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Independente do Cosmos 🪐

Última Atualização: 18 de Abril de 2026




Estou parada há alguns minutos tentando processar a informação de que fomos eliminados. Olhando pelo telão dá para ver o abatimento da torcida. Apesar de ser triste e decepcionante, não consigo chorar. Em eliminações assim eu costumo ficar com raiva, repassando os erros burros dos jogadores na minha cabeça, pensando o que poderiam ter feito diferente se fossem mais competentes, mas dessa vez eu não posso ser tão dura quanto gostaria, já que está na minha frente praguejando sobre essa eliminação e sentindo raiva suficiente por nós dois. Sei exatamente quando ele está chateado consigo mesmo e se cobrando.
, você precisa se acalmar. Sei que é péssimo, mas você não está mais no campo para continuar agindo como um animal. — O olho, preocupada. Decidi sair do camarote e encontrá-lo na sala de espera reservada para a família dos atletas antes do tempo acordado porque sabia que seu emocional estaria destruído. É o sonho dele ganhar uma copa e agora terá que esperar por mais quatro anos.
Papai, mamãe e a Valerie, a namorada dele, também estão chateados. Todos aqui tinham alguma expectativa. É ruim ver meu país indo embora tão cedo porque o jogo foi bem equilibrado, mesmo que a mídia esportiva e a maioria dos setoristas estivessem cravando a Inglaterra como a favorita desde o início das oitavas.
— Eu não encostei nele, porra, eu juro, , que não encostei. Mas aquele filho da puta do conseguiu fingir muito bem e o juiz o comprou, aquele desgraçado! — rosna para mim.
— Claro que não encostou. — Digo apenas para consolá-lo, porque a minha real vontade era dizer o quão idiota ele foi dando um carrinho em na frente do juiz e dentro da grande área. Isso não é um erro que você pode cometer em uma decisão de mundial, mas você não pode esperar inteligência vindo de homens. E para ser sincera, não achei que fingiu o contato. Pela imagem, infelizmente, achei o pênalti bem claro, mas eu não sou doida de falar isso para o , ainda mais agora, por isso guardo as palavras para mim tentando ser uma irmã diplomática.
— Odeio ele.
Respiro fundo. é um assunto delicado. Não tenho muita simpatia por , é difícil ter. Ele e o meu irmão tem uma rixa antiga. São rivais declarados, jogam um contra o outro na Premier League e toda vez que se encontram, seja em campo, ou fora dele, você pode esperar que algo ruim aconteça. Penso que eles só não se mataram hoje no campo porque é esperto, ele sabia que o time dele ia passar e não queria correr o risco de ficar fora do próximo jogo caso fosse expulso.
O que é estranho porque eles costumavam ser amigos. Tudo bem que isso faz tipo uns dez anos, mas era uma boa amizade.
Eu gostaria muito de dizer que nunca cheguei a trocar uma palavra com e que só o conhecia de vista, gostaria mesmo. Normalmente, sou resistente ao álcool, consigo tomar taças e taças sem sequer ficar tonta, mas as coisas podem se complicar para mim caso uma elevada carga emocional entre na equação, e vamos dizer que naquela festa, há três meses, as coisas se complicaram bastante.
Tudo aconteceu no pós-festa da premiação do The Best. Em um momento eu estava feliz pelas conquistas das minhas amigas que jogam no PSG e conquistaram a Champions League Feminina na última temporada, e no outro… estava tendo uma crise de melancolia porque eu também deveria estar fazendo parte daquilo. Eu também queria concorrer àqueles prêmios. E isso foi arrancado de mim por uma fatalidade.
Quando dei por mim, estava com uma garrafa de champanhe na mão, ao invés de uma taça, e fazendo declarações patéticas a . Lembro de ter o beijado. Lembro também dele me levando para casa porque eu não me aguentava em pé. Foi tudo tão constrangedor, porque em tese eu deveria odiá-lo. Eu vivo evitando encontrar com , pois, toda vez que nos vemos, ele faz questão de lembrar desse infeliz episódio. é aquele tipo de cara que sabe usar sua solteirice a seu favor e é raro de levar um fora de alguma mulher. É insuportável vê-lo com aquele sorriso branco convencido. Ele sabe que é um filho da puta gostoso e não economiza no charme. Fugir dele é mais fácil que resistir.
