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Autora Independente do Cosmos 𓂃🖊
Finalizada em: junho.25

Existe uma cidade no interior da Inglaterra chamada Newbury, a uma hora de trem de Londres.
Um lugar onde o silêncio era quebrado por risos tímidos de crianças e o farfalhar das folhas dançando com o vento. Depois de passar pela biblioteca municipal e a escola de ensino médio, as luzes dos postes começavam a se tornar um luxo escasso. A rua de asfalto cedia lugar a um caminho de pedregulhos, traiçoeiro para qualquer criança desatenta que se aventurasse a correr com a imaginação ocupada em brincar de guerra — ou algo que para elas parecia guerra.
Essa trilha se desenrolava até encontrar o perímetro de cercas brancas, demarcando The Nightingales. Era em Nightingales, povoada por conjuntos habitacionais e prédios decadentes, com problemas de esgoto e violência totalmente negligenciados, onde morava .
Ela não chamava aquele prédio de tijolos desbotados de lar. Não depois de Dublin. Dublin era papel de parede amarelo desbotado pelo sol, era um carpete marrom desgastado onde ela e a mãe passavam tardes inteiras espalhadas pelo chão. Dublin era o quintal com a macieira que se erguia orgulhosa, guardando memórias em cada galho. Sete horas e um oceano a separavam daquele lugar que o fogo consumiu em um piscar de olhos, aceso pela ganância de seu pai. Na última olhada pelo retrovisor da picape, a casa já não era uma casa. Era uma pilha de cinzas, e a macieira, um esqueleto carbonizado. fechou os olhos e sussurrou uma despedida muda, prometendo a si mesma que as lágrimas viriam, mas não naquele momento. Não importava o que sua mãe dissesse, ela choraria — merecia isso.
Agora, ela não trazia nada daquela vida. Nunca houve dinheiro suficiente, um motivo constante para as bebedeiras e as decisões precipitadas do pai. Penhoraram algumas joias da falecida avó para pagarem o aluguel do pequeno apartamento de dois quartos, a mãe conseguira um emprego fazendo faxina em uma grande corporação e estava prestes a começar o ano letivo em uma nova escola.
Essa era, de longe, a parte mais difícil.
Mas perder a casa não foi o pior. A pior parte foi quando a verdade do incêndio e o sumiço do pai vieram à tona. De um dia para o outro, a vida virou pó e se viu ao lado da mãe, empacotando o que restava de sua infância, pegando o primeiro trem e se mudando não apenas de casa, mas também de cidade, de país. Nem tempo para despedidas houve. Seus amigos — poucos, mas verdadeiros — não viram cavoucando os escombros, nem a corrida para a estação antes que o sol despontasse no horizonte. Eles não poderiam saber. Ninguém poderia.
Por isso, fazer amigos definitivamente não era uma prioridade. Tudo o que ela queria era sobreviver ao último ano do ensino médio, arrumar um emprego que pagasse o suficiente para garantir três refeições por dia e guardar o que sobrasse para a faculdade de Medicina. Qualquer coisa além disso era irrelevante e descartável.
Mas ela não fazia ideia.
Naquela época, com a cabeça enterrada nos próprios planos, nunca poderia imaginar.
E mesmo agora, dez anos depois, ainda não conseguia entender como certos fantasmas jamais nos abandonavam completamente.

Newbury
Condado de Berkshire
Inglaterra
1985


O calor parecia sufocar antes mesmo de ela descer do ônibus. O outono se recusava a se instalar, e o sol insistente transformava o veículo lotado em uma sauna ambulante. Ombro a ombro com um operário que ouvia metal pesado tão alto nos headphones que ela conseguia sentir o baixo vibrando, tentava se equilibrar enquanto uma senhora atrás dela folheava uma revista com uma tranquilidade admirável, apesar do caos. Ela suspirou, perguntando-se se acordar mais cedo e caminhar até a escola seria realmente tão ruim assim.
Quando o ônibus finalmente parou em frente à Newbury High School, desceu devagar, observando o prédio à sua frente. Uma estrutura velha, de concreto, com poucas janelas e uma aura pesada que a fez pensar imediatamente em uma prisão. Alcatraz, para ser exata. A comparação a fez rir, um som breve que desapareceu tão rápido quanto surgiu.
Ela ajeitou a saia do uniforme — um modelo de segunda mão que sua mãe costurara na última semana — e começou a caminhar. A camisa branca de botões estava desbotada pelo tempo, e uma linha de costura amarela cortava a lateral da saia azul, um detalhe que parecia gritar sua origem humilde para qualquer um que olhasse. tentou não se importar. Ninguém parecia notar, ou pelo menos ninguém se importava o suficiente para encará-la por mais de dois segundos. Ela respirou fundo e continuou até a entrada, observando os colegas passarem por ela, cumprimentando amigos e rindo de algo que , sem conhecer ninguém, não tinha acesso.
Então, o som chegou: uma pequena corrida misturada com balbúrdia acontecia logo atrás dos portões. Uma confusão de bikes e gritos encheram o cruzamento desde a rua Essex, onde quem passava apressado para o trabalho seria capaz de reconhecer claramente a cena: Belfort, o filho único de Henry e Emilie Belfort, montado em cima de sua Monark, apostando algum tipo de racha imaginário com os amigos logo atrás, que pedalavam como loucos enquanto tentavam alcançar o líder do grupo.
Podia-se dizer que aquela era a tradição mais antiga do garoto de ouro de Newbury. E, naquela manhã, era ainda mais especial, e nostálgica até. Era a última vez que ele pedalava contra o vento, com os amigos, voando para o primeiro dia de aula depois das férias, antes da faculdade. Era a última vez que poderia ser jovem e inconsequente antes da vida adulta, provavelmente em Londres, provavelmente na Alemanha, ele ainda não sabia. Só sabia que queria estar presente e fazer parte do momento em total perspectiva, alcançando seu próprio nirvana.
Ele ultrapassou os portões e entrou pela passarela, ouvindo os amigos praguejar alto atrás dele. As pessoas à frente — as mesmas de sempre, ele bufou — saíam do caminho imediatamente, conscientes da tradição, eufóricos até por ver mais uma vez — uma última vez — o garoto Belfort alcançar a linha de chegada, mais conhecida como as escadas de pedra ao pé da porta dupla.
também não fazia ideia.
A primeira surpresa daquela manhã foi ver Oskar, que secretamente havia se preparado para aquele momento durante todo o verão, colocar toda a força disponível em suas pernas e pedalar para dentro do jardim, ultrapassando todos os outros amigos e ficar pareado com . Aquilo deixou o garoto em êxtase, e mais eufórico ainda em ver a expressão confusa e horrorizada de . Aquela era a sua última chance de vencer o amigo na típica corrida do primeiro dia de aula.
Ele fez uma curva arriscada, quase deslizando enquanto desviava para o campo aberto ao lado do prédio. O espaço era pequeno, delimitado por linhas brancas desbotadas usadas para as atividades esportivas da escola. soltou um palavrão, irritado. Estava tão focado no fato de ter sido ultrapassado que nem se atentou ao plano pré definido de Oskar.
Oskar, sem aviso, girou a bike com um movimento abrupto, mudando de direção. Ele acelerou novamente, desta vez em direção às escadas, como se cada pedalada fosse calculada. arregalou os olhos. Agora, pela primeira vez, alguém estava realmente à frente dele. Ele apertou os pedais com mais força, ignorando tudo ao seu redor. Seu foco era claro: alcançar Oskar. Ou, melhor, ultrapassá-lo.
Mas, de repente, o amigo desapareceu de vista. Ele havia dobrado para algum outro lado, sumindo como uma sombra que desliza para longe. Uma estratégia nova, talvez. não teve tempo de processar. Não teve nem tempo de reagir.
O impacto foi brutal.
O mundo pareceu estilhaçar quando ele voou da bike. A bicicleta foi parar a metros de distância, enquanto o corpo dele colidiu com algo — ou alguém. O chão de pedra quebrou sua queda, com um golpe direto na base das escadas. Um calor úmido começou a escorrer pela testa. Sangue. A visão dele girou como um carrossel descontrolado.
Uma sombra bloqueou o sol. Vozes surgiram, abafadas e confusas. Quando finalmente abriu os olhos, tudo ao redor parecia em câmera lenta. Pessoas se aproximavam enquanto ele rangia os dentes e tentava se levantar, vasculhando ao redor em busca de sua bike e Oskar, principalmente Oskar, o filho da puta Oskar Neeson!
Mas, em vez disso, viu uma garota caída ao seu lado, com os cabelos espalhados em leque no concreto. Seus cotovelos e joelhos exibiam cortes profundos, brilhando em vermelho vivo. Um pequeno corte decorava a bochecha direita. Foi então que ele entendeu.
— Merda! — murmurou, a voz saindo fraca enquanto ele se abaixava. — Ei, você tá bem? Consegue se mexer?
A garota abriu os olhos, mas parecia olhar através dele, como se ainda estivesse presa na confusão do impacto. Seus joelhos tremiam enquanto ela tentava levantar. O rosto de flutuava na visão dela, duplicando sua imagem até finalmente se estabilizar.
— Cara, você viu… Merda! — a voz de Oskar se perdeu ao perceber o que tinha acontecido. Ele viu segurando a garota pelos braços, ajudando-a a se equilibrar.
Só então, percebeu algo um tanto curioso, talvez algo com zero urgência para ser percebido naquele momento: Garota desconhecida.
— Você tá bem? — ele repetiu, a voz agora mais baixa. Seus olhos varreram o rosto dela, procurando algum sinal de reconhecimento. Alguma memória. Talvez ela fosse nas missas de domingo, no parque Blossom Field, na biblioteca municipal (mesmo que só tivesse estado lá duas vezes)? Nada. Era como se ela tivesse surgido do nada.
— Cara, você caiu feio! — Vito apareceu, ofegante, junto com Oskar e Forrest. A multidão que havia se formado começou a se dispersar com o som estridente do sinal. olhou para os próprios pés, depois para a garota. Ela parecia tão confusa quanto ele. O inspetor da escola apareceu logo depois, mandando os curiosos seguirem em frente.
— Eu estou bem. — ela disse finalmente, embora sua voz soasse mais como um sussurro. Sua cabeça balançou devagar, como se quisesse convencer a si mesma disso. — Minha mochila… — seus olhos começaram a vasculhar o chão ao redor, desfocados.
percebeu o olhar dela e se adiantou, seguindo na direção onde um leve contraste de preto e branco chamava sua atenção no início do jardim. A mochila. Pegou-a antes que mais alguém o fizesse, enquanto as pessoas caminhavam para dentro do prédio, ainda curiosas, mas os gritos de Michael Pacino não faziam a cena valer a pena.
Quando voltou, estendeu a mochila para ela. Os olhos dele a estudaram, parando por um instante em um pequeno rasgo na meia dela, perto do joelho. O machucado ali era visível.
— Meu nome é . — ele disse, sua voz baixa, mas acolhedora. Havia algo em seu tom que parecia convidar a confiança. Atrás dele, seus amigos trocaram olhares confusos, mas ele não se importou. — Você é nova aqui?
Ela assentiu, ajustando a mochila nos ombros com um gesto automático.
— Me desculpa. Sério mesmo. Foi culpa minha. Você precisa ir pra enfermaria. Qual é o seu-
— E você tá legal? — ela interrompeu, a voz tão firme quanto gentil. Os olhos deles se encontraram e, por um momento, não soube o que dizer. Apenas assentiu. Mas aquele olhar… ele sabia que nunca esqueceria. Aqueles olhos ficariam com ele naquela noite, quando deitasse a cabeça no travesseiro. E, provavelmente, em muitas outras noites pelos próximos anos.
— Mas o que vocês ainda estão fazendo aqui? — a voz do senhor Pacino cortou o momento como uma lâmina. Sua figura pequena, mas barulhenta, surgiu no topo da escada. Ele desceu apressado, bufando, e parou diante deles com os olhos arregalados. — O que foi que aconteceu com você, minha jovem?!
hesitou, mas antes que pudesse responder, Oskar tentou intervir:
— Senhor Pacino, foi só que-
— Foi só que nada! — Pacino explodiu, ignorando o garoto e deixando os olhos percorrerem o local. Ele notou a bicicleta caída a poucos metros de distância, com as rodas ainda girando devagar. Isso foi suficiente para fazer suas peças se encaixarem. — Eu sabia! Sabia que essas malditas bikes ainda iam causar problemas! Tentei avisar o diretor no ano passado, mas ele não me ouviu. Disse que confiava no garoto Belfort! E olha só no que deu!
A cada palavra, Pacino parecia mais indignado. Seus dentes rangiam tanto que era quase possível ouvi-los, e a veia pulsante em sua têmpora deixou um pouco assustada.
— Você é a Bracco, certo? A aluna nova?
Ela concordou com um aceno rápido, sem dizer nada.
— Venha, vou levá-la à enfermaria. Isso não está nada bonito… — e, então, ele se virou para , apontando o dedo com uma fúria que parecia maior do que sua própria estatura. — E você! Para a sala do senhor Del Rey. Agora! Desta vez nem seus pais vão poder fazer nada por você, garoto. Deliquentes…
Antes que pudesse dizer algo, Pacino colocou a mão nas costas de e começou a conduzi-la escada acima. Ela olhou para trás uma última vez, com os olhos ligeiramente carregados de algo entre curiosidade e melancolia. prendeu o olhar nela até que ela desaparecesse pela porta.
— A gente tá ferrado! — Forrest bufou, chutando o asfalto com força. O som ecoou como metal contra pedra. — Só você vai sair dessa ileso, . Como sempre…
não respondeu. Seu olhar ainda estava na escada. Na curva onde ela havia sumido.
— Mas quem era aquela garota? Ela estava no meio do caminho, ninguém fica no meio do caminho…
— Vocês deixaram o aparelho auditivo em casa? Não ouviram que ela é nova? — retrucou com um suspiro exagerado, já começando a observar os estragos.
Ele arrastou o olhar para sua bike, que agora descansava contra o chão com os pneus imóveis. A pintura arranhada na lateral parecia um pedido de socorro, um reflexo perfeito do caos que ele havia causado com sua entrada desastrosa na Newbury High School.
Quando deu um passo à frente, algo sob sua sola emitiu um leve som abafado. Ele parou, curvando-se para pegar um pequeno chaveiro enferrujado. A imagem de um castelo desgastado, provavelmente o de Dublin, quase sumia de tão surrada quanto a pintura de sua Monark.
Por um momento, ele apenas encarou o objeto em sua mão. Era estranho, mas algo dentro dele — uma espécie de voz calma e convicta — sussurrou que aquele chaveiro tinha dona. Uma pessoa nova, com feições interessantes e olhos que pareciam carregados de histórias.
— Bom, pelo menos você ganhou, . — Vito riu, dando-lhe um tapinha nas costas enquanto os outros começavam a subir as escadas em direção ao prédio. — O esforço do querido Neeson aqui acabou sendo em vão, mas quem sabe ele possa vencer com as motos.
— Ei, eu vi a garota primeiro e dei logo um jeito de evitar o tipo de merda que deu…
— Vai continuar chorando? Mesmo? Oh, Oskarzinho…
Os rapazes riram e caçoaram da quase vitória de Oskar enquanto subiam lentamente as escadas, indo de encontro ao primeiro dia do último ano. guardou o chaveiro no bolso enquanto levantava a bike acidentada, prendendo-a junto de suas semelhantes próximo a cerca na lateral do prédio e apressando-se em se juntar aos outros.

