05. We Almost Broke Up Last Night
Revisada por:
Sagitário♐️
Finalizada em: Março/2026
CAPÍTULO ÚNICO
Momentos como aquele lembravam Bucky Barnes, com uma crueldade quase irônica, de que essa versão “nova” de si mesmo ainda não tinha o controle de nada. Nem das próprias reações, nem das escolhas que fazia, muito menos das pessoas que insistiam em voltar para sua vida quando ele já tinha aceitado que as tinha perdido.
A lembrança do último encontro com Sabrina algumas semanas antes insistia em voltar, vívida e incômoda. Não houve brigas nem palavras duras, apenas uma conversa baixa, carregada de tudo o que já não cabia mais entre eles. Ainda assim, ele nunca esqueceu o nó que se formou em seu peito quando Sabrina o olhou com tristeza e disse: Eu não vou esperar para sempre, Barnes. Agora, vê—la ali parecia um erro da realidade. Um delírio.
Sabrina estava sentada no sofá dele, inclinada sobre a própria agenda, rabiscando com concentração feroz, o mesmo sofá onde ele tinha passado noites inteiras tentando não pensar nela.
— Não me olhe assim – Sabrina disse, sem levantar a cabeça de imediato, mas consciente do olhar dele. – Sam me pediu para fazer isso. Ele é a razão de eu estar aqui.
– Claro que é – resmungou, abaixando a cabeça.
Ele tentou se convencer de que a irritação vinha do fato de, mais uma vez, não ter sido consultado. Era isso. Mais uma decisão tomada por ele, sem ele. Mas, no fundo, sabia que não era só isso. O que realmente o incomodava era outra coisa: Sabrina estava ali não porque queria estar ao lado dele. Não porque tivesse sentido vontade de vê—lo. Estava ali porque alguém a mandara.
Ele era apenas uma tarefa?
– Vamos começar.
Ela dobrou as duas pernas sobre o estofado, acomodando—se com eficiência quase cirúrgica. O caderno pequeno repousou sobre a coxa; ela o abriu, folheando páginas com rapidez objetiva. Em seguida, a calculadora.
Por um segundo, ele não viu Sabrina. Viu a Dra. Christina Raynor sentada à sua frente, postura firme, olhar atento demais, pronta para dissecar cada silêncio, cada desvio, cada respiração fora do ritmo, como a boa psicóloga que era.
Quando percebeu que Bucky continuava parado, apenas observando, Sabrina soltou um suspiro curto, impaciente e disse:
– Vamos lá. Suas finanças.
Ele demorou um segundo a reagir. Olhava para ela como se estivesse diante de algo improvável demais para ser real. Ajuda – especialmente com algo tão íntimo quanto dinheiro – não fazia parte do vocabulário dele. Ainda assim, acabou empurrando a pilha de papéis pela mesa de centro.
Bucky permaneceu imóvel enquanto ela conferia cada conta com um rigor quase profissional. Os olhos de Sabrina deslizavam pelas cifras, a testa discretamente franzida, a caneta registrando observações rápidas no papel. Gentileza gratuita sempre lhe parecera suspeita, ainda mais vinda de alguém que dizia pintar o cabelo toda vez que tinha o coração partido. E, desde que a conhecera, ela já fizera isso duas vezes.
– Para de me encarar – murmurou, sem erguer os olhos do papel.
Bucky piscou, quase como se tivesse sido flagrado em algo impróprio, e desviou o olhar.
Ele não estava acostumado a ter alguém ali. Mas houve um tempo em que aquele silêncio não existia. Houve um tempo em que Sabrina ocupava o espaço como se sempre tivesse pertencido a ele. Pés descalços no corredor, risadas atravessando portas entreabertas, a televisão ligada mesmo quando ninguém estava assistindo.
Ele tinha se acostumado com ela. Até não estar mais.
– Por que você está fazendo isso? – perguntou, tentando desviar o olhar dela.
– Eu já disse. O Sam me pediu. – Ela fez uma anotação rápida e franziu o cenho. – E por que diabos você gasta duzentos dólares com lavanderia?
– Por que você está revirando minhas contas de lavanderia?
– Porque você está falido, James. – Pela primeira vez, ela ergueu os olhos. – O Sam me contou. E isso aqui… – Apontou para os papéis espalhados – Só confirma.
– Eu sei me virar sozinho.
– Salvar mundo e socar caras maus? Pode até ser. Mas você claramente não sabe nada sobre dinheiro no século XXI. – Ela parou, encarando outra folha. – Cara, qual é? Trezentos dólares de conta de telefone? Você nem usa!
Bucky desviou o olhar. Um leve rubor subiu—lhe às bochechas.
– Foi… uma emergência.
– Uma emergência… por um mês inteiro? – Ela arqueou a sobrancelha.
– É complicado – mentiu.
Não era. Ele simplesmente tinha esquecido que o mundo funcionava com mensagens, ligações, notificações. Esquecido que as pessoas usavam algo chamado “celular”. Mas admitir isso seria assumir que ele ainda era um homem deslocado no próprio tempo e ele já estava cansado de parecer perdido na frente dela.
– É claro que é. – Sabrina soltou uma risada baixa, contida, e logo voltou às anotações. – Você tem dois cartões de crédito.
– E? – Bucky respondeu, surpreso demais para disfarçar.
– Por quê?!
– Por que o quê? – retrucou, já na defensiva.
– Você não precisa de dois cartões. E a dívida que conseguiu acumular nos dois é simplesmente absurda. – Sabrina inclinou a cabeça, avaliando—o por cima do papel. – Por que você fez isso?
– Eu tive meus motivos.
– Ah, imagino. – Ela bufou, revirando os olhos.
Ele ia retrucar – mentir, inventar qualquer justificativa conveniente, erguer uma versão mais aceitável de si mesmo –, mas as palavras morreram antes de alcançar a língua.
Porque era a Sabrina. A pessoa mais próxima que ele já chegara de chamar de namorada. A única que o conhecia quase tão bem quanto ele próprio. Mentir para ela era inútil.
– Eu só… – Suspirou, esfregando o rosto com a mão. – Não consegui dizer não para moça do crediário.
Sabrina fechou os olhos por um segundo antes de erguer o olhar do papel de novo, com um sorriso pequeno e divertido. Bucky desviou o olhar, orelhas quentes, enquanto ela balançava a cabeça, satisfeita, como quem confirma uma teoria antiga.
– O temido Soldado Invernal vencido por uma atendente simpática e um sorriso treinado – murmurou, voltando às anotações. – Francamente, James.
– Eu não sabia que precisava ter uma ficha limpa para comprar uma cafeteira – murmurou, em tom defensivo. – Olha só. Sobrevivi à Hydra, a uma lavagem cerebral e a uma guerra mundial. Pensei que tinha crédito suficiente para um simples eletrodoméstico.
Ela soltou um riso curto, vazio de humor, que mais parecia um arfar.
– Você merecia era alguém te dizendo ‘não’. Mas claramente, ninguém na loja teve coragem.
Bucky observou o vai—e—vem da caneta por um instante que se esticou além do confortável. Aquela cena – a normalidade doméstica das contas, dos números, da reprimenda disfarçada de cuidado – era a arma mais efetiva contra ele. Sempre fora. Era mais desconcertante do que qualquer confronto, mais vulnerabilizante do que qualquer memória.
– Você não precisava estar fazendo isso – murmurou, o olhar fixo em algum ponto da mesa, como se a madeira fosse menos ameaçadora do que ela. – Podia só… me julgar à distância.
– Já disse – retomou, forçando o mesmo tom casual de antes, como quem encerra o assunto antes que ele se torne pessoal demais –, foi o Sam quem me pediu. Até me pagou pelo serviço.
Era um escape conveniente. Uma explicação organizada demais. Ambos sabiam que o suposto cheque de Sam provavelmente nunca seria descontado (se é que algum dia existira).
– Ele te pagou quanto? – A pergunta escapou antes que ele pudesse filtrá—la, carregada de um ceticismo áspero que ele não fez questão de suavizar.
– O suficiente.
Quanto custava passar horas ali com ele? Quanto custava organizar o caos dele? Quanto custava tolerá—lo?
Se fosse dinheiro, ele poderia pagar.
– "O suficiente" para justificar ficar sentada numa cozinha até tarde da noite, revisando as finanças de um ex—assassino?
Dessa vez, ela não conseguiu ignorar. A caneta parou de novo e ela ergueu lentamente o olhar, finalmente.
– É o suficiente para eu saber que você não vai passar fome porque comprou uma máquina de café que vale mais que o aluguel deste apartamento. E que talvez, só talvez, você aprenda a olhar para a coluna de débitos antes de sair comprando coisas brilhantes.
– Eu não sei fazer essas coisas, Sabrina. – A admissão escapou em um sussurro, não sobre dinheiro, mas sobre tudo. Sobre ler contas, sobre prever consequências, sobre habitar uma vida que não fosse definida pela próxima missão ou pela sombra do último erro. – Nunca soube.
– Não pode depender só de cartão. Precisa de uma reserva, um fundo de emergência… E pagar o seu aluguel, pelo amor de Deus. Olha, eu trabalho com isso. Eu entendo de finanças. E você… – Fez um gesto vago com a caneta, apontando para a pilha de papéis – é péssimo com dinheiro. Você tem um ótimo salário. Sua renda é mais do que suficiente. O governo literalmente te paga uma pensão. Uma boa pensão. E você ainda mora... aqui. – Ela respirou fundo. O olhar suavizou. – Eu só estou… oferecendo ajuda.
– Posso dizer “não”? – Perguntou, a voz carregando um fio fino de desafio.
– Não. – Ela deu de ombros, simples, definitivo. Ele engoliu um sorriso involuntário. – Então, além de ser irresistivelmente charmoso, você também tem uma mente incontrolável e precisa desesperadamente de ajuda com números. Não se preocupe com discrição, tenho meus métodos. Também não sonego impostos... oficialmente, mas sei como… otimizar a tributação absurda. Ah, e também...
As palavras começaram a jorrar, aceleradas, confiantes, quase divertidas demais para a seriedade do assunto. Bucky ficou parado, observando.
– Espera, espera. – Ele ergueu as mãos, tentando conter o fluxo. – Volta. Você me disse que era secretária numa empresa de móveis.
– Sou. – Ela assentiu, tranquila. – A secretária dos contadores. A que sabe onde tudo está, como tudo funciona e, às vezes, por que funciona.
– Certo. Tenho perguntas.
– Ah, não. – Ela sorriu, já negando com a cabeça.
– “Não” quê? – Bucky franziu ainda mais o cenho.
– Perguntas. – Sabrina apoiou as contas contra o peito. – Nós não fazemos isso. – O sorriso dela era doce demais para a ousadia da frase. – Ah, e você precisa fazer compras. Não tem comida aqui. Nem produtos de higiene. Nem café. Mas isso eu não faço. Sou contadora, não secretária.
– Tudo bem. Eu mesmo faço minhas compras.
– Ótimo – ela murmurou, folheando mais algumas folhas. – E você precisa limpar o apartamento e comprar móveis... É um colchão no chão? Você está dormindo no chão? Achei que tinha parado com isso.
– O que há de errado em dormir no chão? É confortável.
– Você podia comprar uma cama. E um sofá, pelo menos. – Ela hesitou. Foi mínimo. Um segundo quase imperceptível. Mas ele viu. – E talvez… uma mesa nova.
Ele ergueu o olhar de imediato.
Por um instante, o apartamento deixou de ser o que era e virou lembrança.
A madeira cedendo sob o peso dos dois. A gargalhada descontrolada. O susto seguido de silêncio. Depois mais risos. E depois...
A mesa que nunca foi substituída.
– Então… fechamos o acordo? – Sabrina se levantou da cadeira, pigarreando de leve, como quem encerra uma reunião importante e produtiva. Bucky hesitou, mas assentiu. – Ótimo! Agora… vou precisar do seu nome completo, número do seguro social, senhas das redes sociais e acesso total às suas contas bancárias.
– Você está pedindo minha alma também ou isso fica para a próxima reunião?
– Não se preocupe. Tudo será absolutamente confidencial. – Fez uma pausa dramática. – Você não faz ideia das coisas que eu sei sobre o Sam.
O interesse dele foi imediato.
– E o que exatamente você sabe sobre ele?
– Que ele é meu cliente. – Fechou o caderno com um estalo leve. – E isso, meu amigo, é confidencial.
– Ele tem segredos financeiros obscuros?
– Todos têm.
– Ele comprou um jet ski, não foi?
– Não posso confirmar nem negar a existência de um jet ski.
– Eu sabia.
– Mas posso confirmar que ele paga em dia. – Ela inclinou a cabeça. – Conceito que você poderia experimentar.
Ele bufou, mas um sorriso escapou antes que conseguisse conter. Tentou disfarçar, limpando a garganta, assumindo uma expressão neutra que não convencia nem a si mesmo.
– Só para deixar claro… eu ainda posso fugir no meio do processo, certo?
– Claro. – Ela sorriu, tranquila demais. – Mas eu sei onde você mora.
E foi ali, naquele equilíbrio estranho entre provocação e cumplicidade, que ele teve a sensação incômoda – e não totalmente desagradável – de que talvez tivesse acabado de se meter em algo maior do que planilhas e contas atrasadas.
Não porque fosse arriscado. Mas porque envolvia ela.
⁂
Uma semana depois, Sabrina bateu à sua porta. O som foi inesperado o suficiente para levar um segundo a mais do que o normal para ele identificar o que era. Visitas ainda não faziam parte do seu repertório de normalidade.
Quando abriu, lá estava ela, com um caderno de capa dura encaixado sob o braço.
– Preciso anotar algumas coisas. Fazer perguntas. – Ela sorriu rápido, eficiente, antes de passar por ele como se tivesse um passe vitalício para aquele apartamento.
Ele fechou a porta devagar, observando cada movimento com a cautela automática de quem aprendera a procurar armadilhas até em gestos simples.
– E essas perguntas… – disse, com leve ceticismo – são tão pessoais que exigem um caderno inteiro?
Sabrina parou no meio da sala e se virou para encará—lo.
– A sua vida financeira é pessoal?
– É.
– Então a resposta é sim. – Ela abriu o caderno, folheando algumas páginas. – Vamos começar pelo básico. Nada escandaloso, prometo. Você está envolvido em corrupção, desvio de verbas públicas ou algum crime político—ideológico?
