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Independente do Cosmos🪐

Última Atualização: 18/10/2025



O silêncio aqui não é a ausência de um barulho. É um organismo vivo, alimentado pelo zumbido grave do compressor e pelo ritmo cadenciado de uma única gota d'água que cai de uma tubulação enferrujada.
Plinc.
Plinc.
Plinc.
É neste palco de quietude que a sinfonia do desespero dela começa. Cada soluço, cada tremor da cadeira de metal contra o cimento, é uma nota. Eu a ouço. Aprecio. Ela acordou há exatos dezessete minutos. Seu relógio biológico, é agora meu aliado. Chama-se Lauren. Um nome doce, comum, mas ela não vai continuar sendo comum assim.
— Por favor — a voz dela ecoa é um arranhão. — Me solte, eu não vou contar nada…
Ignoro as palavras.
São irrelevantes, como o piar de um pássaro antes da tempestade. Minha atenção está totalmente voltada para a massa que preparo.
Não é simples gesso, como sempre dizem. Na verdade, me sinto até um pouco ofendido quando se relatam ao meu material como um gesso comum e sem graça. É uma argamassa de alabastro e gesso dental de grau ortodôntico, peneirada três vezes até atingir uma finura de talco.
Na panela de aço inoxidável, sobre a chama azul e hipnótica do queimador, ela recebe água destilada aquecida a 37 graus, a mesma temperatura do corpo. A mistura deve ser perfeita: cremosa, sedosa, sem uma única bolha de ar que possa comprometer a pureza final. Pego a espátula número 3, de ponta romba, e começo a misturar. É um movimento circular, hipnótico. Ela cala-se, ouvindo.
Esse é o verdadeiro terror: o som da sua própria condenação sendo preparada com um cuidado amoroso.
— O que é isso? — ela sussurra, com a voz trêmula. — O que você está fazendo?
Viro. Ela estremece ao ver um rosto liso e andrógino branco, sem boca, com apenas duas fendas escuras e profundas para os olhos. Não há humanidade aqui para a qual ela possa apelar.
Caminho até ela, mas meus passos não fazem som no cimento coberto de serragem. Ela se encolhe, tentando tornar-se pequena. Inútil. Paro a um braço de distância e simplesmente a observo. Seus olhos, inundados de lágrimas, refletem a luz fraca e a minha silhueta imóvel. Estudo a linha do seu pescoço, a pulsação frenética na base da garganta, a maneira como o suor faz a blusa colar na sua pele.
Tudo é informação.
Tudo será preservado.
— A beleza requer entrega, Lauren. — minha voz ecoa dentro da máscara, plana e sem emoção, como se fosse gerada por uma máquina. — Você precisa parar de lutar.
Levo a mão à sua face e constantemente ela prende a respiração, ainda assim, um pequeno guincho escapa de seus lábios. Meus dedos, enluvados de látex, tocam sua têmpora, afastando o cabelo suado de seu rosto.
O toque não é violento.
É íntimo.
Volto para a mesa e, em minutos, a mistura está pronta. Tem a consistência de sangue espesso exatamente como eu pretendia que fosse. Pego a seringa de aplicação endodôntica. A agulha é longa e finíssima, feita para penetrar em espaços mínimos sem causar danos externos visíveis. Ao me virar com a seringa, o entendimento final explode em seus olhos. Não é a agulha que a aterroriza. É a serenidade com que a seguro. Com os anos aprendi isso, não é o fim que assusta os humanos e tampouco a morte. É a frieza do processo.
— NÃO! — O grito sai como um rasgo. Ela arqueia as costas, debatendo-se com uma força que é puro instinto. As tiras de couro cortam sua pele, e vejo finos filetes de sangue escorrerem sobre seus pulsos.
Lindo.
O vermelho sobre a pele pálida é lindo e poético, como uma última pincelada de cor antes do monocromático eterno. Aproximo-me. Ela joga a cabeça para os lados e os cabelos voam, seus olhos rolam de terror.
— Por favor, não, não, não, não… — é um mantra de desespero.
Ignoro.
