03. gold rush

Autora Independente do Cosmos ✨
Finalizada em: 14/04/2026


I

Gleaming, twinkling
Eyes like sinking ships on waters
So inviting, I almost jump in
descobriu, naquele fim de tarde, que tinham coisas muito mais irritantes do que café frio.
Uma delas era estar há quarenta minutos tentando revisar o mesmo parágrafo de sociologia enquanto organizava devoluções atrasadas, etiquetava livros que ninguém conseguia devolver no lugar certo e ignorava a dorzinha latejante que começava atrás dos olhos.
A outra entrou pela porta da biblioteca acompanhado da coordenadora do curso. .
E era impossível não saber quem ele era.
Ela podia fingir que não reconhecia o rosto dele das festas do campus, dos cartazes do centro acadêmico, das fotos marcadas em perfis que ela nunca seguia, mas que sempre apareciam ainda assim. Podia fingir que nunca tinha visto o sorriso dele estampado no mural da universidade do lado de frases motivacionais genéricas demais para serem levadas a sério.
Podia, mas seria mentira.
era o tipo de garoto que ninguém conseguia tirar os olhos. Bonito, popular, educado quando precisava, dono daquele ar insuportável de quem nunca precisava fazer muito esforço para conseguir as coisas.
fechou o livro, sem muita pressa.
Não porque tinha tempo de sobra para entender o que acontecia. Mas porque, se fechasse com força, a coordenadora percebesse.
— Helena, a professora e coordenadora do curso, chamou. — Tem um minuto?
olhou para a pilha de livros no carrinho do seu lado, depois para o relógio e depois para .
— Acho que sim?
O garoto ergueu a sobrancelha, como se estivesse segurando uma risadinha.
A coordenadora fingiu não perceber.
vai cumprir algumas horas de apoio aqui na biblioteca nas próximas semanas.
piscou mais uma vez.
— Aqui?
— Aqui — Helena afirmou.
— Na biblioteca?
sentiu o estômago queimar.
— Sim, . Na biblioteca.
Ela olhou de novo para , que agora tinha as mãos nos bolsos da calça, usando um moletom escuro da universidade e tentava fazer uma expressão de puro arrependimento.
Tentava. Aquele era o problema.
Até o arrependimento dele parecia fotogênico demais.
— Que sorte — resmungou.
A coordenadora soltou um pigarro, claramente tentando ignorar as reações de ambos ali.
incomodada. parecendo não ligar para o que acontecia.
— Ele se envolveu em um pequeno incidente durante a festa de recepção dos calouros.
— Pequeno incidente? — arregalou os olhos, discretamente.
— Derrubaram uma escultura no hall do prédio de artes — começou a se explicar, como se aquilo fosse ajudar em algo.
Ela o encarou.
— Você derrubou?
Tecnicamente, tentei impedir que derrubassem — deu uma coçadinha na lateral da testa. Até sem graça ele conseguia ficar bonito.
— E conseguiu? — questionou, franzindo o cenho.
— Parece que não.
A garota respirou fundo e olhou para Helena outra vez.
— Professora, tenho certeza que existe algum laboratório precisando de alguém pra limpar microscópios. Ou o estacionamento. Ele parece sempre precisar de ajuda.
Tudo o que não queria e precisava era ter alguém no seu pé durante seu turno na biblioteca. E, além do mais, alguém para vigiar.
Alguém como .
— A biblioteca também precisa — Helena respondeu, como se não fosse nada demais. — E você é a monitora responsável pelo turno da tarde, .
Ela apertou os lábios.
Mas que merda!
— Ele só precisa ajudar com tarefas simples — continuou. — Organização de devoluções, reposição de livros, conferência de etiquetas. Nada complicado.
olhou para . Precisava fazer muito esforço para não deixar evidente sua expressão de ódio.
— Você sabe o alfabeto?
Ele colocou uma das mãos no peito, como se tivesse se ofendido.
— Depende. Tá falando do português ou de algum código que só você usa aqui dentro?
mordiscou a bochecha por dentro.
— Português já seria um começo.
Helena olhou para , como se suplicasse para que ela cooperasse com a situação. E quase que a garota cogitou pedir transferência.
, vai te orientar hoje. Você começa com duas horas por turno, três vezes por semana. Combinado?
— Combinado — assentiu.
A coordenadora sorriu, satisfeita e se afastou em direção à enorme porta de madeira da biblioteca. Quando a porta fechou, o silêncio ficou evidente.
Ou quase.
Porque ainda estava ali.
Alto demais. Bonito demais. Perto demais.
engoliu em seco e empurrou o carrinho de devoluções na direção dele.
— Pode começar por aqui.
olhou para os livros.
— Certo.
— Cada livro tem uma etiqueta — apontou. — Você confere o código e coloca na seção correspondente.
— Bom, parece simples — sorriu.
— Sempre parece — revirou os olhos. Notou que o garoto seguiu até o carrinho, pegando o primeiro livro da pilha com cuidado exagerado demais até.
— Então você é minha chefe?
— Supervisora — corrigiu, ainda sem olhar para ele. — E temporária.
— Vou tentar causar uma boa impressão então — ele ergueu o corpo e virou o rosto para olhá-la melhor.
Como se aquilo fosse causar algum efeito em .
E até causaria, com aquele maldito sorriso, mas ela fez o possível para se conter.
— Comece colocando poesia longe da seção de direito.
Ele abaixou o olhar, para o livro que tinha nas mãos.
— Isso acontece muito?
— Mais do que deveria. As pessoas confundem tragédia com legislação — resmungou, respondendo só o básico. Direta e reta. Como tinha que ser.
Quanto mais quieta ficasse, mais conseguiria evitar qualquer contato além do obrigatório com . Seria maravilhoso para ela.
Ele soltou uma risadinha baixa e a garota odiou ainda mais a situação.
Só precisava aguentar mais algumas semanas.
Só mais algumas semanas.

