Quando estava em Saint Vincent’s, costumava passar meu tempo livre pensando em onde iria estudar no próximo outono.
A Valley View Elementary School oferecia vagas limitadas para as crianças do orfanato, porque a alcunha de ser pública não significava terra de ninguém, como tinham explicado para a senhora Coppola. Aceitamos famílias que não tem dinheiro, mas ah, como aceitaremos crianças que podem nos deixar a qualquer momento?
Era isso o que a coordenadora dizia, com um sorriso enorme e perverso, sem esconder por nenhum minuto o quanto achava garotos indigentes uma peste da humanidade.
De qualquer forma, aplicavam uma prova metodicamente impossível para crianças que aprendiam a se alfabetizar, na enorme maioria das vezes, no centro da sala enorme e conjugada do casarão da Saint Vincent’s, e sempre ficavam ternamente surpresos quando algum deles passava. Quando eu passava, melhor dizendo, mesmo que a prova fosse aplicada todos os anos. E assim, frequentei aquele prédio com pintura bege fosca a quase 15km do orfanato mais como necessidade do que qualquer outra coisa. As aulas eram legais, a maioria dos professores também — alguns deles compartilhavam da mesma opinião da coordenadora megera sobre órfãos, mas não tentavam me fazer chorar ou coisa parecida —, e o fato de não ter nenhum fantasma mais legal ainda.
Ainda assim, minhas férias eram sempre rodeadas das mesmas perguntas: ainda vou pisar aqui no ano que vem? Vou poder frequentar um lugar diferente? Morar em um lugar diferente?
Vou ter pais?
Esse era o tipo de pensamento intrusivo que, quando vinha, eu o afogava na mesma hora, no mesmo segundo, fingia que não existiam. Odiava dar poder a uma curiosidade que reforçaria o estigma de criança coitadinha que foi abandonada pelos pais em um orfanato no interior. Odiava o que essas coisas poderiam se tornar caso eu desse ouvidos a elas. Odiava ainda hoje, mesmo quinze anos depois, então não. Sempre tive problemas maiores e bizarros para me preocupar do que quem foram as pessoas que me colocaram no mundo e porque me jogaram de volta para ele.
No final, acabava ficando tudo bem se eu tivesse que voltar para Valley View. Como disse antes, um lugar sem fantasmas se transformava num oásis ou na Terra da Moranguinho para mim, mesmo que fosse um cenário da prisão de Shawshank na prática. A única pessoa que eu me despedia no horário de saída era de Vito Brando, o zelador de cabeça raspada e tatuagem na nuca que só usava um macacão azul com umas faixas brancas costuradas às pressas, dando histórias para contar as outras crianças, que juravam que as inscrições por baixo das faixas era o número de série dele na prisão. Olhando para o sujeito, não dava para não acreditar nisso.
Mas naquele dia, depois de ter apanhado para valer naquela salinha na Dungeons e me arrastado como um desgraçado ao meu quarto depois de ter conversado com Elliott e apagado como se tivesse levado mais um golpe na nuca e fosse jogado em uma cova, me surpreendi com o fato de ter sonhado justamente com o senhor Brando. Não com ele propriamente dito, mas com alguma coisa que tinha acontecido, ou parecia ter acontecido, já que não me lembro de coisa nenhuma assim. Em um dia qualquer, eu ouvia o sinal estridente de Valley View indicando o fim das aulas às quatro da tarde, juntava minhas coisas com lentidão, desviava dos pés esticados de alguns valentões na saída da sala, que sempre procuravam as menores oportunidades para fazer o orfãozinho cair de cara no chão, andava até a saída dos fundos e encontrava o senhor Brando varrendo as escadas, juntando a poeira do pequeno campo de futebol e da ventania do litoral na base de pedra. Levantava o braço direito para ele e dava um tchauzinho.
— Aprendeu muitas coisas hoje, garoto? — ele me perguntava.
— Aprendi. Sabia que a senhora da cantina tem uma verruga na ponta do nariz e sai cabelo por ela?
Ele gargalhava. Ninguém tinha uma gargalhada como Vito.
— Sabia, garoto. Sabia que ela nunca precisa de fantasia para o dia das bruxas? Você entendeu porquê, não é?
Eu ria de volta e ia para o meu ônibus. Adorava aquele cara da mesma forma como crianças adoram coisas que não tem muito embasamento. Quando a gente cresce, parece procurar sentido e motivos para gostar de tudo, e confesso que fiquei um pouco assim, já que as pessoas sempre repensariam se gostariam ou não de um garoto que fala com os mortos. Esquisitices tinham limites. Com Vito era diferente.
Mas enquanto eu andava até o ônibus amarelo estacionado no meio-fio do outro lado da calçada, me lembrei de outra piada sobre bruxas e virei para trás. Vito estava no mesmo lugar, movendo a vassoura vigorosamente para frente e para trás enquanto juntava agora pedaços grandes de folhas secas e mortas do outono. Mas havia algo se mexendo junto com ele.
A imagem me veio nitidamente mais como lembrança do que sonho, e não sei explicar o quanto isso foi esquisito.
Uma sombra delineava todo o corpo de Vito, transformando toda a sua imagem, como se a alma dele tivesse descolado do corpo e saltasse para fora, permanecendo perto o suficiente como uma elevação em 3D num papel. A sombra repetia seus movimentos, andava com ele, o observava, mas não parecia ele, parecia… Grudado dele. Um conteúdo numa caixa. Um líquido dentro de um tubo de ensaio que vazou para fora.
— Ei, garoto! — a voz de Forrest rasgou minha atenção, gritando de dentro do ônibus, sentado no banco do motorista com seu inseparável cigarro entre os dentes. — Não vai entrar, garoto? Você ainda compra passagem, garoto?
Era assim. Como eu não tinha um sobrenome oficial, meu nome era garoto. As pessoas não pareciam saber uma forma mais educada de se dirigir a um órfão.
Percebi que tinha parado de andar e recomecei, olhando uma última vez para trás e vendo que a sombra no encalço de Vito não havia sumido. Em vez disso, ela se transmutou em outra coisa. Um homem enorme, com músculos avantajados, dedos grossos e fortes que se estenderam na direção da vassoura e a empurraram para o chão. O senhor Brando xingou, não vendo nada. Em seguida, a sombra ergueu uma das pernas e afundou o pé na articulação do joelho direito do zelador. Brando caiu com um gemido.
