando em mais uma madrugada que se mantinha fora de casa.
Depois de Jeong e de seu poder de manipulação e charme difícil de explicar, Naomi foi enfeitiçada, atingida por aquele sorriso várias e várias vezes até se curvar e se tornar, da forma mais literal possível, seu bichinho de estimação.
E se Naomi amava esse título, quem era sua família para dizer alguma coisa?
O plano de era brilhante, e toda vez que estava no meio dos Robbie ele se lembrava disso, mas já estava quase perdendo a audição do ouvido esquerdo só de ouvir o barulho de tantos cristais se encontrando em brinde, risadinhas abafadas, pires batendo em porcelana fina e o assunto principal: dinheiro, dinheiro, dinheiro.
Pela primeira vez, ele olhou ao redor e viu o que Bennett veria se estivesse ali, com seu avental manchado de terra e suas unhas sem um resquício de esmalte. E a visão não era bonita ou deslumbrante. Havia algo de profundamente estéril naquelas pessoas, e ele mal sabia o que isso significava.
— O que você tem? — o sussurro de Naomi o pegou desprevenido. — Tá cansado? Quer ir deitar?
Ele sentiu o sorrisinho dela na sua bochecha, junto com o perfume doce que ele geralmente nunca se importava, mas aquela noite parecia forte demais.
não se virou. Qualquer mísero movimento agora diria a ela coisas que não eram bem verdade, e daí ele precisaria lidar com as consequências. Naomi Robbie também era meio diferente das outras porque estava sempre disposta a tudo: sexo, danças, bebidas, mais sexo, tudo que sabia que eram da índole de e dos homens de sua área no geral. Ele amava o fogo dela e toda essa vontade quase destrutiva por ele. Bom, já tinham mesmo destruído alguns lugares por causa disso. Pensando bem, talvez outras coisas tenham sido destruídas nessas noites quentes e miseráveis que fodia e enganava uma mulher que ele claramente não amava.
Mas quem é que se importa com amor?
— Não, tá tudo bem. — ele sussurrou de volta, focado na sua bebida. — Só não dormi bem na noite passada.
— Ah, docinho. Quer uma aspirina?
— Não vai adiantar, linda, mas obrigado pela sugestão. — ele engoliu o líquido com força. Capturou outra imagem na mente, a da noite passada, ou melhor: da manhã passada, embaixo de telhados de zinco vendo o sol nascer no meio do odor de peixes, ervas e flores.
— Tá bom, gatinho. Mas se quiser, posso virar esse vinho agora no meu vestido, dizer que preciso trocar e você vem atrás de mim. Todo mundo sabe que você é melhor com as mãos. E pode ser no banheiro mesmo, é bem melhor do que o seu em Montgomery.
Ele sorriu de novo. Um sorrisinho fingido, mas que não atingiria Naomi em nada. Ela era tão carente que nem se dava ao trabalho de notar que ele não estava ali, não do jeito que uma pessoa deveria estar. estava naquele galpão do Curb Market, sentindo cheiro de café barato enquanto uma velha o chamava de filho e juntava flores aleatórias umas nas outras.
— Melhor a gente não correr esse risco. Sabe o que aconteceu da última vez. — ele mentiu, inclinando a boca para ficar rente à dela, mas logo se afastou. O risinho dela foi quase indiscreto.
— Considerando que vamos nos casar em menos de duas semanas, acho que eles podem começar a se acostumar.
já estava ficando sufocado. O riso de um banqueiro à sua frente parecia metal batendo em metal, enquanto todos os talheres de prata continuavam fazendo barulhos irritantes e agressivos. E ele, como a grande mente idealizadora da Zenith Capital, a próxima grande corretora a ganhar Nova York e mudar o rumo de Wall Street, metendo todas aquelas corporações na dobra de seu braço, não estava nem um pouco parecido com o grande predador pelo qual era conhecido. Sentia como se sua gravata cara fosse só um colar cravejado de diamantes como os demais, cães fazendo companhia para outros cães, fazendo um desfile para outros cães, e que se ele ousasse trocar os diamantes, ou simplesmente tirá-los por um momento, iria direto para a sarjeta, tornando-se um ser menos do que lixo, perdendo todo o valor que um dia já teve.
— Preciso de um minuto. Eu já volto. — ele anunciou, levantando-se antes que a gravata terminasse o serviço de estrangulá-lo. Não parou para conferir a expressão desconfiada e frustrada de Naomi, que de qualquer forma, durou apenas um segundo até o sorriso simulado reaparecer.
foi parar em uma das sacadas envidraçadas, a brisa do verão se tornando gelada de repente, batendo no seu rosto como um tapa. Ao longe, era possível ver o brilho esverdeado da estátua da liberdade pairando no ponto alto da ilha de Manhattan, uma imagem privilegiada de um local privilegiado, de uma família privilegiada na qual ele estava prestes a entrar.
Ele pegou o celular e, por puro instinto masoquista, abriu a galeria de fotos. Não havia fotos de Naomi ali (exceto aquelas sensuais que ele via, abria um sorrisinho e deletava. Não que fosse um homem de máximo respeito, mas não era um garoto que se masturbava dia sim e dia não em um cômodo escuro no fim do corredor. Não precisava disso). As fotos reais dela estavam todas distribuídas no Instagram, filtradas e editadas até a exaustão, cheio de comentários e milhões de dólares em publicidade de marcas. Não, a única foto que tinha ali era uma imagem borrada que ele tirou escondido no Curb Market, a imagem de uma mão feminina segurando um ranúnculo, a flor de pêssego que iria decorar seu casamento dali a duas semanas.
Era a única coisa visual que tinha de fora as suas memórias, e lhe causava coisas mais confusas e profundas do que todas as fotos em posições escandalosas de Naomi completamente nua poderiam lhe causar.
Jeong estava a milhares de quilômetros de Montgomery, cercado pela elite do continente, atendendo pessoas de bem, pessoas de mal e pessoas apenas desconfiadas de sua origem, que no fim lhe dariam dinheiro do mesmo jeito, mas a única pessoa que deveria estar andando, falando, comendo e respirando de verdade estava a um oceano de distância, cuidando de plantas que provavelmente viveriam mais do que qualquer uma daquelas conversas de jantar.
Ele soltou o nó da gravata, deixando-a pendurada como um laço de forca. O oxigênio voltou aos seus pulmões, mas o aperto no peito iria demorar mais. E suspeitava, com um certo desgosto e medo, que nada daquilo tinha realmente a ver com Bennett e seu retorno triunfante à sua vida.
Tinha tudo a ver com o fato de que ele estava começando a odiar o homem que levou uma década inteira para construir.