II

But I don't like a gold rush, gold rush
I don't like anticipatin'
my face in a red flush
Na segunda vez em que apareceu na biblioteca, teve a decência de não se surpreender por ele estar atrasado.
Quatro minutos, daquela vez.
Não comentou quando ele atravessou a porta de madeira com a mochila em um dos ombros, os cabelos ainda úmidos e aquele sorriso calmo nos lábios. Também não comentou quando ele parou na frente do balcão e apoiou as mãos na madeira.
— Antes que você diga qualquer coisa, eu sei. Tô atrasado.
virou uma página do livro que fingia ler.
— Que bom. Isso economiza meu fôlego.
— Foram só quatro minutos — se explicou.
— Tá melhorando. Quem sabe você ainda descubra algum dia como chegar no horário.
soltou uma risadinha baixa, fazendo o coração da garota aquecer brevemente.
Aquilo a irritou.
— Qual a tarefa de hoje, supervisora?
ergueu os olhos.
usava uma camiseta branca por baixo do casaco azul marinho da universidade. Não tinha motivo algum para ela reparar nisso. Mas ainda assim, reparou. Guardou a informação em algum cantinho inútil da cabeça e apontou para o carrinho do lado.
— Devoluções do corredor três. E, por favor, tenta não misturar os livros de sociologia com Ciências Sociais.
Ele balançou a cabeça, sabendo exatamente sobre o que ela se referia.
— Eu tava um pouco inspirado naquele dia.
— Você colocou Durkheim em literatura russa — arqueou uma das sobrancelhas.
— O nome parecia difícil.
— Essa é sua desculpa? — cruzou os braços. era alguns centímetros maior do que ela, logo, precisava olhar um pouquinho para cima. E, céus, que visão.
— Tenho piores. Pode apostar — piscou. Ela continuou o encarando, até que se rendesse. — Tá bom. Corredor três. Sem nenhum crime acadêmico.
Pegou o carrinho e se afastou.
E foi exatamente assim que aconteceram as semanas seguintes.
chegava atrasado até que, sem qualquer aviso, começou a chegar no horário. Errava a organização dos livros, depois errava um pouco menos. Aprendeu a falar baixo, a não mexer nas canetas de e a diferença entre devolução, reserva e renovação.
Aprendeu também que ela sempre deixava o café esfriar, sem perceber.
Quando deu por si, no quinto turno, já estava entrando na biblioteca com dois copos quentinhos nas mãos.
Colocou um deles do lado do livro aberto dela sem dizer nada.
Ela olhou para o copo. Depois para ele.
— O que é isso?
— Café — deu de ombros.
— Eu sei o que é um café, .
— Então por que perguntou?
estreitou os olhos enquanto o maldito sorriso continuava no canto dos lábios dele. Parecia satisfeito com a reação da garota.
— É quente — explicou. — Achei que talvez fosse uma experiência nova para você.
Ela olhou para o copo mais uma vez, como se realmente duvidasse que ele tinha feito aquilo.
— Você trouxe café pra mim?
— Trouxe — assentiu. sentiu o coração esquentar mais uma vez. Droga!
— Por quê?
— Porque o seu café é horroroso. Parece que você passa amargura em pó.
Ela quase riu, mas se conteve.
— Ele combina comigo.
— Bom, eu discordo.
A resposta saiu simples, quase natural.
deveria ter ignorado. Deveria ter recusado, só para manter distância.
Em vez disso, ficou olhando para ele por um segundo a mais.
manteve seu olhar, adorando o que acontecia ali.
E era isso que começava a incomodar. Ele não parecia estar tentando conquistá-la.
Parecia estar prestando atenção.
E não sabia o que fazer com gente que prestava atenção nela.
— Isso é uma tentativa de suborno? — pegou o copo, desviando a atenção dele.
— Depende — pressionou os lábios. — Funcionaria?
Ela levou o café até a boca para esconder a feição sem graça.
Estava bom. Quente, forte e com pouco açúcar. Exatamente como ela gostava. Aquilo era um problema.
— Não — respondeu. inclinou a cabeça.
— Não funcionaria ou não funcionou?
— Vai organizar os livros, — resmungou.
— Isso foi você fugindo — riu fraquinho mais uma vez. Ela o encarou.
— Isso foi eu te dando ordem.
Ele não disse mais nada. Ainda tinha a mesma expressão calma e divertida no rosto.