Parei de novo. Pensei em correr para ajudar, mas não consegui. Meu corpo tinha parado, a corrente sanguínea sendo substituída por água gelada. Chocado. Chocado com algo que só eu entenderia.
— Moleque! — gritou Forrest. Esse era tipo meu apelido para ele. — Não tá ouvindo?
Uma música aleatória começou a soar no fundo dos meus ouvidos. Forrest devia ter ligado aquele radinho que sempre ligava nas viagens, ecoando sons horríveis de funk music dos anos 60 ou o noticiário local, mas não se parecia com nada daquilo agora. Não dava para entender direito — os acordes eram animados e fortes, uma mistura de Duke Ellington soando em batida rock ‘n roll.
Mas a música era o menor dos problemas. Continuei olhando para Vito. Continuei olhando para a sombra. A sombra que tinha tocado nele.
— Moleque, escuta! — Forrest gritou de novo.
Não voltei para a Valley View no próximo outono. Eu iria começar a frequentar a Archbishop Riordan High School em São Francisco, sob o teto de Hymie e Mary , com um sobrenome oficial e apropriado. Nunca mais pegaria um ônibus amarelo escolar caindo aos pedaços, e sim um Chevrolet Cobalt dirigido por um senhor de 70 anos, que sempre dizia: lá vamos nós, senhor . Quer um sorvete ou um livro do Richard Preston? Só pode escolher um. Nunca mais estaria junto com o senhor Brando ou qualquer outro zelador, porque agora sairia pela porta da frente da escola, não desviaria mais de pés ou bolinhas de papel que me acertavam, faria alguns poucos amigos e estaria junto com professores que sugeririam novamente que eu pulasse o ano e fosse para Stanford mais cedo.
Nunca mais pensei no senhor Brando. Nem me lembrava de sua existência. Mas agora me recordava nitidamente de suas insistentes reclamações de dores no joelho, como se elas tivessem acontecido ontem. De como ele sentia falta de ar em momentos inconsistentes, como beber água. De suas olheiras despencando dos olhos e sua necessidade de ir sempre à cidade visitar um velho amigo.
Lembrei do dia em que começara a sangrar pelo nariz no meio do corredor.
E agora me lembro que tinha morrido. E continuava varrendo a poeira da escada.
— GAROTO, ESCUUUUUTAAAAAA…
Abri os olhos como se levasse um choque. Sentei ereto na cama, a cabeça zoneando, enxergando só escuridão. Um ponto de luz gritava e piscava no quarto, vindo da mesinha de cabeceira, um som que brilhava naquela música insuportável de “tananinananao, nenenene” de Jack the Bear com harmonias de Black Sabbath.
Duke Ellington. É claro.
Alcancei o celular com os dentes trincados.
— A partir de hoje vou mudar esse toque. Isso é tortura. — resmunguei, assim que consegui arrastar o ícone verde para o lado. Ainda estava sentindo um estranho embrulho no estômago, as pontas dos dedos frias como gelo.
— De jeito nenhum! Esse toque é perfeito. — Mary respondeu em sua voz normal, mas para os meus ouvidos recém acordados, soaram umas três oitavas a mais. — Como mais você vai saber que sou eu? Um clássico do Duke que ninguém com menos de sessenta anos toleraria só pode ser a sua mãe.
— Já ouviu falar em identificador de chamadas, mãe? É uma invenção moderna. Revolucionária, até.
— E daí? Nosso toque é uma declaração. Vou saber se você se livrar dele e ficar muito triste. — sabia que ela estava fazendo um biquinho de desaprovação, mesmo sem ver. Ela sempre fazia isso quando eu tentava argumentar contra seus costumes bregas e ultrapassados.
Barulhos repetitivos em cima de uma superfície de madeira e, em seguida, o chiar de uma panela no fogo indicavam que Mary estava na cozinha. Fui relaxando lentamente os músculos, sufocando um gemido de dor tardio por ter levantado rápido demais. A escuridão estava menos impenetrável no quarto, mas ainda era muita escuridão. Não fazia ideia de que horas eram.
— Eu te acordei? — ela continuou, e pude ouvir o tilintar de talheres e outras conversas baixas ao seu lado. — Por que está dormindo uma hora dessas?
De que horas estávamos falando?
— São as aulas. — de qualquer jeito, a resposta estava sempre na ponta da língua. — Oskar anda me mandando ler mais do que o normal. E ando virando umas noites no plantão do HICCC. Eles falsificam minha carteirinha.
— É o quê?
— Brincadeira. — falei antes que ela ficasse nervosa. Ainda estava com muito sono para irritar Mary hoje. — Você imagina porque quero agarrar qualquer horinha livre pra dormir.
— Ah, querido, é claro! Como pude esquecer! Você foi o número 1 de novo, meus parabéns! Marla, foi o número um de novo! Estou criando um prodígio! — ela afastou o telefone para chamar nossa empregada. Pude ouvir as felicitações dela ao fundo. — Seu pai está em uma reunião importante com convidados de Londres na sala de estar, mas ele também ficou feliz! Com certeza vai te ligar amanhã. — e com certeza ela estava com um sorriso de ponta a ponta por isso. — Já escolheu seus orientadores do internato? Eu e seu pai estávamos fazendo uma lista, e vimos que Michael Pacino da pediatria do Hospital Memorial de Chicago está disponível e adoraria te conhecer! Tenho certeza que se eu conversasse com o diretor…
— Você não vai fazer isso. — interrompi em um tom calmo, porém sério. Estava ali um dos maiores motivos que me deixavam nervoso em relação à Mary nos últimos cinco anos. Estava sempre precisando pará-la antes que ela assumisse o banco do motorista da minha vida e me rebaixasse a um mero passageiro, ditando as direções e decisões por mim. — Ainda faltam uns três meses antes que eu comece o internato, e não sei se crianças choronas seriam minha primeira opção.
— Mas você é ótimo com crianças.
— Não sei de onde tirou isso.
— O sobrinho de Marla. Não se lembra? Você o ajudou com matemática.
