04. Sugar Talking

Autora Independente do Cosmos ✨
Finalizada em: 24/03/2026


01

Put your loving where your mouth is…
tá acordada?
02h14 am

O display do celular de se acendeu no segundo que o barulho da mensagem a distraiu do filme que passava na TV.
Foi inevitável sentir o coração palpitar, já que pelo horário, ela sabia bem quem poderia ser.
Mordiscou os lábios e suspirou. Jogou algumas pipocas dentro da boca e esticou os dedos para alcançar o aparelho jogado no sofá.
Claro que era ele. Só podia ser ele.

acabei de chegar de viagem. posso passar aí?
02h16am

Ela encarou o aplicativo com a mensagem dele aberta por alguns segundos. A razão dizia claramente para ela fingir que tinha pegado no sono, que a pipoca tinha acabado e que sua vida não girava em torno do fuso horário de um piloto que cruzava continentes.
Mas seu coração, bobo e acelerado como sempre costumava ser, já tinha decidido por ela.

pode sim

02h20am

Vinte minutos depois ele já batia na porta.
ajeitou o blusão de moletom que vestia, tentando parecer bem menos ansiosa do que realmente estava. E ela se odiava por aquilo. Parecia uma adolescente pronta para seu primeiro encontro. Como podia ser tão boba assim?
Respirou fundo e seguiu até a porta de entrada do apartamento. E quando a abriu, deu de cara com .
Ele parecia exausto. Muito provavelmente estava mesmo. Sua rotina não era fácil, como sabia bem.
O cabelo castanho estava mais bagunçado que o normal, as olheiras leves entregavam que tinha dormido pouco e o cansaço acumulado do fim de semana de corrida era mais que evidente em sua expressão.
Mas, assim que ele colocou os olhos sob a mulher, sorriu instantaneamente; o típico sorriso que costumava estampar capas de revistas e transmissões oficiais da F1.
— Oi — murmurou. Sua voz estava um pouquinho mais rouca que o normal.
Não esperou qualquer convite por parte de . Deu um passo para dentro do apartamento, deixando a bolsa de viagem no chão enquanto o perfume que usava já impregnava as narinas de .
E aquilo fez seu coração bater mais rápido.
— Oi, — ela fechou a porta atrás de si. Encostou as costas no batente de madeira por alguns segundos. — Você devia estar dormindo agora. Amanhã tem simulador, não tem?
— Deve ter sim — deu de ombros, pouco ligando.
Tudo o que ele queria agora era estar envolvido no abraço quentinho da melhor amiga.
Caminhou em direção ao sofá, como se estivesse na própria casa.
deixou o corpo cair no estofado, soltando um suspiro longo.
— Não quero dormir. Quero silêncio. Com você, de preferência — resmungou. — E aqui é o único lugar que não tem ninguém me perguntando sobre telemetria, pneus ou alguma estratégia de pit stop.
Ele esticou os braços, chamando por . A mulher o observava.
Hesitou por alguns instantes, já sabendo exatamente o que aconteceria a partir dali. E não que ela não gostasse. Na verdade, gostava muito de estar com .
O problema era quando aquilo só acontecia ali.
Dentro do seu apartamento.
E em nenhum outro lugar.
Suspirou e se deu por vencida, se sentando ao lado dele. Meio segundo depois já estava deitado, com a cabeça em seu colo enquanto o dedão fazia um carinho em seu joelho.
— Senti falta disso — sussurrou, fechando os olhos brevemente.