Meu mundo reduziu-se a um ponto: o local onde a artéria carótida puls. Coloco a mão esquerda em sua testa, imobilizando-a com uma força que é absoluta. A pele dela está fria e úmida. A minha, quente e seca dentro da luva.
— Respire fundo, Lauren. — instruo, como um anestesista. — A primeira pressão é a mais profunda.
A ponta da agulha toca sua pele, no ponto exato onde o pescoço encontra a mandíbula. Ela está tão tensa que a resistência é mínima. A agulha desliza para dentro, suave como um suspiro. O corpo dela dá um solavanco. Um som horrível, rouco e abafado, brota de sua garganta. Aplico uma pressão constante e lenta no êmbolo.
E então, os olhos ficam brancos.
Não é dor. É algo infinitamente pior. É uma sensação de frio que se espalha, um rio de gelo correndo por dentro dela, seguindo o curso de suas próprias veias. Seus olhos arregalam, não de medo agora, mas de um pavor biológico. Ela sente o material, meu material, invadindo sua biologia, substituindo seu calor vital por uma frieza mineral. Seus espasmos não são mais de luta. São convulsões. Seu corpo tenta expulsar o invasor, mas é tarde. O gesso, mais pesado que seu sangue, desce, preenchendo, solidificando.
Vejo o branco leitoso ascender sob a pele da sua face, numa maré fantasmagórica apagando a cor. Seus olhos, ainda conscientes, fitam os meus com um brilho de puro e inefável horror, mesmo que a pupila já tenha se estraçalhado no processo.
Ela está presa dentro de si mesma, testemunhando a própria petrificação.
Continuo a injetar, ponto após ponto.
Braços, torso, coxas.
Seus membros ficam pesados e a respiração um ruído cada vez mais raro e rasgado, como se seus pulmões estivessem cheios de pedra moída.
Quando retiro a agulha pela última vez, ela não é mais Lauren. É uma casca.
Pego a panela e a espátula larga. O gesso externo é mais fluido, como um leite de pedra. Começo pelos pés, após retirar os sapatos. A pele, a serragem do chão que grudou neles. É um ato de unificação. Tudo se torna um. Subo pelas pernas, suavizando as curvas, definindo a musculatura congelada em tensionamento eterno. Cubro suas mãos, seus braços, o torso… Quando chego ao rosto, pauso. Os olhos ainda estão abertos, duas poças de terror opaco. Com a ponta da espátula, aplico uma fina camada sobre as córneas, apagando o último reflexo do mundo. Suavizo a massa sobre seus lábios entreabertos, selando para sempre o último suspiro, o último grito.
Recuo.
O suor e as lágrimas ficaram presos sob a superfície lisa e branca, fossilizados como inclusões em âmbar. O silêncio retorna, mas agora é diferente. Está completo. Está satisfeito.
A luz fraca das lâmpadas pendentes lambe as curvas suaves do gesso, destacando onde uma lágrima ficou presa para sempre, uma pequena saliência vítrea na bochecha eternizada. É um detalhe que ninguém mais notaria, mas eu noto. É a minha assinatura. Caminho em um círculo lento ao redor da minha criação. A pose é, de fato, a parte mais sublime.
A rigidez cadavérica já começara seu trabalho. Os produtos faziam isso, antecipavam a rigidez mórbida, mas foi a minha intervenção que a tornou arte. A inclinação da cabeça, ligeiramente para a esquerda, como se escutasse uma melodia distante. A contração sutil dos dedos da mão direita, congelados no ar, não em um gesto de defesa, mas de busca. De súplica. Transformei o seu último e horrível espasmo em um movimento de dança.
Minhas ferramentas repousam na mesa. Limpo meticulosamente cada uma delas. A seringa, desmontada, é lavada com álcool isopropílico. As espátulas, isentas de qualquer resíduo, são alinhadas por tamanho e curvatura. O ato de limpeza é uma meditação também.
O galpão deve permanecer imaculado.
O caos reside no ato, não no espaço.
O espaço é um santuário.
Minha atenção interna volta-se para a parede leste, onde um mapa da cidade está fixado. Alfinetes coloridos marcam locais, rotinas, padrões. E no centro, não está um alfinete, mas uma fotografia. Uma imagem desbotada de , tirada há anos, quando ainda usava o anel. Ela sorri, mas os seus olhos, aqueles verdes e belos olhos inconfundíveis, já mostram a sombra da obsessão que a consumiria.