— Ele não era uma criança. — rebati, lembrando-me daquele carinha de quinze anos que estava quase passando do meu tamanho e que ainda estava na escola primária por ter repetido o ano umas zilhões de vezes, tendo uma dificuldade absurda em fazer contas de multiplicação com números quebrados. Mary sabia que cálculos não eram muito a minha área (a não ser que envolvessem medidas, fórmulas prontas e um acervo gigante de regras de três), mas achou que eu poderia ajudá-lo — e eu realmente ajudei, pelo menos com os números. Com as drogas e as gangues, aí já não tinha muita coisa que eu pudesse fazer. Ocorreu-me que ele sempre agia de modo nervoso e inquieto toda vez que precisava pisar lá em casa, mas se roubou alguma coisa de valor, nunca fizeram o favor de me contar. — E de qualquer forma, vou precisar passar por elas até a formatura, não preciso me apressar pra conhecê-las agora. Prometo que vou decidir isso antes de fevereiro, tá bom? O que está cozinhando?
— Adivinhe só! Vieiras com parma! — ela riu e aceitou bem a mudança brusca de assunto, tagarelando um pouco sobre os temperos, tempo de cozimento e a importância do tipo de louça que precisava ser usada para servir uma porção de comida tão insignificante, mas que era um prato cheio para a etiqueta. Em dois minutos, tinha esquecido o assunto do internato. — O doutor Del Rey trouxe uma louça tailandesa de presente e seria falta de educação não usá-la no jantar, apesar de eu particularmente preferir aquela que compramos em Roma, você lembra? Mas seu pai insistiu que usássemos a dele. — ela bufou e pude sentir seus olhos se revirando nas órbitas.
Ouvir minha mãe papeando sobre jantares executivos em casa enquanto picava os legumes, preparava o molho, conversava com Marla e ouvia jazz baixinho, me deixava nostálgico e com saudades de casa. Podia visualizá-la usando seu avental rosa com bolinhas brancas, um coque perfeitamente alinhado, preparando uma comida deliciosa usando salto e maquiagem. Parecia uma bolha de perfeição onde nada, nenhuma única coisinha ruim poderia acontecer.
— Não vejo a hora de ver você em casa, meu bem! Sua avó vem para o Natal e vamos preparar aquele clam chowder que você adora. E por falar nisso, como está o clima por aí? Aqui o inverno se aproxima, mas as pessoas continuam indo à praia, você bem sabe como. Um cliente do seu pai da Flórida nos convidou para passarmos o feriado de ação de graças na fazenda, e eu estaria melhor se você pudesse ir junto. — ela suspirou tristemente, já imaginando minha resposta.
— Ação de graças em um lugar deserto cercado de cavalo, grama e cigarras? Vou precisar de um tratamento psiquiátrico depois. — soltei uma risadinha, e ela resmungou algo como “idiota”. — Já conversamos sobre isso antes. As pesquisas no HICCC precisam muito de mim nesse semestre, e não vai fazer mal você e papai passarem o feriado com outras pessoas. A sua comida fará todos bem mais felizes, aposto que nunca provaram um molho de cranberry como o seu.
— Eles provavelmente devem contratar uma cozinheira. — resmungou.
— Eles vão te provocar desse jeito? Que gente mais sem coração. — joguei as pernas para fora da cama, esticando mais os ombros. Percebi que uma fresta particularmente grande da cortina estava aberta, jorrando uma luz forte e branca dos postes para dentro do quarto, o que causaria um grande déficit do meu sono dependente da escuridão total, e como não havia ninguém para fazer isso além de mim… — Dá essa chance pra esses manés executivos, vai. A esposa desse cara não é aquela que é professora de yoga?
— Na verdade, ela é especialista em Niyama e Pranayama.
— Nomes difíceis de coisas que doem o corpo, que seja. Vai pro meio do mato e mostra pra ela os seus seis dias por semana de pilates. Vou ligar duas vezes para ter certeza que você está se comportando.
Ouvi uma risada e uma fungada ao mesmo tempo. Mary estava finalmente começando a ficar emotiva.
— Vai ser a primeira e última vez. — disse, com a voz embargada, mas que logo se recuperou. — Não gosto dessa ideia. Sinto sua falta. Eu e seu pai vamos te ver assim que ele conseguir fechar esse contrato hoje, fiquei sabendo que o reitor Belfort está organizando um recital de Natal. Aí podemos voltar para São Francisco todos juntos.
— Combinado.
Eu esperava ter resolvido todos os meus problemas antes do Natal.
Ouvi Marla falar algo sobre pôr a mesa e mais tilintar de talheres.
— Vou ter que desligar, querido. Parece que a reunião terminou.
— Tudo bem, mãe. Manda um abraço e boa sorte ao papai.
— Você está bem, não é? Estou tão atarefada que até me esqueci de perguntar… — sua voz agora estava estourada, provavelmente porque estava equilibrando o telefone no ombro com a cabeça tombada enquanto andava pela cozinha e organizava os petiscos. — Está precisando de alguma coisa? Você está se alimentando direito? Comidas de delivery e restaurantes de universidade não se enquadram como direito, caso você esteja pensando nessa resposta.
— Abriu uma barraquinha ótima de churrasco na Rua 88, você ia adorar, janto lá toda semana. Mas acho que os vizinhos começaram a reclamar que seus gatos estão desaparecendo…
— Não tem graça. — ela cortou, e não pude aguentar uma risada que doeu cada milímetro de músculo do nariz. — Está correndo ainda? É importante se exercitar, mesmo que você não tenha muito tempo. E não quero te ver com um cigarro na boca de novo!
— Cheguei aos 80kg no supino, é um número importante aos 22 anos. — não pretendia contar quando foi a última vez que eu tinha feito um supino.
— E o Elliott? Está te fazendo companhia? Besteira, esse garoto não larga do seu pé. — ela suspirou e ouvi os pratos sendo empilhados um a um. Ouvi mais uma vez a voz de Marla.
— Está tudo em ordem, mãe. Vai servir o jantar antes que papai comece a ter de contar as piadas de golfe pra entreter os convidados, ninguém merece isso.
— Você tem razão! — ela riu. — Te amamos, querido. Estou com muitas saudades!
— Eu também, mãe.
O visor do celular marcava 20h00 da noite quando desliguei. Ainda não me sentia completamente descansado. Além das dores no corpo, tinha aquela confusão mental, o esforço que meu cérebro estava fazendo para tentar lembrar de alguma coisa. Uma sensação esquisita demais.
