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Codificada por: Lua ☾
Finalizada em: Março/2026.


SPIDER'S GIRL

“Estas alegrias violentas, têm fins violentos,
Como o fogo e a pólvora,
Que em um beijo, se consomem”


— SHAKESPEARE, Romeu & Julieta.
• 8 MESES ANTES.

O SORVETE DE CHOCOLATE E BAUNILHA HAVIA PERDIDO DE REPENTE O SABOR. Tornava-se algo esquisito sobre sua língua, adquiria uma textura pastosa, incômoda, estendia-se e contorcia-se como se fosse plástico, e não algo que ela estava contando os dias para poder provar novamente; talvez fosse apenas a expectativa pelo momento. sabia que ela tinha esse tipo de problema: criava expectativas grandiosas demais, desnecessárias demais, e quando a realidade se apresentava, diferente do que ela havia planejado, sentia-se parcialmente traída pelo universo, como se não pudesse dizer exatamente a onde o erro estava, mas sentisse que estava ali. Ou talvez, porventura, fosse a imagem de Johnny Storm a sua esquerda, ignorando-a completamente, ao inclinar-se na direção da garçonete, com aquele sorriso torto cativante que faziam seus olhos azuis iluminarem-se, com a sobrancelha levemente arqueada, ocultando o interesse de forma brincalhona, como ele parecia estar despindo a garçonete com os olhos, ao mesmo tempo que conseguia ser incrivelmente charmoso e educado. O gosto da bile se misturou com o do sorvete, o estômago contraiu-se com o reflexo espasmódico, sua traqueia pareceu se fechar e ela sentiu o impulso de correr para o banheiro.
Se fosse vomitar — menos especulação, e mais uma certeza — estava certa de que nada sairia dali, apenas a bile que cumulava-se em seu fígado, e a certeza de que o amontoado de saliva que espalhava-se por sua boca era derivado do nervosismo e não de alguma doença iminente. Sentiu vontade de desaparecer, ou de ao menos acertar sua própria cabeça contra a parede mais próxima, mas pior que isso era o pesar que começava a acumular-se em seu peito. Era esquisito, não era exatamente o tipo de pessoa que deixava-se abater por pouca coisa. Na maioria das vezes, tinha um pensamento quase pragmático: o que estava feito, estava feito, as coisas não poderiam ser consertadas ou haveria desculpas aceitáveis, a mágoa que foi perpetrada havia sido cometida, e a única coisa que lhe restava era tomar coragem, ser gentil e seguir em frente. Era um modus operandi de sobrevivência, ela lembrava-se vagamente de momentos chaves de sua infância em que não haveria compreensão, tampouco acolhimento para saber que, ao ser magoada, ela não teria escolha senão aceitar o que aconteceu e seguir em frente. Era isso ou voltar àquele ponto sombrio em sua própria mente que tornava a altura e a visão de uma ponte atraente.
não era uma suicida em potencial. Encontrava-se em um limbo esquisito: não desejava morrer, mas a ideia ainda a atormentava em determinados momentos. Gostava da imprevisibilidade da vida, e tinha completa consciência de que tudo eventualmente se ajeitava, que tudo funcionava, que por vezes, isso não passava de apenas uma fração de tristeza antes de algo bom acontecer; ela era uma lutadora, apanhava, depois se levantava para apanhar mais. Mas a ideia… ela nunca desapareceu. Estava sempre ali, uma válvula, uma necessidade de escape desesperado atraente o suficiente para não conseguir ignorá-la por completo. Mas não faria nada, porque existia uma possibilidade de falha, e a ideia de ter que encarar alguém, em um momento de vulnerabilidade, era mais perturbadora do que a de arrastar-se por dias a fim. Então ela obrigaria-se a engolir o problema, a aceitá-lo como era, e a perdoar, disposta a seguir em frente mesmo que em seu peito algo estivesse despedaçado, doente e corroendo-a de dentro para fora. Em momentos solitários, ficaria aterrorizada com a possibilidade de sentir todas as emoções que viera a suprir ao longo dos anos; havia tanta coisa que ela sentia que, se porventura se permitisse a senti-las, não sobreviveria. Iria se desfazer como uma barragem, até que não sobrasse mais nada dentro de si. Aprendeu a sobreviver assim, com pura força de vontade e o amortecimento parcial de suas emoções, a positividade e compreensão que nem todos lhe ofereciam; era realmente difícil atingir o coração de de forma negativa.
Mas a visão de Johnny, flertando abertamente com Dorrie Evans — ou ao menos, este era o nome que dizia no pequeno crachá sobre seu peito ao lado direito — havia conseguido. A fez sentir-se vazia. Tão envergonhada por ter alimentado esperanças que desejava desaparecer. Sentiu-se estúpida, sentiu vontade de chorar por ter acreditado que poderia ser amada, por ter tido esperanças que pudesse ser vista mais do que apenas uma amiga por Johnny. E a pior parte? Ele sabia disso.
Porque a cada comentário que fazia a Dorrie, sobre como ela estava bonita, como os olhos dela eram intensos, ele se voltava para , e pedia para que confirmasse. E o fazia; com um aceno de cabeça, um sorriso discreto que não chegava aos olhos e a certeza de que Johnny estava fazendo aquilo de propósito. Estava dilacerando seu coração como uma criança rasgaria um papel após entediar-se com as cores que usava. Após perder o interesse pela brincadeira. Por Deus, isso doía.
Doía perceber que talvez não fosse o tipo de pessoa que era amada. Doía obrigar-se a engolir as palavras que desejava expelir, ciente de que Johnny não lhe devia nada, muito menos Dorrie; ele estava no direito dele de escolher quem desejava para estar consigo, assim como Dorrie era genuinamente interessante para manter a atenção de Johnny ali. Todavia, o que mais lhe incomodava, ao desviar os olhos para o sorvete derretendo em sua mão direita, era a completa certeza da injustiça que o universo a ofereceu: se porventura o universo a amaldiçoou em nunca ser a primeira escolha, em nunca ser o suficiente para ser amada, que ao menos pudesse ter oferecido-lhe a dádiva de nunca desejar receber amor. Seria mais fácil do que alimentar esperanças infundadas a um rosto desconhecido que poderia a fazer sentir-se menos sozinha. Menos invisível.
Pressionou os lábios em uma linha fina, limpando deliberadamente a lateral de seu dedo, considerando apenas jogar fora o doce; não conseguiria obrigar-se a comer mesmo se tentasse. De alguma forma, sua tristeza sempre roubava-lhe a necessidade de comer. Ainda assim, uma pequena parte de si, traidora e sincera, não pode deixar de considerar Johnny naquela equação; Johnny havia cumprido todo o itinerário com perfeição aquele dia. Planejara por contra própria o passeio, após voltarem de uma missão frustrante na Latvéria, Johnny imediatamente havia oferecido-se para levá-la para dar uma volta no Central Park, lá, lhe confidenciou que ele havia descoberto através de Ben o dia de seu aniversário, e que havia passado semanas tentando elaborar um dia completo para que eles pudessem aproveitar juntos — o que qualquer melhor amigo faria, percebeu com uma ponta de pesar, sentindo-se estúpida pela maneira com que seu coração havia disparado, e como havia esperado, ainda contra todas as possibilidades, que aquilo fosse um sinal; um belo sinal de desinteresse. Ele havia a levado para o Central Park, havia até mesmo parado no meio do caminho para comprar um botão de rosa para ela, e quando tentou recusar, insistiu que eles iriam comemorar o aniversário dela do jeito certo. Sequer tivera tempo de retrucar alguma coisa, apostaram uma corrida até o metrô e de lá foram para Coney Island, havia feito uma lista a se cumprir de barraquinhas de jogos que eles deveriam passar antes de seguirem para a fila do funnel cake. Pediu seu preferido: o com calda de morango e então seguiram a pé para a sorveteria. Johnny havia tido a brilhante ideia de tentar convencer a atendente a colocar o sorvete no funnel cake, e havia achado a ideia brilhante, considerando escolher o sabor de chocolate para ver se conseguia algo próximo ao seu bombom preferido, mas tudo pareceu desandar no segundo que eles passaram pela porta entreaberta da sorveteria.