Guardo a última espátula. O galpão está em ordem. A única evidência da minha noção de trabalho é a figura branca e silenciosa no centro do espaço.
Mas uma obra, por mais perfeita, é apenas um passo no caminho.
Meus olhos, acostumados a ver além da forma física, percorrem a figura e pousam em um pequeno objeto deixado propositalmente ao lado da base, quase escondido na serragem. É uma peça pequena e bonita de xadrez. É o fio que une as contas, contas que , em sua aguda perspicácia, começará a discernir.
Porque tudo isto é para ela.
Para e para , com seus cinco anos de pura potencialidade.



Laurents


Cinco anos.
Cinco anos longe daquele mundo de morte e o primeiro golpe que ele me desfere não é visual, é olfativo. É um soco forte, dado com precisão no estômago, feito de mofo, poeira acumulada e algo adocicado e metálico que eu não sentia desde os meus pesadelos mais vívidos. Cheiro de gesso úmido. O porto de Lisboa cheirava a sal, peixe e diesel, mas dentro daquele armazém abandonado, o ar era de outro lugar. Um lugar que eu jurara nunca mais pisar.
A fita amarela de isolamento balançava ao vento úmido, como a droga de um convite. Os agentes do Núcleo de Homicídios me olhavam com uma mistura de curiosidade e pena. “É a Laurents. A que quase virou estátua.” Os mais novos só deviam conhecer a lenda. A louca que se deixou levar pelo caso e quase pagou com a vida, quebrando o brilhante no processo.
Ele estava lá, é claro. Parado além da fita, de costas, como se pudesse sentir minha aproximação na mudança de pressão do ar. Os ombros ainda eram largos, mas agora carregavam um peso que não existia antes. O casaco preto parecia absorver a pouca luz do fim de tarde. Ele se virou, devagar, e seus olhos cinza, a cor do Atlântico em dia de tempestade, encontraram os meus.
Nenhuma surpresa.
Apenas um cansaço tão profundo que era quase físico, e, soterrada sob toneladas de autocontrole junto a uma centelha de raiva pura.
. — Meu nome soou áspero na sua boca, era uma palavra cuspida, não falada.
A fita amarela pressionava contra as minhas pernas.
. Disseram que o modus operandi era inconfundível.
— E disseram que você tinha se aposentado. — A réplica foi rápida. Seus olhos percorreram meu corpo, da jaqueta simples ao jeans, buscando o que? Sinais de desequilíbrio? A sombra da mulher que ele carregou, ensanguentada e quebrada, para fora de um galpão muito parecido com este, há cinco anos?
— Algumas aposentadorias são mais temporárias que outras — respondi, com a voz mais firme do que eu esperava, mas por dentro eu era um terremoto. Cada fibra do meu ser gritava para virar as costas, correr e levar o para bem longe dali. Mas outra parte, uma parte que eu achava que tinha morrido, sussurrava mais alto.
Ele voltou. Então você tem que voltar também.
— Você não devia estar aqui — ele disse, baixando a voz. Os outros agentes fingiam não ouvir. — Vá para casa. O precisa de você são.
O nome do nosso filho foi uma faca torcida na ferida.
— O está na escola, seguro. E a minha sanidade não é mais da sua conta. — Ergui a fita e passei por baixo, entrando no território dele. O cheiro piorou exponencialmente. — Onde está?
Ele prendeu o queixo. Um músculo pulsou na sua mandíbula, em um tique quase imperceptível que só eu conhecia. A batalha interna era visível: a autoridade do investigador-chefe contra a história complicada que dividíamos.
— Lá no fundo. — Ele fez um gesto vago. — E não toque em nada. Você não faz mais parte da perícia.
— Ainda sei distinguir um pedaço de fibra de um fio de cabelo melhor que o seu novato favorito — devolvi, passando por ele. Meu braço roçou no casaco dele e o simples toque foi como tocar em um fio desencapado, dando-me imediatamente um choque breve e doloroso.
