03. Opalite

Autora Independente do Cosmos ✨
Concluída ✅


parte um

— You couldn't understand it, why you felt alone
soltou um xingamento baixinho quando percebeu que estava encharcada da chuva, gotas de água pingando dos fios do seu cabelo direto no chão enquanto fechava a porta atrás de si. O lugar estava todo escuro e, mesmo com as janelas fechadas, ainda era possível ouvir o som da tempestade caindo lá fora. Esqueceu-se de olhar o alerta de clima antes de sair de casa, então andou desprevenida. Sua sorte era que o cinema ficava a duas quadras do apartamento da sua melhor amiga, da qual ela tinha a chave e sempre tinha a sorte de sair com ele, então pediu permissão a Maya para se abrigar em sua casa, que prontamente permitiu.
A amiga estava na cidade vizinha a trabalho, mas não se importava com a presença de ali. Aquela altura do campeonato, elas compartilhavam quase a vida toda juntas.
Procurou o interruptor de luz, xingando outra vez ao bater a perna contra a lateral do sofá, encontrando o interruptor logo depois. Quando tudo iluminou, ela olhou para si, verificando o tamanho do estrago. Soltou a bolsa pequena em cima do sofá e deu um jeito no cabelo, mas precisava de um banho quente e de um secador. Ela bufou baixinho, trancou a porta e deixou a chave na maçaneta, virando-se pronta para seguir pelo corredor que dava direto ao quarto de Maya, mas parou, o grito de susto preso na garganta quando se deparou com a presença de outra pessoa ali.
A arquiteta levou um milésimo de segundo para reconhecer o homem parado no meio da sala. Sua mente se distraiu por um instante quando olhou bem pra ele e viu que ele estava vestindo nada menos do que só uma toalha ao redor da cintura, o peitoral nu exibido como se fosse uma obra de arte. E talvez fosse, pensou, porque ela definitivamente não se lembrava que o irmão da sua melhor amiga fosse tão bonito assim. Ou gostoso.
Até ontem, ele era apenas um garoto franzino e anti social, que nunca encarava os olhos das pessoas por mais de meio segundo e estava sempre fugindo de festas e de qualquer coisa que o obrigasse a socializar. Agora, embora fosse um jogador famoso e de prestígio, que atuava tanto no futebol alemão quanto pela seleção francesa, não o acompanhava muito. E, mesmo assim, vê-lo tão de perto tinha um efeito bem diferente do que vê-lo por fotos.
?
O jogador levantou apenas uma sobrancelha, encarando a garota completamente encharcada. A blusa branca estava colada a sua pele, deixando o sutiã vermelho transparente, a calça jeans toda escura devido ao contato com a água, fora a bagunça com seus fios de cabelo pingando. Ele se lembrava de com tanta clareza que era impossível não reconhecê-la mesmo naquele estado. Ela e sua irmã estavam sempre perto uma da outra, andando pra cima e pra baixo, conviviam tanto tempo juntas que sua mãe tornou o quarto de hóspede o dela.
— Oi, — ele murmurou, impassível, a expressão tranquila, como sempre.
A arquiteta já se perguntou uma vez se algo o abalava. Ele estava sempre com a mesma expressão, nunca falava muito e mantinha-se o mais distante que podia, o que, parando pra pensar, tornava engraçado a escolha de profissão dele.
Passado o susto, ela sentiu apenas o coração batendo mais rápido que o normal, dando-se conta da situação. Obrigou-se a manter os olhos no rosto dele, e não lá embaixo, enquanto também tentava não pensar muito sobre a sua própria aparência deplorável.
— A Maya não disse que você estava aqui.
— Você teria vindo? — a pergunta a pegou de surpresa.
Ela abriu a boca para responder, mas nada saiu, e seu rosto se contorceu em uma careta indignada, porque ele já sabia a resposta antes mesmo dela pensar em responder qualquer coisa.
Não, ela não teria vindo. Provavelmente se enfiaria em algum estabelecimento que ainda estivesse aberto por puro milagre e torceria para a tempestade diminuir um pouco enquanto sofreria tentando chamar algum uber. Como Maya não tinha avisado a ela que o irmão estava hospedado ali?
— Eu… — nada saiu da sua boca de novo.
ficou ali, a expressão ainda impassível, mas ele tentava a todo custo não deixar o canto da sua boca se erguer em um meio sorriso ao vê-la um pouco sem jeito com a situação. Ele não deveria receber a mulher vestido só de toalha, mas ele estava no banho quando escutou um barulho suspeito e, como a sua irmã também não avisou da chegada da melhor amiga, ele pensou em checar a segurança do lugar. Jamais pensou em se deparar com ali, muito menos que fosse vê-la tão cedo. Na verdade, se conseguisse seguir o seu planejamento de passar despercebido pelo resto da família na cidade, era capaz de que ele nem mesmo a visse antes de estar de volta à Alemanha.