Não gosto de ficar com jogadores e a sua má relação com o meu irmão só dificulta tudo, é uma dor de cabeça que eu não quero ter.
— Bem, papai e mamãe estão no camarote, ainda, com a Valerie. Quer que eu chame eles aqui? — Pergunto não tendo nada melhor para dizer.
— Não consigo nem olhar para eles depois dessa humilhação.
— Não foi uma humilhação, . — Afirmo, mas meu irmão é irredutível. — O placar foi pequeno, o jogo foi difícil.
— Só diga a eles que vou vê-los no hotel.
me dá as costas, talvez vá encontrar o resto da seleção belga para voltarem para o hotel no ônibus da seleção. Já eu dou a volta, não só para encontrar nossos pais, mas para começar algo que eu torço internamente para que acabe logo.

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No fim do dia, quando volto para o hotel, Charlotte me enche de mensagens avisando dos meus próximos compromissos, daí já consigo ter uma ideia de que não vou conseguir assistir a todos os outros jogos das seleções ainda classificadas. Desde que me lesionei e a minha carreira de jogadora foi para o espaço eu tenho que me contentar em apenas ser uma ordinária telespectadora. Por oportunidade, acabei virando modelo comercial e tive que me adaptar à nova profissão com o tempo. Mas tenho um segredo sobre isso que não costumo compartilhar com ninguém.
Eu odeio o meu trabalho.
Sei que não deveria odiar, porque é um bom trabalho e o sonho de muitas, mas meu coração torce no peito toda vez que eu lembro que as pessoas não me veem mais como uma atleta, e sim como uma modelo comum. Eu sou um rosto bonito conveniente para colocar em cartazes, vitrines e outdoors. Para quem costumava marcar gols, fazer dribles e um estádio inteiro vibrar, isso não é nada.
Eu amava jogar futebol. Era a sina da minha vida porque eu tinha certeza de que era boa, não era algo que eu precisava ouvir de ninguém. Eu era a pessoa mais confiante do mundo quando pisava no gramado porque sabia que se repetisse o que fazia nos treinos eu sairia de lá vitoriosa. Meus números eram impressionantes. Naquela última temporada, eu liderei a liga em assistências e dribles curtos, criando um caos coreografado que fazia os olheiros do Lyon anotarem freneticamente em suas pranchetas.
Lyon, a maior equipe feminina atualmente, estava prestes a me fazer uma proposta. Era um dos meus maiores sonhos vestir aquela camisa e foi triste quando tudo ruiu diante dos meus pés. Nunca esqueço as palavras de Philipp Henderson na ESPN dizendo que fui a maior perda de um talento promissor para o futebol feminino. Eu gostaria de dizer que é uma ferida cicatrizada, mas nunca cura. Não totalmente.
Fiquei deprimida alguns meses até começar a tentar me reerguer quando Charlotte apareceu, sempre com o pensamento de que aquela melancolia fodida ia passar. Eu ia ter um trabalho novo e as coisas iam melhorar, mas conforme o tempo passava, nunca me senti cem por cento bem. E desde agosto desse ano, venho refletindo que preciso de um ponto de virada na vida.
Charlotte é um anjo para mim, ela leva seu trabalho tão a sério que às vezes tenho medo, mas também é uma grande oportunista, e não posso julgá-la por isso porque eu sou exatamente igual. Quando ela soube que eu queria vir ao Catar acompanhar o meu irmão nos jogos no mundial, conversou com várias marcas e conseguiu algumas campanhas. Por isso, enquanto os meus pais e toda a seleção belga voltam para casa após a eliminação, eu continuo aqui, cumprindo contratos e tentando me acostumar à culinária árabe e ao calor incessante.
O que Charlotte não sabe é que o meu trabalho de modelo está sendo pura fachada, nessa viagem, para o que eu venho planejando há meses. Não queria que as coisas fossem assim, escondidas, mas não podia ignorar o momento perfeito para juntar o útil ao agradável e iniciar o ponto de virada que estava precisando, fazendo isso de forma progressiva.