– Não, não e não. Estou limpo. – Ele soltou uma risada baixa e rouca, surpresa demais para parecer calculada. – Isso é um interrogatório ou eu preciso de um advogado?
Ele tentou focar, mas foi inútil. O cabelo dela estava preso de um jeito meio solto, algumas mechas escapando ao redor do rosto.
A memória veio com precisão irritante.
Estava exatamente como no terceiro encontro deles.
– Que bom. – O canto da boca dela se ergueu, e ela riu junto, um som leve que parecia limpar o ar. – Isso teria tornado meu trabalho muito mais interessante, mas vamos trabalhar com o que temos.
– “Interessante” é um jeito bem generoso de descrever lavagem de dinheiro, Sabrina.
Sabrina estendeu a mão, entre seus dedos, um cartão de plástico escuro e fosco refletiu a luz.
– Aqui. Seu novo cartão de crédito. Score excelente, nome limpo. – Ela piscou, um brilho de pura diversão nos olhos. – Mas atenção: é só para uso internacional. Nada de sair por aí fazendo compras fora do planeta ou em qualquer outra dimensão que não aceite o dólar. As taxas de câmbio são um pesadelo.
Ele aceitou o cartão, passando o polegar sobre o relevo do nome. JAMES B. BARNES. Soava oficial. Permanente.
– Internacional – murmurou, erguendo o olhar.
– Exatamente. – Ela anotou algo rápido no caderno. – Vamos estabelecer metas. Curto prazo: não falir por causa de eletrodomésticos. Médio prazo: construir um fundo de emergência que sobreviva a… digamos, circunstâncias imprevisíveis.
Bucky analisou o cartão com atenção, como se ainda não confiasse totalmente na existência dele. Antes que pudesse comentar, ela lhe entregou mais uma coisa: um pequeno bloco de notas.
– E isso é para quê?
– Diário financeiro – respondeu, simples. – Quero que você preencha todo dia com seus gastos e hábitos. Vai me ajudar a entender melhor onde posso te ajudar.
– Todo dia? Não é um pouco exagerado?
– Não, se você quer parar de se preocupar com dinheiro.
– Você faz o controle, eu faço meu trabalho. Eu faço meu trabalho e você não morre devendo até para o Papa. – Sabrina encontrou, sobre a bancada da cozinha, uma pilha de envelopes amassados e esquecidos. Ela pegou o monte com dois dedos, como se estivesse manuseando um artefato suspeito, e ergueu—o lentamente. – E isso… É parte do seu ‘sistema de arquivamento’ atual?
– É… mais ou menos. – Ele esfregou a parte de trás do pescoço, evitando o olhar dela. – O sistema é… pegar quando chega, enfiar no bolso e… meio que tentar esquecer que existe.
Ele desviou o olhar, fixando—o na cafeteira reluzente e absurdamente cara, que agora parecia acusá—lo silenciosamente de cada conta não paga. A vergonha era uma coisa rara e desconfortável para ele, mas naquele momento, era palpável.
Sem comentar, Sabrina começou a organizar tudo. Separou, alinhou, explicou como usar o diário, onde anotar, o que observar. Tudo com uma paciência inesperada. Bucky observava em silêncio. Quando Sabrina terminou, a pilha de contas parecia outra coisa.
– Obrigado. Não sei o que você fez, mas… parece menos sufocante.
– É essa a ideia – ela respondeu, fechando o caderno com um gesto final.
– Vou tentar anotar tudo direitinho – Bucky prometeu, segurando o diário financeiro como se fosse um manual de sobrevivência. – Mas…
Antes que o pensamento se fechasse, o som brusco veio da porta da varanda, que deslizou com violência suficiente para fazer o vidro vibrar no encaixe. No segundo seguinte, uma rajada marrom e branca atravessou a sala como um pequeno furacão doméstico, unhas raspando no piso, orelhas voando para trás, focinho erguido como se tivesse captado algo impossível de ignorar.
– Eugene! – Sabrina chamou, mais por reflexo do que por esperança real de contê—lo.
O beagle não reduziu a velocidade. Havia um destino muito claro traçado naquela corrida. Ele lançou—se para a frente e, com um salto surpreendentemente elegante para alguém do seu tamanho, aterrissou no colo de Bucky com precisão absoluta.
O impacto fez o ar escapar do peito de Bucky num “oof” baixo, mas antes que qualquer reclamação pudesse se formar, Eugene já estava ali: patas apoiadas em seu tórax, focinho enfiado sob seu queixo, cauda chicoteando o ar numa felicidade incontida.
– Ei, ei… calma – Bucky soltou uma risada surpresa, já rendido. As mãos encontraram o pelo macio quase automaticamente. – Oi, parceiro.
Eugene não hesitara. Não farejara, não avaliara. Para ele, não havia lacuna no tempo, nem rompimento a ser superado. Apenas um reencontro. Um sorriso aberto surgiu no rosto de Bucky, sem reservas. Ele coçou atrás das orelhas do cachorro, no ponto exato que sabia de memória.
– Pensei em colocar uma tela na varanda – comentou Bucky, num tom estudado de casualidade, como se estivesse falando do clima. – Mas acho que não ia segurar um invasor desse nível.
– Invasor?
O canto da boca dele se curvou, mas era um sorriso curto, contido.
– Ele nunca deixou de vir. – Bucky abaixou o rosto, encostando a testa de leve na cabeça do beagle. – Você sempre aparece por aqui, não é, carinha?
Sabrina não se moveu. O olhar percorreu a cena com uma atenção silenciosa. Eugene mordia o braço metálico de Bucky com entusiasmo descontrolado, as patinhas apoiadas no peito dele, como se aquele fosse o brinquedo favorito do mundo. O metal produzia um rangido suave a cada investida e Bucky deixava.
– Eu achei que… – A voz dela falhou antes de terminar a frase. Ela engoliu em seco. – Depois que a gente…
– Eu também achei. – A mão dele continuou o movimento lento no pelo quente de Eugene. – Mas ele sempre volta. Às vezes tarde da noite. Às vezes de madrugada. Fica um pouco, dorme no tapete… e depois vai embora de novo.
– E você nunca me contou.
Bucky deu de ombros, ainda sentado no chão, Eugene agora esparramado sobre ele como se tivesse reivindicado aquele corpo como território permanente.
– Não parecia… relevante.
– Um pedaço meu atravessando a sua varanda todas as noites não é relevante? – Ela resmungou, fazendo ele sorrir levemente. – Então é por isso que ele desaparece todo sábado de manhã… – Murmurou, mais para si do que para ele. – Você ainda o leva ao parque aos sábados, não leva? Eu devia ter imaginado.
Sabrina não conseguiu conter o sorriso que se formou. Alguns laços, uma vez forjados, nem a distância, nem o silêncio, nem mesmo um rompimento consegue desfazer por completo. O afeto, uma vez instalado, encontra seus próprios caminhos de volta, mesmo que seja nas patas de um beagle teimoso.
– Ele sempre gostou mais de você...
Bucky soltou um sopro curto pelo nariz, quase uma risada.
– Claro que gostou. – Ele coçou Eugene atrás da orelha. – Eu sou claramente o favorito. Tenho braço metálico, faço cócegas de nível profissional e nunca digo “não” para petiscos.
– Por isso ele nunca emagrece. – Ela riu baixo. Bucky sentiu o riso antes mesmo de registrar o som. Foi automático: o maxilar relaxou, o peito apertou, e ele precisou olhar para outro lugar. Ajustou o cachorro no colo, os dedos deslizando pelo pelo quente numa distração conveniente. – Você sempre odiou acordar cedo aos sábados.
– Eu evoluí. Agora eu odeio, mas vou mesmo assim. – Ele forçou um meio sorriso, mas não sustentou o olhar dela. Ficou encarando Eugene, como se o cachorro fosse um mediador diplomático entre dois países que já tinham entrado em guerra. – E ele gosta do parque. Não achei justo parar só porque… – A frase ficou suspensa.
Porque a gente acabou. Ele não completou. Não precisava.
Antes que ele pudesse dar um passo além daquele território perigoso, ela se levantou.
– Bom… já que o traidor está instalado… – disse, pegando a bolsa sobre a mesa. – Ele vai querer ficar, né?
– Vai. – Bucky confirmou. Ele hesitou um segundo. – Eu… posso ficar com ele até amanhã. Se for mais fácil.
Sabrina parou na porta, a mão na maçaneta. Olhou para trás, para a cena no sofá: o homem que ela amou, o cachorro que o amava e o silêncio confortável que os envolvia.
– Até amanhã, então – murmurou. E, mais baixo, inclinando levemente o rosto na direção do sofá: – Se comporte, Eugene.
Bucky permaneceu imóvel por alguns segundos depois que ela saiu, como se qualquer movimento pudesse desfazer algo delicado demais. Ele deslizou a mão pelas costas do cachorro, devagar, e então enterrou o rosto no pelo macio, inspirando fundo.
– Obrigado, amigão – murmurou.
Era pouco, mas era um começo.
⁂
– Congresso? – Sabrina perguntou assim que chegou ao terraço, sentando—se ao lado de Sam.
– Pois é. – Ele soltou um meio riso, ainda um pouco incrédulo. – Foi uma surpresa para mim também.
Sam apoiou os cotovelos nos joelhos, o olhar acompanhava Bucky do outro lado do terraço, onde ele conversava com dois vizinhos e gesticulava enquanto ria de algo que tinha sido dito. Nem parecia o mesmo homem que tinha chegado ali meses atrás. Fechado, econômico nas palavras, ocupando espaço como quem pede desculpas por existir.
– Ele te contou? – Sam perguntou, ainda observando.
– Não. – Sabrina balançou a cabeça devagar. – Só comentou que o Elton estava planejando uma festa aqui no terraço. – Deu de ombros, tentando soar despreocupada. – Mas ele vive inventando coisa. Nunca imaginei que fosse… uma festa de despedida.
– Nem ele imagina direito, eu acho.
– Você acha que ele vai?
– Acho que ele já está indo.
– Como assim? – Ela franziu levemente o cenho.
Sam finalmente tirou os olhos de Bucky e encarou Sabrina.
– Ele já começou a se despedir das coisas. Só não falou em voz alta ainda.
Sabrina voltou a olhar para o outro lado do terraço. Bucky gargalhou de algo bobo, apoiando o copo na mureta enquanto um dos vizinhos lhe dava um tapinha no ombro.
– Quando ele chegou aqui, – Sam continuou – mal falava com alguém. Entrava e saía como se tivesse medo de ocupar espaço.
– E agora vai ocupar um prédio inteiro no Congresso. – Sabrina comentou, com um sorriso fraco.
– Você tem alguma coisa a ver com isso.
– Eu só ajudei com as finanças. – Desviou o olhar, acompanhando a rajada de vento que fez as luzes do terraço balançarem como pequenas estrelas instáveis.
– Não, Sab. – A voz de Sam veio gentil, mas firme o bastante para não permitir fuga. – Antes disso.
Ela não respondeu.
Do outro lado do terraço, Bucky se despediu dos vizinhos com tapinhas nas costas e um aceno fácil. Então começou a caminhar na direção deles. Os olhos dele encontraram os de Sabrina no meio do caminho. E ele sorriu. O nó na garganta dela veio instantâneo e, misturado a ele, um orgulho silencioso. Orgulho por vê—lo assim. Inteiro. Pertencendo.
– E se ele for… e não voltar? – A pergunta escapou num sussurro que quase se perdeu sob o riso e a música.
Sam ouviu, mas não respondeu.
– Aqui. – Bucky chegou, carregando duas garrafas geladas. Estendeu uma delas para Sabrina. – Saúde. Ah, e antes que eu esqueça… contribuí para vaquinha da cerveja.
– Sério? – Ela piscou, genuinamente surpresa. – Estou impressionada. – Inclinou a cabeça, provocadora. – Você anotou isso no seu planejador financeiro como “despesa social necessária”?
Ele riu, rolando os olhos.
– Muito engraçado. – Ergueu a garrafa. – Mas sim. Considere isso um evento raro. Não espere que aconteça de novo tão cedo.
Ao redor deles, o terraço seguia vivo – risadas altas, música demais para um espaço pequeno, vozes se sobrepondo –, mas algo tinha se deslocado, quase imperceptível, entre os dois.
Sabrina apoiou o cotovelo no parapeito, olhando a cidade à frente como se precisasse de um ponto fixo para reorganizar os pensamentos. Bucky percebeu o gesto tarde demais.
– Então… – ela disse, casual demais. – Congressman, é?
Ele engoliu em seco antes de responder, mas manteve o tom leve.
– Não oficialmente. Ainda. Só uma proposta.
– Claro. – Ela assentiu, sem encará—lo.
– Eu ia contar.
– Eu sei. – Agora ela olhou para ele. Não havia acusação ali. Só atenção. – Só não contou ainda.
Eles ficaram em silêncio outra vez. Dessa vez, menos confortável. Ele passou a mão pela nuca, um gesto automático. Então começou a contar. Falou do convite como quem descreve um acidente inevitável: uma conversa informal que virou reunião, uma reunião que virou proposta. Falou das palavras bonitas – representatividade, responsabilidade, novo começo – e disse que não tinha procurado aquilo.
– Disseram que eu podia ajudar de outra forma. – Continuou, a voz mais baixa. – Que talvez fosse hora de tentar algo… menos violento. E eu achei que… ficar longe por um tempo, me estabelecer direito, podia ser… a coisa responsável a se fazer.
Ela desviou o olhar por um instante, respirando fundo antes de voltar a encará—lo.
– Longe de quem? – perguntou, baixo.
– Eu não estou indo embora, Sab. – Disse, rápido demais. – É só trabalho. Eu volto.
Sabrina assentiu devagar, absorvendo cada palavra como quem avalia um terreno instável antes de pisar.
– Bom, – ela levantou a garrafa de cerveja, um gesto de trégua. – Pelo menos você tem um novo emprego.
– E poderei pagar minha contadora – ele completou, brindando com ela novamente, tentando recuperar o tom leve.
Sabrina deixou escapar um sorriso curto, desses que não chegam inteiro aos olhos, e tocou a garrafa na dele.
– Justo. – Bebeu um gole. – Fico aliviada em saber que meu cliente mais problemático finalmente vai parar de fingir que não entende o conceito de orçamento.
Bucky riu levemente, apoiando os cotovelos no parapeito, olhando a cidade lá embaixo. As luzes pareciam distantes demais, como se Washington já estivesse piscando no horizonte, chamando.