— Eu preciso me trocar — ela finalmente disse, pegando a sua bolsa de volta.
Desviou o olhar de pela primeira vez e passou por ele o mais distante que conseguiu, e o jogador assistiu ela sumir pelo corredor até bater a porta do quarto de Maya, limpando o seu campo de visão. olhou ao redor e passou a mão pelo cabelo, soltando o ar devagar pela boca pouco entreaberta, pensando no que tinha acabado de acontecer. Talvez fosse melhor voltar ao seu banho e se vestir de uma maneira mais decente, ainda que não fosse a primeira situação constrangedora que se encontraram, mas não vinha ao caso.
Tudo o que estava na sua mente era a aparência quase adorável de encharcada pela chuva, aquele pedaço de pano branco se colando à sua pele, o pequeno colar de pérolas rodeando o seu pescoço, tornando-o estranhamente convidativo. E se pegou quase sorrindo, o canto do lábio se esticando, enquanto andava de volta para o banheiro, tentando terminar o que tinha começado.

Agora trancada e longe dos olhos enigmáticos de , a primeira coisa que fez depois de se livrar dos sapatos molhados foi pegar o celular e discar o número da melhor amiga, que atendeu no terceiro toque com uma voz sonolenta. sequer se importou se havia um fuso-horário maluco e que acordou Maya, porque ela estava ocupada demais ficando irritada com a situação que ocorreu um minuto atrás.
— Sua traidora traiçoeira! — quase esbravejou contra o telefone pressionado em seu ouvido, enquanto começara a se livrar das próprias roupas na direção do banheiro do quarto.
Maya, do outro lado, ainda que não estivesse vendo-a, coçou os olhos e bocejou.
— Traidora e traiçoeira tecnicamente é a mesma coisa — foi o que ela respondeu de volta, recebendo um resmungo do outro lado da linha, que ela reconheceu ser o som de irritação. — Mas por que eu sou uma traidora?
— Eu te peço abrigo e me deparo com o seu irmão só de toalha, porra — ela trocou o celular para o outro ouvido, livrando se da última peça de roupa. — Custava um aviso?
Ela ouviu a risada de Maya e revirou os olhos. A mais nova nunca se importou se houvesse algum tipo de interesse entre sua melhor amiga e o seu irmão, mas sempre deixou claro que aquilo não tinha a menor possibilidade de acontecer, afinal de contas, era completamente inacessível. Na sua adolescência, se ele trocasse duas palavras com ela, já era muito, então mesmo que o achasse bonito, nunca teve nenhuma esperança.
Ao contrário de Maya, que tinha uma ilusão exagerada sobre seu irmão gostar dela. Os argumentos da estilista sempre eram exagerados, mas com o tempo, aprendeu a ignorar. Passou apenas a ser uma diversão pra Maya encher o saco dela e quase sempre funcionava.
— Você não vai acreditar, mas em minha defesa, eu esqueci que o estava aí — Maya respondeu, sincera. — Além do mais, mesmo que eu te falasse sobre a presença dele, você não iria. E eu ia ficar preocupada se você continuasse na chuva.
resmungou, algo que fazia quando ficava sem argumento.
— O que você achou?
— De quê?
— Dele sem camisa.
A imagem instantaneamente surgiu em sua mente de novo e ela soltou outro xingamento, crispando os lábios. De tudo o que podia perguntar, claro que Maya perguntaria aquilo, fosse pra atormentá-la, fosse porque só estava curiosa.
— Cara, como eu te odeio. Se você não fosse minha melhor amiga, seria minha inimiga.
A estilista riu. ficou somente de peças íntimas e colocou o celular em cima da pia, deixando a ligação em viva-voz. não poderia ouvir nada dali.
— Acho que consigo ser as duas coisas ao mesmo tempo e você sabe disso — Maya disse.
Respirando fundo, começou a ajeitar o cabelo, usando a pequena toalha limpa do armário ali para enxugar o excesso de água em seu cabelo, encarando-se no espelho. Não que se importasse muito, mas poderia ter dado de cara com de maneira mais decente. O rímel tinha borrado, deixando-a com a aparência que, em sua própria palavra, seria descrita como deplorável.
— Ele está bonito — disse, depois de quase um minuto de silêncio, que Maya não estranhou. Estava acostumada com suas ligações e, às vezes, passavam mais do que um minuto só ouvindo a respiração uma da outra, como se só precisassem de companhia quando estavam muito longe.
Bonito?