É claro que ninguém a reconheceu. Ela era apenas , uma aparente civil, desinteressante, insignificante que trabalhava por meio período na Torre Baxter, a fim de conseguir financiar sua bolsa de estudos em uma Universidade Pública próxima do Queens, enquanto se desdobrava para pagar o aluguel atrasado e cuidar de um idoso bem ranzinza que era seu avô — o veterano de guerra, Aleksander, pouco falava na maioria das vezes, taciturno, distante, e com umas tatuagens esquisitas que havia conseguido durante seu período na Gulag, quando dizia algo para , normalmente, era alguma reclamação. era, para todos, um caso de caridade. Passava a maior parte de seu tempo sendo apenas uma babá, fosse do avô, ou fosse de Franklin Reed, e quando muito, correndo com inúmeros papeis e pastas estufadas de arquivos de um lado para o outro. Sempre com os cabelos desalinhados, o rosto enrubescido pelo cansaço e os olhos arregalados como se tivesse acabado de esquecer alguma coisa importante, mas não houvesse memória alguma do que fosse — talvez, porventura viesse a ser o tempo. Ela se esquecia facilmente do tempo, mas tinha plena consciência de que este estava escorrendo por entre seus dedos. Além disso, a Cisnei Negro tinha os cabelos prateados, as pupilas completamente escurecidas e a pele pálida como papel com veias enegrecidas destacando-se por sua pele.
Completamente diferente de — ainda que fossem a mesma pessoa.
Foi no momento que os olhos de se encontraram com o rosto angelical de Dorrie Evans, que ela tivera certeza: havia sido uma completa idiota. Estúpida mesmo, no cerne de sua palavra; Johnny não havia planejado seu aniversário por apenas altruísmo e afeto por ela, ele havia visto uma oportunidade perfeita de conseguir impressionar qualquer mulher bonita que encontrasse por seu caminho usando como apoio. Não era que ele não tivesse feito isso anteriormente, na verdade, no começo, gostava da ideia de ser sua “madrinha” e tentar ajudá-lo nas conquistas de suas potenciais parceiras, mas em algum momento, entre os risos, as piadas idiotas e a percepção de que Johnny era bem mais sensível do que deixava expor-se, ela havia sentido seu coração — traidor que só — aquecer-se para o loiro. Primeiro culpou apenas o estresse e a solidão, ela estava a bastante tempo sozinha, mas então…
— Estou dizendo, ela não escuta nada do que digo — o riso alto de Johnny despertou de seus próprios devaneios. Sentiu algo quente e dolorido formar-se ao redor de sua garganta, como se o músculo, sensível, tivesse se contraído por mero impulso e reflexo do que qualquer outra coisa. Os olhos queimaram com a pressão distante das lágrimas que lutava bravamente para não deixar cair, e respirar havia tornado-se algo dispensável, um segundo plano que ela sequer estava ciente.
— Desculpa, me distraí com a música, é minha preferida — apressou-se a dizer, apontando para a jukebox desligada, oferecendo seu melhor sorriso, mesmo que a sensação se assemelhava ao plástico esticado sobre seu rosto. Deu de ombros, tentando evocar naturalidade, como se não fosse importante, mas não poderia ter enganado ninguém mesmo se tentasse com muito afinco. Engoliu em seco, terrivelmente consciente da situação, dos olhares e de como desejava desaparecer. Não era a maneira quase piedosa, apesar do óbvio desdém, que Dorrie Evans a encarava que havia a incomodado. Era o olhar arrogante de Johnny que a fez ter vontade de chorar. Percebeu ali, naquele momento, que o melhor amigo sabia de seus sentimentos; não parecia se importar, todavia. Céus, aquilo era humilhante, mesmo para ela… pigarreou tentando limpar sua garganta, esforçando-se para manter sua expressão neutra e tranquila. Que péssima atriz era. — Acabei de me lembrar que tenho algumas coisas para fazer, coisas bem sérias, da faculdade, vou deixar vocês dois aproveitarem… isso aí — antes que o impulso pudesse morrer em seu peito, e sua mente a convencesse de que estava tudo bem, ela poderia aguentar ser um pouco mais motivo de piadas e comentários rebaixando-a para que Johnny impressionasse sua nova conquista prontamente colocou-se de pé.
Lançou um breve olhar ao seu redor, em busca de algum guardanapo para limpar a mão manchada com o sorvete. Acabou contentando-se com apenas um panfleto de promoções daquela semana na sorveteria. Esfregou sem sentir em sua pele, ignorou quando o material rompeu-se, umidecido e grudando contra a pele, formando pequenas cascas superficiais de tonalidades abstratas entre o marrom do chocolate, o branco da baunilha e a tinta impressa. Obrigou-se a fingir que o peso que abrangia-se ao centro de seu peito não passava de mero desconforto, tentou convencer-se de que estava bem, e fez um excelente trabalho ao mentir para si mesma. Quase acreditou; colocou um pé à frente do outro, refazendo de novo e de novo uma lista prática, simplória em sua mente, como quem resignou-se à situação. Como que precisava resignar-se aquilo.
1 - ela ter sentimentos por seu melhor amigo não significava nada. Lembrou-se duramente que o fato de ter desenvolvido sentimentos por alguém era uma responsabilidade somente dela, e que de tal maneira, ela não deveria ressentir-se de alguém que não a queria. Corações eram coisas frágeis, dizia seu avô com um tom severo e exausto, quebravam-se com facilidade, perdiam-se em angústias exageradas, faziam com que nossos olhos se cobriam voluntariamente pelo êxtase momentâneo de pertencimento. Sábio era, de acordo com seu avô, aqueles que o protegiam a sete chaves, que recusavam-se a usá-los em evidência e permitir que outras pessoas os roubassem.
Era um velho tolo, não menos sábio. Mas havia prometido a si mesma que não seria esse tipo de pessoa. Havia desejado, entre cobertas maltrapilhas, e o silêncio gritante de uma cama vazia que herdara de sua mãe, que não seria cruel. Que os céus a castigassem, que partissem seu coração às vezes o suficiente, mas ela não seria mais uma causa de sofrimento. Ela queria ser ajuda, queria ser concerto, não ruína. Tal amargor agora tingia sua boca, percepção infundada e, porventura, inocente, de uma criança desesperada para ser aceita por meros migalhos, agora, ela precisava reconhecer, havia sido a promessa mais estúpida que já havia feito a si mesma em toda sua vida. Inocente, ingênua, tão, mas tão estúpida… mas ela não mudaria. Não conseguia.
Era o que era, e se isso a tornasse uma idiota esperançosa. Bem, que o fosse então. Iria carregar o fardo e a dor, mas recusava-se a responder-lhe de igual maneira.
2 - ela já havia passado por coisa pior. Os diários de sua mãe não ocultavam a natureza de sua própria existência; de certa forma, havia sido amaldiçoada. Não havia sido desejada, nem mesmo amada por sua mãe, porque diabos ela ainda ousava-se da audácia de acreditar que alguém naquele mundo poderia querer ela? Era ingênua e estúpida ao se forçar acreditar que poderia encontrar espaço em algum lugar, que pertenceria. E se as forças do universo, os deuses, ou criaturas onipresentes que guiavam as ramificações do destino, insistiam em puni-la de tal forma, de certo era derivado de sua própria arrogância. Quisera ela poder ditar o que merecia e o que não merecia, mas a verdade era que sua própria existência era um erro, e sua mãe nunca havia lhe ocultado isso. Entristecia-se, todavia, apenas com o fator prático da situação; se não era digna do amor de ninguém, que ao menos não desejasse tanto ser amada. Ela passaria a vida inteira desejando por algo que jamais teria; assistindo pessoas como Dorrie Evans encontrar afeto com um mero riso suave e um olhar divertido, assistindo a todos ao seu redor encontrar os pares certos e serem felizes. Desejava que, ao menos, não sentisse falta do que não teria, que não houvesse vazio esperando.
