Independente do Cosmos 🪐
Última Atualização: 17 de maio de 2026Regra #1:
No futebol, o impedimento acontece quando um jogador, no momento do passe, está mais perto do gol adversário do que a bola e o penúltimo defensor. É a linha invisível que separa o permitido do proibido.
Às vezes, na vida e no amor, também existe uma linha invisível, aquela que diz “agora não”, “não assim”. E mesmo sem querer, a gente cruza porque o coração não fica esperando pelo passe certo.
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COPA DO MUNDO - OITAVAS DE FINAL
INGLATERRA X BÉLGICA
O placar marca 1x1 aos dez do segundo tempo da prorrogação e não pode ser um resultado mais preocupante para mim e todos que estão nesse campo. Qualquer simples erro pode nos eliminar nas oitavas de final.
Não quero isso, é a primeira Copa que jogo e estou em um ponto importante da minha carreira, seria torturante ter que esperar por mais quatro anos. O Estádio Al Janoub está lotado e as cores da torcida se misturam entre as da seleção inglesa e a belga. Todos estão na expectativa porque esse é um jogo grande.
Sander De Bruyn dispara com a bola após um bom lançamento de . O ótimo cruzamento do zagueiro só me faz odiá-lo mais. Sander está correndo, todos sabemos para onde. Ele dribla Jack e Ben com tanta facilidade que fico tenso porque ele vai marcar e vai nos eliminar. Quando o último fio de esperança inglês está indo pelo ralo, Finley Ashbourne aparece, ele é nosso melhor lateral esquerdo. A parte ruim é que a sua tentativa de impedir Sander resulta em um encontrão mal visto aos olhos do juiz, que apita e marca uma falta perigosa perto da grande área.
Merda. O árbitro para o jogo. Finley ajuda Sander a se levantar e Chris fica próximo dele para evitar possíveis reclamações com o árbitro, a falta é clara e ninguém aqui quer levar um cartão.
Chris Lawson é o nosso capitão, então ele sempre está por perto para evitar essas coisas. Vejo ir até o juiz exigir um cartão para Finley, mas o árbitro ignora e faz as marcações no gramado para a cobrança de falta.
Definitivamente, eu odeio esse cara. . Não nos damos bem fora, nem dentro de campo. A cada encontro do Chelsea com o Arsenal pela Premier League é uma guerra. No último clássico, no final da temporada, nós dois fomos expulsos por briga. Eu teria dado um soco na cara dele sem arrependimentos se não fosse ser suspenso por atitude antidesportiva.
Sander cobra a falta para a Bélgica e a bola voa, alto o suficiente para Ben cabeceá-la para frente. A bola vai parar no pé de Nathan, um dos atacantes ingleses, que puxa um rápido contra-ataque enquanto a torcida, de pé, se empolga com a situação. Nathan tem duas opções: eu e Jake, visto que Jamie está um pouco mais atrás. A bola passa por Jake e vem parar nos meus pés.
Eu corro em disparada mirando no gol e vejo Lars Vermeersch. O goleiro belga é um paredão de dois metros e está focado, olhando para mim, tentando adivinhar para onde eu vou mandar essa bola. Estou correndo como se essa fosse a minha única missão na terra, esse é o gol da classificação, mas chego perto o suficiente e estou prestes a chutar, um enorme incômodo vem no meu tornozelo direito e no segundo seguinte estou no chão. A dor é aguda, mas a fúria é maior ainda quando vejo que quem me derrubou foi .
O maldito . Zagueiro sujo do caralho.
Um furdunço belga aparece ao redor do árbitro quando ele puxa um cartão amarelo para e marca um pênalti para nós sem ao menos checar o VAR. A torcida é barulhenta.
— Ei, . — Diz Ben, preocupado, me ajudando a levantar.
Meus companheiros de equipe vêm me checar e aos poucos a dor vai passando. Olho para , ele está reclamando com o árbitro. Quero ir até lá xingar o filho da puta, mas a taxatividade do juiz é o suficiente para me conter.
O estádio inteiro está vibrando, mas continuo tenso. Jake se posiciona na marca do pênalti, coloca as mãos na cintura e aguarda o apito do juiz. Ele encara Lars e, quando o barulho do apito vem, ele vai. Todos estamos posicionados para um possível rebote, mas Jake não desperdiça a oportunidade, finalizando no canto esquerdo, enquanto Lars pula para o canto direito.
Ele corre como um doido depois que vê a rede balançar e o juiz validar o gol. Vou na sua direção junto com o resto do time e a torcida vibra. Os últimos dois minutos de acréscimo são uma tortura para nós até o árbitro finalmente apitar o fim do jogo. A Bélgica está eliminada e a Inglaterra segue para as quartas. Eu tiro a blusa comemorando, a sensação é muito boa.
O sonho está vivo.
O túnel que leva ao vestiário parece menor do que realmente é. Talvez seja a adrenalina, talvez seja o fato de que eu ainda estou tremendo, não sei se pela dor no tornozelo, pelo gol do Jake ou pela simples e pura sensação de que sobrevivemos. Jogar esse mundial não se parece com nada que eu já tenha feito na vida e a cada fase que passamos parece que ganhamos uma nova chance.
Observo meus três parceiros de vida. Não apenas na Seleção, mas no Chelsea: eu, Ben, Jake e Jack somos inseparáveis. Estamos indo até o vestiário: eu, no centro da formação, com Ben me segurando pelo ombro para garantir que eu não volte a mancar. Jake, está à nossa frente, ainda acelerado pelo gol. E Jack? Jack está logo atrás falando a primeira merda que lhe vem à cabeça desde que saímos do campo, é a maneira peculiar dele de processar qualquer emoção forte.
A porta do vestiário se abre e somos engolidos pelo grito coletivo do time. O vestiário está no mais absoluto caos. Toalhas voam, água é espirrada como se fosse champanhe, e alguém, provavelmente o Danny, está batendo numa lata de isotônico como se fosse um tambor de escola de samba. Nós quase levamos um banho ao passo que imergimos no suor e na adrenalina.
— Aquele juiz estava me irritando. — Jack comenta, chutando uma garrafa vazia no chão. — Se ele desse vermelho pro Finley, eu ia lá xingar ele até em alemão, sei lá qual língua eles falam.
— o Chris ia te matar se você abrisse a boca perto do juiz de novo. Já basta a sua coleção de cartões. — Ben rebate, revirando os olhos.
— Ah, eu ia mesmo. — Comenta Chris quando passa por nós para ir até o seu box.
— É só na Premier League. — Jack se defende. — Na Copa é diferente. Aqui eu me comporto.
Dou risada, porque ouvi essa frase exata umas… vinte vezes nas últimas duas semanas. E ainda assim ele levou um amarelo no primeiro jogo da fase de grupos. Vamos dizer que o Jack tem uma infame coleção de cartões amarelos e vermelhos. Tudo bem que ele é zagueiro, mas até para um zagueiro eu diria que é um número… exagerado. Às vezes fico impressionado com como ele e o Jake são diferentes, apesar de serem irmãos gêmeos. No Chelsea, Jake é o nosso centroavante, o nosso capitão que põe a ordem acima de tudo e é um exemplo dentro e fora de campo. Já o Jack… bem, Jack Reed é o caos em forma humana.
Jake me dá um tapa leve na nuca, que eu interpreto como um jeito sutil de dizer “estou feliz por você não ter quebrado o pé”.
— Boa corrida, — Ele diz. — Mesmo atropelado pelo .
— Aquele babaca — Jack rosna. — Eu juro por Deus, , se isso fosse no Stamford Bridge, eu quebrava ele no meio.
— Ah, não, por favor — Ben bufa daquele jeito responsável que ele sempre é, principalmente quando Jack decide comentar sobre sua postura nos jogos do nosso estádio. — Mais um derby com expulsão? Tuchel ia ter um infarto na beira do campo.
Eu levanto as mãos. — Vamos apenas ganhar e evitar os socos.
Digo, mas quem estou querendo enganar? Já tive oportunidades em campo de ter evitado brigas com e em todas elas eu falhei. Mas o que eu posso fazer? O cara me tira do sério. É algo que venho tentando trabalhar com a psicóloga do clube, não só por causa de , mas isso parece… crônico.
Aprendi cedo que rivalidade nunca começa no ódio, ela começa em escolhas pequenas, normais e necessárias, e na minha vida isso parece ser um padrão amaldiçoado. Nunca precisei empurrar ninguém para fora do caminho, o caminho simplesmente se fecha atrás de mim e alguém fica do lado errado. Toda. Santa. Vez. Na base, era sempre assim. Um treino bom demais, uma promoção, um nome anunciado em voz alta enquanto outro era silenciado.
Nunca me senti um vilão, mas comecei a me sentir como alguém que sempre vence às custas de outro e isso me incomoda.
Com o tempo, o padrão ficou claro demais para ser coincidência. Sempre que eu escolhia algo para mim, uma vaga, um contrato, uma chance, alguém saía ferido. E não importa o quanto eu explique ou tente ser correto, a história nunca me coloca como o cara que só fez o que precisa ser feito. Eu me torno o traidor. O ambicioso. O que passou por cima.
foi o primeiro nome que grudou nisso tudo e é impressionante como essa nossa rixa virou uma bola de neve que só foi ficando maior com o passar dos anos. Afinal, que outro motivo ele teria para me odiar tanto?
— Covarde. — Jack brinca, empurrando meu ombro.
Eu estou com metade da chuteira ainda no pé quando ele abre a caixa térmica com um estrondo dramático.
— Senhores… — Ele anuncia, como se fosse o mestre de cerimônias de uma premiação. — Hidratem-se antes que Simon venha encher o saco.
Ele pega quatro latas de isotônico, geladas o suficiente para minha mão arder, e arremessa uma pra cada um de nós. A minha quase acerta minha cara porque eu não estou olhando, típico Jack.
Ben bate a lata na perna e resmunga:
— Porra, Jack, quase explodiu isso aqui.
— Relaxa, pai de família, você tá muito tenso — Jack diz, abrindo a dele com estalo alto. — Daqui a pouco sua pressão cai igual à do antes do pênalti.
— Vai se foder — respondo. Eu odeio olhar os pênaltis, com exceção, é claro, de quando sou eu quem vai bater. Não porque fico nervoso, mas é uma espécie de superstição.
Jack dá uma única piscada e vira para o Ben:
— Aliás, falando em pressão… como tá a da Caillie? Aposto dez libras que ela comemorou o gol do Jake e ignorou totalmente o pai dela entrando em campo com cara de que ia vomitar.
Ben ri, balança a cabeça e joga a lata contra a dele, como se fosse um brinde improvisado. Ben é um completo idiota pela filha dele e o sorriso que ele abre toda vez que fala dela é maior do que a coleção de cartões do Jack. Mas acho que se eu tivesse uma filha como a Caillie também seria um idiota por ela. Entre nós quatro, Ben é único que tem uma filha, e acredito que por isso ele é a criatura mais calma e paciente que já conheci. Você precisa ser um insistente filha da puta para conseguir tirar Ben MacAllister do sério, e juro que eu queria muito ter um pouco dessa virtude, apesar de na maior parte do tempo ser um cara tranquilo.
— A Caillie gosta mais de você do que eu. Não me complica.
— Ela gosta mais de mim porque eu ensino ela a chutar. — Jack fala. Ele vive se gabando porque é o padrinho da Caillie. Óbvio que eu e Jake reclamamos muito, Ben apenas se defendeu dizendo que ele e Jack se conheceram primeiro e que era justo que Jack fosse o padrinho da sua primeira filha. — Jake quer botar a menina pra fazer treino de tática.