Newbury
Condado de Berkshire
Inglaterra
1995


Katherine acordou primeiro.
Não apenas pela luz do sol, que entrou violenta e escaldante naquela manhã de verão. Era por causa dos pássaros, a umidade do campo, o cheiro de verde em todo lugar. Era silencioso demais, calmo demais, demais para uma garota urbana da cidade grande.
Ela se espreguiçou lentamente e olhou para o homem ainda dormindo ao seu lado, com um desejo matutino que era recorrente, e não apenas matutino, ela o desejava a toda hora, de uma forma insana, ela sabia, e devia estar mesmo apaixonada para ter se deslocado do centro londrino para uma bela casa no condado de Berkshire, ela sabia.
Livrou-se das cobertas, deixando o corpo nu sentir o frescor da janela aberta e virou-se para ele, beijando-o em toda a parte do rosto, enquanto suas mãos desciam pelo abdome.
Ele grunhiu, acordando com a sensação de tesão lá embaixo, rindo de forma tonta.
— Katherine… — disse de forma reprovatória, ainda sem abrir os olhos. — Você é insaciável, garota.
— Só quero um bom dia decente… — ela desceu os beijos para o pescoço, em seguida até o peito, caminhando para enfim chegar até o…
Uma batida dupla e forte na porta fez com que a garota voltasse a se cobrir, e obrigou o cara de cabelo revolto a acordar e se sentar de vez.
?
Ele revirou os olhos, xingando baixo, e começou a garimpar suas roupas.
— Já vou, mãe! — respondeu, com a voz sonolenta que não era bem fingida e, com um sinal incoerente de mãos e sussurros inaudíveis, começou a apontar a janela para a garota, que agora se vestia com rapidez.
— O que há com você? O café já está na mesa. — a voz do outro lado da porta soou de novo, enquanto encaminhava a garota ligeiramente para o beiral da janela, da onde ela havia surgido na noite passada, sem nenhum aviso prévio.
Ela passou as pernas para fora e virou-se para ele:
— Quando você volta pra Londres?
— Amanhã, como eu te disse na semana passada, agora você precisa ir. — ele trincou os dentes ao ouvir mais uma batida. Katherine sorriu obediente enquanto lhe dava mais um beijo, desaparecendo pelo telhado largo e depois pelo gramado do quintal, seja lá como havia feito isso na noite passada.
Ao abrir a porta, Emilie Belfort já estava de braços torcidos, batendo o pé direito no piso, impaciente.
— Bom dia, mã-
— Minha nossa, o que aconteceu pra você dormir tanto? Eu sabia que Londres te faria dormir menos e trabalhar demais. — ela bufou, passando um dos braços pelo cotovelo do filho, guiando-o pelo corredor até a escada.
— Londres não tem culpa de nada, mas não ando muito fã do sono ultimamente. Justamente por isso que eu apago do planeta quando venho te visitar, senhora Belfort. Não é bom que aqui seja um lugar de paz e sossego pro seu filho não morrer de exaustão?
— Ora essa, claro que é. Mas não dá essa desculpa das visitas, elas foram minha condição pra permitir sua loucura de ir morar longe de mim. O que ainda continua sendo, se quer saber minha opinião…
revirou brevemente os olhos enquanto os dois chegavam à mesa farta do café da manhã. Ocupou-se logo em dar bom dia para todos os empregados e para o próprio pai, já sentado na cadeira de couro marrom lendo o jornal da manhã, uma imagem característica que, apesar de simplória, contava toda a infância e adolescência do rapaz. Era literalmente o sentimento de estar em casa.
— Marquei uma hora com o senhor Garcia pra você essa tarde. — Emilie murmurou no meio de uma garfada no bolo de banana, o preferido de .
continuou comendo de forma tranquila, olhando para a mãe com uma dúvida aguda no ar, como se estivesse perguntando se era com ele mesmo o diálogo. Ela levantou uma sobrancelha e ele olhou para o pai, com certo desespero. Henry baixou o jornal até a altura do queixo e sussurrou “Vincent Garcia. Alfaiate” e voltou-o para cima, sem tirar os olhos da seção de esportes.
— Ah! Claro! O senhor Garcia. — sorriu de forma encabulada. — E por quê isso mesmo?
— Oras, o jantar que teremos esta noite da campanha eleitoral do prefeito e da primeira-dama. Você sabe que somos os maiores apoiadores, não sabe? Mas esse não é o principal, sei como você odeia conversas políticas desse ramo. — ela suspirou, remexendo na aliança cara e brilhante no anelar. — Não sei se sabe, mas Jenny Wright, a filha deles, está de volta dos Estados Unidos, parece que foi fazer mestrado em Direito Penal. Vocês estudaram juntos, não é?
rolou os olhos, sem disfarçar dessa vez. Claro que era aquilo.
— E como bem sei que você se recusa a usar qualquer outra coisa que não seja uma variação de casacos de couro e botas de gangue, tomei a liberdade de marcar uma hora com o senhor Garcia.
olhou para o pai, que permaneceu imóvel no mesmo lugar, apesar de que agora seus olhos pareciam estáticos, apenas ouvindo a conversa, sem demonstrar qualquer interesse em ajudá-lo. Bem, se tratando daquele assunto, faltava-lhe a coragem de ir contra a esposa.
— Mãe, nós já conversamos sobre isso…
— Eu sei que sim, e permaneço com a minha opinião: você precisa se casar. E se não está disposto a dar o primeiro passo, eu o dou por você. E que mal vai fazer uma simples conversa com uma garota que nem podemos rotulá-la de desconhecida? Afinal, vocês não foram namorados, ou coisa do tipo?
— Não foi bem assim que as coisas aconteceram. A gente namorou no primeiro ano, terminamos já no segundo, e depois teve a-
cortou a fala, como se uma mão invisível surgisse de algum ponto cego e engolfasse sua garganta, gritando para ele que não, aquele assunto não, aquela lembrança não, não, não e não.
A reação de seus pais foi breve, mas a mesma, tão intensa que pesou o ar como um anúncio de doença terminal. Sua mãe o encarou com o olhar duro, o rosto feito de pedra, a única coisa que a fazia humana sendo a veia dilatada na têmpora. Seus dedos apertaram levemente a faca com que passava a geleia no pão. Até seu pai, antes absorto no jornal, porém com as orelhas empinadas para a conversa, baixou o papel fosco até o nariz para olhar o filho.
Nem sabia como havia chegado àquele assunto, aquele ponto que sempre era doloroso, proibido, não só por causa de seus pais, mas pela ferida mal cicatrizada que ele era capaz de esquecer na maior parte do tempo, ou simplesmente prendê-la em algum calabouço do inconsciente por anos, mas ela continuava ali, insistente, inflamando, liberando toxinas por todo o seu organismo.
Ele pigarreou, tomando um gole do café.
— Mãe, escuta, eu sei que você me ama e quer o meu bem, mas eu também mantenho minha opinião: eu não quero me casar. Nem hoje, nem nunca. Também não quero uma namorada e nada do gênero, eu tenho meu trabalho, meus projetos e aquele cacto do verão passado. Você não precisa se preocupar comigo.
— Acha que isso é piada, ? Não me preocupo com a sua rede de oficinas ganhando mais e mais filiais, muito menos com seus projetos com a Hyundai ou seja lá quais outras empresas andam te contatando pelo mundo afora, com sua casa enorme, nem o quanto você declarou no imposto de renda no ano passado. Eu me preocupo com o seu futuro familiar, em você ter alguém pra te esperar em casa sem ser mais uma vadia que você encontrou em um pub qualquer, alguém que vá te dar filhos, os meus netos, que você vá-
— Mãe, não faz isso…
— … educá-los como eu sempre te ensinei, e eu tenho certeza que você será um ótimo pai, assim como todos nós sempre soubemos, , meu filho. Você sempre foi um garoto doce, gentil, compreensivo, inteligente, sempre teve muitos amigos, como nunca se apaixonou, nem quis se casar…
— Eu já quis me casar! A senhora não se lembra? — o tom de voz de subiu mais do que gostaria ao soltar a xícara no pires. Um pouco do líquido escorreu pela borda.
O ar pesado voltou novamente, mas desta vez os olhos do rapaz permaneceram firmes nos da mãe, que esboçou uma careta de confusão, mas logo entendeu no que tinha tropeçado. Ah, como entendeu.
, não se atreva…
— Tenho que ir. — ele arrastou a cadeira para trás, indo em direção às escadas.
, volte já pra mesa! — a voz de seu pai soou autoritária pela primeira vez naquela manhã.
O rapaz ignorou os pais, subindo o lance de escadas com os pés pesados, apressando-se em arrumar suas poucas coisas de três dias de estadia. Ele riu com a ironia da situação: assim como em todas as outras visitas, mês após mês, ele ainda esperava que o assunto casamento não viesse à tona, ainda esperava que sua mãe o entendesse.
Contudo, daquela vez, o velho espectro de dez anos atrás deu às caras, transformando toda a aerosfera do planeta, o passado criando seu próprio cerco de fogo na mente dele e em todos os presentes.
O maldito passado. As malditas memórias. De repente, ali, se sentiu como um menino de novo, aquele menino do outono de 1985, onde tanto ele quanto a novata encararam a terrível e incrível experiência de pertencer a outra pessoa.

