Autora Independente do Cosmos 𓂃🖊
Finalizada ✅️
Youngjae e Jinyoung já estavam na rua no terreno coberto de vegetação, construindo rampas de madeira para algum propósito legal e talvez não muito recomendado — Bambam duvidava que tivesse qualquer relação com inclusão e todas essas coisas que gente bondosa fazia.
Ele tentou duas vezes persuadir o freio enferrujado a segurar o carro sem ter que precisar usar outra coisa, mas, por fim, suspirou e puxou uma pedra da calçada, colocando na frente do pneu e fornecendo o máximo de estabilidade que conseguiu. O capim se enfiava pelos raios das rodas. Quando olhou para o lado, o grande Jeep Wrangler reluzente estava estacionado a alguns metros do Mustang, muito acima da grama e sem qualquer dificuldade em permanecer parado. O carro que denunciava uma presença desagradável.
Desviando os olhos, Bambam começou a caminhar em direção à entrada, virando-se para perguntar:
— Quem socou quem dessa vez?
Youngjae baixou os ombros em um suspiro pesado, secando o suor da testa com as costas das mãos, afundadas em uma luva grossa de marceneiro.
— Jinyoung gritou com o atendente da loja de conveniência. — respondeu.
— Eu não gritei assim! E ele deu em cima da minha irmã, o que queria que eu fizesse?
— Sua irmã é gostosa, todo mundo dá em cima dela.
— Youngjae… — o outro trincou os dentes, e Bambam revirou os olhos, prestes a ver outra briga infantil entre os dois amigos.
— Quando vocês acham que o mestre vai chegar aqui?
Jinyoung não respondeu imediatamente. Ele estava ajoelhado bem em cima da tábua de madeira elevada, medindo a largura a ser cerrada com uma trena amarela.
— Vinte e cinco centímetros, Yugyeom.
Parado ao lado de uma pilha de madeira compensada, Yugyeom apareceu de repente, caminhando em direção à dupla com uma pequena serra que, ainda assim, parecia bastante perigosa. Bambam automaticamente olhou em volta pelo terreno, temendo que mais gente brotasse de algum buraco no chão e parede e ele nem notasse. Eram os efeitos das aulas iniciais com o mestre: ser silencioso. Cauteloso. Não dar bandeira sobre a sua presença.
Ele perguntou, em prontidão:
— Só isso? Não parece muito.
— Eu mentiria pra você? Vinte e cinco centímetros. — disse Jinyoung, empurrando a trena para outro lado e levantando os olhos para Bambam. — Você por acaso vai voltar? — apontou para o corpo inteiro do garoto. Ele estava com a mesma roupa de sempre, mas algo estava diferente em seu rosto: era o rosto de quem era um aluno assíduo da academia, expressado em forma de cabelo bem penteado, olheiras escondidas e barba bem feita.
Nos últimos dois meses, Bambam havia deixado a sombra de barba malfeita se tornar uma barba de vários dias, fruto de sua ausência forçada na Academia. Antigamente, ele e Jaebum tinham feito isso para alfinetar a incapacidade de Youngjae de deixar crescer pelos na cara, mas, desta vez, aquela barba grande não era nada engraçada.
— Quem sabe. — ele deixou no ar. Youngjae ergueu as costas imediatamente, os olhos muito abertos pela possibilidade.
— O que você disse? — ele andou até o veterano, pegando em seus ombros com força. — Você vai voltar? Vai mesmo voltar?
— Ei, ei, calma. Preciso conversar com o mestre antes. Não vamos nos precipitar. — um sorrisinho em linha fina surgiu nos lábios. Era o lema de Bambam: não se precipite. Isso custa caro, muito caro. Custaram dois meses desta vez.
— Vai. Ele está lá dentro. — Jinyoung puxou um Youngjae muito animado para trás, exibindo um sorriso motivador para Bambam. — Bom, agora que você não parece mais o tipo de pessoa que as mulheres esconderiam as bolsas e os bebês, acho que vai ser um prazer de ter de volta.
— É bom saber disso. — Bambam estreitou os olhos, aceitando o aperto de mãos caloroso dos companheiros. — Torçam para que ele aí dentro pense a mesma coisa. Vou nessa.