, por costume, passou os dedos entre os fios de seus cabelos escuros.
Ela também tinha sentido falta. Muita.
Era sempre assim. chegava inteiramente cansado de todo o caos de sua carreira e ela se tornava, automaticamente, o porto seguro onde ele podia ser ele de verdade.
— Foi um caos em Jeddah — murmurou outra vez, a voz quase sumindo pelo carinho gostoso que recebia. — Muita gente, muita pressão. Só conseguia pensar em como esse sofá aqui é melhor que qualquer hotel cinco estrelas que estive.
esboçou um sorriso, mas não era como se estivesse adorando tudo aquilo. Foi automático.
Melancólico.
— Ah, é? — tentava manter o tom leve, apesar de estar um pouquinho magoada. Até que ela gostaria de viver aquilo também. — Pelas fotos que vi, o caos parecia bem suportável pra você naquele iate depois da corrida. Parecia bem à vontade.
abriu os olhos, virando o rosto levemente.
Deu um sorrisinho de canto.
— Ah, … Aquilo é trabalho. Tenho que sorrir para os patrocinadores, apertar mãos, lidar com RP o tempo inteiro. É exaustivo — esticou a mão e entrelaçou seus dedos nos dela, apertando devagarzinho. — Aqui é diferente. Não preciso ser O . Sou só eu. E você é meu descanso.
Meu descanso.
O coração de aqueceu. Se sentir daquele jeito acabava com ela.
Acabava porque por mais que gostasse de ser o lugar que pudesse descansar, odiava ser só aquilo.
— Parece conveniente, não? — resmungou. E não conseguiu disfarçar a amargura na sua voz.
Seus dedos pararam de massagear o couro cabeludo dele por um segundo.
— O que?
— Sou o lugar onde você vem pra se esconder de tudo, mas quando você tá pronto pro mundo de novo, não faço parte dele.
percebeu a mudança no tom de voz de e franziu o cenho, se sentando. Ficou de frente para ela e a observou.
O pijama folgado, o cabelo meio preso e meio solto naquele coque bagunçado que ela insistia em dizer que era o único penteado que sabia fazer e a TV ligada em um filme qualquer só deixava ainda mais claro o quanto aquele era o lugar que queria estar.
Mesmo não percebendo.
— Que drama é esse agora? — perguntou. Mas nem um pouco agressivo. Só daquele jeitinho brincalhão e doce que ele costumava ser. Se aproximou, envolvendo a cintura da mulher com os braços e a puxou para mais perto. — Acabei de descer de um avião e vim direto pra cá. Não parei em nenhum outro lugar. E eu podia estar em qualquer festa daqui de Londres, mas tô aqui com você. Comendo pipoca de micro-ondas e vendo um filme que não faço ideia do nome.
Deixou uma risadinha escapar.
balançou o corpo dela de um lado para o outro, ainda abraçados, em um ritmo bobo e encostou a ponta do nariz no dela, fazendo um barulho engraçado.
— Não fica brava, darling. Olha pra mim — fez cara de cachorro sem dono. A exata expressão que ele sabia que conseguia desarmar em segundos. — Sou todo seu. Só seu. Pelo menos até eu desmaiar de sono daqui a pouco.
Deu um beijo rápido no canto da boca de , depois no nariz, tentando fazê-la rir.
Era a tática de sempre; ser tão absurdamente fofo que qualquer assunto sério parecesse pouca coisa.
Sentiu o beijo do piloto descer para o seu pescoço e fechou os olhos.
Sabia exatamente onde ele queria chegar.
Só que, pela primeira vez, não tinha tanta certeza se queria aquilo tanto quanto queria.
🍬🏎️