Mas não sabia viver sem amar, e não saberia dizer quem era sem o desejo de encontrar alguém que realmente a visse. Burra, queria sussurrar para si mesma, bater em sua própria cabeça e repreender-se por deixar-se levar por tal fantasia, mas como poderia evitar? Para uma criança esfomeada por afeto como ela sempre havia sido, uma palavra gentil acabava tornando-se um banquete se ela se esforçasse só um pouquinho. Sabia que não era o suficiente, não era o suficiente, mas ao fechar os olhos, ao virar uma página, desejava que fosse. Desejava que pudesse sentir menos dor do que de fato sentia. Que houvesse ao menos uma vã possibilidade de completude; mentia-se para si mesma como um viciado.
3 - ela estava bem. Ela ficaria bem. Não estava doendo. Era apenas uma queda de nada mesmo, não faria diferença alguma. Era melhor assim. Johnny e ela possuíam muitas diferenças, eles eram melhores como amigos. Ela era melhor sendo apenas amiga; e se desejava desaparecer, o fazia pela vergonha pessoal de perceber-se vulnerável. Se suplicava ao vento suave do verão, pedindo por algo mais quente, ou que ao menos pudesse aplacar o frio que se estabelecia e corroía seu peito afora, o fazia pela consciência de que não havia espaço naquele mundo que lhe pudesse oferecer consolo ao permitir-se ser vulnerável.
Era engraçado, de certa forma. sabia que todo mundo desejava ser amado, um fator incontestável que até mesmo as criaturas mais desprezíveis eventualmente cediam. Era inevitável, era necessário; corrompido pelo estoicismo, todavia, o ato de amar, de ser vulnerável, em algum momento tornou-se pejorativo. Havia essa grande necessidade em tornar-se impenetrável, em ser um muro frio e distante para tentar manter um pequeno respiro de controle. O desejo de ser admirado e intocável, de não sofrer como todos sofrem, de não amar, mas ser amado. O que era irônico, porque amar era permitir-se ser patético completamente; vulnerável e estúpido, confiar cegamente em uma pesosa que poderia destruir sua vida em poucos segundos. A certeza de que essa pessoa valia a pena a cada mísero esforço; ver alguém por completo, e escolher ficar.
Mas a vergonha e a autocensura a acompanhavam agora como fantasmas, projetando-se por seus ombros com pesos de ferro, puxando-a mais e mais para dentro daquele vazio sufocante, aquele lugar escuro que parecia consumir as cores e o que lhe restava de proveitoso, e expelia apenas a apatia.
Não percebeu que Johnny estava a seu encalço até que virou a esquina, quando o loiro finalmente havia conseguido alcançá-la e segurá-la pelo braço. A atitude abrupta pegou-a de surpresa o suficiente para voltar-se em alerta para o melhor amigo, mas a expressão irritadiça de Johnny pareceu deslizar por sua garganta como facas em brasas. Prendeu a respiração, tentando considerar o que diabos havia feito de errado dessa vez. Tentou buscar em sua memória se havia dito alguma palavra errada, ou se, em sua audácia enervada, completamente fora de hora, deixou que sua expressão revelasse mais do que deveria no momento de sua saída. Não sentia lágrimas em suas bochechas, embora seus olhos estivessem ardendo com a pressão das mesmas. Sua garganta estava dolorida, como se suas entranhas tivessem se tornado nós envoltos por fogo, mas não mais do que isso parecia ser externalização de suas emoções. Ela estava bem, estava tudo bem, não havia nada de errado, porque diabos…
— Não dá para acreditar que você tá fazendo isso agora, ! — piscou, pega desprevenida com o tom acusatório de Johnny, ao voltar a encará-lo surpresa e, ao mesmo tempo, hesitante. Engoliu em seco, tentando compreender de onde aquela raiva havia surgido, antes de sentir seu estômago pesar.
— O que eu fiz? — Questionou genuinamente preocupada, repassando o momento em sua mente, de novo, e de novo, tentando encontrar o erro, embora, ao menos em sua mente, ela estivesse de certa forma, apenas deixado-o para a companhia de sua nova conquista.
Johnny piscou, pareceu estupefato. Por um instante, ele abriu a boca para respondê-la, os olhos procurando alguma coisa em seu rosto, antes de seu semblante voltar aquela arrogância irritadiça. apertou os lábios, engolindo em seco; não era que ele fosse uma má pessoa, em muitos momentos era até mesmo gentil e compreensivel, além disso ele era uma especie especial de burro — ele era muito inteligente as vezes, mas burro, ao mesmo tempo, se isso sequer fazia algum tipo de sentido.
Isso! Você faz isso! — ele indicou com o queixo para , antes de soltar seu pulso e sentiu um golpe invisível atingir seu estômago. Se antes estava confusa, agora, estava completamente perdida naquele assunto, mas podia sentir o peso das palavras dele sobre seus ombros. Podia sentir a culpa crescente em seu peito, o gosto amargo da bile retornando em sua língua, espalhando-se e tingindo o que encontrava pelo caminho. Puxou por instinto seu pulso para longe da mão dele, como se ele estivesse pegando fogo, e seu toque a machucasse, e incomodou-se quando o viu franzir o cenho, parecendo surpreso com seu gesto. — Olha, , eu estou tentando ser legal, compreensivo com você, mas isso aqui é ridículo! — ele exalou entre dentes, exasperado. Apoiou as duas mãos em seus quadris, inclinando sua cabeça ao fuzilá-la com seu olhar. trincou os dentes com força, tentando lutar contra o peso de suas próprias lágrimas. Não choraria na frente de Johnny, ela não chorava na frente de ninguém, mas a vozinha crescente ao fundo de sua mente, que implorava apenas para desistir, havia começado a se tornar mais e mais atraente. — Já disse que não vamos ser nada se não apenas amigos!
— Eu sei, eu entendo… — tentou argumentar, mas Johnny a interrompeu abruptamente, obrigando-a a contentar-se em seu próprio silêncio. Não teria defesa, não teria compreensão de suas palavras, e perceber isso fez com que o coração de se partisse um pouco mais. A acusatória não era o problema, era a visão distorcida de quem ela era, como se ele não a conhecesse de fato mesmo sempre tendo sido honesta com ele, que doía. Ao mesmo tempo, aquela familiar repulsa começou a surgir; por trás os fragmentos e desolação causada por um coração machucado, a emoção familiar de apatia e desprezo começou a corromper o que sobrava. Não era desprezo pelo mundo, era apenas por Johnny; a compreensão de que talvez ele estivesse passando de seus limites, acusando-a de algo que ela não intencionalmente desejava ter feito, ou pior, talvez fosse ela que tivesse passado mesmo dos limites e sua acusatória fosse justificada. Não era menos dolorida. Não era menos sincera, e era isso que mais machucava.
— Não! Você não entende! — Johnny cuspiu as palavras como se fosse veneno, e sob a pele dela, certamente, assemelhava-se. A pressão das lágrimas aumentaram por trás de seus olhos, sua respiração tornou-se irregular, arrastada e pesada, enquanto tentava, com muito esforço, convencer-se de que estava bem. A sensação cálida da brisa de verão pouco trouxe alívio para a jovem quando o vento afastou seus cabelos de sua nuca, empapados de suor. Algo pareceu cruzar o semblante de Johnny, e ela o viu hesitar por alguns segundos, antes de engolir em seco, assentir, como se precisasse enfatizar seu descontentamento. — Estou tentando manter tudo platônico, , você sabe disso. Sabe que é importante para mim, mas você está dificultando tudo!
— Não era minha intenção… — um pouco mais defensiva, ela até tentou se defender, mas a risada fria e irritada de Johnny, a silenciou quase no mesmo segundo.