A Wild Aster fechava pontualmente às seis.
sabia disso porque havia passado na frente dela quatro vezes nos últimos dois dias, desde que pousara de novo em Montgomery, com a desculpa mais patética que um homem de sua posição poderia inventar: precisava confirmar pessoalmente se os ranúnculos cor de pêssego iriam combinar com o outro esquema de cores que Naomi estava planejando para a cerimônia. Como se ele soubesse alguma coisa de paleta de cores há três semanas. Como se não tivesse mais do que capacidade de resolver essa questão sozinha, sem precisar do olhar petulante dele ou de suas perguntas idiotas que nunca diziam o que ele realmente queria dizer.
Eram 5h58 quando ele empurrou a porta.
estava de costas, embrulhando um buquê de hortênsias azuis com um papel craft que ela dobrava nas pontas com um rigor de quem faz origami desde os seis anos de idade. Ela não se virou imediatamente, o que manteve parado na porta como uma estátua, o terno mais caro da Prada completamente inútil diante de uma mulher que claramente não se impressionava nem um pouco com essas coisas. Ela provavelmente já deve ter tomado capuccino com a própria Miuccia Prada, que era conhecida por quebrar vasos caríssimos de flores frescas ainda na prateleira caso não gostasse da paleta. Esse tipo de coisa importava bastante nesse ramo.
Por fim, ele estava cansado de saber: pouco se importaria com um Alô vindo direto do Papa (ou de qualquer outra figura ilustre que já tenha perambulado pelo planeta Terra).
— Fechamos em dois minutos. — ela disse, ainda de costas.
— Eu sei.
Aí ela se virou.
Havia algo no jeito que olhava para ele que nunca tinha conseguido catalogar direito. Não era raiva, não era afeto, nem a mágoa que com certeza sentia em algum grau. Parecia uma espécie de paciência ativa, como se ela estivesse esperando (torcendo, é a melhor palavra) que ele eventualmente chegasse onde precisava chegar sem que ela precisasse empurrá-lo. O que era irritante, completamente irritante.
— Como estava Nova York? — perguntou ela. levantou os ombros.
— Ah, você sabe. Estava bem Nova York.
— Como sabe se vou entender essa referência?
— Garotas que têm o número da Dior com certeza conhecem Nova York, Bennett.
Ela virou o rosto de perfil só para sorrir para ele. Um sorriso que foi melhor do que todos os “oi” que ele já tinha recebido na vida.
— Os ranúnculos estão confirmados. — ela disse, voltando ao buquê. — Mando o relatório final amanhã de manhã.
— Não vim falar dos ranúnculos.
— E do que mais você falaria?
— Não sei. Telefones sem fio? O clima maluco que anda fazendo nesse verão? Cadernos com folhas recicláveis? Vi um deles vendendo com uma arma impressa na capa, acho que os republicanos estão começando a campanha eleitoral.
Ela soltou uma risada pequena pelo nariz. Ah, pareceu muito uma risada de diversão, uma risada que só pessoas extremamente confortáveis com a situação presente eram capazes de dar.
— Você quer me dizer alguma coisa séria de verdade ou quer ficar parado na porta até eu ter que te empurrar pra fora?
adentrou ainda mais no estabelecimento. Ficou do outro lado do balcão, olhando para as flores como se elas pudessem de alguma forma ajudá-lo a formular uma frase. Havia rosas, claro, mas também coisas que ele não saberia nomear — flores pequenas e estranhas que pareciam ter chegado ali por acidente e ficado porque achava que mereciam espaço.
— Você disse que eu caço o que não posso ter. — ele falou finalmente, e a frase veio acompanhada de uma mudança definitiva no timbre da voz.
Ela parou.
— Eu disse isso?
— Não com essas palavras exatas, mas disse. Aquele dia no café.
encostou os cotovelos no balcão, o queixo na mão, estudando-o com aquela expressão que desistiu de interpretar. A luz alaranjada do fim de tarde entrava pela vitrine e pegava nela de uma forma abrasadora, significante em todos os sentidos. Ele ignorou totalmente esse sentimento.
— E você ficou todos esses dias pensando nisso?
— Eu não fiquei-
.
— Tá bom, fiquei.
Ela assentiu, como se isso não fosse surpresa nenhuma.
— Então me diz. — ela disse. — O que você caça?
Ele abriu a boca e fechou. Colocou as mãos no balcão, olhou para as flores de novo e depois para ela, e teve a sensação horrível de ser a pessoa mais articulada do mundo em qualquer sala de reunião e completamente analfabeta funcional diante de uma mulher que estava embrulhando hortênsias.
— Conquistas. — ele disse. — Sempre foi conquistas. O contrato maior, a cidade maior, o nome no jornal certo, a aliança com a família certa.
— A Naomi certa.
— Ela não é… — ele parou. Passou a mão pelo cabelo, arruinando o que seu gel potente levou vinte minutos para fazer. — Tudo bem. Sim. Naomi faz parte disso.
não disse nada. Apenas esperou, o que de certa forma insuflou a raiva de . Ela simplesmente esperava, sem pressa, sem ansiedade, como se tivesse todo o tempo do mundo, como se nada fosse importante demais para tirar sua paz.
— O problema — ele continuou, a voz saindo com mais dificuldade do que deveria para um homem que negociava em três idiomas. — é que eu chego lá. Eu sempre chego. E então fico parado no topo olhando pra baixo e esperando sentir alguma coisa que não seja… — ele fez um gesto vago com a mão.
— Vazio? — ela completou, gentil demais.
— Eu ia dizer vento frio, mas sim. Vazio serve.
se endireitou. Pegou uma tesoura pequena e começou a aparar as hastes das flores que estavam no balde ao lado, e teve a impressão de que ela fazia isso quando precisava pensar — as mãos ocupadas para que a cabeça pudesse trabalhar.
— Sabe qual é a diferença entre um caçador e um observador? — ela perguntou, sem olhar para ele.
— Aqui vamos nós. — ele resmungou, e ela arqueou uma sobrancelha na sua direção. — Tá. Não sei. Qual é?
— O caçador entra na floresta querendo sair com alguma coisa. O observador entra querendo entender o que já existe lá. — ela cortou um caule com muito cuidado. — Você nunca foi a um lugar só pra estar. Você vai pra dominar. Se apoderar das coisas, tomar tudo até a última gota.
— Isso é uma crítica?
— É só uma observação.
— De alguém que claramente me acha muito previsível.
— De alguém — ela finalmente olhou para ele — que passou cinco anos com você e nunca uma vez te viu parar.
O silêncio que caiu ali era de um tipo específico. Nem constrangedor, nem opressivo, nem daqueles sufocantes que sempre ficavam piores à noite. Foi um silêncio que chegou e ficou, dando tempo para que ele escolhesse com cuidado a próxima coisa que deixaria sair.
olhou para as mãos dela, para a tesoura, para a flor que ela estava segurando — uma coisa pequena, quase insignificante, roxa nas pontas.
