Independente do Cosmos 🪐
Última Atualização: 18 de Abril de 2026Regra #1:
No futebol, o impedimento acontece quando um jogador, no momento do passe, está mais perto do gol adversário do que a bola e o penúltimo defensor. É a linha invisível que separa o permitido do proibido.
Às vezes, na vida e no amor, também existe uma linha invisível, aquela que diz “agora não”, “não assim”. E mesmo sem querer, a gente cruza porque o coração não fica esperando pelo passe certo.
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COPA DO MUNDO - OITAVAS DE FINAL
INGLATERRA X BÉLGICA
O placar marca 1x1 aos dez do segundo tempo da prorrogação e não pode ser um resultado mais preocupante para mim e todos que estão nesse campo. Qualquer simples erro pode nos eliminar nas oitavas de final.
Não quero isso, é a primeira Copa que jogo e estou em um ponto importante da minha carreira, seria torturante ter que esperar por mais quatro anos. O Estádio Al Janoub está lotado e as cores da torcida se misturam entre as da seleção inglesa e a belga. Todos estão na expectativa porque esse é um jogo grande.
Sander De Bruyn dispara com a bola após um bom lançamento de . O ótimo cruzamento do zagueiro só me faz odiá-lo mais. Sander está correndo, todos sabemos para onde. Ele dribla Jack e Ben com tanta facilidade que fico tenso porque ele vai marcar e vai nos eliminar. Quando o último fio de esperança inglês está indo pelo ralo, Finley Ashbourne aparece, ele é nosso melhor lateral esquerdo. A parte ruim é que a sua tentativa de impedir Sander resulta em um encontrão mal visto aos olhos do juiz, que apita e marca uma falta perigosa perto da grande área.
Merda. O árbitro para o jogo. Finley ajuda Sander a se levantar e Chris fica próximo dele para evitar possíveis reclamações com o árbitro, a falta é clara e ninguém aqui quer levar um cartão.
Chris Lawson é o nosso capitão, então ele sempre está por perto para evitar essas coisas. Vejo ir até o juiz exigir um cartão para Finley, mas o árbitro ignora e faz as marcações no gramado para a cobrança de falta.
Definitivamente, eu odeio esse cara. . Não nos damos bem fora, nem dentro de campo. A cada encontro do Chelsea com o Arsenal pela Premier League é uma guerra. No último clássico, no final da temporada, nós dois fomos expulsos por briga. Eu teria dado um soco na cara dele sem arrependimentos se não fosse ser suspenso por atitude antidesportiva.
Sander cobra a falta para a Bélgica e a bola voa, alto o suficiente para Ben cabeceá-la para frente. A bola vai parar no pé de Nathan, um dos atacantes ingleses, que puxa um rápido contra-ataque enquanto a torcida, de pé, se empolga com a situação. Nathan tem duas opções: eu e Jake, visto que Jamie está um pouco mais atrás. A bola passa por Jake e vem parar nos meus pés.
Eu corro em disparada mirando no gol e vejo Lars Vermeersch. O goleiro belga é um paredão de dois metros e está focado, olhando para mim, tentando adivinhar para onde eu vou mandar essa bola. Estou correndo como se essa fosse a minha única missão na terra, esse é o gol da classificação, mas chego perto o suficiente e estou prestes a chutar, um enorme incômodo vem no meu tornozelo direito e no segundo seguinte estou no chão. A dor é aguda, mas a fúria é maior ainda quando vejo que quem me derrubou foi .
O maldito . Zagueiro sujo do caralho.
Um furdunço belga aparece ao redor do árbitro quando ele puxa um cartão amarelo para e marca um pênalti para nós sem ao menos checar o VAR. A torcida é barulhenta.
— Ei, . — Diz Ben, preocupado, me ajudando a levantar.
Meus companheiros de equipe vêm me checar e aos poucos a dor vai passando. Olho para , ele está reclamando com o árbitro. Quero ir até lá xingar o filho da puta, mas a taxatividade do juiz é o suficiente para me conter.
O estádio inteiro está vibrando, mas continuo tenso. Jake se posiciona na marca do pênalti, coloca as mãos na cintura e aguarda o apito do juiz. Ele encara Lars e, quando o barulho do apito vem, ele vai. Todos estamos posicionados para um possível rebote, mas Jake não desperdiça a oportunidade, finalizando no canto esquerdo, enquanto Lars pula para o canto direito.