Ao se despedir, o garoto começou a entrar para dentro da Academia, caminhando e movendo os braços muito melhor, praticamente do mesmo jeito que fazia antes daquela noite.
— Ei, que horas o mestre disse que terminaria a reunião com o Jackson? — Yugyeom murmurou de repente, ao longe. Youngjae e Jinyoung se encararam no mesmo instante, resmungando juntos:
— Merda.
Três horas.
Uma reunião entre dois mestres de modalidades diferentes não precisava durar tanto tempo. E, normalmente, não duraria mesmo. Mas Jackson Wang estava nessa reunião, então automaticamente as coisas tendiam a se arrastar junto com seu raciocínio problemático.
Bambam se pôs de pé depois de esperar por 30 minutos, imaginando primordialmente que o sr. Choi devia estar louco por isso: uma interrupção, algo que acabasse com toda aquela ladainha. Antes de abrir a porta, ele se virou para a janela, observando Youngjae, Jinyoung e Yugyeom trabalhando com os compensados para as rampas, e encontrou os três garotos também espichando os olhos para verificar o andamento do que acontecia no andar de cima. Então, na verdade, trabalhando com queria dizer olhando para, porque a verdadeira atenção deles estava toda em Bambam e na porta da sala principal.
Com um suspiro, Bambam estendeu a mão para tocar na maçaneta enquanto ouviu Jinyoung gritar para Yugyeom manter os indicadores nos malditos vinte e cinco centímetros e, em um intervalo de segundos, a porta foi aberta antes que seus dedos a alcançassem, mostrando a saída do cara de 1,80 e o outro mestre de boxe chinês, senhor Zamachowski.
— Olha quem está aqui! E aí, Bambam? — o homem mais velho esmagou o espaço entre eles com um abraço de urso.
— Oi, mestre Zama. — Bambam tentou dizer na curva de seu pescoço, perplexo em como a força do homem ainda continuava muito superior a como era quando o conheceu. — Como vai?
— Vou bem, melhor agora que estou te vendo aqui de novo. O que veio aprontar hoje?
— Não tem nenhuma ferramenta à vista pra ajudar seus amigos, Kunpi. — Jackson finalmente falou, usando seu nome formal com desprezo, pesando o ambiente sem nenhum esforço. — Não veio fazer o que eu tô pensando que veio, não é?
— Isso não é da sua conta, mas o que acha que pode fazer contra isso? — Bambam ergueu uma sobrancelha. Jackson travou o maxilar mais do que já estava travado depois da conversa do lado de dentro. — Infelizmente, não posso responder suas perguntas agora. Preciso entrar, se me dão licença…
— Ei, ei. — Jackson segurou na curva de seu cotovelo quando Bambam deu um passo, aproximando-os ainda mais. A voz de Zama surgiu automaticamente, com um “Vai com calma, Jackson” que soava um tanto cansado e apreensivo. Bambam não se intimidou nem por um segundo. Jackson abriu seu sorriso de lagarto e disse: — Relaxa, relaxa. Não vou fazer nada que vá me colocar pra construir uma rampa igual aqueles otários. Mas você, Kunpi… — frisou o nome com os dentes trincando. — Vai mesmo subir no ringue? Mesmo depois da sua lesão? O valor de uma BMW vale essa sua ideia suicida? O que minha garota acha sobre isso?
— Você e essa sua maldita mania de abrir a boca pra falar. — Bambam cuspiu as palavras com mais tranquilidade do que se esperava, mas seus dentes trincavam entre si. Era tão típico de qualquer pessoa que interagia com Jackson. — E minha lesão pode se curar ainda mais rápido se continuar chamando minha namorada de sua garota.
Jackson abriu um sorriso venenoso, satisfeito por ter tocado em um ponto sensível.
— Ela foi minha garota primeiro, Kunpi. Nada vai mudar isso.
— Que bom. Assim fico ainda mais tranquilo em saber que nada vai mudar o fato de que não é mais.