Obedeceu e saiu andando. odiou aquela expressão que tinha no rosto dele. Odiou mais ainda quando, no turno seguinte, procurou pelo copo de café antes mesmo de procurar por .
A biblioteca que antes só tinha silêncio que ela estava acostumada e sendo acompanhada pelo copo de café gelado, agora tinha a presença de para tudo quanto era canto.
Perguntando se romance histórico deveria ficar em história ou literatura. Ficando depois do horário para terminar uma pilha que não era obrigação dele. Aparecendo com biscoitos quando percebia que ela tinha passado o expediente inteiro sem comer.
E , contra toda lógica, começando a esperar por aquilo.
Não queria admitir. Nem em voz alta, nem para si mesma.
Mas tinha dias em que a porta abria e ela levantava os olhos rápido demais.
Era ridículo. Perigoso.
Exatamente o tipo de coisa que ela queria evitar desde o começo.
Porque não era apenas . Era o garoto que recebia cumprimentos de todo mundo nos corredores, o rosto que aparecia nos eventos da universidade, o nome que surgia nas conversas com muita facilidade.
se lembrou disso em uma quinta-feira, quando três garotas entraram na biblioteca um pouco antes do fim do turno e foram direto até o corredor onde ele organizava devoluções.
! — uma morena, mais baixa, chamou. Baixo o suficiente para não ser repreendida.
Ele virou com um livro nas mãos.
— Oi, Lara.
Óbvio que ele sabia o nome dela.
abaixou o olhar para a lista de reservas. Não ouviu tudo. Nem queria ouvir.
Mas ouviu risadas. Viu uma delas tocar o braço dele. Viu sorrir, gentil, como se aquilo fosse natural.
Como se todos tivessem direito a um pedaço dele. E sentiu uma coisinha pequena e feia se mexer dentro do peito.
Não era ciúme. Se recusou a chamar de ciúme algo que não tinha direito de existir. Era só irritação. É. Só irritação.
Com o barulho.
Com a interrupção.
Com gente que entrava na biblioteca sem precisar de livro nenhum.
Quando as garotas foram embora, voltou para o balcão.
— Terminei o corredor quatro.
— Ótimo.
A resposta saiu rápido demais, sem ela ao menos se dar conta.
Ele percebeu na hora.
— Fiz alguma coisa?
— Além de cumprir sua punição com uma plateia particular? Não.
apoiou as mãos no balcão.
— Você tá incomodada.
— Eu tô trabalhando — resmungou, pegando um livro atrás do outro.
.
Ela fechou os olhos por meio segundo. Odiou o jeito que o nome dela soou na voz dele. Cuidadoso demais. Íntimo demais.
— Seu horário acabou — fechou a pasta de reservas logo depois de arrumar os livros que segurava. Ao menos o olhava.
— Posso ficar e ajudar com o resto — deixou um sorrisinho escapar.
Ela não notou.
— Não precisa.
— Sei que não precisa. Tô oferecendo.
E então, olhou para ele. Quase quis aceitar.
Quase quis que ele ficasse, que os dois organizassem a última pilha em silêncio, que ele fizesse alguma pergunta idiota e que ela respondesse com sarcasmo, porque aquilo já começava a parecer deles.
E aquilo também era problema.
— Vai aproveitar sua liberdade, — disse, tentando demonstrar indiferença. — Tenho certeza que existe uma fila de pessoas esperando por ela.
O sorriso dele foi diminuindo.
— É isso o que você pensa?
se arrependeu no mesmo segundo.
— É o que todo mundo vê, .
desviou o olhar para as estantes. Pela primeira vez, parecia cansado. Não entediado ou impaciente.
— Todo mundo vê muita coisa errada — murmurou.
Ficaram em silêncio por alguns segundos. não sabia o que responder. Provavelmente tinha dito a coisa errada, no momento errado.
O viu pegar a mochila.
— Até segunda, supervisora.
Ela não respondeu. Viu saindo pela porta de madeira, enquanto duas pessoas o cumprimentavam antes mesmo que ele desaparecesse ali.
Foi aí que a biblioteca ficou silenciosa outra vez. Exatamente como ela gostava.
Mas agora não conseguia entender o porquê, quando olhou para o copo de café que ele trouxe mais cedo, que o mesmo silêncio pareceu errado demais naquela hora.

