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Independente do Cosmos🪐

Fanfic Finalizada 🎃

30 de outubro
3:33 am


A ventania fora da casa poderia arrastar qualquer ser humano, mas, para o clima estava mais do que perfeito. A madrugada estava fria, a lua no alto do céu, as estrelas alinhadas exatamente no ponto em que as poucas nuvens não as cobriam e o Cometa Lovejoy rasgava a escura atmosfera do planeta.
Estava na hora.
O feitiço que lançaria em questão de segundos, era o mais poderoso desde então, e para isso, sua mágica sozinha não era capaz de conjurá-lo, por isso, ela usaria os poderes místicos de uma força da natureza.
A jovem bruxa carregou o livro de feitiços abraçado aos braços caminhando até o quintal de sua casa. O vento forte e frio cortava sua pele, arrepiando seus pelos e bagunçando os cabelos, mas ela não poderia se importar menos. Estava determinada em seguir com aquele plano maluco e completamente perigoso.
Afinal, conjurar um feitiço para não só revelar sua alma gêmea, como também encontrá-la trazia riscos ao mundo da magia. Desde nova, enquanto sua mãe lhe ensinava tudo sobre bruxaria, feitiços e a magia que corria em suas veias, sempre ouvia que haviam coisas que, não importa o quão desesperada uma bruxa estivesse, ela nunca, jamais, deveria usar magia para isso.
Enganar a morte, trazer alguém de volta a vida e bom… Tentar encontrar o amor verdadeiro.
Este último, ironicamente, era exatamente o que se preparava para fazer ao recitar um feitiço simples que criou um círculo branco ao seu redor que se iluminou.

— Desculpe mamãe, eu realmente estou desesperada aqui… — Ela murmurou para si mesma e também para o além, desejando que onde quer que Kassandra estivesse, ela pudesse desculpar a filha por estar quebrando uma das maiores regras do mundo da mágica.

tirou da mochila que tinha pendurada nos ombros algumas velas brancas, dois cristais de quartzo rosa — um para ela e outro para seu amado — , um espelho e água. A jovem bruxa posicionou o espelho no chão e os cristais de quartzo rosa sob seu reflexo, despejando a água de sua garrafinha por cima deles, as velas brancas ficaram dispostas ao redor dos dois objetos e, ao olhar para o céu uma última vez, viu Lovejoy cortar os céus e se aproximar da lua, no ponto mais alto de sua beleza e poder.
fechou os olhos se concentrando na imagem de fogo em sua mente.

Incendia. — Seu latim perfeito pronunciou a palavra e assim, como num passe de mágica, todas as grossas velas se acenderam em um fogo que nem mesmo a forte ventania proveniente do evento cósmico poderia apagar.

Seu peito subia e descia meio ofegante, o lanche rápido que fez dava voltas em seu estômago ao mesmo tempo em que um frio se apossava na mesma região. Com as mãos meio trêmulas e as palmas suadas, abriu o livro de feitiços na página que já estava marcada tão previamente.
Sob a luz do cometa, quando, ao passar pela lua todo o ambiente se iluminou como em um eclipse lunar, começou a recitar o feitiço que ela acreditava que mudaria sua vida.
Mais tarde, no entanto, ela descobriria que nem sempre as mudanças são da forma como queremos.

Brilho do amor que cruza os céus, pelo rastro de luz que o cometa traz, que o destino revele quem ao meu coração pertence. Na cauda de Lovejoy, que o amor me alcance. Astros antigos, escutem meu chamado, que a alma certa seja agora guiada, pela magia das estrelas e pela luz do luar, que meu amor verdadeiro venha me encontrar.

Ao finalizar as palavras, tendo canalizado toda aura mágica do cometa, as chamas das velas se apagaram repentinamente e então o espelho e os quartzos explodiram em uma única chama intensa e vivaz.

— O q-quê…?