Andei até o banheiro, ligando a torneira e jogando um pouco de água no rosto. A palidez continuava ali, nada convidativa, dando um aspecto doente e mirrado. Os hematomas diminuíram de tamanho, mas permaneciam da mesma cor, o que significava que eu precisaria de outra banheira de gelo.
Voltei para a cama com o intuito de tentar dormir de novo. Senti que poderia dormir por pelo menos dois dias inteiros, procurando as melhores desculpas para minha ausência nas aulas práticas, nas reuniões com Oskar, nas pesquisas do HICCC e tantas outras coisas que enchiam minha agenda imaginária, mas de repente estava sendo alvo de pensamentos desenfreados. Os mesmos de antes, aqueles que começaram fracos porque minha mente estava fraca e cansada, mas que agora estavam mais nítidos, vivos e urgentes.
Saltei da cama, colocando jeans, tênis e um moletom preto estampado com o desenho do dedo do meio torto e ossudo do E.T. de 1982. Puxei a cortina para cobrir a luz e saí, não sabendo exatamente o que estava fazendo, mas já estava fazendo. Precisava falar com Karen — afinal, era aquilo que eu fazia. E daria fim aquela história hoje mesmo. No fim das contas, ela só queria saber a resposta de Ash, não é mesmo? Uma resposta que ela mesma não poderia conseguir sozinha. Depois disso, não conseguia ver motivos para que ela estendesse o assunto.
Hoje, Karen Bracco iria finalmente partir em paz.
⛓︎
Eu nunca tinha pisado no campus fora do horário letivo desde que me mudei para Nova York, e agora estava aqui, quebrando regras pela segunda vez no mesmo dia. Sair não tinha sido difícil — os estudantes ainda circulavam aos finais de semana, já que a biblioteca, os laboratórios, restaurantes e as demais instalações com projetos ativos continuavam funcionando. A enfermaria de Irving não era uma delas, o que me fez questionar, mais uma vez, como diabos conseguiu nos colocar lá dentro da última vez.
Agora eu estava duplamente arrependido de não ter perguntado. Ela parecia saber todos os atalhos, todos os segredos, e passava as horas livres tomando chá com as amigas e lendo livros do Dickens. Pelo menos, é o que eu gostava de pensar.
Estacionei o carro do outro lado da avenida, longe o suficiente das grades pretas do portão principal. Um único vigia noturno estava na guarita, mais concentrado no celular do que em qualquer outra coisa. Sorte minha, porque meu cérebro estava esgotado para inventar desculpas convincentes.
Desci do carro e contornei as grades, mantendo distância suficiente para ficar fora de vista. Com um olhar rápido, analisei o portão. Tinha uns três metros de altura, mas as barras horizontais formavam uma espécie de escada improvisada. Fácil.
Assim que meus pés tocaram o chão do outro lado (com um baque de dor do cacete que tirou metade do meu fôlego), puxei o capuz sobre a cabeça e segui em frente, com passos rápidos e olhar fixo no chão. As luzes do campus brilhavam ao longe, refletindo no concreto, e meu coração disparou quando avistei dois vigias com lanternas. Respirei fundo e passei por eles, rezando para não ser notado.
Dois minutos depois, vi as luzes acesas dos dormitórios e soltei um suspiro de alívio. Talvez fosse um sinal de que eu não estava completamente fora de lugar. Algumas pessoas passavam por mim, provavelmente estudantes voltando de festas clandestinas. Não era o único a quebrar regras naquela noite.
Cheguei ao John Jay Hall sem ser notado, o que já parecia um milagre. O prédio era imenso, com seus quinze andares e fachada imponente. Caminhei até o primeiro elevador que encontrei, apertando o botão do terceiro andar enquanto puxava o celular para ver as horas. Tinha um prazo estipulado para três coisas importantes. A primeira era terminar de ler o novo artigo de Oskar sobre terapia com células CAR-T; a segunda era pedir que Oskar me arrumasse um formulário qualquer sobre qualquer especialização para o internato que tinha me esquecido completamente em qualquer hospital; e a terceira era responder Margot. A última vez que a vi foi no solstício de verão, em uma festa maluca em Williamsburg onde tentei com todas as forças me esquivar, mas Margot tinha insistido que eu precisava de alguns arrependimentos na vida. E eu me arrependi muito de ter saído de casa naquele dia.
O restaurante estava silencioso. Olhando-o dessa forma, parecia muito maior do que era normalmente, com a aglomeração de pessoas impedindo uma visão panorâmica do local. As mesas de madeiras vazias, os pilares também de madeira, o pé direito alto com o teto em mármore branco, os lustres espalhados pelo lugar totalmente apagados. Ele também estava vazio, e a iluminação aqui (quando ligada) era muito diferente das outras partes do prédio. As paredes tinham uma pintura lisa esverdeada, que com a luz fluorescente de dentro do teto tornava tudo ainda mais verde e doentio, como a ala de um hospital. O único barulho do ambiente eram os refrigeradores espalhados e os barulhos fracos da máquina de salgadinhos ao lado do balcão. Olhei para todas as direções, dei uma batida leve na porta escrita SOMENTE FUNCIONÁRIOS para ver se havia alguém, e quando não recebi resposta, voltei para a entrada e puxei uma das cadeiras com encosto laranja para travar a porta. Melhor prevenir do que remediar.
Suspirei e esperei.
Não é que eu pudesse chamar os mortos a hora que eu quisesse. Digo, mais ou menos. Mesmo se pudesse 100%, isso seria algo que eu definitivamente nunca faria. Mas o negócio é que eles não podiam me encontrar onde quer que eu estivesse. Fantasmas tinham uma certa condição que impedia sua mobilidade livre pelo mundo afora: eles ficavam presos aos arredores de onde haviam morrido, podendo se deslocar para dois ou três quilômetros para longe de seu ponto de partida, mas ainda assim, não completavam o trajeto de Manhattan até Long Island. Se não fosse por isso, eu já teria a casa transformada em uma taverna de assombrações, encontrando os engraçadinhos até mesmo dentro do capô do carro ou destruindo outras BMW por aí. Eles até poderiam aparecer, mas não sabiam como. Minha avó tinha explicado isso uma vez. Os mortos não tinham lembranças sólidas de tempo e espaço.