III

I don't like that anyone
would die to feel your touch
Era segunda de tarde quando chegou à biblioteca decidida a recuperar o controle da própria vida.
Era um plano simples: trabalhar, estudar, ignorar e não procurar por nenhum copo de café que talvez aparecesse ao lado dos seus livros.
Falhou antes das quatro da tarde.
Porque chegou no horário.
No horário, com dois cafés nas mãos e um embrulho pequeno de padaria equilibrado entre os dedos.
olhou para aquilo sem acreditar.
— Você tá tentando comprar minha boa vontade com cafeína e açúcar?
— Tô tentando descobrir se é possível comprar sua boa vontade — sorriu.
O sorriso que conseguia tirar os tijolos do muro do coração de bem devagar.
— Não é — respondeu.
— Imaginei. Por isso trouxe pão de queijo também.
Ela não quis sorrir. Mas sorriu por dentro, o que já era uma derrota considerável.
colocou o copo do lado dela, no mesmo lugar de sempre. Aquele gesto pequeno, repetido tantas vezes e que já era conhecido.
— Hoje você fica no balcão — ela comentou, pegando uma pilha de fichas. — Reservas e devoluções. Nada de inventar novas categorias literárias.
Ele sorriu e se acomodou do lado dela.
Por quase uma hora, trabalharam juntos em silêncio. Ou algo próximo disso.
fazia algumas perguntas baixinho, respondia com a paciência limitada de sempre.
Até que ele parou de digitar.
percebeu sem querer. Ultimamente, percebia coisas demais nele sem querer.
— O que foi agora? — perguntou, sem levantar os olhos.
— Não é nada, só...
— Deu problema no sistema? Ou tá pensando na vida?
— Os dois, eu acho — murmurou.
— Melhor resolver o sistema. A outra opção não é fácil de resolver.
riu baixo, mas não voltou a digitar.
Quando finalmente olhou para o lado, o viu encarando um cartaz dourado preso no mural de avisos próximo à entrada.

| Baile de inverno. Sexta-feira. Salão principal.


O tipo de evento que ela normalmente ignoraria com todas as forças. Um desfile de vestidos caros, perfumes doces e pessoas fingindo espontaneidade diante de câmeras de celular.
— Você vai? — perguntou.
acompanhou o olhar dele até o cartaz.
— Ao baile?
— Não, ao julgamento final. Sim, ao baile.
Ela respirou fundo.
— Não.
— Resposta rápida — sorriu. apoiou o cotovelo no balcão. — Por quê?
arqueou uma das sobrancelhas e virou a ficha que tinha nas mãos.
— Porque eu tenho coisas melhores para fazer.
— Tipo?
— Estudar. Trabalhar. Dormir. Reorganizar mentalmente a seção de literatura russa que você bagunçou — disse, simples. riu.
E ela quase riu também.
Só então notou que tinha algo diferente nele. Quase imperceptível.
Como se não tivesse perguntado à toa.
— Eu tenho que ir — respirou fundo.
— Meus pêsames.
— É parte da organização. Centro acadêmico, patrocinadores, professores, fotos constrangedoras para o site da universidade.
Ele fez uma careta, voltando a focar a atenção na tela do computador.
— Parece um pesadelo com buffet. Boa sorte.
também voltou para o computador.
— Vai comigo.
Os dedos dela pararam sobre o teclado. Por um instante, a biblioteca pareceu ainda mais silenciosa que antes.
virou o rosto devagar.
O quê?
não sorriu. Isso foi o que a desarmou primeiro.
— Vai comigo ao baile.
Ela soltou uma risadinha, sem humor.
— Bateu a cabeça carregando enciclopédias? — questionou. O que raios estava pensando?
— Não bati.
suspirou. — Essa pergunta não faz o menor sentido. Metade da universidade quer ir com você.