Caminhei em direção ao centro do armazém, mantendo em meus passos um esforço consciente. A poeira assentava sobre as botas, e o ar frio e úmido penetrava até os ossos. E então, à luz de um holofote portátil, eu a vi.
Minha garganta fechou.
O mundo desfocou nas bordas, e tudo o que restou foi aquela figura no centro do vazio. A assinatura era mesmo inconfundível. Uma mulher transformada em escultura de gesso, com a pose congelada em uma dança agonia. O gesso, de um branco sujo e manchado de sépia, moldava-se ao corpo com uma intimidade doentia. As mãos estavam presas no pescoço de gesso e o rosto era uma carapaça lisa e cega, exceto pela boca aberta num grito silencioso.
Sem sangue.
Nada para estragar a pureza da sua arte.
Ajoelhei-me a uma distância segura, sentindo o concreto gelado através do tecido da minha calça. Ajoelhar-se diante daquilo era como ajoelhar-se num altar pela segunda vez. Ignorei o suor frio na minha nuca e a pulsação acelerada nas minhas têmporas. Respirei fundo, deixando o fedor me invadir. Era o cheiro do meu fracasso. O cheiro do que me custou meu casamento, minha carreira, meu equilíbrio e minha paz. Meus olhos, treinados por anos nessa escuridão, percorreram a figura. Algo estava diferente. O gesso na base não era liso como antes. Era áspero, arenoso.
— Ele mudou a fórmula — murmurei, mais para mim mesma.
. — A voz de veio de trás, num aviso baixo e carregado. — Você já viu. Agora, pela última vez, vá embora.
Ignorei-o.
A perícia é um ritual. É uma oração secular feita de paciência mórbida e observação obsessiva. É sobre ver o que não devia estar lá. Meus olhos escanearam a figura, uma linha de cada vez, do topo da cabeça cega até a base de gesso áspero. A assinatura era inconfundível. A pose, a textura, o horror silencioso… tudo gritava o nome dele. A lágrima presa no gesso da bochecha era tão real, que eu podia quase sentir o sal na minha própria língua. Ainda assim, algo coçava na parte de trás da minha mente. Eu sabia que ele se comunicaria comigo e sabia que, para isso, algo não devia estar ali. O que era?
Não era o gesso arenoso. Isso era uma evolução.
Não era a posição das mãos, nem o vazio do rosto. Era algo menor. Um detalhe que não se encaixava na coreografia meticulosa do Escultor. Ele era um perfeccionista, tudo tinha um propósito, um lugar. Tudo era deliberado.
Como um maldito ímã, meus olhos foram atraídos para o tornozelo direito da mulher. A forma me era vagamente familiar. Eu a tinha visto antes, mas onde?
O ar congelou nos meus pulmões com uma clareza indesejável.
O barulho do armazém, os sussurros, o rádio, os passos, tudo desapareceu, substituído por um zumbido agudo nos meus ouvidos. Era o cavalo. O que faltava do jogo de xadrez da minha escrivaninha. O que o adorava empunhar em sua mãozinha, fazendo voar pela mesa com risadas.
O mundo não desabou.
Ele se estreitou até aquele pequeno cavalo de marfim, e uma fúria glacial, absoluta, lavou o medo que eu sentia. Ele não tinha apenas voltado. Ele tinha entrado na minha casa. Ele tinha tocado nas coisas do meu filho.
? — estava ao meu lado, ajoelhado. — O que foi?
Minha mão, enluvada de azul, não tremeu quando apontei.
— Olhe. Tornozelo direito.
Ele seguiu a direção do meu dedo. A pausa foi breve, mas eu a senti. O instante em que a informação foi processada, decifrada e compreendida em toda a sua horrível dimensão. Um som rouco e abafado, escapou-lhe. Ele se levanto, a voz explodiu rapidamente no rádio, cortante e urgente.