Newbury
Condado de Berkshire
Inglaterra
1985


Levou pelo menos uma semana inteira até que conseguisse falar com a garota nova outra vez.
Não porque ela havia virado fumaça e desaparecido da escola, como ele pensou que aconteceria (principalmente com todas as piadinhas e cochichos pelos corredores sobre a novidade. E a novidade que era Bracco não parecia ser o que as pessoas imaginavam – nem o que elas queriam), mas porque não conseguia saber absolutamente nada sobre ela além dos burburinhos de terceiros sobre suas roupas e, principalmente, sobre Nightingales. Em pouco tempo, esse foi o estigma concedido à ela depois do professor Norton apresentá-la no meio da segunda aula como a mais nova aluna da mesma classe que a dele. As roupas sujas e amassadas e os curativos no joelho não foram lá uma boa primeira impressão.
nunca acreditou em Deus ou nos astros, mas, pensando nisso dez anos depois, passou a levar em conta a manipulação de uma grande força superior nos empecilhos que surgiam sempre que tentava falar com , seja a interferência dos amigos, do professor, da multidão que se aglomerava na saída e até dela mesma, que concentrava o olhar no guardanapo e no prato de comida inópio no refeitório barulhento, se fechando no próprio mundo em que não dava a mínima para o estava sendo dito ao redor; esses eram os sinais que vinham de toda a parte, impedindo-o de entregar um mísero chaveiro.
Em contrapartida, realmente havia dado falta do último presente de seu pai, aquele chaveiro velho e barato com a imagem do castelo de Dublin, seu lugar favorito na cidade. Até tentou procurá-lo por um ou dois dias na base da escadaria, mas se deu por vencida pelas adversidades contínuas da cidade nova, e convenceu-se de que aquela agora era sua vida e Dublin deveria ficar para trás — ela sim acreditava em sinais.
Mas nenhum desses índices lhe parecia promissor. Pelo menos não até a terceira semana, quando passou os olhos pelo mural de avisos da escola e, entre os vários cartazes de eventos da cidade e chamadas da feira de ciências, um papel tímido e desinteressante brilhou para ela como uma luz no fim do túnel: uma oportunidade de emprego de meio período no velho cinema do condado, o Beirute.
A remuneração era uma mixaria, mas conseguiu convencer o velho italiano, Claus Irons, de deixá-la fazer hora extra pelo menos nos fins de semana para que aumentasse mais um dígito por hora no acordo. Desde então, ouvir o sinal da última aula se tornou uma correria para juntar suas coisas e sair portão afora para a longa caminhada em direção à rodovia Hampton, do outro lado de Nightingales, bem distante do centro.
Naquela primeira sexta-feira, o senhor Irons insistiu que Rebel Without a Cause seria uma ótima pedida para as sessões da tarde daquele fim de semana, e que sempre tinha um ou outro cidadão (principalmente os mais velhos) que se habituaram a bater ponto nas tardes de sexta e sábado do Beirute para assistir os filmes de sua juventude.
Portanto, quando o último sinal indicou o fim de mais um dia letivo naquela sexta, apertou o passo para fora, amarrando o cabelo em um rabo de cavalo torto, sentindo as costas quentes pelo calor. Estava apressada para chegar cedo em sua primeira sexta, suas primeiras horas extras, a quantia significativa que sairia daquelas sessões, quem sabe até desse para fazer um bolo para sua mãe, ou meias ¾ novas…
?
Ela não se virou imediatamente, porque com certeza existia mais uma naquela escola, até duas, quem sabe, e ninguém ali a conhecia, nem pareciam querer, não que ela se importasse, mas definitivamente não estavam chamando por ela.
— Ei, Bracco! Merda, por que deixei a bike em casa?...
Ela girou o corpo para trás, vendo o garoto se aproximar dela agora correndo. Ela já havia ultrapassado os portões, andando rente ao meio-fio, chegando perto do cruzamento movimentado, onde já havia arriscado a vida sob duas rodas mais vezes do que pudesse contar.
Ele parou na frente dela, levando as mãos ao peito e arfando em uma cena teatral de um belo ataque cardíaco.
— Caramba, você é alguma vencedora anônima da Maratona de Londres? Já tentou fazer teste pro clube de atletismo? Eles não sabem o que estão perdendo. — ele riu, mas continuou parada no mesmo lugar, confusa pelo chamado repentino. O rosto do garoto foi reconhecido na mesma hora que se virou, e aqueles olhos, principalmente aqueles olhos...
Ele limpou a garganta, baixando o queixo e diminuindo o sorriso aos poucos ao ver que sua abordagem ao cumprimentá-la não tinha sido tão satisfatória assim.
— Não sei se você se lembra de mim, meu nome é...
. — ela completou, deixando o garoto surpreso por alguns segundos.
— Ah, você se lembra. Deve ser a primeira pessoa que não esquece na primeira esquina. — ele deu um sorriso de canto, satisfeito, e a linha fina dos lábios de se curvaram para cima um pouco mais.
— É um nome comum. — ela deu de ombros.
baixou os ombros, assentindo. Sabia que ela não dizia com desprezo, mas a maneira como não olhou para ele quando disse, mostrava que estava constrangida.
— É americano. Meus pais são americanos, digo, nós somos, eu sou, saímos de Chicago quando eu tinha dois anos, então eu… — ele se deteve, respirando fundo enquanto observava a expressão da garota, com as sobrancelhas levantadas. De repente, um batimento estranho em seu peito começou a acelerar, e nada tinha a ver com sua corrida de mais cedo. — Desculpa, não era sobre nada disso que eu te chamei. — ele balançou a cabeça, um pouco atordoado pelo sangue quente que passava nas bochechas e remexeu os bolsos, pegando o objeto metálico que residia com ele há uma semana. — Você deixou isso cair naquele dia. Eu tentei te entregar antes, mas você corre mais do que uma CB400, então não tive muita escolha a não ser ficar de tocaia hoje.
Ele entregou o objeto para , que de repente sentiu uma enxurrada de emoções e memórias ao ver o presente totalmente limpo, brilhante, como se tivesse ido ao Merrion Square e conhecido o mesmo vendedor ambulante que fizera a venda para seu pai naquele dia.
— Ah, eu vi que ele estava meio enferrujado, então preparei uma solução em casa e consegui limpar, achei que seria o mínimo que eu pudesse fazer depois de tudo…
talvez choraria se estivesse sozinha, mas conseguiu ignorar a ardência no nariz e pode ter percebido que seus olhos estavam brilhando de forma mais intensa. Contudo, ela apenas piscou várias vezes e voltou a encará-lo, desta vez com um formigamento estranho no estômago, e um sentimento de gratidão.
— Nossa… Eu nem sei o que dizer. Muito obrigada, .
Novamente o sangue foi impulsionado com força total ao rosto do garoto, que riu sem graça, colocando uma mão desajeitada em um dos ombros.
— Ah, não foi nada… Imaginei que seria algo especial para você, ninguém guardaria algo tão esfarrapado se não fosse nada. — ele estava hipnotizado pelo sorriso remanescente de , ainda encarando o objeto. — E você, está se sentindo melhor? Aquela batida foi como uma cena de Dr. No sem os carros, por isso pensei que-
— Ah, Deus! — exclamou, guardando o chaveiro rapidamente no primeiro bolso da frente da mochila. — Eu preciso ir, o senhor Irons está esperando.
— Senhor Irons do Beirute? — ele perguntou de repente, e apenas concordou, olhando para o relógio de pulso.
— Preciso realmente ir. Obrigada pelo chaveiro, foi muito gentil da sua parte. Tchau, .
— Tchau… — ele levantou as mãos para um aceno e ela deu as costas, agora literalmente correndo. — ….
Ele ficou olhando os pés rápidos dela batendo contra o asfalto, o rabo de cavalo balançando de um lado a outro, até que ela atravessasse a faixa de pedestres e sumisse pela curva da esquina da rua Essex.
— Te vejo na segunda. — e então, ele próprio deu meia-volta e começou a caminhar de volta para casa, devagar, com as mãos nos bolsos e um sorriso saciado no rosto que perdurou até bem depois da madrugada.

Londres
Inglaterra
1995


A sala era maior do que esperava.
A janela atrás da cadeira presidente dava para a avenida movimentada de Paddington, e as paredes antigas de pedra do St. Mary serviam tanto para protegê-la dos ventos violentos do inverno e do calor desconfortável do verão. Ela não se atrevia a acreditar na eficácia do ar-condicionado e nem dos aquecedores em uma construção tão antiga.
Ela apoiou a caixa de papelão em cima da mesa vazia, e olhou para o jaleco branco perfeitamente apoiado no encosto da cadeira, com o brasão do hospital no peito e, logo abaixo, costurado em letras cursivas, o nome da nova médica contratada para a clínica geral, Dra. Bennett.
Chegou a rir por um momento, dando-se conta de que, mesmo depois de dez anos, algumas coisas ainda eram difíceis de se acostumar.
— Toc, toc. — uma voz feminina entrou na sala, materializando-se em uma mulher baixinha de roupa azul. — E então, já conseguiu se instalar?
— Quase. É bem maior do que eu pensei. — ela sorriu enquanto terminava de organizar as canetas em um apoiador. — Constanzia Shire, não é? A enfermeira chefe. Algum problema?
A mulher limpou a garganta enquanto se aproximava de , com um vinco na testa que demonstrava profunda hesitação.
— Sei que a senhorita acabou de chegar, mas vou ter que te passar um paciente com certa urgência. — ela estendeu uma ficha para , que se apressou em sair de trás da mesa para pegá-la. — O nome dele é Antônio Do Valle e é bastante assíduo por aqui, tem anemia falciforme. Está na lista de transplante há uns oito anos. É um rapaz complicado.
— Como é complicado? — perguntou enquanto corria os olhos pelas informações básicas de Antônio, como data de nascimento e primeiro diagnóstico.
— Bom, acho melhor a senhorita averiguar por si mesma. Ele chegou aqui ontem à noite por causa de uma nova crise, morrendo de dor e descobrimos que dispensou o médico antigo. Recusa qualquer tratamento que o deixe preso aqui. — ela bufou, inclinando a cabeça em direção a porta. — Vamos?
ainda lia a ficha do paciente enquanto caminhava pelo corredor branco e gelado do St. Mary. Depois de um tempo, quando chegaram ao quarto particular do paciente, ela percebeu que deveria ter, ao menos, prestado mais atenção nas várias curvas e no andar que havia saído do elevador.
Um rapaz, dois anos mais novo do que ela apenas, estava deitado na maca com roupa hospitalar e uma infusão de hidratação venosa na curva do cotovelo. Estava totalmente concentrado em um aparelho laptop moderno, os dedos voando pelas teclas enquanto a TV falava sozinha numa programação qualquer da BBC.
— Senhor Do Valle? — Constanzia falou, mas o homem apenas murmurou e continuou absorto no que estava fazendo. — Tenho uma pessoa pra te apresentar.
— Constanzia, estou ocupado, eu já disse que… — ele ergueu os olhos para cima, e sua voz se perdeu ao ver a pessoa desconhecida na sala.
Constanzia sorriu, ligeiramente satisfeita.
— Essa é a doutora Bennett, a nova responsável da clínica geral. Contei a ela sua última façanha com o doutor Depardieu, então não adianta tentar fugir. — ela avisou e virou-se para antes de deixar a sala. — Boa sorte.
Antônio acompanhou a enfermeira até que a porta se fechasse, contorcendo o rosto de frustração. observou o rapaz, preparando-se para quaisquer argumentos falidos de tentar ter uma alta antes do tempo. Quando olhou para ela, finalmente largou o laptop na mesinha ao lado e ajeitou-se na cama.
— Acredito que já tenham te dado as boas-vindas, então não vou me estender. — ele começou, em um tom pacífico e formal. Empresário, ela teorizou. — Não preciso de um médico novo, nem de um tratamento novo, consigo me virar muito bem com os analgésicos e opióides em casa, então pode só colocar aquela coisa no meu pulso e me mandar embora? Tenho uma reunião muito importante mais tarde e ainda não preparei nada.
Ela sorriu aprazente, fazendo-o franzir o cenho. Empresário e vendedor.
— Sua escala de dor, Antônio. — passou algumas páginas na ficha. Usar o primeiro nome sempre tornava o momento estranho em qualquer parte do país, mas ela não deu para trás. — De 1 a 10.
— O quê?
— Quero que me diga sua escala de dor quando chegou ao hospital ontem. — ele revirou os olhos. — Prefere que eu traga a tabela analógica da pediatria?
Antônio ficou abismado com a zombaria.
— Isso não quer dizer nada…
— Um número, Antônio.
Ele respirou fundo, sentindo as bochechas esquisitamente quentes.
— Sete.
— Ok. E agora, o número de verdade.
— Esse é o número de verdade.
— Um sete não diminui seu tempo nessa cama e nem te libera dos vinte exames que vamos ter que fazer pra investigar a causa da sua crise. Ah, e eu já falei de biópsia?
— Mas o que… — ele mordeu o lábio ao ver o olhar mordaz da doutora. E então disse: — Tá legal, foi um nove, talvez nove e meio, não importa, agora eu estou bem. Você ouviu sobre a minha reunião?
— Ouvi, mas terei que aconselhá-lo a adiar. — ela deslizou a caneta sobre a folha da ficha, sem olhar para Antônio. — Vou marcar uma radiografia para amanhã de manhã e, dependendo do resultado, terá que fazer mais uma. Vou pedir um novo hemograma e mudar sua receita de analgésicos. E sim, vou colocar aquela coisa no seu pulso, fique tranquilo.
Antônio levou pelo menos um minuto de choque antes de soltar uma gargalhada.
— Doutora, é lindo você querer me defender contra a minha hemoglobina, mas acho que não ficou claro-
— Ficou claro que você está completamente alheio à sua condição, senhor Do Valle. Tenho a obrigação de informá-lo que é grave, e se eu liberá-lo hoje vou estar simplesmente te matando. Péssimo saldo pra uma novata, não acha? — ela cerrou os olhos, e ele quis protestar, gritar com ela, retirar todas as infusões à força e sair dali, mas simplesmente não conseguiu. — E então, vai me deixar cuidar de você ou vou ter que empacotar as minhas coisas de novo?
Antônio abriu a boca para discutir novamente; já havia listado todos os argumentos aceitáveis para sair daquela confusão, bons argumentos, afinal, era advogado. Mas de repente se lembrou de que tinha uma agenda lotada até o final daquele ano, e de que a empresa precisava dele, que o amigo precisava dele, e que se tivesse de passar alguns dias migrando para o raio-x para se ver livre de pisar naquele lugar pelo resto dos meses, ele poderia aceitar.
O silêncio dele foi claramente uma resposta.
— Ótimo, foi uma boa escolha. — sorriu, e Antônio imediatamente se alertou: nem pense em achar esse sorriso bonito. — Sugiro que avise alguém da sua estadia por aqui, e vou precisar falar com essa pessoa também. Tem alguém que queira chamar? Família, namorada…
— Liguei pra um amigo hoje de manhã. Ele está vindo pra cá, está saindo de alguma cidade pequena de Berkshire.
— A ligação era pra te buscar aqui, acertei? — ela riu, pegando-o mais uma vez. — Tudo bem, é sempre bom receber visitas, de qualquer maneira. Ele vai ter que assinar um formulário simples para que você possa passar pelos exames. Precisa que o hospital prepare um atestado para entregar na sua empresa, ou você é o chefe?
Ele é o meu chefe. — Antônio deu um sorriso sem graça, o primeiro desde que havia acordado de um longo sono induzido naquela manhã. — Acredito que vá me fazer ficar internado até que façam uma biópsia de todos os órgãos do meu corpo, se necessário.
— Ele é um bom amigo, então. E um bom chefe. — aquele sorriso apareceu de novo enquanto ela depositava a nova folha assinada com as informações dos exames e remédios na prancheta na base da cama. — Não precisa ficar nervoso com os exames de radiografia, eles são bem simples. A hemocultura pode te cansar um pouco pela quantidade de sangue que vamos tirar, mas vai passar logo depois de uma boa refeição, eu garanto.
— Hospitais me deixam nervoso, doutora Bennett. Mais até do que fiquei na minha primeira entrevista, ou até do que na primeira vez. — ele recostou-se com mais folga na cama, semicerrando os olhos. — Já ficou nervosa assim alguma vez na vida?
O sorriso dela diminuiu, mas não desapareceu. Uma pontada intrometida cutucou um emaranhado de lembranças antigas, e dolorosas, e extremamente vívidas.
— É, pode-se dizer que sim.