— Eu sei disso — sorriu.
não soube o que responder.
Ele passou o polegar pela borda do copo de café.
— Não tô te chamando porque preciso de companhia — continuou. — Isso eu teria de sobra.
— Nossa, que humilde — revirou os olhos.
— Tô te chamando porque talvez seja menos insuportável se você estiver lá.
Ela deveria ter ironizado. Algo afiado, rápido, eficiente. Mas ao menos conseguiu. Parecia ter travado.
— Eu não faço parte desse tipo de coisa — disse, mais baixo.
— Que tipo de coisa?
Ela olhou de novo para o cartaz dourado.
— Luz demais. Gente demais. Todo mundo fingindo que não tá observando todo mundo.
— Você acabou de descrever a universidade inteira.
riu fraquinho.
— Pois é. Eu já sobrevivo a isso durante a semana. Vai ser uma tortura no baile também.
a observou por alguns segundos.
— Acha que eu gosto disso?
Ela não respondeu. Porque parte dela achava. Ou queria achar. Era mais simples acreditar que ele pertencia perfeitamente àquele mundo. Que gostava dos olhares, dos convites, do seu nome sendo chamado no corredor.
Seria mais fácil odiá-lo assim.
— Eu acho que você sabe como fazer parte disso — deu de ombros. Ele continuava a olhando.
— Saber como fazer parte não é a mesma coisa que gostar, .
Disse, um pouco mais baixo. Até demais.
Ela desviou o olhar para o café que ele tinha trazido.
— Por que eu? — perguntou.
respirou fundo.
— Porque você é a única pessoa nesse campus que não parece querer nada de mim.
sentiu um aperto estranho no peito.
Quase riu. Quase disse que ele estava muito enganado. Porque ela queria, sim.
Queria que ele parasse de aparecer com café. Queria que ele parasse de notar quando ela não comia. Queria que ele parasse de sorrir o tempo inteiro para ela.
Queria, principalmente, não querer mais.
— Isso deveria te ofender — disse ela.
— Estranhamente, não ofende.
o encarou.
Ele estava ali, só sendo ele. Sentado do lado dela na biblioteca, pedindo para que ela o acompanhasse a um lugar onde todos provavelmente esperavam vê-lo com outra pessoa.
Qualquer pessoa que fizesse mais sentido.
— Não tenho vestido — disse, inventando qualquer desculpa.
segurou a risada.
— Eu também não.
— Idiota — respondeu, sem conseguir prender o sorrisinho de canto nos seus lábios.
Respirou fundo. Pensou por um, dois, três segundos.
— Se eu for — disse, apontando um dedo para ele — e isso ainda é um “se” enorme, não vou posar para foto, não vou sorrir pra patrocinador e não vou fingir que entendo conversas sobre famílias tradicionais da universidade.
Ele ergueu as mãos.
— Sem fotos, sem patrocinadores, sem famílias tradicionais.
— E se alguém perguntar por que eu tô com você?
Quase instantaneamente suas bochechas queimaram.
— Eu falo a verdade — estreitou os olhos. Ele inclinou a cabeça, como se a resposta fosse simples. — Que eu convidei você.
Simples. Direto. Terrível.
Porque, por algum motivo, aquilo pareceu mais íntimo do que tudo.
olhou para o computador de novo, apenas para ter algo para focar sua atenção sem ser ele.
— Vou pensar.
Ela balançou a cabeça, só de pensar na remota possibilidade de ir ao baile da universidade acompanhada por . Era loucura, tinha que admitir.
Mas, uma parte dentro de si, esquentou só de pensar que poderia acontecer. E que só dependia dela.
Olhou para o cartaz dourado no mural uma última vez.
Baile de inverno. Sexta-feira.
Um convite simples. Um lugar cheio demais.
Um garoto que todo mundo queria.