O outro diminuiu o sorriso, também sendo pego em um ponto fraco. A vida de Jackson Wang era recheada de brinquedos caros, todas as mulheres que quisesse e uma posição invejável no Esquadrão, mas, como uma criança mimada, ele terminava o dia querendo aquilo que não podia ter.
— Isso é o que a gente vai ver.
— E veremos o quê? Você sendo um babaca e tentando comprá-la com seus presentes caros e sem noção? Agindo por aí como se ela fosse sua propriedade, fazendo ela perder toda a admiração que resta em você… Não é uma trajetória que deixa uma mulher querer construir muita coisa.
Jackson avançou imediatamente como resposta. Bambam não moveu um músculo, mesmo que tenha sentido todos eles se retesarem. Zama puxou o garoto descontrolado para trás, agora perdendo totalmente a tranquilidade.
— Ei, ei! Já chega! Quer levar outra suspensão? O que eu ensino sobre auto controle? Qual é o problema de vocês? — ele agarrou a nuca de Jackson, empurrando-o até o outro lado com os olhos gritando de alerta. — Entra, Bambam, ele tá aí dentro.
Zama saiu da porta, ainda mantendo-se seguramente perto de Jackson.
— Obrigado, mestre. — agradeceu Bambam, começando a avançar e sair do ambiente hostil que Jackson sempre instalava (e, na maioria das vezes, tinha liberdade para isso porque suas doações à Academia faziam valer sua opinião, por mais podres que fossem).
— Se você se inscrever no torneio, sabe que vai me enfrentar, cientista de merda! E finalmente vai ser a minha chance de quebrar a sua cara. — a voz de Jackson se elevou ao ponto de calar os avisos sussurrados de Zama. Bambam apenas olhou por sobre o ombro e murmurou, com um sorriso cínico:
— Quero ver você tentar.
Ele provavelmente não precisava dizer isso, pois Jackson ficou com ainda mais fogo nos olhos, mas o garoto não o observou por muito tempo. Em um segundo, fez uma continência e entrou para dentro da sala.
Fazia tempo que Bambam não precisava mais da faculdade de Física.
E não era pelo fato de que, fisicamente, ele podia intimidar até um pedaço de compensado a fazer o que ele queria. Não. Existiam regras, e ele seguia todas as que recebia da Academia, desde que decidiu largar os livros e fazer algo com as próprias mãos.
Quando seus pais o viram agachando-se para socar um cara com tamanha ferocidade, chamaram de loucura. Obrigaram-no a se formar, mas o diploma jamais viu a luz do dia. Continuava guardado dentro do armário, onde Bambam mexia apenas para limpar ou trocá-lo de lugar, achando outra gaveta. No fim, era legal entender como o universo e as coisas do mundo funcionavam, mas nada se comparava à sensação de vivenciar todas essas coisas na pele.
Por mais que, da última vez, quebrou bem mais coisas do que um nariz ou um dente.
— Achei que a gente tinha conversado sobre isso, Bambam. — disse o Mestre Choi remexendo-se na cadeira com explícita indignação com a pergunta. — Qual é o seu problema, mesmo? Estiramento do músculo e lombalgia. Chegou a pesquisar seu próprio diagnóstico? Ou sabia o que era desde o momento em que caiu naquele ringue? — perguntou ele, com uma sobrancelha erguida, dizendo por fim: — Sem competição pra você.
— Eu sei, mestre, mas…
— Não tem mas, Bambam. Agora mesmo estou tentando decidir se ligo pro seu médico ou pra , qual dos dois tem a chance de surtar mais?
Dizer isso em voz alta era um convite para a irritação de Bambam, mas tratar de um assunto tão importante que envolvia persuadir o homem que o treinou precisava ser levado com calma.
Bambam disse:
— Eu preciso participar dessa. É um torneio nacional, vai ter olheiros das olimpíadas, possíveis novos alunos, e o prêmio final….
— Então é isso? Você quer a grana?
— Sempre quero a grana, você sabe disso. — o tom saiu muito óbvio. Choi não o achou menos merecedor por isso. Talvez precisaria de bastante dinheiro para mandar quantas flores fossem necessárias para que não o matasse de vez. — Mas também amo muay thai. Quero ganhar várias outras quantias lutando. E não quero parar agora, não quero dar essa pausa que pode me atrasar em tudo.