— O que é essa aí? — ele perguntou.
Ela piscou, claramente sem esperar a pergunta.
— Verbena. — disse ela. — Por quê?
— Nada. — ele encolheu os ombros. — Você cuida dela igual a todas as outras. Ela não é nem um pouco especial comparada ao resto.
olhou para a flor. Depois para ele.
— Toda flor é especial. — ela disse, devagar, como se estivesse percebendo que a conversa havia mudado de assunto sem avisar.
— Mas essa não vai num buquê de casamento. Não vai num arranjo de mesa. Ninguém vai pagar caro por ela.
— E daí?
— E daí que você ainda cuida dela do mesmo jeito.
Ela ficou quieta.
enfiou as mãos nos bolsos, olhando para o chão por um segundo antes de voltar para ela.
— Dez anos atrás eu não tinha nada, . Eu dormia num apartamento que você não convidaria nem seu pior inimigo pra jantar, eu contava o troco pra ver se fechava o mês, eu estava completamente, absolutamente, — ele pausou — furioso com o mundo inteiro. E você ficava me olhando desse jeito que você me olha agora, como se eu fosse… como se eu fosse essa maldita verbena. Suficiente do jeito que era.
O queixo dela subiu levemente. Os olhos, notou, estavam um pouco mais brilhantes do que deveriam.
— E isso te assustou. — ela disse. Não era uma pergunta.
— Me aterrorizou. — ele admitiu, e a palavra saiu mais fácil do que ele esperava, como se tivesse estado enfileirada ali na garganta por dez anos esperando permissão. — Porque se eu fosse mesmo suficiente, eu não precisava de mais nada. E eu precisava. Eu ainda preciso. Eu não sei fazer diferente, , eu não sei como se para.
— Eu sei. — ela disse, baixinho.
— E mesmo assim você…
— Sim.
— Isso não é inteligente da sua parte.
Ela deu aquela risada pequena de novo, mas desta vez havia algo nela que não era bem defesa. Era algo mais próximo de tristeza.
— Nunca fui muito boa em ser inteligente quando se trata de você. — ela disse. — Mas aprendi a ser honesta. E honestamente, … — ela apoiou a tesoura no balcão e cruzou os braços. — Eu não posso ser mais uma coisa que você conquista. Eu não quero ser o próximo degrau.
— Você nunca seria-
— Você não sabe disso.
— Eu sei sim.
— Você não sabe. — a voz dela saiu firme, sem raiva, mas com um peso que fechou a boca dele num segundo. — Você nem sabe o que quer ser quando crescer, . Você está prestes a se casar com uma mulher que você claramente não ama porque é o próximo movimento lógico no tabuleiro. E aparece aqui, duas semanas antes, me dizendo que se sente sozinho no topo. — ela descruzou os braços, pegou a verbena de volta, e voltou a trabalhar. — Isso não é um problema que eu possa resolver.
ficou imóvel.
O sol estava quase embaixo do horizonte agora. A luz na loja estava mudando, ficando mais quente, mais íntima, mais do tipo de luz que fazia as pessoas se sentirem menos propensas a ir embora.
— E se eu não fosse pelo próximo degrau? — ele perguntou. — E se eu simplesmente… parasse?
o olhou por um longo momento.
— Aí você seria um homem completamente diferente. — ela disse.
— Talvez eu queira ser.
— Talvez não seja suficiente querer.
Ele não tinha resposta para isso. E pelo jeito que ela o olhou, ele teve a impressão de que ela sabia disso também. Que ela não estava sendo cruel. Estava sendo sincero, e havia uma diferença enorme entre as duas coisas.
— Vai embora, . — ela disse, finalmente, voltando ao buquê. — Fecha o casamento, expande o império, voa pra Nova York. Você é muito bom nisso.
— E se eu não quiser?
Ela não respondeu.
...
— A loja fechou há quatro minutos. — ela disse, sem olhar. — Boa noite.
Ele ficou parado mais um segundo do que deveria. Depois virou-se, empurrou a porta, e o sino tocou de novo — dessa vez soando, de algum modo, como uma sentença.
Do lado de fora, Montgomery estava toda acesa. Mil luzes artificiais tentando imitar algo que jamais conseguiriam ser.
ficou parado na calçada, os pés pesados, o peito mais pesado ainda, e olhou para o reflexo da loja na janela do carro. estava de costas de novo, cuidando das flores, o cabelo solto, completamente alheia ao trânsito e ao barulho e a ele.
Completamente suficiente.
John, que ainda estava trabalhando e sempre estaria até que Jeong o mandasse parar, abriu a porta do carro. entrou, afundou no banco de couro, e ficou olhando o teto enquanto o carro começava a se mover.
Tinha dito, uma vez, que nunca fingiria que nada havia acontecido entre ele e . Seja no presente, seja há uma semana ou seja há quinze anos.
O problema era que agora ele não tinha mais certeza do que era o nada e o que era o tudo.


O problema com smokings é que eles foram claramente desenhados por alguém que nunca teve um ataque de pânico.
estava parado diante do espelho de corpo inteiro na suíte de espera enquanto John, seu motorista, seu único amigo em todo o Alabama (que também não fosse seu sócio, como Jordan), um homem que havia dirigido às três da manhã para buscar antiácido numa farmácia de bairro sem fazer perguntas, ajustava o Rolex no pulso dele com a justa seriedade que a situação pedia. Afinal, o noivo do ano (de acordo com a revista Forbes e a Rolling Stone) precisava sustentar esse título com perfeição a partir do momento em que colocasse a cara no corredor.
— Está apertando? — John perguntou.
— Sim. Quer dizer, não… — seu rosto enrubesceu de leve. — Não o relógio.
John olhou para ele pelo espelho. Não disse nada, o que era exatamente o tipo de resposta que precisava e que nenhuma das pessoas pagas para estar ali hoje saberiam dar.
Do lado de fora da porta fechada da mansão antiga e de pintura alegre do Distrito Garden, Montgomery inteira parecia estar segurando o fôlego. Ou talvez fosse só ele. Difícil distinguir quando o coração estava batendo nesse ritmo específico (não o ritmo bom de antes de fechar um negócio, mas aquele outro, o ritmo de quando os números não fechavam e ele sabia, antes de qualquer planilha confirmar, que havia cometido um baita erro de cálculo).
Jeong não cometia erros de cálculo. Isso era coisa dos novatos, gente que mal tinha grana para comprar um globo de neve para uma criança carente no Natal.