Ele corre como um doido depois que vê a rede balançar e o juiz validar o gol. Vou na sua direção junto com o resto do time e a torcida vibra. Os últimos dois minutos de acréscimo são uma tortura para nós até o árbitro finalmente apitar o fim do jogo. A Bélgica está eliminada e a Inglaterra segue para as quartas. Eu tiro a blusa comemorando, a sensação é muito boa.
O sonho está vivo.
O túnel que leva ao vestiário parece menor do que realmente é. Talvez seja a adrenalina, talvez seja o fato de que eu ainda estou tremendo, não sei se pela dor no tornozelo, pelo gol do Jake ou pela simples e pura sensação de que sobrevivemos. Jogar esse mundial não se parece com nada que eu já tenha feito na vida e a cada fase que passamos parece que ganhamos uma nova chance.
Observo meus três parceiros de vida. Não apenas na Seleção, mas no Chelsea: eu, Ben, Jake e Jack somos inseparáveis. Estamos indo até o vestiário: eu, no centro da formação, com Ben me segurando pelo ombro para garantir que eu não volte a mancar. Jake, está à nossa frente, ainda acelerado pelo gol. E Jack? Jack está logo atrás falando a primeira merda que lhe vem à cabeça desde que saímos do campo, é a maneira peculiar dele de processar qualquer emoção forte.
A porta do vestiário se abre e somos engolidos pelo grito coletivo do time. O vestiário está no mais absoluto caos. Toalhas voam, água é espirrada como se fosse champanhe, e alguém, provavelmente o Danny, está batendo numa lata de isotônico como se fosse um tambor de escola de samba. Nós quase levamos um banho ao passo que imergimos no suor e na adrenalina.
— Aquele juiz estava me irritando. — Jack comenta, chutando uma garrafa vazia no chão. — Se ele desse vermelho pro Finley, eu ia lá xingar ele até em alemão, sei lá qual língua eles falam.
— o Chris ia te matar se você abrisse a boca perto do juiz de novo. Já basta a sua coleção de cartões. — Ben rebate, revirando os olhos.
— Ah, eu ia mesmo. — Comenta Chris quando passa por nós para ir até o seu box.
— É só na Premier League. — Jack se defende. — Na Copa é diferente. Aqui eu me comporto.
Dou risada, porque ouvi essa frase exata umas… vinte vezes nas últimas duas semanas. E ainda assim ele levou um amarelo no primeiro jogo da fase de grupos. Vamos dizer que o Jack tem uma infame coleção de cartões amarelos e vermelhos. Tudo bem que ele é zagueiro, mas até para um zagueiro eu diria que é um número… exagerado. Às vezes fico impressionado com como ele e o Jake são diferentes, apesar de serem irmãos gêmeos. No Chelsea, Jake é o nosso centroavante, o nosso capitão que põe a ordem acima de tudo e é um exemplo dentro e fora de campo. Já o Jack… bem, Jack Reed é o caos em forma humana.
Jake me dá um tapa leve na nuca, que eu interpreto como um jeito sutil de dizer “estou feliz por você não ter quebrado o pé”.
— Boa corrida, — Ele diz. — Mesmo atropelado pelo .
— Aquele babaca — Jack rosna. — Eu juro por Deus, , se isso fosse no Stamford Bridge, eu quebrava ele no meio.
— Ah, não, por favor — Ben bufa daquele jeito responsável que ele sempre é, principalmente quando Jack decide comentar sobre sua postura nos jogos do nosso estádio. — Mais um derby com expulsão? Tuchel ia ter um infarto na beira do campo.
Eu levanto as mãos. — Vamos apenas ganhar e evitar os socos.
Digo, mas quem estou querendo enganar? Já tive oportunidades em campo de ter evitado brigas com e em todas elas eu falhei. Mas o que eu posso fazer? O cara me tira do sério. É algo que venho tentando trabalhar com a psicóloga do clube, não só por causa de , mas isso parece… crônico.
