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Independente do Cosmos🪐

Finalizada!

Aviso: Esta fanfic aborda temas sensíveis como o luto, a perda de alguém querido e o processo de recomeçar. Também fala sobre cura e a possibilidade de reencontrar o amor em meio à dor. Leia com cuidado e carinho 💙


Era possível ver o sol indo embora devagarzinho do lugar em que os três estavam sentados.
A areia fofa ainda estava morna e a brisa do mar começava a ficar um pouco mais gelada que o normal, mas para , e Leo, as conversas bobas e risadas soltas estavam mais interessantes do que qualquer outra coisa que pudesse os tirar do pequeno momento de paz que tinham ali.
Leo, irmão de , chutava com preguiça as minúsculas ondinhas que se aproximavam de seus pés, enquanto prestava atenção, junto de sua irmã, nas últimas aventuras que contava sobre seu trabalho. Saltos, escaladas, trilhas perigosas — tudo parecia pouco demais para ele.
— Tem alguma coisa especial em se arriscar mais do que o normal, sabe? — mencionou, com os olhos brilhando. assentiu. — O corpo pede por mais toda vez.
Os três riram.
— Você é maluco — comentou, apertando um pouco da areia entre os dedos. — Não entendo como isso pode ser divertido.
— Igual como você não entende como subir uma escada sem drama?
Leo alfinetou, olhando divertido para a irmã. Ela deu um tapinha de leve em seu ombro.
— Muito engraçado — resmungou, tentando conter o sorriso. — Só porque você vive se jogando de lugares altos igual esse maluco aqui — apontou para . — Não quer dizer que isso seja normal.
— Ei, é mais normal do que parece — colocou uma das mãos no peito, fingindo estar ofendido. Sorriu. — Se desprender do chão, estar nas nuvens ou quase tocando elas… Tipo, quando você se joga de um avião, não dá mais pra voltar atrás. É só confiar.
o olhou e, apesar de estar curiosa, só de se imaginar fazendo aquele tipo de coisa, seu coração quase saltava dentro do peito. De medo.
— Confiar em quê? Que o paraquedas vai abrir?
— Que vai dar tudo certo — respondeu. Sua voz era calma, deixando claro que sabia bem do que estava falando. — E, mesmo se não der, você pelo menos tentou.
Leo ficou em silêncio por alguns segundos, entendendo o que seu melhor amigo queria dizer. Observou a irmã e como ela prestava atenção em tudo o que falavam sobre o assunto.
— Você devia tentar um dia, — mencionou.
Ela virou o rosto de supetão, fazendo uma careta.
— Tá brincando, né?
— Um dia — insistiu, ajeitando o corpo sentado e se aproximando um pouquinho mais dela. — Quando tiver coragem. Quando quiser sentir o que a gente sente.
— Não sei, não. Talvez..?
Murmurou, dando de ombros. Aquilo não era algo que estava na sua lista de desejos da vida.
— Promete?
franziu o cenho.
— Prometer o quê?
— Que um dia você vai tentar. Vai voar. Se jogar no ar, de algum jeito. Pode ser paraquedas, asa delta, sei lá. Não importa como — disse, olhando com os olhos azuis brilhantes de sempre. — Promete que um dia vai fazer isso por mim.
— Que papo estranho é esse, Leo?
A garota estreitou os olhos, como se tentasse entender o motivo para tanto mistério.
Ele deu de ombros, sorrindo de canto.
— Só tô dizendo, ué. Seria legal ver você fazendo algo maluco. Fora do controle. Totalmente livre.
— Sou livre o suficiente com os dois pés no chão, obrigada — deu uma risadinha nervosa.
— Larga disso. Promete?
Leo esticou o mindinho, a olhando como costumava fazer quando queria desafiá-la a alguma coisa. ficou em silêncio por alguns segundos e respirou fundo, antes de rolar os olhos e estender seu mindinho também.
— Tá, tá. Eu prometo.
Ele sorriu, mais satisfeito que o normal e apoiou os braços para trás, na areia, enquanto seu corpo descansava.
— Sabia. Agora é com você, . Leva essa chata pra pular de paraquedas ou escalar o Everest.