— Era sim! Você quer que me sinta culpado por não retribuir o que quer que você tenha fantasiado sobre nós dois, mas eu não vou mais fazer isso, ! — acusou Johnny, e realmente o encarou. Percebeu com uma ponta de surpresa que não reconhecia o rapaz a sua frente como o fazia no passado. Talvez, estivesse cego pela sua própria arrogância, ou talvez, tivesse realmente feito algo que realmente o tivesse ofendido, não poderia saber ao certo, mas precisava admitir, pela primeira vez em muito tempo, que não o reconhecia. Se este era o verdadeiro Johnny, então porque diabos ela havia se apaixonado por ele? Porque acreditava que ele poderia ser melhor do que isso? Porque sustentou por tanto tempo vã esperanças que agora provavam-se apenas idiotice pura? Porque este Johnny não era o tipo de pessoa que admirava. Não era nem mesmo o tipo de pessoa que se daria ao luxo de ser amiga… sentiu seus lábios se partiram em surpresa, a boca entreabrindo-se em um quase O surpreso e magoado. — Se não consegue lidar em ter apenas a minha amizade, então, vá embora! Eu tentei, cara, eu realmente tentei, mas você é insuportável às vezes e estou cansado de andar pisando em ovos ao seu redor. Eu não pedi para que você se apaixonasse por mim! Eu não pedi para que você alimentasse essa porra de fantasia, não é culpa minha!
Percebeu ali que ele realmente queria machucá-la. sentiu o ar deixar seus lábios com um quase riso — teve vontade de rir de si mesma, da própria estupidez e inocência de acreditar que era algo para além do que o punch da piada. Ela balançou a cabeça de maneira negativa, assentindo lentamente para ele, apertando os lábios em uma linha fina e tensa. Não tentou se justificar ou expor seu ponto de vista, naquela história, era visível que não importava o que ela dissesse, ela sempre seria de alguma forma a vilã.
— Desculpa, eu… — começou a dizer, mas um soluço escapou de sua garganta. Prendeu a respiração, desviando os olhos do rosto dele, incapaz de encará-lo, sentindo um tremor se espalhar como veneno por suas mãos. Não, ela não podia chorar agora, não na frente de Johnny, ela não deveria chorar na frente, só iria piorar as coisas. Se ele a tivesse como essa manipuladora cruel e fria a essa altura, então, certamente não hesitaria em usar suas emoções para justificar o quão vil e cruel ela era com ele. Ela precisava sorrir, precisava fingir que estava tudo bem; talvez, se mentisse por tempo o suficiente, a mentira se tornasse verdade. — Erro meu, Johnny. Prometo que nunca mais irá acontecer — disse, tentando estabilizar seu tom de voz ao máximo que conseguia, embora a apatia, morada já tivesse feito em seu tom.
Johnny pareceu hesitar, algo cruzou seu semblante e por um instante, ele ficou em silêncio, encarando-a. não ousou a se mover, prendendo a respiração, encarando os carros, as pessoas caminhando pelo espaço, recusando-se a voltar a encará-lo, a deixar exposta ainda mais a vulnerabilidade que havia sido usada desde o começo para sua própria humilhação pessoal. Não era apenas a autocrítica que estava a matando, era sua própria consciência. Ela havia feito tudo isso mesmo? Ela havia sido tão cruel assim com ele? Ela havia o empurrado para além do limite? Ela valia sequer a pena? Sua garganta ardeu, as palavras queimaram por trás de sua mente, mas não foram ditas. Sufocou tudo como sempre fazia; ignorou e empurrou para baixo, tensionando sua mandíbula. Johnny resmungou alguma coisa entre “é bom mesmo” ou alguma pergunta que não fez questão de prestar atenção, apenas assentiu em resignação, observando-o girar em seus calcanhares, em direção a sorveteria outra vez, onde Dorrie Evans deveria estar o esperando.
Ele verificou algumas vezes para trás, encarando-a com uma expressão confusa, sentimentos complexos aos quais percebeu-se indiferente pela primeira vez. “Você não vem também?” deve ter perguntado, mas apenas girou em seus calcanhares, seu rosto neutro e distante, enquanto ela caminhava de volta para seu apartamento. Os olhos se perderam na calçada, enquanto permitia-se amortecer. Permitia-se a deixar aquela parte de seu coração morrer e desaparecer, era dolorido, sentia como se estivesse arrancando algo a muito tempo enterrado ali, tão incrustado contra a parede de seu tórax que latejava fisicamente como se estivesse pegando fogo, mas não lutaria. Era o que era; se Johnny a queria apenas como amiga, então lhe daria exatamente isso. Seria apenas sua amiga.
Estava tudo bem. Ela estava bem.
E mentir para si mesma nunca tivera tanto gosto de chocolate e baunilha, amargos pela bile de seu estômago, quanto naquele dia. Julgou apropriado, todavia, era o que ela merecia.

• AGORA


ENGOLINDO EM SECO, JOHNNY STORM, OBRIGOU-SE A EXALAR POR ENTRE OS DENTES CERRADOS.
Seu fôlego esvaiu-se com um pequeno sibilo, que não tardou a atrair a atenção de um pequeno vira-latas de pelagem amarronzada e uma orelha faltando, deitado na outra extremidade da plataforma, o cachorro, todavia, não tardou a perder seu interesse quando Johnny parou no local combinado. Esfregou suas mãos algumas vezes, como se estivesse tentando aquecê-las, sentindo-as estranhamente mais umedecidas pelo suor e gélidas pela tempestade que se formava em seu peito do que anteriormente encontravam-se. O gesto nervoso não resolveu a crescente ansiedade; estava tentando desesperadamente diminuir a pressão que se formava por seu peito desde o momento que havia deixado o Edifício Baxter. Não controu para Sue, tampouco para Reed o que diabos estava planejando fazer aquela noite, se o tivesse feito, muito provavelmente teria sido imediatamente impedido, mas agora, que percebia-se no ponto exato do combinado, Johnny não podia deixar de questionar-se se estava fazendo algo importante de fato ou se estava sendo apenas movido por uma parte da tempestade de emoções que o sufocava do qual ele não desejava reconhecer por hora, mas que começava a se tornar inegável. Ciúmes.
A brisa suave que percorreu pela estação de trem, deveria ter enviado uma sensação de alívio para a noite de verão cálida e estranhamente abafada, o ar úmido parecia precipitar-se discretamente sob as superfícies metálicas e de cimentos da cidade, passando a estranha sensação de que tudo estava apenas mais gosmento e pegajoso do que era. Suor projetava-se por suas têmporas, deixando-as mais brilhosas do que deveriam, mas o calafrio que percorreu por seu corpo inteiro, destoava da noite cálida nova iorquina; Johnny tinha uma sensação, a essa altura, esquecida por — ao menos desde o acidente espacial que havia lhe dado seus poderes — ele, a sensação de que estava congelando. Exalou outra vez, mais rápido desta, como um assopro, lançando um olhar por sobre seus ombros, tentou ter certeza de que estava sozinho; não temia por bandidos, céus sabiam que estes não eram tão estúpidos o suficiente para tentar desafiar o Tocha Humana em pessoa apenas para lhe roubar os cinquenta dólares contados na carteira, os cartões de crédito e débito — dois destes de Richards —, a fotografia velha e amassada de sua mãe, sorridente com ele nos braços e Sue abraçando-a pelo pescoço e o celular novo que ele teve que comprar após seu antigo ter explodido em suas mãos porque ele havia se esquecido de que precisava esperar alguns segundos até que sua pele tivesse diminuído de temperatura para tocar no aparelho. Não, longe disso, Johnny Storm temia era deparar-se com sua irmã ali. Não seria a primeira vez, nem a última que ela faria isso.
Impedi-lo de fazer alguma estupidez imediata, era um esporte olímpico para Sue.