Aprendi cedo que rivalidade nunca começa no ódio, ela começa em escolhas pequenas, normais e necessárias, e na minha vida isso parece ser um padrão amaldiçoado. Nunca precisei empurrar ninguém para fora do caminho, o caminho simplesmente se fecha atrás de mim e alguém fica do lado errado. Toda. Santa. Vez. Na base, era sempre assim. Um treino bom demais, uma promoção, um nome anunciado em voz alta enquanto outro era silenciado.
Nunca me senti um vilão, mas comecei a me sentir como alguém que sempre vence às custas de outro e isso me incomoda.
Com o tempo, o padrão ficou claro demais para ser coincidência. Sempre que eu escolhia algo para mim, uma vaga, um contrato, uma chance, alguém saía ferido. E não importa o quanto eu explique ou tente ser correto, a história nunca me coloca como o cara que só fez o que precisa ser feito. Eu me torno o traidor. O ambicioso. O que passou por cima.
foi o primeiro nome que grudou nisso tudo e é impressionante como essa nossa rixa virou uma bola de neve que só foi ficando maior com o passar dos anos. Afinal, que outro motivo ele teria para me odiar tanto?
— Covarde. — Jack brinca, empurrando meu ombro.
Eu estou com metade da chuteira ainda no pé quando ele abre a caixa térmica com um estrondo dramático.
— Senhores… — Ele anuncia, como se fosse o mestre de cerimônias de uma premiação. — Hidratem-se antes que Simon venha encher o saco.
Ele pega quatro latas de isotônico, geladas o suficiente para minha mão arder, e arremessa uma pra cada um de nós. A minha quase acerta minha cara porque eu não estou olhando, típico Jack.
Ben bate a lata na perna e resmunga:
— Porra, Jack, quase explodiu isso aqui.
— Relaxa, pai de família, você tá muito tenso — Jack diz, abrindo a dele com estalo alto. — Daqui a pouco sua pressão cai igual à do antes do pênalti.
— Vai se foder — respondo. Eu odeio olhar os pênaltis, com exceção, é claro, de quando sou eu quem vai bater. Não porque fico nervoso, mas é uma espécie de superstição.
Jack dá uma única piscada e vira para o Ben:
— Aliás, falando em pressão… como tá a da Caillie? Aposto dez libras que ela comemorou o gol do Jake e ignorou totalmente o pai dela entrando em campo com cara de que ia vomitar.
Ben ri, balança a cabeça e joga a lata contra a dele, como se fosse um brinde improvisado. Ben é um completo idiota pela filha dele e o sorriso que ele abre toda vez que fala dela é maior do que a coleção de cartões do Jack. Mas acho que se eu tivesse uma filha como a Caillie também seria um idiota por ela. Entre nós quatro, Ben é único que tem uma filha, e acredito que por isso ele é a criatura mais calma e paciente que já conheci. Você precisa ser um insistente filha da puta para conseguir tirar Ben MacAllister do sério, e juro que eu queria muito ter um pouco dessa virtude, apesar de na maior parte do tempo ser um cara tranquilo.
— A Caillie gosta mais de você do que eu. Não me complica.
— Ela gosta mais de mim porque eu ensino ela a chutar. — Jack fala. Ele vive se gabando porque é o padrinho da Caillie. Óbvio que eu e Jake reclamamos muito, Ben apenas se defendeu dizendo que ele e Jack se conheceram primeiro e que era justo que Jack fosse o padrinho da sua primeira filha. — Jake quer botar a menina pra fazer treino de tática.
— Desculpa por querer desenvolver o QI futebolístico da futura geração.
— Ela tem cinco anos, cara — Eu digo lembrando da mini cópia do Ben. É impossível não se derreter quando essa garotinha aparece. Ela praticamente é mascote não oficial do Chelsea. — Ela só quer chutar a bola e comer biscoitos.
— E ainda assim — Jack aponta pra todos nós com a lata —, ela joga melhor que você.
— Sério, Jack, quantas vezes eu vou precisar mandar você se foder?
Os três riem, alto demais para o momento e alto demais para o vestiário abafado pós-classificação, mas eu nem me importo, porque quando é sobre nós quatro, sempre vale a pena.
Jake se encosta no armário, passando a mão no rosto suado.
— Cara… vocês têm noção do que acabou de acontecer?
Ben se joga no banco com um gemido dramático.
— Eu só tenho noção de que quase tive um infarto coletivo com aquele chute do Thatcher.