— Ei! — protestou. e Leo gargalharam. — E você vai ficar fora dessa?
— Eu vou estar aqui embaixo filmando suas caras e bocas, — levantou as mãos, como se estivesse com uma câmera apontada para o rosto da irmã.
Ela o empurrou forte o suficiente para tombá-lo um pouco para o lado e Leo soltou uma risadinha preguiçosa, sem se importar em se equilibrar de volta.
— Idiota.
— Vai ser lindo — continuou, encenando dramaticamente. — Uma lágrima escorrendo pela bochecha, cabelo voando pra todo lado, gritos de terror… É um Oscar garantido. Vai por mim.
— Esqueceu da parte que eu vou te assombrar pro resto da vida por me fazer prometer isso? — retrucou.
— Vai valer a pena — respondeu, ainda sorrindo. Mas um pouco mais leve que antes. Ele olhou para o céu, onde as primeiras estrelas começavam a se espalhar pelo azul e respirou fundo, pensando em suas próprias preocupações; até a que ninguém sabia ainda.
, que até então estava quieto só observando as alfinetadas dos seus melhores amigos, olhou para logo depois.
— Mas olha, se for pra fazer mesmo, faz com calma. No seu tempo. Não vamos te forçar.
Olhou para por alguns segundos e virou o rosto.
— Ouviu isso, Leo? Não me force — fez uma careta para o irmão, que rolou os olhos.
— Tá bom, medrosa. Só que promessa é dívida, se lembre disso.
bufou, lançando uma olhada para Leo bem do seu lado. Ele conseguia irritá-la quase todas as vezes, em todos os momentos e segundos que estavam juntos.
— Eu sei disso, mané. Mas isso tá longe de acontecer ainda. Em um futuro bem distante.
— Amanhã tá ótimo — rebateu, se esticando na areia com a cara mais cara de pau do mundo. riu. — Acorda às seis que a gente já começa com um paraquedinha básico.
— Ridículo.
— Ele pega no seu pé, mas só porque sabe que você consegue — comentou, dando de ombros. respirou fundo.
— Eu tenho pavor de altura, . Tipo… Paralisar de medo, sabe?
— E relaxa que tá tudo bem — deu um sorriso suave, relaxando o corpo. — Ninguém disse que você tem que fazer isso agora.
Leo, agora deitado de barriga pra cima, interrompeu com um suspiro dramático; aqueles dois estavam lhe dando enjoo. Ou talvez fosse até uma pontinha de ciúme de sua irmã com seu melhor amigo.
— Tá, tá, chega disso — murmurou, jogando os braços por cima dos olhos. Afastou rapidinho, olhando para os dois. — Vocês podiam pelo menos esperar eu me afogar ali no mar antes de começarem a trocar essas juras de confiança, né?
pegou um punhado de areia e jogou na perna dele, sem dó.
— Para de ser chato.
— Só tô dizendo — fingiu estar indignado. e riram. — Me deixem fora desse drama que não quero problema, sou responsável demais pra isso.
— Aham. O responsável que me fez pular de um penhasco em Bali sem equipamento suficiente porque ia ser legal.
— E não foi? — rebateu, se sentando outra vez. rolou os olhos. Eles iam começar de novo… — Você tá vivo, tá aqui. Te fiz mais forte.
Ela balançou a cabeça, bateu as mãos no short e se levantou. Se virou para os dois e colocou as mãos na cintura.
— Vocês dois — apontou de Leo para . — São malucos. Doidos de pedra.
— E você é careta — Leo sorriu.
— Ai, cala a boca.
Ela tentou manter a expressão séria, mas deixou uma risadinha escapar mesmo assim. Eram insuportáveis — os dois. Mas também eram os seus insuportáveis.
Leo se levantou junto dela, observando ainda estava sentado no tapetinho que tinham levado.
— Eu vou nadar de novo antes de voltar. Quem vem?
— Tô fora — sua irmã respondeu na hora. Já estava seca e sentia um friozinho acariciar seu corpo.
— Vai lá, cara. Eu fico com essa medrosa aqui — o loiro provocou, levando um chute leve de .