Newbury
Condado de Berkshire
Inglaterra
1985


olhou novamente para os números na folha. Eles dançaram, fizeram piruetas, combinaram-se em todas as possibilidades combinatórias possíveis, somaram, diminuíram, multiplicaram e, ainda assim, não formaram o resultado correto. Nada ali parecia correto.
E, ao pegar a prova na semana seguinte, isso só se confirmou. E xingou Isaac Newton, Pitágoras, Einstein e todo o complô criador da matemática e da física. Coisas que só serviam para embaralhar ainda mais a cabeça das pessoas.
Seu desespero pela falta de habilidades com os números estava visivelmente estampado em seu rosto. Tão visível que, a três carteiras de distância na diagonal, bem no fundo da sala, percebeu o vinco na testa, os dedos na têmpora, a expressão pálida ao encarar uma equação paramétrica de uma reta. Isso porque ele tinha tempo para observar o restante das pessoas, porque era sempre o primeiro a terminar as provas, porque era bom com os malditos números e as fórmulas complexas.
Quando o professor Norton anunciou a data da próxima prova, foi por um milagre que não afundou a cabeça na carteira para começar a chorar de frustração. Ela sabia que tinha que ir bem, precisava melhorar, ela era inteligente, sempre tirou as melhores notas em ciências em todos os seus anos escolares, e matemática nunca foi lá o seu forte, ela sabia, mas sempre se esforçou para estar, pelo menos, na média, então o que raios estava acontecendo?
Era aquele ano, aquele maldito ano, e a cidade nova, o país, todas as mudanças bruscas a que fora submetida nos últimos meses, o somatório de todas as perdas fulminantes. Ela tinha que colocar seu cérebro no lugar imediatamente, afastar todos os devaneios e preocupações antes que eles a levassem e ela ficasse presa. Na cidade, no passado, sem avançar para os seus sonhos, para longe de todo aquele caos mental.
Mas percebeu o rosto lívido e atormentado pelas palavras do senhor Norton. E percebeu sua inquietação durante toda a aula daquele último tempo.
Ao sinal, Oskar e os colegas se apressaram em guardar as coisas o mais rápido possível (menos Forrest, que não tinha sequer levado um caderno). deu uma última olhada em soslaio para a garota, que guardava suas coisas preguiçosamente enquanto os demais colegas seguiam para fora.
— E então, vamos para a garagem do Vito? Soube que o pai dele conseguiu umas trinta fitas do Ramones e do Rush, e acho que do Led Zeppelin, bem, não importa… — Oskar foi tagarelando na frente, com entusiasmo. Forrest se mostrou igualmente interessado na tarde que o amigo planejava e atravessaram a sala até a porta sem notar a garota estranha que permanecia para trás. Bem, menos .
— É, podem ir sem mim, ainda preciso resolver umas coisas em casa. — ele disse ao chegarem no final do corredor, próximo a porta dupla da entrada.
— Resolver o quê? Disse que seu pai desistiu de tentar te arrastar pra empresa dele. — disse Forrest, com certa desconfiança.
— Não é isso, eu vou… — dirigiu toda a sua energia nas próximas palavras. — Vou terminar de mexer no motor daquela Yamaha que comentei com vocês antes. Se eu adiantar bastante hoje, acho que ela vai estar pronta no próximo mês.
— É mesmo? Que irado, , seu grande sacana! Esqueça as fitas, a gente vai te ajudar nessa empreitada! Vamos, Forrest…
— Não! — interrompeu o garoto, de forma impulsiva. — Digo… o meu pai, já combinamos que ele iria me ajudar, o velho anda carente de uns momentos de pai e filho, entenderam? Prometo que amanhã vamos à garagem do Vito e escutaremos todas as trinta fitas duas vezes com direito à pizza do Camel 's, tudo bem?
Os dois amigos piscaram os olhos algumas vezes enquanto se convenciam da veracidade das palavras de , enquanto este trincava os dentes disfarçadamente, torcendo para que a garota não saísse de onde estava.
— E depois vamos ao Fliperama do Bo. — disse Oskar.
— No seu carro. — completou Forrest. revirou os olhos e concordou com a cabeça.
— É, tudo bem, podemos combinar assim então. Vamos nessa! — Oskar riu e começou a andar em direção à saída, mas virou-se novamente. — O que está fazendo aí parado? A gente só se separa lá no cruzamento.
— Ah! Eu preciso… o diretor Del Rey me chamou na sala dele, sabe, pra conversar sobre o acidente com as bikes daquele dia.
— Quê? Qual é, , seus pais são mais ricos do que o próprio prefeito, o que o fracassado do Manoel Del Rey pode fazer com você? — Oskar riu, dando um leve soco no ombro de Forrest. — Não é mesmo, Forrest?
— Acho que já saquei o que está acontecendo aqui. — Forrest cerrou os olhos, encarando de forma séria. Ele engoliu em seco. — Você vai se encontrar com a Jenny, né?
Oskar arregalou os olhos enquanto sorriu nervoso, mas com alívio. Eles normalmente sempre tinham a interpretação errada das coisas.
— Que história é essa, ? Achei que tinham terminado! — Oskar exclamou.
— É, cara, você não disse que não estava mais apaixonado por ela ou coisa parecida?
— Não, ele disse que na verdade nunca se apaixonou por ela…
— Cala a boca, Oskar, como ele pode ter namorado com ela todo esse tempo e nunca ter se apaixonado? Ainda mais quando já transaram…
— Eu ainda estou aqui, estão lembrados? — interrompeu, bufando, dando uma rápida olhada para trás. — Olha só, eu realmente tenho que ir agora, mas prometo que não vou furar amanhã. Melhor de três valendo um ingresso para o The Rolling Stones. Fui!
Ele deu as costas e voltou a passos largos de volta pelo corredor, deixando os dois amigos balbuciando algo ininteligível antes de seguirem seus caminhos para casa.
O lugar ia ficando mais vazio cada vez que ele se aproximava mais da sala, apenas com alguns alunos remanescentes puxando o saco de alguns professores enquanto os acompanhava de volta. dobrou novamente para a entrada da porta por onde havia saído minutos atrás, parando na soleira enquanto observava , que tinha dado uma pausa no processo de guardar suas poucas coisas e estava distraída, com o rosto voltado para a janela de fora.
Dez anos depois, enquanto atravessava a interestadual em direção à Londres, quando essa lembrança surgiu em sua mente sem mais nem menos, pareceu recordar a mesma forma pensante do garoto de 17 anos parado no limiar da porta, observando a garota nova e desconhecida com um interesse que não era repentino, mas com outra sensação, algo parecido com uma atração que bloqueava as outras questões que poderiam advir da atitude que ele planejava tomar, como se um laço invisível o puxasse para onde estava e ele apenas se deixasse ser levado. E isso sim era repentino, a autorização intrínseca de se deixar levar por sentimentos misteriosos, tão misteriosos quanto aquela garota.
Ele se aproximou lentamente dela, e com o corredor cada vez mais vazio, seus passos soaram três oitavas a mais, fazendo-a perceber sua chegada.
— Oi. — ele murmurou, um tanto sem jeito e ela retribuiu o cumprimento, com as bochechas vermelhas enquanto agora se apressava em guardar suas coisas. — Você tem um minuto?
passou uma das alças da mochila nas costas, olhando repentinamente para o relógio de pulso. Era sexta-feira, e ela tinha de se apressar para chegar a tempo para as sessões da tarde no Beirute, que naquele dia atrairiam todas as crianças e adolescentes da cidade pela trilogia de Star Wars. E ela já havia perdido tempo demais com suas recentes lamentações e previsões pessimistas do ano escolar.
— Sinto muito, eu preciso-
— Eu prometo que vai ser realmente um minuto. — ele a interrompeu enquanto abria o zíper da mochila e sacava um caderno e uma pasta, colocando-as na mesa. — São minhas anotações de todas as aulas do Norton, desde o ano passado, e algumas individuais também, de forma simplificada. Acho que podem te ajudar.
piscou, olhando do material para o garoto, esperando uma explicação. Mas no fundo, já havia entendido, e nem se ofendeu por ele falar com ela daquele jeito (como se a conhecesse por bem mais do que os trinta dias que ela estava na cidade).
— Eu… Obrigada.
— Posso te ensinar também, se você quiser. Matemática é algo que a gente aprende com muita prática, sabe. Meus amigos dizem que eu sou um bom professor, meu vizinho de onze anos também, e eu tiro notas boas, e acho que… — ele travou, querendo morder a língua porque novamente estava falando demais. — Bem, a biblioteca municipal fica perto do Beirute. Você trabalha lá, né? — ela concordou com a cabeça. — Podemos ir antes ou depois do seu expediente, pegar uma mesa no Poison, eles servem um bom milk shake por lá. Tem o parque Blossom Field, mas daqui a pouco vai começar a esfriar, e…
Uma enxurrada de sangue tomou o rosto dele ao perceber, novamente, como sua língua deliberava a falar à medida que seu coração batia forte com o nervosismo. E afinal, por que estava nervoso daquele jeito? Ele estava sendo gentil com uma colega de turma que precisava de ajuda, e já não era lá a primeira vez, então por que raios sua circulação ficava tão desnorteada quando chegava perto dela?
Igualmente, baixou os olhos, tentando esconder a todo custo o desconforto com as opções oferecidas por . Não que sua mente vagasse para possíveis segundas intenções da parte dele, de forma alguma, ela não se atrevia a levantar essa hipótese, mas pelo fato de que ele estava sendo solícito e educado demais, um cara como ele, fazendo isso (de novo, ela pensou com horror) com uma garota como ela. Era confuso, apenas isso.
A verdade, uma verdade que ela sabia bem pouco na época, era de que não estava acostumada a gentilezas. Não que tivesse sido maltratada em Dublin ou coisa parecida, mas sua mãe lhe ensinou a ser desconfiada de boas vontades. Que ninguém nunca estendia a mão sem querer algo em troca depois. Não viu o que aconteceu com seu pai?, ela repetia. Era um instinto quase natural repelir toda e qualquer ajuda demais.
Por isso, achava melhor passar o último ano em paz e invisível, apesar dos rótulos inevitáveis de uma aluna nova em um lugar que raramente recebia estudantes que não estivessem juntos desde o primário e, além disso tudo, moradora de Nightingales. Porque sim, ela estava ciente dos apelidos e das piadinhas sobre suas roupas remendadas, e suas meias ¾ desbotadas, e pelo fato de ela ter apenas um uniforme (coisas que não a deixariam irada já que, no fim, as pessoas estavam certas). Também estava ciente da popularidade de , e, apesar de ser um rapaz muito bonito, não era esse tipo de popularidade fútil, baseada apenas nisso. Era pelo mero fato dele ser gentil, brilhante e um talento intrínseco para fazer amigos. Mas isso não queria dizer que eles poderiam ser amigos… certo?
Avaliando tudo isso em um piscar de olhos, ela abriu a boca para responder:
— Eu...
— Pode pensar um pouco e me responder na segunda. Ainda temos algum tempo antes da prova. — ele respondeu, começando a dar passos na direção à porta. — Fica com o material. Se conseguir resolver todas as questões sozinha, então vou entender que não precisa de mim. — ele deu um sorriso divertido, e ela quase sorriu de volta, quase. — Até mais.
Ele sumiu pela porta, deixando se perguntando o que acabara de acontecer.