— Quase? — Jack ri. — Você morreu por uns três segundos, no mínimo.
Eu jogo a toalha molhada nele.
— Quem morreu foi você quando o Finley fez aquela falta. Eu ouvi você falando “fudeu” antes mesmo do juiz apitar.
— Informação privilegiada. — Jack responde, erguendo a lata como se fosse um troféu. — Meu instinto de sobrevivência é afiado.
Ben olha pra mim, balança a cabeça.
— Instinto de sobrevivência? Você? O cara que levou treze cartões na temporada?
— Catorze — Jake corrige, sem erguer os olhos.
— Tudo tático. — Jack estala a língua.
Eu rio, porque não tem como não rir. Esses idiotas são a única parte desse esporte que sempre vale a pena. Jogar este mundial é uma montanha-russa de emoções e você tem que aguentar porque nunca sabe se vai ter outra chance. O torneio acontece de quatro em quatro anos, até lá tudo pode acontecer. Podemos não sermos convocados, podemos estar lesionados e até mesmo ter parado de jogar. Não falo só por mim quando digo que estamos apostando tudo e dando o máximo de nós mesmos. Sei que Jake, Jack e Ben concordam comigo. Não vamos ter outra chance de fazer isso juntos.
Estou parada há alguns minutos tentando processar a informação de que fomos eliminados. Olhando pelo telão dá para ver o abatimento da torcida. Apesar de ser triste e decepcionante, não consigo chorar. Em eliminações assim eu costumo ficar com raiva, repassando os erros burros dos jogadores na minha cabeça, pensando o que poderiam ter feito diferente se fossem mais competentes, mas dessa vez eu não posso ser tão dura quanto gostaria, já que está na minha frente praguejando sobre essa eliminação e sentindo raiva suficiente por nós dois. Sei exatamente quando ele está chateado consigo mesmo e se cobrando.
— , você precisa se acalmar. Sei que é péssimo, mas você não está mais no campo para continuar agindo como um animal. — O olho, preocupada. Decidi sair do camarote e encontrá-lo na sala de espera reservada para a família dos atletas antes do tempo acordado porque sabia que seu emocional estaria destruído. É o sonho dele ganhar uma copa e agora terá que esperar por mais quatro anos.
Papai, mamãe e a Valerie, a namorada dele, também estão chateados. Todos aqui tinham alguma expectativa. É ruim ver meu país indo embora tão cedo porque o jogo foi bem equilibrado, mesmo que a mídia esportiva e a maioria dos setoristas estivessem cravando a Inglaterra como a favorita desde o início das oitavas.
— Eu não encostei nele, porra, eu juro, , que não encostei. Mas aquele filho da puta do conseguiu fingir muito bem e o juiz o comprou, aquele desgraçado! — rosna para mim.
— Claro que não encostou. — Digo apenas para consolá-lo, porque a minha real vontade era dizer o quão idiota ele foi dando um carrinho em na frente do juiz e dentro da grande área. Isso não é um erro que você pode cometer em uma decisão de mundial, mas você não pode esperar inteligência vindo de homens. E para ser sincera, não achei que fingiu o contato. Pela imagem, infelizmente, achei o pênalti bem claro, mas eu não sou doida de falar isso para o , ainda mais agora, por isso guardo as palavras para mim tentando ser uma irmã diplomática.
— Odeio ele.
Respiro fundo. é um assunto delicado. Não tenho muita simpatia por , é difícil ter. Ele e o meu irmão tem uma rixa antiga. São rivais declarados, jogam um contra o outro na Premier League e toda vez que se encontram, seja em campo, ou fora dele, você pode esperar que algo ruim aconteça. Penso que eles só não se mataram hoje no campo porque é esperto, ele sabia que o time dele ia passar e não queria correr o risco de ficar fora do próximo jogo caso fosse expulso.
O que é estranho porque eles costumavam ser amigos. Tudo bem que isso faz tipo uns dez anos, mas era uma boa amizade.
Eu gostaria muito de dizer que nunca cheguei a trocar uma palavra com e que só o conhecia de vista, gostaria mesmo. Normalmente, sou resistente ao álcool, consigo tomar taças e taças sem sequer ficar tonta, mas as coisas podem se complicar para mim caso uma elevada carga emocional entre na equação, e vamos dizer que naquela festa, há três meses, as coisas se complicaram bastante.