Mais bonito — emendou. Já estava começando a se arrepender de dar corda pra aquele assunto.
— Ele tá solteiro. Quer vestir algo bonito? Tenho aquele vestido que eu comprei naquela promoção e…
conseguiu perceber quando Maya adotou o tom de empolgação característico dela, denunciando que ela estava começando a fazer planos sem sentido, e era sempre assim que sabia que precisava cortar a outra antes que tomasse uma proporção ainda maior.
— Maya, eu não vou seduzir o seu irmão — cortou-a com um tom firme, mas estava começando a sorrir, porque sério, agora era mesmo engraçado.
— Você não precisaria de tanto esforço.
— Quantas vezes preciso te dizer que ele não está interessado em mim?
Houve um minuto de silêncio do outro lado. Ela aproveitou e prendeu o seu cabelo, decidida a usar o secador depois do banho.
— Sabia que ele me pergunta de você? — Maya contou, pegando-a ligeiramente de surpresa. — Contei a ele sobre seu último encontro e tive que ouvi-lo falar por uma hora sobre como você está se sujeitando a muita merda por caras que não te merecem.
Estranho pensar em falando tanto, principalmente falando tanto sobre ela, mas não fazia sentido também sua melhor amiga inventar aquele fato. Maya podia ser tudo, mas não era mentirosa e, embora continuasse sendo uma grande torcedora entusiasmada não só do futebol do irmão, mas também da sua vida amorosa, ela não chegaria a tanto só para mudar de ideia.
Não que ela não gostasse de ; na verdade, ela até gostava, chegou a ter um crush fortíssimo nele quando tinha 16 anos, mas quando o jogador mudou-se para a Alemanha, esqueceu disso. E como também não eram exatamente próximos o suficiente a ponto de trocarem mensagens mesmo às vezes, seguiu em frente, namorou outras pessoas, terminou, e agora estava num limbo de encontros ruins. O último cara a fez ouvir por uma hora sobre uma teoria da conspiração que ela não prestou atenção e, no fim, ele a fez pagar pela batata frita que sequer consumiu.
— Talvez seja só um instinto protetor — respondeu. — Crescemos juntos, ele deve me ver como uma extensão de você, uma irmã ou coisa assim.
Ela ouviu a amiga bufar.
— Você não é uma extensão de mim e sempre soube disso — retrucou. — Além do mais, seria estranho se ele olhasse pra mim como olha pra você.
— Você é uma romântica nata incurável que está vendo coisas onde não tem, então não vou te perguntar como é que o seu irmão olha pra mim…
— Eu posso te contar sem problemas, sério, é como…
— Como o Tyler está?
— Não muda de assunto, ! — Maya reclamou, bufando outra vez.
riu.
Ela balançou a cabeça e deixou os ombros caírem, tentando relaxar mais os músculos tensos de seu corpo, enquanto ouvia Maya recomeçando a tagarelar sobre como acreditava que olhava pra ela, sobre como existia uma diferença enorme entre afeto fraternais e românticos e toda essa baboseira que sempre ouvia no fim de tudo. Como ela sabia que aquele monólogo duraria, pelo menos, vinte minutos antes de Maya perguntar se ela ainda estava ali, ouvindo, aproveitou o tempo para entrar no box e finalmente tomar um banho quente com a voz da sua melhor amiga de trilha sonora ao fundo.

parte dois

— You were dancing through the lightning strikes
But now the sky is opalite
Não parecia que a tempestade iria passar tão cedo.
ouviu quando os trovões começaram a estourar no céu e, quando já tinha tomado o banho e desligado a ligação com Maya, saiu do quarto vestindo apenas uma camisola velha da amiga e ouviu a televisão ligada em um canal de previsão de tempo, com três meteorologistas discutindo sobre a tempestade e quais riscos ela estava trazendo para a cidade. Quando se aproximou do sofá, não estava em lugar nenhum.
No centro da mesa, havia um objeto pequeno que, conforme ela foi chegando mais perto, percebeu ser uma pedra. Uma pedra pequena, delicada, que parecia brilhar. pegou, girando-a entre os dedos, verificando as luzes do brilho, pouco admirada, mas era até bonito.
— É uma opalita.
A voz de a assustou de novo; ela virou na direção da voz dele, encontrando-o perto do batente que ligava a sala à cozinha, e ele segurava o que parecia uma xícara de chá, mas não tinha cheiro de chá. Piscou, esquecendo-se do que ele disse um segundo antes, pois se perdeu na observação dele inteiro, tomando conta de que ele estava completamente vestido dessa vez. A expressão continuava imperturbável, cada linha rígida do rosto em seu devido lugar.