02

Your sugar talking isn't working tonight…
O som do pub no Soho era uma mistura caótica de gargalhadas, copos se chocando e uma playlist de indie rock que costumava gostar.
Aquela era uma das noites que ela mais gostava no mês. Sempre que podiam, e suas amigas, Sophie e Lisa, da agência, se reuniam no pub Coach and Horses para jogar conversa fora e ficar horas bebendo a melhor cerveja da cidade.
estava sentada entre as duas, tentando focar na conversa sobre a nova campanha de tipografia que tinham acabado de entregar.
— Juro pra vocês, se o cliente pedir pra aumentar o logo mais uma vez, vou ter um colapso — Sophie ria, gesticulando com a caneca de cerveja na outra mão. — , você tá muito quieta. A cerveja esquentou? Você seria a primeira a falar pra eu mandar o cliente catar coquinho.
forçou um sorriso de canto, dando um gole rápido.
— Não, tá tudo ótimo. Só tô cansada. Vocês sabem como a semana foi longa.
— Cansada? — Lisa arqueou uma das grossas sobrancelhas, trocando um olhar cúmplice com Sophie. Se inclinou para frente, apoiando os cotovelos na madeira escura da mesa. — Acho que tem alguma coisa que você não tá contando pra gente.
— Não tem nada rolando, gente. É só trabalho acumulado — murmurou.
— Ah, é? Justo com você que não tem trabalho acumulado há séculos? — Sophie interveio, já rindo fraquinho. quis sumir por ter sido pega na mentira. Elas a conheciam muito bem. — E não vem tentar enganar a gente de novo dizendo que não tem ninguém por trás disso porque esse moletom da Fear and God — apontou para o moletom escuro que usava. — Nunca esteve no seu armário. E ele não é mesmo de brechó, . Isso custa meu salário do mês. O meu rim!
Lisa gargalhou. se limitou a rolar os olhos.
— Foi um achado. Já falei — tentou desconversar, mas sabia que não daria certo. As duas amigas eram insistentes que só.
— Aham. Um achado que, convenientemente, tem cheiro de perfume masculino. E caríssimo, por final — ouviu Lisa provocar, se aproximando rapidamente para sentir o cheiro. — Vamos lá, . Conta pra gente! Eu tô super curiosa — bateu palminhas. — Ele é um fotógrafo conhecido? Arquiteto? Não precisa desse mistério todo, vai.
sentiu o rosto queimar. Se praguejava mentalmente por ter inventado de colocar aquela roupa para trabalhar. Não imaginava que seria motivo de tanta curiosidade por parte de Sophie e Lisa. Mas, precisava admitir que o perfume de era irresistível e que, pior que a situação que se encontrava, era o fato de que havia colocado o casaco para saciar um pouco da saudade que estava sentindo dele. Só pelo cheiro.
Tola.
Pressionou os lábios e abriu a boca para inventar qualquer desculpa que fizessem as duas acreditarem no que tanto insistia. Talvez inventaria sobre alguém que estava conhecendo ou até arriscaria dizer sobre o carinha do RH que vinha investindo nela há algumas semanas, mas sua mente parou de raciocinar assim que viu, de relance, o que passava na TV do bar.
A Sky Sports estava exibindo a cobertura pós-corrida.
E claro que lá estava ele.
ocupava quase toda a tela em uma entrevista no paddock. Ainda usava o macacão da amarrado na cintura e a camisa branca do time levemente molhada de suor. Mas, o que puxava a atenção de era o rosto dele.
O rosto que ela costumava fazer carinho. Que costumava beijar.
estava radiante. Brincava com o repórter, tirava o fone de ouvido de um mecânico que passava e fazia uma careta engraçada para a câmera de um fã.
O que todos conheciam.
Sophie notou o olhar fixo da amiga e olhou para o mesmo lugar que ela.
Elas sabiam que adorava Fórmula 1.
— Olha lá — apontou para a televisão, completamente alheia ao tremor que começava a tomar conta das mãos de . Pensou que talvez falando sobre outro assunto poderia animar a amiga. — O . Deu um show hoje, pelo visto. Terminou no pódio de novo. Imagina namorar um cara assim? — perguntou, mais para si mesma do que para e Lisa. — Deve ser uma festa 24 horas por dia. Champagne no café da manhã e diversão o tempo inteiro.
— Eu tinha lido em algum lugar que ele tava saindo com uma modelo, de novo — Lisa deu de ombros, pouco ligando para o assunto. Tinha o celular nas mãos, passeando pelo feed do Instagram. — O cara nunca tá sozinho. Vive a vida que todo mundo queria ter, sempre no topo, sempre brilhando. Deve ser cansativo pra caramba, mas acho que vale a pena, né? deu um gole longo demais na caneca da cerveja já quente e sentiu o líquido descer mais amargo que o normal.
Olhou para o piloto e fechou os olhos brevemente.
Se lembrou de relance do que estava em seu apartamento, em uma madrugada qualquer no meio da semana. O homem que mal conseguia ficar de olhos abertos pelo cansaço, que se escondia debaixo do edredom cinza de e quase implorava para ela não ligar a luz, não fazer perguntas sobre a corrida e que só ficasse em silêncio com ele.
— Vocês acham que ele é assim o tempo todo? — perguntou. Sua voz saiu mais baixo do que pretendia.
— Assim como? — Sophie olhou para ela.
— Feliz. Animado — gesticulou vagamente para a TV. — Sempre pronto para a próxima rodada.
— E você acha que não? — Lisa exclamou, rindo. — Com o dinheiro e a fama que ele tem? Se eu fosse ele, nem ia saber o que era tristeza. O cara viaja o mundo de jatinho, é amado por milhões de pessoas. O que mais poderia querer na vida?
sentiu o celular vibrar nas mãos.
Suspirou, sua cabeça já rodando com os mil pensamentos sobre tudo o que estava ouvindo ali.
Pegou o aparelho e diminuiu o brilho da tela, para que nenhuma das duas pudesse ver de quem certamente seria a mensagem.