Na verdade, houve uma vez sim, há quinze anos, que ele cometeu um erro, um que não envolvia exatamente números. Um erro do qual ele simplesmente se afastou, fugiu, sem parar para admirar a atrocidade dos seus atos, como fazia atualmente sempre que condenava uma nova empresa à falência.
— Os jornalistas já estão do lado de fora? — ele perguntou, mais para ter algo para dizer do que por necessidade real de saber.
— Desde cedo. — John disse. — The New York Times, Vogue, Wall Street Journal, três franceses que não reconheci e uma mulher da Page Six que perguntou se você ia usar lenço no bolso.
— O que você disse?
— Que sim.
olhou para o bolso. Vazio.
John tirou um lenço branco dobrado do próprio bolso e colocou no de com muita eficiência e delicadeza.
— Obrigado.
— De nada, senhor.
A porta se abriu sem bater. A assessora de Naomi, uma mulher minúscula que parecia ter nascido com um tablet na mão e um senso de urgência perpétuo (e irritante), enfiou a cabeça pela fresta.
— Dez minutos, senhor Jeong. Tive que me livrar de uma palmeira que eles ainda nem tinham tirado os enfeites de Natal. É muita falta de profissionalismo, as fotos iriam ficar tenebrosas. Ah, adorei o lenço.
— Entendi, estou indo.
Ela lhe lançou uma piscadinha pelo espelho e saiu. não se mexeu, ainda encarando sua própria feição indistinta como se estivesse preso dentro daquele vidro.
O homem que olhava de volta para ele estava impecável. Smoking sob medida, ombros retos, mandíbula bem barbeada, olhos que haviam aprendido anos atrás a não revelar nada. Era a versão mais cara de Jeong que o dinheiro podia comprar, e havia custado cada centavo — não apenas em alfaiate, mas em anos. Em escolhas. Em um apartamento sujo em Black Belt com uma janela que dava para uma parede, onde uma mulher sempre dizia que tudo aquilo já era o suficiente.
Suficiente.
— John. — ele disse.
— Sim?
— Quando você se casou com a sua mulher… — pausou, escolhendo as palavras com cuidado. Não era muito acostumado a fazer isso, principalmente com seu empregado. — Como você sabia?
John o olhou pelo canto do olho, lutando para não franzir a testa.
— O que exatamente eu saberia, senhor?
— Que era a escolha certa. Que você não tava fazendo nenhuma merda ou coisa parecida. Como você sabia?
John considerou a pergunta por um momento, disfarçando a surpresa seguida de um certo alívio. Ele trabalhava para aquele playboy há anos e tinha visto todos os seus lados, o que o fez decidir que não valia a pena tentar encaixá-lo em nenhuma das forças: do bem ou do mal. Ele era um homem meio perdido, ah, como era, e na maioria das vezes te fazia questionar se realmente tinha um coração dentro daquele corpo que só via prazer e alegria no Playground da Burguesia, mas John já tinha captado vislumbres de uma sensatez e até gentileza vindas dele… atitudes que provavelmente ele não fazia ideia que exibia, e que ficaria furioso se alguém o falasse, e John tinha colocado na cabeça que aquele casamento era a última chance do grande Jeong mostrar afinal o que queria da vida, o que queria para a própria sanidade.
Ele chegou a achar que o patrão iria sim desposar uma garota que não via como nada além de objeto sem mais nem menos, focado apenas em matar sua fome por dinheiro, mas desde que ficou responsável pelas flores e começou a frequentar a loja na Perry Street… bem, o reflexo dele no espelho dispensava comentários.
— Eu fiquei nervoso de um jeito diferente. — John respondeu finalmente, encarando o relógio de parede de plástico.
— Diferente como?
— Nervoso pelo que eu ia realmente perder. Não pelo que eu ia ganhar.
John não se aprofundou. Sabia que seu chefe era um homem inteligente. ficou olhando para o espelho por minutos arrastados e viscosos.
Em seguida, saiu da sala.



O The 1616 House era o tipo de lugar que fazia as pessoas acreditarem em contos de fadas. Era um casarão alto, antigo, de madeira branca e reformada à perfeição, com um grande quintal vasto e blocos de madeira espalhadas, refletindo as luzes laranja-avermelhados dos varais dispersos, perpassando toda a propriedade decorada com grama verde e milhares de flores cor de pêssego, organizadas metodicamente por uma mulher e uma equipe minúscula que fizeram questão de pregar, grudar, esticar, amarrar todos os arranjos até que estivessem ao alcance da vista de todos.
O coro já havia começado — algo em latim que não entendia mas que não soava exatamente como algo alegre e pacífico que ele sempre pensou que seu casamento soaria.
Ele caminhou pelo corredor lateral como havia ensaiado, sem olhar para os lados. Tinham tantas flores que ele quase pediu perdão à Mãe Natureza por ter deixado sabe-se lá quantos hectares de campo nu só para ter toda aquela fartura debaixo de um teto palaciano alto e pontudo. Onde acontecia seu casamento, um dia que deveria ser o mais feliz de todo o Alabama, e não o dia em que ele se sentia como um banhista preso em mar aberto prestes a ser devorado por um tubarão.
Havia pelo menos quatrocentas pessoas ali. Ele conhecia talvez doze delas de verdade, e mesmo essas doze, provavelmente tinham aceitado o convite pelo contrato que seu matrimônio representava, e não como uma declaração de bons votos. Nesse campo, nunca se equivocava — sabia ler esse tipo de pessoa de olhos fechados. Certamente faria a mesma coisa no casamento de qualquer um deles.
Quando chegou ao altar de mármore, percebeu o quanto era óbvio que ele fosse de mármore. Branco Thassos, para ser exato, o tipo de coisa que berrava o poder aquisitivo da festa como nenhum outro. Até mesmo a papada da ave de rapina que era símbolo da família Robbie era de mármore.
ficou de frente para o padre, um homem de uns oitenta e muitos anos que claramente já havia casado pessoas em situações piores que a do rapaz com olheiras fundas mal disfarçadas, e havia aprendido a não fazer perguntas. Nem todos os casamentos tinham a energia de Tom Hanks e Rita Wilson, afinal.
Pela primeira vez desde que se livrou daquela sala de espera apertada, ele respirou fundo. Tudo bem, relaxa, você já fechou negócios maiores do que esse. É isso que esse casamento é, afinal; o que tudo isso é. Esquece todas as coisas que você acha que não dá pra esquecer e pense nas próximas. Lua de mel em Bali, Bodas de Plumas em Cancún, dia dos namorados em Paris. Natal nas montanhas da França, Natal na Irlanda, Natal em qualquer lugar exótico. É sempre Natal em algum lugar, como dizia sua avó. Vai ser Natal todos os dias que eu quiser que sejam.