— A pedra que está segurando — ele explicou, apontando com uma mão bem brevemente. — É uma opalita.
soltou um murmúrio de entendimento suave e encarou a pedra novamente, colocando-a de volta no mesmo lugar que estava. De repente, sentiu-se estranha de estar ali, mas não havia nenhuma explicação para tal sensação. Ela tentou buscar na memória se já tinha ficado sozinha tanto tempo com alguma vez, mas não conseguia se lembrar. Sempre que estava na presença dele, estava na presença de Maya também, então não sabia muito bem como agir sem a pessoa que era uma ponte entre os dois.
Por outro lado, estava agindo naturalmente. Como se aquela situação fosse comum, cotidiana, como se estivesse acostumado. Ele se aproximou um passo mais da sala, de onde ela estava, e ofereceu a xícara que estava segurando.
— Leite quente com canela, seu favorito. Você quer?
olhou dele pra a xícara e vice-versa, mas acabou aceitando. Não estranhou que ele soubesse que gostava do leite quente com canela em dias frios, porque era normal, afinal de contas, a mãe dele vivia fazendo pra ela quase sempre. Passava mais tempo na casa dos do que na própria.
— Obrigada — murmurou, bebendo um gole. — Quanto tempo vai ficar aqui?
— Não muito.
Deu de ombros, sentando-se no sofá atrás de si. passou a língua pelo lábio e esquivou-se da mesa de centro, sentando-se na poltrona funda que ficava de frente para o sofá e os dois se encararam, o som da chuva lá fora soando como uma trilha sonora.
— Vi que você ganhou o campeonato com o seu time — ela quebrou o silêncio, sem saber exatamente sobre o que começar a falar. — Parabéns, eu acho. Provavelmente, você está acostumado a ganhar com o Bayern, mas…
— Um título é sempre inédito, mesmo que já tenhamos ganhado antes — murmurou, suavemente. — O que a torna diferente é o que fizemos naquela temporada. E… obrigado.
assentiu, bebendo mais um gole, desviando o olhar. Na varanda, havia uma fresta pequena por onde o vento gelado entrava, denunciando que a janela não estava completamente fechada. Estava começando a reparar em qualquer detalhe inútil para não ter que encarar bem na sua frente, do outro lado.
E também estava tentando silenciar a voz de Maya em seus pensamentos.
Tudo o que ela dizia parecia absurdo, claro, e sempre pensou isso. Mas agora sua mente lhe traía; estar sozinha com ele era o que provavelmente estava interferindo na sua completa sobriedade, porque não deveria estar considerando nada do que sua melhor amiga já tenha dito antes.
O silêncio não era incômodo entre eles. Para , era até uma benção, ele sempre preferia estar mais na dele, quieto, calado, invisível ao seu redor. Mas, de alguma forma, não queria que ficasse silencioso ali. Não queria apenas ouvir o som da chuva lá fora com bem ali na sua frente, a quem quase não via. Estava fora a maior parte do tempo e só conseguia voltar pra casa em alguns períodos de férias e, ainda assim, ele nunca ficava tempo o suficiente e nem sempre a via. Era diferente agora, adultos, do que quando eram adolescentes, quando o jogador podia encontrá-la em qualquer cômodo da sua casa.
— Estava no cinema? — Ele quebrou o silêncio.
virou o rosto na direção dele novamente. Franziu o cenho e segurou a xícara com as duas mãos, ajustando sua posição na poltrona, ficando mais confortável.
— A Maya sempre te fofoca?
A arquiteta quase podia ver o resquício de um sorriso no canto dos lábios dele quando baixou os olhos para o chão.
— Sobre você, nem sempre — respondeu, sincero. — Só quando eu pergunto.
— E com que frequência isso acontece?
— O tempo todo.
A sinceridade na voz a pegou desprevenida. Preferiu acreditar que o arrepio que tomou conta do seu corpo foi apenas pelo frio do vento que entrava de fininho pela fresta da janela, e não por causa dele. O gole do leite que tomou em seguida esquentou-a, mas não o suficiente. Ele perguntava sobre ela a Maya o tempo todo? Não fazia sentido.
Maya pode ter dito aquilo em algum momento e , como sempre, não acreditou naquela besteira, mas era diferente ver admitindo de maneira tão crua. Quando ele ergueu os olhos e a encarou de volta, não enxergou mais a indiferença que sempre acreditava que ele exibia. Ao longo dos anos, ela começou a entender que ele sempre fora reservado e mais quieto, e que não tinha problema nenhum com ela; nenhum pessoal, ao menos, era só o jeito dele.
— Por quê?