Aquele era um bloco delicado da profissão que não tinha como Bambam saber. Nem ele e muito menos o seu mestre. As condições que mantinham um atleta em atividade eram muitas, e não se ferir era apenas o primeiro item da lista extensa.
— Eu entendo o seu medo. — demandou Choi, com a voz um tanto mortificada. — Nesse ramo, podemos durar até os 40, mas também podemos nos aposentar bem mais cedo do que isso se os devidos cuidados não forem tomados. Não é porque a gente apanha que tem que ir com tudo. Respiração, raciocínio, concentração, coração. É muito mais do que levar e distribuir socos por aí. Com certeza, muito mais do que abusar da própria força como esses manés chutando placas de compensado aí embaixo, por qualquer motivo que seja.
Bambam não se sentiu nem um pouco vitorioso com as palavras do mestre, umedecendo os lábios por um segundo até pensar em uma nova abordagem.
— Mas não é você que diz que precisamos arriscar? Que o muay thai também não é espaço para medrosos e pra fracotes, muito menos para aqueles que baseiam seu futuro e decisões por médiuns e profissionais de astrologia? Tudo bem, tudo bem, sei que é brincadeira. — ele levantou os braços com o olhar estreito do homem. — Qual é, mestre, olha pra mim! Sou o cara dessa academia que pode trazer a vitória pra casa.
O homem suspirou pesado, apoiando os cotovelos no tampo na mesa.
— Você sabe o que é aquele lugar? E a sua lesão? — perguntou.
— Vai curar até o dia do torneio, eu prometo. Estou no fim da fisioterapia e não viria até aqui escrever o meu nome se o dono daquele palácio de castração não tivesse me liberado.
Choi segurou uma risada, mas logo se recuperou antes mesmo que alguma esperança acendesse no peito de Bambam. Contudo, ele viu o momento em que o mestre relaxou os ombros na cadeira e estalou a língua, anuindo levemente com a cabeça.
— Ok, ok, tudo bem. Eu não teria como te impedir mesmo. — deu de ombros, girando as mãos no ar como uma forma cansativa de largar. Bambam arqueou as costas em um pulo. — E não é como se eu não quisesse te ver brilhando nos ringues de novo. Senti falta disso, garoto.
— Eu também, mestre. — ele aceitou a mão estendida sobre o tampo, agarrando-a com mais da metade da força que tinha antes. — Obrigado. Vou ter a sua ajuda, não é?
— Não precisa nem perguntar. — agora o homem sorria com vontade, mais feliz ainda por ver Bambam voltando a sorrir do jeito como costumava fazer. — E a ? O que ela acha disso? — Bambam fez uma careta culpada como resposta, bagunçando um pouco os cabelos. — Eu disse desde o começo quando começou a sair com essa garota: seja honesto com ela.
— Ela vai ser contra no começo, mas… No final, tenho certeza que vai entender que é importante pra mim. E já mandei flores para o apartamento dela. — ele deu de ombros. Choi soltou uma risada alta.
— Se tudo der errado, vou receber suas bolas em vez de flores. — o homem estalou a língua, balançando a cabeça, tornando-se ligeiramente mais sério. — Ela sabe que você provavelmente vai enfrentar aquele neandertal do boxe chinês que acabou de sair daqui?
— Quando eu contar, ela provavelmente já vai saber. E provavelmente vai tentar me impedir de novo, mas tá tudo bem. Ela vai entender. Ela não sabe, mas o prêmio também é pra ela.
— Minha nossa, às vezes você parece meu pai falando. Então finalmente vai comprar as alianças?
— Ou um apartamento, as duas coisas são bem caras em Yongsan-gu. — disse Bambam, arrancando mais risadas de Choi. — Obrigado por confiar em mim, mestre. Às vezes você não tinha nenhum motivo para fazer isso e, mesmo assim, confiou.
Choi deu sua risada suspirada, quase sem som, e fez de novo o movimento com as mãos, como se não fosse relevante.
— Me agradeça quando ganhar. Até lá, se concentra apenas em ficar melhor.
O garoto assentiu, apertando ainda mais a mão do mestre em sinal de determinação.