— Desculpa por querer desenvolver o QI futebolístico da futura geração.
— Ela tem cinco anos, cara — Eu digo lembrando da mini cópia do Ben. É impossível não se derreter quando essa garotinha aparece. Ela praticamente é mascote não oficial do Chelsea. — Ela só quer chutar a bola e comer biscoitos.
— E ainda assim — Jack aponta pra todos nós com a lata —, ela joga melhor que você.
— Sério, Jack, quantas vezes eu vou precisar mandar você se foder?
Os três riem, alto demais para o momento e alto demais para o vestiário abafado pós-classificação, mas eu nem me importo, porque quando é sobre nós quatro, sempre vale a pena.
Jake se encosta no armário, passando a mão no rosto suado.
— Cara… vocês têm noção do que acabou de acontecer?
Ben se joga no banco com um gemido dramático.
— Eu só tenho noção de que quase tive um infarto coletivo com aquele chute do Thatcher.
— Quase? — Jack ri. — Você morreu por uns três segundos, no mínimo.
Eu jogo a toalha molhada nele.
— Quem morreu foi você quando o Finley fez aquela falta. Eu ouvi você falando “fudeu” antes mesmo do juiz apitar.
— Informação privilegiada. — Jack responde, erguendo a lata como se fosse um troféu. — Meu instinto de sobrevivência é afiado.
Ben olha pra mim, balança a cabeça.
— Instinto de sobrevivência? Você? O cara que levou treze cartões na temporada?
— Catorze — Jake corrige, sem erguer os olhos.
— Tudo tático. — Jack estala a língua.
Eu rio, porque não tem como não rir. Esses idiotas são a única parte desse esporte que sempre vale a pena. Jogar este mundial é uma montanha-russa de emoções e você tem que aguentar porque nunca sabe se vai ter outra chance. O torneio acontece de quatro em quatro anos, até lá tudo pode acontecer. Podemos não sermos convocados, podemos estar lesionados e até mesmo ter parado de jogar. Não falo só por mim quando digo que estamos apostando tudo e dando o máximo de nós mesmos. Sei que Jake, Jack e Ben concordam comigo. Não vamos ter outra chance de fazer isso juntos.
Estou parada há alguns minutos tentando processar a informação de que fomos eliminados. Olhando pelo telão dá para ver o abatimento da torcida. Apesar de ser triste e decepcionante, não consigo chorar. Em eliminações assim eu costumo ficar com raiva, repassando os erros burros dos jogadores na minha cabeça, pensando o que poderiam ter feito diferente se fossem mais competentes, mas dessa vez eu não posso ser tão dura quanto gostaria, já que está na minha frente praguejando sobre essa eliminação e sentindo raiva suficiente por nós dois. Sei exatamente quando ele está chateado consigo mesmo e se cobrando.
— , você precisa se acalmar. Sei que é péssimo, mas você não está mais no campo para continuar agindo como um animal. — O olho, preocupada. Decidi sair do camarote e encontrá-lo na sala de espera reservada para a família dos atletas antes do tempo acordado porque sabia que seu emocional estaria destruído. É o sonho dele ganhar uma copa e agora terá que esperar por mais quatro anos.
Papai, mamãe e a Valerie, a namorada dele, também estão chateados. Todos aqui tinham alguma expectativa. É ruim ver meu país indo embora tão cedo porque o jogo foi bem equilibrado, mesmo que a mídia esportiva e a maioria dos setoristas estivessem cravando a Inglaterra como a favorita desde o início das oitavas.
— Eu não encostei nele, porra, eu juro, , que não encostei. Mas aquele filho da puta do conseguiu fingir muito bem e o juiz o comprou, aquele desgraçado! — rosna para mim.
— Claro que não encostou. — Digo apenas para consolá-lo, porque a minha real vontade era dizer o quão idiota ele foi dando um carrinho em na frente do juiz e dentro da grande área. Isso não é um erro que você pode cometer em uma decisão de mundial, mas você não pode esperar inteligência vindo de homens. E para ser sincera, não achei que fingiu o contato. Pela imagem, infelizmente, achei o pênalti bem claro, mas eu não sou doida de falar isso para o , ainda mais agora, por isso guardo as palavras para mim tentando ser uma irmã diplomática.
— Odeio ele.
Respiro fundo. é um assunto delicado. Não tenho muita simpatia por , é difícil ter. Ele e o meu irmão tem uma rixa antiga. São rivais declarados, jogam um contra o outro na Premier League e toda vez que se encontram, seja em campo, ou fora dele, você pode esperar que algo ruim aconteça. Penso que eles só não se mataram hoje no campo porque é esperto, ele sabia que o time dele ia passar e não queria correr o risco de ficar fora do próximo jogo caso fosse expulso.
O que é estranho porque eles costumavam ser amigos. Tudo bem que isso faz tipo uns dez anos, mas era uma boa amizade.
Eu gostaria muito de dizer que nunca cheguei a trocar uma palavra com e que só o conhecia de vista, gostaria mesmo. Normalmente, sou resistente ao álcool, consigo tomar taças e taças sem sequer ficar tonta, mas as coisas podem se complicar para mim caso uma elevada carga emocional entre na equação, e vamos dizer que naquela festa, há três meses, as coisas se complicaram bastante.
Tudo aconteceu no pós-festa da premiação do The Best. Em um momento eu estava feliz pelas conquistas das minhas amigas que jogam no PSG e conquistaram a Champions League Feminina na última temporada, e no outro… estava tendo uma crise de melancolia porque eu também deveria estar fazendo parte daquilo. Eu também queria concorrer àqueles prêmios. E isso foi arrancado de mim por uma fatalidade.
Quando dei por mim, estava com uma garrafa de champanhe na mão, ao invés de uma taça, e fazendo declarações patéticas a . Lembro de ter o beijado. Lembro também dele me levando para casa porque eu não me aguentava em pé. Foi tudo tão constrangedor, porque em tese eu deveria odiá-lo. Eu vivo evitando encontrar com , pois, toda vez que nos vemos, ele faz questão de lembrar desse infeliz episódio. é aquele tipo de cara que sabe usar sua solteirice a seu favor e é raro de levar um fora de alguma mulher. É insuportável vê-lo com aquele sorriso branco convencido. Ele sabe que é um filho da puta gostoso e não economiza no charme. Fugir dele é mais fácil que resistir.
Não gosto de ficar com jogadores e a sua má relação com o meu irmão só dificulta tudo, é uma dor de cabeça que eu não quero ter.
— Bem, papai e mamãe estão no camarote, ainda, com a Valerie. Quer que eu chame eles aqui? — Pergunto não tendo nada melhor para dizer.
— Não consigo nem olhar para eles depois dessa humilhação.
— Não foi uma humilhação, . — Afirmo, mas meu irmão é irredutível. — O placar foi pequeno, o jogo foi difícil.
— Só diga a eles que vou vê-los no hotel.
me dá as costas, talvez vá encontrar o resto da seleção belga para voltarem para o hotel no ônibus da seleção. Já eu dou a volta, não só para encontrar nossos pais, mas para começar algo que eu torço internamente para que acabe logo.
No fim do dia, quando volto para o hotel, Charlotte me enche de mensagens avisando dos meus próximos compromissos, daí já consigo ter uma ideia de que não vou conseguir assistir a todos os outros jogos das seleções ainda classificadas. Desde que me lesionei e a minha carreira de jogadora foi para o espaço eu tenho que me contentar em apenas ser uma ordinária telespectadora. Por oportunidade, acabei virando modelo comercial e tive que me adaptar à nova profissão com o tempo. Mas tenho um segredo sobre isso que não costumo compartilhar com ninguém.
Eu odeio o meu trabalho.
Sei que não deveria odiar, porque é um bom trabalho e o sonho de muitas, mas meu coração torce no peito toda vez que eu lembro que as pessoas não me veem mais como uma atleta, e sim como uma modelo comum. Eu sou um rosto bonito conveniente para colocar em cartazes, vitrines e outdoors. Para quem costumava marcar gols, fazer dribles e um estádio inteiro vibrar, isso não é nada.
Eu amava jogar futebol. Era a sina da minha vida porque eu tinha certeza de que era boa, não era algo que eu precisava ouvir de ninguém. Eu era a pessoa mais confiante do mundo quando pisava no gramado porque sabia que se repetisse o que fazia nos treinos eu sairia de lá vitoriosa. Meus números eram impressionantes. Naquela última temporada, eu liderei a liga em assistências e dribles curtos, criando um caos coreografado que fazia os olheiros do Lyon anotarem freneticamente em suas pranchetas.
Lyon, a maior equipe feminina atualmente, estava prestes a me fazer uma proposta. Era um dos meus maiores sonhos vestir aquela camisa e foi triste quando tudo ruiu diante dos meus pés. Nunca esqueço as palavras de Philipp Henderson na ESPN dizendo que fui a maior perda de um talento promissor para o futebol feminino. Eu gostaria de dizer que é uma ferida cicatrizada, mas nunca cura. Não totalmente.
Fiquei deprimida alguns meses até começar a tentar me reerguer quando Charlotte apareceu, sempre com o pensamento de que aquela melancolia fodida ia passar. Eu ia ter um trabalho novo e as coisas iam melhorar, mas conforme o tempo passava, nunca me senti cem por cento bem. E desde agosto desse ano, venho refletindo que preciso de um ponto de virada na vida.
Charlotte é um anjo para mim, ela leva seu trabalho tão a sério que às vezes tenho medo, mas também é uma grande oportunista, e não posso julgá-la por isso porque eu sou exatamente igual. Quando ela soube que eu queria vir ao Catar acompanhar o meu irmão nos jogos no mundial, conversou com várias marcas e conseguiu algumas campanhas. Por isso, enquanto os meus pais e toda a seleção belga voltam para casa após a eliminação, eu continuo aqui, cumprindo contratos e tentando me acostumar à culinária árabe e ao calor incessante.
O que Charlotte não sabe é que o meu trabalho de modelo está sendo pura fachada, nessa viagem, para o que eu venho planejando há meses. Não queria que as coisas fossem assim, escondidas, mas não podia ignorar o momento perfeito para juntar o útil ao agradável e iniciar o ponto de virada que estava precisando, fazendo isso de forma progressiva.
Naquela noite desastrosa, não foi só que entrou no meu caminho. Um pouco antes, Sylvie Schillaci me encontrou chorando no banheiro. Sylvie sempre foi uma inspiração. Além de ser elegante e simpática, Schillaci foi uma das melhores zagueiras que eu já vi, ela jogou e foi capitã do Tottenham durante sua ascensão das divisões inferiores para a Superliga Feminina da FA. Eu via essa mulher jogar toda semana. Quando estava na base do Union Saint-Louise, eu saia dos treinos, sentava na bola e ficava assistindo aos jogos toda molhada de chuva porque não queria perder um segundo da sua atuação indo tomar banho.
O futebol sempre esteve muito presente na minha vida, não só por , eu ia atrás das minhas próprias inspirações. Se inserir em um espaço majoritariamente dominado por homens é um desafio árduo, então imagino o quanto Sylvie teve que ignorar quando falavam que 'ninguém liga para futebol feminino', ou coisas do tipo, para nunca desistir. A garotinha sentada na bola ligava e sempre vai ligar.