Tudo aconteceu no pós-festa da premiação do The Best. Em um momento eu estava feliz pelas conquistas das minhas amigas que jogam no PSG e conquistaram a Champions League Feminina na última temporada, e no outro… estava tendo uma crise de melancolia porque eu também deveria estar fazendo parte daquilo. Eu também queria concorrer àqueles prêmios. E isso foi arrancado de mim por uma fatalidade.
Quando dei por mim, estava com uma garrafa de champanhe na mão, ao invés de uma taça, e fazendo declarações patéticas a . Lembro de ter o beijado. Lembro também dele me levando para casa porque eu não me aguentava em pé. Foi tudo tão constrangedor, porque em tese eu deveria odiá-lo. Eu vivo evitando encontrar com , pois, toda vez que nos vemos, ele faz questão de lembrar desse infeliz episódio. é aquele tipo de cara que sabe usar sua solteirice a seu favor e é raro de levar um fora de alguma mulher. É insuportável vê-lo com aquele sorriso branco convencido. Ele sabe que é um filho da puta gostoso e não economiza no charme. Fugir dele é mais fácil que resistir.
Não gosto de ficar com jogadores e a sua má relação com o meu irmão só dificulta tudo, é uma dor de cabeça que eu não quero ter.
— Bem, papai e mamãe estão no camarote, ainda, com a Valerie. Quer que eu chame eles aqui? — Pergunto não tendo nada melhor para dizer.
— Não consigo nem olhar para eles depois dessa humilhação.
— Não foi uma humilhação, . — Afirmo, mas meu irmão é irredutível. — O placar foi pequeno, o jogo foi difícil.
— Só diga a eles que vou vê-los no hotel.
me dá as costas, talvez vá encontrar o resto da seleção belga para voltarem para o hotel no ônibus da seleção. Já eu dou a volta, não só para encontrar nossos pais, mas para começar algo que eu torço internamente para que acabe logo.
No fim do dia, quando volto para o hotel, Charlotte me enche de mensagens avisando dos meus próximos compromissos, daí já consigo ter uma ideia de que não vou conseguir assistir a todos os outros jogos das seleções ainda classificadas. Desde que me lesionei e a minha carreira de jogadora foi para o espaço eu tenho que me contentar em apenas ser uma ordinária telespectadora. Por oportunidade, acabei virando modelo comercial e tive que me adaptar à nova profissão com o tempo. Mas tenho um segredo sobre isso que não costumo compartilhar com ninguém.
Eu odeio o meu trabalho.
Sei que não deveria odiar, porque é um bom trabalho e o sonho de muitas, mas meu coração torce no peito toda vez que eu lembro que as pessoas não me veem mais como uma atleta, e sim como uma modelo comum. Eu sou um rosto bonito conveniente para colocar em cartazes, vitrines e outdoors. Para quem costumava marcar gols, fazer dribles e um estádio inteiro vibrar, isso não é nada.
Eu amava jogar futebol. Era a sina da minha vida porque eu tinha certeza de que era boa, não era algo que eu precisava ouvir de ninguém. Eu era a pessoa mais confiante do mundo quando pisava no gramado porque sabia que se repetisse o que fazia nos treinos eu sairia de lá vitoriosa. Meus números eram impressionantes. Naquela última temporada, eu liderei a liga em assistências e dribles curtos, criando um caos coreografado que fazia os olheiros do Lyon anotarem freneticamente em suas pranchetas.
Lyon, a maior equipe feminina atualmente, estava prestes a me fazer uma proposta. Era um dos meus maiores sonhos vestir aquela camisa e foi triste quando tudo ruiu diante dos meus pés. Nunca esqueço as palavras de Philipp Henderson na ESPN dizendo que fui a maior perda de um talento promissor para o futebol feminino. Eu gostaria de dizer que é uma ferida cicatrizada, mas nunca cura. Não totalmente.
Fiquei deprimida alguns meses até começar a tentar me reerguer quando Charlotte apareceu, sempre com o pensamento de que aquela melancolia fodida ia passar. Eu ia ter um trabalho novo e as coisas iam melhorar, mas conforme o tempo passava, nunca me senti cem por cento bem. E desde agosto desse ano, venho refletindo que preciso de um ponto de virada na vida.