Ela soltou um resmungo frouxo e cruzou os braços.
— Mais respeito com quem faz promessas sérias, viu?
sorriu, ainda a olhando. Deu uma risadinha.
— Eu levo a sério. Mais do que você imagina.
E aí ela o olhou. Só por um segundo até sentir as próprias bochechas esquentarem. Desviou o olhar até ver o irmão rolando os olhos e sair correndo em direção ao mar outra vez.
Cheio de ânimo e de vida.
Ela o amava mais do que tudo no mundo.
Só não fazia ideia de que aquilo era uma despedida camuflada de implicância.

A chuva escorria pela janela, mas aquilo de longe incomodava .
Sequer prestava atenção; estava encolhida no canto do sofá com um cobertor velho a abraçando até o queixo e uma caneca de chá quente nas mãos. Um filme qualquer passava pela televisão, outra coisa que ela não se dava ao trabalho de prestar atenção.
Sua mente estava longe, coberta de lembranças que voltavam sempre que podiam enquanto o silêncio do seu apartamento começava a ficar alto demais para ela.
Só então percebeu que a campainha havia tocado. E tocou mais uma vez.
Para ser sincera, pensou em ignorar.
Não queria conversar. Não queria sorrir. Não queria nada.
Só o dia seguinte.
Mas a campainha tocou outra vez e, meio segundo depois, escutou uma batida leve na porta.
? Sou eu.
Ouviu alguém falar, quebrando o silêncio, além do som da TV ligada. Sabia que era ele, não tinha como ser outra pessoa.
.
Ela fechou os olhos brevemente e soltou um suspiro pesado, se levantando no sofá. Quase arrastou os pés com tamanha dificuldade até a porta de entrada.
Quando a abriu, o viu encharcado. parecia ter pego boa parte da chuva que caía até chegar ali e, segurando uma sacola de papel nos braços, deu um sorrisinho torto enquanto ajeitava os cabelos escuros molhados.
não disse nada.
— Fiz sopa. E cookies. Não tenho muita certeza se é uma boa combinação, mas… Você sabe, é a intenção que conta, né? — ergueu a sacola.
Ela continuou em silêncio mais alguns segundos, mas não deixou de demonstrar um sorriso apagado no canto dos lábios.
Abriu espaço para que ele entrasse.
— Vai acabar gripado assim — murmurou, voltando para o sofá.
— Se for pra ficar gripado comendo sopa e cookies com você, eu não ligo.
Ela riu pela primeira vez no dia. Riu mesmo, de verdade.
tirou o moletom molhado, o pendurando na cadeira. Já estava tão familiarizado com o apartamento de que ao menos precisava pedir licença para fazer algo.
Quando se sentou no sofá ao lado dela, sentiu a cabeça da garota pousar em seu ombro. Ela continuou em silêncio por alguns instantes, como se estar ali fosse suficiente para acalmar seu coração.
— Obrigada por continuar vindo, mesmo quando não tenho nada pra dizer — sussurrou. Seus olhos opacos estavam fixos na TV. — Mesmo quando eu tô um caos.
Ele virou o rosto, olhando para . Seu coração doía de vê-la daquele jeito, mas sabia que nada no mundo seria capaz de consertar seu coração.
Não depois de…
Respirou fundo.
— Não venho porque você tá mal, . Venho porque é aqui que quero estar.
— Mesmo com o mundo caindo lá fora?
Tentou fazer graça, mas sequer tinha forças para sorrir com aquilo.
— Mesmo com o mundo caindo lá fora — afirmou.
— Você não acha que tudo ficou meio… Meio quieto demais? — iniciou, sua voz já falhava. sentia que seu coração iria explodir de tanta dor. — Meio sem cor, sem vibração. Eu só…
Sentiu a garganta secar.
passou o braço por seus ombros e fez um carinho leve ali.
— Eu acordo e por dois segundos acho que ele ainda tá aqui. Que vai sair do quarto falando alguma besteira ou pegando no meu pé — olhou de canto em direção ao quarto de Leo. — E aí eu me lembro.
E ficou em silêncio novamente, se deixando levar pelos pensamentos que rondavam sua mente. sentia as lágrimas quentes caindo por suas bochechas.