𐚁


Ela não queria ficar pensando nisso. Nunca foi sua intenção. Mas durante todo o fim de semana, era apenas aquela proposta combinada com aquele sorriso que perpetuavam sua mente, hora após hora, e foi isso que ela culpou por não estar conseguindo a concentração suficiente para tentar resolver as questões. Aproveitou para tentar compreender alguma coisa daqueles cálculos, qualquer coisa, nas diversas vezes que teve de trocar o rolo de The Empire Strikes Back no projetor nas sessões da tarde e aguentar os gritos ensurdecidos no sábado à noite com Remo Williams: The Adventure Begins. As aulas de karatê de Joel Grey se mostraram bem mais interessantes do que geometria espacial.
Na segunda-feira, se viu sem saída. Não conseguia mentir tão descaradamente e dizer que havia sido fácil, que conseguiu resolver tudo apenas lendo suas anotações, por mais simplificadas que sejam. Estava temendo que ele a desafiasse, e ela fugisse, e isso explicaria tudo. Ela se acovardaria diante de um cara que só queria ajudá-la com matemática (e não dava para dizer que estava em posição de recusar qualquer ajuda no momento).
Ela desviou os olhos quando ele entrou na sala naquela manhã, mesmo sabendo que ele fez completamente o contrário. Não demorou para que o professor Gibson chegasse e começasse a ministrar seu assunto favorito: Emily Brontë.
Do outro lado, na carteira logo abaixo da janela, puxou o pequeno vão abaixo, como era costumeiro fazer todas as manhãs, tocando em algo que não estava ali antes. Ele puxou o pequeno pedaço de papel dobrado e abriu: “Quanto você cobra? Um dólar por hora seria suficiente?”
Ele mal conseguiu sufocar a risada e deu logo um jeito de esconder o bilhete assim que Oskar virou-se para trás, com a expressão confusa. balançou a cabeça e seu olhar foi direcionado automaticamente para a garota a duas fileiras de distância, que estava concentrada em anotações sobre O Morro dos Ventos Uivantes.
Uma sensação de puro êxtase queimou em seu peito, e ele sabia que estava sorrindo sozinho, e errando as palavras que escrevia, e sabia que Gibson o encarou mais vezes que o normal àquela manhã, assim como seus amigos, mas ele não conseguia se controlar. Alguma coisa estranha naquele bilhete o fazia querer sorrir, porque era engraçado, e adorável, extremamente adorável.
O primeiro sinal do intervalo soou, fazendo gemer. Afinal, existia uma aula que conseguia ser a pior, a aula que mais a atormentava, mais ainda do que o pesadelo da matemática: a Educação Física.
Os demais alunos foram saindo rapidamente ao som do apito do treinador Beatty, que era similar a uma sirene e era de uma opinião unânime que ele talvez faria um trabalho melhor na vigilância dos corredores do que o senhor Pacino. guardou suas coisas lentamente, tendo consciência de que estava sendo observada pelo garoto que saía da sala com os amigos em plenas risadas.
Um pedaço de papel caiu no meio do tampo da carteira, tão rápido e tão discreto que poderia se acreditar que estivesse ali o tempo todo. levantou a cabeça imediatamente, a tempo de ver piscar um dos olhos, exibindo um sorriso (aquele mesmo sorriso) e sumir pela porta com os outros.
Ela ficou imóvel por pelo menos um minuto até se tocar do bilhete desprotegido à sua frente. Olhou para os lados, certificando-se de que estava sozinha, ou quase isso, e averiguou as palavras: “Cobrar? Não sei do que está falando, Bracco. Vai permitir que eu te alcance mais tarde?”
levou as mãos ao peito, de repente assustada com algo extremamente peculiar que havia acontecido: seu coração pareceu errar um pouco as batidas, indo de lento a rápido em questão de milissegundos, e ela sentiu calor na palma das mãos. Percebeu que se demorou demais naquele pedaço de papel e tornou a guardá-lo na bolsa enquanto se apressava para sua próxima aula tortuosa, torcendo para que seu rosto não estivesse vermelho. Poderia ser verde, azul, de todas as cores possíveis no acervo, menos vermelho, tudo menos aquilo.