Essa filosofia teria durado um pouco mais se seus olhos não fossem tão traidores e girassem em direção à plateia cedo demais.
estava na última fileira, muito perto da porta. Ela não estava arrumada para um casamento de gala, o que a deixava ainda mais em evidência. Tecnicamente, os convidados tinham apostado em cores salmão e cruas, minimalistas ao extremo, vomitando os conceitos do que era ser elegante de acordo com o que dezenas de revistas de moda diziam. Olhando para o glitter no vestido vermelho escuro e o cabelo sem ondas de Bennett, ficou mais do que claro que a Vogue não via um centavo do seu dinheiro.
O vestido era a única coisa que brilhava nela. A expressão nem estava tentando mentir — dava para imaginar que tinha passado os últimos três dias arrastando caixotes de flores, amarrando arranjos e debatendo na frente do espelho se devia ir na cerimônia ou não. Aparentemente, ir tinha sido a decisão errada. Ou certa. não estava conseguindo distinguir a resposta de verdade no rosto dela, e não tinha um tempo aceitável para continuar tentando.
Ele se virou assim que começou a olhá-lo. Concentra, cacete. O padre voltou a dar um sorriso tranquilizador e tentou disfarçar sua familiaridade com a expressão aflita daquele jovem no altar. Seu trabalho continuava sendo o mesmo, independentemente se aquele homem fosse pedir o divórcio amanhã ou só no ano que vem, mas por via das dúvidas, começou a pensar em algum discurso tranquilizador para caso a resposta de fosse “não”.
A música finalmente mudou, obrigando toda aquela gente a se colocar de pé. A porta dupla de madeira da entrada se abriu dramaticamente e por lá, Naomi Robbie entrou, envolvida em luz branca e etérea, brilhando como era seu destino, caminhando sobre um tapete vermelho que realmente a pertencia. Todas as descrições de jornalistas acerca da aparência da socialite nova-yorkina que tinha concordado com um casamento nos arredores caipiras do país, eram indiscutivelmente rasas. Estavam tentando achar as palavras certas que encaixassem no deslumbramento, mas fracassaram em todas.
O vestido era de uma designer cujo nome havia sido orientado a mencionar em pelo menos três entrevistas, e havia custado mais do que seu primeiro apartamento. Os cabelos ruivos estavam presos em um coque perfeito e alinhado, sem nenhum mísero fio de cabelo rebelde tentando estragar a montagem. O sorriso da herdeira era de alguém que esperou por aquele momento a vida toda, e acima disso, que merecia aquele momento.
observou sua noiva se aproximar e sentiu, com uma clareza absolutamente inconveniente, que estava observando uma aliança comercial caminhando em sua direção com véu de renda. Isso costumava deixá-lo empolgado para cacete.
Você sabia disso. Você sempre soube disso. Esse era o plano.
E era um plano excelente. Ainda era. Os números não haviam mudado — a expansão para Nova York, os contratos pré-avaliados na Europa, o nome Jeong em dois continentes. Tudo estava ali, se aproximando dele a três metros por segundo com um buquê de flores que havia escolhido.
havia escolhido até aquelas flores.
teve que fazer um esforço ativo para não olhar para o fundo da igreja de novo.
Naomi chegou ao altar. Seu sorriso, de perto, era mais genuíno do que ele esperava — e isso, de alguma maneira, foi pior. Porque Naomi não era vilã. Naomi era ambiciosa, calculista, e havia escolhido pelo mesmo motivo que ele havia escolhido ela, e tinha algo bastante respeitoso nisso. Uma transação honesta entre duas pessoas que sabiam exatamente o que estavam comprando.
O problema era que não tinha mais certeza se queria estar à venda.
— Você tá bem? — ela murmurou, enquanto o padre começava.
— Estou ótimo. — ele disse no automático, um repeteco do que tinha respondido umas mil vezes nas últimas 24 horas.
Naomi o estudou por um segundo com aqueles olhos de pantera.
— Tem certeza?
— Estou bem, Naomi.
Ela assentiu e virou para o padre, e ele a imitou.
As palavras da cerimônia chegavam até ele em fragmentos — “unidos perante, em testemunho, para sempre” — cada uma soando um pouco mais abstrata do que a anterior, como quando você repete uma palavra vezes demais até ela perder o significado. Para sempre. Para sempre. Para sempre. Quanto tempo durava um para sempre quando você construía em terreno ruim? Quando plantava em solo infértil? Quando claramente estava tentando atravessar um córrego dentro de um navio cargueiro?
Era inútil pensar nisso naquele momento. Havia passado dez anos treinando para não pensar nisso. Sempre conseguiu transformar cada pensamento inconveniente em combustível, cada insegurança em mais um andar de arranha-céu, cada momento de silêncio em uma reunião agendada. Era muito bom nisso. Era, possivelmente, o melhor do mundo nisso.
Mas o sol estava entrando pelo vitral da parte superior da mansão e pegando no vestido vermelho lá atrás e Jeong , o homem que havia conquistado Montgomery aos trinta anos, estava completamente, catastroficamente perdido.
O padre olhou para Naomi.
— Naomi Robbie, aceita Jeong como seu legítimo esposo?
— Aceito. — ela disse antes que ele terminasse a última palavra. O velho se virou para o noivo.
— Jeong , aceita Naomi Robbie como sua legítima esposa?
O silêncio que se seguiu durou provavelmente dois segundos, mas pareceu substancialmente mais longo.
olhou para Naomi. Para os olhos dela, glóbulos verdes inteligentes, esperando, completamente cientes de que havia uma pausa onde não deveria haver. Depois olhou por sobre o ombro, e não se surpreendeu ao ver olhando para ele, muito menos com o jeito que ela estava fazendo isso.
Era estranho. O olhar dela não era esperançoso. Não era um olhar de súplica para ser escolhida, muito menos súplica para que ele continuasse com aquela palhaçada. só tinha aquela expressão serena de sempre, aquela que ele jamais conseguiria pautar, porém naquele momento, chegou bem perto de entendê-la: era a expressão de alguém que o estava aceitando completamente, com sombras e tudo, com suas partes falhadas e as partes aprimoradas, com tudo de bom e de ruim que alguém pode oferecer a outro alguém. Naquele caso, envolvia mais do que personalidade e identidade, mas também o fator delicado de estado civil, de escolha arbitrária, algo impossível de se passar por cima.
Ele soube na hora: o amava. Ainda amava, e acima disso, era capaz de perdoá-lo por tudo. E isso poderia não mudar absolutamente nada na vida dele dali para frente a partir do momento em que dissesse “sim”, mas tinha mudado para ela, e isso fez com que a admirasse ainda mais. Porque o perdão trazia mais benefícios a quem o distribui do que a quem o recebe.