— É como se tivesse um buraco no meu peito — sua voz estava tão baixinha que ele quase teve que se esforçar para ouvir. — E isso só deixa claro que esse buraco não vai sumir tão cedo.
a puxou com cuidado, virando o corpo um pouco mais para ela. sequer ergueu o olhar; deixou o rosto encostar no peito do garoto e chorou como se não houvesse fim.
Como se chorar fosse aliviar toda a dor que sentia nos últimos meses.
— Eu daria tudo pra trazer ele de volta — sussurrou. fechou os olhos. — Tudo, .
Ela soltou um soluço abafado, agarrando sua camisa como se aquilo fosse lhe dar forças para parar.
— Ele queria que você voasse, lembra? — murmurou, depois de alguns segundos. — Que não deixasse o medo te parar. Que seguisse em frente.
— E como que eu faço isso sem ele?! Como?
engoliu em seco. Segurou os braços de com delicadeza, a afastando minimamente — suficiente para que pudesse olhar nos olhos.
— Ei, olha pra mim — murmurou, sentindo seus olhos arderem ainda mais só de ver a feição tão abatida da garota. — Vai ficar tudo bem. Eu te prometo.
Ela o abraçou outra vez. Chorando um pouquinho mais que antes.
Doía tanto que ao menos sabia explicar.
Perder seu irmão havia lacerado seu coração em pedacinhos.
E ela não fazia ideia de como iria se reerguer agora, sem ele.

um ano depois


Ela respirou fundo.
O sol ali não estava tão forte, mas se não fosse pelo tanto de nuvens espalhadas e pelo vento, provavelmente deixaria a marquinha da blusa de alça estampada na sua pele.
subia a trilha de terra devagar e, se ela voltasse há um ano atrás e visse aquela cena, com toda certeza não acreditaria no que estava vendo; seu tênis estavam cobertos de poeira e ela conseguia ver um paraquedas abrindo lá no céu, fazendo um barulho meio engraçado. Até empolgante.
Assim que colocou os pés no último degrau, seu coração esquentou. A base de voo estava cheia, como de se esperar, com muitas pessoas rindo, nervosas e as mais corajosas já tomando a frente para descer.
Parou para observar o céu e o horizonte. Muitas pessoas já tinham descido, gritando animadas enquanto dançavam no ar com os paraquedas coloridos.
Era bonito. E mais bonito ainda era se dar conta de que estar ali, no alto, não a deixava morrendo de medo como antes.
— Pensei que fosse te encontrar enrolada nos lençóis até meio-dia — ouviu uma voz bem conhecida atrás de si.
Ela se virou já sorrindo.
— E perder a chance de te ver todo concentrado, organizando equipamentos e bancando o treinador responsável? Nem pensar! — cruzou os braços.
deu um sorrisinho e se aproximou, deixando um beijo de leve na bochecha de e lançando um selinho em sua boca.
Entrelaçou seus dedos nos dela.
— Ainda é estranho te ver aqui sem tremer de medo.
Ela riu fraquinho.
— Eu tinha que superar, né, amor? — deu de ombros. — E a vista aqui é ótima. E não to falando das montanhas.
deixou os olhos caírem sobre ela. Ele tinha tanto orgulho de que não sabia mensurar.
— Adoro quando você vem. De verdade.
— E eu adoro te ver aqui. É o seu lugar, sabe? É bom fazer parte disso.
Eles ficaram em silêncio por alguns segundos, ainda ouvindo a animação ao redor.
sorriu, apertando a mão do namorado de leve.
— E, talvez… Quem sabe eu não subo naquele avião com você.
virou o rosto, como se tivesse ouvindo algo surreal demais para ser verdade.
Franziu o cenho logo depois.
— Isso é sério?
— Nunca falei tão sério na vida — sorriu.
Ele piscou mais algumas vezes, ainda tentando raciocinar e um sorriso imenso cresceu nos seus lábios. Não pensou duas vezes para puxá-la para si, a pegando no colo.
deu um gritinho e riu mais alto quando sentiu os pés saírem do chão.
! Me coloca no chão!