, o jantar da equipe tá um caos
muita gente falando, muita música alta
e muita gente querendo um pedaço de mim

00h23am

Ela mordiscou o lábio e desviou o olhar.
Claro que ele sempre lembrava dela para falar do quanto o evento que participava estava ruim. Como se realmente estivesse mesmo.

queria estar aí com você, no seu apê, longe de tudo isso aqui
consegue me esperar acordada? por favor, não devo demorar

00h27am

leu as mensagens algumas vezes e olhou para a TV novamente.
O da reprise estourava uma garrafa enorme de Moët & Chandon, rindo enquanto molhava as pessoas ao redor dele no pódio.
Um totalmente diferente de quando estava com ela.
— Sabe o que eu acho? — Sophie continuou, voltando ao assunto original da conversa. Mal havia notado o caos que se encontrava internamente. — Acho que caros como ele são viciados nisso. Na atenção. Dizem que querem privacidade, mas no fundo amam ser o centro das atenções. Por isso nunca assumem ninguém que não esteja no mesmo nível, sabe? Pra que se prender a uma pessoa comum quando se tem o mundo inteiro aos seus pés?
O coração de apertou só de ouvir as palavras da amiga. Porque, no fundo, ela sabia muito bem que aquilo era a mais pura verdade.
nunca se encaixaria no mundo de .
E ele nunca a levaria para os holofotes com ele.
— Você nunca seria prioridade na vida de alguém assim — Sophie completou. — Deve ser terrível ser a “a outra” de um piloto. Ou a namorada secreta. Imagina só — colocou os braços na mesa. — Você fica em casa esperando, enquanto ele tá no pódio cercado de gente e sabe-se lá o que faz sem você saber? Não, obrigada. Prefiro meu namorado que me leva pra jantar na frente de todo mundo e posta foto de nós dois sem medo.
riu, sem qualquer humor.
Sentiu uma náusea subir por seu estômago no mesmo segundo. Naquele momento, desejou mais do que nunca que fosse só um cara como outro qualquer. Sem a fama e tudo o que viesse com ela.
era só o refúgio de todas as vezes que ele precisava. E só isso. Nada mais.
? Tá tudo bem? Você tá um pouco pálida — Sophie franziu o cenho, colocando uma das mãos no braços da amiga.
— Tô bem sim. Só… — guardou o celular na bolsa, rapidamente. Quase de forma brusca. Olhou para a TV uma última vez. — Só tô com dor de cabeça. Acho que foi a cerveja.
— Mas você nem bebeu direito, doida — Lisa brincou, balançando a cabeça.
— É, mas eu já tô cansada e esse barulho todo não tá ajudando — riu fraquinho, fingida. Se levantou, pegou a bolsa e a ajeitou no ombro. — Vou pagar minha parte lá no bar e pedir um Uber.
— Sério? — Sophie questionou, fazendo uma careta. — A gente nem fofocou sobre o dono do moletom direito. Você conseguiu se safar direitinho.
ouviu a risada de Lisa e, em outro momento, até acompanharia a amiga. Mas se limitou a sorrir.
— Fica pra próxima. Eu juro. Se divirtam por mim, hein?
Acenou rapidamente e se virou, antes que a situação com suas amigas começasse a ficar insuportável para ela. Só pelo assunto que estavam tendo.
Pagou seu consumo e em segundos já estava na porta do pub, esperando o carro que tinha solicitado. E, enquanto o vento gelado de Londres a abraçava, sentiu o celular vibrar outra vez na bolsa.
Fechou os olhos por meio segundo.
Mas decidiu não pegar o aparelho. Daquela vez, ela estaria em casa sozinha.

🍬🏎️

03

Put your loving where your mouth is…
O silêncio do apartamento de , naquela noite, nunca ficou tão evidente.
Desde o pub com suas amigas, a mulher sentia como se estivesse flutuando, mergulhada em seus próprios pensamentos corrosivos; os quais tinham nome e sobrenome. E que, ultimamente, só estava lhe dando dor de cabeça.
Não sabia exatamente o que mais doía em seu coração. Se era o fato de ter caído em si, depois de tanto tempo, que só a procurava quando precisava escapar de algo. Ou, se era o fato de que, mesmo se dando conta daquilo, não conseguia parar de gostar dele.
Ouviu o celular vibrar pela décima vez e o olhou de relance no sofá do seu lado. O display acendia mais uma vez. Mas não se moveu.
Sequer teve vontade.
Continuou ali, sentada no canto do sofá, ouvindo a chuva fraquinha que começava a cair do lado de fora e abraçada naquele maldito moletom que ainda insistia em usar.
Era sempre daquele jeito. Sempre a mesma coisa.
E ele nunca entendia.
Quando ela desaparecia, se tornava o homem mais atencioso do mundo. Só para garantir que ela continuaria ali, esperando por ele. Independente do que acontecesse.
Ouviu o aparelho vibrar mais uma vez.

ei, , cadê você?
por que não me responde?