Nós tivemos uma conversa bastante condolente, ela me contou histórias que jamais falaria em alguma coletiva enquanto eu tentava estancar o choro. Dias depois, Sylvie me convidou até o seu escritório e me fez uma proposta bastante ousada: ela entregou nas minhas mãos o “Projeto Paralelo: Vozes do Vestiário”. Ela queria que eu fizesse uma série de análises e conteúdos off the record sobre a Copa, focada na perspectiva emocional, física e mental dos jogadores, feita por alguém que já esteve dentro do campo. Ela disse que via em mim algo que um jornalista comum não tem: leitura corporal de atleta, linguagem de vestiário, a sensibilidade de uma ex-jogadora lesionada e coragem de perguntar o que ninguém pergunta.
Demorei um mês para finalmente aceitá-lo, e o meu desafio agora é concluí-lo até o apito final e passar para a próxima fase. e seus colegas de seleção estavam me ajudando com isso, era fácil conversar com eles e as minhas análises estavam indo bem. Com a eliminação da Bélgica, talvez seja um pouco mais complicado de conseguir o que preciso.
Estou na cama, de jeans e camiseta, com o ar condicionado no 16 porque esse é único jeito de aguentar esse calor infernal. Peguei o notebook para avaliar todo o material que já tenho, um pouco satisfeita com o resultado, mas começando a recalcular a rota após esse obstáculo. Saio da imersão dos arquivos quando recebo uma ligação de vídeo no computador de Skye. A minha melhor amiga.
— Ciao bella! — Skye diz quando aparece na tela. Seu cabelo está molhado, então acredito que ela acabou de sair da água. Na vida passada, Skye deve ter sido um peixe, ou uma sereia.
— Ma belle! — Correspondo ao seu elogio na minha língua nativa. Na maior parte do tempo eu e Skye nos comunicamos em inglês, porque eu não entendo nada de italiano, e ela muito menos de neerlandês ou francês, apenas conseguimos identificar algumas palavras soltas, principalmente palavras de carinho. Ou xingamentos.
— Tentei te ligar a manhã inteira, !
— Sinto muito, eu estava tentando não entrar em profunda depressão.
Ela faz uma careta quando se lembra da eliminação.
— Ah… Sinto muito, mas talvez a verdadeira Copa do Mundo sejam os amigos que fazemos pelo caminho.
— Cala a boca, Skye. Sério… Eu não acredito que fomos eliminados desse jeito. Verbeek insistiu naquele esquema 4-3-3 engessado, sem mobilidade. Se tivesse colocado o Tielemans mais cedo, a transição teria sido muito mais rápida. — Comento chateada. Highlights do jogo passando como flashs na minha cabeça. Acho que a seleção belga tem o técnico mais teimoso de todas as comissões, eu odeio aquele mala desde que ele deu uma declaração super machista sobre a seleção feminina. Então, por um lado, eu fico satisfeita com o seu fracasso.
— Eu também achei estranho! Parecia que o meio-campo estava travado, sem criatividade. Assisti ao jogo n’O GALES, você não imagina a felicidade dos ingleses com os erros de Verbeek. Acho que se De Ketelaere também tivesse entrado antes, teria dado mais opções ofensivas.
Uma nuvem de saudade percorre a minha mente. O GALES é o nosso bar favorito. Skye mora na Itália, mas vive me fazendo visitas em Londres ou sempre aparecendo quando não estou por lá.
— A defesa tava muito vulnerável, e ainda assim ele não mexeu. — Solto uma risada ríspida. — Um 3-5-2 teria dado mais equilíbrio, com alas apoiando tanto na defesa quanto no ataque. Mas não… ficou preso ao plano inicial.
— Um peccato, amiga… Verbeek é um filho da puta covarde!
Dou risada concordando. Skye trabalha como árbitra assistente, então ela entende meu universo tão bem quanto eu. É tão bom conversar sobre esse tipo de coisa que não seja com um homem tentando provar o tempo todo que sabe mais do que você. Nós nos conhecemos quando ela foi escalada para um jogo da Champions em Paris, na época que eu jogava pelo PSG. Eu diria que foi amizade à primeira vista.
Eu poderia ficar a noite inteira falando da covardia de Verbeek, ou como Philippe Van Acker, nosso centroavante, perdeu cinco gols feitos, mas acho que já tive futebol suficiente para um dia.
— Vamos falar de outra coisa. Estou de mau-humor o resto do dia.
— Claro, como tá a sua pesquisa?
— Estava ótima, até eu perceber que vou ter que encontrar novas cobaias.
— Hugo não pode te ajudar?
Pondero por alguns segundos. Hugo é francês e um dos melhores amigos de . Eles jogam juntos no Arsenal e no momento talvez seja a pessoa mais próxima de mim aqui, com exceção de Charlotte.
— Nunca pensei em pedir ajuda a ele.
— Você deveria, é claro, se vocês conseguirem manter as coisas profissionais...
— Por que não seriam profissionais? — Ergo a sobrancelha.
— Não sei... Acho que ele tem uma queda por você.
Pensando nas minhas interações com Hugo, elas sempre foram bastantes cordiais, e ele nunca foi nada menos do que gentil comigo. Já percebi alguns olhares diferentes vindos dele, mas nunca davam em alguma coisa.
— Jamais ficaria com Hugo, ele é o melhor amigo do ... Deixaria as coisas estranhas.
— Então pedir ajuda não vai ser um problema. — Dá de ombros enquanto esfrega algum creme nos braços. Skye tem a pele bronzeada, já que ela surfa, então está sempre sujeita a insolação até nos dias nublados. Acho que ela é a única pessoa em Londres que não é pálida como papel, mas também não tem aquele bronzeado artificial horroroso que te deixa laranja como certo nicho da elite inglesa. — Você ainda não contou pra Charlotte?
— Não vou contar a ela nem tão cedo. Preciso de um porto seguro caso isso não dê certo.
Às vezes me sinto uma traíra. Uma impostora. Mas também, presa. Como se não pudesse sair do lugar só para não decepcionar as pessoas.
— Claro que vai dar certo, Sylvie já te ama, as análises que você vai entregar só vão confirmar isso. — Gostaria de um dia ser tão positiva quanto Skye é. — Preciso ir bella, Murphy está me olhando como se planejasse arranhar a minha cara caso eu não vá alimentá-lo.
— Oui, te mando mensagem depois.
Me despeço de Skye e passo quase que o resto da noite ponderando se devo ou não mandar mensagem para Hugo Martin.
Temos cinco dias até as quartas de final, por isso Simon Hargreaves, o técnico, decide nos dar o dia seguinte de folga e algumas horas de amanhã. Acho que isso é o máximo que vamos ter se chegarmos à final. Foi um pouco cômico como Simon virou para nós no vestiário logo depois do jogo contra a Bélgica e gritou:
— Dia livre, rapazes. Têm um dia para fingir que são pessoas normais. Está liberado comer, beber e transar, mas não façam nada que me obrigue a dar coletiva explicando vocês. Segunda-feira, às três, eu quero vocês respirando e funcionais. Nós temos um mundial para ganhar.
Porém, quando saio do quarto após tomar café, não vou atrás de nenhuma dessas coisas. O spa e a área das piscinas me parecem um lugar muito mais convidativo no momento. Estou usando o meu dia de folga para relaxar e esfriar a cabeça. Usar a folga para relaxar e ficar com a família é o que quase todo mundo no time faz, visto que nos próximos dias a concentração será puxada. Quem não está com a família está fazendo as outras três coisas que Simon sugeriu. Jack chegou a comentar comigo sobre uma festa, na praia privativa, ele deve estar lá com Jake, já que Ben está aproveitando para ficar com Caillie. Preferi não ir, gosto de ficar no hotel, há diversão por aqui, isso se você procurar bem.
E eu não poderia ter encontrado tão facilmente.
Assim que as portas do elevador se abrem, eu a vejo. , saindo do elevador na outra ponta do corredor. Ela está distraída, mexendo no celular enquanto caminha em linha reta.
tem um óculos plantado no topo da cabeça de onde caem os fios do seu cabelo castanho brilhante. Ela está com um roupão branco que bate na metade das coxas e deixa suas pernas à mostra. E que pernas. Só olhar quase me faz salivar. Ela é sensacional, tenho que admitir. Com certeza, uma das mulheres mais gostosas que já vi na vida. Mesmo com um pouco de distância, consigo ver sua boca, sempre preenchida por um batom vermelho vivo.
Lembro bem dos seus lábios sobre os meus, foi um dia inesquecível, mesmo que não tenha passado disso e que finja que nunca aconteceu. Acho que ela prefere morrer a me beijar de novo. Eu não. Por mais que ela seja a irmã de , não seria esforço nenhum, para mim, encostar a boca na dela de novo.
Uma dúvida agita o meu cérebro. O que ela está fazendo aqui? A Bélgica foi eliminada, seu irmão já deve ter ido embora há muito tempo. Por que ela continua no Catar e hospedada aqui? Um pensamento sujo invade a minha mente quando ela levanta a cabeça devagar e me vê. Eu facilmente desistiria do spa para fazer com ela, uma das três coisas que Simon falou. E nenhuma delas envolve comer ou beber. Facilmente. Meu pau se agita atrás do zíper.
Ah, porra.
Me obrigo a empurrar o pensamento de lado.
Dou um sorriso de agradável surpresa porque é muito bom vê-la de novo. Em momento nenhum ela desvia do caminho, por isso paramos no ponto exato onde se encontram os corredores que conectam a piscina aos elevadores.
— Oi .
Eu digo sugestivamente, quando estamos perto suficientemente. Ela cruza os braços e força um olhar de desprezo. Abaixo os óculos para que ela consiga ver os meus olhos.
— . — Rosna olhando para o chão.
— Nossa, que mau-humor. Eu estava esperando algo diferente, tipo um ‘parabéns’.
Levanto o braço como se fosse fazer um carinho na sua bochecha e ela afasta a minha mão como se fosse um mosquito irritante.
— Parabéns? Mais fácil eu te dar um chute na bunda.
— Ah, , eu posso te consolar se quiser. Sei que ser eliminado é difícil. — Toco o seu ombro e é incrível como ela não recua em nenhum momento. Sua postura não vacila, mesmo que eu esteja sendo um provocador de merda.
Apesar dela ser um pouco mais baixa, nossos olhares não se desencontram.
— Cavar um pênalti ridículo pra se classificar? — Ela põe a mão na cintura. — Olha, eu teria vergonha.
— Eu cavei um pênalti? — É a minha vez de sorrir descrente. — Seu querido irmão me deu um carrinho por trás. Se vocês foram eliminados, a culpa é dele.
— Tanto faz. Quando o juiz quer roubar para um lado, não adianta discutir. — Resmunga, eu dou risada do seu clubismo. Não dá para ter uma conversa com sem querer que seu humor ácido e quente não venha junto. — Nós teríamos ganhado se não fosse por isso. Iria para os pênaltis e Niels, Gilles, Sander e Arno fariam a boa.
— Não dá para negar que eles são bons, mas a Inglaterra tem um paredão no gol chamado Oliver Hartley. — Rebato. Ollie me deve uma por essa.
— Claro que Oliver ia ter que trabalhar, já que vocês não iam acertar nenhum. — Ela acusa, mas solta uma risadinha logo em seguida. É o que gosto em , diferente do irmão dela, ela sabe ser divertida. E tenho quase certeza que, se não fosse pela nossa rixa, eu e ela nos daríamos muito bem.
— Tá fazendo o que por aqui?
— Não que seja da sua conta, mas vou fazer algumas campanhas no Catar por mais alguns dias. — começa a seguir muito convenientemente para o corredor que leva às piscinas. Exato lugar que eu estava indo, então não é absurdo dizer que a sigo.
— Até o final do mundial?
— Provavelmente.