— Tem noção do que acabou de dizer? — girou a garota no colo, rindo junto. — , isso é… Isso é surreal! Eu tinha que ter filmado.
Ela gargalhou.
— Idiota! — bateu de leve em seu peito. Ele parou, mas ainda a segurava no colo. — Só falei que talvez eu suba. Não prometi que vou saltar!
— Não, não — colocou a garota no chão com cuidado, ainda com o sorriso bobo no rosto. — Agora já era. Falou, tá falado. Vou separar o melhor equipamento, te arrumar um instrutor incrível e—
levantou a mão, o interrompendo.
— Você. Se eu for mesmo, vai ser com você. Só com você.
Ele ainda a olhava e seu sorriso ia diminuindo aos poucos, ficando mais suave. Deu um passo para mais perto, até o rosto dos dois estarem quase colados.
— Tá bom. Eu topo qualquer coisa com você.
Notou os olhos de brilhando mais que o normal, como se um milhão de coisas estivessem passando por sua mente. E ele até podia imaginar, — o passado, o luto, a promessa que havia feito e o agora.
Viu tudo naquele olhar.
E, naquele instante, soube que não era só sobre voar.
— Vamos ver se eu consigo, né?
mordiscou os lábios.
— Você já conseguiu, meu amor. Só de estar aqui.

🪂

O barulho dos zíperes sendo fechados e dos tecidos dos equipamentos sendo ajustados era nítido e se misturava com algumas conversas no fundo junto do eco de alguns aviões decolando.
estava parada e seus olhos estavam presos no colete que um dos instrutores tinha colocado nela. Sua respiração parecia calma até demais, mas seu coração parecia querer sair pela boca.
Ela ia mesmo fazer aquilo?
estava do seu lado, colado na garota como se não fosse sair dali por nada no mundo. Tinha sua atenção em como se nada mais importasse para ele, a não ser ela. E o que iria fazer.
— Ainda pode desistir — mencionou. Sua voz era calma. — Ninguém vai pensar menos de você. Muito menos eu.
Ela ergueu o olhar para o namorado. Estava um pouco pálida, mas não iria voltar atrás.
— Eu sei. Mas eu não vou.
assentiu devagar e ajeitou a trava do colete, com uma delicadeza quase carinhosa.
— Tá muito apertado? — perguntou, passando os dedos pelo encaixe da alça, como se quisesse garantir que cada pedacinho estivesse no lugar certo.
— Não — sussurrou. — Tá bom. Acho que o problema sou eu mesma.
Ele deu um sorrisinho, encostando sua testa na dela por meio segundo.
— Você tá indo muito melhor do que imagina. Eu juro. Tô orgulhoso.
A garota fechou os olhos brevemente, sentindo o perfume que ela tanto amava em . Procurou se acalmar brevemente, só de estar ali com ele.
Quando abriu, ele ainda estava ali. Presente como sempre esteve. Desde quando mais precisou de em sua vida.
— Você vai estar comigo, né? O tempo todo?
— Até o fim, amor — apertou de leve a mão de . — Se você quiser parar a qualquer momento, é só me dizer. Mas se quiser voar mesmo, juro que vou fazer ser o mais leve possível.
engoliu em seco, sentindo a garganta fechar levemente, mas não de medo. Era outra coisa.
Emoção.
Emoção por estar encarando um de seus maiores medos. Emoção por, finalmente, cumprir a promessa que havia feito à Leo.
— Você sempre faz tudo parecer leve.
Ele sorriu um pouco mais, deixando seus olhos fechadinhos e beijou sua têmpora de leve.
Como amava aquilo.
— Então vamos voar, .
Ela sorriu. Sentia a adrenalina percorrendo cada cantinho do seu corpo e seus dedos pareciam formigar.
respirava fundo o tempo inteiro, repetindo para si mesma que daria tudo certo e que fosse conseguir.
Você consegue. É só mais um passo. Depois outro. E outro.
soltou sua mão por um segundo só pra ajudá-la a subir os degraus da escadinha. Notou que a aeronave não era tão grande, mas para ela que nunca havia pisado em uma, tudo parecia enorme demais.