A porta de madeira aberta atrás dela o encarou. Lá fora, Montgomery pareceu ser o único lugar com gás oxigênio disponível no mundo. Um cenário de maior esplendor do que lá dentro, onde centenas de pessoas e um padre esperavam uma resposta.
Tic-tac, tic-tac, tic-tac.
respirou fundo.


Havia uma coisa que nunca contou para ninguém.
Quando tinha onze anos, seu pai o levou para ver um jogo de futebol, um dos raros dias em que o homem trocava o bar pela companhia do filho, provavelmente por culpa ou por pressão, tanto faz, nunca soube responder. No intervalo, enquanto o pai ia buscar cerveja e demorava tempo demais tentando descolar outra pela metade do preço, ficou olhando para o campo vazio. A grama estava irregular, as traves estavam enferrujadas e o juiz era o homem mais velho do Alabama, usando todo o seu fôlego restante para apitar nas raras vezes em que percebia o que estava acontecendo no jogo. Até ir embora de Black Belt, aquele velho ainda estava vivo, contra todas as circunstâncias.
Apesar de ser um estádio todo improvisado (como tudo era em Black Belt) e indigno de qualquer menção de orgulho, correu em volta de suas grades, pulou em sua arquibancada, ralou o joelho três ou quatro vezes no solo empoeirado e seco do verão e afanou um girassol do canteiro de flores comunitário que as mulheres (tão velhas quanto o próprio juiz) acharam uma boa ideia de instalar — tudo isso várias vezes, mais do que podia contar. Geralmente, sempre acompanhado da filha da família Bennett.
Mas a luz daquele fim de tarde estava pegando no campo de um jeito que fazia tudo parecer dourado. E , aos onze anos, sozinho naquele assento de madeira, havia pensado: um dia eu vou ter algo assim. Algo que a luz faz parecer grande.
Levou dezenove anos para perceber que estava procurando no lugar errado.



.
A voz de Naomi cortou seu pensamento, usando o seu tom esganiçado e peculiar de quando queria que ele prestasse atenção. Não era alto, nunca era alto, só era afiado de um jeito preciso que cortava o ruído de fundo como uma faca de chef. Geralmente ela precisava fazer isso quando o via olhando para a bunda de uma garçonete de hotel, ou de outra piranha usando brincos de esmeralda.
— Me dá um segundo. — ele disse.
— Você não tem um segundo! Anda, as pessoas estão olhando.
É claro que estavam. É o que acontece quando o noivo não segue o ritual padrão de todos os noivos do mundo: dizer sim imediatamente.
O problema era que isso não estava ativando seu sendo de urgência. só conseguia olhar para a porta dos fundos, por onde tinha saído há menos de dois minutos, e calculando (com a parte do seu cérebro que nunca desligava) exatamente o que aconteceria nos próximos trinta segundos dependendo do que ele dissesse.
Cenário 1: Aceito. Trezentos dias por ano em Nova York, o restante em Paris e Londres. Jeong-Robbie nos jornais de negócios. Dois andares novos no arranha-céu metafórico da sua vida. Sua tão sonhada Ferrari personalizada. Sua propriedade privada em Long Island, milhares de hectares que nunca seriam usados, mas que seu dinheiro podia comprar (é isso que importa). Naomi sendo uma parceira excelente, em todos os âmbitos — ele não tinha ilusões sobre o que os dois eram um para o outro, e havia algo quase limpo nessa honestidade. Você sabia o que estava comprando.
O problema com o cenário 1 era que ele destoava completamente das últimas semanas da sua vida. Dias e mais dias acordando às três da manhã com o coração batendo errado, nenhuma ansiedade pela próxima reunião de alinhamento com Jordan, nenhum comprimido novo que estava interessado em experimentar, nenhuma pressa para ligar o computador e começar o dia vendo cifrões e vírgulas de sua conta bancária.
Cenário 2: Não. Esse era mais difícil de calcular porque envolvia uma variável que ele nunca havia conseguido transformar em número.
estava agora a seis metros porta afora. Ele captou os últimos vislumbres de seu cabelo escorrido balançando com o vento, o brilho de seu vestido vermelho reluzindo obscenamente na luz do sol.
Ele voltou para Naomi. Sua noiva o olhava de volta com a face trincada. Teve tempo de fazer todas as contas (graças à demora dele em responder) e chegou a uma conclusão óbvia.
— Ela está aqui? — Naomi perguntou em voz baixíssima. Uma calota de gelo desceu pela espinha de .
— O-o quê…?
— Corta essa, seu babaca, não sou tão idiota assim. Ninguém deveria demorar tanto pra escolher flores estúpidas e ninguém como você começa a negar sexo no banheiro do nada. Você é patético.
— Naomi…
— Não. — ela levantou uma mão, delicada e firme dentro de luvas de renda. O sorriso que colocou no rosto a seguir era de uma mulher que não perdia a pose, independentemente da conjuntura. Aquela, especificamente, onde já não tinha mais silêncio absoluto porque os cochichos já tinham tomado cada metro quadrado da igreja, era um dos mais fodidos que Naomi Robbie precisaria passar por cima. — Não me diz o nome dela. Não aqui. Não temos tempo pra isso.
O padre pigarreou. estava se sentindo ainda mais gelado, o corpo inteiro formigando.
— Eu…
— Cala a boca. — Naomi disse, e havia algo diferente na voz agora, algo parecido com reconhecimento, sobrepondo-se à raiva que começava a borbulhar no estômago. — Você tá estragando tudo, eu sei. Tive que ficar na lista de espera pra conseguir que a porra da Valentino desenhasse esse vestido, mandei fazer os sapatos com o cristal fino da Espanha, convenci um bando de agências de viagem a me arrumarem um chef foda pra nos acompanhar na lua de mel, tô usando um colar de 4 quilates que tá me enforcando e você vem com essa merda? — seus dentes estavam trincando alto. Que se foda o tempo. — Não podia só trepar com essa garota e mandá-la embora, como você sempre fez? Não podia esperar o casamento passar pra se tocar de que você tem um coração? Porra!
— Naomi, eu não-
— Eu mandei você calar a boca. — a voz dela ficou repentinamente mais alta, mais histérica. Não foi o suficiente para que assustasse , mas chamou a atenção de todos os outros na igreja. Vendo isso, Naomi foi retomando o controle. — Tenho uma pergunta, e quero que você responda honestamente, não por mim, mas por você mesmo.
engoliu a seco e esperou. O olhar de Naomi havia mudado, mas ele não sabia explicar o que tinha ali de novo.
— O que é que você quer, de verdade? Não o que você planejou. Não o que faz sentido no papel. O que você quer.