Johnny fechou os olhos, com uma careta, deixando sua cabeça pender para trás, ao exalar de novo. Merda, ele estava tão fodido. Qualquer um em sua situação teria apenas aceitado-a como é, e seguindo em frente; Dorrie Evans, certamente estaria o esperando em seu apartamento aquela noite. Usaria aquela lingerie vermelha de renda e não hesitaria em oferecer-lhe o que ele desejasse; tudo, sem limites ou restrições, e porra, Johnny estava inclinado a aceitar aquela oferta. O que ele deveria ter feito era acertar a oferta dela. Talvez o que poderia aliviar o peso que carregava, não apenas dentro de seu peito, mas martelando em sua mente também fosse justamente uma foda longa e sem preocupação para horário com uma mulher bonita e inteligente como Dorrie Evans.
Tencionou a mandíbula, outra vez, inspirando fundo, e abrindo os olhos, impaciente, passou sua mão por seu rosto, como se pudesse esfregar um pouco de senso comum em si mesmo, antes de praguejar baixo. Coçou seu couro cabelo com uma careta, e então, com um suspiro derrotado, voltou a caminhar; percebeu tardiamente que a sensação pegajosa que prendia a sola de seu sapato esquerdo contra o chão era derivado, na verdade, de um chiclete que ele havia pisado sem perceber, e não pelo chão encardido e nojento que a plataforma possuía. Arrastou seu pé algumas vezes por entre os ladrilhos da plataforma externa, sem conseguir um resultado lá muito bom, antes de voltar a andar, seus olhos azuis claros, límpidos como o céu durante o verão, fixaram-se no pequeno relógio arredondado analógico preso na parede de tijolos vermelhos próximo da cabine com a venda de tickets para o metrô, e o elevador enguiçado para deficientes móveis. Apertou seus lábios, exasperado, fazendo uma nota mental para verificar aquilo com Sue mais tarde, talvez no próximo dia dependendo de como a noite acabasse se tornado. Enfiou as duas mãos nos bolsos de sua jaqueta, e então, com um último olhar por sobre o ombro, Johnny saltou da plataforma. Caminhou com passos determinados e rápidos pelos trilhos do metrô, concentrando-se em escutar quaisquer mínimos ruídos que pudessem alertá-lo da aproximação de um dos metrôs.
A pressão em seu peito apenas pareceu aumentar conforme os músculos de seu corpo se flexionam por baixo da camisa polo e da jaqueta vermelha que usava, chacoalhou-se tentando aliviar a rigidez que se formava ali, não obteve muito sucesso. Uniu as sobrancelhas um pouco mais, considerando que aquilo não era apenas um caso isolado; sua ansiedade estava começando a piorar, a última coisa que ele desejava era ter que pedir ajuda de Sue com isso também; especialmente agora que Sue possuía novas preocupações, e por consequências seu cunhado também, para que Johnny sequer se atrevesse a dizer alguma coisa sobre. Não podia sequer considerar incomodá-lo agora; havia, é claro, tentado conversar com Dorrie sobre, e a mulher havia ouvido e lhe oferecido o suporte que precisava. Mas a situação havia saído de controle quando o nome errado escapou dos lábios dele ao gozar com ela. Aquilo havia mudado tudo, e ele não sentia-se mais no direito de lhe dizer nada; além de ser um belo idiota, por ter chamado-a pelo nome errado, não conseguia ignorar a acrescente de culpa que o envolvia quando estava perto de Dorrie.
Não queria magoar a garota, e de certa forma, ele genuinamente gostava dela, mas não dava para ocultar igualmente a compreensão que ele possuía de que ela havia sido um erro. A complexidade de suas emoções era desnorteadora, e Johnny sentia-se cada vez mais e mais no limite de tudo.
Para sua sorte, Johnny havia dito apenas o apelido, e não o nome de , então, Dorrie ainda não havia conseguido conectar um ponto com o outro, mas ele tinha plena certeza de que não demoraria muito para o fazer. Era por isso que ele precisava resolver aquela situação logo. Johnny balançou a cabeça exasperado consigo mesmo, tentando focar na tarefa em mãos. Observou mais uma vez por sobre seu ombro esquerdo, verificando se não estava sendo seguido, antes de virar a esquerda, adentrando nos túneis desligados do metrô de Nova York. Algo pareceu mudar conforme Johnny adentrava, mais e mais na bocarra escura sob a terra; o cheiro parecia diferente, não apenas carregava aquele aroma desconfortável de esgoto e sujeira misturada com carbono e plastico queimado que parecia acompanhar Nova York como uma entidade própria; carregava algo diferente, algo que lembrava vagamente metal, ferrugem e enxofre. Erguendo apenas o indicador, Johnny usou o próprio dedo como uma lanterna improvisada, observando suas chamas envolvê-lo, ao caminhar para mais e mais fundo da escuridão que o cercava. Seus olhos azuis claros estreitaram-se tentando encontrar o que quer que se parecesse com uma ameaça.
Mas ele estava sozinho ali; isso era pior.
O silêncio estendia-se à sua volta como um manto sufocante e denso; poderia debater-se o quanto desejasse, dele, não havia como escapar. Acompanhava-o apenas os ecos dissonantes das solas de seus sapatos contra os paralelepípedos irregulares que acobertavam o caminho, as poças que se formavam das tubulações enferrujadas, fedendo a esgoto, do sistema hidráulico ancestral que percorria o subsolo de Nova York, e o ruído de um ou outro rato correndo pelo caminho, desaparecendo por buracos nas paredes abobadadas ou derrubando algo pelo caminho. Por três vezes, Johnny praticamente havia pulado com os ruídos e praguejado por baixo de sua respiração irregular sua imbecilidade de ter simplesmente aceitado aquele plano.
Mas, então, de novo, ele não poderia deixar enfrentar aquilo sozinha, poderia?
Sentiu o impulso familiar de fechar os olhos e acertar sua própria cabeça contra a primeira parede que ele encontrasse pelo caminho; talvez, se tivesse sorte poderia se nocautear mais rápido do que Von Doom jamais poderia fazer. Mas é claro que aquilo era apenas Johnny tentando protelar as coisas e as consequências de suas ações.
Johnny realmente havia acreditado que estava fazendo o que era melhor para os dois. E por um tempo, realmente pareceu que era o melhor para ambos; mesmo que tivesse destruído o coração de , mesmo que o semblante dela naquela fatídica tarde de verão, no aniversário dela tivesse o atormentado por mais tempo do que deveria, ele podia perceber que a atitude, o ultimato havia ao menos criado uma estabilidade melhor para a amizade dos dois. Ela havia parado de encará-lo com aqueles olhos brilhantes e cheios de lágrimas toda vez que ele se aproximava de alguma mulher interessante ou minimamente atraente, pelo contrário, ela lhe oferecia um daqueles sorrisos doces que possuía, e sem nenhuma palavra se retirava, mesmo quando Johnny queria insistir para que ela ficasse presente, para que talvez, fizesse a ponte como ela sempre fazia para ele. Ela havia parado de criar expectativas, sempre aceitando o que Johnny tinha a oferecer com um dar de ombros e um sorriso divertido de obrigada; mas não o encarava com aquele sorriso largo mais, não o encarava com olhos brilhantes, e se dizia sobre seus dias, nunca eram sobre seus sentimentos ou algo com maior profundidade do que a superficialidade de sua rotina. Ela ainda lhe confidenciava as coisas, pequenos trechos de sua vida pessoal, ainda era a mesma pessoa que ele amava e não desejava perder a qualquer custo, mas os olhos dela se desviavam com facilidade dele.
Era como se ela tivesse perdido o interesse por Johnny. Como se tivesse encontrado algo mais interessante além, e, por mais idiota e cruel que isso fosse, Johnny não poderia deixar de negar que foi um golpe limpo em seu ego. Seu orgulho começou a doer um pouco mais sempre que ela aceitava o flerte alheio. Ele não era idiota, ela era bonita, atraente, e extremamente doce; o tipo de pessoa encantadora que era impossível de não amar. O tipo de pessoa que não parecia ser assim lá tão marcante, até você perceber que ela já era o centro de sua vida. Ela era um apoio, uma presença tranquila e um bálsamo para sua alma, e Johnny sabia que outras pessoas poderiam ver isso nela. Ele sabia que ela tinha admiradores secretos e pessoas que tentavam sua sorte com ela; mas ela nunca havia retribuído tais flertes. Johnny sempre a vira como alguém incapaz de retribuir o flerte alheio, e, querendo ou não, sentia uma ponta de tranquilidade por saber que era por causa dele. Ele não esperava, de certa forma, que quando disse a ela que deveriam ser só amigos, que perderia o afeto dela; mas ele perdeu.