𐚁


Ela quis fugir. E essa possibilidade também passou pela cabeça de .
O rapaz tratou logo de correr até os portões, dando a desculpa para Oskar e os amigos do velho motor de uma Ninja desta vez, mesmo que os garotos afirmassem que ele jamais havia falado sobre uma Ninja antes. Ele ajeitou a mochila nos ombros enquanto se virava para ir até o final do muro nos fundos de um restaurante, em direção ao cruzamento, onde ele sabia que fazia parte da rota dela até o Beirute.
Talvez ela nem estivesse demorando tanto assim, mas foi o que pareceu. Sua ansiedade estava notável, e seu coração disparou por alguns segundos quando finalmente a garota cruzou a faixa, virando para o mesmo caminho de praxe, com uma expressão um pouco zangada. Expressão esta que sumiu completamente ao vê-lo encostado no muro, com os braços cruzados, parecendo estar claramente naquela posição há horas.
— Então você iria mesmo fugir. — ela o ouviu dizer, enquanto se desencostava da parede sem reboco e se aproximava dela.
— Eu… há quanto tempo está parado aí?
— Tempo suficiente pra me perguntar se você tinha quebrado a perna ou algo do tipo. Do jeito que você corre, só isso poderia te atrasar pra chegar em qualquer lugar.
Ele riu, e ela corou furiosamente, sem saber porquê. Não iria contar para ele que o esperou do lado de dentro dos portões da escola, parada no meio da passarela por pelo menos dez minutos, chegando a pensar vergonhosamente que Belfort poderia ser um babaca.
— Então, podemos ir? Ou devo te encontrar mais tarde? — ele continuou, inclinando a cabeça para a rua.
Ela também jamais contaria que, na noite anterior, havia pedido ao senhor Irons a gentileza de liberá-la uma hora antes do expediente para ter suas aulas particulares. Nem que ele havia concordado.
— Ainda não disse que aceitei.
— E não aceita?
— Preciso estar no Beirute antes das quatro.
— Combinado, senhorita. — ele fez uma reverência teatral e ridícula, expulsando os vincos da sobrancelha de . — Quanto antes a gente começar, melhor. E no caminho eu posso ir tentando te convencer que matemática não é um demônio ou coisa parecida.
Ela balançou a cabeça, forçando-se a não rir enquanto começavam a caminhar, mas antes do fim do trajeto isso foi impossível. Era simplesmente impossível não morrer de rir com . Não de uma forma forjada, forçada pela educação e os bons costumes que os adultos ensinam nas várias regras de habilidades sociais, mas rir de verdade, até a barriga doer, até ter de esconder o rosto porque a intensidade das risadas modificava os próprios olhos e pareceria até uma pessoa diferente.
começava a pensar como a vida era engraçada, e o fio do destino, astuto. Ele era um cara legal, sempre foi (a definição de legal, como a encarnação não fictícia de Ferris Bueller, mesmo que o filme ainda nem tivesse sido lançado na época) e, por esta característica tão marcante, era normal que quisesse ajudar uma colega novata, somado ao fato de que sentia que devia compensá-la de alguma forma depois do pequeno acidente com as bikes. Assim como sempre ajudava seus outros amigos, e conseguia alguns dólares semanais com as aulas particulares pela vizinhança, era normal e sem nenhuma outra intenção. Pelo menos no começo, ele tinha certeza disso.
Contudo, no decorrer das próximas semanas, enquanto o clima se tornava cada vez mais frio e os restos das folhas caídas do fim da estação já começavam a se desintegrar nas margens da rua, ele se sentia quente, e enérgico. Como da primeira vez que andou na garupa de uma moto, como quando acertou o resultado do fim do campeonato com seu pai, como a euforia de escapar do senhor Pacino por uma pegadinha mal sucedida que destruiu as vidrarias do laboratório de ciências. E havia as borboletas, aquelas malditas borboletas que causavam um formigamento estranho no estômago sempre que ele a via. E elas pareciam voar, e se chocar descontroladamente no pequeno espaço abaixo do tórax quando ela corria até ele no portão, sentando-se na parte da frente de sua bike, que inconscientemente ele sabia que já pertencia a ela, e atravessavam a cidade contra o vento (bem gelado àquela altura, cortando seus rostos com violência) até a biblioteca, ou ao parque Blossom Field e, quando se encontravam depois do expediente de , o trajeto era até depois do centro, perto de Nightingales, não necessariamente dentro de Nightingales. fazia questão de que ele parasse antes e a deixasse seguir o resto do caminho sozinha.
Eram apenas aulas, ele sabia disso. Mesmo que sua língua tenha ficado solta um dia desses e ele resolveu perguntar coisas sobre ela — primeiro sobre o motivo de se mudar para aquele lugar, da onde as pessoas pensavam em sair, e depois sobre as músicas favoritas dela, e porquê ela se deprimia toda vez que olhava a programação de sexta no balcão de recepção no Beirute e via que iria passar Karatê Kid. Para , era impossível passar tanto tempo com alguém sem conhecê-la melhor, mas no fundo, sabia que não era só isso. Não podia ser só isso.
Porque a corrida para chegar à sala do terceiro ano da Newbury High School todas as manhã eram sempre as mais acirradas de toda a sua vida, mais até do que a tradição do primeiro dia de aula. E falando nelas, viraram um conjunto tosco de frases sem sentido, porque era difícil se concentrar em qualquer coisa que não fosse o jeito como ela segurava a caneta, cruzava as pernas, colocava o cabelo para trás da orelha quando ficava nervosa…
demorou mais tempo para entender. Mesmo que o pegasse observando-a pelo canto do olho, que ele a esperasse na saída quase todos os dias, que a fizesse rir mais do que já riu em toda a sua vida e que tenha compartilhado coisas sobre ela que jamais compartilhou com ninguém… ela ainda não conseguia relacionar nada disso ao baque no peito que sentia quando ele tagarelava sobre as multiplicações enquanto estava sentado ao lado dela na biblioteca, desenhando retas e círculos com seriedade, com sua boca naturalmente avermelhada se mexendo em câmera lenta, sem emitir som, como em um filme mudo que o senhor Irons de vez em quando queria passar para agradar à terceira idade da cidade. E ela só conseguia pensar em como ele ficava bonito nessa posição, e também quando pedalava mais rápido e o vento balançava seu cabelo, e sorria como um louco mesmo que estivesse morrendo de frio (ele só poderia estar com frio depois de oferecer seu casaco a ela), e como ela parecia ouvir a inconfundível trilha sonora de Love Story quando o observava de longe conversando com os amigos.
Então, quando o professor Norton entregou as provas naquele semestre e teve de segurar para não gritar ao se deparar com o seu A-, ela olhou para automaticamente, e ele fez o mesmo. E sorriram um para o outro. E instintivamente, ele quis se levantar e beijá-la na frente de todos, uma atitude logicamente impensada que o renderia uma suspensão, não que fosse a primeira, mas seria a primeira que ele não se importaria de levar. E ele entendeu, ah, como entendeu o que estava acontecendo dentro dele.
Mais tarde, naquele mesmo dia, ele estava parado na frente do Beirute depois das cinco, desta vez como uma surpresa em vários sentidos: sua CBX750, com dois capacetes. Mas um passeio de moto em pleno meio de novembro parecia uma insanidade, e nunca havia andado de moto na vida, e esperava fielmente que sua mãe nunca soubesse daquilo, mas emanava uma atmosfera que era difícil para ela repelir qualquer um de seus convites, porque, na verdade, não queria dizer não; mesmo que ele a convidasse para irem casualmente à London Eye no último trem, e ficassem por lá até que os primeiros raios de sol aparecerem. Ela tinha consciência de que ele nunca faria isso, mas seu coração pulava pela possibilidade. E pelo medo.
Aquele garoto estava levando sua mente à loucura.
— Precisamos comemorar! — ele ofereceu o segundo capacete para ela, com um sorriso de canto que confirmava o sentimento sem rosto e sem nome que pairava no peito: ela diria sim, mesmo que fosse muda.
Um frio na barriga e o vento gelado do fim do dia a acompanhou direto até o Poison, a única lanchonete 24 horas da cidade, gerida por um cara chamado Nino Kassovitz, que reconheceu assim que entraram pela porta de vidro, recordando-se do homem de meia idade que gostava muito de filmes dos anos 60.
insistiu que nem na América existia um milk shake melhor do que no Poison. Ele se adiantou em pedir não apenas dois, como também um trio de hambúrguer com batatas, alegando que ela deveria estar com fome depois do dia cheio no Beirute.
— Minha nossa, suas mãos sempre ficam assim no fim do dia? — ele falou em tom brincalhão, pegando um guardanapo da mesa e limpando a sujeira preta do rolo de filmes das unhas dela. tentou ignorar o quanto aquilo acelerou seu coração. — Olha isso! Parece que você tem o hábito de se meter em oficinas, e não eu.
Ela riu, vendo-o trocar o guardanapo.
— Não é minha intenção te imitar, Belfort. Infelizmente, não tenho muito tempo pra limpá-las depois que meu horário termina.
— E por que não?
— Porque preciso correr pra conseguir chegar em casa antes das sete. É um longo caminho até Nightingales.
continuou a tarefa de limpar as mãos da garota, agora com movimentos mais lentos à medida que o sorriso ia sumindo do rosto. percebeu isso, e franziu as sobrancelhas, perguntando-se se havia algo errado no que disse. Era apenas uma verdade, um fato de sua vida, então por que ele tinha ficado tão sério? Será que se lembrou de que estava sentado na frente de uma garota de Nightingales? Que era amigo — mesmo que há pouco tempo — da escória de Newbury?
O sorriso dela também foi desaparecendo à medida que os devaneios surgiam, e automaticamente recolheu a mão, mas ele a puxou de volta com firmeza.
— Vou te levar pra casa a partir de hoje, então pode limpar as suas mãos com calma. — ele usou um tom claro, obstinado. Seus olhos diziam que era uma promessa.
não teve tempo de responder, se é que teria resposta. A garçonete, uma mulher jovem e bonita que cumprimentou , depositou os pedidos na mesa, olhando com breve curiosidade para a acompanhante do garoto. Ela corou, separando sua mão da dele, como se soubesse (desde sempre) da bolha sonhadora que era aquela relação.
Ela bem que tentou pagar na hora de ir embora, argumentando sobre as várias aulas de graça que havia recebido de , mas não teve muito sucesso na hora de driblar o garoto, que deixou cinco dólares na mesa, mais as gorjetas. revirou os olhos, perdendo a discussão, e saboreou os segundos intensos em que ele levou mais tempo que o normal para soltar seus dedos.

𐚁


Um dia, ele decidiu levá-la para casa. Decidiu que entraria em Nightingales. Eram quase 18:30 e o sol já estava quase apagado, restando apenas o resquício azulado do céu, que logo mais estaria completamente escuro, tornando as ruas nada além de um breu gelado. Ele parou a moto em frente ao prédio acambetado, com algumas janelas irradiando luzes amareladas e piscantes, e o cheiro de lixo exposto em cada ponto do quarteirão. desceu, aliviada por chegar bem mais cedo do horário de sua mãe, e bem tarde para que os vizinhos se demorassem muito do lado de fora e pegassem a visão daquele garoto claramente importado de outro lugar.
— Acho que já vou…
— O que é aquilo ali? — perguntou de repente, apontando para frente, direto para o fim da rua cercada. — Dá pra algum lugar?
Ela acompanhou o olhar dele.
— Tem um córrego lá embaixo. Na verdade, parece mais o resquício do canal central misturado com esgoto. Não deve demorar pra começar a congelar.
— Você já deu uma olhada nele?
— É claro que não.
— Então por que não damos agora?
Ele saltou da moto e começou a caminhar em direção à cerca, passando as longas pernas pelo outro lado, deixando uma completamente confusa para trás. Já do lado oposto, ele virou-se de novo, chamando-a com o queixo.
— Você é louco? — ela falou alto, trincando os dentes, olhando para os lados. Estava ficando mais escuro, e ele não poderia ser tão maluco assim.
— Você vem ou não? — ele firmou as pernas para seguir barranco abaixo, afastando a vegetação que cegava o restante do caminho.
! — gritou mais alto, desta vez sem se importar com os vizinhos. Nenhum deles apareceria, de qualquer forma. Ela grunhiu, correndo até a cerca, pulando-a como o viu fazer, segurando-se até chegar por trás de suas costas. — Você é louco! — não era mais uma pergunta. — Para já com isso e vamos voltar.
— Ei, relaxa! — ele sorriu, virando o rosto em perfil para olhar a garota assustada e de repente pegou em sua mão, afastando o restante dos arbustos com a outra. Uma faísca pareceu queimar no coração dela e automaticamente estava apertando a dele com mais força. — E… chegamos.
Ela não estava tão longe como imaginou. Olhando para cima, dava para ver o último prédio encostado no parapeito da cerca, as janelas acesas iluminando um resquício de terra, o bastante para que não ficassem cegos no escuro. O chão era de pedregulhos misturados com terra seca, e o riacho não passava de uma estreita linha de água que corria tranquilamente sobre as pedras maiores, banhando algumas plantas na margem, sem cheiro, sem o odor repugnante que carregava sua propaganda. O céu ia ficando mais escuro, mas as estrelas começavam a salpicá-lo, tornando-se mais uma fonte de luz inesgotável sobre a água.
encarou o rio e as árvores ao redor, perguntando-se porque realmente nunca descera ali embaixo.
— O paraíso perdido de Nightingales, hein? — comentou depois de um tempo em silêncio, perdido em uma admiração fissurada ao redor. Olhou para de soslaio, e entendeu que o lugar não era o único paraíso do bairro negligenciado. — As pessoas dessa cidade falam demais.
De repente, ele tirou a jaqueta de couro. Em seguida, as botas. Quando pousou as mãos na barra da camisa, soltou um gemido de horror:
— O que diabos você está fazendo?!
— O que você acha? — ele se livrou da camisa. — Vamos, agora você.
— Você pirou?
— Claro que você não precisa tirar sua roupa e nem nada disso, só tire os sapatos. Vamos!
Ele não esperou a garota responder e correu para a água, que devia estar tão gelada às portas do inverno que nem os animais deveriam se dar ao trabalho de consumi-la, mas não parecia se importar com isso. Mergulhou de uma vez só, balançando os cabelos ao subir para a superfície. Acenou para mais uma vez, que não sabia o que fazer. Tudo a respeito daquela estrutura facial gloriosa de alguém que não teme alcunhas ou julgamentos sobre suas ações era extremamente convidativo, e ao mesmo tempo absurdo. Como poderia ser ela a garota rotulada de esquisita se existia uma pessoa como Belfort?
Mas ele sorria de forma tão branda, alegre e extremamente despreocupada que ela se sentiu tentada. Olhou para cima mais uma vez, mas ninguém parecia estar olhando. Olhou no relógio de pulso e percebeu que ainda faltava uma hora para sua mãe terminar o expediente. Tirou o relógio logo em seguida, depois os sapatos. Respirou fundo antes de correr e saltar para a água gelada e escura.
Anos depois, quando estivesse saindo do quarto de seu primeiro paciente no novo hospital (cujo nome era Antônio Do Valle), ela se lembraria desse dia tão claramente como se tivesse acontecido no dia anterior. Ela chegaria em sua sala ainda empoeirada e bagunçada pela mudança, olharia pela janela inundada pelo sol e pelo calor daquele verão e se recordaria da mesma sensação que sentiu dentro daquela loucura com o garoto Belfort: que a água poderia estar gelada, tão gelada como se o inverno tivesse chegado mais cedo e eles aproveitassem o último dia antes do congelamento total da hidrosfera, mas ali, naquela hora, quando ela jogava tufos de água em e ele devolvia na mesma moeda, ela se sentia aquecida. Como se fosse verão, um verão misturado com primavera, tão quente e acolhedor que nenhum ser humano seria capaz de sair ileso.
Os dois saíram aos risos e tropeços da água, tremendo até o último fio de cabelo, em seguida sentando-se no chão de pedregulhos, que pareciam ter absorvido e retido toda a fagulha de calor daquele dia. envolveu os ombros da garota com a jaqueta, que se mostrou como um ótimo recurso para que ela parasse de tremer.
— Não acredito que acabei de fazer isso. — ela riu, olhando para cima, onde a lua começava a apontar. — Eu já disse que você é maluco?
— Umas seis vezes. Só hoje.
— Você é.
— Mas foi divertido. Quantos malucos são tão maneiros assim com você? — ele apoiou as mãos no chão atrás de suas costas, olhando para ela. — E nem me diga que você anda se encontrando com outros malucos, por favor, isso vai acabar comigo.
riu. O nariz comprido dele ficava ainda mais charmoso quando estava úmido.
— É, você até que me divertiu, senhor Belfort. Fiquei com pena de te ver brincando na água como um garotinho de sete anos sozinho. — ela deu de ombros.
— Então você se comove com crianças? Informação interessante, elas sabem como você destroçou um sapo inteiro no laboratório na semana passada?
— Sempre conto pra elas que eu vou ser cirurgiã, você não vai conseguir me difamar.
— Não sabia que você era tão legal com a primeira idade, Bracco.
— Uma vez, acompanhei uma garotinha em O Mágico de Oz na sessão infantil da quarta-feira porque ela levou um bolo do namorado. Quer dizer, agora ex-namorado, mesmo que os dois só tenham onze anos, ainda foi uma boa ação. — ela levantou os ombros e jogou a cabeça para trás, em plenas risadas. — Se eu vê-la de novo, vou falar de você e da visão privilegiada de observar Belfort nadando nos primórdios da luz do luar, exalando masculinidade ao resistir à água gelada… — ela levou as mãos ao coração, alterando o tom de voz teatralmente, parecendo imitar alguma cena batida de Vivien Leigh em Gone With the Wind. — É sério, foi legal, você estava legal…
— E você estava linda.
As bochechas dela ficaram quentes, o sorriso diminuindo. tentou desviar o rosto, mas não conseguiu. Os olhos fundos com pálpebras pesadas dele eram tão intensos e magnéticos (um olhar que marcaria a vida dela, na forma mais literal da palavra), junto com o arco escuro de suas sobrancelhas formavam um conjunto impossível de se distanciar.
— Você é linda. — ele repetiu, a voz se abafando na neblina gelada. O rosto dela era completamente diferente dos rostos do condado aos quais ele tinha se acostumado. — De verdade.
O braço dele começou a se mover para o lado, aproximando-se dela de forma lenta, deixando-a saber o que iria acontecer. O coração dela entrou em descontrole, e ele ia devagar, olhando dos olhos para a boca, pedindo permissão, deixando claro que ela poderia afastá-lo se quisesse, mas por Deus, que ela não quisesse aquilo, que ela deixasse ele realizar o desejo que martelava seu cérebro há dias, talvez semanas, talvez desde que a atropelou por acidente ao pé das escadas de concreto no primeiro dia.
O beijo incendiou cada parte do corpo de , que concluiu mais tarde, ainda olhando o sol pela janela do St. Mary, que nenhum verão tropical chegaria aos pés daquilo. Nada nunca iria queimar tão forte seu interior quanto aquele primeiro beijo, misturado com o êxtase da bolha romântica, que ela sabia ser imaginária, mas chegou a ter esperanças de que poderia ser real. Que os dois poderiam ficar juntos, quem sabe. Que ela seria oficialmente sua namorada depois daquele dia, e não que não tenha chegado a ser, pelo menos por umas semanas, pelo menos até o natal, quando assistiram o lançamento de Back to the Future em todas as sessões normais e extras direto da sala de projeção, ou quando fizeram amor pela primeira vez, e talvez, apenas talvez não tenha existido pessoas mais felizes e apaixonadas do que os adolescentes de Newbury naquele inverno de 1985.
Mas, assim como muitos outros contos de amor trágico, não era real. Não era para ser real. soube disso desde que Emilie Belfort a viu. Desde que engoliu suas ofensas por tempo suficiente até não aguentar mais e chamá-la para uma conversa a sós, usando casaco de pele de cordeiro e óculos escuros enormes, exalando seu poderio para mandar a primeira mensagem para a garota.
pensou em lutar. Pensou em dizer para ele que algumas coisas estavam prestes a desmoronar, mas na verdade, já tinham desmoronado. Sua vida nunca mais foi a mesma desde que tivera a conversa mais difícil de toda a sua existência, regida por mentiras que ela nem sabe como foi capaz de proferir. Não há nada que doa mais do que embrulhar uma verdade e fantasiá-la de mentira. Negar com a boca o que os olhos não conseguiam esconder. Fazer a pessoa que se ama duvidar de si mesma, pedir perdão por pecados exclusivamente seus.
Então, tudo acabou. Bracco juntou suas coisas e foi embora, grata por tudo que tinha vivido, e desejando nunca mais vivê-lo novamente.