– Eu não quero que isso vire… – ele começou, depois parou, frustrado consigo mesmo. – Eu não quero que você ache que eu estou escolhendo outra coisa no seu lugar.
– Eu não acho isso. – Fez uma pausa, escolhendo as palavras com cuidado. Ela finalmente virou o rosto para ele, os olhos sérios. – Eu posso lidar com a distância. O que eu não sei lidar é com o silêncio. Especialmente o seu.
⁂
Talvez fosse a notícia do Congresso. Talvez fosse aquela semana infernal no trabalho. Talvez fosse a montanha—russa hormonal que a atormentava ou, simplesmente, a proximidade prolongada e inesperada de Bucky naquela noite. Provavelmente, foi uma combinação perigosa de todos esses fatores.
O fato é que Sabrina decidiu esquecer o bom senso e encheu a cara.
Começou inocentemente, com brindes ao lado dele. Bucky, com seu metabolismo de super—soldado, podia ingerir álcool como se fosse água, sem qualquer sinal visível de embriaguez. Depois, Sam surgiu com a ideia de um jogo e a competitividade falou mais alto. Em seguida, ela se infiltrou no grupo barulhento do primeiro andar, convencida de que conseguiria acompanhar o ritmo acelerado dos mais jovens.
Spoiler: ela não conseguiu.
A consciência retornou devagar, o mundo parecia estar ligeiramente torto, desalinhado. A luz da manhã invadia o quarto pelas frestas da cortina. Sabrina gemeu, um som baixo e sofrido, enterrando o rosto em um travesseiro que era definitivamente diferente do seu.
Ela se moveu com cuidado, testando os limites de uma cabeça latejante. O corpo pesava, estranho, em um colchão muito mais firme que o seu. Quando finalmente se virou, os olhos desfocados foram captando detalhes familiares. O quarto se materializou aos poucos em sua memória: a cômoda sóbria, a janela que dava para a varanda do terraço, a cadeira no canto onde ele sempre jogava sua jaqueta.
– Merda… – A palavra escapou em um sopro, enquanto uma mão subia para pressionar as têmporas.
Estava vestida. Ponto positivo. Uma camiseta surrada e larga – dele, inconfundivelmente – e o mesmo short que usara na festa. Outro ponto positivo. Nenhuma lembrança constrangedora ou clara do final da noite vinha à tona.
Ainda.
– Você está morta? – A voz de Bucky veio da porta, carregada de um humor seco e doméstico que fez Sabrina fechar os olhos mais forte.
– Aham. E o céu é mais chato do que eu esperava.
Ele entrou carregando um copo alto de água e duas pílulas, que deixou na mesa de cabeceira.
– Para a ressureição – explicou, recuando para se apoiar no batente da porta, os braços cruzados. – E para constar, você perdeu feio para a Carol do 102. Ela te derrubou no terceiro shot.
Memórias começaram a retornar em flashes desconexos: o gosto forte de tequila, uma competição de beber cerveja com a garota da academia, risadas altas demais. E Bucky, sempre por perto, observando com um misto de diversão e preocupação.
– Eu ia dizer que nunca mais bebo. – Sabrina gemeu, sentando—se aos poucos. – Mas a gente sabe que é mentira.
– Eu ia dizer que você devia ter mais juízo – ele retrucou, sem conseguir esconder um meio sorriso. – Mas a gente sabe que não adiantaria.
Ela pegou as pílulas e engoliu com um longo gole de água, sentindo o líquido frio como uma bênção.
– Ai, Deus… – Sabrina enterrou o rosto no travesseiro. – Nunca mais me deixe beber assim.
– Combinado – Bucky respondeu, rindo. – Mas você também tentou fazer miojo às duas da manhã e quase botou fogo na minha cozinha.
Ela virou o rosto no travesseiro, encarando—o com uma indignação claramente prejudicada pelo sono.
– Eu não botei fogo em nada.
– Você colocou a panela no fogo sem água. Você estava mexendo macarrão seco numa panela vazia com uma espátula de silicone. – Ele cruzou os braços, teatralmente sério. – Eu tive que te desarmar.
– Desarmar?!
– Tirei a espátula da sua mão e fiz o caminho de volta para cama. – Ele não conseguiu segurar a risada dessa vez.
Ela fechou os olhos de novo, derrotada, afundando metade do rosto no travesseiro.
– Então é por isso que eu estou com o estômago roncando… – murmurou. – Você sabotou meu jantar.
– Eu salvei a cozinha.
– Eu estava com fome, Bucky.
– Você estava dormindo em pé.
Ela gemeu envergonhada, cobrindo o rosto.
– Por favor, jura que vai apagar tudo da sua memória. Tipo, apagar mesmo. – Obrigada por… – Ela hesitou, procurando uma palavra que não fosse pequena demais. – Por não me deixar fazer uma besteira maior.
– Não foi um fardo. Até que foi bom… te ter por perto de novo.
O momento de frágil compreensão durou exatamente até três batidas decisivas e familiares ecoarem pela porta da frente.
– BUCKY! – A voz de Sam atravessou as paredes como se fossem feitas de papelão. – Trouxe café. Abre a porta!
Sabrina congelou, a caneca suspensa a centímetros da boca.
– Diga que isso é um pesadelo alcoólico tardio...
Bucky fechou os olhos por um segundo, como quem faz uma oração rápida e pouco esperançosa. As batidas voltaram. Mais fortes.
– Barnes, eu tenho a chave reserva e o número do síndico! Não me teste!
– Ele tem uma chave? – Sabrina sussurrou, o horror brigando com a náusea.
– História longa. Envolve um drone, um bolo de aniversário e uma promessa que eu não devia ter feito. – Bucky respirou fundo e endireitou os ombros como quem se prepara para combate. – JÁ VOU!
Sam entrou como uma brisa carregada de intenções e café da manhã, segurando uma sacola de papel marrom e um sorriso suspeitosamente satisfeito.
– Bom dia, meu congressman favorito! – Ele avançou dois passos e congelou. Seus olhos capturaram movimento no fundo do corredor: uma camiseta surrada e claramente grande demais para quem a vestia desaparecendo na sala. O sorriso de Sam não surgiu de repente. Ele cresceu. – …Opa.
– Não – Bucky avisou, apontando o dedo para ele.
– EU SABIA. – A voz de Sam subiu meio tom, o dedo apontando alternadamente para Bucky e para o corredor vazio. – Eu sabia que o universo não me abandonaria assim. Eu senti. No meu espírito.
– Sam. – Bucky tentou, já cansado. – Não é nada do que você está imaginando.
– Sam. – A voz de Sabrina veio da sala, abafada pelo sofá onde ela já tinha se afundado. – Eu estou de ressaca, de TPM e, se você não me deixar em paz, juro que faço sua planilha de gastos parecer um crime federal.
O sorriso dele diminuiu só um pouco, dando lugar a curiosidade genuína.
– Então… vocês voltaram?
– Sam! – O quase grito saiu em uníssono.
Ele riu, aberto, rendido, e finalmente largou a sacola sobre a mesa com um baque suave.
– Tá bom, tá bom. Cessar—fogo. Sentem. Comam. Trouxe donuts. – Ele fez uma pausa. Franziu a testa ao ouvir um arranhar vindo da varanda. – E, já que estamos numa sessão de perguntas e respostas… por que raios tem um cachorro na sua sacada, Bucky?
– É meu... – Sabrina soltou um gemido sofrido. – É um cachorro gay e está apaixonado pelo Bucky.
– E por que ele está aqui? – Sam perguntou.
– Ele nunca parou de vir. – Bucky respondeu.
Sam olhou de Bucky para Sabrina. Depois para o cachorro. Depois de volta para os dois. E pela primeira vez desde que entrou, não havia piada pronta.
– Hm.
Porque aquilo não era só sobre o beagle que parecia estar acima do peso. E todo mundo ali sabia.
⁂
Washington nunca dormia de verdade, mas às duas da manhã, a cidade respirava um tipo específico de cansaço. O ar do apartamento temporário estava parado, carregado do silêncio elétrico de uma cidade que decide tudo, menos como descansar. A luz fria e distante do Capitólio entrava pela janela, uma constante lembrança do palco onde ele agora deveria atuar.
Bucky estava sentado à mesa de jantar, o paletó cuidadosamente pendurado no encosto da cadeira, a gravata esquecida ao lado. Diante dele, papéis se espalhavam (relatórios densos, propostas legislativas que pareciam escritas em outra língua, e suas próprias anotações à mão, garranchos tentando transformar abstração em ação).
Seu olhar, no entanto, não estava nos papéis. Estava fixo no celular. Nenhuma notificação. Nenhuma mensagem nova.
Ela provavelmente ainda estava acordada. Sabrina nunca foi uma muito matinal. Bucky apoiou os cotovelos na mesa e esfregou o rosto com as mãos.
Ele foi para Washington acreditando, com uma fé quase ingênua, que a distância poderia ser um ato de cuidado. Que se ele estivesse longe, ela estaria livre do fardo constante que era amar alguém que ainda estava aprendendo a simplesmente viver. Ninguém o avisara, porém, que a distância verdadeira não chega com estrondo.
Seu dedo polegar traçou o contorno frio do celular antes de finalmente virá—lo. A tela acendeu, iluminando seu rosto na penumbra. Ele abriu a conversa. A última mensagem ainda era dela, enviada no início da noite.
Sabrina: Tudo bem? Seus dedos pairaram sobre o teclado. Digitou uma resposta, um relato factual do dia. Apagou. Tentou de novo, buscando um tom mais leve, quase descontraído. Soou falso até para ele mesmo.
Bucky: Sim. Foi tudo tranquilo. O dia foi longo.
Ele pressionou "enviar" e então ficou ali, parado, a tela refletida em seus olhos. Esperando, contra toda a razão, que os três pontinhos pulsantes aparecessem do outro lado. Eles não apareceram.
Bucky levantou—se e foi até a janela. Lá embaixo, Washington se estendia, impecável em sua geometria de poder. Tudo tinha um lugar, um protocolo, um nome.
O celular vibrou em sua mão. Uma nova notificação.
Sabrina: Boa noite. Se cuida. E foi ali, sozinho naquele apartamento emprestado, que Bucky Barnes finalmente entendeu.
Ele já tinha enfrentado coisas infinitamente piores que a solidão. Sobreviveu a guerras, a décadas arrancadas da própria memória, a um passado que insistia em voltar como um eco indesejado. Mas nada se comparava ao peso daquela solidão específica.
Não era a solidão imposta por lavagem cerebral. Não era a ausência forçada de quem nunca teve escolha. Era a ausência da sua garota.
Algo tão simples. Tão banal. Tão humano.
Bucky percebeu que podia enfrentar exércitos, fantasmas e o próprio passado… mas não estava preparado para enfrentar um sofá vazio sabendo exatamente quem deveria estar ocupando o espaço ao lado dele.
⁂
– Consegue me ver?
– Bucky… você precisa virar a tela. – Ah. Certo. Espera. E agora?
– Agora sim. Aí está você. – Melhor assim?
– Definitivamente. – Você pintou o cabelo? De novo?
– Não é assim que se fala com uma mulher, James. – ...seu cabelo está bonito.
– Obrigada! – De onde você tirou essa ideia de videochamada?
– Você disse que tem uma geladeira de três portas. Eu precisava ver isso. – Sabrina… é só uma geladeira.
– Só uma geladeira com três portas. Sabe quantas portas a minha tem? – Uma?
– Mal tem uma. – Não exagere.
– Eu só estou dizendo que três portas é ostentação. – É funcional.
– Claro. Você precisa de uma porta exclusiva para guardar… sei lá, as 10 toneladas de comida que você ingere em um dia? – Haha, engraçadinha. Então… você só ligou para julgar minha geladeira? É isso?
– Não só por isso. Mas ela é, sem dúvida, o ponto alto da chamada até agora. – Que honra. Posso te apresentar o freezer agora? Ele tem um dispensador de gelo.
– Um dispensador de gelo automático? Uau, você está vivendo no ano 3000, Bucky.
– É padrão, Sabrina. Século 21, sabe?
– Olha só, quem diria que essa frase sairia da sua boca e não da minha. Mas vamos voltar ao ponto importante: três portas. Me explica a lógica. – A de cima é para laticínios e coisas prontas. A do meio, para frutas e legumes. A de baixo, o freezer.
– E você realmente precisa de uma porta inteira e exclusiva para… cenouras e maçãs? – Mantém a organização! E os legumes ficam mais frescos. É ciência, Sabrina.
– Admita. Você gosta de abrir aquela portinha do meio só para sentir que é um chef renomado. – Eu… não faço isso.
– Você faz. Eu vi o seu sorriso aí, a câmera está virada para você, James! – Tudo bem, talvez um pouco. Mas funciona! A sua geladeira é um caos organizado em uma porta só, admita você também.
– É um ecossistema diversificado e autossustentável. O iogurte conversa com o queijo, que faz amizade com a sobra do almoço. É uma experiência comunitária. – É uma experiência, sem dúvida…
– Me conta da sua vida em Washington. Na prática, o que um funcionário do Congresso faz o dia inteiro? – A maior parte do tempo é filtrar e—mails que começam com “Prezados” e tentar decifrar letras miúdas de projetos de lei.
– E—mails? Bucky Barnes tem um e—mail e usa? Realmente estamos vivendo no mundo 3000. – Ontem, por exemplo, passei três horas numa reunião virtual discutindo a redação de um parágrafo sobre… regulamentação de fertilizantes usados em armas de apoio de proteção contra humanos—mutantes.
– Nossa. E você conseguiu ficar acordado? – Com dificuldade. E você? Como anda o mundo da… contadora? É isso que você é agora? Oficialmente?
– O mundo ficou bem mais chato sem meu cliente mais desafiador. – Sab… eu não sou tão ruim assim.
– Sem você, não tenho que preencher cinco formulários só para justificar um par de botas à prova de balas. A vida ficou… burocraticamente previsível. – Hmm, me sinto lisonjeado de ser lembrado como uma dor de cabeça contábil. Mas você acabou de admitir que sente falta do caos. Só um pouquinho.
– Eu sinto falta do cliente. Não do caos. – ...
– Pesei o clima? – Posso te contar uma coisa idiota? Às vezes, quando entro no elevador ou passo pelo corredor do prédio, fico achando que vou ver você entrando. Um hábito antigo da cabeça. É bobo.