Bambam apertou o Mustang em uma das vagas enfileiradas do estúdio, que era muito mais bonito do lado de dentro do que de fora. Um dos seguranças que guardava a porta dos fundos cuspiu no chão ao lado de uma BMW, que certamente devia pertencer a um grande CEO que não podia passar o dia sem destratar seus funcionários e funcionários dos outros.
Depois de vários andares acima de elevador, o garoto saiu num corredor extenso onde, no final, uma porta dupla se abria para um cômodo amplo onde fundos brancos e verdes se estendiam pelas paredes e os flashes eram de cegar qualquer um. Mas uma coisa brilhava ainda mais do que todas aquelas luzes juntas.
A garota deitada de bruços em um pequeno sofá no centro do fundo branco, vestida com uma bela lingerie vermelha, combinando com seu batom e sua maquiagem leve.
Quando o viu, deu um grito de ‘tempo’ e se levantou imediatamente, correndo em sua direção com a meia arrastão delineando seu corpo ainda mais.
— Babe! — ela jogou os braços em volta dele, trazendo todos os olhares do ambiente junto com eles. Quem ainda não tinha se dado conta de que o tipo favorito de Ming eram caras que usavam jeans surrados, dirigiam carros velhos e quebravam a cara de outros por dinheiro, estava sabendo agora. — Não te esperava aqui tão cedo. Recebi suas flores.
— Não esperava que você estivesse tão bonita. — disse ele, totalmente sincero, vasculhando seu corpo com um olhar sugestivo. — Podemos adiar a conversa?
— De jeito nenhum. — lhe deu um tapinha no ombro, sabendo como ele poderia realmente estar falando sério. — Mais cinco minutos. Me espera lá fora.
— Ou ele pode esperar aqui mesmo. — Hamlet, o fotógrafo que endeusava tanto quanto Bambam se aproximou, agora direcionando seus olhares maliciosos para o cara vestido com uma camiseta da coca-cola. — Quem sabe assim ele não se sente tentado a arrancar essas roupas largas horríveis e mostrar para o mundo o que ele esconde debaixo dessas flanelas?
Bambam soltou uma risada, sentindo um braço de passar pelo seu quadril.
— Bom te ver também, Hamlet. E a resposta continua sendo não.
— Não enche o saco dele, Hammy, sabe que ele não vai mudar de ideia de uma hora para outra. Ele é tímido. — ela recostou a cabeça em seu ombro, sendo centímetros mais baixa do que o namorado. — Mas pode vê-lo sem camisa nos vídeos de luta na internet.
— É o meu passatempo favorito na banheira. Estava cansado da inutilidade dos meus brinquedos. — disse o fotógrafo, arrancando risadas do casal. — Agora vamos, gata. A cidade ainda não viu essa bunda linda empinada no outdoor.
— Tudo bem. — ela sorriu e virou-se para Bambam. — Me espera, tá bom? Já tive ideias para o nosso jantar.
Ele fez uma careta de descontentamento, mas logo riu. Desde a briga sobre quem paga ou deixa de pagar o jantar, Bambam e chegaram a um acordo de que existiam coisas muito mais importantes a se aproveitar e abdicar em um relacionamento.
— Ainda acho que podemos adiar essa conversa….
— Bam! Você disse que tem algo muito importante pra me contar e quero ouvir. Não me faça te dar outra advertência. — ela estreitou os olhos, e ele revirou os dele. — Jantar. Te vejo depois. — com um beijo rápido, ela se despediu e voltou para os flashes que a pertenciam.
deixou o talher despencar na mesa.
— Você vai fazer o quê?!
Os olhos da garota se abriram exponencialmente em surpresa.
— Você já sabia disso. Eu já tinha contado, .
Ela abriu e fechou a boca várias vezes. Já devia estar se preparando para avisá-lo sobre as coisas terríveis que aconteceriam com aquela decisão, que não parecia nem de longe a melhor.
— Mas achei que tinha desistido. Você tinha prometido… — sua voz falhou gravemente, e ela precisou se levantar da mesa e se virar para a janela antes que começasse a soltar mais do que deveria; coisas vindas pelos olhos, coisas que Bambam não precisava ver.