Os olhos de se sobressaíram e ela voltou a atenção para o livro de feitiços, nervosa.
Em tese, aquilo não deveria ter acontecido.
O feitiço tinha dado errado.
Desesperada e com o fogo passando a se alastrar para além dos objetos do feitiço original, a jovem bruxa saiu do círculo branco em um pulo, fechando o livro de feitiços e o apoiando abaixo do braço.

Motus! titubeou em latim, balançando o braço livre em direção a chama ardente. O fogo foi extinguido assim que a palavra chegou ao fim, deixando a mulher orgulhosa de si mesma por um breve momento.

Podia não estar acostumada a lançar feitiços tão complexos como aquele — ou qualquer outro em que precisasse de elementos para canalização de mais magia —, mas conseguia controlar, manusear e manipular a pirocinese como nenhuma outra bruxa conseguia.
Com as chamas completamente apagadas, não conteve o suspiro derrotado ao se aproximar das velas, espelho e dos dois quartzos. Além deste último citado, o fogo tinha sido tão intenso que tudo havia sido reduzido para nada mais do que cinzas.
Um grunhido frustrado saiu do final da garganta da mulher, deixando claro a decepção em não só perceber que o feitiço tinha dado errado, como também ao olhar para o céu, constatar que Lovejoy já tinha passado do ponto alto da lua.
Não havia mais evento cósmico para canalizar tanto poder da natureza e, sozinha, sabia que não tinha a magia necessária para reproduzir o feitiço novamente.
Ela voltou para o interior da sua casa sem se preocupar em pegar as pedras de quartzos que ainda estavam inteiras, afinal, olhar para aquelas duas pedras era um lembrete de seu fracasso para um feitiço que parecia ser tão simples.
O esperado, tal qual como o livro de feitiços deixava claro, era que após finalizar a conjuração, o cometa respondesse enviando uma estrela cadente para selar o feitiço, assim como uma luz suave e prateada envolvesse a pedra de quartzo rosa.
Se tivesse esperado mais um pouco, se a sensação de derrota e reprovação não tivesse a feito entrar correndo para casa, ela teria visto que os cristais de quartzos começaram a brilhar sob as cinzas que as envolviam.
Assim como duas estrelas cadentes cortavam os céus.


31 de outubro
9:12 am


Acordar cedo no dia seguinte foi a tarefa mais difícil que teve que fazer naquela semana, e olhe que estava até evitando pensar no fiasco do feitiço da madrugada passada.
Agora, enquanto ajeitava a decoração de bruxinhas penduradas no cordãozinho da cafeteria em que trabalhava, a mulher observava um grupo de garotas passeando e comentando com entusiasmo sobre suas roupas para o baile encantado. Ela retraiu seus lábios, prendendo um rolar de olhos completamente teatral.
Não era como se também não tivesse sua própria roupa a esperando em casa para a festa que iria assim que a lua tomasse o lugar do sol. A diferença era que, ao invés de comprar peças novas, usaria um vestido que havia conseguido em um brechó. E, de todo coração, ela esperava que ninguém notasse aquele pequeno detalhe.
Após terminar de arrumar a decoração um tanto capenga, a mulher voltou até a parte de trás do balcão, onde começaria a atender os clientes, e, dois minutos depois, como se apenas esperando que se desocupasse, logo o primeiro cliente apareceu.