– Não é bobo. – É. Pareço um idiota. Mas é que você tinha o péssimo hábito de aparecer do nada, sabe? Em momentos aleatórios. Enfim.. Sinto falta.
– De mim? – E do Eugene.
⁂
– Oi, Sabrina... Te acordei?
– Tá tudo bem. Aconteceu alguma coisa? – Eu só… precisava ouvir sua voz. Estou com... Saudades. É, acho que é isso. É bobo, eu sei. A gente se fala todo dia e, mesmo assim…
– Não é bobo, Bucky. Eu sinto a mesma coisa… Queria tanto que você estivesse aqui. Quando você volta? – Em uma semana… Preciso resolver umas coisas aqui. Ainda faltam sete dias.
– Sete… – Me conta como vai ser o seu dia amanhã…
– Humm, nada demais. É domingo. Provavelmente vou ver TV e ficar esperando sua ligação. – … Estou ligando demais?
– Eu fico brava quando você não liga...⁂
Fazia quase um ano desde a última vez que Bucky Barnes tinha enfrentado um deus do trovão em um campo de batalha intergaláctica. Lutado ao lado de lendas, testemunhado o impossível. E, ainda assim, nem naquele dia ele tinha sentido os nervos tão à flor da pele – ou uma expectativa tão aguda – quanto agora, parado no corredor silencioso do seu próprio prédio, diante da porta que era a sua.
Ele respirou fundo, uma vez, duas, antes de girar a chave na fechadura.
Nunca antes tinha sentido o coração acelerar para entrar em seu próprio apartamento. Mas sabia que Sabrina estava lá dentro.
Ela tinha pedido a chave para preparar um jantar quando soube que ele passaria o fim de ano em casa, longe de Washington.
Bucky esperava encontrar exageros: decorações de Ano Novo em cada superfície, balões, música alta demais. Talvez Elton e Sam esperando por ele com abraços estridentes, transformando o reencontro em um espetáculo, em algo grande e barulhento o suficiente para mascarar o silêncio que crescera entre eles.
Em vez disso, ao empurrar a porta e entrar, seu mundo se recolheu a um único ponto.
Era apenas Sabrina.
O cabelo dela estava diferente, uma cor mais quente, mais profunda, como se tivesse decidido amadurecer alguns tons desde a última vez que ele a viu. Eugene trotava animado pelo tapete, um ridículo e adorável laço de papel preso ao colarinho, enroscando—se nas próprias patas a cada volta como se estivesse orgulhoso demais da própria elegância improvisada.
Mas Bucky não viu mais nada.
Ele largou o que tinha nas mãos no exato segundo em que Sabrina fez o mesmo. Ela correu até ele e pulou em seu colo, braços ao redor do pescoço, pernas envolvendo sua cintura como se aquele espaço ainda fosse, instintivamente, dela.
E, naquela tarde tranquila, sem que ele soubesse dizer o momento exato em que a transição aconteceu, Bucky Barnes estava, inquestionavelmente, em casa.
– Isso conta como recaída? – Sabrina perguntou, sem se virar, enquanto arrumava alguma coisa na mesa.
– Recaída?
Ele se aproximou por trás e a envolveu com os braços. O gesto veio antes de qualquer raciocínio. E, pela maneira como ela puxou o braço dele e depositou um beijo leve ali, antes de voltar a atenção à mesa de centro espalhada pelo chão da sala, ficou claro que para ela também era assim.
– É – Sabrina sorriu, relaxando contra ele. – Todo casal de ex—namorados fica junto pelo menos mais uma vez depois do término. É tipo um rito de passagem emocional.
– Quem inventou essa regra? – Bucky apoiou o queixo no ombro dela e respirou fundo, passando o nariz pelo seu ombro.
– A vida. E estatísticas completamente científicas baseadas em experiências pessoais desastrosas. – Ela se virou lentamente dentro de seu abraço, o suficiente para que seus olhos se encontrassem.
– Eu achei que você ia trazer gente – Bucky comentou. – Balões. Música alta. O Sam fazendo um daqueles discursos.
– Considerei seriamente – admitiu, um canto da boca se erguendo. – Mas aí pensei… talvez você não precisasse de barulho, Bucky. Só precisasse de casa.
Seu polegar traçou um caminho lento e consciente pelo braço dela, sobre o tecido macio da blusa.
– E o cabelo? – perguntou, sua voz mais baixa, mais próxima do ouvido dela. – É novo.
– Gostou? – Ela ergueu uma sobrancelha, um desafio brincalhão nos olhos.
– Muito. – A resposta foi imediata, sincera. Ele estudou as mechas, a cor que parecia capturar a luz de uma forma diferente. – Uma cor só. Parece até estabilidade, Sabrina. Combina com você.
Ela riu, um som leve e verdadeiro, e negou com a cabeça.
– Pare por aí. Tentei copiar umas mechas que vi no Instagram, deu tudo errado, manchei metade do cabelo e tive que pintar tudo com uma cor só para disfarçar o desastre. – Ela encolheu os ombros, um gesto de resignação divertida. – Estabilidade improvisada, no máximo.
– Improvisada ou não, – ele murmurou, seu olhar fixo no dela – ficou perfeita.
O cheiro de comida tomava o ar. Algo reconfortante, caseiro, que não envolvia entrega por aplicativo ou refeições solitárias em seu apartamento de Washington.
– É só um estrogonofe – ela respondeu quando ele perguntou, soltando—se gentilmente de seu abraço para ir até a cozinha. Mas ela não se afastou completamente; sua mão escorregou da cintura dele para segurar sua mão, puxando—o suavemente junto. – Vem. Ajuda a tirar as coisas do forno. Seu metabolismo hiperativo vai ser útil.
Ele a seguiu, os dedos entrelaçados nos dela, Eugene trotando atrás deles como um guarda—costas fofinho e desastrado.
– E então? – Sabrina perguntou, cortando um pedaço de pão. – Congressman Barnes. Como é?
Ele hesitou, olhando para o alimento em seu prato. Como resumir meses de uma existência dividida, de discursos ensaiados e solidão silenciosa?
– É… estranho – admitiu, finalmente. – As pessoas falam muito. Gritam, às vezes. Discutem sobre coisas que parecem tão… pequenas, quando você já viu o que o verdadeiro caos faz. – Ele fez uma pausa, buscando as palavras. – E ao mesmo tempo, não são pequenas. São as regras do jogo. E eu estou tentando aprender a jogar sem… sem quebrar a mesa.
Sabrina ouviu, mastigando devagar. Ela não ofereceu soluções fáceis nem frases de incentivo clichês. Apenas ouviu, e naquele espaço de escuta atenta, Bucky sentiu algo dentro dele se desfazer.
– E você? – ele perguntou, inclinando levemente a cabeça. – Novos clientes problemáticos ou já cansou de salvar gente incompetente?
Sabrina soltou um sopro pelo nariz, quase um riso.
– Tenho tido mais clientes por fora do que os meus próprios chefes do escritório – Admitiu, girando a taça de vinho com falsa casualidade. – O boca a boca está forte. Tão forte que… bem. Isso tem chamado atenção. Talvez eu seja “convidada” a sair em breve.
Ele via a preocupação, apesar de também ver o orgulho, por ter se tornado boa o suficiente para incomodar.
– Eles seriam idiotas de te perder – disse, firme. – Mas se acontecer… você tem plano B?
Ela deu de ombros. Tentou parecer leve. Ele conhecia aquele movimento. Era o “não quero que você perceba que estou a dois passos de um colapso estratégico”.
– Eu sempre tenho um plano – respondeu, dando de ombros. – Plano B, C, D… talvez um E dramático. É o que fazemos, não é? A gente se prepara para o pior.
– E espera pelo melhor – ele completou, mais baixo.
A mão dele se moveu antes que ele decidisse. Deslizou pela mesa até encontrar a dela. Os dedos tocaram os dela como quem pede permissão sem usar palavras.
– Eu sinto sua falta. – Bucky Barnes não soube exatamente de onde tirou coragem para admitir. Talvez do vinho. Talvez do silêncio. Talvez dela.
Sabrina não desviou o olhar.
– Eu também sinto sua falta.
Ficaram se encarando por alguns segundos que pareceram mais longos do que deveriam. Avaliando, como se estivessem diante de uma porta invisível, decidindo juntos se valia a pena atravessá—la de novo.
Depois do jantar, ele estava jogando as louças na pia, distraído demais para organizar qualquer coisa de verdade, quando percebeu que ela tinha parado de arrumar a mesa.
– Eu fiz cookies para a sobremesa. Estão no forno. Devem estar quase prontos.
Ela se levantou e caminhou até o forno, e ele a seguiu quase sem perceber, como se fosse instinto acompanhar o movimento dela pela casa. Como se aquele trajeto já estivesse memorizado no corpo.
Ela se abaixou para espiar pelo vidro do forno, concentrada, mordendo levemente o lábio inferior daquele jeito que sempre fazia quando estava esperando algo dar certo. Um leve choque percorreu seu corpo quando suas nádegas roçaram nele. Ele estava muito perto.
Bucky prendeu a respiração, suas mãos, quase por vontade própria, encontraram os quadris dela, as palmas se moldando à curva familiar através do tecido.
– Cookies, hein? – Ele forçou a voz, tentando manter o tom leve, mas soando rouco, carregado. – Você está me mimando, Sabrina.
– Alguém tem que fazer isso – respondeu, virando a cabeça para olhá—lo por cima do ombro. Seu sorriso era terno, mas seus olhos estavam escuros, com um brilho que ele conhecia bem. – E eu tenho a impressão de que Washington não está exatamente cheia de cookies caseiros.
Ele riu, um som baixo e rouco que morreu na garganta quando ela se endireitou, seu corpo se encaixando perfeitamente contra o dele. Então ele se inclinou, descansando a testa contra a dela, fechando os olhos. Ambos suspiraram, uma libertação coletiva de meses de distância, saudade e palavras não ditas.
– O timer apita em um minuto – ela avisou.
– Se queimarem, a gente chama de cookie artesanal.
Bucky Barnes se aproximou sem pressa, o nariz roçando de leve no dela antes que seus lábios se encontrassem. O sorriso de Sabrina ainda estava ali quando o beijo começou. O beijo se aprofundou com rapidez, carregado por meses de silêncio e por uma ausência que nunca fora realmente preenchida. Sabrina deixou escapar um som baixo contra a boca dele, as mãos subindo para o rosto de Bucky, os dedos tremendo levemente antes de se firmarem. Então desceram, decididas, agarrando a gola da camisa dele e puxando—o para perto com uma força que dispensava qualquer dúvida.
Ele se afastou só o suficiente para respirar, a testa ainda apoiada na dela, os olhos escuros denunciando a batalha interna.
– Me peça para parar… – pediu, a voz quase falhando. – Agora. Antes que eu não consiga.
Era uma saída oferecida por honra, não por desejo.
– Você quer mesmo que eu peça? – Sabrina ergueu o olhar, os lábios inchados, quentes. Ela o puxou mais para perto, eliminando qualquer espaço restante, e inclinou—se para sussurrar junto ao ouvido dele: – Ex—namorados precisam de recaídas, Bucky. É a lei…
Foi tudo o que ele precisava ouvir.
Com um som entre um suspiro aliviado e um gemido contido, Bucky a ergueu do chão, os lábios encontrando os dela novamente, agora sem freios, sem espaço para hesitação.
O apito agudo do timer cortou o ar da cozinha, insistente, anunciando que os cookies estavam prontos.
⁂
Sabrina podia jurar que havia pássaros azuis acompanhando seus passos na rua. O sol da manhã parecia mais dourado, o ar de Brooklyn mais fresco. Tudo isso porque, naquela manhã, ela havia acordado ao lado de Bucky Barnes.
Com o peso de seu braço metálico sobre sua cintura, a respiração profunda e regular dele contra suas costas, o mundo, por algumas horas, havia se recolhido aos limites daquele quarto, àquele cheiro misturado, à paz absurda e completa que só aquele homem – aquele homem específico, complicado e familiar – poderia lhe dar.
Agora, dentro da cafeteria do bairro, o mundo exterior parecia ter se realinhado em cores mais vibrantes. Ela percorreu o cardápio com um olhar rápido, mais por hábito do que por necessidade de escolher algo diferente.
– Bom dia, Sabrina! – A voz animada de Taylor, a atendente, cortou seu devaneio. A jovem sorria, os olhos curiosos pois Sabrina raramente pedia dois cafés. – O mesmo de sempre?
– Oi, Tay. Sim, o mesmo – ela confirmou, e então acrescentou, tentando soar casual e falhando miseravelmente pelo brilho nos olhos: – Só adiciona um café preto. Sem açúcar. Só preto mesmo.
Um sorriso de cumplicidade, quente e sem julgamento, surgiu no rosto da atendente.
– Claro. Um latte e um preto, sem açúcar. – Ela repetiu, digitando no terminal. Sua voz baixou um tom, num sussurro. – Parece que alguém teve uma boa noite. – Sabrina riu, um som leve e verdadeiro, e não respondeu. Não precisava. – Eu reconheço o visual. Nos outros, claro. Em mim é uma lástima – Taylor brincou, revirando os olhos com teatralidade.
– Não fala assim, Tay. Você vive tendo encontros – Sabrina contra—atacou.
– Ah, uns desastres ambulantes. Um ou outro que se salva… como aquele seu vizinho, por exemplo.
– Elton? – Sabrina arqueou uma sobrancelha, genuinamente intrigada. – Você saiu com o Elton?
– Não! Deus me livre. Elton é o loiro que vive pegando minhas caixas de papelão vazias para “projetos artísticos”? Não, outro… James.
O nome caiu no ar entre elas como uma pedra. O sorriso congelou no rosto de Sabrina, não desaparecendo completamente, mas tornando—se estático, como uma foto mal tirada.
– James… Barnes? – ela perguntou, a voz um pouco mais plana do que um segundo antes. – Você teve um encontro com o…
– Ah, foi! Tem um tempinho, um ou dois meses. Foi… divertido, eu acho. Embora o cara mal tenha aberto a boca. Mais quieto que uma porta fechada. Mas tinha um charme, sabe?
– Ah, jura?
A voz de Sabrina saiu suave, leve. Quem não a conhecesse – como Taylor, que a via apenas na fila do café – pensaria que aquele era um sorriso de cumplicidade, de alguém compartilhando a fofoca do bairro.
Mas não era.