Mas era uma reação mais do que esperada. Em vez disso, Bambam se levantou rapidamente, pegando em seus ombros enquanto dizia:
— Ei, ei calma. Vem aqui. Senta aqui. Me escuta. — ele a conduziu até o sofá retrátil logo ao lado, afastando uma almofada que estava ali. — O fisioterapeuta disse que tá tudo bem, que estou quase terminando as sessões e que até o dia do campeonato vou estar novo em folha, pronto para construir coisas novas, se eu me empenhar de verdade. Vai dar certo, não vou correr riscos desnecessários, eu te garanto.
passou as costas das mãos nos olhos rapidamente antes que algo drástico acontecesse. Não era por vergonha de chorar na frente de Bambam; era uma recusa em chorar em um assunto sério o bastante que necessitava de sua feição séria. Como quando soubera que ele estava sem dinheiro e que jamais comentou sobre o assunto.
A resposta dele àquele tópico foi apenas que invejava o tempo de em se preocupar com assuntos tão triviais.
— Mas… Não lembra da sua última luta? Quando você enfrentou aquele babaca brutamontes do Japão. Ele te deixou no hospital, Bambam! Com uma lesão séria.
— Eu sei, e exatamente por isso entendo totalmente seu medo, mas vai ficar tudo bem. Não sei como explicar, mas vai. Você confia em mim?
desviou os olhos, mesmo que ainda se mantivesse sentada com as mãos de Bambam afagando seus ombros. Bambam torceu com todas as forças para que ela não chorasse porque isso o destruiria de tantas formas que também era difícil explicar. Quando se conheceram, ele pensava que ser tão rico quanto significava ser capaz de ir à faculdade e não fazer mais nada, muito diferente dele, que vivia em trabalhos de meio período e ainda mais quando se recusou a seguir a carreira de professor. Mas Ming escondia muito mais do que mostrava, inclusive sua personalidade empática, doce e batalhadora, que usava seus preciosos intervalos de tempo para estudar análises de mercado financeiro e fazer doações anônimas para causas relevantes.
— Isso é tudo porque eu falei de casamento? — ela se virou para ele repentinamente, engolindo em seco. — Porque ganho mais? Ou leu aquele ensaio que escrevi antes de dormir falando do apartamento? Eu não quis te pressionar, eu só disse…
— Não, não, não, não é por nada disso, eu juro. — Bambam se apressou em explicar, agora pegando em suas duas mãos. — Não dou a mínima pra quanto você ganha. Você tá buscando seu espaço e isso me enche de orgulho, babe. Eu só quero buscar o meu também, entende? — sua voz baixou como um pedido. Ele jamais admitiria para alguém o quanto a opinião de era carregada de tanta importância. — E o muay thai é a minha vida. Não se trata de socos e chutes… É o que faz eu me sentir vivo.
parou e deslizou seus dedos sobre o dele, em uma reflexão silenciosa. Ela também jamais admitiria, muito menos para Bambam, o quanto tinha tanto medo de algo mais perigoso e sério acontecer além de um estiramento. Coisas irreversíveis poderiam acontecer, coisas que não teriam mais volta. Mas ela estava cansada de pensar que poderia fazê-lo voltar atrás; cansada de imaginar formas para isso; cansada de vê-lo encontrando tempo para os treinos entre os trabalhos de meio período. Não era sobre a vida dela.
— Sabe que vai enfrentar aquele babaca do Jackson, não sabe? — ela disse em um tom duro de alerta, mesmo que Bambam provavelmente não precisasse disso. era a pessoa que encontrava tempo para dormir toda vez que pensava que os dois estavam juntos no mesmo quadrado. — Ele tem menos tempo de muay thai do que você, mas aprende rápido e se ficar sabendo disso…
— Ele já sabe. E não tenho medo do Jackson. — afirmou Bambam, estando completamente ciente da caçada do rival. — As motivações dele são infantis e sem nexo. Ele acha que precisa provar alguma coisa porque te perdeu. É um desperdício de tempo.