Quando andamos o suficiente para ficar expostos ao sol, procura uma espreguiçadeira vazia, perto de uma sombra fresca, e, minha nossa, quando ela tira o roupão, eu confirmo que dá mesmo para arrumar muita diversão sem precisar sair do hotel.
Ela tem uma confiança que me atrai, uma forma de se mover que faz o resto do Hotel Ritz-Carton parecer um cenário estático e preciso admitir que esse encontro me deixa entusiasmado.
— Quer ajuda?
Assim que inicio o meu processo de me encher de protetor solar, a voz de surge alguns passos atrás de mim. Certamente após perceber todo o contorcionismo que estou fazendo para passar protetor nas costas. É claro que o filho da mãe ia me seguir, mas eu nem posso culpá-lo. Está fazendo 27 °C, está quente para caralho. A primeira coisa que pensei quando acordei foi separar um biquíni e vir até a piscina. Me pergunto como seria se a Copa tivesse acontecido no verão, os jogadores iam derreter em campo. As pausas para hidratação iam durar uma hora.
apoia as mãos nos meus ombros e chega bem próximo do meu ouvido para falar, quase me arrepio inteira porque suas mãos estão geladas e o choque térmico é ótimo. Quando olho para trás, ele senta na cadeira de descanso ao lado da minha. Ele tem uma toalha em cima do ombro e está sem camisa, usa apenas um short azul-petróleo. Ele tem uma aparência clássica de atleta: alto, forte e sempre com aquele ar de quem acabou de sair de um treino, mesmo que só estivesse encostado na parede e mexendo no celular. A pele marrom quente, com um brilho natural que parece viver nele, destaca cada linha do corpo, como se a luz gostasse de pousar ali.
O sol bate no seu tronco definido e nas suas pernas torneadas de jogador e parece brilhar. Como se ele fosse um astro celestial ou coisa do tipo. O cabelo preto, liso e curto é o tipo perfeito para estragar, e para ele passar a mão no meio do treino, deixando algumas mechas caírem sobre a testa. É quase irritante o fato de que fica ainda mais bonito assim, meio bagunçado sem tentar.
é um território perigosamente delicioso. É mais fácil ignorar tudo isso quando estamos discutindo.
Eu reviro os olhos, mas acabo lhe entregando o meu frasco de protetor solar. Ele coloca as mãos de novo nos meus ombros e me deixa de costas para ele. Eu sinto o líquido frio do protetor cobrir todas as minhas costas e o movimento sutis dos seus dedos. mal me toca, mas já estou tremendo. Depois ele começa a espalhar o produto com maestria, tocando cada centímetro de pele. Sei que eu deveria levantar e ir embora, mas alguma coisa está grudando a minha bunda nessa cadeira.
Acho que não iria gostar se eu tivesse uma insolação, né?
— Você não devia estar treinando?
— Dia de folga.
Quase me viro para ele, mas aí percebo que está fazendo muito mais do que passar protetor nas minhas costas, ele está fazendo uma verdadeira massagem relaxante e ele é bom nisso. Suas mãos vão dos meus ombros até a lombar, firmando bem os dedos. Ele toca os pontos de maior tensão das minhas costas: a minha nuca, meus ombros, a área do trapézio e entre as costelas com movimentos suaves sustentando uma leve pressão, sem movimentos circulares. Suas mãos deslizam tão facilmente que sou capaz de ficar aqui o dia todo se ele continuar me tocando assim.
— Folga? Simon Hargreaves sabe o que é folga?
— Hargreaves pode ser sádico, mas até ele reconhece que merecíamos esse descanso. Acredito que a partir de amanhã ele volte a programação normal, sabe, nós vamos levantar aquela taça.
Eu balanço a cabeça para os lados e quase dou risada.
— Você está sendo soberbo.
— Não tem nada a ver com essa coisa de ser soberbo, eu só acredito no nosso time e que temos fortes chances de vencer isso.
Me vem à mente que o próximo adversário da Inglaterra é a Espanha. Os espanhóis estão vindo de uma vitória de 3x1 contra a Holanda e eu até poderia concordar com que eles têm chances reais de vencer, mas que graça teria?
— Sinceramente, ? — Eu me viro. e eu ficamos frente a frente. Nossos joelhos se encostando e eu desafio toda a sua certeza apenas com um olhar. — Vocês não passam das quartas.
— Você acha que vamos perder pra Espanha? — Ele pergunta cético se aproximando um pouco mais. Isso é divertido. Muito divertido.
— Acho. Reed vai ficar no bolso de González e Martínez.
— Eu duvido. — Afirma. — Eles podem ter uma boa defesa, mesmo após a saída do Pérez, mas não dá pra ganhar só com isso. Na frente, a Espanha tem boas opções para criação, mas eles parecem ter dificuldade em encontrar um atacante que se encaixe no esquema tático. Você não ganha Copa do Mundo sem fazer gols, .
— Mas eles conseguiram consertar as falhas e não sofreram com lesões, a meu ver, era o principal desafio, . Às vezes a nostalgia não permite que a gente veja o potencial do time atual, por isso eu cravo, a Espanha vai ganhar da Inglaterra.
cruza os braços e olho para o seu torso. Sua postura ereta é impecável, é como se em nenhum momento ele fosse vacilar e curvar a coluna como a maioria dos seres humanos costuma fazer. Eu adoro vê-lo reagindo quando decido desafiá-lo.
— Quer apostar? — Desafia.
Arqueia uma sobrancelha para mim. Esperava muitas reações, mas, definitivamente, não uma aposta. Talvez eu tenha ido longe demais, mas não aceitar essa aposta é dar para trás, e eu não sou o tipo de mulher que dá para trás. Ainda mais com alguém como . O problema é que sinto que estou fazendo tudo que achei que não ia nem chegar perto de fazer. Conversar com ou sequer ficar perto do Príncipe de Stamford era uma delas.
— O que diabos você vai querer se ganhar?
— Não sei... — Ele dá um sorriso sugestivo escalando meus dedos pelo seu braço até os ombros. É aí que eu sei que estou ferrada. — Estou com saudade do seu beijo.
Ela ri e inclina a cabeça para frente, depois volta para mim.
— Está fazendo isso de propósito, não é?
— Claro que estou. — Ele oferece a mão direita para selarmos o acordo. — Apostado?
Encaro sua mão por alguns segundos. Sei que não vai ter volta caso eu sele esse acordo e por um momento eu vacilo, só até perceber que talvez tenha encontrado uma solução para o meu problema.
— Apostado. — Eu aperto sua mão de volta e a puxo forte na minha direção antes que possa soltá-la. — Mas se eu ganhar, você vai ter que me ajudar a conseguir novas cobaias.
— Cobaias?
— Para um projeto. — Explico já que parece muito confuso. — Não é nada que vá te matar. Os jogadores da Bélgica estavam me ajudando com isso, mas eles não podem mais por motivos que você já conhece.
Ele sorri.
— Claro, , vai ser um prazer quando você perder e eu ganhar o meu beijo.
Penso em responder e prolongar nosso contato de peles, mas logo me dou conta que estamos em um local público e que o sol está torrando o topo da minha cabeça. Não tem nada melhor que água gelada para te fazer voltar para a realidade, por isso fico de pé. Meu quadril fica na altura do seu rosto e tenho certeza que ele possui os olhos, faiscando de desejo, em mim.
— Interessante… — Viro de frente para e dou um sorriso enquanto ele me devora com o olhar. — Porque eu estava pensando exatamente em como você vai lidar quando isso não acontecer.
É a última coisa que digo antes de lhe dar as costas e mergulhar na piscina.
O Centro de Treinamento das Seleções fica a apenas dez minutos do hotel. É genial terem transformado um Campo de Golf em uma base que abrange cinco CT's em uma mesma área. Temos o Brasil, Alemanha e França a poucos metros de distância. Cada seleção tem seu próprio espaço individual com dois campos e uma estrutura interna com vestiário, academia, salas de vídeo e de massagem.
Quatro dias antes do jogo os treinos seguem algum padrão: aquecimento seguido de um trabalho físico moderado, posse de bola, um ensaio tático coletivo e terminando o dia com um treino de finalizações. Estamos aquecendo e, depois de Simon fazer a gente dar três voltas ao redor do campo, começamos os exercícios de mobilidade. A grama úmida solta o cheiro de terra molhada no ar frio da manhã, um aroma que sempre me faz lembrar de rotina e de trabalho duro. Eu costumo gostar desse cheiro.
— Alguém aqui dormiu ou vocês estão todos com essa cara mesmo? — Jack pergunta, esticando o pescoço de um lado para o outro.
— Fala isso de novo que eu te faço correr mais duas voltas. — Diz Chris, nosso capitão. A voz dele é grave e autoritária, mesmo durante um aquecimento. Ele é um bom capitão, mas tem a seriedade de um professor de matemática. Jack revira os olhos quando ele sai.
— O Lawson é tão chato às vezes.
— Não se preocupe, tudo vai piorar quando Jake virar o capitão. — Brinco dando dois tapas nas costas de Jake.
— Acho que ele se aposenta da seleção ano que vem e você vai ter espaço. — Diz Ben concordando.
— É... mas não sei se quero.
Olho para Jake, na verdade, estamos todos olhando para ele sem entender muita coisa. Faz uns sete anos que Lawson assumiu como o capitão principal da seleção inglesa, já é certo para todos que quando convocado, é sempre ele que usa a braçadeira, até ser substituído. Normalmente a braçadeira é passada para o Finley, nosso melhor lateral esquerdo e também um dos veteranos junto com Chris, mas Finley já disse que não está interessado na capitania. Quando nenhum dos dois é convocado, Jake costuma ser nosso capitão. É o que a gente achava que ele sempre quis, mas ele não parece muito animado.
— O quê?
— Que caralhos, Jake. — Jack está indignado. — Como assim você não sabe se quer? A gente fala disso desde que tínhamos cinco anos.
— É cara, você é o nosso capitão no Chelsea, nada mais justo que ser nosso capitão aqui também. — Digo me aproximando e o abraçando pelos ombros.
— Tem tempo ainda até o Lawson sair, vamos ver. — Jake se desvencilha de mim apenas para jogar a garrafa de água no rosto e o assunto meio que encerra quando Simon chama a gente para as finalizações. Um por um formamos uma fila em diferentes partes do campo para seguir o percurso de cones e depois chutar a bola em direção ao gol.
— Esse gramado tá uma merda — Jack fala chutando um pedaço solto de terra enquanto caminha até a linha lateral. — Parece que alguém decidiu regar só metade do campo.
— Reclama com o jardineiro — Ben responde, esticando a perna apoiada no alambrado. — Ou começa a correr mais leve.
Jake dá uma risada curta.
— O Jack reclamando do chão, nenhuma novidade.
Estou girando a bola com a sola da chuteira. O suor escorre pela minha nuca, a cabeça longe demais pra quem deveria estar contando passos e passes. Eu até poderia entrar na brincadeira, mas tenho um assunto muito mais sério para falar com esses caras. Devo dizer que passei a metade do treino tentando não pensar em e na aposta que fizemos.
— Vocês estão dispersos.
Os três olham pra mim. Eu sei que pareço um idiota falando isso, mas a minha frustração com a minha própria falta de concentração está transbordando.
— Olha quem fala — Jack rebate. — Você errou dois passes seguidos. Quer que eu puxe o vídeo depois?
— Não é isso — Insisto chutando a bola com mais força, sentindo o impacto no meu pé. E no meu joelho, que droga. — Eu tô falando do jogo. Do próximo. A gente precisa ganhar.