Era um sorriso enferrujado. Um mecanismo de defesa que se ativou com um rangido seco. Por dentro, uma série de imagens disparou, nítidas e cortantes: Bucky, na cozinha dela, segurando sua mão sob a mesa. Bucky, na cama naquela mesma manhã, o rosto relaxado no sono de um jeito que ela só tinha visto umas poucas vezes. Bucky, pedindo um café preto, sem açúcar.
O mesmo homem que, segundo a atendente, tinha saído para um “encontro divertido” algumas semanas atrás, enquanto Sabrina contava as horas entre mensagens curtas e tentava convencer a si mesma de que a distância dele era nobre.
Taylor, alheia ao terremoto interno que acabara de desencadear, terminou de preparar os cafés com um floreado.
– Prontinho! Um latte e um preto. – Ela entregou a sacola com um sorrisão. – Aproveita, Sab.
– Obrigada, Tay – Sabrina respondeu, o sorriso enferrujado ainda grudado no rosto. Ela pegou a sacola, a sensação do papelão quente agora completamente diferente.
Ela saiu da cafeteria, o sol já não parecia tão dourado e os pássaros azuis haviam sumido.
⁂
Bucky desviou do sapato, que acertou a parede atrás dele com um baque seco. Um objeto banal, carregando toda a raiva que Sabrina não conseguia mais conter. Ele passou a mão pelos cabelos, puxando o ar pelo nariz.
– Ei, ei… – A voz saiu mais controlada do que ele se sentia por dentro. – Para de jogar coisas, ok? A gente pode conversar. Com palavras. Aquilo não foi um encontro. De verdade.
Sabrina cruzou os braços, o peito subindo e descendo rápido demais. Havia um brilho úmido e perigoso em seus olhos, aquele que antecede o choro ou a explosão.
– Ah, claro! Porque sair para jantar e passar horas com uma mulher que claramente queria você não configura encontro. É o quê, então? Trabalho de campo? Um estudo sociológico sobre a vida noturna do Brooklyn?
– Foi… uma distração. Uma noite. Uma tentativa idiota de ver se eu conseguia ser normal.
– E conseguiu? – ela rebateu, sem hesitar. – Se sentiu normal enquanto eu tentava respeitar o seu espaço, o seu “processo”? Enquanto você estava a dez quadras daqui, sendo normal com a Taylor da cafeteria?
Ele estendeu a mão num gesto automático de apaziguamento. Sabrina recuou na hora, como se o toque queimasse.
– Sabrina, por favor. Mal consegui formar frases completas. Foi um desastre. Foi… patético.
– E isso era para me consolar?
A imagem dele deslocado, miserável num quase—encontro, não a acalmava. Só tornava tudo pior.
– Sab…
– Não – ela o cortou, a mão erguida como uma lâmina. – Dois meses atrás você terminou comigo porque “não sabia quem era”. Porque “precisava de espaço”. E agora eu descubro que esse espaço incluía sair com outras pessoas?
– Não foi um encontro! – A voz dele finalmente subiu, rasgada pela frustração. O som fez Eugene se encolher no canto. – Eu só fui comprar café tarde da noite! Ela estava fechando, me chamou para sentar um pouco e… eu fui. Só isso. Um momento de fraqueza, não um plano. – Ele respirou fundo, forçando o controle de volta. – Não existe mais ninguém, Sabrina. Só existe você.
Sabrina balançou a cabeça, os olhos marejados, mas o olhar firme, preso ao dele como uma âncora.
– Você me pediu confiança, disse que se eu fosse paciente tudo ia se ajeitar. E eu fiquei. – A voz tremeu, mas não quebrou. – Enquanto isso, o que eu era? A ex compreensiva? A opção que você guarda para quando cansar de se sentir perdido?
– Eu nunca te tratei como opção! – ele respondeu num impulso bruto. – Eu estava tentando… eu estava tentando te proteger.
– De quê? De você mesmo? Da sua incapacidade de ficar? Dessa sua mania de achar que sofrer sozinho é mais nobre?
– Eu não sei fazer isso direito, Sabrina – disse por fim, exausto. – Nunca soube. Mas eu juro… nunca teve mais ninguém. Nem perto.
– Não é sobre ter outra pessoa, Bucky. Nunca foi. – As palavras saíram firmes, mesmo doendo. – É sobre você nunca me escolher em voz alta. Você me pediu para esperar. Eu esperei. Pediu paciência. Eu tive. E agora… isso?
– Sabrina, a Taylor… – Ele tentou, a voz um fio de resistência em um argumento que já estava perdido.
– Isso não é mais sobre ela! – O grito dela não foi alto, foi cortante, carregando um desapontamento que ia muito além de um simples ciúme. – É sobre você me fazer sentir a maior idiota do mundo. A prioridade é sempre outra, Bucky! É a Taylor, é o Congresso, é uma missão, é até o Eugene… mas nunca sou eu.
Bucky sentiu o chão ceder sob seus pés, uma vertigem súbita de compreensão e desespero. Não se tratava mais de um desentendimento sobre um suposto encontro. Era sobre a estrutura inteira de confiança que ele, com suas ações silenciosas e suas omissões convenientes, havia minado tijolo por tijolo.
E o pior – a parte que o estrangulou por dentro – era que ele via, com uma clareza dolorosa e absoluta, que ela estava certa. O problema agora não era admitir a culpa. Era que ele não fazia a menor ideia de como consertar o que havia quebrado.
Sabrina não esperou por uma resposta. Ela viu a confusão, o arrependimento genuíno e a completa falta de um caminho à frente em seus olhos, e isso, de alguma forma, doía mais do que qualquer desculpa furada. Ela sacudiu a cabeça, um gesto lento de cansaço, como se a fúria tivesse evaporado e deixado apenas um resíduo de profunda exaustão.
⁂
Voltar para Washington com Sabrina ainda viva na memória – mas ausente em todos os outros sentidos – foi quase tão irreal quanto caminhar por Nova York logo após o Blip.
Ela estava em tudo: no copo que ele pegava automaticamente em duplicidade, no lado esquerdo da cama que permanecia intocado...
Sabrina não tinha sido arrancada dele por guerra, explosão ou destino cruel. Não tinha desaparecido no caos nem sido reduzida a pó por uma luva infinita. Ela tinha escolhido ir embora. Virou as costas com uma dignidade silenciosa que deixou a raiva dele sem alvo e o arrependimento sem onde pousar.
Pela primeira vez, não era o mundo que tinha tirado alguém dele. Era ele mesmo.
Foi numa quarta—feira qualquer que o universo resolveu mover as peças. Sam Wilson precisava de um lugar que não constasse em registro nenhum. Nada ligado a ele, ao Capitão América, a missões ou relatórios. Um espaço que fosse apenas… comum. Dentro do possível.
Foi assim que ele acabou no apartamento de Bucky Barnes, no Brooklyn.
Mas Sam tinha sido seguido e o prédio residencial, até então anônimo, virou alvo em questão de horas.
A notícia alcançou Bucky em Washington, não por canais oficiais, nem por alertas criptografados. Veio num telefonema truncado, a voz nervosa de um contato do locador falando demais e esclarecendo quase nada.
O prédio fora parcialmente evacuado. “Falha estrutural induzida”, segundo um relatório preliminar que já circulava por baixo dos panos. Dois andares atingidos. Feridos leves. Alguns apartamentos… destruídos. A mente de Bucky, treinada para imaginar o pior antes mesmo que ele respirasse, completou a imagem.
Sabrina.
– Você não precisa ir pessoalmente – disse o assessor do outro lado da linha, num tom tão profissional que soava quase mecânico. – A situação está sob controle. As equipes já estão no local.
– Eu sei.
– Então por que…?
Ele não deixou a pergunta terminar. Já puxava o zíper da mochila tática que nunca ficava longe demais.
– Porque a minha namorada mora lá.
Do outro lado, o assessor demorou um segundo a responder, como se estivesse recalculando alguma coisa.
– Senhor, com todo respeito, justamente por isso talvez seja melhor que o senhor não...
Bucky já estava atravessando o apartamento enquanto ele falava. Pegou as chaves da mesa, desligou o celular e empurrou a porta com o quadril.
A viagem até New York City foi um borrão. Bucky não registrou o trânsito, o aeroporto, os anúncios nos alto—falantes ou os rostos ao redor. Quando chegou, o cenário estava montado. Seu prédio estava enfaixado em fitas amarelas de isolamento, iluminado pelas luzes azuis e vermelhas de viaturas.
Ele respirou fundo e digitou uma mensagem rápida para um contato, exigindo a localização de Sam, queria saber se ele precisaria se preparar para alguma luta. Apesar de que não sairia dali enquanto não a visse.
Sem esperar resposta, estacionou atrás de uma viatura. Um oficial tentou barrá—lo com um gesto firme, mas ele apenas passou pela fita amarela sem olhar para trás.
O saguão estava inundado por holofotes. Moradores se amontoavam em cobertores térmicos, olhos perdidos entre o choque e a confusão. Bucky varreu o grupo com o olhar, rápido, metódico. Procurando um único rosto.
O cheiro de poeira, fiação queimada e algo metálico ainda pairava no ar. Um paramédico tentou interceptá—lo com perguntas automáticas, mas Bucky já estava avançando, desviando dos escombros que bloqueavam parcialmente o elevador. A porta do apartamento no final do sexto andar simplesmente não existia mais.
O sofá estava virado, esmagado sob pedaços de concreto. O mesmo sofá onde tinham rido. Onde Eugene costumava dormir enroscado. A mesa de centro era apenas madeira partida. Vidro estilhaçado refletia a luz em pontos cortantes.
O mundo pareceu inclinar por um segundo.
– Ela não estava aqui. – A voz veio de trás dele. Bucky se virou tão rápido que o policial deu um passo para trás, as mãos subindo instintivamente num gesto de cautela. – A moradora não estava no apartamento no momento do ataque. – O oficial repetiu, medindo cada palavra.
– Onde ela está?
– Foi levada para avaliação pelos paramédicos. Está aguardando na rua, na área isolada. – Ele passou pelo policial sem pedir permissão.
Sabrina estava sentada no meio—fio do outro lado da rua, um cobertor térmico prateado frouxamente apoiado sobre os ombros. O olhar perdido, fixo no buraco escuro e fumegante que antes era a janela do sexto andar.
O mundo pareceu desacelerar quando ele a viu.
Ela devia ter pedido para entrar em casa. Bucky conseguiu captar apenas fragmentos da resposta do policial, as palavras chegando até ele quebradas, levadas pelo vento frio da noite.
– …infelizmente não, senhorita… – A voz dizia, abafada pela distância. – …ainda está sendo periciado… podemos providenciar acomodações alternativas…
Sabrina deixou escapar um suspiro longo, pesado, que não era exatamente choro, era pura exaustão. Seus olhos se perderam no chão, enquanto os dedos afundavam no pelo de Eugene, encolhido nos braços dela como um bebê amedrontado.
Ela ergueu a cabeça lentamente, e por um instante seus olhos encontraram os dele. Foi um olhar rápido, carregado de alívio, cansaço, a estranha paz de ter alguém ali. Ambos suspiraram ao mesmo tempo.
Elton se aproximou em silêncio, primeiro tocando levemente o ombro de Bucky, um gesto firme e quase protetor, antes de se ajoelhar diante de Sabrina. Com cuidado, ele se colocou entre ela e o policial, formando uma barreira delicada de segurança e atenção.
– Não se preocupe com nada disso, querida – disse, a voz firme, mas carregada de calor. – Nós vamos cuidar de tudo. A empresa tem protocolos. Vamos ter nossa casa de volta.
Sabrina assentiu devagar, como se a exaustão tivesse drenado cada gota de energia. Colegas do prédio começaram a se aproximar. Palavras baixas, quase sussurros de conforto, formavam uma rede silenciosa de apoio. Ao redor, a tristeza coletiva dos vizinhos pairava no ar como uma névoa densa, uma lembrança de tudo que fora perdido, mas também de que ali, naquele momento, ninguém estava realmente sozinho.
Bucky parou diante dela, estendendo a mão com calma e precisão.
– Vamos – disse, baixo, mas carregado de comando e cuidado. – Vamos te tirar daqui.
Os dedos dela apertaram por um instante o pelo de Eugene antes de levantar. Bucky pegou a bolsa que estava aos pés dela sem pedir permissão, passando o braço por cima dos ombros dela com delicadeza.
Dentro do carro, o silêncio reinou absoluto até que a porta se fechou, selando—os em uma bolha de ar—condicionado, calor humano e uma segurança relativa. Então, finalmente, ela desabou.
Um tremor começou em seus ombros e se espalhou por todo seu corpo. Ela virou o rosto e o enterrou no peito dele, um movimento instintivo de busca por abrigo. Bucky a envolveu sem hesitar.
– Me desculpa. – A voz dela saiu presa, afogada entre soluços e o tecido da camisa dele. – Eu… estou bem… juro que estou… é que… eu fiquei com tanto medo.
– Não. – Ele a apertou mais forte, envolvendo—a com cuidado, firmeza. – Não peça desculpa. Você não precisa se desculpar por sentir medo.
Bucky se afastou apenas o suficiente para encará—la. Seus olhos percorreram cada detalhe do rosto dela. As pálpebras inchadas, o vermelho nos cantos dos olhos, o modo como ela apertava Eugene contra o peito, quase como uma criança agarrando seu bicho de pelúcia depois de um pesadelo. Com delicadeza extrema, ele passou o polegar pela bochecha dela, limpando a trilha de lágrimas e poeira que ainda insistia em permanecer.
– Eu teria atravessado qualquer coisa para chegar até você hoje — ele assegurou. – Qualquer barreira, qualquer explosão, qualquer coisa. Não existe nada que eu não faria por você. Sabe disso, não sabe?
Ela riu fraco, um riso que saiu quebrado, misturado com soluço e assentiu.
– Você estava ocupado salvando o mundo em Washington – murmurou, baixinho.
– Eu teria matado eles, Sabrina. – A afirmação saiu sem exageros, sem bravata, apenas carregada da certeza absoluta de um homem que conhecia seus limites e sabia que os ultrapassaria sem pensar se ela estivesse ferida. – Se alguém tivesse encostado um dedo em você…
Bucky encostou a testa na dela. Ficou assim por um tempo, só sentindo o calor do rosto dela perto do dele, a respiração quente batendo na boca dele. Ela não respondeu com palavra. Só deixou o corpo pesar contra o dele, finalmente, como se ali – e só ali – o mundo encaixasse no lugar certo.