Deu mais alguns passos e se sentou do lado de . Ele fez questão de conferir o encaixe dos cintos mais uma vez, das travas, o paraquedas. Tudo.
Fazia o possível para fazer tudo com o maior cuidado do mundo para que fosse uma experiência memorável para a namorada.
Não queria estragar.
— Tá tudo bem — sussurrou, só para que ela pudesse ouvir.
assentiu devagar. Só então ouviu os motores começando a fazer barulho junto com o sopro das turbinas, fazendo tudo tremer sob seus pés.
Ela podia simplesmente levantar e sair correndo como seu corpo pedia. Podia desistir da ideia e tentar outro dia. Mas algo dentro do seu peito fazia com que ela quisesse ficar.
Quisesse tentar.
E sabia que não era só por ela. Era por Leo também.
Foi o rosto dele que ela se lembrou quando olhou para a janelinha.
Quando o avião começou a decolar, conseguiu ver o céu clarinho e as árvores se distanciando. Olhou as nuvens se aproximando e imaginou seu irmão do seu lado, rindo do pânico de e falando alguma bobagem só para distraí-la.
Porque ele era assim.
Ela sentiu os olhos arderem e a garganta secando. Leo provavelmente se orgulharia dela.
observava as expressões de , ainda em silêncio. Queria que ela tivesse seu próprio tempo e sabia que a garota se abriria quando estivesse pronta.
Ela olhou novamente para a janela e segurou a perna do namorado com força, involuntariamente.
— Eu tô aqui — disse. Sua mão foi até a dela, apertando com força. — E ele também tá, . Em cada pedacinho do céu que você tá olhando.
Ela fechou os olhos brevemente, sorrindo de canto. Sentiu o coração apertar tão forte que uma lágrima caiu.
conseguia sentir.
— Queria tanto que ele pudesse ver isso. Como eu prometi.
encostou o rosto no dela, como se de alguma força aquilo pudesse demonstrar o quanto ele também queria que seu melhor amigo ainda estivesse ali.
— Ele tá vendo. Tenho certeza disso.
Ela respirou fundo, soltando o ar algumas vezes. E, mesmo presa naquele avião cheio e barulhento, de alguma forma, se sentiu mais leve do que antes. E era uma sensação que ao menos conseguia explicar.
Como se tudo estivesse acontecendo rápido demais e, ainda assim, no momento que deveria acontecer.
Um dos instrutores se aproximou e fez um sinal para , que assentiu em resposta.
Era o último sinal para o salto. Eles estavam prontos.
Ele ajeitou o próprio equipamento e depois ajustou — uma última vez —, o dela.
— Última chance de desistir — brincou, tentando aliviar a tensão que estava explícita em .
Ela riu fraquinho.
— Nem pensar.
balançou a cabeça, vendo a decisão estampada no rosto dela. A porta lateral do avião se abriu em um som alto e o vento veio como uma rajada, bagunçando os cabelos de .
Ela quase gargalhou.
Seus olhos já estavam cheios d’água antes mesmo de pular.
Sentia o mundo em seu peito. Emoção, medo, saudade. Coragem.
— Pronta?
O olhou e, pela primeira vez desde a partida de seu irmão, sentiu que poderia ser feliz. Que poderia seguir em frente.
— Pronta.
sorriu, mais orgulhoso do que tudo. A puxou para perto e deu um passo à frente.
E o corpo dos dois caía no ar.
sentiu o vento gritar nos seus ouvidos. Seu peito explodiu. O chão estava tão distante que sequer pensava em encontrá-lo outra vez.
Eles estavam voando.
Ela estava voando.
Foi aí que gritou. Gritou tanto que não percebeu que o choro se misturava com sua voz sendo ecoada pelas nuvens. Seus braços estavam abertos, sentindo a força da queda, o vento enluvando seu rosto, o céu se abrindo ao redor.
A risada de veio logo depois e ela gritou de volta.
Leo estaria rindo também. Ela sabia.
a puxou um pouco mais para perto. Perto o suficiente para que dissesse algo que ela entenderia.
— Ele estaria tão orgulhoso de você, . Tão, tão orgulhoso — era a sua voz que agora estava embargada. — E você não faz ideia de como eu também tô.