Não o afeto platônico, este ainda estava ali. E mais forte do que nunca, mas não era o suficiente, não era a mesma coisa. o encarava agora como se ele fosse uma irritação qualquer, um irmão mais velho que de repente havia se tornado irritante por tentar protegê-la das coisas, um incômodo alheio que ela só aceitava por perto porque queria, mas não mais do que isso. Não parecia enxergá-lo como fazia antes, não o encarava como se fosse o cara mais legal que ela já havia visto em sua vida toda, nem o elogiava mais, daquele jeito meigo e silencioso, que era inteiramente . Ela ria de suas piadas, mas terminava sempre com um “vai se foder” e não mais com um doce “que idiota”; quando se inclinava para pegar ao perto dele, o empurrava agora para fora do caminho, não inclinava-se ou tocava-o mesmo que por acidente, e Johnny percebeu-se em desespero com mais ou menos três meses. Sentia falta do corpo dela contra o dele, mesmo que fosse por um gesto completamente inocente, inesperado. Sentia falta de vê-la corar por algo que ele havia dito, mas acima de tudo, ele sentia falta do amor que sentia por ele.
Quando gritou com ela, dizendo que estava cansado de tentar se manter apenas amigo de , Johnny tinha certeza de que era a escolha certa a ser feita. Ele era Johnny Storm, e era um desastre. Ele adorava mulheres e se envolvia com muitas, mas os relacionamentos sempre eram superficiais; achava que era mais fácil lidar com a superficialidade de um relacionamento qualquer, do que se permitir ser visto de fato por alguém que realmente amava. Achava que o que sentia por era apenas amizade, e queria manter assim, porque admitir em voz alta que uma parte de si mesmo era afim dela a tempo suficiente para que estivesse considerando pular naquele abismo, era reconhecer que, se tudo desse muito errado
Mas ele queria que tivesse pelo menos brigado. Que tivesse tentado convencê-lo de escolhê-la, o assegurado de seus sentimentos. havia apenas se resignado; pior, ela havia seguido em frente com mais facilidade do que ele queria que ela tivesse seguido. Era estranho, e talvez um pouco cruel, mas vê-la sofrer por ele, de certa forma, o envergonhava admitir, mas lhe dava a certeza de que ela realmente gostava dele. Que vê-lo com outra pessoa a magoava porque ela genuinamente o amava. E embora fosse irritante, era suficientemente bom saber que ela estaria ali por ele, independentemente do que ele fizesse.
E ela estava. Agora apenas como sua amiga.
Foi somente quando ele a viu com o Homem-Aranha pela primeira vez que tudo pareceu desmoronar ao seu redor. Johnny estava tão certo que ela iria esperar por ele, que ele teria, eventualmente, uma chance de dizer a ela a verdade sobre seus sentimentos, por confrontá-los e talvez, apenas talvez, ele pudesse implorar para que ela o perdoasse pela forma com que havia o tratado; ele havia se esquecido, erroneamente, que ao pedir para que ela o visse apenas como amigo, ela teria que seguir em frente. Teria que encontrar outra pessoa para dividir sua vida, e alguém que estivesse realmente disposto a viver aquilo com ela. Ele só não tinha ideia de que seria seu melhor amigo a ocupar aquele lugar. Peter Parker — embora Johnny recusasse a chamá-lo como tal, especialmente devido a máscara e o peso que vinha com sua persona como Homem-Aranha —, não era exatamente o melhor tipo de pessoa para se relacionar com alguém. Quer dizer, ele tinha um histórico de relacionamentos terríveis que sempre havia feito Johnny rir alto, especialmente porque esses relacionamentos horríveis acabavam de maneira catastrófica; a morte de sua parceira, ou algum vilão entrando no meio do caminho. Você poderia fazer uma lista com as desventuras amorosas do Homem-Aranha — ao fundo de sua mente, Johnny tinha quase certeza de que, em algum lugar, havia alguma revistinha contando sobre isso em algum lugar. Certamente, Franklin já havia lido tal coisa. Ele só não esperava que Peter fosse achar uma pessoa interessante o suficiente para tentar namorar; pior, ele não achou que iria retribuir os sentimentos de Peter.
Agora ele sentia-se preso em um limbo desesperadamente querendo gritar com os dois. Queria dizer a Peter que aquilo era estúpido, que ele não tinha direito de entrar na vida de e destruí-la como fizera com todas as outras antes dela — não que fossem muitas, mas as consequências eram visiveis dos desastres, e ainda perturbavam Parker de alguma forma, Gwen, Felícia, Mary Jane… —, queria dizer ao melhor amigo que não lhe pertencia, e que se ele sabia o que era bom mesmo para ela, iria se afastar, talvez até mesmo desse um ghosting nela para que não tivesse esperanças de que as coisas se resolveria. Poderia ser um método cruel, de certa forma, mas não era menos eficaz. Queria implorar para que o Homem-Aranha não a envolvesse em seus problemas, que a deixasse em paz e a esquecesse, porque, querendo ou não a onde ele fosse, sempre haveriam baixas, e Johnny não queria que fosse a próxima. Mas então havia e sua maldita cabeça dura para aquela situação.
Queria gritar a ela em como estava sendo injusta. Queria gritar que a amava, e que havia demorado muito tempo para perceber isso, e que tinha feito uma confusão de todas as coisas, mas que isso não dava direito a de seguir em frente. Que não lhe dava o direito de tratá-lo com tamanha indiferença quando eles eram amigos a tanto tempo, quando ele havia cuidado dela e apenas tentando protegê-la de toda a confusão em forma de chamas e corpo humano que ele era. Que ele não desejava machucá-la, e por isso havia tentado afastá-la, mas aquela havia sido a decisão mais estúpida que ele já havia tomado em toda sua vida. Queria poder dizer a ela que ao menos considerasse, que parasse de usar Peter para esquecer-se dele, e que o escolhesse… mas confrontado por suas próprias atitudes e suas decisões, era fácil saber qual seria a resposta de :
“Como posso escolher alguém que sequer me escolheu antes?”
E de alguma forma, ele compreendia. Então resignou-se a seu próprio silêncio desfazendo-se aos poucos em um profundo arrependimento e dor em seu peito ao ver a garota que percebeu, tardiamente, amar, agora se apaixonava por seu melhor amigo. Tudo o que lhe restava a fazer agora, era arrastar-se pelos túneis internos do metrô de Nova York, em busca de um maldito sinal de onde o portal se abriria afim de conseguir localizá-la e ajudá-la a voltar para casa. Custasse o que custasse. Estivera por uma semana inteira tentando localizá-la, tentando entender onde a anomalia iria surgir para que conseguisse interceptar os sinais e convertê-los para cá. Ele, não o Homem-Aranha, não Reed, nem mesmo Ben ou os caras da SHIELD, foi Johnny quem havia encontrado o padrão, havia decifrado-o e rastreado, foi Johnny quem passara horas no laboratório de Reed tentando encontrar uma forma de readaptar o dispositivo queimado por Parker, e tentar segurar por tempo o suficiente o portal para trazê-la de volta. Nenhum deles, só Johnny.
Se ele não estivesse tão apavorado de perdê-la, se ele não tivesse hesitado diante da possibilidade de perder relacionamentos casuais e superficiais que não lhe serviam de nada. Era doloroso admitir, mas ele havia sido um completo idiota, e mesmo agora, enquanto sentia o peso leve do dispositivo na parte interna de sua jaqueta, não podia deixar de considerar que talvez já fosse tarde demais. Mesmo que o Homem-Aranha não estivesse ativamente tentando trazê-la de volta, havia escolhido Peter como seu parceiro, certo? Johnny deveria estar feliz por isso, feliz por ver que alguém a ama o suficiente para sequer ter outra opções. Feliz por ver que sua melhor amiga havia encontrado aquilo que mais buscava, mas… ele não estava, e dilacerava-o pensar que havia falhado com ela, mais uma vez.