Mais tarde, longe do caos, em um refúgio seguro que Bucky havia conseguido com alguns telefonemas silenciosos, ele a guiou até a cama. Deitou—se ao lado dela sem se preocupar em tirar o jeans ou a jaqueta, envolvendo—a com um braço como se pudesse impedir que o mundo a alcançasse. A mão dele firmemente apoiada na cintura dela mantinha—a presa contra ele, segura, como se soltar aquele abraço significasse permitir que os fantasmas do dia a alcançassem.
Sabrina adormeceu assim, finalmente segura, seu rosto afundando contra o peito dele.
Bucky permaneceu acordado, por horas, os olhos fixos no teto escuro. Sentia a elevação e queda da respiração dela contra seu corpo, cada suspiro dela uma âncora que o mantinha presente, desperto, mas em paz.
E, no silêncio do quarto, ele se pegou pensando na lista. Naquela lista invisível que ele mantinha desde sempre. Todas as razões pelas quais ele era perigoso demais, todas as falhas, todos os riscos, todos os motivos para se afastar.
Ele apertou o braço em volta do corpo dela, devagar, com cuidado para não acordar. E deixou o pensamento terminar sozinho, sem alarde, sem discurso: O medo de machucar ela ainda existia. Entretanto, o medo de não estar com ela era maior.
⁂
O prédio havia sido liberado para os moradores, exceto para os do sexto andar. Foi assim que Sabrina acabou passando alguns dias no apartamento de Bucky. O que começou como provisório foi se estendendo.
Os primeiros dias foram silenciosos. Não um silêncio incômodo, mas contido. Ela se movia com cuidado de visita, em um esforço visível em não ocupar espaço demais.
Aos poucos, pequenos rituais domésticos se estabeleceram. Ele preparava café antes que o dia clareasse. Ela se perdia em pensamentos e esquecia de comer; ele passou a deixar frutas já descascadas ou um sanduíche embrulhado sobre a bancada, sem dizer uma palavra. À noite, sentavam—se em pontas opostas do sofá, dividindo um cobertores sobre os joelhos e deixavam a TV ligada em qualquer coisa – documentários sobre a natureza, reprises antigas – apenas para que vozes alheias preenchessem o silêncio que ainda não tinham voltado compartilhar.
Foram dias simples, quase banais. Mas, de algum modo, o eixo do mundo deles mudou.
Bucky ficou.
Quando o assessor ligou, com aquela voz pragmática e sempre organizada, perguntando sobre prazos, agenda no Congresso, e quando ele voltaria a Washington, a resposta foi tranquila, quase sem esforço: – Ainda não.
Alguns dias antes, ele fez uma compra rápida e discreta pela internet. Não disse nada. Apenas apagou o e—mail de confirmação quando chegou, como se tivesse guardado mais um segredo só para ele.
Sabrina voltava do trabalho, os passos leves, com uma leveza que parecia vir de dentro, de algum lugar que o caos dos últimos dias não havia conseguido tocar. O telefone vibrou. Era uma mensagem do locador:
"Olá, Sra. Sabrina. As obras de reparo estrutural foram concluídas e a vistoria final aprovada. O apartamento está liberado para retomada de posse quando desejar." Ela sorriu, e com o coração acelerado, quase sem conseguir conter a energia, subiu as escadas do prédio de Bucky dois degraus de cada vez, o pensamento fixo apenas em compartilhar a notícia.
Quando chegou à porta, destrancou—a – agora tinha uma chave própria – e a empurrou. E parou.
Bucky estava agachado no chão da sala, imóvel na luz fraca da tarde. Diante dele, o manual de instruções jazia aberto. Entre seus dedos firmes e ainda sujos de pó, segurava a última perna.
Uma mesa nova.
A memória da antiga mesa invadiu—a: o riso contido antes do tombo, o estalo seco da madeira quebrando, a queda desengonçada, os dois no chão, ofegantes, rindo.
As outras três pernas já estavam firmemente ancoradas. Ele rosqueava a última com precisão quase cirúrgica, a língua pressionando levemente o interior da bochecha, os músculos dos ombros e braços tensionados em concentração.
Eugene disparou como um foguete felpudo em direção a Sabrina, mas ela mal percebeu. Seus olhos estavam fixos em Bucky.
Ele apenas girou a cabeça, devagar, natural. Sustentou o olhar pelo tempo exato para que ela entendesse, então voltou à mesa, apertando o parafuso final com firmeza resoluta.
Ela sorriu suavemente, não precisou perguntar. Ele não precisou explicar.
– Pronto. – A mão deu o último giro decisivo na chave de fenda. Ele deslizou a ferramenta para o lado e, com as duas mãos, testou a estabilidade da mesa. Empurrou—a suavemente, primeiro de um lado, depois do outro.
– É bonita – wla murmurou, se aproximando quase tímida.
– É forte.
Ela estendeu a mão, não para a mesa, mas para a dele, ainda apoiada ali. Seus dedos limpos se entrelaçaram aos dele, ásperos e empoeirados. Ele inclinou a cabeça e beijou de leve a testa dela. Quando se afastou, ainda olhando para ela, percebeu um pequeno brilho de humor surgindo em seus olhos.
– Sem sexo em cima dela por pelo menos um ano, ok? – ela brincou e ele riu baixinho, um som raro e precioso, apertando a mão dela contra a madeira.
– Combinado. – Acenou com a cabeça, compreensivo, e a puxou suavemente para sentar—se em seu colo.
Sabrina se acomodou, apoiando a cabeça na curva do ombro dele, sentindo o calor firme e seguro do corpo dele contra o seu.
– Ia contar uma coisa – ela murmurou, os olhos fixos na mesa à frente. – Sobre meu apartamento. Consegui a liberação. Posso voltar quando quiser.
Ele não respondeu de imediato. Um suspiro profundo escapou de seu peito e os dedos dele traçaram círculos distraídos no quadril dela.
– E você quer? – A voz saiu baixa, quase hesitante, mas carregada de expectativa, como se cada sílaba precisasse de permissão para existir.
– Acho que quero… quero que a gente decida juntos.
– Juntos – ele repetiu, saboreando a palavra como se fosse a primeira vez. – Combinado.
O apartamento parecia diferente agora, mais leve, mais arejado, como se o ar tivesse encontrado novamente seus caminhos. Mesmo com a noite começando a escurecer as janelas, tudo parecia mais claro.
– Vamos pedir comida, – ela sugeriu, os dedos subindo para acariciar os fios curtos na nuca dele. – E você vai me contar como aprendeu a montar móveis sem explodir nada.
– Não foi fácil. Perdi um parafuso no caminho.
– E agora? Onde ele está? – Ela inclinou a cabeça, curiosa, sobrancelha arqueada.
– No estômago do Eugene, provavelmente.
– O quê? – Ela endireitou o tronco, o encarando.
– Brincadeira. – Ele virou a cabeça para o beagle, que apenas roncava como se confirmasse a história, e franziu o cenho. – Eu acho… – Murmurou, sem muita convicção.
– James. – Ela cruzou os braços, olhando para ele.
– Ele está vivo, roncando e provavelmente sonhando com comida. Então, ou não comeu, ou tem um estômago de ferro.
– Ou amanhã descobrimos que precisamos de um veterinário e uma cirurgia de emergência.
– Aí você usa aquele desconto que conseguiu no plano de saúde pet para gente pagar.
– Quer que eu use minha habilidade de negociação? – Ela revirou os olhos, mas as mãos subiram para apoiar—se nos ombros dele.
– Sua habilidade de negociação, suas planilhas, seu jeito de falar com atendentes que faz milagres… – ele enumerou cada item com pequenos beijos: na testa, na ponta do nariz, um rápido e roubado nos lábios. – Tudo isso. Você.
– Se o Eugene tiver uma parada cardíaca no meio da noite, você também terá. – Ela ameaçou, brincando. Ou quase.
– Justo.
Eugene, completamente alheio ao papel de protagonista que lhe atribuíram, apenas mudou de posição no sofá, um suspiro profundo escapando do focinho, e voltou a roncar.
Mais tarde, o jantar tinha migrado para o chão da sala. Containers de comida estavam espalhados pelo tapete, e Eugene – que até poucos minutos antes dormia profundamente – agora estava milagrosamente desperto e sentado bem no meio deles. Porque, claro, cachorro sempre sabe quando há comida envolvida.
Sabrina assistia Bucky lutar contra os hashis com uma concentração quase comovente, enquanto ele narrava, cheio de gestos e dramatização, a saga de duas horas e meia que tinha sido sua ida à loja de móveis.
– …aí a senhora virou pra mim e disse: “Moço, se vai montar sozinho, pelo menos leva um criado—mudo combinando. Senão vai ficar feio.” – Ele imitou o tom da funcionária com indignação teatral. – E eu respondi: “Minha namorada é contadora. Ela não me deixa gastar por impulso.”
Sabrina gargalhou, jogando a cabeça para trás. O riso veio alto, livre, enchendo a sala de um jeito que fazia tudo parecer mais leve.
Bucky a observou em silêncio, um meio sorriso curvando os lábios. Havia algo profundamente satisfatório em vê—la assim. No fim das contas, nada realmente competia com aquilo. Nem o caos cotidiano, nem mesas quebradas, nem os dias difíceis que insistiam em aparecer de vez em quando.
Estar ali com ela sempre bastava.
Apenas os dois, sentados no chão da sala, cercados por caixas de comida vazias, a sensação tranquila de que, finalmente, tudo estava no lugar certo. E um beagle acima do peso, com tendências homossexuais bastante evidentes, correndo em círculos ao redor deles como se também tivesse algo a celebrar.
A lembrança do último encontro com Sabrina algumas semanas antes insistia em voltar, vívida e incômoda. Não houve brigas nem palavras duras, apenas uma conversa baixa, carregada de tudo o que já não cabia mais entre eles. Ainda assim, ele nunca esqueceu o nó que se formou em seu peito quando Sabrina o olhou com tristeza e disse: Eu não vou esperar para sempre, Barnes. Agora, vê—la ali parecia um erro da realidade. Um delírio.
Sabrina estava sentada no sofá dele, inclinada sobre a própria agenda, rabiscando com concentração feroz, o mesmo sofá onde ele tinha passado noites inteiras tentando não pensar nela.
— Não me olhe assim – Sabrina disse, sem levantar a cabeça de imediato, mas consciente do olhar dele. – Sam me pediu para fazer isso. Ele é a razão de eu estar aqui.
– Claro que é – resmungou, abaixando a cabeça.
Ele tentou se convencer de que a irritação vinha do fato de, mais uma vez, não ter sido consultado. Era isso. Mais uma decisão tomada por ele, sem ele. Mas, no fundo, sabia que não era só isso. O que realmente o incomodava era outra coisa: Sabrina estava ali não porque queria estar ao lado dele. Não porque tivesse sentido vontade de vê—lo. Estava ali porque alguém a mandara.
Ele era apenas uma tarefa?
– Vamos começar.
Ela dobrou as duas pernas sobre o estofado, acomodando—se com eficiência quase cirúrgica. O caderno pequeno repousou sobre a coxa; ela o abriu, folheando páginas com rapidez objetiva. Em seguida, a calculadora.
Por um segundo, ele não viu Sabrina. Viu a Dra. Christina Raynor sentada à sua frente, postura firme, olhar atento demais, pronta para dissecar cada silêncio, cada desvio, cada respiração fora do ritmo, como a boa psicóloga que era.
Quando percebeu que Bucky continuava parado, apenas observando, Sabrina soltou um suspiro curto, impaciente e disse:
– Vamos lá. Suas finanças.
Ele demorou um segundo a reagir. Olhava para ela como se estivesse diante de algo improvável demais para ser real. Ajuda – especialmente com algo tão íntimo quanto dinheiro – não fazia parte do vocabulário dele. Ainda assim, acabou empurrando a pilha de papéis pela mesa de centro.
Bucky permaneceu imóvel enquanto ela conferia cada conta com um rigor quase profissional. Os olhos de Sabrina deslizavam pelas cifras, a testa discretamente franzida, a caneta registrando observações rápidas no papel. Gentileza gratuita sempre lhe parecera suspeita, ainda mais vinda de alguém que dizia pintar o cabelo toda vez que tinha o coração partido. E, desde que a conhecera, ela já fizera isso duas vezes.
– Para de me encarar – murmurou, sem erguer os olhos do papel.
Bucky piscou, quase como se tivesse sido flagrado em algo impróprio, e desviou o olhar.
Ele não estava acostumado a ter alguém ali. Mas houve um tempo em que aquele silêncio não existia. Houve um tempo em que Sabrina ocupava o espaço como se sempre tivesse pertencido a ele. Pés descalços no corredor, risadas atravessando portas entreabertas, a televisão ligada mesmo quando ninguém estava assistindo.
Ele tinha se acostumado com ela. Até não estar mais.
– Por que você está fazendo isso? – perguntou, tentando desviar o olhar dela.
– Eu já disse. O Sam me pediu. – Ela fez uma anotação rápida e franziu o cenho. – E por que diabos você gasta duzentos dólares com lavanderia?
– Por que você está revirando minhas contas de lavanderia?
– Porque você está falido, James. – Pela primeira vez, ela ergueu os olhos. – O Sam me contou. E isso aqui… – Apontou para os papéis espalhados – Só confirma.
– Eu sei me virar sozinho.
– Salvar mundo e socar caras maus? Pode até ser. Mas você claramente não sabe nada sobre dinheiro no século XXI. – Ela parou, encarando outra folha. – Cara, qual é? Trezentos dólares de conta de telefone? Você nem usa!
Bucky desviou o olhar. Um leve rubor subiu—lhe às bochechas.
– Foi… uma emergência.
– Uma emergência… por um mês inteiro? – Ela arqueou a sobrancelha.
– É complicado – mentiu.
Não era. Ele simplesmente tinha esquecido que o mundo funcionava com mensagens, ligações, notificações. Esquecido que as pessoas usavam algo chamado “celular”. Mas admitir isso seria assumir que ele ainda era um homem deslocado no próprio tempo e ele já estava cansado de parecer perdido na frente dela.
– É claro que é. – Sabrina soltou uma risada baixa, contida, e logo voltou às anotações. – Você tem dois cartões de crédito.
– E? – Bucky respondeu, surpreso demais para disfarçar.
– Por quê?!
– Por que o quê? – retrucou, já na defensiva.