Mas no geral, se eu estava no território deles, bastava que eu chamasse seus nomes ou simplesmente pensasse neles. Sempre eficaz, não demorou muito para que a silhueta de Karen se materializasse sob a semi escuridão apavorante, pálida e com uma expressão confusa, não entendendo como tinha ido parar ali.
— E aí, Karen.
— , é você? — ela se aproximou, apertando os olhos mais como um ato de costume do que uma necessidade. Não dava para identificar meu rosto tão escondido por baixo do capuz, mas acredito que Karen não tenha conhecido outra pessoa que pudesse vê-la além de mim na última semana. — Como vim parar aqui? Nós estamos… estamos sozinhos?
— Eu chamei você. Ou invoquei, tanto faz a forma cinematográfica que você prefere interpretar. E a não ser que tenha um poodle esquecido dentro daquela cozinha, estamos sozinhos.
— Ah. — ela baixou os ombros em uma expressão indecifrável. Olhou ao redor, reconhecendo cada milímetro do lugar, o que não era estranho, já que ela frequentava aquele refeitório. De repente, fiquei curioso em perguntar se ela andava dando uma passeada em seu antigo quarto e se sua colega já tinha arrumado uma substituta, mas esse era o tipo de pergunta inconveniente que me faria dar um soco em alguém se fosse dirigida a mim. Devia ser bem merda ver as pessoas seguindo em frente enquanto você tinha ficado literalmente para trás.
Mas era para isso que servia meu trabalho e de outros esquisitões que tagarelavam com os mortos por aí: vá em frente. Siga a luz. A gente por aqui vai fazer o mesmo.
Ainda com o mesmo semblante, Karen caminhou até uma mesa de quatro lugares e se sentou, parecendo um pouco mais feliz, se é que eu poderia pensar isso, mesmo sem dar um mísero sorriso. Acho que tudo melhorava quando você podia ser vista e ouvida.
— Posso te fazer uma pergunta? — disse ela. Eu assenti e fui me sentar ao seu lado.
— Claro, manda aí.
— Você é médium ou coisa assim?
Pisquei umas três vezes.
— Quê?
— É. Invocar os mortos, conversar com eles, saber seus segredos. Consegue ganhar algum dinheiro com isso?
Umedeci os lábios e escorreguei as costas com mais folga na cadeira. Ignorei a dor incômoda que isso causou.
— Não curto muito ser chamado assim, mas é, a definição combina. Mas não coloco uma roupa verde neon e armo uma barraquinha embaixo do viaduto com um tabuleiro ouija cobrando cinquenta dólares a hora. Não sei como as pessoas acreditam nisso.
— Eu nunca acreditei nisso. — Karen pareceu um pouco envergonhada.
— Se não acontecesse comigo, eu também não acreditaria. Os charlatões mentem muito mal, mesmo que discursem como o Abraham Lincoln.
— Os fantasmas entram nas pessoas? — as duas sobrancelhas dela subiram. Abri e fechei a boca. Percebi que não sabia responder.
— Acho que isso eu ainda não vi.
— Você já viu bastante coisa, não é? — ela deu uma risadinha seca e forçada, como se quisesse parecer minimamente simpática diante da bizarrice total que é falar com os mortos.
— Acho que eu vi o esperado. Já faz muito tempo que faço isso. Que eu sou… — engoli em seco. Senti as orelhas ficando quentes e cor-de-rosa. Era tenebroso me rotular dessa maneira: olá, sou um garoto médium. , As Aventuras do Garoto Médium.
Karen cutucou alguma coisa de dentro do bolso do moletom da faculdade de Direito, pintado nas cores azuis e brancas da Columbia. Era um pouco triste pensar que agora ela o vestiria para sempre.
— Como você conseguiu? — continuou em voz baixa. Quase tive que me aproximar para escutá-la. — Passar tanto tempo vendo eles. Estando com eles. Olhando-os andar por aí querendo que tudo acabe, mas percebendo que as coisas já acabaram e eles não estavam prontos pra isso. Ninguém os preparou pra isso, e agora você está sozinha…
A voz dela falhou. Me preparei para que ela recomeçasse a chorar, mas não reforcei para que fosse em frente. No meu cartão de visitas verbal, eu não deixava exatamente claro o quanto as lágrimas de uma garota me deixavam desconfortável, então agora tinha que colher as consequências.
Mas bem, alguma coisa em Karen Bracco me deixava tão compassivo quanto o Papa Francisco.
— Eu não estava sozinho. — respondi, sem ter certeza se aquilo melhoraria alguma coisa. — Acho que tive sorte nessa parte. Muita gente deve acordar descobrindo que é diferente e tentar fugir disso a todo custo, mas no meu caso, minha avó e minha melhor amiga tornaram as coisas mais fáceis. Passei a pegar mais leve com tudo, a aceitar melhor a situação.
Karen me encarou sob aquela escuridão doente e vi seus olhos ganharem um novo tom de pujança, energia, algo que eu imaginava ser o certo quando as pessoas morriam. No fundo, não ligava mesmo de contar algumas coisas pessoais sobre mim; fofoca no Paraíso não era exatamente minha maior preocupação.
Mas ela pareceu ficar melhor. Foi uma coisa boa.
— Como você está? — perguntei enquanto colocava as mãos nos bolsos do moletom. Karen parecia mais pálida, o cabelo ruivo mais ralo, as maçãs do rosto mais afundadas, mas fora isso, parecia a mesma garota morta zanzando por aí pelo campus, que tinha sido morta nesse mesmo prédio.
— Estou bem. Quer dizer, tão bem quanto morrer deve ser. — ela iria sorrir, mas preferiu não fingir nada. — Conheci umas pessoas. Outros… fantasmas, no caso.
— Conheceu outros? — franzi o cenho.
— É, na biblioteca Arthur. Eu estava desanimada porque queria assistir ao prêmio Irell & Manella, ou olhar o prato do dia no Lenfest Café, e ele veio falar comigo. Me disse coisas legais. Me mostrou o boletim diário do NYPD. Acho que eu gostava de ler coisas assim… — mais uma careta confusa. Karen devia estar se perguntando nesse exato momento se gostava mesmo de boletins da polícia ou se imaginou isso. Queria abrir a boca e perguntar que raio de fantasminha camarada ela tinha conhecido, mas sinceramente, o tempo estava passando e ele não me permitiria me preocupar com alucinações de uma garota que já estava entrando no turno extra deste plano.