Naquela noite desastrosa, não foi só que entrou no meu caminho. Um pouco antes, Sylvie Schillaci me encontrou chorando no banheiro. Sylvie sempre foi uma inspiração. Além de ser elegante e simpática, Schillaci foi uma das melhores zagueiras que eu já vi, ela jogou e foi capitã do Tottenham durante sua ascensão das divisões inferiores para a Superliga Feminina da FA. Eu via essa mulher jogar toda semana. Quando estava na base do Union Saint-Louise, eu saia dos treinos, sentava na bola e ficava assistindo aos jogos toda molhada de chuva porque não queria perder um segundo da sua atuação indo tomar banho.
O futebol sempre esteve muito presente na minha vida, não só por , eu ia atrás das minhas próprias inspirações. Se inserir em um espaço majoritariamente dominado por homens é um desafio árduo, então imagino o quanto Sylvie teve que ignorar quando falavam que 'ninguém liga para futebol feminino', ou coisas do tipo, para nunca desistir. A garotinha sentada na bola ligava e sempre vai ligar.
Nós tivemos uma conversa bastante condolente, ela me contou histórias que jamais falaria em alguma coletiva enquanto eu tentava estancar o choro. Dias depois, Sylvie me convidou até o seu escritório e me fez uma proposta bastante ousada: ela entregou nas minhas mãos o “Projeto Paralelo: Vozes do Vestiário”. Ela queria que eu fizesse uma série de análises e conteúdos off the record sobre a Copa, focada na perspectiva emocional, física e mental dos jogadores, feita por alguém que já esteve dentro do campo. Ela disse que via em mim algo que um jornalista comum não tem: leitura corporal de atleta, linguagem de vestiário, a sensibilidade de uma ex-jogadora lesionada e coragem de perguntar o que ninguém pergunta.
Demorei um mês para finalmente aceitá-lo, e o meu desafio agora é concluí-lo até o apito final e passar para a próxima fase. e seus colegas de seleção estavam me ajudando com isso, era fácil conversar com eles e as minhas análises estavam indo bem. Com a eliminação da Bélgica, talvez seja um pouco mais complicado de conseguir o que preciso.
Estou na cama, de jeans e camiseta, com o ar condicionado no 16 porque esse é único jeito de aguentar esse calor infernal. Peguei o notebook para avaliar todo o material que já tenho, um pouco satisfeita com o resultado, mas começando a recalcular a rota após esse obstáculo. Saio da imersão dos arquivos quando recebo uma ligação de vídeo no computador de Skye. A minha melhor amiga.
Ciao bella! — Skye diz quando aparece na tela. Seu cabelo está molhado, então acredito que ela acabou de sair da água. Na vida passada, Skye deve ter sido um peixe, ou uma sereia.
Ma belle! — Correspondo ao seu elogio na minha língua nativa. Na maior parte do tempo eu e Skye nos comunicamos em inglês, porque eu não entendo nada de italiano, e ela muito menos de neerlandês ou francês, apenas conseguimos identificar algumas palavras soltas, principalmente palavras de carinho. Ou xingamentos.
Tentei te ligar a manhã inteira, !
— Sinto muito, eu estava tentando não entrar em profunda depressão.
Ela faz uma careta quando se lembra da eliminação.
Ah… Sinto muito, mas talvez a verdadeira Copa do Mundo sejam os amigos que fazemos pelo caminho.
— Cala a boca, Skye. Sério… Eu não acredito que fomos eliminados desse jeito. Verbeek insistiu naquele esquema 4-3-3 engessado, sem mobilidade. Se tivesse colocado o Tielemans mais cedo, a transição teria sido muito mais rápida. — Comento chateada. Highlights do jogo passando como flashs na minha cabeça. Acho que a seleção belga tem o técnico mais teimoso de todas as comissões, eu odeio aquele mala desde que ele deu uma declaração super machista sobre a seleção feminina. Então, por um lado, eu fico satisfeita com o seu fracasso.
Eu também achei estranho! Parecia que o meio-campo estava travado, sem criatividade. Assisti ao jogo n’O GALES, você não imagina a felicidade dos ingleses com os erros de Verbeek. Acho que se De Ketelaere também tivesse entrado antes, teria dado mais opções ofensivas.
