Independente do Cosmos 💫
Última Atualização: 27/12/2025
— Já fiz o check-in online, não preciso chegar lá tão cedo assim.
Só que, quando desviou o olhar para o relógio no pulso, percebeu que Dona Rosângela estava certa. O Aeroporto de Confins ficava a uma média de trinta minutos de onde morava e, mesmo que Belo Horizonte não tivesse um dos piores trânsitos do Brasil, era capaz de perder o voo.
— Vou desligar agora, tá bom? Vejo vocês em algumas horas. — Pegou o celular da bancada e andou até a sala, onde a mala de mão e a mochila estavam à espera por ela.
— Boa viagem! — Ouviu ambas falarem antes de desligar.
Procurou o aplicativo do Uber no celular e, enquanto esperava algum motorista aceitar, repassou mentalmente a lista de coisas que tinha preparado para a viagem. Baixou os episódios de Os donos do morro? Claro. Desligou a pisca-pisca da árvore para salvar energia? Feito! Baralho para jogar com os primos? Estava na bolsa!
Checou todas as janelas e aberturas possíveis, com um tufão passando por cima do estado, o verão começou bastante diferente. Havia ficado sem energia por dois dias seguidos e a ventania constante balança os vidros com uma força que parecia partir a qualquer momento. Rezava só para que desse tudo certo com o voo.
Ainda não se acostumara direito com a vida nova em terras mineiras, por isso contava os dias para reencontrar a família em Salvador. E o fato de ser justamente no Natal era ainda melhor. Assim que a carona estava se aproximando, desceu para o hall do prédio — se não, teria aberto um buraco no chão do apartamento de tanto andar de um lado para o outro.
Assim que o veículo branco se aproximou, empurrou a mala de rodinha até a calçada, e quando estava prestes a puxar a maçaneta, um vulto passou por ela correndo, tomando seu lugar e sentando no banco de trás antes dela.
— Ei! Esse é meu Uber! — reclamou, reconhecendo quem era a figura imponente que tomou seu lugar: , seu vizinho.
— Eu pago o dobro da corrida! — argumentou, fazendo o motorista olhá-la como se não tivesse escolha, murmurando um “desculpa, moça”.
soltou um grito, irritada. Aquilo não podia estar acontecendo!
— Você só pode estar de brincadeira! — esbravejou, mas o rapaz só bateu a porta do carro e passou as coordenadas para o condutor, que acelerou com tudo.
Haviam trocado poucas palavras com no último ano em que ela estivera morando em BH, dividindo o mesmo hall. E, de todas as vezes em que haviam se cumprimentado de forma cordial, nada foi tão rude quanto naquele momento. Claro que as pessoas poderiam estar atrasadas, mas roubar a carona de outra pessoa? Se algum parente dele não estivesse morrendo, ela não aceitaria desculpas. E com certeza aquela não era a justificativa, já que repara que o homem usava roupas sociais.
costumava teorizar com a outra vizinha, Senhora Alice, que talvez ele fosse um viciado em trabalho. Provavelmente estavam certas.
A mulher mordeu a bochecha enquanto solicitava uma próxima corrida, o tempo estava passando e não podia vacilar. Quando chegasse ao destino, estaria mais aliviada e nem lembraria desse pequeno empecilho.
Digitou para a irmã, já sentada no banco de trás da nova carona, a caminho do aeroporto. Apenas recebeu um: “Empurra ele e chega logooooooooooooooo 🙏” como resposta, fazendo-a sorrir. Sophie era uma das principais coisas de que sentia falta de casa. Queria poder ser a irmã maluca que desvirtuaria a mais nova, levando-a para todos os lugares possíveis, mostrando coisas boas e até algumas ruins, entretanto, com a faculdade só conseguiria auxiliá-la de longe e perderia a melhor fase: o início da vida adulta.
Aproveitaria os dias em Salvador para fazer o papel de irmã mais velha de pertinho.
Quando chegou ao aeroporto, precisou correr para passar no raio-x, essa era a parte que mais odiava em viajar de avião. As principais filas eram sempre ali, as pessoas indo e voltando várias vezes até descobrir o que estava apitando na máquina, atrasando todos — uma vez ela quase perdeu um voo assim. E o voo para a Bahia já devia estar no processo de embarque.
E não, ela nunca aprendeu a chegar no tempo proposto pelas companhias. Mesmo com ansiedade no talo, cansou de ouvir o próprio nome ser chamado nas salas de embarque.
Ao chegar no portão 19, toda suada por atravessar o prédio inteiro, descobriu que o voo estava atrasado em trinta minutos. Respirou fundo, jogando-se na primeira cadeira vazia que encontrou. Precisava restabelecer a sanidade e um tempinho a mais certamente a ajudaria a colocar os pensamentos embaralhados no lugar.
Ou não, já que bem ali em sua frente, trajado em um terno azul super passado e o cabelo na régua raspado que o deixava terrivelmente atraente, estava um dos causadores do seu estresse: . Ele digitava algo no notebook minúsculo no colo, alheio ao mundo.