— Escuta, fico feliz que tenha feito um amigo, mas precisamos conversar. — comecei. — Sobre Ash.
Os olhos daquela cor de mel intenso brilharam quase como os olhos dos vivos faziam de curiosidade.
— Ash? Você o encontrou?
— Encontrei. É um amor de pessoa. — meu tom sarcástico fez com que ela inclinasse a cabeça curiosa. Em um piscar de olhos, a garota já estava próxima do meu rosto, quase encostando em meu nariz, e abaixou meu capuz.
— Meu Deus! — sua boca se abriu em choque enquanto ela afastava o tronco para trás. — O que aconteceu com seu rosto? Você brigou com Ash?
— Mais ou menos. Digamos que foi ele e o clubinho de verão dos Gorilas Aquáticos. — fiz uma careta, sabendo que estava fazendo uma descrição floreada do que realmente tinha sido ser alvo da surra daqueles manés, mas Karen não precisava desses detalhes.
Mesmo assim, não deu para ela disfarçar a linha de aborrecimento que se esticou na boca.
— Não acredito que ele mandou Vincent e Leonardo fazerem isso! Não sabia que ele podia ser tão covarde, tão–
— Na verdade, meu desentendimento mesmo foi com o outro cara, Edward. Ele não acha aceitável que a gente impeça que ele arme um motel no nosso carro. Acho que eu ando meio careta esses dias.
Uma sombra que não fazia parte daquela sala se apossou dos olhos de Karen. Uma sombra que durou um segundo, primeiro mostrando reconhecimento, depois retornando para a cara de dúvida de sempre.
— Edward? Edward Belfort?
— A não ser que exista outro terror do Basquete, é ele mesmo.
— Não acredito… — repetiu, com olhos entorpecidos, uma indignação nascendo novamente na garganta. — Não acredito que eles fizeram isso. Não entendo porquê. , eu nem sei o que dizer…
— Não precisa dizer nada, não foi a primeira briga que eu me envolvi. Minha avó vive me dizendo que sou um delinquente juvenil. Ela e a polícia de São Francisco. — tentei brincar, mas a expressão de Karen não suavizou em nada. — Vou ficar bem. O mais importante é que fiz o que você pediu, falei com Ash. Mas… Bom, a resposta dele…
Movi os ombros sugestivamente. Karen virou o corpo na minha direção.
— Ele negou? — perguntou. Assenti em confirmação.
— É, ele me garantiu que não te matou. Ficou desesperado quando eu só sugeri isso. E, sabe… — molhei os lábios antes de falar o que pretendia. — Acho que ele estava falando a verdade.
Não conseguia explicar como ou porquê eu acreditava naquilo. Não conhecia Ash. Não fazia a mínima ideia de nada do cara; não tinha nome, não tinha ocupação, não tinha referência, mal tinha um rosto! Era literalmente uma figura de preto e botas sujas em um canto mais sujo ainda de uma casa imensa que ninguém se importava em saber a quantidade de membros. Vivia escondido sob a jurisdição não oficial de um palerma que tinha um nome de poder e que com certeza ganhava alguma coisa em cima de seus negócios ilegais, e isso não devia transmitir confiança para ninguém. Muito menos para mim, que era acostumado a saber em primeira mão das camadas mais sombrias de outras pessoas através de suas vítimas.
Mas Ash tinha alguma coisa. Seja lá quem ele era, a expressão que fez diante da minha pergunta me mostrou algo aterrorizante. Não o medo de ser descoberto, mas o medo da própria pergunta em si, como se ela fosse a encarnação da própria Karen e ele não soubesse como ela poderia estar duvidando dele. Consegui identificar um medo racional em sua expressão, e tenho certeza que receberia perguntas difíceis de responder caso Edward não tivesse entrado.
Mesmo assim, sabia que minha opinião não valeria de absolutamente nada para a garota morta. Karen se levantou e, em silêncio, começou a andar em círculos, suas sobrancelhas franzidas no meio da testa. Ela não disse nada por um tempo incalculavelmente longo. Tentei pensar em alguma coisa para dizer, mas não havia nada.
Ela deveria sumir agora, não é? Ir para além das colinas verdes nas pinturas dos folderes dos religiosos protestantes chamando para a salvação. Acho que ela gostaria do lugar, mesmo se não tivesse Wi-Fi.
— Então… Agora está tudo bem? — perguntei, após mais alguns vários minutos de silêncio. Naquela quietude, o barulho dos refrigeradores se tornava ainda mais alto.
Karen parou de andar, mantendo os olhos perdidos no chão.
— Isso não faz o menor sentido. — murmurou em voz baixa. Ela levantou a cabeça e havia algo novo e estranho nos seus olhos: uma raiva que não estava ali antes. — Tem que ter sido ele!
Engoli em seco. Ok. Aquilo não era um bom sinal.
— Tá legal… — fiquei de pé, tentando soar o mais despreocupado possível. — Por que está dizendo isso? Você pediu pra perguntar, se lembra? Você estava com dúvida…
— Foi ele quem me entregou aqueles remédios. Talvez ele mesmo os tenha feito! Eu morri depois de tomá-los! — ganiu. Senti a temperatura cair minimamente ao redor, mas ignorei.
— Karen, Ash te deu Lorazepam. É um remédio forte para ansiedade, mas com três comprimidos você no máximo apagaria e perderia suas aulas do dia seguinte. Na sua idade, uma overdose tá fora de cogitação. O que não deixa de ser uma irresponsabilidade tomar, mas ele não te mataria.
— Como sabe se foi mesmo Lorazepam? E se for, ele pode ter alterado o medicamento. Sabia que Ash produz algumas de suas drogas? Já ouvi uma conversa entre ele e Edward sobre isso, aliás, já ouvi muitas coisas naquele corredor da Dungeons. Os dois já discutiram sobre mim, e Ash já esteve mais de uma vez insatisfeito a meu respeito, deve ter tirado umas horas pra confeccionar esse presentinho especialmente pra mim… — sua boca se curvou em uma careta de choro, apesar de seu corpo tremer em raiva.
Agora não dava para ignorar o frio. Não era algo que uma pessoa viva pudesse passar batido, por mais que não soubesse da onde vinha. Tentei chegar mais perto dela.