01h36am

olhou para a tela do celular, encarando a mensagem por alguns segundos e focou o olhar na foto de perfil de . O que só a fez lembrar do momento; os cabelos bagunçados por ela, depois de uma palhaçada que ele havia feito.
Aquilo a quebrava em mil pedacinhos. amava aquela versão de , mas machucava não poder fazer parte de sua versão piloto também.
Machucava não fazer parte de sua vida de verdade.

, sério, aconteceu alguma coisa?
você nunca demora a responder assim

01h48am

Segundos depois o display piscou algumas vezes, denunciando que estava ligando para ela.
Não só uma vez. Duas, três. Quatro vezes seguidas.
E isso se seguiu nos dias seguintes também, justo no horário que ele sabia bem que ela estaria em casa. Nas madrugadas, onde milhares de vezes ela o recebia de braços abertos.
Tentou por mensagens, ligações e queria muito não querer falar com ele. E aquilo era uma droga porque, para ser sincera, tudo o que ela mais precisava era se distanciar de .
No final daquela semana, quando terminou de subir o último lance de escadas para seu apartamento, em frente à sua porta havia uma caixa enorme, preta e com um laço da mesma cor.
olhou para os lados, estranhando a encomenda. Não havia comprado nada, nem mesmo peço para entregar alguma coisa em sua casa.
Se abaixou, quase hesitando tocar o laço de cetim perfeitamente colocado e pegou o embrulho, entrando de uma vez no apartamento.
Não precisou de muito esforço para saber de quem era o presente.
Só poderia ser dele.
Deixou a caixa em cima da mesa de jantar e espalmou as duas mãos na madeira, encarando o embrulho por alguns segundos. Seu coração deveria estar batendo descompassado, ansioso por ter ganhado algo visivelmente caro e, óbvio, de .
Mas suspirou, se sentindo cansada de tudo aquilo.
Ele sempre fazia daquele jeito.
Puxou a fita de uma vez só e tirou a tampa da caixa, encontrando várias camadas de papel de seda perfumado que abraçavam uma bolsa de couro legítimo, de uma edição limitada da Bottega Veneta, uma marca que ela havia comentado há um tempo com ele.
Era ridiculamente linda. E muito provavelmente custava o que levava meses para ganhar na agência.
— Meu Deus, ele é louco — disse para si mesma.
Mas o que realmente tinha acabado com toda a graça do presente, foi o pequeno cartão texturizado que caiu da parte interna da tampa da caixa.
A caligrafia apressada que ela conhecia bem. As letras de quase tropeçando umas nas outras.
pegou o cartão antes mesmo de decidir se queria ler. Virou entre os dedos.

Não sei exatamente o que tá acontecendo, mas sei que você não some sem motivo. E eu tô tentando não enlouquecer aqui, só que fica difícil quando você não fala comigo.
Sei que eu erro às vezes. Sei que sumo, que apareço do nada… E entendo como isso deve parecer pra você. Não é porque você não importa. É justamente o contrário, .
Só ainda não sei fazer isso direito, mas quero aprender. Quero fazer as coisas do jeito certo com você, de verdade. Quero ser melhor nisso, por você… Pela gente.
Não me deixa no escuro assim, por favor. Me atende. Vamos conversar…


fechou os olhos por alguns segundos, sentindo o peito esquentar.
Sua garganta fechou instantaneamente.
— Claro que você não sabe — murmurou.
Deixou o cartão cair sobre a mesa, passando uma das mãos pelo rosto, visivelmente tensa com a situação. Ele sabia provocar.
Aquilo ele sabia fazer muito bem.
E o pior de tudo era que ele estava sendo honesto.
Isso irritava ainda mais.
Não só pelo fato dele ter sido honesto, mas por ter lembrado. Por ter lembrado de um comentário bobo em meio a tantos outros que ela havia feito.
Puxou a cadeira e se sentou, deixando os olhos caírem na bolsa outra vez. Deixou os dedos passearem pelo couro, despretensiosamente.
E, depois de pensar por mais alguns segundos, pegou o celular do bolso, abrindo a conversa com ele.
Ficou meio segundo encarando as antigas mensagens trocadas, como se aquilo fosse adiantar de alguma coisa.
Digitou.
Apagou.
Digitou de novo.