IV

Everybody wants you
Everybody wonders what it would be like to love you
queria desistir, pela terceira vez, antes de sair do quarto.
A primeira foi quando fechou o zíper do vestido e percebeu que ele ficava melhor do que ela esperava. A segunda, quando passou perfume no pulso e se sentiu ridícula por se importar com isso. A terceira, quando recebeu uma mensagem de .

tô te esperando na entrada. sem pressa.


Nada demais.
Como se ela não estivesse prestes a caminhar diretamente para o caos que aquilo seria.
encarou seu reflexo no espelho do dormitório. O vestido preto era simples, emprestado de uma colega. O cabelo estava solto, a maquiagem discreta, o coração absolutamente acelerado.
— É só uma festa — murmurou para si mesma.
Nem ela acreditou na própria mentira.
E quando chegou no salão principal, a universidade parecia ser outra. Luzes coloridas pelas paredes, taças brilhantes nas mãos dos alunos e arranjos brancos nas mesas que, muito provavelmente, custaram mais do que a bolsa mensal dela.
Parou na entrada. Por um segundo, pensou em virar as costas.
Então, viu .
Ele estava perto de uma das colunas, com um terno escuro, a gravata um pouco frouxa, o cabelo arrumado demais para alguém que costumava aparecer na biblioteca com ele úmido e bagunçado. Tinha duas pessoas falando com ele, mas parou de prestar atenção no segundo que seus olhos encontraram os dela.
Aquilo foi injusto. Muito injusto.
O modo como ele ficou parado.
Como esqueceu de sorrir por um momento.
Como pareceu vê-la antes de lembrar que todo o resto existia.
sentiu vontade de fugir.
Só que, ao contrário de toda sua vontade, caminhou até ele.
— Antes que você diga qualquer coisa — começou, erguendo o queixo —, eu sei que tô atrasada.
ainda demorou um segundo para responder.
— Tá.
— Quantos minutos?
— Sete — pressionou os lábios.
— Você contou?
Ele sorriu, finalmente.
— Trabalho em biblioteca agora. Tempo e silêncio são basicamente minha religião.
odiou que ele tivesse lembrado.
Odiou mais ainda que tivesse gostado.
— Você tá bonita — disse, direto. As bochechas de coraram antes que pudesse responder.
— Você também não tá tão ruim assim.
— Vou considerar um avanço.
Uma garota passou por eles, cumprimentando com um beijo no rosto. Depois outra pessoa chamou seu nome. E outra. Um professor se aproximou para comentar algo sobre o centro acadêmico, um grupo de alunos acenou de longe, uma menina perto da mesa de bebidas cochichou alguma coisa para a amiga enquanto olhava para .
Era rápido. Quase nada.
Mas sentiu cada olhar incomodando.
tentou ficar do lado dela o tempo todo. A apresentou a algumas pessoas, a puxou para longe quando percebeu que ficava quieta demais, riu baixo quando ela comentou que o buffet parecia ter sido montado para pessoas que não confiavam em comida de verdade.
Por alguns minutos, foi quase fácil.
Até que ele estendeu a mão.
— Dança comigo?
olhou para ele, quase arregalando os olhos.
— Não.
— Nossa — respondeu, sorrindo. — Você disse isso sobre o baile e tá aqui.
— Ainda dá tempo de me arrepender.
— Dá sim. Mas antes, dança comigo.
Ela olhou para a pista. Casais se mexiam sob a luz da festa, alguns próximos demais, outros só fingindo saber o que estavam fazendo.
, eu não sei dançar.
— Ótimo. Eu também não sei gostar de eventos da universidade. Podemos fracassar juntos.
deveria ter recusado.
Deveria.
Mas a mão dele continuava ali. Aberta. Esperando.
Sem pressa. Droga.
Ela aceitou sem pensar muito. a levou até a pista devagar, como se soubesse que qualquer movimento errado poderia fazê-la sair correndo.
Quando colocou a mão na cintura dela, prendeu a respiração por um instante.
— Relaxa — disse, baixo. — Prometo não pisar no seu pé de propósito.
— Que generoso, .
Ele riu fraquinho.
A música era lenta o suficiente para que eles não precisassem fazer muita coisa. Só se mover. Passos pequenos, a mão dela no ombro dele, a dele firme na cintura dela.
Por alguns segundos, esqueceu que odiava aquilo.
Esqueceu as luzes. As pessoas.
Esqueceu que era , o garoto de ouro da universidade, dono de um nome que todos conheciam.
Ali, ele era só o garoto que errava a seção de poesia. E o garoto que trazia café quente sempre que ia para a biblioteca.
— Você tá pensando demais — a olhou.
engoliu em seco.
— Eu ainda tô decidindo se fui sequestrada pela minha própria falta de bom senso.
riu. Chegou um pouco mais perto, não o bastante para tentar alguma coisa, mas o bastante para bagunçar a respiração dela.
Foi aí que viu. Duas garotas perto da mesa de bebidas observando os dois. Uma delas cochichou alguma coisa, a outra riu. Um rapaz do centro acadêmico olhou para , depois para , com uma surpresa mal disfarçada.
Mais à frente, Lara, a garota da biblioteca, acompanhava a cena com um sorriso nem um pouco inocente.
murchou na hora. Sua mão ficou rígida no ombro de e ele notou no mesmo segundo.
— O que foi?
— Nada.
.
Ela se afastou um pouco.
— Preciso de um ar.
— Eu vou com você — se ofereceu, pronto para sair da pista. Ela o segurou.
— Não precisa.
Sua resposta saiu mais dura do que imaginou. parou.
Ela não esperou para ver a expressão dele. Só atravessou o salão com a maior calma que conseguiu fingir.
só precisava sair dali, o mais rápido possível.