— Olha só, muita coisa nessa história não faz sentido, mas o fato é que você foi vítima de um excesso de benzodiazepinas e, sendo racional, uma overdose nesse caso só seria possível se você já estivesse sob efeito de outra droga antes de tomar o remédio, sendo Lorazepam ou não. O seu corpo não aguentou.
Se antes ela parecia desamparada, agora Karen olhou para mim completamente estupefata, os olhos esbugalhados como um boneco de ventrículo.
— O que você disse? — vi suas mãos fecharem em punho antes que ela desse um passo em minha direção. A voz estava tão seca quanto lixo no deserto. — Está dizendo que eu usei drogas naquele dia? — abri a boca para responder, mas ela foi mais rápida. — Isso é ridículo! Não que te interesse, mas eu nunca usei drogas, . Aquela era a primeira vez que eu iria experimentar algo mais forte do que um Tylenol. Se eu adivinhasse que nunca mais voltaria dessa maldita experiência, eu jamais teria aceitado! Jamais, entendeu?
Ela aumentou consideravelmente a voz. Dessa vez, ouvi umas três ou quatro geladeiras engasgando ao nosso lado.
— Como você pode pensar isso de mim?! — ela continuou, dando mais um passo. Os punhos continuavam fechados. — Depois de tudo que eu te contei, depois de tudo que te mostrei na semana passada. Você disse que acreditava em mim, acreditava que alguém me matou, iria só me trazer a confirmação de Ash. Porque só ele pode ter feito isso comigo! — gritou. Um dos vidros de refrigerante preso pelas grades da máquina caiu no chão. — Todo mundo lá fora sabe disso. Talvez até estivessem esperando isso acontecer. Katherine me dizia que eu era sem graça por não ceder ao estilo de vida de Ash, sempre me mandava repensar sobre o que eu realmente queria, Edward fazia questão de demonstrar o quanto eu não era bem-vinda, e por todos eles eu devia mudar, mudar, mudar… mas eu não conseguia. Não conseguia deixar de ser quem eu sou, mas ainda assim, achei que bastava pra Ash. Achei que uma hora ele iria confiar em mim assim como eu estava confiando nele! — ela respirou fundo, as lágrimas descendo agora em cascata. — Pelo visto, nada disso adiantou. Ele ainda teve a coragem… e ainda negou! Vai seguir a vida e pular fora como se eu nunca tivesse existido, ignorar tudo que fez agora que conseguiu se livrar de mim!
Olhei em volta. Uma das mesas posicionadas no canto perdeu força em uma das pernas de metal, como se alguém as tivesse acertado com um chute, e tombou para o lado, atingindo sua vizinha, que foi tombando até a próxima e próxima, como um jogo de dominó. Outros barulhos se fizeram presentes, como o som agudo da madeira das cadeiras rastejando lentamente no chão, e outros objetos caindo e se espatifando.
Que merda.
O problema nunca foi Karen ficar brava. Eu sabia dessa possibilidade e estava disposto a ser legal e dizer qualquer coisa para que ela não chegasse a esse ponto. Mesmo se ela começasse a gritar e fizesse aquela expressão furiosa, pouco importava porque, afinal, só eu poderia ouvi-la. Não existia risco algum.
Mas o negócio ia realmente mal quando um fantasma resolvia se revoltar de verdade, porque aí nada estaria mais a salvo. Eles não tinham muita pena do lugar ao redor — e nem das pessoas. Então, quando duas cadeiras voaram acima da minha cabeça e os vidros das básculas começaram a balançar, decidi que estava na hora de tomar uma providência.
— Karen, se acalma...
— Me acalmar? Eu fui assassinada, ! Eu tinha planos, propostas, um futuro brilhante pela frente! E tudo isso foi tirado de mim da noite pro dia! Para as pessoas ainda pensarem que eu fiz isso comigo mesma. — ela recomeçou a chorar, e isso fez com que os vidros tremessem com mais intensidade. — Você acha que foi fácil ver que meus pais nem se deram ao trabalho de pisar aqui pra esvaziar meu quarto? Que Katherine ficou cada vez mais tempo fora, que as outras garotas agora voltaram a fazer a Quarta da Manicure já na semana seguinte, que poucas delas vestiram preto no meu enterro, um enterro que eu nem fui capaz de ir porque não faço ideia de onde colocaram o meu corpo! E meus pais, não faço a mínima ideia se estavam lá também. Não faço ideia do que estão pensando sobre isso, se estão decepcionados…
— Tenho certeza de que a sua família entendeu que você jamais faria isso.
— Mas eles não liberaram a autópsia, não é mesmo? Eu tenho ouvidos, ! Estavam falando disso no CJ! — gritou ela, e ouvi um vidro se partir. — Não liberaram porque minha mãe tem medo do resultado, tem medo de ter tido uma filha que se drogou e não aguentou a pressão da Ivy League, que não colecionou nada na história da Columbia a não ser alguns júri simulado de sucesso e pedidos negados de Wall Street.
— Agora não é hora de se preocupar com o que sua mãe pensa ou deixa de pensar! — tentei não parecer tão incisivo, mas as máquinas estavam balançando e um desastre era iminente. Mesmo com toda a raiva espumando de Karen, seu rosto parecia tão miserável quanto estava no primeiro dia que a conheci. — Escuta, se você me disser exatamente o que aconteceu naquele dia, desde a porra do café da manhã e tudo isso, talvez a gente pode…
— Você ainda tá tentando me confundir, ! Já te disse tudo que precisava dizer! Ash fez isso comigo, ele fez isso comigo! — uma tábua na lateral da porta voou acima do chão e se espatifou no teto, e aquilo com certeza foi ouvido por toda a área do corredor. — Ele vai me pagar, ele vai...
— Karen, se acalma! — falei, entre dentes, olhando para a entrada. A cadeira que servia de bloqueio já era. Alguém com certeza tinha escutado essa confusão, o que tornava tudo mais urgente.
No entanto, de alguma forma, era como se a mente de Karen estivesse finalmente mais desperta no meio de todo aquele ódio diluído em mágoa, e isso poderia significar que eu encontraria alguma coisa.
— Olha pra mim. — agarrei em seus dois ombros, olhando para ela do jeito mais firme que minha ansiedade permitia. — Você não tá me explicando direito. Por que Ash te mataria? Se não via problema em quem você era, por que faria uma coisa dessas?