— Bom dia — O rapaz a cumprimentou, de maneira educada.
sorriu sem mostrar os dentes, e assentiu de leve com a cabeça.
— Seja bem-vindo ao Bluefarm’s, como posso te ajudar? — Como se já tivesse decorado aquela fala insuportável, ainda assim ela disse, da forma mais gentil que conseguiu.
O rapaz olhou para o menu que estava no topo da parede atrás de , levando uns dois segundos para decidir. Ela precisou conter o simples ato de bufar para isso, já que era bem mais simples ter decidido antes de ir lá falar com ela, e não no momento em que estava fazendo o pedido. Assim ninguém atrasava a vida de ninguém, ela pensou. Mas é claro que o homem não pensava do mesmo jeito.
— Um machiatto — ele disse, voltando suas íris para o rosto um tanto impaciente da garota.
Ela repetiu o pedido que foi feito apenas para que tivesse certeza de que não entendeu errado e então o pagamento foi feito. Porém, era nítido o peso do olhar do homem em sua direção, e ele queimava, já que ele sequer fazia o favor de ser discreto.
— Eu te conheço de algum lugar? — ele perguntou, deixando que sua curiosidade vencesse.
, que até então, preparava o seu pedido, o fitou por cima dos ombros.
— Não — disse, depois de olhar de cima a baixo e se certificar que não tinha ideia de quem ele era.
Não que fosse necessário qualquer inspeção mais duradoura, o homem tinha uma aura tão diferente do que a jovem bruxa estava acostumada em Ravencross, que era impossível não diferenciar de todas outras que já tinha sentido.
Uma risadinha foi deixada sair de maneira ladina pelo homem assim que estava prestes a entregar o café.
— Eu sei que não nos conhecemos — admitiu. — Estava tentando te cantar.
estalou a língua no céu da boca e, astuta como era, estreitou os olhos.
— Bom, então deveria melhorar seus métodos, porque isso foi péssimo… — falou, escrevendo o nome dele no copo do café, e depois desenhou uma carinha feliz ao lado.
Dom sorriu e a pequena covinha que tinha em seu queixo se sobressaiu ao rosto muito bem desenhado. lutou para que não se perdesse em seus traços, caso contrário ficaria muito nítido.
— Eu nunca disse que era bom em fazer isso. — se defendeu, sorrindo travesso.
deixou o machiatto no balcão e arrastou de leve em direção ao homem.
— Ainda bem — concordou, prendendo o riso.

O rapaz pareceu não se incomodar com o humor um tanto quanto azedo da mulher, ele apenas acenou e sorriu, levando a mão até o copo de café para pegar e ir embora. Tudo bem a cantada ter sido péssima, ele pensou, ao menos tinha conseguido tirar um sorriso da sua face emburrada. Não se importava de fazer papel de idiota.
Quando, ao pegar no copo, seus dedos encostaram nos dela, uma faísca singela implodiu no ar e ambos os dedos foram afastados rapidamente, já que o choque foi intenso para os dois.
chiou, balançando a mão no ar repetidas vezes; apenas levou o dedo até seus lábios e, por reflexo — como se tentasse estancar um sangramento — , o lambeu.
Ambos se encararam no segundo seguinte, mas nenhuma palavra foi dita. O olhar trocado foi intenso e fervoroso, aquilo tinha acendido algo entre os dois que antes não existia, e o mais engraçado? Eles sequer sabiam explicar o motivo ou razão.

— A gente se vê por aí, acenou de leve com a cabeça para a garota, sorrindo de lado.

Só depois que o homem tinha ido embora, ainda meio confusa com o que tinha acontecido, que o cérebro de pareceu estalar em um alerta de aviso, ou perigo, ela ainda não soube decidir.
Não tinha dito seu nome para o rapaz. Sequer estava com o crachá com seu nome — já que havia esquecido de colocar quando saiu de casa.
Como aquele homem sabia seu nome? Por que ele parecia tão confiante e confortável em falar com ela? E, o mais importante, por que se pegou ansiosa para encontrar com ele novamente?


31 de outubro
3:33 pm



O movimento no Bluefarm’s estava fraco, a cidade inteira estava esperando ansiosamente pelas 9 da noite, horário oficial em que o baile encantado começaria e todos os cidadãos, seja de qualquer classe social — mágicos ou não —, poderiam esquecer, por uma noite, suas realidades.
olhava para o relógio pendurado na lateral da parede com estampa de café e suas variações, de minuto em minuto. Querendo ou não, por mais que dispersasse seus pensamentos, algo nela sempre acabava voltando para aquele choque intenso e sem explicação que teve com o cliente misterioso que sabia seu nome mesmo sem ter dito nada a ele sobre.
O cheiro de terra molhada, seguido do forte barulho de trovão e da água densa caindo no chão com força foi o que lhe tirou dos seus pensamentos. olhou diretamente para a entrada do café assim que o sininho — apontando que outro cliente tinha entrado — tocou.
O homem estava completamente encharcado e resmungava algo para si mesmo, sacudindo sem parar os braços e a pasta que estava em mãos.