– Você não precisa de dois cartões. E a dívida que conseguiu acumular nos dois é simplesmente absurda. – Sabrina inclinou a cabeça, avaliando—o por cima do papel. – Por que você fez isso?
– Eu tive meus motivos.
– Ah, imagino. – Ela bufou, revirando os olhos.
Ele ia retrucar – mentir, inventar qualquer justificativa conveniente, erguer uma versão mais aceitável de si mesmo –, mas as palavras morreram antes de alcançar a língua.
Porque era a Sabrina. A pessoa mais próxima que ele já chegara de chamar de namorada. A única que o conhecia quase tão bem quanto ele próprio. Mentir para ela era inútil.
– Eu só… – Suspirou, esfregando o rosto com a mão. – Não consegui dizer não para moça do crediário.
Sabrina fechou os olhos por um segundo antes de erguer o olhar do papel de novo, com um sorriso pequeno e divertido. Bucky desviou o olhar, orelhas quentes, enquanto ela balançava a cabeça, satisfeita, como quem confirma uma teoria antiga.
– O temido Soldado Invernal vencido por uma atendente simpática e um sorriso treinado – murmurou, voltando às anotações. – Francamente, James.
– Eu não sabia que precisava ter uma ficha limpa para comprar uma cafeteira – murmurou, em tom defensivo. – Olha só. Sobrevivi à Hydra, a uma lavagem cerebral e a uma guerra mundial. Pensei que tinha crédito suficiente para um simples eletrodoméstico.
Ela soltou um riso curto, vazio de humor, que mais parecia um arfar.
– Você merecia era alguém te dizendo ‘não’. Mas claramente, ninguém na loja teve coragem.
Bucky observou o vai—e—vem da caneta por um instante que se esticou além do confortável. Aquela cena – a normalidade doméstica das contas, dos números, da reprimenda disfarçada de cuidado – era a arma mais efetiva contra ele. Sempre fora. Era mais desconcertante do que qualquer confronto, mais vulnerabilizante do que qualquer memória.
– Você não precisava estar fazendo isso – murmurou, o olhar fixo em algum ponto da mesa, como se a madeira fosse menos ameaçadora do que ela. – Podia só… me julgar à distância.
– Já disse – retomou, forçando o mesmo tom casual de antes, como quem encerra o assunto antes que ele se torne pessoal demais –, foi o Sam quem me pediu. Até me pagou pelo serviço.
Era um escape conveniente. Uma explicação organizada demais. Ambos sabiam que o suposto cheque de Sam provavelmente nunca seria descontado (se é que algum dia existira).
– Ele te pagou quanto? – A pergunta escapou antes que ele pudesse filtrá—la, carregada de um ceticismo áspero que ele não fez questão de suavizar.
– O suficiente.
Quanto custava passar horas ali com ele? Quanto custava organizar o caos dele? Quanto custava tolerá—lo?
Se fosse dinheiro, ele poderia pagar.
– "O suficiente" para justificar ficar sentada numa cozinha até tarde da noite, revisando as finanças de um ex—assassino?
Dessa vez, ela não conseguiu ignorar. A caneta parou de novo e ela ergueu lentamente o olhar, finalmente.
– É o suficiente para eu saber que você não vai passar fome porque comprou uma máquina de café que vale mais que o aluguel deste apartamento. E que talvez, só talvez, você aprenda a olhar para a coluna de débitos antes de sair comprando coisas brilhantes.
– Eu não sei fazer essas coisas, Sabrina. – A admissão escapou em um sussurro, não sobre dinheiro, mas sobre tudo. Sobre ler contas, sobre prever consequências, sobre habitar uma vida que não fosse definida pela próxima missão ou pela sombra do último erro. – Nunca soube.
– Não pode depender só de cartão. Precisa de uma reserva, um fundo de emergência… E pagar o seu aluguel, pelo amor de Deus. Olha, eu trabalho com isso. Eu entendo de finanças. E você… – Fez um gesto vago com a caneta, apontando para a pilha de papéis – é péssimo com dinheiro. Você tem um ótimo salário. Sua renda é mais do que suficiente. O governo literalmente te paga uma pensão. Uma boa pensão. E você ainda mora... aqui. – Ela respirou fundo. O olhar suavizou. – Eu só estou… oferecendo ajuda.
– Posso dizer “não”? – Perguntou, a voz carregando um fio fino de desafio.
– Não. – Ela deu de ombros, simples, definitivo. Ele engoliu um sorriso involuntário. – Então, além de ser irresistivelmente charmoso, você também tem uma mente incontrolável e precisa desesperadamente de ajuda com números. Não se preocupe com discrição, tenho meus métodos. Também não sonego impostos... oficialmente, mas sei como… otimizar a tributação absurda. Ah, e também...
As palavras começaram a jorrar, aceleradas, confiantes, quase divertidas demais para a seriedade do assunto. Bucky ficou parado, observando.
– Espera, espera. – Ele ergueu as mãos, tentando conter o fluxo. – Volta. Você me disse que era secretária numa empresa de móveis.
– Sou. – Ela assentiu, tranquila. – A secretária dos contadores. A que sabe onde tudo está, como tudo funciona e, às vezes, por que funciona.
– Certo. Tenho perguntas.
– Ah, não. – Ela sorriu, já negando com a cabeça.
– “Não” quê? – Bucky franziu ainda mais o cenho.
– Perguntas. – Sabrina apoiou as contas contra o peito. – Nós não fazemos isso. – O sorriso dela era doce demais para a ousadia da frase. – Ah, e você precisa fazer compras. Não tem comida aqui. Nem produtos de higiene. Nem café. Mas isso eu não faço. Sou contadora, não secretária.
– Tudo bem. Eu mesmo faço minhas compras.
– Ótimo – ela murmurou, folheando mais algumas folhas. – E você precisa limpar o apartamento e comprar móveis... É um colchão no chão? Você está dormindo no chão? Achei que tinha parado com isso.
– O que há de errado em dormir no chão? É confortável.
– Você podia comprar uma cama. E um sofá, pelo menos. – Ela hesitou. Foi mínimo. Um segundo quase imperceptível. Mas ele viu. – E talvez… uma mesa nova.
Ele ergueu o olhar de imediato.
Por um instante, o apartamento deixou de ser o que era e virou lembrança.
A madeira cedendo sob o peso dos dois. A gargalhada descontrolada. O susto seguido de silêncio. Depois mais risos. E depois...
A mesa que nunca foi substituída.
– Então… fechamos o acordo? – Sabrina se levantou da cadeira, pigarreando de leve, como quem encerra uma reunião importante e produtiva. Bucky hesitou, mas assentiu. – Ótimo! Agora… vou precisar do seu nome completo, número do seguro social, senhas das redes sociais e acesso total às suas contas bancárias.
– Você está pedindo minha alma também ou isso fica para a próxima reunião?
– Não se preocupe. Tudo será absolutamente confidencial. – Fez uma pausa dramática. – Você não faz ideia das coisas que eu sei sobre o Sam.
O interesse dele foi imediato.
– E o que exatamente você sabe sobre ele?
– Que ele é meu cliente. – Fechou o caderno com um estalo leve. – E isso, meu amigo, é confidencial.
– Ele tem segredos financeiros obscuros?
– Todos têm.
– Ele comprou um jet ski, não foi?
– Não posso confirmar nem negar a existência de um jet ski.
– Eu sabia.
– Mas posso confirmar que ele paga em dia. – Ela inclinou a cabeça. – Conceito que você poderia experimentar.
Ele bufou, mas um sorriso escapou antes que conseguisse conter. Tentou disfarçar, limpando a garganta, assumindo uma expressão neutra que não convencia nem a si mesmo.
– Só para deixar claro… eu ainda posso fugir no meio do processo, certo?
– Claro. – Ela sorriu, tranquila demais. – Mas eu sei onde você mora.
E foi ali, naquele equilíbrio estranho entre provocação e cumplicidade, que ele teve a sensação incômoda – e não totalmente desagradável – de que talvez tivesse acabado de se meter em algo maior do que planilhas e contas atrasadas.
Não porque fosse arriscado. Mas porque envolvia ela.
Uma semana depois, Sabrina bateu à sua porta. O som foi inesperado o suficiente para levar um segundo a mais do que o normal para ele identificar o que era. Visitas ainda não faziam parte do seu repertório de normalidade.
Quando abriu, lá estava ela, com um caderno de capa dura encaixado sob o braço.
– Preciso anotar algumas coisas. Fazer perguntas. – Ela sorriu rápido, eficiente, antes de passar por ele como se tivesse um passe vitalício para aquele apartamento.
Ele fechou a porta devagar, observando cada movimento com a cautela automática de quem aprendera a procurar armadilhas até em gestos simples.
– E essas perguntas… – disse, com leve ceticismo – são tão pessoais que exigem um caderno inteiro?
Sabrina parou no meio da sala e se virou para encará—lo.
– A sua vida financeira é pessoal?
– É.
– Então a resposta é sim. – Ela abriu o caderno, folheando algumas páginas. – Vamos começar pelo básico. Nada escandaloso, prometo. Você está envolvido em corrupção, desvio de verbas públicas ou algum crime político—ideológico?
– Não, não e não. Estou limpo. – Ele soltou uma risada baixa e rouca, surpresa demais para parecer calculada. – Isso é um interrogatório ou eu preciso de um advogado?
Ele tentou focar, mas foi inútil. O cabelo dela estava preso de um jeito meio solto, algumas mechas escapando ao redor do rosto.
A memória veio com precisão irritante.
Estava exatamente como no terceiro encontro deles.
– Que bom. – O canto da boca dela se ergueu, e ela riu junto, um som leve que parecia limpar o ar. – Isso teria tornado meu trabalho muito mais interessante, mas vamos trabalhar com o que temos.
– “Interessante” é um jeito bem generoso de descrever lavagem de dinheiro, Sabrina.
Sabrina estendeu a mão, entre seus dedos, um cartão de plástico escuro e fosco refletiu a luz.
– Aqui. Seu novo cartão de crédito. Score excelente, nome limpo. – Ela piscou, um brilho de pura diversão nos olhos. – Mas atenção: é só para uso internacional. Nada de sair por aí fazendo compras fora do planeta ou em qualquer outra dimensão que não aceite o dólar. As taxas de câmbio são um pesadelo.
Ele aceitou o cartão, passando o polegar sobre o relevo do nome. JAMES B. BARNES. Soava oficial. Permanente.
– Internacional – murmurou, erguendo o olhar.
– Exatamente. – Ela anotou algo rápido no caderno. – Vamos estabelecer metas. Curto prazo: não falir por causa de eletrodomésticos. Médio prazo: construir um fundo de emergência que sobreviva a… digamos, circunstâncias imprevisíveis.
Bucky analisou o cartão com atenção, como se ainda não confiasse totalmente na existência dele. Antes que pudesse comentar, ela lhe entregou mais uma coisa: um pequeno bloco de notas.
– E isso é para quê?
– Diário financeiro – respondeu, simples. – Quero que você preencha todo dia com seus gastos e hábitos. Vai me ajudar a entender melhor onde posso te ajudar.
– Todo dia? Não é um pouco exagerado?
– Não, se você quer parar de se preocupar com dinheiro.
– Você faz o controle, eu faço meu trabalho. Eu faço meu trabalho e você não morre devendo até para o Papa. – Sabrina encontrou, sobre a bancada da cozinha, uma pilha de envelopes amassados e esquecidos. Ela pegou o monte com dois dedos, como se estivesse manuseando um artefato suspeito, e ergueu—o lentamente. – E isso… É parte do seu ‘sistema de arquivamento’ atual?
– É… mais ou menos. – Ele esfregou a parte de trás do pescoço, evitando o olhar dela. – O sistema é… pegar quando chega, enfiar no bolso e… meio que tentar esquecer que existe.
Ele desviou o olhar, fixando—o na cafeteira reluzente e absurdamente cara, que agora parecia acusá—lo silenciosamente de cada conta não paga. A vergonha era uma coisa rara e desconfortável para ele, mas naquele momento, era palpável.
Sem comentar, Sabrina começou a organizar tudo. Separou, alinhou, explicou como usar o diário, onde anotar, o que observar. Tudo com uma paciência inesperada. Bucky observava em silêncio. Quando Sabrina terminou, a pilha de contas parecia outra coisa.
– Obrigado. Não sei o que você fez, mas… parece menos sufocante.
– É essa a ideia – ela respondeu, fechando o caderno com um gesto final.
– Vou tentar anotar tudo direitinho – Bucky prometeu, segurando o diário financeiro como se fosse um manual de sobrevivência. – Mas…
Antes que o pensamento se fechasse, o som brusco veio da porta da varanda, que deslizou com violência suficiente para fazer o vidro vibrar no encaixe. No segundo seguinte, uma rajada marrom e branca atravessou a sala como um pequeno furacão doméstico, unhas raspando no piso, orelhas voando para trás, focinho erguido como se tivesse captado algo impossível de ignorar.
– Eugene! – Sabrina chamou, mais por reflexo do que por esperança real de contê—lo.
O beagle não reduziu a velocidade. Havia um destino muito claro traçado naquela corrida. Ele lançou—se para a frente e, com um salto surpreendentemente elegante para alguém do seu tamanho, aterrissou no colo de Bucky com precisão absoluta.
O impacto fez o ar escapar do peito de Bucky num “oof” baixo, mas antes que qualquer reclamação pudesse se formar, Eugene já estava ali: patas apoiadas em seu tórax, focinho enfiado sob seu queixo, cauda chicoteando o ar numa felicidade incontida.
– Ei, ei… calma – Bucky soltou uma risada surpresa, já rendido. As mãos encontraram o pelo macio quase automaticamente. – Oi, parceiro.
Eugene não hesitara. Não farejara, não avaliara. Para ele, não havia lacuna no tempo, nem rompimento a ser superado. Apenas um reencontro. Um sorriso aberto surgiu no rosto de Bucky, sem reservas. Ele coçou atrás das orelhas do cachorro, no ponto exato que sabia de memória.
– Pensei em colocar uma tela na varanda – comentou Bucky, num tom estudado de casualidade, como se estivesse falando do clima. – Mas acho que não ia segurar um invasor desse nível.
– Invasor?
O canto da boca dele se curvou, mas era um sorriso curto, contido.
– Ele nunca deixou de vir. – Bucky abaixou o rosto, encostando a testa de leve na cabeça do beagle. – Você sempre aparece por aqui, não é, carinha?