Absorto em seus pensamentos, Johnny sequer percebeu a movimentação nas sombras que se aproximavam de onde ele estava. Não percebeu quando a sombra projetou-se por seu ombro, e tampouco de que lado o golpe viera, ouviu apenas por cima o grito do Homem-Aranha, avisando-o para se abaixar, e então, tudo havia se tornado um completo caos.

•••


Sangue escorreu por entre seus lábios quando a última teia do Homem-Aranha arrebentou com o peso de . Tudo pareceu desacelerar ao seu redor, seus olhos azuis claros arregalaram-se com o grito que repercutiu por trás da máscara do herói Cabeça de Teias. Os pelos de sua nuca e braços eriçaram-se, sua garganta se contraiu enquanto o ar perdia-se por entre seus lábios entreabertos. Os olhos registraram o pequeno segundo que pairou pelo ar, suspensa pela gravidade, antes de desabar. Seu sangue tornou-se gelo, o grito pelo nome da garota que havia se tornado a única razão para que ele estivesse naquela confusão de portais e demônios do limbo saltando para fora, morreu em sua garganta, sem jamais ser proferido. Um segundo se arrastou à frente de seus olhos, e então, antes que pudesse evitar, Johnny já havia se lançado em direção a ela, desesperado para alcançá-la antes que o chão amortecesse sua queda primeiro.
Não poderia dizer ao certo porque o fez, porque arriscou-se para salvá-la quando poderia salvar a si mesma — ele já havia a visto o fazer por vezes o suficiente. Mas havia algo na vulnerabilidade que o Cabeça de Teia havia exposto em seu grito, algo na maneira com que ela não havia lutado contra a queda, apenas resignando-se a esperar pelo impacto que o assombrou. Que o colocou em movimento mesmo quando não tinha certeza do que deveria fazer — eles deveriam retirar as pessoas das ruas antes que mais do chão cedeu a quebra dos túneis internos de Nova York. Eles deveriam afastar os demônios e proteger os inocentes, e todavia, a única coisa que Johnny conseguia pensar era em alcançá-la. Suas chamas estalaram por seus ouvidos, um ricochetear alto espalhando-se por seu corpo superaquecido enquanto tentava impulsionar-se o mais rápido que conseguia. Plástico enrugou-se e derreteu-se por onde ele passou, metal dilatou e estalou, uma ou duas estruturas se desfizeram, derretendo a temperatura de seu corpo. Então ele usou de todas suas habilidades para lançar-se na direção de antes de apagar as chamas.
Um grito entrecortado escapou de sua garganta quando conseguiu alcançá-la. Enroscou seu braço ao redor da cintura dela, puxando-a em direção a si mesmo, enquanto seu outro braço repousou sobre a cabeça de , tentando protegê-la ao máximo que podia. Girou no ar, antes de sentir o impacto reverberar por seu corpo inteiro, seguido do estardalhaço causado pela vitrine de vidro que chocara-se. Dor explodiu por trás de seus olhos, sangue esvaiu-se por suas costas, ombros e até mesmo cabeça. Sentiu quando o corpo de chocou-se contra o dele, quando ambos rolaram pelo piso de cerâmica quadriculado da loja destruída antes do impulso da queda ser refreada por uma série de destroços. Um zumbido amorteceu seu ouvido esquerdo, e o cheiro de carne queimada pareceu tomar suas narinas com violência. Por uma fração de segundos Johnny perdeu completamente a consciência, tudo escureceu ao seu redor, e a única coisa que sentiu foi os dedos de enroscado contra os seus, a pressão suave, a calidez da palma, os pequenos calos que adornavam as pontas dos dedos, fossem por canetas ou socos bem dados estavam ali.
Quando abriu seus olhos, em meio aos destroços, ao vidro estilhaçado e o cheiro intenso de fumaça, a primeira coisa que registrou foi . Olhos expressivos voltados para o rosto dele, o semblante perdido em uma mistura de confusão e preocupação crescente ao tentar verificar se ele estava com algum ferimento mais sério ou não. Johnny sentiu uma parte de si exalar com alívio, a compreensão de que ela estava bem, viva — embora segura fosse uma terminologia abstrata para a situação e o momento —, ao mesmo tempo que sentiu o peso de suas palavras ao fundo de sua garganta, sufocando-o com a desesperada necessidade de contar-lhe tudo. De expor seus sentimentos mesmo que isso lhe custasse sua amizade com ambos… seria egoísta? Seria estúpido fazê-lo agora quando já era tarde demais? Mas se não o fizesse…?
Antes que pudesse refrear o impulso, Johnny tratou de levantar-se, atrapalhadamente, e puxá-la para um abraço apertado. Não poderia dizer de onde o impulso partira, se fora o medo, ou se fora a completa certeza de que a perderia, eventualmente, só possuía unicamente o desejo de mantê-la ali, mesmo que por um breve segundo. soluçou baixo, sem mover-se, enquanto Johnny enterrava seu rosto na curvatura de seu ombro. O tremor que se espalhava por seu corpo, não era proveniente apenas da adrenalina que corria livremente por seu sangue, mas sim pelo desespero, pelo medo e pela percepção de que não havia mais o que se fazer. Por um breve momento, Johnny a manteve ali, abraçando-a com força como se sua vida dependesse disso, mas então a visão do Homem-Aranha sendo arremessado rua abaixo foi o suficiente para quebrá-lo de seu próprio transe. Afastou-se um pouco, segurando os ombros dela, com pesar.
— Estava errado… — Johnny tentou dizer, mas as palavras pareciam crescer e misturar-se em sua garganta, dificultando sua vã tentativa de expeli-las para fora. Ele engoliu em seco, a garganta contraindo, o pomo de adão se movendo por um momento quando viu a mandíbula de se retesar. Ela poderia ser uma pessoa doce, mas isso não significava que ele não havia se machucado o suficiente já. Mesmo assim, obrigou-se a dizer a ela: — Sobre nós… estava errado, sempre estive, só tinha medo… — Johnny tentou formular as palavras, o mais coerente que conseguia, mas estava falhando miseravelmente.
abaixou a linha de seu olhar, e por um momento ele esperou pelo momento que ela explodiria, o momento em que o atingiria com um tapa e, em seu direito, o dilaceraria com suas palavras. Uma parte pessoal de si mesmo desejava que ela o fizesse, que gritasse com ele e o odiasse, de certa forma seria mais fácil de lidar com toda aquela situação se ela simplesmente o odiasse por completo. Mas não. Aquela não era , não era a que ele conhecia. Viu-a voltar a encará-lo segurando seu rosto com as duas mãos, mantendo o contato visual com uma intensidade que o teria feito lutar contra as lágrimas se não estivessem em meio de um pandemônio causado por si mesmos.
— Você sempre vai ser meu melhor amigo, Johnny — disse com uma firmeza irredutível, e Johnny percebeu naquele instante que havia agido tarde demais. Já havia perdido algo precioso antes mesmo de perceber, e agora, mesmo tentando recuperá-lo, já não mais lhe pertencia. Em algum lugar de seu peito, seu coração jazia em frangalhos, desfeito pelo peso de suas próprias escolhas e decisões, de suas próprias inseguranças; percebeu o quão idiota havia sido, e o quão estúpido ainda era por acreditar que havia uma chance. Nunca tivera, fora só arrogante o suficiente para não reconhecer. — Mas não amo mais você, não dessa forma. — sussurrou com uma sinceridade que esmigalhou algo dentro de Johnny.
Mesmo assim, o loiro obrigou-se a forçar um sorriso, assentindo.