Charlotte é um anjo para mim, ela leva seu trabalho tão a sério que às vezes tenho medo, mas também é uma grande oportunista, e não posso julgá-la por isso porque eu sou exatamente igual. Quando ela soube que eu queria vir ao Catar acompanhar o meu irmão nos jogos no mundial, conversou com várias marcas e conseguiu algumas campanhas. Por isso, enquanto os meus pais e toda a seleção belga voltam para casa após a eliminação, eu continuo aqui, cumprindo contratos e tentando me acostumar à culinária árabe e ao calor incessante.
O que Charlotte não sabe é que o meu trabalho de modelo está sendo pura fachada, nessa viagem, para o que eu venho planejando há meses. Não queria que as coisas fossem assim, escondidas, mas não podia ignorar o momento perfeito para juntar o útil ao agradável e iniciar o ponto de virada que estava precisando, fazendo isso de forma progressiva.
Naquela noite desastrosa, não foi só que entrou no meu caminho. Um pouco antes, Sylvie Schillaci me encontrou chorando no banheiro. Sylvie sempre foi uma inspiração. Além de ser elegante e simpática, Schillaci foi uma das melhores zagueiras que eu já vi, ela jogou e foi capitã do Tottenham durante sua ascensão das divisões inferiores para a Superliga Feminina da FA. Eu via essa mulher jogar toda semana. Quando estava na base do Union Saint-Louise, eu saia dos treinos, sentava na bola e ficava assistindo aos jogos toda molhada de chuva porque não queria perder um segundo da sua atuação indo tomar banho.
O futebol sempre esteve muito presente na minha vida, não só por , eu ia atrás das minhas próprias inspirações. Se inserir em um espaço majoritariamente dominado por homens é um desafio árduo, então imagino o quanto Sylvie teve que ignorar quando falavam que 'ninguém liga para futebol feminino', ou coisas do tipo, para nunca desistir. A garotinha sentada na bola ligava e sempre vai ligar.
Nós tivemos uma conversa bastante condolente, ela me contou histórias que jamais falaria em alguma coletiva enquanto eu tentava estancar o choro. Dias depois, Sylvie me convidou até o seu escritório e me fez uma proposta bastante ousada: ela entregou nas minhas mãos o “Projeto Paralelo: Vozes do Vestiário”. Ela queria que eu fizesse uma série de análises e conteúdos off the record sobre a Copa, focada na perspectiva emocional, física e mental dos jogadores, feita por alguém que já esteve dentro do campo. Ela disse que via em mim algo que um jornalista comum não tem: leitura corporal de atleta, linguagem de vestiário, a sensibilidade de uma ex-jogadora lesionada e coragem de perguntar o que ninguém pergunta.
Demorei um mês para finalmente aceitá-lo, e o meu desafio agora é concluí-lo até o apito final e passar para a próxima fase. e seus colegas de seleção estavam me ajudando com isso, era fácil conversar com eles e as minhas análises estavam indo bem. Com a eliminação da Bélgica, talvez seja um pouco mais complicado de conseguir o que preciso.
Estou na cama, de jeans e camiseta, com o ar condicionado no 16 porque esse é único jeito de aguentar esse calor infernal. Peguei o notebook para avaliar todo o material que já tenho, um pouco satisfeita com o resultado, mas começando a recalcular a rota após esse obstáculo. Saio da imersão dos arquivos quando recebo uma ligação de vídeo no computador de Skye. A minha melhor amiga.
— Ciao bella! — Skye diz quando aparece na tela. Seu cabelo está molhado, então acredito que ela acabou de sair da água. Na vida passada, Skye deve ter sido um peixe, ou uma sereia.
— Ma belle! — Correspondo ao seu elogio na minha língua nativa. Na maior parte do tempo eu e Skye nos comunicamos em inglês, porque eu não entendo nada de italiano, e ela muito menos de neerlandês ou francês, apenas conseguimos identificar algumas palavras soltas, principalmente palavras de carinho. Ou xingamentos.
— Tentei te ligar a manhã inteira, !
— Sinto muito, eu estava tentando não entrar em profunda depressão.
Ela faz uma careta quando se lembra da eliminação.
— Ah… Sinto muito, mas talvez a verdadeira Copa do Mundo sejam os amigos que fazemos pelo caminho.