— Cena secundária! Isolamento total! Eu quero uma unidade na escola do meu filho, , verificação de segurança, agora! — Enquanto ele dava ordens, seu rosto era uma máscara de profissionalismo, mas eu podia ver. Podia ver o pulso acelerado na sua têmpora, o branco nos seus nós dos dedos. O medo dele era tão palpável quanto o meu, mas o meu tinha se transformado em outra coisa. Eu me levantei, o corpo movendo-se com uma fluidez que não sentia há anos. A fraqueza tinha sido queimada pelo gelo daquela fúria. desligou o rádio e me encarou. — Você vai para a casa da minha mãe. Agora. Eu levo você — a ordem era clara, mas a rachadura no controle dele era visível.
— Não — a palavra saiu plana, final. — Isto é uma declaração. E ele a endereçou para nós dois.
, pelo amor de Deus! — Ele agarrou meu braço, conseguindo ser sutil e suave mesmo no desespero. — Isto não é um jogo! É o !
Arranquei meu braço do seu.
— Exatamente! É o ! E você acha que eu vou me esconder enquanto o homem que conhece o rosto do nosso filho está solto? Acha que você vai conseguir proteger nós dois, sozinho, como sempre tentou fazer? Se eu bem me lembro, da última vez isso falhou.
O golpe foi baixo. Vi o impacto nos seus olhos, a lembrança daqueles dias sombrios, da minha obsessão que quase me matou e que, no final, nos destruiu. Mas agora tínhamos um filho e o medo por ele era mais corrosivo do que o passado.
Ele recuou um passo.
Sem quebrar o contato visual, ergui o meu próprio rádio. A minha voz, quando saiu, não era a de uma ex-esposa aterrorizada. Era a de Laurents, a melhor perita e agente que esta divisão já teve.
— Comandante, é a Laurents. Preciso de uma lista de todos os fornecedores de gesso de alta qualidade e ferragens de arte num raio de cem quilómetros, dos últimos nove meses. E quero o relatório de ausência do cavalo de xadrez de ébano da minha residência, confirmado com a avó paterna do . Isto é uma mensagem pessoal. Vamos tratá-la como tal.
Ele não estava apenas nos enviando uma mensagem. Ele estava me dando a primeira pista. E ele sabia que, de todos ali, só eu seria obsessiva o suficiente para percebê-la, para me agarrar a ela e não soltar, mesmo que isso me levasse de volta ao abismo.
A diferença é que, dessa vez, eu o faria encarar o abismo de volta.



Voorhes


A porta do escritório do Comandante Rhys estava entreaberta. Eu não bati. Empurrei com tanta força que a maçaneta de metal atingiu a parede com um baque seco que fez o velho prédio da delegacia tremer.
Rhys estava atrás de sua mesa. Ele era um homem de cabelos grisalhos cortados à máquina e olhos que já tinham visto demais, por isso, é claro que ele não se assustou. Apenas ergueu lentamente a vista de uma pilha de documentos, como se minha entrada violenta fosse um evento previsto em sua agenda.
— Voorhes — cumprimentou, com um rugido baixo e cansado.
Fechei a porta atrás de mim. O som abafou o burburinho do corredor.
— O que diabos você estava pensando? — Minha voz era um sussurro rouco, carregado de uma raiva que eu mal conseguia conter.
Rhys inclinou a cabeça, estudando-me.
— Acho que você vai ter que ser mais específico. São muitas as coisas pelas quais poderia estar me xingando no momento.
— A . Você a chamou de volta. Você a colocou naquela cena.
Ele não negou. Em vez disso, apoiou os cotovelos na mesa, entrelaçando os dedos.
— O Escultor voltou, . E ele não está repetindo o mesmo script. É mais pessoal agora do que jamais foi.
— E por isso você decide trazer de volta a pessoa que ele quase matou? A pessoa que… — Minha voz falhou por uma fração de segundo. — Que foi destruída por esse caso?
— Foi destruída, ou foi forjada por ele? — Rhys encarou-me, seu olhar penetrante. — Ninguém entende a mente desse monstro como ela, . Ninguém. Nem mesmo você. Ele escreveu para ela naquela cena. Aquela vítima não era para nós. Era para ela.
— Ela tem um filho! — gritei, perdendo o pouco de controle que me restava. — O meu filho! Você a colocou na linha de fogo de novo. E ao fazer isso, colocou o também. Você lembra do que aconteceu da última vez? Você lembra em que estado eu a encontrei?