— Precisa de ajuda? — perguntou solicita, saindo da parte de trás do balcão de atendimentos para ir até o rapaz, oferecendo a ele alguns papéis toalhas.
— Bom senso para não sair de casa sem um guarda-chuva — ele respondeu, rindo de leve e aceitando o que a atendente lhe estendia.

O rapaz não parecia ser muito mais velho que a jovem bruxa, talvez uns três ou quatro anos, ela poderia arriscar. Ele deixou sua pasta em cima de uma das mesas e começou a se secar parcialmente, voltando a grunhir como um velho ranzinza sobre sua própria displicência.
olhou aquilo e achou adorável, não que fosse comentar, mas logo voltou para atrás do balcão de pedidos, limpando o mármore enquanto lançava um ou outro olhar mais demorado no rapaz, se perguntando como nunca tinha visto ele pela cidade.
Não que fosse um pré-requisito conhecer todo mundo, mas levando em consideração o quão pequena Ravencross era, e que querendo ou não, trabalhava na cafeteria mais bem movimentada e popular da região, então, ela meio que sabia quem eram os habitantes da pacata cidadezinha.
Mas, definitivamente, àquele cara — assim como o que apareceu mais cedo — não tinham nada de habituais.

— O que você recomenda? — O homem perguntou para a garota, olhando para o menu escrito em letras bonitas e que imitavam giz, bem atrás de .
— Um banho quente, roupas secas e talvez um chá — comentou .

Mas só depois que se deu conta de que não era exatamente isso que ele estava esperando que ela respondesse. A prova foi tanta que o rapaz vincou de leve as sobrancelhas e depois levantou uma, olhando para a atendente com um ar brincalhão.

— Por Deus, desculpe — Ela se desculpou rapidamente, sentindo o rosto e pescoço esquentarem. — Eu… — Limpou a garganta, pensando rápido. — Mocha! — disse a primeira bebida que passou em sua mente sem filtro.

O rapaz sorriu e riu nasalado, achando divertido ver que a mulher parecia envergonhada.

— Já que não posso ter a roupa seca e o banho quente agora, vou querer o que sugeriu — comentou risonho, tirando a carteira do bolso.

sequer levantou os olhos da máquina registradora, anotando rapidamente o pedido do homem e o informando o valor a ser pago.
Ele ficou observando, curioso até demais, quando ela se virou para a máquina de café e começou a preparar seu pedido. Algo na forma como ela se movia estava o intrigando. Não a conhecia, mas sentia uma enorme necessidade de continuar falando com a garota.

— Trabalha aqui há muito tempo? — Ele tentou puxar assunto, e o olhou por cima dos ombros, acenando brevemente em afirmação.

Não era exatamente o que ele queria, já que esperava que a mulher desse continuidade a conversa. Mas tinha ficado bastante retraída com o que tinha feito, geralmente ela era mais extrovertida assim, falando até pelos cotovelos, mas com aquele cara em questão, assim que teve os olhos dele em si depois que começou a falar, algo dentro de si revirou e ela precisou parar.

— Que droga! — resmungou quando as luzes piscaram e a máquina de café pareceu ter travado.
— Algum problema? — O rapaz perguntou, se debruçando de leve no balcão.
— Você está com pressa? — questionou. — A máquina travou — resmungou, apertando alguns botões para reiniciar o sistema de coação, mas ele também parecia estar travado.