— Cala a boca, Skye. Sério… Eu não acredito que fomos eliminados desse jeito. Verbeek insistiu naquele esquema 4-3-3 engessado, sem mobilidade. Se tivesse colocado o Tielemans mais cedo, a transição teria sido muito mais rápida. — Comento chateada. Highlights do jogo passando como flashs na minha cabeça. Acho que a seleção belga tem o técnico mais teimoso de todas as comissões, eu odeio aquele mala desde que ele deu uma declaração super machista sobre a seleção feminina. Então, por um lado, eu fico satisfeita com o seu fracasso.
— Eu também achei estranho! Parecia que o meio-campo estava travado, sem criatividade. Assisti ao jogo n’O GALES, você não imagina a felicidade dos ingleses com os erros de Verbeek. Acho que se De Ketelaere também tivesse entrado antes, teria dado mais opções ofensivas.
Uma nuvem de saudade percorre a minha mente. O GALES é o nosso bar favorito. Skye mora na Itália, mas vive me fazendo visitas em Londres ou sempre aparecendo quando não estou por lá.
— A defesa tava muito vulnerável, e ainda assim ele não mexeu. — Solto uma risada ríspida. — Um 3-5-2 teria dado mais equilíbrio, com alas apoiando tanto na defesa quanto no ataque. Mas não… ficou preso ao plano inicial.
— Um peccato, amiga… Verbeek é um filho da puta covarde!
Dou risada concordando. Skye trabalha como árbitra assistente, então ela entende meu universo tão bem quanto eu. É tão bom conversar sobre esse tipo de coisa que não seja com um homem tentando provar o tempo todo que sabe mais do que você. Nós nos conhecemos quando ela foi escalada para um jogo da Champions em Paris, na época que eu jogava pelo PSG. Eu diria que foi amizade à primeira vista.
Eu poderia ficar a noite inteira falando da covardia de Verbeek, ou como Philippe Van Acker, nosso centroavante, perdeu cinco gols feitos, mas acho que já tive futebol suficiente para um dia.
— Vamos falar de outra coisa. Estou de mau-humor o resto do dia.
— Claro, como tá a sua pesquisa?
— Estava ótima, até eu perceber que vou ter que encontrar novas cobaias.
— Hugo não pode te ajudar?
Pondero por alguns segundos. Hugo é francês e um dos melhores amigos de . Eles jogam juntos no Arsenal e no momento talvez seja a pessoa mais próxima de mim aqui, com exceção de Charlotte.
— Nunca pensei em pedir ajuda a ele.
— Você deveria, é claro, se vocês conseguirem manter as coisas profissionais...
— Por que não seriam profissionais? — Ergo a sobrancelha.
— Não sei... Acho que ele tem uma queda por você.
Pensando nas minhas interações com Hugo, elas sempre foram bastantes cordiais, e ele nunca foi nada menos do que gentil comigo. Já percebi alguns olhares diferentes vindos dele, mas nunca davam em alguma coisa.
— Jamais ficaria com Hugo, ele é o melhor amigo do ... Deixaria as coisas estranhas.
— Então pedir ajuda não vai ser um problema. — Dá de ombros enquanto esfrega algum creme nos braços. Skye tem a pele bronzeada, já que ela surfa, então está sempre sujeita a insolação até nos dias nublados. Acho que ela é a única pessoa em Londres que não é pálida como papel, mas também não tem aquele bronzeado artificial horroroso que te deixa laranja como certo nicho da elite inglesa. — Você ainda não contou pra Charlotte?
— Não vou contar a ela nem tão cedo. Preciso de um porto seguro caso isso não dê certo.
Às vezes me sinto uma traíra. Uma impostora. Mas também, presa. Como se não pudesse sair do lugar só para não decepcionar as pessoas.
— Claro que vai dar certo, Sylvie já te ama, as análises que você vai entregar só vão confirmar isso. — Gostaria de um dia ser tão positiva quanto Skye é. — Preciso ir bella, Murphy está me olhando como se planejasse arranhar a minha cara caso eu não vá alimentá-lo.
— Oui, te mando mensagem depois.
Me despeço de Skye e passo quase que o resto da noite ponderando se devo ou não mandar mensagem para Hugo Martin.