A memória me atingiu com força total.
, pálida como a morte, encolhida no canto daquele lugar imundo e com o cheiro de gesso úmido e sangue impregnado em suas roupas. O olhar dela era tão vazio, tão longe de mim, tão perdida dentro da própria mente que não conseguia mais encontrar o caminho de volta. Levei meses para trazer uma centelha dela de volta. Anos para aceitar que a mulher que amava tinha ficado para trás naquele celeiro.
— Eu lembro — a voz de Rhys era suave, mas firme. — Lembro de uma agente brilhante que foi mais longe do que qualquer um de nós para pegar um assassino. Lembro que ela era a única que conseguia prever seus movimentos. E lembro que, se não fosse por ela, ele teria matado pelo menos mais três mulheres antes de desaparecer.
— Ela quase morreu! — minha voz ecoou no escritório pequeno.
— E agora outras vão morrer se não o pararmos! — ele retrucou, erguendo a voz pela primeira vez. Ele se levantou, as palmas das mãos agora estavam apoiadas na mesa. — Isto não é sobre o seu passado com ela, Voorhes. Isto é sobre salvar vidas. O Escultor escolheu reacender essa guerra. E nós precisamos da nossa melhor arma.
— Ela não é uma arma! Ela é uma pessoa!
— Ela é as duas coisas! — ele disparou. — E ela já tomou a decisão por si mesma. Você ouviu a transmissão dela. Ela já está de volta. A questão não é se eu a chamei, . A questão é que ela veio. E ela vai continuar vindo, com ou sem a sua permissão. Você pode ficar aí remoendo o passado, ou pode garantir que, desta vez, ela não precise cair sozinha no abismo.
Senti as pernas amolecerem. A raiva deu lugar a uma exaustão profunda, um cansaço de anos carregando o peso do que aconteceu com ela. Rhys tinha razão. Eu a conhecia. Uma vez que ela visse aquele cavalo de xadrez, uma vez que sentisse o cheiro do gesso, não havia força no mundo que a impedisse de voltar.
— Ele vai atrás dela — sussurrei, sentindo a fúria dissipar em meu peito, deixando apenas o medo cru. — E vai atrás do meu filho.
Rhys se acalmou também, sentando-se novamente.
— Então é nossa função protegê-los. Aos dois. Mas para fazer isso, precisamos dela dentro, não fora.
Olhei para as minhas mãos.
Eu ainda conseguia sentir o calor do braço dela onde eu a tinha agarrado no armazém.
— Se algo acontecer com ela — minha voz quase sumiu. Três anos de divórcio não mudaram nada. Nenhuma outra mulher sequer chegou perto. Ela ainda era tudo. — Eu juro por Deus, Rhys, se ele colocar as mãos nela de novo, se ele machucar um único fio de cabelo da mulher que eu escolhi para ser a mãe do meu filho, você não vai precisar se preocupar com o Escultor.
— O que quer dizer, Voorhes?
— Quero dizer — falei, avançando até sua mesa e apoiando as mãos na madeira, inclinando-me até que nossos rostos estivessem separados por menos de um metro — Que se a sofrer um arranhão por causa dessa decisão sua, eu mesmo vou enterrar sua carreira. Se ela perder mais uma noite de sono por pesadelos, se eu ver aquele vazio nos olhos dela de novo, se esse filho da puta chegar perto do meu filho... — Minha voz embargou, mas mantive o olhar fixo nele. — Não haverá tribunal, não haverá processo interno que te salve. Você me entendeu?
— Você está ameaçando seu comandante superior, ? — ele perguntou, calmamente.
Rhys tentou manter a postura, mas eu vi o leve recuo em seus olhos.
— Não — respondi, com a voz mais baixa agora, mas mais perigosa. — Estou fazendo uma promessa. Se ela sair ferida dessa investigação, vou garantir que você sinta na pele o que eu senti. Que você perca o que eu perdi. E aí, Rhys, você pode ter certeza que eu serei um problema muito, muito maior que qualquer serial killer. — Ele abriu a boca para responder, mas eu não dei chance. — E só mais uma coisa. Saiba disso: se eu tiver que escolher entre proteger e seguir suas ordens, não hesitarei nem um segundo. Ela vem antes desta delegacia, antes de você e antes de tudo. Você a trouxe e vai lidar com as consequências disso.