O silêncio desta vez foi diferente. Foi o silêncio de uma pergunta que alguém havia feito para ele uma vez antes, numa loja de flores na Perry Street, com tesoura na mão e paciência infinita em todos os gestos que o ser humano é capaz de fazer.
E percebeu, com uma clareza quase desnorteante, que sabia a resposta. Que provavelmente sempre soubera. Que havia passado todos aqueles últimos anos regados a exageros e ambição desenfreada construindo paredes altas o suficiente para não precisar admiti-la.
Serviu para aquele momento. Naomi entendeu tudo, e a raiva não deixou seus olhos por isso, mas os ombros definidos relaxaram, entrando em modo de desistência.
— Já entendi. Sei o que é isso. — por motivos estranhamente misteriosos, Naomi quis dar um sorriso. Seria minúsculo, mas seria genuíno (talvez o mais genuíno que ele veria nela). — Agora vai embora daqui porque preciso começar a chorar. E fazer um escândalo. Vou deixar bem claro pra todo mundo que não fui eu quem fez toda essa gente perder o precioso tempo vindo pra esse fim de mundo. — o nariz dela ficou vermelho. sentiu algo muito parecido com compaixão por Naomi, sentimento novo e sincero, e não se viu capaz de dizer alguma coisa. — Fico feliz que tenha acontecido agora. Divórcios são tão caros e burocráticos.
— Eu sei.
— Tudo bem, chega, vaza daqui.
Ele piscou.
— Naomi, eu…
— Meu pai está vindo, se você ficar aqui com essa cara de taxo por mais trinta segundos, vou mudar de ideia e deixar ele te obrigar a assinar os papeis. Foda-se se é pela conveniência, ele faria isso e você sabe. Sua vida nos negócios já vai ser um inferno por causa de toda essa cena, não piora os nervos do velho. Anda logo, Jeong. — Naomi empurrou seu ombro com força e se virou para o padre. — Vai antes que a garota suma de vez, apesar de que eu adoraria isso.
ficou parado por exatamente dois segundos — os dois segundos finais de uma versão de si mesmo que havia durado mais que o necessário. Então, se virou e correu.



já estava na calçada da Wild Aster.
Não era uma distância tão longa do casarão onde rolava a cerimônia de casamento mais cara do Estado, mas ainda assim, foi como uma caminhada de um país a outro. Estava parada no degrau de pedra da entrada da loja, os braços cruzados levemente contra o frio do fim de tarde, olhando para a rua com apatia, até então sem saber para onde ir. Se fechar lá dentro do estabelecimento cheio daquelas flores (algumas sobras de ranúnculos que ela não fazia ideia do destino que daria a elas) pareceu ser a pior opção. O vestido vermelho pegava no vento de um jeito que a fazia parecer exatamente o que era: a parte abandonada de um cabo de guerra. O lado perdedor da batalha. Real, sim, mas triste.
A sola dos sapatos Salvatore fizeram muito barulho quando os deslizou no chão de pedras lisas, assim como sua respiração ofegante saindo em lufadas. ouviu e se virou num salto, arqueando as sobrancelhas de genuína surpresa.
Tal expressão durou provavelmente um segundo e meio. Depois do choque, veio algo que ela imediatamente tentou guardar de volta, depois aquela maldita paciência que ele amava e odiava em igual medida. Ela encarou bem o rosto dele, a gravata, o dedo direito sem aliança, a porta fechada da mansão bem ao longe.
? — ela perguntou, com a voz de quem está se preparando para um golpe no rosto.
— Eu sei que você disse pra não te procurar mais.
— É, eu disse.
— E eu sei que apareço na pior hora possível com as piores desculpas do mundo e sem nenhum plano. — ela abriu a boca, mas ele continuou: — E eu sei que você não é um degrau, e não é uma conquista, e não é uma coisa que se caça. — parou a dois passos dela, a respiração ainda empurrando seu peito para cima e para baixo. — E eu não vou fingir que virei uma pessoa diferente em duas semanas porque você me disse coisas difíceis. Eu ainda vou acordar na segunda-feira querendo comprar todas as ações em alta do Dow Jones. Ainda vou ser irritante e gastar dinheiro em coisas desnecessárias e fechar restaurantes sem avisar.
— Isso foi uma lista de qualidades ou defeitos?
— Estou sendo honesto.
O canto da boca dela se moveu. Não foi exatamente um sorriso, foi o precursor de um sorriso, a semente de um sorriso, a coisa que crescia antes do sorriso como uma dessas flores que ela cuidava às cinco da manhã por puro hábito.
— O que você quer, ? — ela perguntou, um eco de Naomi, um eco de quinze anos atrás, um eco de todas as vezes que ele havia desviado dessa pergunta.
Ele respirou. O ar de Montgomery no fim de tarde tinha cheiro de pão e gasolina e, mais fraco, de alguma coisa floral que provavelmente vinha dela.
— Quero saber o nome de todas as flores que você tem na loja. — ele disse. — Quero ir ao Curb Market às cinco da manhã e reclamar do frio o tempo todo enquanto você e a Rosa ignoram a minha existência. Quero tomar caramel macchiato em lugares que não fechei pra ninguém, numa mesa apertada do lado da janela. Quero comer sua panqueca no café da manhã naqueles pratinhos de plástico ridículos com desenhos de tomates. Quero aprender a ficar parado num lugar sem pensar o tempo todo como vou conquistá-lo.
Uma pausa.
— Quero você. Sem pressa. Do jeito que der.
ficou olhando para ele por um tempo longo o suficiente para que ele sentisse cada segundo individualmente. Tinha uma miríade de coisas passando pelo seu rosto, a paciência e seu modo zen sendo as emoções mais insignificantes. Ela abria e fechava a boca sem parar, o coração esmurrando a caixa torácica.
— Você acabou de sair do seu próprio casamento. — ela afirmou. assentiu.
— Eu sei disso.
— Isso é uma loucura absurda.
— Também sei.
— Você vai ter que lidar com as consequências disso por meses. Provavelmente anos.
— Tô ciente.
— E você acha que aparecer aqui na minha frente com essa cara é suficiente pra eu simplesmente…
— Não. — ele cortou. — Não acho que seja suficiente. Acho que vou ter que ganhar isso, e acho que vai demorar, e acho que você vai me mandar embora pelo menos mais três vezes antes de mudar de ideia. — ele enfiou as mãos nos bolsos, o ombro levemente inclinado, o colarinho desabotoado revelando grande parte da clavícula, que ainda descia e subia com a respiração pesarosa. No entanto, era a primeira vez em anos que ele não estava performando até mesmo na maneira de ficar em pé. — Mas eu também acho que você vai ficar aqui e me deixar tentar.