A resposta dele não chegou, no entanto, — não verbalmente —. se assustou levemente, dando um pulinho ao sentir a presença do homem atrás de si, como ele tinha passado pelo balcão sem que ela notasse, era um mistério, já que as vigas da dobradiça estavam enferrujadas e fazia um barulho fino e estridente.

— Você não pode entrar aqui! — disse, ligeiramente se afastando do homem, até mesmo um pouco irritada.

O homem não respondeu, continuou tentando destravar a máquina, já que era um pouco habituado a consertar coisas. , no auge de sua infantilidade, começou a murmurar um simples feitiço de choque, controlando a intensidade de sua emoção para que não passasse de um simples susto.
Foi o que aconteceu. O homem chiou e balançou a mão no ar, fugindo do toque da máquina e grunhindo baixinho. fitou aquilo e prendeu a risadinha em seus lábios em uma tosse fingida.

— Você está molhado, não deveria estar mexendo nessas coisas — ela falou de forma bem sonsa, e o homem em questão estreitou os olhos, encarando a garota de relance.

Ele parecia saber de algo que ou não sabia, ou não tinha se dado conta ainda. Se virou para frente, tocando na máquina de café outra vez e, como em um passe de mágica, ela voltou a funcionar.

— O q…? — olhou aquilo perplexa. — Como você fez isso? — questionou, se aproximando outra vez e apertando alguns botões, vendo que o café começou a sair perfeitamente no copo de plástico que tinha deixado no suporte.
— Sou bom com máquinas. — Ele deu de ombros, como se aquelas 4 palavras explicasse tudo.
— Deveria ser bom também em respeitar o espaço de funcionários — ela murmurou, mas só se deu conta de que talvez tivesse dito alto demais quando ele riu. — Me desculpe! Sério! — Seus olhos se arregalaram, notando que tinha cometido, pela segunda vez, um erro com um cliente novo.
— Tudo bem — comentou, ainda risonho. — Talvez eu tenha merecido essa. — Acrescentou, levantando as mãos até a altura do ombro, em sinal de rendição.
— O seu pedido será por conta da casa — anunciou, tentando não piorar mais a sua situação.

O homem riu de forma misteriosa, aproveitando que tinha se virado para prestar atenção no seu pedido para sair da parte interna.

— É para funcionar como um pedido de desculpas ou coisa parecida? — perguntou para .

A garota se virou, já com o copo fumegante ao redor dos seus dedos, e abriu um sorriso enviesado para o rapaz — não sem antes notar que, novamente, ele passou pelo balcão de forma tão silenciosa que ela não percebeu de novo. Mesmo que agora estivesse atenta.

— Ou coisa parecida — repetiu, deixando o copo na frente dele.
— Hm, só o café não vai servir, então — rebateu sugestivo, dando um gole no mocha. — Mesmo que ele esteja maravilhoso.
— E o que você quer? — cruzou os braços, de forma pensativa, olhando para os expositores com sobremesas e alguns salgados que ainda tinham. — Os cookies são de hoje, o croissant tenho recheado de qu…
— Quero o seu nome e saber se está solteira — A resposta dele foi tão direta e dita de um jeito tão calmo, que levou as orbes até sua imagem outra vez, notando que ele realmente falava sério.

abriu e fechou a boca algumas vezes, engolindo a saliva que parecia estar pesando uma tonelada em sua boca. Seu coração ganhou uma velocidade que não estava habituado e ela respirou fundo.

— Está falando sério?
— Meu nome é , e eu estou solteiro — falou para ela. — Agora é a sua vez.
… — repetiu, como se estivesse testando o som pela sua própria voz, precisando até mesmo prender um sorrisinho que quis vir. — — disse o próprio nome ao rapaz. — Solteira também.
— Viu, só ? Esse foi o melhor pedido de desculpas que eu já recebi — ele falou de forma arteira.

Então pegou um guardanapo e tirou uma caneta de dentro de sua jaqueta, começando a anotar algo só para depois entregar a ela, que sentiu as bochechas corarem ao ver que se tratava de seu número.