Ela não precisou explicar muito. entendeu aquela simples pergunta e engoliu a seco de modo quase discreto, não porque estivesse nervoso ou coisa do tipo, mas porque pensou que talvez não fosse uma boa ideia responder naquele momento. queria saber porque ele perguntava sobre ela e a resposta do jogador poderia ser simples e plausível, algo como dizer que era natural que ele quisesse saber sobre ela, porque cresceram praticamente juntos e que ela era da família. Seria uma boa resposta.
Uma boa resposta que não ia acreditar. sabia disso. E também sabia que aquela resposta não seria verdade, embora plausível. Reconhecia que certas coisas faziam sentido, o que as diferenciava era o nível de honestidade e queria muito ser honesto. Guardou as coisas por tantos anos, enquanto também tentou enterrar a fundo, que agora parecia querer tirar um pouco do peso de seus ombros.
No entanto, antes mesmo que pudesse responder qualquer coisa, o apartamento todo ficou completamente escuro. O som da tempestade lá fora piorava e a única luz vinha do céu brilhando com trovões e relâmpagos, quase como uma opalina, a mesma pedra que agora brilhava em cima da pequena mesa de centro. e não conseguiam ver um ao outro, mas estavam no mesmo lugar, exceto apenas com os corpos erguidos para frente.
— Merda — ela murmurou, baixinho, segurando a xícara em sua mão com um pouco mais de força.
— O prédio tem gerador, só precisamos esperar que alguém resolva — avisou.
nada respondeu, mas se levantou. Não tinha ideia de porque levantou ou para onde iria naquela escuridão, mas não avançou muito, tropeçando em algum lugar da mesinha de centro que não enxergou, derrubando a xícara de vidro. O som do objeto espatifando no chão fez ficar em alerta; apesar de não enxergar nada com a mesma clareza com que enxergaria com as luzes, ainda conseguia ver a sombra do corpo da arquiteta.
? — ele chamou, um tom notável de preocupação que nunca esteve lá antes; ao menos, nunca pra ela.
Ou assim ela pensava.
sentiu a palma da mão arder. A xícara tinha quebrado na sua mão antes de cair no chão, presenteando-a com um corte.
— Tudo bem?
Descalça e sem ter ideia de onde pisar para que não acabasse cortando os pés também, ficou no mesmo lugar, a pergunta de ecoando.
— Sim, tô bem — respondeu.
Duvidando daquela resposta, se levantou, puxou o celular do bolso e acendeu a lanterna com apenas um balançar do aparelho. Ele guiou a luz provisória na direção da arquiteta, parada em pé, com os cacos de vidros espalhados ao redor dos seus pés no chão, e a palma de sua mão sangrando.
— Acho que fiz a pergunta errada — ele murmurou, calmo, e deu apenas um passo longo até ela, estendendo sua outra mão desocupada. — Vem aqui.
O céu piscou novamente.
O vento gélido adentrou com mais força a fresta da janela, esfriando a sala mais um pouco. soltou um resmungo incompreensível e acabou aceitando a mão estendida do homem à sua frente, enxergando muito pouco do seu rosto. Era a primeira vez que segurava a mão dele daquela forma.
Sendo como era, toque físico não era a sua coisa favorita do mundo, então eles nunca se tocaram daquela forma. Mesmo nas comemorações de fim de ano ou de aniversário, nunca se abraçaram. Era sempre somente um sorriso discreto e um aceno de cabeça, seguido das felicitações.
Por isso, a sensação era… ela não soube dizer. A pele da mão dele era macia e áspera ao mesmo tempo, se isso fosse possível, e os dedos dele envolveram-se contra os dela muito rápido, quase como se tivesse medo que ela escapasse. Ele a ajudou a sair dos cacos de vidro com cuidado, sem que seu pé acabasse sendo cortado no caminho. Quando estavam perto do sofá, ela não fez esforço de soltar a mão dele, esperando que ele o fizesse, mas não parecia ter pressa nenhuma.
Direcionando a luz da lanterna do celular direto pra a palma da mão dela, disse:
— Não é um corte muito profundo. — observou. — Mas ainda precisa de cuidados. Vem.

parte três

— You finally left the table
and what a simple thought
You're starving 'til you're not
a levou direto para o quarto dele e deixou-a sentada na sua cama.
não teve escolha, a não ser ficar ali. Aparentemente, não se importava se as gotas de sangue dela manchassem sua roupa de cama, mas ele logo voltou, segurando uma pequena caixa de primeiros socorros e iluminando o lugar com a lanterna do celular. Sentou-se de modo desajeitado na frente dela, deixando a caixa de um lado e o aparelho do celular do outro, com a tela virada pra baixo. A luz da lanterna apontava direto para o teto, iluminando muito pouco, mas era suficiente para eles se enxergarem. E para enxergar o ferimento na palma da mão dela.