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Sentiu o frio quase bater como um tapa em seu rosto. E encontrou o silêncio logo depois dele. Ou quase.
A música ainda chegava abafada do lado de fora, misturada com o som das risadas e taças.
Caminhou até perto de uma fonte desligada e apoiou as mãos na borda fria. Que ideia estúpida!
Ir ao baile. Dançar com . Gostar de dançar com .
Tudo aquilo era um erro atrás do outro.
.
Fechou os olhos. Claro que ele tinha ido atrás.
— Eu pedi para você não vir.
— Na verdade, você disse que não precisava — rebateu.
— E você ignorou.
— Sim.
se virou. estava a alguns centímetros dela, com as mãos nos bolsos, a gravata ainda mais frouxa, o rosto calmo como sempre costumava estar.
Parecia ainda mais bonito que antes.
Droga!
— Você não precisava sair do baile por minha causa — murmurou.
— Eu não tava lá por causa do baile.
riu, sem humor.
— Não faz isso.
— Isso o quê?
— Falar como se não fosse nada demais — levantou as mãos no ar, se virando para ele. deu um passo, mas parou antes de chegar muito perto. — Você não entende.
— Então me explica, .
— Explicar o quê? — a voz dela saiu mais baixa, mas ainda afiada. — Que todo mundo lá dentro tava olhando? Que metade da universidade parece achar que tem algum direito sobre você? Que eu fiquei parada no meio do salão me sentindo uma piada porque ninguém conseguia entender o que eu tava fazendo ali?
ficou quieto.
Ela odiou que ele não interrompesse. Odiou que deixasse ela continuar.
— Não faço parte disso, . Desse mundo. Dessas pessoas. Disso tudo. E você… — respirou fundo, procurando as palavras certas. Não achou. — Você parece pertencer a tudo isso.
O rosto dele mudou.
— Isso não quer dizer que eu pertença.
Ela olhou para ele de novo. passou a mão pelo cabelo, desfazendo um pouco o penteado de antes.
Ainda continuou bonito.
— Acha que é fácil ser observado o tempo todo como se eu fosse alguma coisa para ganhar, exibir ou comentar depois? Acha que gosto de entrar em um lugar e ver as pessoas decidindo quem eu sou antes mesmo de eu abrir a boca?
ficou em silêncio.
— Com você, pelo menos, achei que era diferente — continuou. — Você me tratou como um problema desde o primeiro dia. Foi irritante, mas era real.
Ela sentiu o coração apertar.
— Eu ainda trato você como um problema.
— Eu sei. Mas agora você faz isso trazendo café também quando acha que eu não tô vendo.
abriu a boca. Fechou.
Traidor. Ele também percebia.
— Não quero gostar de alguém que todo mundo quer — disse, baixinho.
A verdade era aquela. Pura e única.
Ela não queria competir com todas as pessoas daquele campus. Sabia que perderia facilmente.
a encarou.
— Não sou de todo mundo.
Ela sentia o peito doer. Doer por algo específico que não sentia há muito tempo.
Sentiu os olhos arderem, mas se recusou a deixar aquilo virar choro.
Não ali. Não por ele. Nem por ela mesma.
— E não vou correr atrás de você pra te convencer — continuou.
Aquilo deveria aliviar. Mas só doeu ainda mais.
— Não?
— Não. Sei que você odeia se sentir encurralada.
soltou uma risada fraca.
— Você fala como se me conhecesse.
— Bom, eu tô tentando.
Ela o viu sorrir. sorriu e se aproximou devagar, dando a ela tempo suficiente para recuar, cortar a conversa ou para voltar ao salão, para ir embora de uma vez.
não se mexeu.
parou na frente dela.
— Posso te beijar? — perguntou.
fechou os olhos por um segundo. Era injusto que ele pedisse.
Seria mais fácil se ele fosse arrogante. Se tomasse a decisão por ela. Se desse a ela um motivo claro para odiá-lo, para empurrá-lo para longe e voltar para a biblioteca com a consciência limpa.
Mas não fez isso.
Ele esperou. Sem pressa, como sempre.
Ela ergueu o olhar.
— Isso é uma péssima ideia.
Ele quase sorriu outra vez.
— Eu sei.
— Péssima.
— Terrível.
— Provavelmente catastrófica.
Posso? — perguntou, por fim.
Ela deveria dizer não.
Só que, antes de pensar em dizer qualquer coisa, sua mão foi até a lapela do terno dele e o puxou para perto. O beijo foi mais confortável do que imaginou.
Não foi um beijo de cinema, nem desesperado. Era delicado, cuidadoso. Como se quisessem ter certeza de que iriam fazer certo, para que pudessem fazer certo outras vezes também.
levou a mão até sua cintura e os dedos dela subiram até a nuca do garoto, encontrando a pele quente debaixo do colarinho.
Foi justamente isso que a assustou.
Não era imaginação. Não era fantasia. Não era um sonho.
Era real. Simples demais. Próximo demais.
Como café quente do lado de um livro aberto.
Como uma risada baixa no corredor três.
Como alguém ficando depois do horário sem precisar.
Ela se afastou, minimamente. não tentou puxá-la outra vez.