Jake arqueia a sobrancelha.
— A gente sempre precisa ganhar.
— Claro que precisa.
— Não. — Eu balanço a cabeça, mais sério do que gostaria, até porque eu e estamos levando essa aposta a sério. Meus olhos fixam nos dele para ter certeza de que a mensagem está clara. — Precisa mesmo.
— Epa, isso aí não é discurso de vestiário. — Ben cruza os braços. Seu olhar me avaliando. — É coisa pessoal.
Os gêmeos olham para ele concordando. Que merda. Esses idiotas me conhecem bem demais, não dá para esconder nada deles, mas nem por isso eu preciso contar todos os meus segredos com .
— Fiz uma aposta.
O silêncio dura exatos dois segundos, nos quais consigo ouvir o grito distante de Simon para outro grupo.
— Ah, não. — Jack solta uma risada curta, o tom misto de diversão e exasperação. — Lá vem.
— Uma aposta — Jake repete, devagar.
— Que tipo de aposta? — Jack pergunta a curiosidade brilhando nos seus olhos. Jack adora um drama.
— O tipo que não pode perder. — Respondo pensando que um beijo de e o título mundial é coisa demais para perder. Não faço ideia de quando vou ter outra oportunidade. E isso vale para as duas coisas.
Ben abre um sorriso torto.
— Tá. Então não é dinheiro.
— Nem de longe.
— Envolve alguém? — Jake insiste. Ele sempre foi o mais perspicaz do grupo.
Eu não respondo. Apenas ajeito a camisa, puxando o tecido na tentativa de me recompor, e chuto a bola de volta para o centro. O som oco do chute parece uma resposta por si só.
— Pronto. Já sei tudo o que eu precisava saber.
— Vocês não precisam saber de mais nada — Eu rebato, sentindo o rubor subir pelo meu pescoço. — Só precisam jogar e ganhar. Pela pátria, pelo time, pela…
— Beleza, então deixa eu traduzir. — Ben me interrompe, com um sorriso de escárnio que eu não consigo repreender. Ele aponta para o campo. — A gente ganha esse jogo não só pelo time, mas pra salvar o seu orgulho.
— Exatamente. — Confirmo. Estou sonhando com a cara de quando a gente ganhar e ela admitir que estava errada.
— Tá, então foda-se, considere essa aposta coletiva. — Jack exclama e sorrio satisfeito.
O apito do treinador corta a conversa, uma explosão estridente de som que quebra a tensão. É hora de voltar ao trabalho. Eu dou um soco de leve no ombro de Ben e Jake antes de correr para o centro do campo, a bola agora parecendo mais leve no meu pé.
Charlotte me abandonou duas horas depois que sentamos na cafeteria.
Viagens assim são meio solitárias porque ela também agencia outras pessoas então, quando acaba comigo, ela parte para outro. Tomei café com ela apenas para fazermos um alinhamento dos compromissos para os próximos dias, o que foi ótimo já que agora sei perfeitamente quando vou estar livre para continuar a executar as tarefas que Sylvie que me deu.
Em uma delas eu preciso observar os jogadores fora do campo e como eles se movimentam quando escondem dor. Sei que o Vogel, da seleção da Suíça, está evitando saltar para cabecear e, quando o faz, aterrissa apenas com a perna direita para poupar o impacto no joelho; Cruz, da Argentina, torceu o pé no último tempo e agora está forçando uma caminhada firme para disfarçar a claudicação toda vez que o técnico olha em sua direção. Eu preciso identificar esses padrões pós-lesão e notar quem está jogando no limite. Por já ter passado por isso, não é tão complicado, mas meu Deus, isso era muito mais fácil quando eu tinha uma seleção inteira ao meu dispor.
Há uma grande quantidade de áreas restritas que eu não posso entrar, e acredite não foi falta de tentativa. Todos simplesmente acham que sou algum tipo de espiã tentando vazar esquemas táticos, estratégias de jogo e sei lá mais o que, para a mídia ou adversários. Por isso tenho que me contentar com as áreas externas do hotel, corredores vazios pós-jogos, lounges silenciosos de madrugada, isso tudo sem parecer uma maníaca.
Depois de horas pensando no que fazer e falhando terrivelmente, eu decido descer para almoçar. Não vou conseguir fazer nada de estômago vazio. Percebo que é a melhor coisa que faço no dia quando vejo a delegação inglesa inteira dentro do restaurante. Isso é mais que um almoço, é um banquete para mim. Só tem um problema. Um problema grande, forte, careca e de dois metros de altura parado na frente da porta.
Eu não preciso tentar para saber que ele não vai me deixar passar. Quando Charlotte me hospedou nesse hotel, ela me alertou que ele estava funcionando de maneira mista justamente porque iria abrigar uma das delegações participantes da Copa do Mundo, ou seja, áreas comuns como academia, spa, restaurante podiam ter horários exclusivos para uso da delegação. O que é o caso no momento.
Um ponto positivo é que o restaurante é cercado por janelas de vidro. Eu me movo lentamente até vasos de costelas-de-adão. Me abaixo um pouco, mas ainda é perfeito para conseguir ver entre as folhas. A delegação parece ocupar um setor do restaurante com as mesas juntas. Todo o pessoal da comissão técnica senta próximo, os jogadores estão mais contidos no fundo.
Daqui só consigo ver suas bocas mastigando ou conversando. O que não é nada muito útil para mim.
— O que está fazendo?
Uma voz surge atrás de mim e eu congelo no meio das plantas, o corpo inclinado demais para fingir naturalidade. Devagar, me viro e encontro . Mudo de postura no mesmo momento, apesar dele me pegar nesse momento sem sentido, eu não preciso parecer assustada.
O que diabos esse homem está fazendo aqui? Ele deveria estar lá dentro, sentado com os companheiros, mastigando alguma coisa sem graça enquanto alguém da comissão técnica reclama de carboidratos. Em vez disso, está bem atrás de mim, braços cruzados, expressão entre curiosa e divertida, com a sua maldita postura tão ereta que dá agonia.
— Eu… — Endireito o corpo, olho para as plantas passando a mão nas folhas. — Estou admirando a decoração. O paisagismo. Minha melhor amiga cuida de plantas como essas. Só passando o tempo.
As plantas do apartamento de Skye são a primeira coisa que vem à minha cabeça, e nossa que desculpa péssima. Diferente de mim, ela sabe cuidar delas. As mãos de Skye são capazes de florescer o deserto do Saara. Tudo que eu tento cultivar, morre. As plantas me odeiam. A pobre costela-de-adão deve estar odiando enquanto a seguro com os dedos. Eu poderia acariciá-la como se fosse um cachorro se não fosse tão esquisito.
olha para os vasos de costela-de-adão, depois para mim, e de novo para as plantas.
— Você costuma se esconder atrás de plantas para passar o tempo?
— Só quando o plano A, B e C falham miseravelmente. — Respondo, seca demais para alguém flagrada em posição suspeita, mas é isso, postura. O canto da boca dele se mexe. Não chega a ser um sorriso. Ainda. Ele me analisa do mesmo jeito que eu estava analisando o restaurante.
— E qual era o plano A?
— Almoçar. — Devolvo o mesmo sorrisinho, decidindo não mentir demais. parece ser o tipo que lê as pessoas, e parece fazer isso muito bem. Eu não posso vacilar.
Ele arqueia a sobrancelha.
— Isso é tudo?
— Hoje, sim. Amanhã posso tentar algo mais ambicioso. Como sobreviver ao tédio.
inclina levemente a cabeça, como se estivesse encaixando algo.
— Você não parece entediada.
— Eu estou frustrada.
— Qual a diferença?
— Frustração tem objetivo, o tédio não.
Ele pensa por um segundo. Depois assente, como se aquilo fizesse mais sentido do que deveria. olha para dentro mais uma vez. Depois volta para mim.
— Vem comigo.
— Como é?
— Você quer almoçar ou não?
Cruzo os braços, orgulhosa. Nem fodendo eu vou almoçar com . Eu deveria ficar longe dele.
— Acho que não estou com tanta fome para entrar nesse restaurante com você.
Meu estômago ronca, traidor. sorri satisfeito.
— Você pode entrar agora e comer tranquilamente ou esperar. — Ele checa o Apple Watch antes de olhar para mim. Seu cabelo cai na testa e é como se emoldurasse o seu rosto. Alguns anos atrás eu estaria babando igual uma pateta. Ele não usa o uniforme de jogo, nem mesmo o de treino, mas a blusa de mangas da seleção inglesa é bonita. Tem detalhes em branco, vermelho e azul, além do entalhe dos três leões. — Eles vão demorar pelo menos mais quarenta minutos.
Meu estômago ronca de novo me castigando porque o tempo que estou aqui sendo orgulhosa eu poderia estar comendo uma deliciosa costela com kebabs. Decido ceder, observar os jogadores de dentro do recinto parece mais confortável do que aqui fora, no meio das plantas, mas para não parecer tão desesperada, respondo:
— O grandão vai me barrar. — Aponto com o queixo para o segurança na porta.
— Não se você estiver comigo.
— E por que você faria isso?
dá de ombros. — É só um almoço, .
Ele dá um último sorriso, aparentemente, amigável. Eu não devia cair nessa encenação, mas acabo seguindo-o. O grandão olha para mim atrás de . Tenho que ficar nas pontas dos pés para conseguir ver por cima do seu ombro.
— Ela tá comigo, Bruce.
Bruce me olha de cima a baixo me analisando e depois encara . Ele não mexe um músculo e parece muito confortável, sendo uma grande rocha no meio do caminho. Suas mãos estão fechadas na frente do corpo e são tão grandes. Aposto que a mão dele é maior do que a minha cabeça. Esse homem me quebraria facilmente se quisesse e nem ia precisar tirar o terno.
— Cadê o crachá e a pulseira dela?
Era isso que ele devia estar procurando ao olhar tanto para mim. Até onde eu sei, a delegação precisa entregar para a federação uma lista prévia de nomes e cada visitante tem um crachá e uma pulseira. Fizeram isso com para que eu e os meus pais pudéssemos encontrar com ele no hotel. Não me admira que todas as delegações sigam a mesma burocracia. Mas nesse caso eu sou hóspede do hotel, não preciso de autorização para entrar aqui.
— Ela tá hospedada aqui, só quer entrar pra almoçar.
— , nós temos um protocolo de autorização.
Apesar de ser um cara grande e um pouco assustador, Bruce fala tranquilamente com . Como se ele fossem amigos de anos. É até um pouco fofo.
— Eu sei, mas quebra essa vai, Bruce, só dessa vez.
— Tá, tudo bem. Só dessa vez. — Bruce abre caminho para podermos entrar. Ele balança a cabeça na minha direção, agradeço com o olhar. — Senhorita.
Antes que eu possa dizer um ‘obrigada’, já está se afastando indo em direção ao lado do restaurante onde deve ter um prato pronto esperando por ele.
Eu tento ser o mais discreta possível indo até o buffet. Pego uma mesa próximo da janela. Estou tranquila dando garfadas na comida, mas atenta ao comportamento dos jogadores, penso que estou sendo bem sucedida na missão de ser discreta até achar olhando para mim. Que droga. Esse cara não consegue me esquecer por trinta segundos? Não tem como continuar olhando sem parecer suspeita, mais do que já estava quando enfiada nas plantas. Eu tento ignorá-lo mesmo sem muito sucesso.
Um tempo depois os jogadores e a comissão técnica começam a sair. Penso que vou me livrar do olhar inquisidor de , mas ele se levanta vindo até a mesa que estou sentada. Solto a colher de pudim que estou segurando quando ele arrasta a cadeira e senta de frente para mim.
