Capa principal

Revisada por: Saturno 🪐
Finalizada em: 21/09/2025


CAPÍTULO ÚNICO

As luzes neon pulsavam na boate Heaven. A música alta embalava uma explosão de corpos dançantes e risadas soltas. O ambiente era perfeito, o pacote completo para esquecer de tudo. Fosse um coração partido, uma rejeição súbita, ou a dor do luto.
Para , além de tudo, era também uma tentativa de escapar do próprio caos. Do peso largado em suas costas mesmo que não tivesse pedido por nada daquilo.
Não era fácil ser irmã de um candidato a senador, ainda mais em um estado como Maryland. As pessoas não deviam esperar tanto dela, afinal, Noah desejava representá-los, não ela. Porém as coisas nunca funcionavam como imaginava.
Esperavam e cobravam dela uma perfeição que nunca teve. Uma postura pura, recatada e quase impossível de se alcançar.
Mas qual era o sentido de tudo aquilo? Pura hipocrisia, porque, no fim das contas, ainda que ela tentasse ser alguma daquelas coisas, não seria o bastante. Não foi com Amy, sua falecida cunhada. O câncer a pegou de qualquer jeito, e agora Noah se afundava em sua campanha, enquanto mergulhava em distrações e a mídia só sabia espalhar mentiras quanto a isso para prejudicá-lo.
estava cansada.
Não, na verdade, ela estava exausta.
E tudo o que queria era fugir. Um minuto de invisibilidade já seria o suficiente, onde apenas poderia ser a , sem o sobrenome e sem títulos.
Um suspiro escapou de seus lábios, quase colados à borda da taça de champanhe que ela segurava. Seus olhos se perdiam na pista de dança à frente do camarote, onde Kyle e Daria dançavam e ofereciam mais bebidas a Selene Mikkelsen. A amiga recusou, porém a forma como saiu para buscar algo do bar momentos depois fez um alerta piscar em sua mente. Selene estava frágil, havia acabado de descobrir uma traição, e, embora a intenção fosse criar uma fuga para a amiga, a trazer até ali talvez não tivesse sido a melhor das ideias.
Droga, por quê, por mais que tentasse, as coisas sempre davam errado?
A música de repente soava tão distante aos seus ouvidos, e mordeu o lábio inferior.
— Tudo bem? — A voz de ecoou, numa tentativa de trazê-la de volta à realidade, porém apenas acenou vagamente e largou a taça em cima da mesinha.
Pela primeira vez, estava sufocada dentro daquela boate.
— Preciso pegar um ar. — O sussurro foi mais para si mesma e, com um breve aceno de cabeça, se levantou e seguiu pelos corredores, em busca da área externa mais afastada e livre de fumantes.
Seus pensamentos estavam anuviados demais, um nó fazia morada em sua garganta, e ela odiava a ideia de constantemente se sentir observada, como se a qualquer momento um clique fotográfico fosse disparado em sua direção.
O ar fresco a atingiu em cheio quando alcançou a sacada. Ela se apoiou no guarda corpo com as duas mãos e respirou profundamente uma, duas, três vezes.
Então sentiu uma presença ao seu lado e, em meio ao susto, soube exatamente a quem pertencia.
— Achou mesmo que eu deixaria você sozinha? — O tom de era doce, quase um sussurro, e a reação de foi imediata.
Suas mãos suaram mais, seu corpo estremeceu e seu coração disparou. Ela ergueu o olhar em sua direção e tentou disfarçar tudo da melhor forma possível. era uma de suas melhores amigas, e não podia arriscar perdê-la por sentimentos bobos.
Mas mexia com ela desde o início. A forma como a encarava, a mordida discreta nos lábios toda vez que fazia um comentário tendencioso, o perfume adocicado que jurava detestar, mas combinava perfeitamente com ela, a risada escandalosa, as piadas bobas, a preocupação com Daria e o apoio incondicional a Selene.
Droga, até o gosto musical daquela mulher era perfeito. O jeito que dançava, que sorria e tamborilava as unhas na taça de champanhe antes de beber.
— Você… Não precisava fazer isso, . Eu já vou voltar pra lá, só precisava de um ar fresco. — Sorriu fraco e afastou seu olhar dela. Tudo estava bagunçado demais dentro de si, e não queria envolvê-la naquilo.
— Você querendo sair de uma balada por ar fresco? Acha mesmo que é o suficiente para me fazer acreditar que tá tudo bem? — soltou uma risada descrente e balançou a cabeça em negação.