— Ele me perdeu muito antes de eu conhecer você. Literalmente. — ela dá uma risada fraca, mas não zangada ou com apreensão. — Não sei porque ainda fica lembrando de um namoro adolescente. Já fazem seis anos. Mas não importa. Somos eu e você. E sou capaz de invadir aquele ringue se eu ver que está ficando perigoso.
— Todos já estão avisados caso a senhorita Ming tente fazer alguma coisa, mas vai ser bonitinho te ver tentar. — ele ri e se aproxima para beijá-la, mas inclina a cabeça, estreitando os olhos.
— Isso não teve graça, Bambam. Já estou preocupada desde agora.
— Tudo bem, e que tal a gente sanar todas as preocupações naquela porta bem ali? — ele aponta o quarto com o queixo, passando um braço por sua cintura e levantando-a para cima, beijando a ponta de seu nariz.
— Bambam…
— Não queria jantar primeiro? Bom, a gente acabou de fazer isso… — ele deu de ombros, arrastando os pés junto com o dela para a porta.
— Você não existe. — ela deu um tapa de leve em seu ombro, mas logo mordeu os lábios e disse: — Quer ver a lingerie nova que eu ganhei hoje?
Ninguém se importava se a arena Blitzer ficava bem ao lado de uma fábrica de trailers.
Os carros abarrotavam o estacionamento, e os gritos lá dentro, misturados com os apitos de próximo, enchiam o ar tomado de fritura, cerveja e nicotina. As pessoas só se importavam com lugares perfeitos, que os dariam a visão do ringue perfeita e onde pudessem ouvir as notas de forma ainda mais perfeita.
não precisava procurar por nada disso. Seu lugar estava guardado na frente, mas não tão próximo a ponto de sentir o cheiro do suor e ouvir os impactos da pele sobre pele tão alto. Parecia melhor assistir as coisas de um ponto mais irreal, a algumas fileiras atrás. Deixaria a garota pensar que Bambam ainda estava bem e vivo, que ele tomaria o cuidado que prometeu tomar — mesmo que essas coisas não dependessem somente dele.
Bambam tentava não se preocupar com nada disso.
O torneio se estendia há 2 horas de duração. Ele já tinha levado surras mais longas e corria para o gelo imediatamente antes que suas costelas ficassem roxas, mas se sentia genuinamente bem. As dores eram boas. Faziam-no lembrar, existir, coexistir com o prazer da adrenalina.
Dois anos antes, ele tinha participado de sua primeira competição e nada se comparava com os gritos e a vontade de vencer.
Desde que tinha decidido ir para o Esquadrão GOT7, nada, absolutamente nada mudaria isso. E todos entenderam o recado.
O rapaz enfaixava as mãos com mais precisão na sala de espera da arena. Em sua cabeça, os ferimentos estavam no nível de ótimo. Os funcionários do Esquadrão colocavam gelo em suas costelas, limpavam o sangue do nariz e da sobrancelha e estariam em prontidão novamente ao lado do ringue. As equipes de paramédicos estavam mais do que preparadas para qualquer atendimento de emergência. Não tinha pelo que se preocupar. Nada daria errado naquela noite, nada.
Mas ainda existia uma pulga atrás da orelha. E essa pulga se chamava a próxima luta, e seu próximo oponente. O último para alcançar a vitória. Onde a tensão e toda a expectativa estavam abarrotando o estádio mais do que as pessoas. E tinha muito, muito a ver com essa preocupação.
Ele não queria fazê-la sofrer. E seria o embate mais violento, o mais perigoso.
Pelo menos sua mãe não estava ali hoje. Ela com certeza mandaria o cartão bancário para que parassem a luta imediatamente, mesmo que não adiantasse de nada.
Quando Mark colocou uma caixa com um tubo de pasta de dentes e quatro latas de ravióli de micro-ondas em cima da mesa distante de madeira, ele sabia que era uma desculpa para ter uma conversa difícil.
— Você pode parar agora mesmo. — avisou, olhando rapidamente para a porta. — Se você não tivesse nenhum fundo bancário para pagar uma conta de supermercado, eu entenderia. Mas tenho certeza que você não está tão fodido assim, Bam. O Esquadrão vai entender. É sério.