você não precisava mandar isso.
22h12pm

A resposta foi quase imediata. E seu coração acelerou outra vez.

você recebeu então
22h14pm

revirou os olhos, sem nem perceber. Hesitou por alguns instantes, mas outra mensagem apareceu logo abaixo.

tá tudo bem?
22h14pm

Engoliu em seco.
sabia exatamente como começar a quebrar o iceberg que formava ao redor dela sempre que precisava.
Ela se odiava por deixar aquilo acontecer.
Seu polegar travou no display brevemente.

tá sim
22h16pm

então me fala o que tá acontecendo,
22h16pm

respirou fundo, mordiscando os próprios lábios.
Não era nem um pouco simples. O problema era que se ela começasse a dizer, não pararia e, consequentemente, falaria mais coisas do que deveria para ele.
E talvez fosse aquilo que mais assustava.
Sentiu o celular vibrar outra vez nas mãos.
E seu coração quase saiu pela boca ao ler o pedido de .

posso ir aí ver você?
22h21pm

ficou parada, olhando para a mensagem, como se tivesse todo o tempo do mundo para decidir o que iria fazer.
Olhou ao redor, automaticamente, como se já estivesse do lado de fora do apartamento.
— Que droga,
Ela quis muito que fosse fácil o suficiente para só dizer não, desligar o celular e ir dormir.
Quis muito.
Mas, no fundo, não podia negar para si mesma que queria ele ali.
Queria em sua casa, em seu sofá e em seus braços. Mesmo que aquilo pudesse significar milhares de coisas que ela não queria descobrir.
Mesmo que tivesse que empurrar os pensamentos incômodos para o fundo da mente só por alguns minutos, para estar com ele.
Idiota.
Resolveu não responder. Pelo menos não naquela hora.
precisava pensar.

🍬🏎️

04

You tell me that you want me…
But, baby, if you need me…
quase não ouviu o celular vibrando no criado mudo só pelo sono pesado que se encontrava. Já devia ser quase nove da manhã quando ouviu os pássaros cantando e abriu os olhos, contrariada, só pelo barulho insistente bem do seu lado.
Deixou um resmungo escapar e esticou o braço, pegando o aparelho. Sua visão ainda estava um pouco turva pelo cansaço e a mulher fechou os olhos com força ao ver o brilho alto do display.
Mas quem raios estava a incomodando em pleno sábado de manhã?
Piscou várias vezes, tentando focar na tela e o nome no visor fez o resto do sono evaporar no mesmo segundo.
Não que já não estivesse acostumada com aquela reação em relação à ele, mas naquela manhã, alguma coisa parecia diferente.
Talvez fossem seus sentimentos bagunçando toda sua mente ou, simplesmente, por ter enviado mensagem de manhã, dizendo algo que ela não esperava ver ele dizer tão cedo.