reprimiu uma careta. Por que ela a observava tão bem?
Um longo suspiro escapou de seus lábios. Alguns segundos se passaram e apenas permaneceu ali, sem pressioná-la, à espera do tempo dela.
— Às vezes, eu só queria desaparecer por um momento. — A confissão saiu baixa, carregada de uma honestidade que raramente deixava vir à tona. Era muito mais fácil apenas fingir que tudo estava bem.
se aproximou devagar e hesitou por um segundo antes de estender a mão para tocar suavemente a de , ainda apoiada no guarda corpo.
— Ei, você não precisa carregar tudo sozinha. Muito menos fingir para mim que nada disso te afeta.
Os olhos dela puxaram os de como ímãs. O toque delicado fez seu coração acelerar.
— Tem certeza? As pessoas não costumam gostar muito quando passam da superfície. — A sinceridade escorreu e a vulnerabilidade era evidente em seus olhos.
Um sorriso de canto se formou nos lábios de .
— Porque são idiotas. Mas eu vejo você e digo com toda a certeza que estão perdendo alguém incrível.
A ternura daquelas palavras deixou desconcertada. Logo ela, que sempre tinha uma resposta na ponta da língua, de repente se viu engolir em seco, sem saber o que dizer.
permaneceu ali, enquanto apenas a observava e o silêncio reinava. Nenhuma delas se sentia desconfortável, muito pelo contrário, era como se estivessem exatamente onde deveriam.
só se deu conta da proximidade de seus rostos quando a respiração de a atingiu nos lábios e espalhou uma onda de arrepios. Seu olhar de repente desceu para a boca dela, e se pegou pela milésima vez imaginando como seria sentir sua textura. viu aquilo como uma permissão para retribuir e mordeu a ponta do lábio devagar.
… — deixou um sussurro escapar, e, mesmo com a música alta do lugar, conseguiu ouvi-la.
— O quê? — Àquela altura, nem sabia se queria controlar alguma coisa. Desde o primeiro momento em que seus olhos pousaram em , era como se um ímã a puxasse e tornava impossível para ela ver qualquer outra pessoa além dela.
— É sério… — engoliu em seco mais uma vez. — Você não precisa ficar aqui.
Por que aquela insistência em tentar afastá-la?
negou com a cabeça e seus lábios roçaram os de .
— Mas eu quero ficar. Não vou a lugar algum.
Os olhos de se arregalaram levemente, em surpresa diante daquela resposta.
Ninguém nunca escolhia ficar.
— Você quer mesmo? — Doeu em ver como parecia difícil para ela acreditar naquilo.
— Sim, . Eu quero.
E, em uma maneira de selar as próprias palavras, tocou seus lábios delicadamente nos dela.
, de fato, precisou de alguns segundos para compreender que aquilo estava mesmo acontecendo, porém era real demais para não estar. O perfume de , a maciez de sua boca. Não tinha como ser um sonho.
Quando aquilo tudo ficou claro em sua mente anuviada, não hesitou em retribuir e ela ofegou baixinho quando entreabriu os lábios e permitiu que suas línguas se tocassem.
O beijo começou calmo, exploratório. Ela permaneceu com a mão esquerda entrelaçada à de , enquanto a direita seguiu para sua cintura e a puxou para sentir cada parte do corpo dela colado ao seu. sorriu e a segurou pela nuca, entrelaçou os dedos nos cabelos de e lambeu sua boca.
Mais uma vez, o olhar de uma se conectou ao da outra, porém palavras não foram necessárias. O desejo estava explícito, mas não era apenas isso, não havia como ficar mais nítido.
Foi quem retomou o beijo, dessa vez com maior intensidade, e apertou a cintura de com mais vontade. Era delicioso demais sentir o calor que emanava do corpo dela, sem falar nos leves puxões que passou a dar em seus cabelos.
Era como se tudo estivesse no lugar. Como se suas bocas fossem feitas como o encaixe uma da outra.
Tudo estava certo. Perfeito.
Caminharam, sem nem se dar conta, para longe do guarda corpo e as costas de bateram de leve contra uma parede, o que arrancou risadinhas das duas.
desceu os beijos pelo queixo de , lamberam sua pele e chegaram ao pescoço. Nunca se cansaria de sentir aquele perfume gostoso, muito menos de ouvir o gemido baixo que escapou dela.