A cabeça de estava cheia de ruídos, mais ainda do que estava dentro daquele salão. Olhou bem no fundo dos olhos dele, depois na direção que ele veio, depois para a rua e então para ele de novo. Um pouco de suor deixava a parte lateral de seu rosto brilhando, o cabelo não estava mais alinhado, a gravata se fora em algum ponto e, ainda assim, ele ainda poderia estampar a próxima capa da Vogue daquele mesmo jeito. Já estaria apto a fazer isso até mesmo quando morava em Black Belt. Ninguém podia negar que Jeong era um retrato glorioso da juventude, e permaneceria sendo enquanto não perdesse o brilho que seus olhos tinham agora.
Aquilo causou a emoção incalculável que obrigou a reagir.
— Você sabe o nome de alguma flor? — ela perguntou, por fim. — Alguma, sequer.
— Verbena. — ele disse, imediatamente. — Pequena. Roxa nas pontas. Não vai em buquê nenhum e você cuida dela igual a todas as outras. Ranúnculos, porque têm minha cor favorita. E não vamos esquecer da flor-morcego.
O sorriso desta vez chegou completo. Não foi rápido nem tímido — foi do tipo que começa nos olhos antes de chegar à boca, o tipo que provavelmente achava que estava escondendo mas que iluminava o rosto inteiro de um jeito que nenhum vitral de nenhuma igreja em Montgomery conseguia imitar.
sentiu algo se desapertar no peito.
— Verbena. — ela repetiu. — Tá bom.
— Tá bom?
— É um começo aceitável. Não resolve tudo, mas você é um cara de sorte e bem abastado, vai se virar pra estudar.
— Não sei por mais quanto tempo vou ser abastado.
— Bem, eu tenho o número da Dior. E da Valentino. Não sou o que você chamaria de pobre, mesmo abrindo essa espelunca. Já pensou em esfregar o chão da passarela?
Ela espremeu os olhos. , que geralmente tinha respostas na ponta da língua, apenas visualizou o sorrisinho sacana dela e assentiu.
— Entendido, Bennett. Vou ver o que posso fazer. Trabalhar nunca foi um problema pra mim.
— Trabalhar demais é um problema pra você. Mas tudo bem, essa é a parte do ser irritante que você acabou de me garantir.
— Provavelmente mais do que você está calculando agora.
— E eu ainda vou te mandar embora se você tentar fechar algum estabelecimento público só pra ficar sozinho comigo.
— A gente pode negociar isso.
— Não é negociável, .
— Tá bom, não é negociável.
Ela desceu o degrau, ficando no mesmo nível que ele. O vento mexeu no vestido vermelho de novo, espalhando o seu perfume. Montgomery continuava acontecendo ao redor (táxis, conversas, o barulho constante de uma cidade que não parava para ninguém) e , pela primeira vez em tempo demais, não sentiu nenhuma pressa de ir a lugar nenhum.
— Tem um café a duas ruas daqui. — disse. — Pequenininho, tem mesa na calçada e o garçom sempre esquece metade do pedido. Não dá pra fechar.
— Parece terrível.
— É o melhor café de Montgomery.
Ele olhou para a direção que a cabeça dela indicou, algum lugar que estava no fim daquela rua longa, que ele não fazia ideia da onde dava, mas isso era a menor das preocupações.
— Me mostra. — ele disse.
Ela sacudiu a cabeça devagar, mas ficou parada. Esperava que ele soubesse o que fazer, e graças a Deus ele sabia.
passou o braço ainda meio trêmulo pelo seu quadril e a beijou suavemente, sem uma força desesperada que tinha certeza que teria, considerando os pensamentos que o açoitavam no meio da noite quando pensava nela. Geralmente, ele beijava mulheres com a ferocidade escancarada de quem está pronto para segundas intenções, e não havia problema nisso quando a outra parte concordava. No entanto, essa nunca foi a situação com . Não que não a desejasse sexualmente, mas porque a desejava espiritualmente, moralmente, emocionalmente. O tipo de coisa que realmente alimentava a alma do ser humano, o verdadeiro prazer que ele fazia questão de beber um gole de cada vez.
Quando a soltou, Bennet, a mulher que havia esperado dez anos sem esperar nada, que cuidava de verbenas porque achava que tudo merecia atenção, que havia dito a verdade quando a verdade era difícil e ficado quieta quando o silêncio era mais poderoso do que qualquer palavra… essa mulher tão educada e doce, finalmente começou a andar.
E Jeong , o iminente lobo do Alabama, o homem que havia conquistado uma cidade inteira e descoberto que o topo era frio demais para suportar, enfiou as mãos nos bolsos do smoking mais caro do continente americano e a seguiu.



Três meses depois

Havia uma verbena no peitoril da janela de um apartamento médio em Montgomery. Mais especificamente, no bairro de Copperfield, que não era uma Comercce Street, mas também não era uma periferia. Era um apartamento normal.
Ninguém tinha plantado aquela flor. Ela apareceu sozinha, como às vezes as coisas certas fazem, quando você finalmente para de correr rápido o suficiente para vê-las. Claramente não parecia pertencer à mesma espécie que a familia das outras verbenas vinha. Essa era cor de pêssego.
tirou uma foto da iguaria e mandou para às 5h47 da manhã, ainda com o café fumegando em sua caneca de cerâmica feita por ele mesmo há duas semanas (torta e sem acabamento perfeito, mas ainda era a sua primeira).
“E então, como vamos chamar essa aqui?”
Ela respondeu: “Não sei. É você quem escolhe os nomes, esqueceu?”
Ele: “Você entende melhor de inflorescência do que eu.”
Ela: “Mas você que comprou o vaso, colocou as sementes e regou desde aquela noite. Elas são suas.”
pensou por um instante. Quando aceitou as sementes no saco de papelão sem nome daquela horticultura na saída da cidade, não imaginou o que nasceria. Só eram as primeiras sementes que ele comprava por livre e espontânea vontade, sem o conselho de ou a influência de seus próprios pensamentos de investimento e inflação, sempre presentes nas compras mais triviais às mais elaboradas do dia-a-dia.
Ele sorriu. A vida era mesmo cheia de surpresas.
“Tá legal. Vou te dizer o nome quando você chegar.”
Ela respondeu com um emoji de flor e, depois de um segundo, com outra frase:
“Tudo bem. Vou levar flores.”




f i m–


NOTA DA AUTORA › olá, tudo bom?
MUITO obrigada por ter lido e permanecido nessa história até o final! eu amei escrever inflorescência, amei dedicar alguns minutos do meu dia a pesquisar nomes de flores, amei dar vida a mais alguns dos meus personagens. a gente se vê na próxima!
um beijo de alís.


em caso de erros de revisão ou script, entre em contato por aqui.


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