Londres
Inglaterra
1995


atravessou a porta giratória do St. Mary abruptamente, chamando a atenção de duas enfermeiras que logo pensaram que teriam de convocar os seguranças para retirar mais um motoqueiro louco que insistia em fazer algazarra em um ambiente tranquilo como aquele. Ele caminhou até o espaço circular da recepção, dizendo “Antônio Do Valle” para ninguém em especial.
— Quem? — perguntou uma mulher baixinha, metendo o telefone recém atendido no gancho.
— Antônio Liotta Do Valle. É um nome ridículo, mas fazer o quê. Qual é o quarto dele? Ele está me esperando.
A mulher olhou para ele de cima a baixo com desconfiança.
— Seu nome? — ela se inclinou para vasculhar pastas em uma gaveta.
Belfort.
A cabeça dela voltou para cima em um sobressalto.
— Por acaso você teve algo a ver com aquelas motos baixas e barulhentas que estão entupindo as ruas por aí?
— É meu modelo mais recente. Surpresa por eu não fazer parte de uma gangue? — ele levantou as sobrancelhas em ironia. — Antônio Do Valle, senhorita.
Ela revirou os olhos e puxou o arquivo que precisava, passando-lhe a direção do quarto particular da ala três.
virou o corredor na chegada, procurando em cada número ao lado da porta, recebendo os olhares curiosos de pacientes e funcionários. Não era todo dia que viam um homem de mais de 1m87cm, usando botas enormes e cabelo naturalmente espetado para todos os lados. Quando finalmente encontrou o quarto, já foi recepcionado por uma visão desagradável, porém normal: Antônio com uma roupa hospitalar ridícula, sem seu brinco pequeno e recebendo analgésicos por infusões.
— Chefe! Você já chegou…
— Seu filho da puta! — bufou, fechando a porta com certa força. — Você é um desgraçado de merda. Como tem coragem de me avisar que teve mais uma crise quando já chegou ao hospital? O que combinamos da última vez? E se você não tivesse como chamar uma ambulância? É inacreditável…
— Mas você tinha ido visitar sua mãe, eu não iria te incomodar só por causa disso…
— Se disser que me incomodo por cuidar da sua saúde mais uma vez, vou te demitir. E dessa vez é sério! — ele suspirou, apoiando as mãos na beirada da cama. — Tô te dizendo, Antônio, se não cuidar dessa porra, nunca vai aumentar sua pontuação no MELD. E aí adeus, medula! Estou com tanta raiva que vou ter que fazer o possível pra não voltar a fumar quando sair daqui.
— Eu tenho um maço bem aqui, se fechar a porta ninguém vai notar.
demorou um minuto a mais para rir, e Antônio acompanhou, as risadas combinadas reverberando pelos corredores, altas, escandalosas, como dois adolescentes que nunca percebem a gravidade da situação.
— Tá legal, tá legal… — respirou, colocando as mãos na cintura, o peito subindo e descendo sob a corrente em torno do pescoço e a camiseta regata branca. — Agora é sério. Como você está? Quando vai poder sair?
Antônio fez uma careta ao ouvir a palavra, que trouxe de volta a conversa com a doutora novata que havia saído dali mais cedo.
— É… Sobre isso… — ele começou, e se aproximou mais, com os ouvidos atentos. — Olha, antes de tudo…
— Fala logo, cara.
— Parece que é mais sério do que daquela vez, naquele dia…
— Aquele dia que você quase morreu?
— É… — Antônio baixou o tom de voz e se encolheu ao ver o rosto trincado de . — E o doutor Depardieu não é mais o meu médico.
— Como é que é?! — arfou, arregalando os olhos. — Você ficou maluco? Fui até a porra da França buscar esse médico pra você, infeliz! Não acredito que se livrou do cara!
— Pode ficar mais calmo? Estamos em um hospital. — Antônio levantou as mãos em sinal de rendição, olhando para a porta, torcendo para que Constanzia não tivesse sido avisada sobre uma possível baderna no quarto particular. — Eu já tenho uma médica nova, Constanzia me fez esse maldito favor.
— Ah, sério? — respirou fundo, claramente mais pacífico com a nova informação. — E quem é ela? Eu conheço?
— Uma tal de … — ele olhou para frente e franziu o cenho, tentando se lembrar. Não reparou no breve calafrio que atravessou a espinha do chefe. — Bennett. Lembrei, é Bennett. Ela é nova por aqui. Vai me obrigar a ficar internado e fazer uma porrada de exames, mas se tudo der certo, pelo menos não vou ter que voltar por um bom tempo.
— Quais exames? — perguntou, pegando a prancheta colocada na base da cama. — Caramba, ela pediu isso tudo? Como conseguiu te convencer a ficar? Nem eu consigo fazer isso, mesmo ameaçando te demitir.
— É porque sem mim você nunca usaria um terno e pareceria um CEO de verdade. — Antônio sorriu, dando de ombros. — E ela me pediu com muito jeitinho, quase tão ameaçadora quanto você é às vezes, e além de tudo é uma gata.
— A essa altura, pouco importa se ela é a Alicia Silverstone. — resmungou , devolvendo a prancheta. — Quero falar com ela. Acredito que ela queira a mesma coisa, né? Pra manter você aqui.
— Disse que você tem que assinar algum tipo de formulário, mas, , será que não teria como tentar convencê-la uma última vez-
— Vai sonhando, idiota! Finalmente achei um bom médico que conseguiu colar essa sua bunda em uma cama de hospital até que esteja 100% e você quer que eu te tire dessa? Pelo contrário, vou encontrar essa fada madrinha pra dar os parabéns, ela acabou de ganhar um fã.
Antônio revirou os olhos e estava preparado para rebater com uma de suas infindáveis frases recheadas de palavras difíceis do ofício, quando o barulho da porta trouxe Constanzia para dentro do quarto.
— Senhor Belfort! — seu sorriso saiu hesitante quando pousou os olhos em . Diferentemente dos outros CEOs espalhados pelo mundo, aquele parecia que destruiria uma empresa com bombas de hidrogênio ao invés de construir uma. — A agitação nos corredores característica da sua chegada está bastante peculiar dessa vez. É seu novo corte de cabelo?
— Acho que é o emblema da jaqueta, entrei pra um novo motoclube, tá sabendo? — ele semicerrou os olhos. — E isso está dando o que falar, Constanzia, querida, os caras do clube antigo estão uma fera comigo, prometeram retaliação, talvez você nem me veja mais aqui por um tempo, estão me aterrorizando. Por isso vim garantir que esse miserável fique bom antes de qualquer coisa acontecer comigo.
Eles se encararam de forma muito séria por um minuto inteiro enquanto Antônio abaixava a cabeça, segurando o riso. Constanzia bem que tentou sustentar o olhar, mas deixou escapar o primeiro soluço da gargalhada, e as risadas voltaram a encher o quarto.
— Você não tem jeito mesmo, garoto. Veio de Newbury em cima daquela coisa perigosa de novo?
— Perigoso é não viver, Constanzia, querida. Mas se quiser verificar meu estado de saúde, pode chamar a salvadora do Liotta que depois de conseguir fazer com que esse imbecil se tratasse direito, ela pode fazer arrancar um dedo meu se quiser.
— Fiquei muito feliz em saber disso, Antônio! — Constanzia virou-se para o paciente com os olhos cintilantes. — Céus, a doutora Bennett já realizou um milagre no seu primeiro dia de trabalho. Estou muito curiosa pra saber como se deu essa conversa.
— Ele disse que ela é gata. — respondeu, recebendo um olhar de desaprovação do amigo.
— Eu não disse… — Antônio suspirou. — Digo, ela é gata, mas talvez, apenas talvez, ela tenha me convencido de que posso morrer antes de cantar Santa Manoel is coming to town, então sim, farei os malditos exames.
— Deve ter se apaixonado por ela. — Constanzia sussurrou para , recebendo mais um olhar reprovador de Antônio. — Inclusive, vou avisar que chegou para que ela volte ao seu quarto pra entregar o formulário e garantir de uma vez que você não escape.
Ela deu uma piscadinha para Antônio e seguiu para deixar a sala. Antônio mal esperou que a porta se fechasse para começar:
— E então, como ficou o acordo com o cliente de Hong Kong?
— Antônio! — arregalou os olhos. — Não vamos falar de trabalho aqui, você é maluco?
— Ah, me poupe, . Eu perdi uma reunião importantíssima estando aqui e aceitei ficar mais um tempo, o mínimo que você pode fazer é me atualizar do trabalho.
— Deu tudo certo, infeliz. Fizeram um pedido em massa antes mesmo de dizerem “oi”, e acredito que sua caixa de e-mail vai estar cheia até que saia daqui. A senhorita Rosa elogiou bastante depois da reunião… Ou será Teresa…
— Jesus, você não presta. — Antônio estalou a língua. — Por isso é perigoso te incluir nas reuniões, você tem uma capacidade incrível de parecer sério e mandão na frente de executivos, mesmo sem um terno, mas isso distrai as mulheres.
— Eu levo os negócios a sério, só não quero parecer sério demais, caso contrário a Marla não se sentiria confortável em se aproximar depois. Deus do céu, acho que ainda não é Marla… — ele cruzou as sobrancelhas e Antônio riu.
— É hilário ver seu teatrinho de fingir indiferença com mulheres bonitas. Tenho certeza que sabe o nome e sobrenome dela, e mais certeza ainda que a chamou de “boneca” antes de se despedir. Mal sabe ela que vai ser rejeitada de qualquer jeito.
— De forma plácida e gentil, porque eu sou um cavalheiro.
— É, você é a porra de um don juan.
— Mas isso não quer dizer que eu não vou aproveitar um pouco antes… — seu sorriso de malícia podia ser considerado a causa da ruína de muitas, começando no primeiro cumprimento. Antônio já viu acontecer e sabia que continuaria acontecendo enquanto seu melhor amigo não se apaixonasse de verdade.
No instante seguinte, uma enfermeira abriu uma fresta na porta do quarto, colocando apenas a cabeça para dentro.
Belfort? — ela perguntou e se levantou. — Você tem um telefonema na recepção. É de Katherine Keaton.
Ele assentiu para a enfermeira e suspirou.
— A Katherine? Sério? De novo? — Antônio questionou, ajeitando as costas na cama.
— Ela apareceu do nada na casa da minha mãe, queria que eu a mandasse embora?
Ele não esperou resposta e deixou a sala, curvando para o corredor de paredes brancas e desaparecendo pelo elevador na mesma hora que a nova médica de Antônio surgiu pela esquina contrária, desta vez trajada do jaleco e sapatos brancos, organizando os papéis nas mãos e notando que a porta do paciente estava entreaberta.
— Acabou de receber visitas? — ela perguntou ao entrar no quarto, fazendo Antônio dar um sorriso de canto. Ela tinha prendido duas mechas de cabelo para trás, deixando o rosto totalmente à mostra, e ele quis que ela parasse um pouco mais próximo dele para ver se aquela pintinha na bochecha existia mesmo.