Ela estendeu a mão na direção dele, que segurou delicadamente, examinando o corte. O silêncio acompanhou os dois no processo dele abrindo a caixa e retirando de dentro os materiais que precisaria. Sua primeira intenção era limpar o corte, garantindo que ele não tivesse chance de infeccionar. A arquiteta mordeu o lábio, observando tudo; ele parecia concentrado o suficiente, uma ruga pequena surgindo no meio da testa dele.
Enquanto ele passava o algodão sobre a palma dela, limpando o corte e o rastro de sangue que deixou, perguntou:
— Por que você ainda perde tempo com esses caras nesses encontros?
A pergunta pegou a mulher de surpresa. Soou tão natural pra ele que sequer levantou o rosto pra olhar pra ela, dedicando sua atenção para o ferimento na palma da mão. mal sentiu a ardência do álcool ou o toque áspero da mão dele, só havia a pergunta ecoando no fundo de sua mente, afinal de contas, por que diabos ele queria saber?
Ele não reclamou pela demora da resposta. Na verdade, se existia um homem paciente, esse era ele, em todo o seu ser. Parecia que ele estava tentando muito que seu sistema nervoso não entrasse em curto circuito ou coisa do tipo, cuidando do ferimento dela de maneira tão lenta só para aproveitar estar tão perto dela daquela maneira. Ele se lembrava da sensação horrível de estar nos anos colegiais e ter que assistir, de longe, algum cara tocando-a em público, ela rindo de alguma coisa tosca que alguém disse, e de como parecia à vontade com alguém que não fosse ele. não entendia muito bem, naquela época, o que era todas as coisas e sensações que sentia que dizia respeito à , mas, conforme foi crescendo e seu entendimento das coisas foram ficando melhores, deu-se conta, numa tarde qualquer, ouvindo a voz dela vindo do andar de baixo, conversando com Maya, que estava apaixonado por ela.
Nunca contou isso a ninguém, é claro. Maya percebeu mesmo assim, ainda que ele também nunca tivesse verbalizado isso em voz alta. Então passou anos com Maya contando sobre . Sobre os namorados que ela teve, sobre como nada durava, e sobre como a arquiteta ainda parecia continuar procurando um relacionamento basicamente perfeito.
Que não existia.
— Não é assim que encontramos o amor? — finalmente respondeu, o cenho franzido.
terminou de enfaixar o curativo na mão dela e ergueu os olhos, encarando-a. Não dava pra ver muita coisa e nem a expressão dela com tanta clareza, mas era possível enxergá-la. O jogador deixou os ombros caírem, soltou os objetos dentro da caixa e deixou escapar um suspiro. Dentro de si, havia um milhão de coisas guardadas por anos, que ele esperou, em algum momento, perceber.
— Você não vê que ele está bem na sua frente?
A mulher arregalou os olhos levemente.
Sua mente de repente virou uma mistura de memórias infinitas e da voz de Maya no fundo, quase como se seu subconsciente quisesse mostrar que a melhor amiga estava certa quanto ao seu irmão e ao interesse dele, que nunca se permitiu acreditar, porque isso significaria abrir seu coração de novo para algo que provavelmente nunca aconteceria. Ela disse a si mesma, anos antes, que era inalcançável e deveria procurar outra pessoa acessível. Disponível. Nunca pensou que fosse ouvir aquilo da boca dele.
Como ela não respondeu, ele continuou:
— Eu não esperava te encontrar aqui nessa noite, talvez não te encontrasse em lugar nenhum nos próximos dias, e isso se estenderia por mais tempo, mas… — fez uma pausa, engolindo a seco, sem desviar os olhos dela sequer por um momento. — Maya diz que eu sou covarde. Porque eu sou apaixonado por você há tanto tempo que…
Ele não conseguiu terminar porque , em um impulso, o beijou.
O jogador ficou um pouco surpreso, mas não demorou para reagir e correspondeu ao beijo. Sua mão foi direto até a cintura dela, puxando-a mais para perto, agora que podia fazer isso, e Maya se apoiou com as mãos nos ombros dele, aprofundando o beijo.
Não podia mentir pra si mesma; claro que já imaginou aquilo acontecendo. Imaginou tantas vezes que chegou até a se desconectar da realidade, até esquecer daquilo. Seu coração batia diferente, o de estava igual, e os dois continuaram ali, concretizando algo que deveria ter acontecido há muito tempo.
De algum modo, acabaram deitando na cama, ele por cima dela, afastando o celular e a lanterna. Ele quebrou o beijo só o suficiente para olhar o rosto dela, afastando uma mecha de cabelo rebelde do olho, o primeiro sorriso sincero esticava os seus lábios presente em seu rosto iluminado não só pelo desejo, mas pela realização de finalmente se sentir correspondido.