Ela certamente teria muitas coisas ruins para falar dele quando encontrasse Dona Alice de novo.
— Valeu a pena roubar o Uber de outra pessoa? — perguntou alto e claro, fazendo questão de que ouvisse.
O homem à frente parou a digitação por uns segundos, encarando-a por cima dos óculos de grau, voltando a atenção para o computador logo em seguida.
— Não leve para o pessoal, tá bom? Foi um ato de desespero. — O sotaque mineiro dele era tão forte que o ódio da mulher quase passou.
— Como não levar para o pessoal se você quase me fez perder o voo?
soltou ar pelo nariz e fechou o notebook com força, guardando-o na mochila enquanto falava: — E agora nós dois estamos aqui esperando porque atrasou. Então, que diferença faz?
— Que diferença faz? — repetiu, incrédula com a audácia, impulsionando o corpo para frente.
Ele se apressou para cortá-la antes que ela encarnasse um galo-de-briga:
— Olha, se eu soubesse que você estava vindo para o aeroporto também, teria proposto dividirmos o mesmo Uber, ok? Não vai adiantar nada discutirmos agora.
O vizinho tinha o que considerava como voz mansa: baixa e calma; o que a irritava ainda mais — estava chateada e queria discutir. Entretanto, ele tinha razão; ou melhor, tivera sorte do voo estar atrasado e aquele infortúnio não foi tão desastroso assim.
Resolveu relaxar na cadeira novamente, não valia a pena brigar por algo que não teria resultado diferente, voltando a trocar mensagens com a irmã.
Mas o mundo estava disposto a tirá-la do sério, elevando a irritação na potência máxima quando uma notificação apareceu por cima do WhatsApp. Ao visualizar o conteúdo, rezou para todos os orixás que aquilo fosse uma fake news de mau gosto.
“Cara dos Santos,
Informamos que o vôo 5634, com destino a Salvador, foi cancelado.
Por favor, confira esta informação acessando o código localizador de sua reserva
Para maiores informações, por favor, entre em contato conosco…”
A mulher a seu lado soltou um “eles só podem está de brincadeira”, o cara à sua frente fazia movimentos circulares na testa com os dedos. A voz quase inaudível da comissária da companhia foi a cereja do bolo.
Aqui não podia estar acontecendo.
— O tufão deixou algumas partes da cidade sem energia de novo e eles não estão conseguindo comunicação — diz, derrotada. — A mulher disse que não consegue nenhuma previsão agora, acho que vou precisar voltar para casa.
Não era a primeira vez que estava passando por algum voo cancelado, mas nenhuma experiência anterior deu tanta vontade de chorar como aquela. Era quase como a Lei de Muphy gritando que tudo que tiver que dar errado vai dar errado, porque não importa quando ela tentasse colocar na cabeça que não era o fim do mundo, o cérebro acreditava que era assim.
Segurou as lágrimas o máximo que deu para não preocupar a mãe, mas algumas escaparam quando fungou.
— Tenha calma, filha! O natal é daqui a três dias, você vai conseguir chegar a tempo.
— Espero que sim.
— Deus sabe de todas as coisas!
Desligou a chamada de vídeo antes que começasse a abrir o berreiro no meio do aeroporto mesmo. Tinha planejado tanto, detalhe por detalhe, e agora tudo estava sendo arrastado na ventania. Sentou-se novamente e tapou os olhos com a mão, vontade mesmo era poder espernear que nem criança.
Alguém limpou a garganta perto dela, fazendo-a voltar a racionalizar um pouco e levantar a cabeça. Encontrou em pé, na sua frente, agora sem um paletó e com as mãos no bolso da calça, parecendo não saber o que falar.
Os músculos marcando a camisa social azul clara a deixava ainda mais fora do eixo.
Queria sumir.
— Eu não vou voltar de Uber com você — reiterou, cruzando os braços ao encará-lo.
— Eu não pude deixar de escutar sua conversa ao telefone…
— Ótimo! — Ela o interrompeu, batendo palmas enquanto levantava. — Vou adicionar fuxiqueiro na sua lista de crimes.
Ele teve a coragem de revirar os olhos na sua frente.
— Olha, eu vim em paz, ok?
— O que você quer?
— Fiquei mal por pegar o Uber no seu lugar, mesmo que a situação atual não seja culpa disso. Eu queria me redimir.
— A não ser que você tenha um jatinho particular que ninguém esteja sabendo, fica difícil se redimir. — Agora ela estava com as mãos na cintura, querendo acabar logo com aquilo.
— Meu chefe quer muito fechar um negócio e está me pedindo para ir até Salvador dirigindo. Queria saber se você quer ir comigo?
— Passar horas com você num carro? Não, obrigada.
Apesar disso, ela sabia que era uma proposta tentadora.
— Dias, só chegaríamos lá amanhã, ou depois de amanhã.