Embora não fosse sua culpa, Bambam desejou que seus colegas mais velhos dessem um jeito mais eficaz de impedir que os calouros invadissem o vestiário com palavras tolas de preocupação. Havia algo peculiarmente humilhante e íntimo naquele momento em que Mark os colocava, curvado sobre uma caixa aleatória enquanto parecia implorar, mas Bambam apenas revirou os olhos e abriu a boca para responder.
— Ele não vai desistir de nada. Cai fora, Tuan. — Mestre Choi adentrou bem a tempo de ver Mark revirando os bolsos para fingir que talvez tivesse algo para usar em seu favor. Era impossível. — Ou quer que eu conte a todos que você tentou fazer o campeão nacional amarelar?
— De jeito nenhum! Eu só… Eu… — enquanto ele procurava o que dizer, desistiu no meio do caminho e apenas estalou a língua. — Tudo bem, tudo bem. Eu só quis dizer o que todos estão pensando. Tô preocupado, ele é nosso melhor irmão.
— O melhor irmão precisa se concentrar pra dar o seu melhor no ringue. E a única coisa que você e os outros do Esquadrão precisam fazer é descer lá e torcer muito, talvez até orar pra todas as crenças que existem. Fui claro, Tuan?
— Claro, mestre. Claro. — ele olhou pra Bambam. — Boa sorte, cara. Vai dar tudo certo.
Com um último aceno, Mark seguiu rapidamente para fora.
— Não precisava ter sido tão duro com ele. — Bambam murmurou. Viu o mestre avançar em direção à mesa, ensacando as coisas derivadas que Mark tinha trazido, tiradas de algum depósito para poder entrar sem permissão.
— Não temos tempo pra nenhum sermão. Você está pronto? — ele perguntou sem olhá-lo. Até a maneira como o homem se deslocava demonstrava o quanto estava nervoso, mais ainda do que Bambam.
— Claro. Já vim pronto. — o garoto fez questão de relembrá-lo. Era um momento mais tenso e complicado, mas ele não queria seus amigos cabisbaixos. Tudo daria certo.
O mestre, enfim, se virou, e toda sua atenção estava bem direcionada.
— Então vamos. Jackson já esperou demais. Tá na hora de ele levar uma surra.
Confiante e despreocupado, Bambam aceitou a mão estendida do treinador e se levantou, ignorando a pontada na costela e seguiu para a saída, onde os gritos tinham triplicado desde sua última luta.
Os flashes e vozes mecânicas de alto falantes encheram todo o complexo da arena. Bambam passou pelos jornalistas, fãs, apostadores e subiu no ringue, ouvindo as últimas instruções do mestre Choi agora falando por entre as faixas. Com os ombros jogados para trás e o queixo empinado, ele parecia repentinamente o filho de um imperador. E encarou a garota sentada no meio da multidão.
Primeiramente, Bambam sentiu medo de olhá-la. Se o encarasse com aquele medo nos olhos, ele desabaria. Continuaria a luta com a imagem na cabeça e isso seria perigoso. Mas Ming tinha as duas mãos juntas na frente do queixo e as abaixou a tempo de fazer surgir um pequeno sorriso, um que era necessário para ele, um que o colocaria no centro do universo.
Era tudo que ele precisava. Enquanto mais gritos surgiam de trás de suas costas, anunciando que Jackson passava pelas faixas e entrava no ringue, ele sussurrou um eu te amo com os lábios e teve certeza de que o resto de sua vida não poderia continuar sem Ming.
Virando-se para o oponente, ambos os lutadores fingiram que ouviram o que o juiz resmungava e não desgrudavam os olhos entre si. A adrenalina corria por todas as veias de Bambam. Ele observava o rapaz raivoso à frente, um rival à altura, que sairia para a calçada dali e entraria em um carro preto que o esperava. Um cara que mais falava do que fazia.
O apito de início soou.
Jackson avançou como um animal.
Bambam sorriu antes de dar o primeiro soco.
FIM.
NOTA DA AUTORA > Olá! Espero que você tenha gostado, e obrigada pela sua leitura. Até a próxima!
beijos,
Sial ఌ︎
Sial ఌ︎
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