As lágrimas no rosto da garota escorriam ainda mais do que antes, sendo levadas pelo vento. Ainda que a saudade de seu irmão fosse imensurável, sentia o peito ficando leve e calmo.
Era como se, naquele momento, algo a envolvesse como um abraço.
Fechou os olhos por alguns segundos e jurou ter sentido o abraço do próprio Leo. E, céus, como queria que realmente fosse ele lhe abraçando.
Quase o escutou sussurrar algo que ele falaria em uma situação como aquela, se estivesse ali.
“Sabia que você ia conseguir, cabeçuda”.
Ela riu fraquinho, limpando o rosto úmido.
— Eu te amo, Leo.
Disse, fechando os olhos enquanto continuava a cair.
Sorriu abertamente, para si mesma.
Pela primeira vez depois de muito tempo.

se jogou com na grama próxima à pista de pouso, enquanto o céu começava a ficar alaranjado e azulado pelo entardecer, e os paraquedas estavam jogados no chão um pouco mais à frente.
Ela ainda estava sem fôlego.
deixou o corpo cair, soltando um suspiro satisfeito. Seus cabelos estavam bagunçados pelo capacete e pelo vento, sua camiseta estava um pouco amarrotada. Ele virou o rosto e sorriu.
— Você voou, . De verdade. Tipo… Caramba!
— Eu sei! — ela gargalhou. Sua voz saía embargada pela emoção e nervosismo. — Eu tô meio em choque ainda, pra falar a verdade.
— Valeu a pena?
respirou fundo, olhando para o céu mais uma vez. Ela guardaria aquele momento na memória pelo resto da vida.
— Foi a coisa mais assustadora e maravilhosa que eu já fiz.
Ele se apoiou em um dos cotovelos, observando o rosto da namorada sem qualquer pressa. Observou as bochechas rosadas, a respiração acelerada.
Ela ainda tinha os olhos presos no céu.
a amava muito.
Sorriu de lado, ajeitando uma mecha solta do cabelo dela.
— Você fez isso por ele… Mas também fez por você.
virou o rosto devagar e quando seus olhos encontraram os dele, sentiu os pensamentos embaralhados em sua mente se silenciarem.
— E eu tô muito orgulhoso de você — continuou, ainda a olhando. — Por ter tido coragem. Por ter enfrentado tudo, até quando parecia impossível.
Ela mordiscou os lábios, tentando conter o choro que logo viria à tona outra vez. Mas uma lágrima escorreu ainda assim.
Só que não era triste ou saudade. Não.
Daquela vez, era felicidade.
— Isso tudo ainda parece meio surreal — comentou, virando o rosto para ele. — Com que a gente parou aqui?
E soltou uma risadinha. Ele sorriu também.
— Acho que foi um pouco de caos, um pouco de teimosia sua e muito amor — brincou, a vendo fazer uma careta.
Ele acariciou seu rosto.
o olhou por alguns segundos, tentando memorizar tudo o que acontecia, assim como o jeito que a olhava, o som da sua risada, o calor da sua mão sobre a dela.
Ela o amava.
— E agora? — perguntou, se aproximando um pouquinho mais dele. — O que a gente faz depois de pular de um avião?
fingiu estar pensativo e passou um dos braços pelos ombros dela.
— Não sei, talvez… Escalar o Everest? Nadar com tubarões? Criar galinhas em uma casinha no interior da cidade? — tentou continuar sério.
Isso só arrancou uma gargalhada sincera da garota.
— Criar galinhas?!
— E porque não? — deu de ombros. — Desde que seja com você, qualquer aventura vale. Mesmo que seja só ficar em casa em um domingo fazendo panquecas.
Ela riu de novo, baixinho. Respirou fundo logo depois.
— Obrigada por estar aqui comigo. Mesmo depois de tudo — disse, sincera.
— Ei — se inclinou, tocando o queixo de com delicadeza. — Não tô aqui apesar de tudo. Tô aqui por causa de tudo.
Ela ficou em silêncio, só sentindo o toque morno e macio das mãos de contra sua pele. encostou sua testa na dela, com os olhos ainda fechados.