Virei-me e saí, deixando a porta aberta.
Minhas mãos ainda tremiam, mas não era mais raiva. Era o puro terror da possibilidade de perdê-la de novo e do conhecimento sombrio de que, se isso acontecesse, eu realmente seria capaz de cumprir cada palavra daquela promessa.
No corredor, apoiei as mãos na parede, respirando fundo.
Três anos de distância, de tentar seguir em frente, e bastou vê-la naquela cena de crime para entender que nada havia mudado. Ela ainda era o meu parâmetro para tudo. A única mulher que havia me feito querer casar, a única que eu quis como mãe do meu filho. E agora, eu estava prestes a assistir ela mergulhar de volta no inferno que quase a destruiu e na minha total incapacidade de detê-la.
Quando levantei os olhos, estava lá.
Encostada na parede do corredor, a poucos metros de distância, com os braços cruzados. Ela não estava olhando para mim, mas sim para as próprias botas, como se estudasse cada marca de poeira do armazém que ainda grudava nelas. Ela empurrou-se da parede com um movimento fluido, finalmente erguendo os olhos para encontrar os meus. O verde deles estava turvo e impenetrável.
— O — disse ela, mantendo sua voz deliberadamente neutra e profissional. — Preciso que você vá buscá-lo na escola. Sua mãe não está se sentindo bem hoje, ligaram para mim.
Ela tinha ouvido. Claro que tinha ouvido. sempre soube tudo sobre mim, mesmo quando eu tentava esconder. Era uma das coisas que mais me enfurecia e, paradoxalmente, mais me atraía nela. Essa capacidade quase sobrenatural de ver através de todas as minhas paredes. O problema era que era, também, a mesma mulher que, após acordar no hospital há cinco anos, me olhou nos olhos e sussurrou "Precisamos terminar o caso" antes mesmo de perguntar sobre seu próprio estado. A obsessão sempre vinha primeiro. Sempre.
... — comecei, mas as palavras morreram na minha garganta. O que eu poderia dizer? Que tudo aquilo era verdade? Que três anos de divórcio não mudaram o fato de que eu a amava de uma maneira que doía? Que a simples ideia de vê-la sofrer de novo me tornava capaz de qualquer coisa?
Ela passou por mim, mas parou quando nossos ombros quase se tocaram.
— Eu ouvi o que você disse para o Rhys — sussurrou, sem me olhar. — Não faça isso. Não coloque sua carreira em risco por minha causa.
— Não é só por sua causa — respondi, igualmente baixo. — É pelo . É por mim.
Ela fez uma pausa, e por um breve instante, vi a máscara de frieza rachar. Nos seus olhos, brilhou aquela mistura de teimosia e vulnerabilidade que me fez me apaixonar por ela tantos anos atrás.
— Eu sei me cuidar, .
— Eu também sei — retorqui. — Mas cuidar de você é diferente de cuidar de mim.
Ela engoliu em seco e assentiu, quase imperceptivelmente, antes de seguir pelo corredor.
Caminhei até a sala de interrogatórios vazia e fechei a porta atrás de mim. Precisava de um momento para me recompor, para enterrar novamente todos aqueles sentimentos que haviam explodido com tanta força. Respirei fundo, tentando me concentrar no caso, nas evidências e no perigo real que representava para ela, mas todas as estradas mentais levavam de volta para . O jeito que ela tinha olhado para aquela escultura de gesso, não com o horror dos outros investigadores, mas com uma compreensão profunda e perturbadora. Como se ela e o Escultor compartilhassem um idioma secreto que ninguém mais conseguia decifrar.
Era isso que me assustava mais do que qualquer ameaça: a conexão doentia entre eles.
Meu rádio estalou.
— Voorhes, temos a análise preliminar da vítima. Você quer descer?
— Já vou — respondi, ajustando o tom para o profissionalismo habitual.





Continua.


Nota da autora: Entre para o nosso grupo no WhatsApp! É lá que o coração da história bate primeiro.
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