— Você só pode ter ficado maluco. — Digo, mas ele não responde. Apenas continua olhando para mim com esse sorriso sem mostrar os deles, e esses olhos castanhos que são tão bonitos. Combinam com as suas sobrancelhas grossas. Eu não consigo aceitar que ele todo é bonito. — Pode sair, por favor? Estou tentando comer.
Eu aponto para o meu pudim pela metade, seu olhar nem vacila.
— Eu te coloco pra dentro e você manda eu sair, ?
— O que você quer? — Suspiro e cruzo os braços em cima da mesa.
— Estou curioso. Posso te fazer uma pergunta sem você fugir para trás das plantas?
— Talvez.
— Até onde eu me lembro, você era modelo, o que aconteceu? Virou jornalista?
A pergunta é casual, mas os olhos dele estão atentos.
— Não exatamente.
— Relações-públicas?
— Deus, não.
— Influencer?
Faço uma careta.
— Isso doeu.
— Então estava atrás de fofocas pra mandar pro The Sun?
A cada coisa que ele diz, se inclina mais na mesa, acompanhado por mim quando respondo.
— Eu não estava atrás de fofoca e tudo que envolve essa revista medíocre me enoja.
— Eu te enojo também?
Ah, eu deveria responder que sim. Umedeço os lábios pensando.
— Sei lá. — Desvio o olhar, não tem como responder isso olhando nesses olhos.
— Que tipo de resposta é essa?
— Que tipo de pergunta essa? Você sai perguntando pra pessoas se elas te enojam?
— Não, mas você tem uma clara aversão sobre mim e não me lembro de ter sido nada menos que gentil com você, .
Droga. Ele tem razão. Até mesmo no dia que paguei o maior mico da minha vida naquela festa e na frente dele.
— Por quê? Você gosta de agradar todo mundo e insiste em entender quem você não agradou até conseguir fazer a pessoa mudar de opinião?
Realmente acho que faz esse tipo. Que todo mundo ama, que todo mundo quer ter por perto. Que ele é ridiculamente agradável só para fazer com que as pessoas gostem dele e tem simpatia como nome do meio, mas começa a rir.
— Eu definitivamente não agrado todo mundo. Isso é por causa do ?
— O que você acha?
Na minha vida, eu tento ser justa como Skye quando ela está apitando, uma juíza imparcial, mas tudo que já ouvi de é ruim. Tudo me inclina a acreditar que ele não é uma boa pessoa, mas também fico com um pé atrás, pois, a fonte da maior parte das informações foi . E vamos dizer que a opinião dele é totalmente enviesada.
— Vamos, me diga o que ele te disse sobre mim. — entrelaça os dedos atrás da cabeça e inclina o torso para trás. Tudo que consigo notar, além do seu sorriso branco, são os bíceps estourando nas mangas da camiseta. — Isso vai ser divertido.
— Você o sabotou para conseguir a vaga na base. Eu não preciso dizer, você sabe o que fez. Eu cresci vendo meu irmão engolir frustração enquanto o seu nome aparecia em listas que deveriam ter sido dele também. Desculpe se eu não vou muito com a cara de quem escolhe vencer a ser leal.
Lembro de toda a história que me contou.
Ele e jogavam juntos nas categorias de base do Chelsea. O fato aconteceu quando eles estavam no Sub-15. Naquele ano o clube abriu uma vaga para integrar um grupo especial que ia ser preparado para o time principal. De acordo com , era uma espécie de bolsa, quem entrasse teria praticamente o caminho garantido. foi selecionado para a vaga e até hoje acredita que ele jogou sujo para conseguir. A amizade dos dois acabou ali. Para , uma pessoa que troca amizade e lealdade por ambição não pode ser uma pessoa boa. E eu concordo com ele.
— Eu nunca menti para o técnico para ficar com a vaga.
Levanto uma sobrancelha. — Foi isso que ele disse.
— Eu sei. — passa a mão pelo rosto, devagar. — Mas eu deixei que ele acreditasse nisso.
Isso me desarma. deixou que acreditasse de propósito que ele mentiu para o técnico? Por quê? Me questiono tentando juntar as duas versões da história na minha cabeça.
— Como assim?
Ele hesita por um segundo, depois decide.
— Naquele dia… eu joguei machucado.
Meu corpo reage antes da cabeça. Porque eu mesma já fiz isso. É difícil para um jogador jogar machucado. Essa decisão não é tomada de um dia para o outro. Não à toa Sylvie me passou um trabalho todo sobre isso, para que eu desdobre todas essas camadas/decisões que não são nada improvisadas.
— Escondendo lesão?
Ele assente.
— Senti o músculo ceder no treino. Sabia que, se falasse, eu não ia pro jogo, e perderia consequentemente a vaga. No jogo, eu falhei em uma jogada simples. Seu irmão cobriu por mim, mas o técnico achou que a falha foi dele. E eu… eu não corrigi. Não foi sabotagem ativa. — olha momentaneamente para as próprias mãos, suspirando, como se estivesse encarando um dos fantasmas da sua vida. Depois olha para mim do jeito mais sincero que consegue. E eu consigo ver tudo ali. Franqueza, arrependimento, vergonha. — Posso ter sido covarde, mas não sou mau-caráter, . Eu sei que errei, mas seu irmão também não é nenhum santo.
— O que quer dizer?
É a minha vez de contestar semicerrando.
— Ele sempre foi agressivo comigo em campo. Sempre. Em qualquer circunstância.
Dou uma risada curta, sem humor.
— Ele é zagueiro.
— Não, ele é rancoroso.
— Cuidado com o que você vai dizer agora. — Aponto na sua direção. Eu e temos uma relação muito próxima, nós somos melhores amigos e nos protegemos em qualquer situação, então não é surpresa que eu sempre me incline para defendê-lo. passa a mão pelo cabelo, já irritado. Meu irmão não deve ser o assunto preferido dele.
— O quê? A verdade? Você acha que é normal passar anos entrando com o pé alto sempre que tem chance? Fazer falta por trás quando o juiz não está olhando? Me provocar toda vez que a gente se cruza?
— Talvez ele só jogue duro.
— Não é jogo duro quando é pessoal.
— Você está falando do meu irmão.
— Eu estou falando de alguém que nunca superou uma coisa pequena. Eu poderia até ignorar e deixar ele brigando sozinho, mas não quando eu sei que ele quer me machucar.
— Você realmente pensa que ele passou anos treinando, jogando, se sacrificando… só pra te atingir?
Essa ideia é tão absurda para mim que nem faz sentido. Eu sei o quanto trabalhou para chegar onde ele está, ainda mais após ser cortado da base do Chelsea. Parecia que ele ia começar tudo de novo.
— Sim. — responde, mais seco. — , ele nunca superou. Ele age como se eu fosse um monstro por cometer um erro aos 15 anos. Nunca chegou pra conversar comigo e resolver as coisas porque é imaturo. Somos adultos, merda. Tenho certeza que uma conversa de cinco minutos resolveria tudo.
Quando ele termina, não sei o que dizer. É muito difícil admitir isso, mas ele tem razão. Ele tem a mais plena razão. Que porra, eu odeio que ele tenha argumentos tão bons e a verdade é essa… Talvez esteja mesmo sendo imaturo. E rancoroso. Não gosto da ideia de guardar rancor. É como beber veneno, só te mata por dentro.
parece desmontar sua postura de ataque quando percebe que fico mais acuada, não tenho razão ou energia para rebatê-lo.
— Olha… Eu não queria discutir com você. Você não tem nada a ver com a merda dos nossos problemas. Só… não sou esse cara horrível. — Diz e não é a primeira vez que começo a pensar que talvez não seja mesmo. — Você não precisa ser sarcástica, enviar contato visual quando pode ou partir do princípio de que eu estou errado sempre.
Talvez de tudo que tenha dito hoje, essa seja a mais importante: isso não é problema meu. Homens são tão previsíveis e às vezes possuem a maturidade de uma criança de cinco anos. Porém, decido deixar isso de lado porque essa briga continua sendo insignificante para mim, só perguntei a título de curiosidade e para confirmar se o que falava era mesmo tão grave. Acabei de descartar essa possibilidade.
— Claro. — Decido ser cordial depois de tantos esclarecimentos.
— Sabe, se quiser cancelar nossa aposta, eu não tenho problema com isso.
— Acho que não. — Agora sou eu quem estampa um sorriso malicioso. De jeito nenhum eu vou perder o acesso mais fácil para conseguir finalizar a pesquisa que Sylvie me deu. — Preciso das minhas cobaias, e se as pessoas forem tão legais com você como Bruce é, vou consegui-las facilmente.
Ele poderia falar de qualquer coisa. Falar sobre o beijo. Sobre aquela noite. Se gabar sobre tudo e nada.
— É isso que você estava fazendo? Procurando cobaias?
— Não é nada… Só estava observando se alguém apresentava algum incômodo e como lidava com ele. Às vezes somos vistos como essa máquina imortal. A dor é menosprezada a nada porque a máquina não pode parar. E me ofendeu você achar que estava atrás de fofocas.
— Por isso eu peço desculpas. Mas o que vai ser isso?
— Não sei ainda, só estou fazendo o que Sylvie me pediu. Pode ser uma matéria, uma coluna.
— Estou relativamente confuso, você não é modelo? Por que está se dedicando a isso?
Por que estou me dedicando a isso?
Essa pergunta já martelou tanto na minha cabeça nos últimos meses guiada pela dúvida de me perguntar se estou fazendo a coisa certa.
Naquele dia no banheiro Sylvie me olhou como quem reconhece um ferimento antigo, ela não me perguntou porque eu virei modelo, e sim se eu ainda me sentia jogadora. Não sei responder isso sem raiva. Talvez eu tenha aceitado ser modelo porque era mais fácil ser vista do que ser ouvida. Ser imagem dói menos do que tentar existir de novo, mas ser modelo me coloca em uma caixa de acrílico que eu odeio. Então talvez eu deva estar fazendo a coisa certa.
— Odeio ser modelo. — Até eu fico surpresa com a sinceridade das minhas palavras, mas não se importa com as minhas decisões pessoais, então sinto que posso ser cruamente sincera com ele. — Eu gostava de jogar futebol, e como isso está fora de alcance estou indo atrás de outros sonhos.
Para a minha surpresa, parece bastante interessado.
— Você era boa?
— Eu era a melhor.
Falo sem me importar de parecer metida. Ele ergue a sobrancelha.
— O que foi? Tá duvidando? Na minha melhor forma física eu te deixaria comendo grama.
dá risada. — Qual era sua posição?
— Meia atacante.
— Temos isso em comum. — sorri, seu sorriso é tão bonito que ele devia pagar uma multa toda vez que o fizesse. Sua expressão se suaviza e ele procura cautela para continuar. — O que aconteceu?
— Tive fratura dupla na tíbia e fíbula depois de uma entrada atrasada de uma jogadora do Frankfurt em um jogo da Champions. — Eu vomito as palavras sem pensar muito. — Eu até consegui voltar a jogar, mas o meu retorno não foi sustentável. No começo da outra temporada a minha perna cedeu de novo. Os médicos disseram que era definitivo, eu não ia aguentar o ritmo dos jogos nem dos treinos.
Um suspiro nostálgico sai pela minha boca e lembrando da pior época da minha vida. Eu estava na minha melhor fase, acertando uma transferência para o Lyon quando essa merda de lesão estragou tudo. Estava tão animada, a mudança de clube ia alavancar tudo, porque como a minha amiga, Lucy Bronze, já disse uma vez: você não pode dizer 'não' ao Lyon. E contra a minha vontade, eu tive que dizer.
percebe que o assunto me deixou chateada e tenta atenuar a situação.