tô aqui embaixo, , no meio da calçada

desce, por favor? não vou sair daqui

09h17am

Franziu o cenho e releu mais uma vez. Duas, talvez três.
E então levantou em um solavanco, só se dando conta minutos depois sobre o que acontecia ali.
não fazia aquilo.
Nem mesmo cogitaria se arriscar de tal forma.
Sua especialidade era chegar de madrugada, cansado, buscando por todos os cantos do apartamento dela. Era mandar mensagens durante suas viagens, dizendo estar com saudade.
Era viver em uma bolha com ela. Longe do mundo. Longe de tudo.
Então, que merda estava acontecendo naquele sábado de manhã?
levantou da cama sem pensar muito e correu até a janela, afastando a cortina de lado brevemente. O sol estava mais brilhante que o normal e aquilo a fez fechar os olhos por meio segundo, mas assim que abaixou o rosto, o viu.
Sem boné, sem óculos escuro e encostado na porta do Porsche vermelho, esperando sem qualquer pressa do mundo.
Se ele não queria chamar a atenção do público, havia errado absurdamente justo com aquele carro chamativo.
O piloto segurava um copo de café em uma mão e o celular na outra, olhando para cima. Como se procurasse em uma das janelas.
A mulher notou que um grupo do outro lado da rua já havia parado para cochichar, apontando o celular para uma provável foto.
era louco?!
balançou a cabeça, pegando um casaco qualquer no caminho até a entrada do apartamento. Jogou o moletom por cima do pijama e sequer se deu ao trabalho de prender os cabelos direito.
Desceu o mais rápido que conseguiu.
Para ser sincera, ela queria estapear pela exposição. Aquilo com toda certeza lhe acarretaria uma pilha de problemas e ela estaria inclusa, para completar.
Quando passou pelo hall espelhado do prédio, arregalou os olhos notando que ele realmente estava ali. Parado na calçada, sem qualquer resquício de preocupação em estar sendo notado.
— Tá fazendo o que aí, ?! Tá maluco? — perguntou. A voz da mulher saiu quase em um sussurro desesperado enquanto se aproximava, olhando freneticamente para os lados. — Tá todo mundo te vendo! Tem gente tirando foto! E isso é o contrário do que você tá querendo, pelo que sei.
deixou uma risadinha fraca escapar e desencostou o corpo do carro esportivo. Ignorava todo o burburinho ao redor.
Deixou o copo que segurava em cima do teto do carro e se aproximou de .
— Que vejam — deu de ombros. Sua voz parecia mais rouca que o normal. — Que tirem todas as fotos que quiserem. Passei esse tempo todo sendo um covarde, . Tentando te ganhar de volta com presentes caros e mensagens bonitinhas porque, pra ser sincero — respirou fundo. — Tinha medo do barulho que faríamos se isso viesse à tona.
Ela ainda continuava o olhando. Agora seu coração batia a mil dentro do peito.
Não fazia ideia do que estava acontecendo ali.
— Não é como se isso fosse mudar alguma coisa — resmungou.
— Eu sei que não muda. Mas ficar no escuro esse tempo todo, sem você me responder, sem me atender e nem deixar eu te ver… Foi péssimo, — se aproximou um pouco mais e colocou as mãos na cintura dela, em um afago íntimo. Que só conseguia entender bem. — Percebi que prefiro o mundo inteiro fofocando e o caos das manchetes do que ficar um segundo longe de você. Não é isso o que quero, darling.
Maldito apelido.
praguejou no segundo que ouviu saindo da boca dele.
Ela olhou ao redor mais uma vez.
, você não tá entendendo. Acho que tá fora da casinha — deu uma risadinha nervosa. — Amanhã isso — apontou dela para ele. — Vai estar em todo lugar. Tem ideia do que você tá fazendo?
Sua mente estava um turbilhão. Era verdade.
Talvez estivesse agindo impulsivamente. O que seria mais lógico dada a situação. E não estava preparada psicologicamente para ter seu nome rodando todos os lugares do mundo justo no dia seguinte.
Até naquele dia mesmo!
Ele balançou a cabeça, parecendo mais animado que o normal.
— Ótimo. Assim não me preocupo em te apresentar para o mundo inteiro — fez piada, sorrindo de lado. O maldito sorriso sexy com as covinhas aparecendo.
— Você ainda brinca com a situação?!
— Ei — levou uma das mãos no rosto dela. — Quero ser o cara que faz exatamente isso. Que toma um café com você às nove em um dia de folga. Que te leva pra jantar no lugar mais bonito de Londres — balançou o corpo dela levemente. engoliu em seco. — Quero fazer certo dessa vez. Sem segredo ou qualquer outra coisa que te magoe.
tinha os olhos fixos no de , como se estivesse sendo o mais honesto que conseguisse ser.
Ela percebia aquilo.
Sentiu o calor da mão do piloto contra sua pele, o que só a arrepiou ainda mais.