Foi a vez de segurar a cintura de com firmeza e usar uma das pernas para se enlaçar. Queria fundir seu corpo ao dela, queria sentir aquela língua por todo o seu corpo, não apenas em seu pescoço.
… — O tom manhoso era enlouquecedor e fez a mulher se pressionar ainda mais contra ela.
desceu uma das mãos para a coxa de , a manteve firme e apertou para explorar toda a sua extensão. Mordeu os lábios quando as duas tornaram a se encarar e subiu sem pudor até a bunda de , só para então deslizar os dedos até a parte interna e ameaçar adentrar o vestido curto, de cetim verde água que ela usava. A peça era tão colada ao corpo de que conseguia ver que não usava sutiã e que os beijos entre as duas afetavam tanto quanto a ela.
Voltou a beijá-la com vontade, sua mão criou vida própria e aumentou a pressão de seus toques na pele dela. era absurdamente quente e só aquela sensação fazer revirar os olhos de excitação.
Suas línguas se acariciavam com cada vez mais fervor. De repente aquele lugar estava cheio demais, barulhento demais.
não soube dizer se foi coisa da própria cabeça, ou não, porém, de repente teve a impressão de sentir um flash na direção das duas.
Subitamente, ela interrompeu o beijo e olhou para trás assustada, à procura da maldita câmera.
, o que foi? — Atordoada, tentava entender, enquanto ainda se recompunha das sensações de ter aquela mulher a explorando daquela forma.
— Eu… — Se desvencilhou com cuidado e bufou ao perceber que não havia câmera alguma.
Ou talvez tivessem ido embora.
… Fala comigo. — A voz de atraiu sua atenção.
Quando tornou a encará-la, focou nos lábios inchados devido aos beijos, nos cabelos dela levemente bagunçados e os bicos dos seios eriçados, cobertos apenas pelo cetim.
Aquela era a visão mais deliciosa de todas.
No entanto, era tudo muito delicado e aquele flash surgiu para lembrá-la daquilo. Não podia trazer para o seu mundo.
Todos os dias, tinha que aguentar os tabloides falando as coisas mais absurdas sobre ela, numa tentativa de derrubar a candidatura de seu irmão. Estava acostumada com aquilo, tanto que já nem doía tanto assim.
Mas não suportaria se atacassem . Ela não merecia aquilo. Não merecia alguém como .
— A gente… — Suspirou fundo e encarou nos olhos. Odiou a si mesma pelo que estava prestes a dizer. — A gente não pode fazer isso.
viu o exato momento em que deixou os ombros caírem, num gesto claro de decepção. Aquilo doeu muito mais do que ela imaginou, porém era necessário.
— Eu sei. — Por fim, respondeu e torceu a boca em uma careta.
Elas permaneceram por alguns segundos ali, presas em uma bolha de silêncio que dessa vez era insuportável, incapazes de dizer ou fazer qualquer coisa, porém sem vontade alguma de saírem dali ou se afastarem.
— Me desculpe, . — A voz de saiu baixa, rouca, e ela deu um passo para trás para se recompor.
— Tá… tá tudo bem, .
Mas não estava. teve a impressão de ver os lábios de tremerem, porém a mulher desviou o olhar.
Seu estômago afundou e, num ato covarde e completamente contraditório ao que sempre foi, se afastou e seguiu para dentro da boate novamente.
ficou para ali por mais alguns minutos. Tentou processar tudo o que havia acabado de acontecer e engoliu o gosto amargo da decepção.
Como as coisas eram capazes de mudar tão drasticamente em questão de segundos?
Em um instante, estava feliz e enlouquecida pelos beijos da garota que gostava. No outro, essa mesma garota se afastava por… medo.
O mesmo medo que sentia talvez? De não ser recíproco, de ela não ser o bastante, afinal, aquela era .
Mas desde quando qualquer uma das duas deixava de fazer algo por medo? Aquilo tudo estava errado demais e não podia terminar assim. Não terminaria assim.
Balançou a cabeça em negação e engoliu o choro. Precisava voltar à festa.
Colocou de volta um sorriso no rosto e ajeitou os cabelos enquanto encarava seu reflexo na câmera do celular.
Sim, tudo era delicado demais, porém não ia desistir.

FIM!

Nota da autora: O tanto que eu queria escrever um spin-off dessas duas não posso nem definir em palavras. E é claro que não acabou por aí. Logo logo teremos mais.
Espero que tenham gostado e comentem o que acharam.
Beijos e até a próxima.
Ste a.k.a. Saturno. ♥