— O cara que paga meu plano de saúde, você sabe… Ele foi atender uma ligação na recepção, não deve demorar.
— Tudo bem, eu vou deixar o formulário aqui porque acabei de perceber que vou ter muito mais trabalho do que pensei pra organizar a sala. Então, quando o seu benfeitor chegar, peça pra ele levar pra mim, por favor. Constanzia sabe onde é. Preciso conversar com ele sobre seus exames também, acredito que ele queira falar sobre isso, não é?
— Ah, ele está louco pra falar sobre isso, pode acreditar. Disse que já é seu fã só por ter me convencido a ficar.
— Então vamos nos dar muito bem. — ela sorriu e ouviu o novo bip do aparelho preso no bolso do jaleco. — Preciso ir, Antônio. Em vinte minutos eu vou estar na minha sala, tudo bem? Avise ao seu amigo. Vejo você mais tarde.
Ela lhe lançou um sorriso amigável e saiu da sala novamente, quase correndo desta vez por causa daquele bip contínuo. Como uma brincadeira engraçada do destino, retornou da recepção, com a expressão subitamente cansada por ter de explicar da forma mais calma possível que não, ele não tinha que avisar a Katherine onde estaria, nem quando e muito menos com quem assim que chegasse em Londres. Ele entrou no quarto com as narinas dilatadas, mexendo-se ansiosamente quando sentou ao pé da cama.
— Ela pegou no seu pé, né? — Antônio levantou uma das sobrancelhas, cruzando os braços.
— Essa não é exatamente a palavra. — murmurou , colocando os braços para trás. — É só que eu não sei mais de quais formas gentis avisar pra ela que não temos nada sério, e nunca teremos. Ela diz que entende, e eu acredito, e daí ela age assim e eu não sei mais…
— Ela só diz que entende, mas no fundo, está tentando fazer você mudar de ideia. Já conversamos sobre isso, você não está mesmo disposto a abrir só um pouquinho de espaço, nem que seja um tantinho-
— Não! — interrompeu, em um tom brevemente rude, suspirando logo em seguida. — Desculpa, é só que já tive de aguentar a minha mãe me forçando outro casamento no café da manhã, como se não escutasse nada do que eu digo sempre que vou lá. Esse lance não vai rolar comigo, e ela tá ficando desesperada, mas não posso fazer alguém infeliz por causa dos caprichos dela, e nem de ninguém. — ele balançou a cabeça e endireitou a postura, roçando a mão em um papel bem atrás de si. — O que é isso?
— A doutora Bennett veio aqui. Esse é o formulário que você tem que assinar como meu chefe, benfeitor, acompanhante ou seja lá o nome que dão. Como se eu fosse uma criança de doze anos. — Antônio revirou os olhos. — Quando terminar, pode ir entregar na sala dela. Vocês parecem ter um longo bate-papo pra fazer sobre a minha saúde debilitada.
— Ah, pode acreditar que temos. — riu enquanto sacava uma caneta cara de dentro da jaqueta, assinando o que devia e lendo as demais palavras do questionário em cima da prancheta. Não fez pergunta alguma para Antônio. Parecia conhecê-lo melhor do que qualquer pessoa.
Terminou tudo muito rápido. Guardou a caneta de volta e começou a caminhar para a porta.
— Ei, acho que está muito cedo. Ela disse que iria voltar para a sala em pelo menos vinte minutos.
— Não tem problema, sou um cara adiantado. — abriu um sorriso divertido. — Vou pedir pra alguma enfermeira trazer seu jantar. Você está mais pálido do que o Drácula.
— Muito engraçado. — Antônio semicerrou os olhos. — Não vai dar em cima dela, ! Ela parece realmente querer salvar o meu rabo.
Exatamente por isso preciso dar em cima dela. — respondeu sério, e fechou a porta antes que o travesseiro de Antônio o atingisse bem no rosto.
Sem se lembrar de perguntar ao amigo onde exatamente ficava a sala da mulher, ele pediu informação a primeira enfermeira que encontrou. Depois de conseguir o que queria e, de quebra, solicitar a refeição de Antônio, seguiu adiante para o elevador, desceu pelo menos dois andares e achou a porta da sala indicada entreaberta, a qual ele empurrou devagar, ouvindo o “nheec” grotesco da estrutura há muito tempo parada.
A sala estava um caos, não apenas pela recente mudança da nova funcionária, mas também porque parecia estar fechada há pelo menos vários meses. O forte odor da poeira e móveis abandonados havia quase que totalmente desaparecido graças à janela recentemente aberta, recebendo a luz do sol e expulsando todo o ar sufocante lá de dentro. A mesa principal de vidro estava limpa, e alguns objetos já estavam sendo depositados em cima dela. Um casaco de linho fino estava dobrado em cima da cadeira presidente, um pequeno computador ligado a um telefone, algumas pastas organizadas em algum tipo de sistema pessoal da mulher, uma placa retangular de vidro com o nome “ Bennett” e algumas fotografias dentro de uma caixa de papelão ainda intocada.
O plano era deixar o formulário em cima da mesa, junto com seu cartão de visitas, para que ela enviasse as demais informações sobre Antônio pelos meios formais, como um fax ou um telefonema. Ele não pretendia espiar. Mas algo naquele primeiro porta retrato, acima dos outros, chamou tanto sua atenção que ele teve vontade de consultar o primeiro psiquiatra assim que saísse dali.
Um pedaço do papelão escondia metade do rosto, mas ele não começou por aí. A barra da fotografia mostrava mãos que seguravam o rolo de um diploma, e a manga longa da beca caía sobre seus antebraços. Subindo mais um pouco, ela usava uma medalhinha bem pequena, mas ele viu a imagem do castelo de Dublin com um brilho mínimo, sendo o personagem secundário na foto.
Quando finalmente chegou ao rosto, ele jurou que não a pegaria. Porque não tinha sentido. A parte exposta do sorriso nem queria dizer muita coisa, era apenas metade dele, e era um sorriso bonito, sim, claro, mas não era isso. Foi quando chegou aos olhos que tudo mudou. Que ele sentiu a pele gelar como um cadáver, e a garganta ficar tão seca quanto um deserto.
Não era possível.
apoiou as mãos na mesa, olhando atônito para a fotografia, porque aqueles olhos, Deus, aqueles olhos eram os mesmos. Ela estava diferente, havia crescido, sabe-se lá quantos anos tinha aquela foto, e Bennett, quem raios era Bennett, Bennett, quem é Bennett?!, mas os olhos de alguém não mudam. E eram os olhos atormentadores que datavam de anos, que invadiam seus pensamentos há uma década, que ele sempre achava que tinha esquecido, mas era sempre surpreendido com os detalhes imortais cravados a ferro no cérebro.
Ele nem percebeu o barulho da porta. Nem percebeu a garota que entrou apressada, e ele nem sabia quanto tempo estava ali parado, imóvel, olhando a fotografia e participando de um tipo de revivescência interna que doía como um soco no estômago.
— Olá? — ela disse ao notar o rapaz de costas parado em frente à mesa. — Posso ajudá-lo?
Ele ouviu a voz e sentiu cada nervo de seu corpo latejar. Estava realmente preocupado de seu coração não se aguentar dentro do peito e cruzar as linhas do esôfago e da laringe até o ar livre. Aquela voz trouxe tantas coisas de volta à sua mente que ele se perguntou se conseguiria se manter de pé.
estranhou a falta de resposta e se aproximou ainda mais, notando o papel preenchido em cima da mesa.
— Ah, você é o chefe do Antônio? E amigo também, pelo que soube. Que bom que conseguiu achar a sala, eu mesma devo ter me perdido pelo menos duas vezes. — ela riu ao se lembrar de sua volta atrapalhada e aquilo doeu, as lembranças doeram mais do que ele podia imaginar. — E então, qual é o seu nome?
Ele tentou controlar o nervosismo nítido em sua expressão e pensou seriamente em simplesmente sair correndo. Era fácil, rápido. Ela faria perguntas depois, o acharia maluco, mas de que isso importava? Isso tudo era loucura demais. Ele não podia enfrentar isso de novo.
Não dava para encarar a garota que havia amado tanto, mas tanto, e que havia magoado tão profundamente — pelo menos era o que ele pensava, o que sempre pensou — e havia sido magoado, e que tudo isso corroeu até o último pedaço de esperança e felicidade em seu peito por tanto tempo que ele nem se atrevia a relembrar, e que toda a angústia que sentiu por não saber onde ela estava quase o havia deixado maluco. Não. Ele não podia.
Mas ela estava ali. Para bem ou para mal, nada estava muito claro em sua mente ainda, e as coisas poderiam ser desastrosas para sua cabeça depois porque com certeza o seu dia não seria mais o mesmo, nem sua semana, talvez nem o seu ano inteiro, mas ele precisava ver, precisava se virar, não poderia fugir.
— Está tudo bem? — ela perguntou mais uma vez, dando um passo à frente. Começava a ficar preocupada pelo comportamento estranho do rapaz. Uma das enfermeiras tinha comentado ligeiramente que o amigo-barra-chefe do senhor Do Valle parecia um membro interino de alguma gangue do sul, o tipo de gente que estava sempre se mexendo em direção à coisas clandestinas, e a intenção de acreditar na história passou rapidamente pela sua cabeça.
Mas então ele se virou. Lentamente, como se ainda não tivesse certeza do que estava fazendo. E eles se olharam nos olhos. E ela ainda demorou pelo menos cinco segundos para entender o rosto pálido e impassível do homem à sua frente, como da primeira vez que o rosto de pairou borrado acima do seu pela primeira vez. Aquele rosto conhecido por cada poro interno de seus ossos, o traço errático e vulgar a respeito da linha cheia de seus lábios, como se ele fosse engoli-la se chegasse perto o suficiente. Por fim, ela sentiu o cheiro dele e tudo veio à tona em um rompante.
— Meu nome é . — ele respondeu, com a voz abafada e distante, tão distante. parecia estar ouvindo-a a quilômetros de distância. — Um nome comum.




f i m.


NOTA DA AUTORA › Oiê! Newbury é a cidadezinha pequena cheia de fofoca tal qual qualquer semelhante no Brasil, e fazer isso na década de 80 foi ainda mais prazeroso. Sou apaixonada por coisas antigas e amei retratar um período de adolescência sem celulares, computadores e tecnologia, fazendo com que o ponto alto do dia de garotos comuns fosse simplesmente uma corrida de bicicleta ou ouvir discos na garagem.
E se mais uma vez eu teimei com final aberto, não fiquem zangadas! Karen e Edward vão voltar pra acertar as contas.
Como sempre: obrigada por ter gastado seu precioso tempo nessa página. Até mais ɞ


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