Uma nuvem de saudade percorre a minha mente. O GALES é o nosso bar favorito. Skye mora na Itália, mas vive me fazendo visitas em Londres ou sempre aparecendo quando não estou por lá.
— A defesa tava muito vulnerável, e ainda assim ele não mexeu. — Solto uma risada ríspida. — Um 3-5-2 teria dado mais equilíbrio, com alas apoiando tanto na defesa quanto no ataque. Mas não… ficou preso ao plano inicial.
Um peccato, amiga… Verbeek é um filho da puta covarde!
Dou risada concordando. Skye trabalha como árbitra assistente, então ela entende meu universo tão bem quanto eu. É tão bom conversar sobre esse tipo de coisa que não seja com um homem tentando provar o tempo todo que sabe mais do que você. Nós nos conhecemos quando ela foi escalada para um jogo da Champions em Paris, na época que eu jogava pelo PSG. Eu diria que foi amizade à primeira vista.
Eu poderia ficar a noite inteira falando da covardia de Verbeek, ou como Philippe Van Acker, nosso centroavante, perdeu cinco gols feitos, mas acho que já tive futebol suficiente para um dia.
— Vamos falar de outra coisa. Estou de mau-humor o resto do dia.
Claro, como tá a sua pesquisa?
— Estava ótima, até eu perceber que vou ter que encontrar novas cobaias.
Hugo não pode te ajudar?
Pondero por alguns segundos. Hugo é francês e um dos melhores amigos de . Eles jogam juntos no Arsenal e no momento talvez seja a pessoa mais próxima de mim aqui, com exceção de Charlotte.
— Nunca pensei em pedir ajuda a ele.
Você deveria, é claro, se vocês conseguirem manter as coisas profissionais...
— Por que não seriam profissionais? — Ergo a sobrancelha.
Não sei... Acho que ele tem uma queda por você.
Pensando nas minhas interações com Hugo, elas sempre foram bastantes cordiais, e ele nunca foi nada menos do que gentil comigo. Já percebi alguns olhares diferentes vindos dele, mas nunca davam em alguma coisa.
— Jamais ficaria com Hugo, ele é o melhor amigo do ... Deixaria as coisas estranhas.
Então pedir ajuda não vai ser um problema. — Dá de ombros enquanto esfrega algum creme nos braços. Skye tem a pele bronzeada, já que ela surfa, então está sempre sujeita a insolação até nos dias nublados. Acho que ela é a única pessoa em Londres que não é pálida como papel, mas também não tem aquele bronzeado artificial horroroso que te deixa laranja como certo nicho da elite inglesa. — Você ainda não contou pra Charlotte?
— Não vou contar a ela nem tão cedo. Preciso de um porto seguro caso isso não dê certo.
Às vezes me sinto uma traíra. Uma impostora. Mas também, presa. Como se não pudesse sair do lugar só para não decepcionar as pessoas.
Claro que vai dar certo, Sylvie já te ama, as análises que você vai entregar só vão confirmar isso. — Gostaria de um dia ser tão positiva quanto Skye é. — Preciso ir bella, Murphy está me olhando como se planejasse arranhar a minha cara caso eu não vá alimentá-lo.
— Oui, te mando mensagem depois.
Me despeço de Skye e passo quase que o resto da noite ponderando se devo ou não mandar mensagem para Hugo Martin.



Continua...


Nota da autora: Ah, como eu tava com saudade disso aqui!! Primeiro de tudo vamos esclarecer algumas coisinhas. Eu tinha duas fanfics do mesmo casal (16 Dias e 5 Meses) que decidi transformar em uma só, então estou reescrevendo tudinho do inicio ao fim porque a minha ideia é fazer uma série com quatro histórias, sendo a primeira dela focada no casal de O Impedimento. Eu amo tanto essa história que tinha que aproveitá-la, mas tendo que fazer alguns ajustes então espero que vocês gostem, tanto para quem está lendo pela primeira vez quanto quem já leu as versões anteriores. Estou animada para seguir aqui com vocês <3 Então me contem o que acharam hein. Até a próxima Att! Caso queiram interagir comigo, saber novidades sobre minhas histórias ou quando sai a próxima atualização, me sigam lá no twitter e entrem no meu grupo do whatsapp!