— Eu sei… só precisava dizer… — mentiu, antes de vê-la correr para longe, em direção ao Homem-Aranha, como se Johnny não tivesse dito algo de extremo valor para ela, algo genuíno e sincero. E de certa forma, para ela, não era assim tão importante. Johnny exalou, um riso desapontado. Ele já devia ter esperado, mas esperança era um veneno que corroía aos poucos, ao menos agora, ele sabia.
Não havia concerto para o que era. Não mais para ele.

ICARUS'S FALL

“And then I go and spoil it at all
By saying somethin’ stupid like
I love you”.

SINATRA, Frank. SINATRA, Nancy. Somethin’ Stupid.
— ESTAMOS BEM? — A pergunta suave de despertou-o de seus próprios devaneios. Johnny a encarou, realmente encarou-a e sentiu aquela familiar pontada ao centro de seu peito espalhar-se, corroendo todo o caminho que abrangia. Os cabelos estavam presos em um coque mal feito, as mechas desprendiam-se de seu penteado, repousando pelo rosto suave e doce como uma moldura. Seus dedos contraíram-se por instinto, sentindo a necessidade de colocar uma mecha atrás de sua orelha, de afastá-la de seu rosto, de seus olhos. Ele gostava da maneira com que o neon das placas gigantes da Times Square refletiam contra a pele dela, colorindo-a com uma tonalidade rosa e amarela artificial, fazendo as mechas de seus cabelos tivessem pequenos reflexos esverdeados, mesmo que ainda estivessem meio prateados devido ao incidente. Gostava da maneira com que os olhos dela pareciam mais vividos sob a penumbra da noite, ou a maneira com que o gloss labial sempre parecia destacar seus lábios, o formato de seu sorriso, a maneira com que iluminava seu rosto. Gostava da maneira com que o perfume dela era carregado pelo vento, e parecia grudar nas fibras especiais de seu uniforme, mesmo que fossem sumir no segundo que suas chamas o consumissem outra vez. Gostava exatamente daquilo que a tornava impossível para ele.
Ele sabia que ela esperava uma resposta dele, sabia que seus olhos, expressivos e sinceros, estavam tentando compreender o que se passava por trás de sua mente, como sempre fazia diante de alguém. era esse tipo de pessoa; tentava compreender o outro para saber se estava tudo bem ou não, buscava pequenas pistas e indicativos de emoções, estava sempre ciente do espaço ao seu redor e do humor dos outros. Johnny sentiu o impulso familiar de fazer piada sobre isso, de tentar aliviar a situação com um comentário dúbio, um flerte que de inocente não teria nada, mas que igualmente não serviria para nada senão alimentar seu próprio ego. E então, em paralelo a seus antigos costumes, havia aquele impulso de implorar por uma chance, mesmo que fosse estupidez agora. Ele havia perdido todas suas chances quando dissera com clareza a ela que queria apenas ser seu amigo, agora, era apenas insistir em uma ferida aberta a tempo demais.
Ele precisava aceitar as coisas como eram. Então mesmo contra todos os impulsos de seu corpo, Johnny pigarreou, clareando sua garganta, antes de desviar os olhos para a rua agitada de Nova York, forçando-se a manter uma expressão suave, positiva, até mesmo compreensiva. Se mentira fosse, não estava lá assim tão distante da verdade de fato, só não expunha a tristeza por cometer um erro irreversível.
— Estamos — Johnny obrigou-se a dizer, oferecendo seu sorriso mais gentil para ela, mesmo que sentisse que estava mentindo. Não apenas para , mas para si mesmo. Obrigou-se a forçar uma risada suave, dando de ombros, como se a indiferença que exibia não fosse calculada e planejada para parecer apatia, como se não estivesse debatendo-se contra a culpa e o arrependimento por semanas, talvez meses. Desviou seu olhar do rosto dela, incapaz de sustentá-lo por mais tempo, temeroso que ela, porventura, pudesse ler sua expressão, ver exatamente o que se passava em sua mente. Que expusesse exatamente o que sentia por ela, com apenas um olhar, e que o odiasse por isso. Forçou um riso baixo, divertido, e por um segundo quase pareceu genuíno a seus próprios ouvidos. — Qual é, tenha um pouco de fé em mim, , eu sou seu melhor amigo, é claro que vamos sempre ficar bem. Amigos são para isso.
bufou, revirando os olhos, meneando com a cabeça de maneira negativa. Não havia julgamentos em sua postura, e uma parte um tanto egoísta de Johnny desejou que ela pudesse ser um pouco mais cruel. Tornava-se mais fácil seguir em frente quando a pessoa que você tentava esquecer era cruel, tornava-se mais fácil esquecer alguém que o desprezava, que o via como um monstro, mas isso… bem, isso era sal na ferida aberta. Johnny só poderia culpar a si mesmo.
— Tá certo, continua repetindo isso, e talvez um dia eu acredite — ela provocou, e Johnny sorriu, com sinceridade iluminando seus olhos quando voltou a atenção para o semblante dela outra vez.
Eu te amo, sentiu vontade de dizer, mas ao em vez disso, proferiu suavemente:
— Idiota — e o sorriso de não poderia ter sido menos brilhante. Silêncio estendeu-se entre os dois, por um breve momento, antes de Johnny obrigar-se a assentir, lembrando-se mais uma vez de que não importava o que acontecesse, ele ainda era o Tocha Humana e ainda haviam pessoas a serem salvas. Porque isso era o que heróis faziam, certo? Salvar pessoas, e então ir para casa, encarar o teto considerando todos os arrependimentos já cometidos antes da hora do jantar. — Te vejo amanhã cedo, né? — Embora fosse apenas uma despedida, soara tão insegura e incerta quanto o vazio que abrangia-se por seu peito. apoiou as duas mãos nos bolsos traseiros de seu jeans esfarrapado, desviando o olhar do rosto dele, para o horizonte à sua esquerda.
Não respondeu, e de certa forma, fora exatamente a resposta que precisava. Johnny obrigou-se a engolir as palavras, o pedido silencioso para que ela considerasse; a justificativa que sempre o atormentava: em temer tanto por perdê-la, ele, consequentemente, acabou perdendo-a completamente. Não disse nada, todavia, apenas caminhou em direção ao parapeito do prédio. Johnny fechou os olhos por um momento, tentando apagar a imagem gravada em sua mente. Tentou mentir para si mesmo que estava feliz por , e por ela finalmente possuir tudo aquilo que desejava: um namorado que realmente a amava, uma vida de heroína que a satisfazia, e uma amizade duradoura com o cara mais idiota de toda Nova York; tentou convencer-se que era disso que ele precisava para seguir em frente — era isso que precisava para obrigar-se a começar a esquecê-la. E por um momento funcionou.
Ele conseguiu.
desapareceu de sua mente.
Então, com um exalo suave, abrindo os braços em paralelo, Johnny permitiu-se cair, aproveitando-se da queda com um sorriso melancólico preso em seu rosto, sentindo suas chamas consumindo seu corpo como sempre, as fibras especiais de seu uniforme estalando por seus ouvidos ao retesar-se com sua própria temperatura. Jogou-se ao vazio que abria-se abaixo de si para as ruas de Nova York, como ele supunha que Ícaro poderia ter feito após voar tão perto de tamanho brilhante sol. Porque a iminente queda ao vazio ainda valia a pena se pudesse, porventura, admirar demasiada beleza de seu sol. Mesmo que ela, agora, nunca fosse saber disso.
Permitiu-se queimar, brilhante e intensamente, antes de seguir para casa. Sozinho.

FIM!

Nota da autora: muito obrigada por ter lido até aqui! Essa fic possui continuação, se chama Loverboy, caso tenha se interessado em saber mais sobre o relacionamento da PP com o Miranha e um pouco mais do contexto relacionado aos dois. Não coloquei aqui confrontos muito longos porque o ponto dessa história não era em si a parte heróica dos personagens, mas sim o relacionamento (e os erros) cometidos. É isso, obrigada, e Bah Bayeee!