— Tem certeza? — ele murmurou, quase vulnerável. — Não está fazendo isso por pena?
revirou os olhos e acariciou a lateral do rosto dele, que fechou os olhos por um instante pra receber o carinho. Maya tinha razão.
Ele foi covarde.
Porque podia ter aquilo muito tempo antes e podia ter aproveitado desde então.
— Por pena de você? ecoou. — , por favor.
O som de uma risada vibrou por sua garganta e ele se remexeu em cima dela, o peito subindo e descendo em uma respiração irregular. não conseguia acreditar que ele estava a tocando, algo que parecia detestar, mas estava se dando conta de que talvez fosse uma exceção para o jogador. Porque, pela expressão dele, estava gostando muito daquilo.
Ele abriu os olhos. Suas íris quase brilhavam.
— Ganhar campeonatos, troféus e medalhas… tudo isso é bom, é uma sensação boa ser campeão de algo — ele começou a falar, baixinho, no escuro, só pra ela. Sempre seria só pra ela dali em diante. — Mas eu só me importava com a sensação de ganhar você, .
A arquiteta mordeu o próprio lábio em um sorriso contido, se ajeitando no meio das pernas dele.
— E como está sendo?
— Eu não conseguiria encontrar palavras pra descrever nem se eu quisesse muito — foi a sua resposta.
Ele a beijou de novo.
Era diferente do primeiro beijo, e suas mãos começaram a brincar com o corpo um do outro, se testando, se conhecendo, gravando cada parte da pele um do outro como se fosse um quebra-cabeça valioso que precisavam memorizar. queria entender do que gostava e queria superar todos os outros a quem ela já teve uma vez, mas, principalmente, queria dedicá-la seu tempo, seu esforço e sua capacidade de amá-la tanto que ela não teria dúvidas sobre ele.
E o que importava pra naquele instante era só uma sensação que sempre correu atrás de experimentar, mas nunca conseguiu. Entendia agora que, de alguma forma, parecia estar destinada a experimentar com .
A sensação de que tudo se encaixava.

parte quatro

— And don't we try to love love?
A tempestade passou, mas não foi embora.
Ela continuou ali no dia seguinte e no dia seguinte, passando o tempo todo com . Os dois conversavam, mas passavam a maior parte do tempo trancados dentro do quarto, aproveitando a cama. Queriam aproveitar o máximo, dizendo que era pra compensar o tempo perdido, mas também para aproveitar as férias dele, antes que acabasse e ele precisasse retornar à Alemanha.
Não tinham conversado sobre um relacionamento, não sentiam que precisavam agora. Na verdade, tinha certeza de muita coisa, mas precisava deixar que se acostumasse com a ideia, já que passou muito tempo acreditando em uma coisa e agora vivia outra.
Sério, eu acho que você deveria desistir e focar só na carreira de futebol — dizia, sentada na bancada da cozinha enquanto ele desligava o fogo. — Ao menos nele, você é bom.
Em retaliação, beliscou a coxa dela, recebendo uma risada em resposta.
— Não está tão ruim assim.
— O cheiro de queimado é um indicativo, sabia? — ela retrucou. Puxou-o pelo braço, prendendo-o perto de si, as pernas entrelaçando contra a cintura dele. — Vamos, por que não me deixa cozinhar pra nós dois?
Ele bufou baixinho, frustrado.
— Porque eu queria fazer isso pra você — ele respondeu, as mãos no quadril dela. — Eu quero cozinhar pra você, quero te consolar em dias tristes e tomar um banho quente juntos em dias difíceis, quero te beijar de manhã, te beijar de tarde, te beijar de noite, quero cuidar de você.
O coração da arquiteta deu um salto. Aparentemente, demoraria pra ela se acostumar com aquilo, com essa nova versão que não conhecia desse cara que pensou conhecer sua vida inteira.
— Acho que você não precisa fazer tudo sozinho — ela disse, sorrindo. — Eu posso cozinhar e você faz todo o resto.
Ele bufou de novo.
— Tá, tá, já entendi — resmungou, mas não estava mau-humorado. — Queimei nosso café da manhã, e então?
Ao invés de responder, ela apenas beijou os lábios dele rapidamente.
— Isso é um sonho?
sorriu, os polegares acariciando a pele dela por cima da camisa velha dele que ela usava. O cheiro dele estava impregnado nela e não se importava. Achou graça na pergunta que ela fez, porque pensava igualmente, naquelas horas infinitas que estavam dentro do apartamento, se era um sonho.