— Sério, que merda.
Ele não diz isso no automático. encosta as costas na cadeira, cruza os braços devagar, como se estivesse digerindo cada detalhe.
— É. — respondo, soltando um riso seco que não alcança meus olhos. — "Que merda" é o resumo técnico da coisa.
O garçom do restaurante se aproxima silenciosamente, preenchendo nossas taças de água, mas não desvia o olhar de mim. Ele processa a informação de uma forma diferente da maioria das pessoas; não vejo aquela pena condescendente, mas sim um reconhecimento de quem também entende de perdas.
— Se o Lyon é o topo da montanha — Ele comenta, a voz mais baixa, quase respeitosa. —, perder o contrato da vida por causa de uma entrada atrasada... isso não é só azar. É um crime.
— Às vezes eu ainda sinto o estalo. — Confesso, girando a haste da taça entre os dedos e observando o reflexo das luzes do hotel no cristal. — Sempre que entro em um set e alguém me pede para ser "dinâmica", minha mente projeta o gramado. Mas o corpo lembra do que é mais seguro. Não é tão fácil, mas sabe, não dá pra romper ligamento posando para uma lente.
se inclina para a frente, apoiando os cotovelos na mesa de linho branco. O espaço entre nós diminui, e o barulho das outras mesas parece virar um ruído de fundo distante.
— Concordo, mas nada que valha a pena é. Se fosse fácil, qualquer um faria.
Ele fica em silêncio por um segundo, o sorriso se tornando algo mais privado, quase cúmplice.
olha a hora do Apple Watch depois olha para mim. — Preciso ir, mas antes, me dá o seu celular.
— Pra quê? — Pergunto olhando para a sua mão estendida na mesa, mas entrego o aparelho desbloqueado.
— Salvar o meu número.
Internamente quero perguntar porque trocaria mensagens com ele. Que não deveríamos conversar, nem ter assunto. Mas não faço nada disso, eu apenas deixo que salve o seu número no meu celular e pegue o meu também pensando na possibilidade de ser brutalmente honesta com alguém de novo.
Eu tento sufocar a pontinha de tristeza quando ele levanta para ir embora cumprir seus compromissos futebolísticos, mas não sem antes dizer:
— Sabe, , a maioria das pessoas que conheço nessa indústria está tentando ser outra pessoa. É reconfortante ver alguém que só quer recuperar quem já foi.
Lista de coisas que você pode fazer se se hospedar em hotéis de luxo:
1. ir ao spa e hidromassagem.
Fim da lista.
Nesse hotel as suítes deluxe são quase uma casa, mas mesmo gostando muito do meu espaçoso quarto também gosto muito de ficar aqui embaixo. Os espaços do Haltz Carlton são incríveis, é uma mistura do moderno com o tradicional, criando uma autêntica experiência multicultural. Combina a opulência contemporânea com o calor de uma tradicional acolhida árabe.
Charlotte não poderia ter escolhido melhor. No fim do dia, estou dentro da hidro, deixando que o meu corpo seja entregue pelas águas borbulhantes. Estava precisando disso, então apenas deixo a água me resetar. Doha cansa. Tudo aqui é longe, quente e barulhento. Mentir para Charlotte também cansa, mas essa é a parte que estou tentando ignorar no momento.
— Stella perguntou se você vai casar com um sheik. — Diz Skye pela tela do meu celular. Estamos fazendo um FaceTime. Ela está no sofá de casa, de moletom, comendo alguma coisa direto do pote.
Dou uma risada curta, ajeitando o celular contra a cabeceira da cama no meu quarto de hotel no Catar. Gosto de Stella, ela divide o apartamento com Skye e fazem parte da mesma equipe de arbitragem.
— Diga a ela que não tenho paciência nem para os meus próprios dramas, quanto mais para um harém. — Respondo, sentindo o cansaço do fuso horário pesar nas pálpebras.
— Sei não, . Você aí, nessa vida de luxo, está com uma cara de quem está escondendo alguma coisa. Ou algum sheik, ou um segredo de estado. — Skye aponta a colher para a câmera, me analisando. — O que foi? O deserto está te deixando quieta demais.
Ainda não contei para Skye sobre os meus momentos com ou da aposta que fizemos. Talvez eu guarde esse segredo por mais algum tempo.
— É só o calor, Skye. Minha pele não foi feita para cinquenta graus. — Desconverso, desviando o olhar para a janela que mostra as luzes de Doha.
O visor do meu celular brilha. Uma notificação de mensagem aparece no topo da tela, fazendo meu coração dar um solavanco estúpido.
: Acordada?
Não fico surpresa, até porque depois de trocarmos telefones era esperado que me mandasse mensagem, eu só não esperava que eu fosse ter tanta vontade de responder ao ponto de dispensar Skye.
Skye estreita os olhos na tela. Ela é treinada para ler minha linguagem corporal.
— ? O que foi? Você ficou com aquela cara de quem acabou de ver um gol de placa.
— Nada, é o pessoal da agência. — Minto, sentindo minhas bochechas esquentarem levemente. — Preciso desligar.
— Agência? Às dez da noite aí? — Ela sorri, claramente sem acreditar em uma palavra. — Tá bom, fingirei que acredito. Vai lá falar com a sua "agência".
— Tchau, Skye! Beijo na Stella! — Desligo antes que ela possa fazer a próxima pergunta.
Saio da hidro me enrolando no roupão e subo rapidamente para o meu quarto. Depois que me jogo na cama, eu pego o celular para responder .
HAILEY: Sim, mas não tá tarde demais para você estar acordado?
: Às vezes a cabeça não desliga, também tá tarde pra você
HAILEY: Estou nesse exato momento me prendendo em cabos.
Não se assuste caso acorde no meio da noite e me veja pela janela atrás de uma foto da sua cueca de corações para mandar pro The Sun
: Não é mais fácil você só dizer que quer me ver de cueca?
Sinto o calor subir pelo meu pescoço. Bufo, mas não consigo parar de sorrir.
: Convencido
: Nem te culpo, sou charmoso e irresponsável
irresistível**corretor maldito
HAILEY: O corretor acertou de primeira, acredito mais no irresponsável
Pare de flertar comigo
: Por quê? Tá funcionando?
Tá funcionando?
Penso na pergunta enquanto meus polegares dançam em cima do teclado. Na maior parte do tempo eu tenho plena noção das minhas atitudes, afinal, não estaria jogando os dados se eu não tivesse aberto o tabuleiro e estou me divertindo tanto. É difícil que eu desista de algo quando essa coisa me diverte. Talvez essa tensão e a ansiedade de pagar para ver são o que deixam as coisas divertidas. Eu não deveria flertar com , mas eu quero.
Porém, não é como se ele precisasse saber disso agora. Não assim tão diretamente. Por isso, mordo o lábio inferior, hesitando por um segundo antes de digitar a mentira mais descarada da noite.
: Nenhum pouquinho.
: Então, o que eu tenho que fazer para funcionar, ?
: Tente ser menos e mais . Talvez isso ajude.
: Isso soou como um desafio. E eu odeio perder, você sabe disso
Durma bem, jogadora. Te vejo amanhã.
Falta um dia para o jogo.
Normalmente, costumo ficar mais ansioso nas vésperas da partida do que no jogo em si. Hoje Simon finalizou o treino da manhã e está chamando todos para a sala de vídeo antes de irmos almoçar.
Fico meio tenso. A sala de vídeo significa de duas uma: ou ele vai nos dar uma aula de tática da equipe adversária e como podemos superá-los, ou ele e Cillian vão fazer a habitual análise de desempenho junto a equipe médica. Sempre fico tenso quando é a segunda opção por causa da porra de uma instabilidade patelofemoral que eu tenho no joelho direito.
Vou caminhando até a sala me preparando e pela presença da comissão médica, percebo que é a opção dois. Lá vamos nós. Eu, Jack, Ben e Jake sentamos em assentos próximos mais no meio da sala enquanto o resto do time se espalha pelo U de cadeiras. O ambiente da sala de reuniões é frio demais para um grupo que vai entrar em campo em poucos dias. As cadeiras estão alinhadas, há garrafas de água sobre a mesa e um telão ligado com gráficos e nomes. O barulho de conversas paralelas morre quando o treinador se levanta.
— Certo, pessoal. Atenção aqui.
Eu endireito a postura na cadeira. Meu joelho direito pulsa de leve, como faz desde o primeiro jogo, nada suficiente para me fazer mancar, só o bastante para me lembrar que ele existe.
Cillian, nosso fisioterapeuta, assume a frente com um iPad na mão.
— Vamos ser objetivos. A maioria do grupo está liberada para os noventa minutos. Alguns com restrições de carga. Outros… com atenção redobrada. — Ele toca na tela. Os nomes começam a aparecer. — Grupo verde: aptos, sem limitações. Grupo amarelo: podem jogar, mas com controle de intensidade e risco moderado de agravamento. Grupo vermelho… — Ele faz uma pausa. — Não temos ninguém vetado hoje.
Um alívio coletivo percorre a sala.
Alguns jogadores se mexem na cadeira quando uma lista longa aparece. Eu sei antes mesmo de ver meu nome onde ele vai aparecer.
Jake e Jack estão no grupo verde. Acho incrível. Não sei o que tem na genética da família Reed, mas eles parecem ser feitos de aço e titânio. Poucas lesões para o tempo de carreira que possuem.
Meu nome surge no telão, acompanhado de mais uns seis. Ben é um deles. Grupo amarelo. Não é surpresa. Eu sonho com o dia que o meu nome não vai mais aparecer na porra desse grupo amarelo.
— Mas isso não significa uma ausência de risco — Nosso médico, Dr. Murphy, completa, entrando na conversa. — Significa uma decisão conjunta.
— Esses atletas estão clinicamente estáveis, mas não estão cem por cento. — Cillian continua apontando para o grupo amarelo. Aparentemente vamos ser o foco dessa reunião hoje. — Vocês vão jogar porque podem, não porque deveriam ignorar o próprio corpo.
Meu olhar fixa no chão por um segundo a mais do que o normal.
— Quero deixar claro uma coisa — O treinador cruza os braços. — Ninguém aqui é obrigado a jogar machucado. Se alguém sentir que não aguenta os noventa, fala. Nós podemos fazer ajustes, não fiquem aí pensando em heroísmo burro.
Heroísmo burro. Eu quase sorrio.
— Gostaríamos que levassem em conta a possível progressão de cada caso. — Dr. Murphy diz, ele olha rápido na minha direção, sem me expor. É claro que ele vai olhar para mim. Nós tínhamos um acordo, que eu não cumpri. — A situação pode acelerar um quadro que, mais pra frente, exige intervenção cirúrgica.
As frases que envolvem a palavra “cirurgia” pesam mais do que deveriam para mim. O que eu tenho não é nada espetacular, é apenas uma instabilidade chata, silenciosa, que aparece em alguma mudança brusca de direção ou impacto repetido. O tipo de coisa que dá pra conviver… até o dia em que não dá mais. Desde o início os médicos me falaram que a cirurgia sempre foi a solução definitiva. Simples, relativamente tranquila. O problema é a porra da recuperação, é coisa de três, quatro meses fora. Três ou quatro meses que incluíam o Mundial. Quando se é um jogador de futebol jovem, ficar três ou quatro meses fora parece uma eternidade.
Então eu adiei quando a temporada começou.
Depois adiei de novo.