Por um instante, um milímetro de instante, vi a posição dela abrandar e o ar frio começar a se espalhar para longe, mas durou pouco, pouco demais. Os olhos dela voltaram para aquela sombra de ira que não era normal. Não era como deveria ser.
— Não tenta me enganar, eu já te contei tudo. Te contei e você acreditou nele! Você não vai me ajudar! — ela se esquivou do meu toque com brutalidade, e continuava bufando como um touro raivoso. — Ninguém vai me ajudar a fazer com que ele pague! Ash destruiu a minha vida e nem sequer falou com a polícia, nem sequer pisou aqui depois de tudo. Ele me avisou que seria assim, disse que você não estava do meu lado, que ninguém estava. — ela me encarou, o ódio escancarado em seu rosto. — Acontece que eu mesma vou resolver essa história! — Karen deu as costas para sair, mas puxei seu braço antes que ela fizesse isso.
— Do que está falando? Quem é ele? — ela me ignorou e tentou se soltar. — Eu tô falando muito sério, Karen. Ou você se acalma e acaba com esse show, ou…
Vou estar mentindo se disser que esperei que ela me escutasse. Eu não era tão ingênuo assim. Sabia que ela lutaria, espernearia, gritaria ainda mais e eu estava pronto para colocar o resto da minha integridade em jogo para pará-la, mas o que eu não esperava foi que ela me desse um empurrão que me jogaria literalmente pelos ares até bater na parede com a placa de funcionários na outra extremidade, causando um estrondo que deixaria uma marca mínima na madeira.
A dor foi tamanha que devo ter apagado por dois ou três segundos, me sentindo a vítima mais próxima de um homem bomba no metrô. Abri os olhos e fui tomado pelo cheiro potente e inconfundível de coca-cola, ketchup e todo um mix de condimentos misturado com a umidade que tomava rápido a ponta dos meus dedos e empapava a barra do meu moletom e os joelhos dos jeans, graças ao cano desfigurado de toda a fila de torneiras da pia aos fundos. Olhei para a superfície da água tomando o piso antes de ouvir uma explosão do lado de fora, quebrando o restante dos vidros das básculas ainda de pé e fazendo o mesmo com as lâmpadas embutidas no teto, mergulhando o refeitório em um breu impenetrável e cessando o barulho de todas as máquinas dentro e fora dela.
Ótimo. Ótimo, ótimo! A energia já era e era óbvio que Karen tinha desaparecido.
Forcei um pulo para cima, me apoiando na parede mais próxima, evitando que meus pés escorregassem no chão que, aos poucos, virava uma poça. Minha cabeça estava girando muito, o curativo na testa latejando na mesma intensidade que o peito. Respirei fundo duas vezes antes de puxar o celular do bolso, sentindo as rachaduras finas na superfície da tela quando deslizei os dedos por ela e apertei na lanterna.
Os refrigeradores antes perfeitamente instalados agora estavam dispostos em uma confusão de balbúrdia. Várias cadeiras e mesas tinham ido parar báscula afora, e uma outra estava pendurada dentro em um dos lustres. Um dos painéis de LED havia simplesmente explodido para fora do teto, pendendo sob uma série de fios desencapados que piscavam em choque vivo. Água jorrava de canos estourados e montes de líquido viscoso perfumado fluíam de embalagens espatifadas em todas as direções.
Xinguei Karen mentalmente. Aquilo era mais do que eu esperava, muito mais — a bola de neve que eu tanto queria, que sempre quero evitar. Bracco havia desaparecido, e dessa vez aquilo me preocupava, porque fantasmas transtornados não costumavam fazer coisas boas. Tinha certeza que Karen havia saído do prédio e isso era muito, muito perigoso. Para ela mesma e para qualquer desavisado que estivesse perto demais de facas ou outros objetos cortantes que eram facilmente manipuláveis pela telecinesia espectral dos mortos.
Precisava fazer alguma coisa. Rápido. Antes que ela tivesse a chance de se lembrar onde ficava Manhattanville, a Dungeons e Ash.
Mas antes disso, o barulho veio. O barulho que eu tanto não queria e não poderia ouvir: o de pessoas.
Passos. Gritos. Falatório. Tudo do lado de fora. Se aproximando, vindo para cá.
Minha nossa, quanta merda!
Tinha que sair dali agora, antes de qualquer outra coisa que passasse na minha cabeça. Se eu fosse pego ali, naquela situação, eu não precisaria fazer mais nada sobre aqueles tais formulários do internato porque a polícia e o comitê disciplinar decidiriam que eu era um cara perigoso demais para pensar em cuidar de outras pessoas. Iriam me deixar apodrecer por uma semana em uma cela antes de decidirem que era completamente impossível que eu tivesse feito todo aquele estrago sozinho. Me dariam talvez mais uma semana para que eu decidisse entregar meus cúmplices. Fariam exatamente o que o governo americano faz com qualquer coisa que fugisse minimamente do normal depois do 11 de setembro.
Destruir um restaurante estudantil sozinho poderia se enquadrar nisso.
Os barulhos ainda estavam longe, o que significava que as pessoas estavam se reunindo no lounge, e a correria acontecia fora da entrada. Se a energia tinha ido pro ralo no prédio inteiro, não pensariam em verificar o refeitório como primeira opção, então parti para a porta, arrastando os pés com água até o tornozelo até alcançar a próxima parede e passar as mãos por ela para achar a maçaneta. Assim que a toquei, um choque arrebentou na minha testa, fazendo com que eu fosse jogado novamente ao chão e gemer de dor. Caí sentado, a água agora invadindo toda a cintura, bolsos e mangas. Virei o rosto, enjoado, avistando um fio de luz se aproximando de mim, vindo da boca de uma lanterna de celular, acompanhado do som de passos esguichando na água suja.
— Ah, meu Deus!
Desnorteado, eu estava pronto para aproveitar a porta aberta e seguir o meu caminho. Mas o clarão se abaixou ao meu lado e iluminou o rosto que estava com ele.
Um rosto conhecido e irritantemente inesperado.
— Puta merda. — gemi, tentando me levantar. Pude ouvi-la arfar com a mesma surpresa.
— Fala sério. — bufou, e vi seus olhos se estreitando na minha direção. — Mas que merda aconteceu aqui?