— Acho que o Leo aprovaria as galinhas — murmurou, rindo baixinho contra a pele de .
— Ele ia querer dar nome pra todas — riu junto. — E te zoar porque você ia se apegar a uma delas.
— Lógico que ia — ela respondeu, abrindo os olhos e sorrindo de verdade. — Eu sou toda coração, esqueceu?
riu fraquinho, balançando a cabeça.
— E eu amo isso em você.
Se aproximou um pouquinho mais e a beijou, como se o mundo ao redor deles não existisse.
E sentia que, pela primeira vez depois de meses de luto, seu peito estava mais leve.
Ainda tinha saudade, claro.
Sempre teria.
Mas agora, ela conseguia enxergar seu futuro com clareza.
E, para sua sorte, ele tinha o sorriso de .

O som do vento batendo nas lonas era alto, assim como as vozes empolgadas ecoavam ao redor. Kate caminhava com dois capacetes nos braços, os cabelos presos em um rabo de cavalo alto, o rosto corado e um sorriso genuíno nos lábios.
Ela estava na base de voo e, desde então, havia passado seus dias ajudando Noah ali, em seu trabalho.
Kate se sentia parte daquilo tudo agora. Do vento alvoroçado bagunçando seus cabelos, dos gritos nervosos antes dos saltos, dos abraços depois que as pessoas voltavam para o chão, sem acreditar.
Era algo totalmente diferente do que havia imaginado fazer um dia na vida. Mas precisava confessar que amava.
Noah surgiu um pouco mais à frente, conversando com dois iniciantes que riam enquanto ajeitavam seus equipamentos. Quando a viu, ergueu a mão em um aceno leve que aqueceu seu coração.
Ele se aproximou.
— Duas novatas prontas para voar — avisou, entregando os capacetes. — E a da esquerda quase surtou só de ouvir a palavra “avião”.
— Isso me lembra alguém — provocou, arqueando uma das sobrancelhas.
— Ei! — bateu de leve no braço do namorado, rindo junto dele. — Eu fui corajosa.
— Você foi gigante, meu amor. E ainda é. Todos os dias.
Noah se aproximou, dando um beijinho nos lábios dela. O coração de Kate esquentou. Ele sabia exatamente o que dizer para deixá-la daquele jeito.
Meu amor.
Aquilo ainda lhe dava borboletas no estômago.
— Sabe que só virei essa louca por aventuras porque tinha você comigo, né? — ajeitou um dos capacetes no suporte. Ele ainda a olhava. — Se não fosse você, muito provavelmente ainda estaria no sofá comendo cereal direto da caixa.
— E eu estaria perdido sem você — disse, sério. Sua voz era baixa e sincera. — Você trouxe vida pra esse lugar, Kate. Trouxe vida pra mim.
Ela mordeu o lábio tentando conter o sorrisinho bobo, mas falhou segundos depois.
— Que piegas — brincou, puxando a camisa dele para dar um beijo rápido. — Mas bonitinho.
— Não ligo de ser piegas por você.
Ela riu fraquinho, balançando a cabeça. Noah não existia.
Ouviram um grito animado e se viraram a tempo de ver um dos instrutores perto da área de decolagem.
— Ei, casal! E aí? Tô esperando as instruções aqui!
Kate o olhou, reconhecendo a garota do seu lado, a novata que ela havia ajudado a se equipar mais cedo.
Ela deu um tchauzinho rápido e voltou a olhar para Noah.
— Bom, preciso salvar mais uma alma prestes a entrar em pânico — disse, pegando um dos coletes de segurança.
Sorriu logo depois.
— Vai lá, minha heroína.
Noah deu uma piscadela, antes de Kate sair correndo até seu novo trabalho.
Era isso.
Kate não só sobreviveu a dor.
Ela voou por cima dela.



FIM.


Nota da autora: Skybound ganhou meu coração do começo ao fim principalmente por tratar de um tema tão sensivel como esse. Espero que essa fic também ganhe o seu <3


Se você encontrou algum erro de revisão ou codificação, entre em contato por aqui.



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