Mas tocá-la e sentir o calor da pele dela tornava tudo realidade. Ele sentia e só por sentir já distinguia a realidade de sonho, agora o trabalho da sua mente era só o que podia acontecer dali em diante. O primeiro passo deu, e finalmente Maya pararia de chamá-lo de covarde.
— Não parece um sonho — ele respondeu, suave.
Quando ia para um encontro novo, se sentia ansiosa. A expectativa de algo novo sempre a acompanhava, mas já tinha virado rotina voltar pra casa frustrada. Não se importava de ter um sexo casual de vez em quando, mas beirava ao rídiculo o quanto os homens se esforçavam só para isso no primeiro encontro. Ela tentava dar uma segunda chance, só pra se arrepender depois, e ficava nesse ciclo, até decidir dar um tempo.
Os casais que conheciam e seus amigos em comum costumavam sempre dizer a mesma coisa, algo como “uma hora você vai encontrar alguém” e “quando você sabe, você sabe, e quando não sabe, não sabe” e parecia sempre que ela não sabia. A negativa sempre a acompanhava em todos aqueles encontros, por mais que ela tivesse indo de mente aberta.
— Quero te levar em um encontro — ele disse.
coçou a bochecha.
— Não precisamos disso.
— Precisamos, sim — discordou. — Vou compensar todas as suas experiências ruins.
Ela umedeceu os lábios, assistindo a expressão determinada dele.
— Nem todas foram ruins — corrigiu, se defendendo. — Além do mais, você é uma pessoa pública. Qualquer coisa sobre mim, sobre nós dois, vai virar notícia.
tinha um trabalho bom e tranquilo, nada comparado com a vida pública de , por mais que ele fosse reservado. Ela entendia como funcionava o mundo do futebol e, ainda que fosse um tipo de fama diferente, também era um tipo de fama ruim. Jogadores de futebol não eram exatamente vistos com bons olhos e perdeu as contas de quantas manchetes tendenciosas — embora verdadeiras, em sua maioria — já leu, principalmente sobre jogadores e as mulheres com quem eles saíam.
Não ia ser diferente com eles.
— Não vou te esconder pra sempre — avisou.
— Não estou pedindo isso — continuou. — Mas talvez a gente possa começar com coisas mais discretas? Se você quiser um encontro, tudo bem, mas nada de me levar em lugares públicos.
— Por enquanto?
— Por enquanto — concordou ela.
Ele pensou um pouco. Concordou que era justo, afinal de contas, ela não levava a mesma vida pública que a sua e prometeu a si mesmo ir no tempo dela. Qualquer condição ou termos que ela viesse a colocar naquele relacionamento, ele aceitaria. Esperou tempo demais para ser estúpido e estragar tudo agora.
— Alguma possibilidade de ir me ver jogar na Alemanha?
— Não descarto nada.
Ele beijou os lábios dela. colocou as duas mãos ao redor do pescoço dele, deixando-se levar por ele, por aquele beijo e pelo momento. Não estivera se sentindo tão feliz e leve assim fazia muito tempo. Era muito diferente da ansiedade que experimentara nos encontros ou quando dava uma chance pra beijar qualquer um deles e não era nada comparado ao que a fazia sentir.
Esqueceram-se do café da manhã e do mundo ao seu redor, isso explicava como não perceberam a presença de Maya e nem o clique da porta anunciando que alguém tinha acabado de entrar no apartamento. Maya não sabia que continuava ali, mas esperava encontrar o irmão, que prometeu não ir embora antes de vê-la e de passar um tempo de qualidade com ela, já que não se viam.
? — ela chamou.
Mas seu irmão não escutou, nem sua melhor amiga.
Ela deu de ombros, jogou as bolsas em cima do sofá e andou até a cozinha, atrás de um copo de água, se deparando com o casal ali.
— Não acredito! — Maya praticamente gritou, um sorriso gigante estampando o seu rosto, como se tivesse esperado flagrar aquele momento a sua vida inteira e agora finalmente aconteceu. — Eu sabia!
e se afastaram pelo susto da presença de Maya. Olharam na direção dela, apontando um dedo em riste para os dois enquanto se aproximava, alternando o olhar de um para outro. segurava a risada, mordendo o lábio inferior, e tentou manter a expressão impassível diante da empolgação da irmã, sem tirar as mãos de .
Maya balançou a cabeça.
— Que cheiro de queimado é esse? — investigou, franzido o cenho, mas logo descartou o assunto com um gesto de mão. — Não importa. Eu quero saber tudo sobre vocês dois agora. E não deixem nenhum detalhe de fora.
Aquele momento chegou mais rápido do que esperava, mas não se importou. Estava exatamente onde queria estar.

FIM!

Nota da autora: Sem nota!