— Eu preciso ir.
Ele fechou os olhos por um segundo.
— Tudo bem.
Ver que ele tinha concordado doeu de novo. Ela queria que ele perguntasse por quê. Queria que ele insistisse, talvez, só para poder odiá-lo por isso. Mas só deu um passo para trás, a deixando passar.
— Eu não… — ela começou, sem saber como terminar.
Não me arrependo.
Não sei ficar.
Não sei querer isso sem medo.
Nenhuma frase parecia certa para o momento.
segurou a própria bolsa de mão com força e caminhou de volta pelo caminho de pedra, sem olhar para trás. Não voltou para o salão. Só atravessou a lateral do prédio, passou pela luz amarela dos postes e seguiu em direção aos dormitórios.
Tudo o que precisava era colocar a cabeça no lugar.
Saber o que iria fazer na próxima vez que o visse.
Ou, até mesmo, se deveria vê-lo mais uma vez.

V

will never see a love as pure as it...
não dormiu nem um pouco.
Passou a noite virando de um lado para o outro, repetindo mentalmente a mesma cena: o jardim, o frio, a mão de na sua cintura, o beijo que era impossível esquecer.
O pior não tinha sido ele beijá-la.
O pior tinha sido deixar que ela fosse embora.
Se tivesse insistido, poderia transformá-lo em vilão. Poderia dizer a si mesma que ele era exatamente o tipo de garoto que imaginava: acostumado a conseguir tudo.
Mas só recuou.
Então, na semana seguinte, quando chegou à biblioteca, ela parecia igual a das semanas anteriores. As mesmas mesas, mesmas estantes, o mesmo cheiro de papel e café antigo. chegou antes do horário, abriu o sistema, separou as devoluções e organizou as canetas na ordem certa.
Era isso que pessoas sensatas faziam depois de beijar alguém em um jardim e fugir como se tivesse cometido um crime: reorganizar canetas.
Idiota. Ela estava sendo ridicularmente idiota.
Às quinze e cinquenta e oito, ela olhou para a porta. Odiou a si mesma por isso.
Às dezesseis, olhou de novo.
Nada.
Talvez fosse melhor assim. Talvez tivesse entendido o recado. Talvez tivesse decidido que não valia a pena lidar com alguém que beijava como se quisesse ficar e ia embora como se não fosse nada demais.
E foi aí que a porta abriu.
entrou minutos depois.
Quatro minutos atrasado.
Sem terno, sem gravata, sem o cabelo arrumado do fim de semana anterior. Usava o casaco da universidade, a mochila em um ombro e dois copos de café nas mãos.
Ela desviou o olhar para o computador antes que ele percebesse qualquer coisa.
Tarde demais.
parou de frente para o balcão e colocou um dos copos do lado dela.
No mesmo lugar de sempre.
olhou para o café. Depois para ele.
— Você tá atrasado — murmurou.
— Quatro minutos.
Ele quase sorriu.
— Se veio falar sobre o que aconteceu…— começou.
— Vim cumprir minha punição.
Ela o encarou. Nossa, ele tinha sido rápido.
Não disse mais nada. puxou o carrinho de devoluções para perto, como se fosse apenas mais uma segunda-feira qualquer.
.
Ele parou. A olhou e pareceu pensar um pouco.
— Não vou fingir que nada aconteceu — o garoto disse, baixinho. — Mas também não vou te encurralar no meio do seu turno.
sentiu o peito apertar.
— Você é irritantemente razoável às vezes.
— Tento compensar a parte em que coloco poesia no lugar de direito.
Ela segurou o sorriso que iria surgir no canto dos lábios. percebeu.
— Corredor três? — perguntou.
Olhou para a pilha de livros.
— Você pode começar pelas reservas. No balcão.
ficou imóvel por meio segundo. Então assentiu e deu a volta, ficando do lado dela. Os primeiros minutos foram desajeitados. abriu o sistema, explicou funções que ele já sabia usar e entregou fichas que não precisavam ser preenchidas naquele momento. Ele ouviu tudo como se fosse algo novo.
Até que ela fechou a pasta com mais força do que pretendia.
— Aquilo foi um erro.
ficou em silêncio.
— Foi?
Ela abriu a boca, mas não soube o que responder. Deveria dizer alguma coisa. Só que era complicado. Ele era . E ela não queria ser mais uma pessoa correndo atrás dele.
— Não sei — admitiu. — Queria que tivesse sido.
O rosto dele continuava calmo.
— E por quê?
— Assim seria mais fácil — resmungou, mais para si mesma do que para ele.
assentiu devagar.
— Não quero ser algo difícil na sua vida, .
A garota o olhou mais uma vez.
— Mas você já é.
abaixou o olhar por meio segundo. respirou fundo, cansada de tudo. De fingir que não se importava, de fingir que nada acontecia no próprio coração.
— Não quero competir com metade da universidade por alguém que talvez nem perceba quantas pessoas estão querendo ter ele — continuou, engolindo em seco.
Ele agora a olhava, prestando atenção em cada palavra que ela dizia.
— Sei disso.
perdeu o ar por um segundo.
Ele sorriu, quase imperceptível.
— Sempre notei isso. Por isso eu gostava de vir pra cá. Aqui você só queria que eu colocasse os livros no lugar certo.
O silêncio surgiu devagarzinho, mas não os incomodava. olhou para o café do lado do livro. Ainda quente. Sempre no mesmo lugar.
— Eu não sei fazer isso, — confessou, sentindo o rosto esquentar de leve.
Ele inclinou a cabeça.
— O que? Ir ao baile?
— Gostar de você.
não sorriu. Só olhou para ela mais sério do que costumava estar.
— Então não precisa fazer tudo agora — franziu a testa, como se ele tivesse dito algo em russo. Talvez alemão. Ela não entendia nenhum dos dois. — Gostar de mim — deu de ombros, simples. — Confiar em mim. Parar de fugir. Não precisa resolver tudo de uma vez.
Aquilo a atingiu de um jeito quase assustador.
esperava pressão. Esperava uma pergunta difícil, talvez uma cobrança, talvez o tipo de insistência que a fizesse lembrar por que tinha criado tantas barreiras para evitá-lo. Mas só estava ali, do outro lado do balcão, com as mãos perto demais das dela e com um cuidado quase inexplicável.
— Tá se oferecendo pra ser uma tarefa de longo prazo? — perguntou, quase sarcástica. Só para não demonstrar o quão impressionada estava.
— Tô dizendo que posso começar sendo só o garoto que coloca os livros no lugar errado — ele sorriu.
Ela o olhou por alguns segundos.
Depois para o casaco da universidade. Para o cabelo bagunçado. Para o café ainda quente ao lado do livro.
— Você ainda coloca poesia na seção de filosofia — disse, tentando parecer convencida. Mordiscou os lábios logo depois.
— Isso quer dizer que ainda preciso de supervisão?
Ela pegou o café e levou até a boca, só para ganhar mais um tempinho.
Quente. Forte. Pouco açúcar.
Do mesmo jeito de sempre.
Do mesmo jeito que ela gostava.
Do mesmo jeito que tinha que ser.
Deixou que seus dedos encostassem nos dele, devagar, em um carinho quase sutil. E aí, sorriu devagarinho, deixando que o coração aquecesse por completo.
— Muita, . Muita.

FIM!

Nota da autora: Oie! Espero que tenham gostado desse versefic! Não esqueçam de comentar <3