— Vou estar na festa a fantasia hoje, me manda uma mensagem — informou, piscando um dos olhos para a mulher antes de pegar seu café.
— Eu… hm… ok? — ela respondeu um pouco hesitante, ainda sem acreditar que aquilo estava mesmo acontecendo.

Então um estalo veio em sua cabeça: será que o feitiço deu certo?
Não… Quer dizer… Não parecia nada grandioso aquele pequeno encontro. E geralmente era. Dava para sentir nos ossos quando um feitiço daquele porte dava certo — não que tivesse tentado antes, ou qualquer experiência, estava se baseando apenas no que tinha lido no grimório de sua mãe.

— Te vejo na festa, . Vou ficar aguardando sua mensagem — balançou o celular de leve no ar, acenando para a mulher antes de sair do estabelecimento.


31 de outubro
8:26 pm


A chuva tinha parado quando chegou ao baile encantado.
As luzes de Ravencross pareciam flutuar, refletidas nas poças que restaram da tempestade. As árvores da praça central tremulavam sob a névoa azulada, e, ao longe, a música doce e lenta ecoava do grande salão de vidro onde o evento acontecia.
Ela parou diante da porta principal e respirou fundo. O colar de quartzo rosa em seu pescoço — o mesmo que havia sobrado do feitiço — pulsava fraco, como um coração ansioso.
“Um feitiço que muda destinos”, ela lembrou.
O salão estava mágico. Candelabros de cristal flutuavam entre guirlandas de luz, mesas repletas de maçãs enfeitiçadas e taças que se enchiam sozinhas de ponche reluzente. Máscaras douradas escondiam rostos conhecidos, e por um instante, sentiu-se como uma intrusa em um conto que não lhe pertencia.
observava tudo do alto da escadaria, o coração batendo no ritmo das notas mágicas. Seu vestido vinho, de veludo gasto, parecia ter vida própria — um encantamento discreto que fazia o tecido brilhar sob a luz das velas —, e caminhou até o centro, distraída. Então, sentiu.
Um olhar.
Um toque invisível em sua mente, como se alguém tivesse sussurrado seu nome dentro dela.

“Agatha.”

Ela virou-se, confusa, e o viu.
.
O homem da cafeteria. O sorriso afiado, o olhar de um azul tão profundo que parecia conter o próprio céu noturno. Vestia-se como um príncipe celeste, com uma capa prateada e pequenos pontos de luz bordados que imitavam constelações.
Ele se aproximou devagar, a música desacelerando ao redor.

— Achei que você não fosse aparecer. — A voz dele era baixa, carregada de um timbre que parecia hipnotizar.
— E perder um baile cheio de gente fantasiada e ponche suspeito? — retrucou, tentando soar leve, mas o coração martelava contra o peito.
riu, e o som pareceu deslizar por dentro dela.
— Você está linda, bruxinha.
Ela sentiu o calor subir ao rosto, mas antes que pudesse responder, uma pressão sutil tocou sua mente. Como se algo — ou alguém — estivesse dentro dela, sondando seus pensamentos.
… o que você está fazendo? — ela perguntou, sem perceber que falava em voz alta.
— Você sentiu, não foi? — Ele ergueu as sobrancelhas, surpreso, depois sorriu de forma quase culpada.
— Sentir o quê, exatamente? Que alguém está tentando invadir minha cabeça? — cruzou os braços, alarmada.
respirou fundo.
— Eu não faço por mal. Sou telepata. Não costumo usar... a menos que algo me chame. — Ele deu um passo à frente, o olhar fixo nela. — E desde ontem, , é como se sua voz ecoasse dentro de mim, como se estivéssemos conectados por alguma coisa antiga.