Disse a mim mesmo que dava pra aguentar, que não estava piorando. Que era só administrar, mas, no fundo, eu sabia: não era coragem, eu estava medo. Medo de perder esse momento. E aqui estou eu, tentando suportar essa carga emocional e física com um joelho que a qualquer momento pode virar farinha, mas nada nesse mundo vai me tirar a satisfação de estar jogando essa Copa. Tudo vai valer a pena se formos campeões.
— Quem está no grupo amarelo vai jogar sob monitoramento — Simon conclui. — Substituições estão planejadas, mas a comunicação é essencial.
Eu levanto o olhar. Cruzo com Jake e Jack me observando. Eles olham para Ben também, já que o nome dele estava no grupo amarelo, mas quando Cillian pergunta se ele pode jogar ou acha que pode jogar, McAllister responde:
— Tô inteiro. Noventa minutos.
Fico momentaneamente surpreso. Se os gêmeos Reed são de titânio, pode-se dizer que Ben é de vidro. Ele vem tentando ao máximo durante o ano evitar lesões e até vinha sendo bem-sucedido, lidando apenas com uma contratura no músculo posterior da coxa que o deixou fora umas 3 semanas, além de um desconforto no adutor. Mas um mês antes da Copa uma inflamação no tendão de Aquiles o deixou de molho até o último minuto. Lesões são uma merda, e eu costumo reclamar bastante quando os fisioterapeutas aparecem para um PPL, que nada mais é que um protocolo para prevenção de lesões, mas eles são importantes para caralho.
— Senti o posterior ontem, mas hoje tá controlado. — Escuto Luke falar. Cillian olha para ele e responde:
— Carga monitorada. Pode jogar.
Ele rabisca algo no iPad e depois sinto os olhos em mim, pois sou o próximo.
— .
Levanto o olhar.
— Fala pra gente. — Simon pergunta, encarando direto. — Você joga?
Engulo seco.
— Jogo.
Cillian entra antes de qualquer romantização.
— Seja mais explícito.
— Ainda é o joelho. — Eu passo a mão pelo joelho direito, um gesto automático. — Não dói o tempo todo, aparece em mudança brusca, principalmente quando o jogo fica mais intenso.
— Dor de zero a dez? — Dr. Murphy questiona. Aquele olhar inquisidor tentando arrancar a verdade de mim.
— Três. Às vezes quatro no segundo tempo. — Respondo e não é mentira. Mentira seria se eu dissesse que estou zerado e se estivesse zerado meu nome teria aparecido no grupo verde.
— Travamento? — Ele insiste, cerrando os olhos.
— Não.
— Perda de força?
— Não.
Simon mantém o olhar firme.
— E os noventa minutos?
Eu não hesito por um milissegundo, não vou arriscar começar esse jogo no banco.
— Eu aguento.
Ninguém pergunta mais nada. Nem mesmo Jake, Jack e Ben. Ninguém precisa. Eu escolhi estar aqui. Escolhi empurrar o problema pra frente porque existem coisas que você só vive uma vez. Porque algumas cirurgias podem esperar. Algumas Copas, não. E enquanto meu corpo permitir, mesmo que não perfeito, eu vou entrar em campo.
O resto… eu resolvo depois.
Cillian cruza os braços e Simon assente. Eles repassam mais alguns avisos sobre os próximos treinos e nos liberam para o almoço. O pessoal vai saindo aos poucos. Eu fico sentado por alguns segundos a mais, olhando para o telão já apagado.
— . — Dr. Murphy me chama antes que eu possa levantar. — Um minuto, por favor.
Assinto e me levanto. Seguimos para a sala ao lado. Ela é menor, tem uma maca encostada na parede e uma janela estreita deixando entrar a luz do fim da manhã.
Ele fecha a porta com cuidado.
— Queria que soubesse que isso não é uma bronca. — Ele começa, mas eu sei que isso vai virar uma bronca. — É só… um alinhamento.
— Tudo bem. — Digo apoiando as mãos no encosto de uma cadeira.
Ele aponta para a maca. — Senta.
Obedeço subindo na maca e estico a perna direita sem pensar.
— Você sabe exatamente o que tem. — Ele diz. — Mas também sabe que não é algo pra ignorar por muito mais tempo.
— Eu sei. — Repito porque já sei de toda essa merda, qualquer médico não perde a oportunidade de repetir isso para mim. Ele se agacha à minha frente, pressionando levemente a lateral do meu joelho.
— Aqui?
— Ai. — confirmo, sem reação.
— preciso que você entenda que quanto mais você joga nesse nível, mais você desgasta a cartilagem, e aí a cirurgia deixa de ser simples.
Fico em silêncio. Normalmente sou bem monossilábico com o Dr. Murphy porque não adianta discutir com o velho. Ele é um dos melhores médicos do país por um motivo.
— Você adiou isso duas vezes. — Ele continua, sem julgamento, mas eu sinto o seu olhar inquisidor por cima do óculos. — Sempre com bons argumentos. Clube. Calendário. Agora, Copa.
— Não dá pra perder isso. — Digo, baixo. Ele suspira.
— Eu entendo, de verdade, mas eu preciso que você entenda outra coisa.
— O quê?
— Que o “depois da Copa” não pode virar “depois da temporada”. Nem “quando der”. — Ele fala firme agora. E aí vem a bronca que eu estava esperando. — Você precisa se comprometer comigo.
Levanto o olhar tentando passar confiança.
— Vou me comprometer.
Ele me encara por alguns segundos, como se estivesse avaliando se aquilo era verdade ou só mais uma promessa de atleta.
— Se durante o jogo você sentir dor acima do normal… — Dr. Murphy começa.
— Pode relaxar, Dr. Eu vou falar. — Completo.
— Se eu pedir pra te tirar?
— Eu vou sair.
Finalmente ele assente, satisfeito.
— Então estamos claros. — Ele se levanta, anota algo rápido na prancheta e antes de abrir a porta, volta a falar:
— Você está fazendo uma escolha consciente, . Não heroica. Consciente. — Dr. Murphy faz uma pausa. Não dá para encarar esses olhos nesses oclinhos sem fazer você querer repensar toda a sua vida. — Só não transforme isso numa dívida com o seu corpo.
Levanto e vou até a porta.
— Depois da Copa. — Digo de novo, mais para mim do que para ele.
Saio da sala quando Dr. Murphy me libera.
Quando você joga um esporte que exige um nível físico elevado, nunca dá para estar cem por cento, mas dá para evitar bastante coisa, por isso tento fixar no meu cérebro que vou ter que marcar essa cirurgia quando voltar para a Inglaterra, sendo campeão do mundo ou não.
Depois que saio do banho, olho a paisagem da varanda. O Ritz-Carlton fica colado no mar e dá acesso a um trecho para uma praia privativa. Se eu pudesse, iria para lá agora mesmo, mas preciso terminar de me arrumar. Charlotte permitiu que eu passasse a semana desocupada, então aproveitei para organizar os relatórios que já documentei em pastas. Talvez fique melhor para Sylvie visualizar e encontrar informações.
O almoço foi chato sem a presença de , não vi um vestígio da seleção inglesa pelos corredores, mas nem por isso ele deixou de me mandar mensagens falando qualquer besteira. Eu passo tempo demais lhe respondendo para lembrar que estou sozinha, o que deixa essa viagem mais suportável.
Abro a mala e decido por um body sob um jeans de cintura alta. Completo com salto alto preto e penduro um óculos de sol na cabeça. Estou penteando os cabelos quando meu celular vibra na cama.
CHARLOTTE: Desça, . Não podemos atrasar.
Começo a me apressar e, quando estou quase terminando a maquiagem, ouço batidas e uma voz ecoa do corredor:
— Serviço de quarto.
Eu abro a porta e encaro o funcionário bem arrumado.
— Não pedi serviço de quarto.
— Foi outro hóspede que enviou para a senhorita.
Franzo a testa, mas pego o pacote. Quando o abro, já no quarto, vejo ser um copo de 500ml de ‘milkshake’ de baunilha junto de uma cartinha. Eu abro o envelope e começo a ler:
Para:
-
Acho graça no bilhete, a letra dele até que é bonitinha, mas não tenho muito tempo para pensar nisso porque Charlotte já está me ligando de novo. Apenas pego o copo e corro para o elevador. Enfio o canudo ali e vou tomando até chegar no térreo. Eu amo milkshake, mas não posso tomar muitos porque sou viciada em açúcar. Meu nutricionista diz que na vida passada eu devo ter sido uma formiga, não consigo evitar meu paladar doce. Doces são muito melhores que salgados.
As portas mal se abrem e Charlotte já me puxa para fora em direção à saída.
— Por favor, me diga que estamos indo para um estúdio com o ar-condicionado.
Pergunto enquanto caminhamos rápido. Há um carro esperando por nós na calçada quando atravessamos as grandes portas do hotel.
— Um bem gelado.
— Graças a Deus.
Suspiro de alívio só de saber que não é nada ao ar livre. Eu gosto da natureza. Do sol. Das plantas. Caminhar em parques. Mas eu odeio trabalhar no calor, e em Doha esse desconforto térmico parece triplicar.
No carro, apoio a nuca no encosto do banco. Charlotte já está distraída, então pego o celular da bolsa e abro a câmera frontal. Tiro uma selfie com o canudo na boca e mando para . Ele pareceu adivinhar o que eu estava precisando quando me enviou esse sorvete.
: obrigada pelo serviço de quarto
: de nada,
estamos trocando fotos agora?
Mordo os lábios pensando que mandar uma foto segue a linha tênue entre não ser nada demais e ser muito ousado, mas isso parece dar uma ideia a ele. Segundos depois é a vez de me mandar uma selfie sorrindo em cima de uma bicicleta ergométrica. Ele está sem camisa e suado. Eu fico um bom tempo analisando o seu peito nu. Isso é covardia, muita covardia.
O ar condicionado do carro está ligado, mas mesmo assim estou suando aqui.
: vista uma roupa,
: por que? você não gosta do meu corpo?
: pelo contrário, já está quente e você está dificultando as coisas
Sério, eu preciso urgentemente tomar juízo e vergonha na cara. É o que a minha mãe vive me dizendo, mas não consigo porque eu gosto disso. Sou péssima em esconder o que estou pensando tanto pessoalmente, como na internet. Quando percebo eu já falei ou digitei, mas meio que já aceitei que sou sim, atirada, e não acho isso um termo pejorativo. Eu gosto de sexo e falo tão sujo quanto um homem, e se eles não são julgados por isso eu também não vou ser.
Isso é cômico porque eu deveria ficar longe, mas o meu corpo não consegue simplesmente obedecer.
:É seu se quiser
Ele envia outra foto e dessa vez é uma em pé no espelho mostrando todo o seu longínquo e musculoso corpo. Na minha opinião, os atletas, têm sim, algo especial. Dou risada e olho para Charlotte que conversa com o motorista antes de pensar no que falar.
Envio uma foto tentando imitar aquele emoji pensador focando a câmera no meu colo superior onde o meu body aperta os meus seios. Não estou usando sutiã e se ele tem uma poderosa arma no tórax, eu também tenho.
:Vou entender isso como um sim
: É um talvez
: A propósito preciso te entregar uma coisa, então esteja no seu quarto de noite
: Isso é uma desculpa pra você aparecer na porta do meu quarto?
: Talvez
preciso voltar pro treino
mais tarde eu volto pra você me dar atenção
Ele me envia outra foto piscando, me fazendo ignorar todas as minhas desconfianças. Se quer arrumar desculpas para me ver eu devia deixar.