Merda. Ele sabia fazer aquilo como ninguém.
Respirou fundo e se afastou minimamente, tentando reorganizar os próprios pensamentos.
— É muito fácil dizer isso agora, não? Com toda a adrenalina que deve estar sentindo ainda pelo impulso de ter cruzado a cidade inteira pra chegar aqui — riu fraquinho, sem qualquer humor. — Mas e quando seu agente começar a ligar, ? E quando a fizer uma reunião sobre sua imagem pública? Como que vai ser? — balançou a cabeça, sentindo a garganta fechar só de imaginar a probabilidade. — Vou ser jogada para escanteio de novo? Vai aguentar isso?
murchou, assim que ouviu . Mas não soltou sua cintura.
Pelo contrário, a apertou um pouco mais, como se aquilo o fizesse ter certeza de sua decisão.
, eu sei o que acontece quando paro o carro bem aqui na frente — disse, sério. — E prefiro lidar com dez reuniões de marketing todo dia do que perder você.
Ela cruzou os braços, desviando o olhar por alguns segundos. As pessoas ao redor já estavam notando muito mais do que antes.
— Tá me pedindo pra confiar em você de novo depois de passar esse tempo todo me tratando como um lembrete no final do dia? Acha mesmo que essa aparição pública ridícula e uma bolsa caríssima vão resolver as coisas, ? Sério?
suspirou, se aproximando um pouco mais. Perto o suficiente para que o burburinho começasse a se espalhar. E então encostou sua testa na dela.
quase surtou pela proximidade.
Ele tinha o mesmo cheiro que ela se lembrava. Das últimas vezes que esteve em seu apartamento. O maldito perfume caro da Ralph Lauren que ela adorava.
— Não sei se resolve — resmungou. Fechou os olhos brevemente. — O que sei é que fui um filho da puta egoísta e idiota — ela sentiu o polegar do piloto acariciando sua cintura. Era até fofo. — Me deixa provar? Não com presente ou qualquer outra coisa. Nada disso. Mas com meu tempo. Deixa eu entrar, deixa eu fazer um café e te fazer companhia. Se no final da tarde você ainda quiser me chutar da sua vida, não vou contestar. Só não me manda embora agora, . Por favor.
o encarou por vários segundos consideráveis.
Ele tinha pisado na bola. Muito. Aquilo era evidente.
Mas, mais evidente que aquilo era o fato de que não iria conseguir tirá-lo da sua vida. Não iria simplesmente conseguir apagar o histórico de dos seus dias.
Observou seus cabelos bagunçados, os olhos verdes a olhando esperando ansiosamente pela resposta que daria.
estava ali, à luz do dia, sendo julgado por vizinhos e estranhos, só pra ela soubesse que ele não iria mais fugir.
Droga de saudade.
Droga de coração mole.
Agora ela queria se estapear.
— Vai mesmo fazer o café? — arqueou uma das sobrancelhas, desacreditada.
soltou uma risada gostosa, sincera. Mais aliviado que tudo.
— O melhor café que você já tomou na sua vida — piscou. — E ainda trouxe os croissants daquela padaria que você gosta.
— Veio armado então? Você não vale um centavo, .
Ele riu mais uma vez. E, céus, como gostava da sua risada.
— Bom, vim preparado para a guerra, darling.
sentiu o corpo amolecer de vez.
Suspirou.
— Tudo bem, mas olha só — apontou para ele, discretamente. Não queria que no dia seguinte aparecesse qualquer foto dando a entender que estavam brigando. — Tô te deixando entrar porque a saudade é uma droga, mas presta bem a atenção: essa é a sua última chance. Ouviu bem?
— Perfeitamente.
suavizou a expressão assim que ela o observou por mais alguns segundos.
balançou a cabeça e soltou o ar, se dando totalmente por vencida.
Ele deu mais um meio sorrisinho, ainda olhando nos olhos dela.
— Tô falando sério, . Não vem com esse sorrisinho pra cima de mim agora — estreitou os olhos. — Se isso acontecer de novo, eu sumo e você não vai me achar nem se colocar a inteira pra me rastrear.
— Caramba, como eu senti falta disso — o piloto murmurou, quase a um passo de puxá-la para si de vez. Mesmo com todo mundo olhando em volta.
arqueou uma das sobrancelhas. Ver admitir aquilo era sensacional.
— É bom que tenha sentido mesmo — bateu no rosto dele de leve. O piloto a olhou incrédulo. — Vem. Antes que eu te deixe aqui fora com os paparazzi.
— Você é terrível — gargalhou, colocando uma das mãos no rosto.
— Eu sei. Agora cala a boca e entra logo, . Você tem muito o que compensar.
Ela virou de costas para o piloto e adentrou o edifício.
Não antes de sorrir vitoriosa.
Afinal, nada melhor do que ter exatamente onde ela queria; mesmo que ele ainda não soubesse disso.

🍬🏎️

FIM!

Nota da autora: Oie! Espero que tenham gostado desse versefic! Não esqueçam de comentar <3