Ela ficou em silêncio. O feitiço.
O cometa.
As duas pedras de quartzo.
Mas antes que pudesse reagir, as luzes do salão piscaram. Um estalo ecoou — seguido de outro, e outro. Um vento frio entrou pelas janelas, e, junto dele, uma presença. Quando as portas se abriram, uma figura entrou, os cabelos ainda úmidos da chuva, o terno escuro contrastando com o brilho do salão. .
Ele caminhou firme até o centro, e o ar pareceu vibrar ao redor dele. Cada passo fazia as lâmpadas piscarem, os lustres tremerem levemente, como se a eletricidade reconhecesse o próprio dono. Quando as portas se abriram, uma figura entrou, os cabelos ainda úmidos da chuva, o terno escuro contrastando com o brilho do salão. .

— Espero não estar atrasado — disse, parando diante dela.

ficou sem fala. Dois homens, duas auras completamente diferentes — e ambas familiares de um modo impossível de explicar. observava com atenção, e, por um instante, algo brilhou no olhar de ambos. Reconhecimento? Rivalidade? Era difícil dizer.

. — disse seu nome com naturalidade, e o som fez o colar dela brilhar. — Você não devia ter mexido com o poder do cometa.
Ela piscou, surpresa.
— Como você sabe sobre isso?
ergueu a mão. Na palma, um pequeno arco elétrico dançou, iluminando seus dedos.
— Porque o cometa me chamou também.

O ar se tornou pesado. O quartzo em seu colar pulsava forte, quase doloroso, e, sem aviso, duas fagulhas — uma azul, outra prateada — saíram do centro da pedra, flutuando até os bolsos dos dois homens. e tiraram de lá pequenas pedras idênticas, faiscando luz. Três pedras. Três almas.

— Isso não é possível… — murmurou , recuando.
se aproximou, as íris cintilando com um brilho sobrenatural.
— O feitiço não falhou, . Ele se dividiu.
completou:
— Você pediu para o destino te mostrar sua alma gêmea. O cometa apenas te mostrou toda a verdade.
— E a verdade — acrescentou, olhando-a com ternura — É que somos três partes do mesmo todo.

O colar brilhou tão intensamente que o salão inteiro pareceu dissolver-se em luz. O som da música desapareceu. As pessoas ao redor sumiram, transformadas em sombras difusas.
, e estavam agora sob um céu aberto — o cometa Lovejoy cruzando lentamente o firmamento acima deles novamente, deixando um rastro prateado que se dividia em dois.
O vento soprou, carregando o cheiro de chuva e magia antiga. As pedras de quartzo flutuaram entre os três, girando em círculos até se fundirem em um feixe de luz rosada que se estendeu entre eles como um elo vivo.
sentiu as emoções dos dois — , intenso e instintivo, o fogo que fazia seu sangue ferver; , calmo e protetor, o raio que clareava a escuridão.
O poder deles dançava ao redor dela, completando-a.
O feitiço não havia revelado “um” amor verdadeiro. Havia revelado o amor completo.

, o fogo da mente.
, o trovão do coração.
— E eu… — ela sussurrou — o elo que os uniu.
deu um passo à frente.
— Eu senti você antes mesmo de te conhecer. A tua voz, os teus pensamentos. —
— E eu te senti quando a tempestade caiu — disse , aproximando-se. — A eletricidade do ar... era você.
As três luzes se tocaram, e uma explosão suave iluminou o céu.
Lovejoy passou sobre eles, e, de sua cauda, duas estrelas cadentes cortaram o firmamento ao mesmo tempo.
— Parece que o universo se recusou a escolher. — abriu um sorriso trêmulo.

tomou sua mão esquerda. , à direita.
E, unidos sob o brilho do cometa, os três sentiram o feitiço se fechar — não como prisão, mas como laço.


FIM.


Nota da autora: Esta autora ainda se encontra sem palavras para esse surto coletivo. Porém, peguem leve, Polaris aqui nunca escreveu nada parecido com isso antes.


Se você encontrou algum erro de codificação/revisão, entre em contato por aqui.



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