— Piorou.
levantou os braços em forma de rendição, virando-se para pegar a bolsa que estava na cadeira.
— Tudo bem, então, eu tentei ajudar.
não sabia o que fazer, mas estava ainda mais em pânico do que deveria. O tufão estava demorando dias para passar, ela mesmo já tinha ficado sem luz por muitas horas, o que garantia que os voos seriam estabelecidos de forma rápida?
O trajeto entre as duas cidades era rápido, cerca de uma hora e quarenta, mas saindo naquele momento garantiria que chegaria antes do Natal e teria mais tempo com a família. Por outro lado, podia ser que nunca chegasse a tempo suficiente.
Assistir o vizinho andando para a saída do aeroporto dava aflição, os neurônios soando como sirene. Qual das duas opções seria tão ruim assim? Pelo menos a carona era uma garantia de que chegaria ao destino. Já começou a se arrepender assim que juntou as próprias coisas às pressas e correu em direção ao rapaz.
— Tudo bem, mas eu não sei dirigir — falou assim que o alcançou.
— Sem problemas, tenho amor à minha vida — ele devolveu.
Antes de começarem a viagem, passaram em uma conveniência para preparar o que chamava de “kit viagem”: fini, salgadinho sensações e palavras cruzadas para matar o tédio. A última viagem de carro que a mulher tinha feito havia sido pelo litoral da Bahia, mas nada tão longe igual aos 1430 km que estava prestes a percorrer — sim, ela havia pesquisado. Não sabia ao certo se manteria ela sã durante o percurso, mas esperava não voar no pescoço de .
Havia compartilhado a localização em tempo real com a irmã, após responder várias vezes que sim, ele é confiável ou se ele tentar fazer algo, pulo do carro em movimento. Esperava estar correta em todas as suposições, muito melhor do que ficar em casa esperando alguma coisa acontecer.
— Então, você vai ter que voltar de carro para BH depois? — perguntou, tentando deixar o clima um pouco mais amigável. Ela sabia que o automóvel era da empresa em que ele trabalhava por conta dos adesivos colados na lataria.
A longa jornada pela estrada tinhacomeçado. havia arregaçado as mangas para ficar mais confortável, concentradíssimo, e ela conseguia ver um vislumbre de tinta preta perto do pulso que estava deixando-a intrigada. Já agradeceu por escolher uma calça moletom antes de sair, derreando o banco do veículo para ficar mais deitada.
— Provavelmente — ele respondeu sem nem a encarar.
— E a reunião é que dia?
— Remarcamos para o dia vinte e quatro. — O queixo da mulher quase saiu do lugar de tão surpresa que ela ficou, fazendo-o rir após olhá-la de lado. — O que foi?
— Vai passar o Natal na estrada?
— De qualquer maneira, minha passagem de volta estava marcada para o dia vinte e sete.
— Ah, então você tem família lá?
— Não?!
— Meu Deus, então você é realmente o Grinch! O Senhor “odeio o natal” do prédio — deduziu, rindo da própria piada ao lembrar que tinha comentado sobre isso com a outra vizinha.
segurou o volante com força depois de quase perder o controle ao tentar encará-la. Ele sabia que havia boatos, mas nunca foi tão concreto.
— O que foi que entregou? — Estava curioso para entender mais sobre as fofocas que espalhavam sobre ele.
O condomínio era povoado de senhores que faziam bingo na área comum e tomavam café à tarde. A falta de jovens morando por lá era o que tornava um dos melhores lugares para residir no bairro, justamente por ser muito tranquilo — a maioria dos mais novos era netos que iam visitar seus avós ou tios. Então era de se imaginar que a fofoca fosse a atividade favorita dos moradores.
— Você é o único do hall que não tem uma guirlanda na porta, quiçá do condomínio até — esclareceu.
— Para que enfeitaria a casa só para eu ver?
— Por que é Natal?! — Não era óbvio?!
tinha aula em tempo integral na UFMG e, nos tempos livres, amava ficar com os outros moradores no hall de entrada. Sempre que chegava de um dia cansativo, recarregava as energias vendo os senhores discutirem sobre qualquer coisa que pudesse aborrecê-los. E, no caso de , ele era um tema recorrente.
Não porque ele era baderneiro, mas porque era muito reservado, atiçando a curiosidade — e o coração — das idosas.
— É só uma data no calendário, o mundo não tem que parar por isso. — Ele tentou ser paciente, mas odiava esse assunto. Odiava ter a confirmação de que era pauta nas reuniões do condomínio. — Ainda mais porque a versão mais abraçada desse feriado é totalmente americanizada.
— Natal não é só uma data no calendário! É sobre estar com quem você ama, reencontrar parentes, ouvir piadas ruins e não se importar. O mundo devia parar por isso.
— Acho que você tem mais alguma coisa para acrescentar na minha lista de crimes, então.
— Não posso mais ouvir um minuto dessa heresia — constatou, pegando as palavras cruzadas para se entreter por um tempo.
Seria uma longa viagem.