Sabrina não se moveu. O olhar percorreu a cena com uma atenção silenciosa. Eugene mordia o braço metálico de Bucky com entusiasmo descontrolado, as patinhas apoiadas no peito dele, como se aquele fosse o brinquedo favorito do mundo. O metal produzia um rangido suave a cada investida e Bucky deixava.
– Eu achei que… – A voz dela falhou antes de terminar a frase. Ela engoliu em seco. – Depois que a gente…
– Eu também achei. – A mão dele continuou o movimento lento no pelo quente de Eugene. – Mas ele sempre volta. Às vezes tarde da noite. Às vezes de madrugada. Fica um pouco, dorme no tapete… e depois vai embora de novo.
– E você nunca me contou.
Bucky deu de ombros, ainda sentado no chão, Eugene agora esparramado sobre ele como se tivesse reivindicado aquele corpo como território permanente.
– Não parecia… relevante.
– Um pedaço meu atravessando a sua varanda todas as noites não é relevante? – Ela resmungou, fazendo ele sorrir levemente. – Então é por isso que ele desaparece todo sábado de manhã… – Murmurou, mais para si do que para ele. – Você ainda o leva ao parque aos sábados, não leva? Eu devia ter imaginado.
Sabrina não conseguiu conter o sorriso que se formou. Alguns laços, uma vez forjados, nem a distância, nem o silêncio, nem mesmo um rompimento consegue desfazer por completo. O afeto, uma vez instalado, encontra seus próprios caminhos de volta, mesmo que seja nas patas de um beagle teimoso.
– Ele sempre gostou mais de você...
Bucky soltou um sopro curto pelo nariz, quase uma risada.
– Claro que gostou. – Ele coçou Eugene atrás da orelha. – Eu sou claramente o favorito. Tenho braço metálico, faço cócegas de nível profissional e nunca digo “não” para petiscos.
– Por isso ele nunca emagrece. – Ela riu baixo. Bucky sentiu o riso antes mesmo de registrar o som. Foi automático: o maxilar relaxou, o peito apertou, e ele precisou olhar para outro lugar. Ajustou o cachorro no colo, os dedos deslizando pelo pelo quente numa distração conveniente. – Você sempre odiou acordar cedo aos sábados.
– Eu evoluí. Agora eu odeio, mas vou mesmo assim. – Ele forçou um meio sorriso, mas não sustentou o olhar dela. Ficou encarando Eugene, como se o cachorro fosse um mediador diplomático entre dois países que já tinham entrado em guerra. – E ele gosta do parque. Não achei justo parar só porque… – A frase ficou suspensa.
Porque a gente acabou. Ele não completou. Não precisava.
Antes que ele pudesse dar um passo além daquele território perigoso, ela se levantou.
– Bom… já que o traidor está instalado… – disse, pegando a bolsa sobre a mesa. – Ele vai querer ficar, né?
– Vai. – Bucky confirmou. Ele hesitou um segundo. – Eu… posso ficar com ele até amanhã. Se for mais fácil.
Sabrina parou na porta, a mão na maçaneta. Olhou para trás, para a cena no sofá: o homem que ela amou, o cachorro que o amava e o silêncio confortável que os envolvia.
– Até amanhã, então – murmurou. E, mais baixo, inclinando levemente o rosto na direção do sofá: – Se comporte, Eugene.
Bucky permaneceu imóvel por alguns segundos depois que ela saiu, como se qualquer movimento pudesse desfazer algo delicado demais. Ele deslizou a mão pelas costas do cachorro, devagar, e então enterrou o rosto no pelo macio, inspirando fundo.
– Obrigado, amigão – murmurou.
Era pouco, mas era um começo.
– Congresso? – Sabrina perguntou assim que chegou ao terraço, sentando—se ao lado de Sam.
– Pois é. – Ele soltou um meio riso, ainda um pouco incrédulo. – Foi uma surpresa para mim também.
Sam apoiou os cotovelos nos joelhos, o olhar acompanhava Bucky do outro lado do terraço, onde ele conversava com dois vizinhos e gesticulava enquanto ria de algo que tinha sido dito. Nem parecia o mesmo homem que tinha chegado ali meses atrás. Fechado, econômico nas palavras, ocupando espaço como quem pede desculpas por existir.
– Ele te contou? – Sam perguntou, ainda observando.
– Não. – Sabrina balançou a cabeça devagar. – Só comentou que o Elton estava planejando uma festa aqui no terraço. – Deu de ombros, tentando soar despreocupada. – Mas ele vive inventando coisa. Nunca imaginei que fosse… uma festa de despedida.
– Nem ele imagina direito, eu acho.
– Você acha que ele vai?
– Acho que ele já está indo.
– Como assim? – Ela franziu levemente o cenho.
Sam finalmente tirou os olhos de Bucky e encarou Sabrina.
– Ele já começou a se despedir das coisas. Só não falou em voz alta ainda.
Sabrina voltou a olhar para o outro lado do terraço. Bucky gargalhou de algo bobo, apoiando o copo na mureta enquanto um dos vizinhos lhe dava um tapinha no ombro.
– Quando ele chegou aqui, – Sam continuou – mal falava com alguém. Entrava e saía como se tivesse medo de ocupar espaço.
– E agora vai ocupar um prédio inteiro no Congresso. – Sabrina comentou, com um sorriso fraco.
– Você tem alguma coisa a ver com isso.
– Eu só ajudei com as finanças. – Desviou o olhar, acompanhando a rajada de vento que fez as luzes do terraço balançarem como pequenas estrelas instáveis.
– Não, Sab. – A voz de Sam veio gentil, mas firme o bastante para não permitir fuga. – Antes disso.
Ela não respondeu.
Do outro lado do terraço, Bucky se despediu dos vizinhos com tapinhas nas costas e um aceno fácil. Então começou a caminhar na direção deles. Os olhos dele encontraram os de Sabrina no meio do caminho. E ele sorriu. O nó na garganta dela veio instantâneo e, misturado a ele, um orgulho silencioso. Orgulho por vê—lo assim. Inteiro. Pertencendo.
– E se ele for… e não voltar? – A pergunta escapou num sussurro que quase se perdeu sob o riso e a música.
Sam ouviu, mas não respondeu.
– Aqui. – Bucky chegou, carregando duas garrafas geladas. Estendeu uma delas para Sabrina. – Saúde. Ah, e antes que eu esqueça… contribuí para vaquinha da cerveja.
– Sério? – Ela piscou, genuinamente surpresa. – Estou impressionada. – Inclinou a cabeça, provocadora. – Você anotou isso no seu planejador financeiro como “despesa social necessária”?
Ele riu, rolando os olhos.
– Muito engraçado. – Ergueu a garrafa. – Mas sim. Considere isso um evento raro. Não espere que aconteça de novo tão cedo.
Ao redor deles, o terraço seguia vivo – risadas altas, música demais para um espaço pequeno, vozes se sobrepondo –, mas algo tinha se deslocado, quase imperceptível, entre os dois.
Sabrina apoiou o cotovelo no parapeito, olhando a cidade à frente como se precisasse de um ponto fixo para reorganizar os pensamentos. Bucky percebeu o gesto tarde demais.
– Então… – ela disse, casual demais. – Congressman, é?
Ele engoliu em seco antes de responder, mas manteve o tom leve.
– Não oficialmente. Ainda. Só uma proposta.
– Claro. – Ela assentiu, sem encará—lo.
– Eu ia contar.
– Eu sei. – Agora ela olhou para ele. Não havia acusação ali. Só atenção. – Só não contou ainda.
Eles ficaram em silêncio outra vez. Dessa vez, menos confortável. Ele passou a mão pela nuca, um gesto automático. Então começou a contar. Falou do convite como quem descreve um acidente inevitável: uma conversa informal que virou reunião, uma reunião que virou proposta. Falou das palavras bonitas – representatividade, responsabilidade, novo começo – e disse que não tinha procurado aquilo.
– Disseram que eu podia ajudar de outra forma. – Continuou, a voz mais baixa. – Que talvez fosse hora de tentar algo… menos violento. E eu achei que… ficar longe por um tempo, me estabelecer direito, podia ser… a coisa responsável a se fazer.
Ela desviou o olhar por um instante, respirando fundo antes de voltar a encará—lo.
– Longe de quem? – perguntou, baixo.
– Eu não estou indo embora, Sab. – Disse, rápido demais. – É só trabalho. Eu volto.
Sabrina assentiu devagar, absorvendo cada palavra como quem avalia um terreno instável antes de pisar.
– Bom, – ela levantou a garrafa de cerveja, um gesto de trégua. – Pelo menos você tem um novo emprego.
– E poderei pagar minha contadora – ele completou, brindando com ela novamente, tentando recuperar o tom leve.
Sabrina deixou escapar um sorriso curto, desses que não chegam inteiro aos olhos, e tocou a garrafa na dele.
– Justo. – Bebeu um gole. – Fico aliviada em saber que meu cliente mais problemático finalmente vai parar de fingir que não entende o conceito de orçamento.
Bucky riu levemente, apoiando os cotovelos no parapeito, olhando a cidade lá embaixo. As luzes pareciam distantes demais, como se Washington já estivesse piscando no horizonte, chamando.
– Eu não quero que isso vire… – ele começou, depois parou, frustrado consigo mesmo. – Eu não quero que você ache que eu estou escolhendo outra coisa no seu lugar.
– Eu não acho isso. – Fez uma pausa, escolhendo as palavras com cuidado. Ela finalmente virou o rosto para ele, os olhos sérios. – Eu posso lidar com a distância. O que eu não sei lidar é com o silêncio. Especialmente o seu.
Talvez fosse a notícia do Congresso. Talvez fosse aquela semana infernal no trabalho. Talvez fosse a montanha—russa hormonal que a atormentava ou, simplesmente, a proximidade prolongada e inesperada de Bucky naquela noite. Provavelmente, foi uma combinação perigosa de todos esses fatores.
O fato é que Sabrina decidiu esquecer o bom senso e encheu a cara.
Começou inocentemente, com brindes ao lado dele. Bucky, com seu metabolismo de super—soldado, podia ingerir álcool como se fosse água, sem qualquer sinal visível de embriaguez. Depois, Sam surgiu com a ideia de um jogo e a competitividade falou mais alto. Em seguida, ela se infiltrou no grupo barulhento do primeiro andar, convencida de que conseguiria acompanhar o ritmo acelerado dos mais jovens.
Spoiler: ela não conseguiu.
A consciência retornou devagar, o mundo parecia estar ligeiramente torto, desalinhado. A luz da manhã invadia o quarto pelas frestas da cortina. Sabrina gemeu, um som baixo e sofrido, enterrando o rosto em um travesseiro que era definitivamente diferente do seu.
Ela se moveu com cuidado, testando os limites de uma cabeça latejante. O corpo pesava, estranho, em um colchão muito mais firme que o seu. Quando finalmente se virou, os olhos desfocados foram captando detalhes familiares. O quarto se materializou aos poucos em sua memória: a cômoda sóbria, a janela que dava para a varanda do terraço, a cadeira no canto onde ele sempre jogava sua jaqueta.
– Merda… – A palavra escapou em um sopro, enquanto uma mão subia para pressionar as têmporas.
Estava vestida. Ponto positivo. Uma camiseta surrada e larga – dele, inconfundivelmente – e o mesmo short que usara na festa. Outro ponto positivo. Nenhuma lembrança constrangedora ou clara do final da noite vinha à tona.
Ainda.
– Você está morta? – A voz de Bucky veio da porta, carregada de um humor seco e doméstico que fez Sabrina fechar os olhos mais forte.
– Aham. E o céu é mais chato do que eu esperava.
Ele entrou carregando um copo alto de água e duas pílulas, que deixou na mesa de cabeceira.
– Para a ressureição – explicou, recuando para se apoiar no batente da porta, os braços cruzados. – E para constar, você perdeu feio para a Carol do 102. Ela te derrubou no terceiro shot.
Memórias começaram a retornar em flashes desconexos: o gosto forte de tequila, uma competição de beber cerveja com a garota da academia, risadas altas demais. E Bucky, sempre por perto, observando com um misto de diversão e preocupação.
– Eu ia dizer que nunca mais bebo. – Sabrina gemeu, sentando—se aos poucos. – Mas a gente sabe que é mentira.
– Eu ia dizer que você devia ter mais juízo – ele retrucou, sem conseguir esconder um meio sorriso. – Mas a gente sabe que não adiantaria.
Ela pegou as pílulas e engoliu com um longo gole de água, sentindo o líquido frio como uma bênção.
– Ai, Deus… – Sabrina enterrou o rosto no travesseiro. – Nunca mais me deixe beber assim.
– Combinado – Bucky respondeu, rindo. – Mas você também tentou fazer miojo às duas da manhã e quase botou fogo na minha cozinha.
Ela virou o rosto no travesseiro, encarando—o com uma indignação claramente prejudicada pelo sono.
– Eu não botei fogo em nada.
– Você colocou a panela no fogo sem água. Você estava mexendo macarrão seco numa panela vazia com uma espátula de silicone. – Ele cruzou os braços, teatralmente sério. – Eu tive que te desarmar.
– Desarmar?!
– Tirei a espátula da sua mão e fiz o caminho de volta para cama. – Ele não conseguiu segurar a risada dessa vez.
Ela fechou os olhos de novo, derrotada, afundando metade do rosto no travesseiro.
– Então é por isso que eu estou com o estômago roncando… – murmurou. – Você sabotou meu jantar.
– Eu salvei a cozinha.
– Eu estava com fome, Bucky.
– Você estava dormindo em pé.
Ela gemeu envergonhada, cobrindo o rosto.
– Por favor, jura que vai apagar tudo da sua memória. Tipo, apagar mesmo. – Obrigada por… – Ela hesitou, procurando uma palavra que não fosse pequena demais. – Por não me deixar fazer uma besteira maior.
– Não foi um fardo. Até que foi bom… te ter por perto de novo.
O momento de frágil compreensão durou exatamente até três batidas decisivas e familiares ecoarem pela porta da frente.
– BUCKY! – A voz de Sam atravessou as paredes como se fossem feitas de papelão. – Trouxe café. Abre a porta!
Sabrina congelou, a caneca suspensa a centímetros da boca.
– Diga que isso é um pesadelo alcoólico tardio...
Bucky fechou os olhos por um segundo, como quem faz uma oração rápida e pouco esperançosa. As batidas voltaram. Mais fortes.
– Barnes, eu tenho a chave reserva e o número do síndico! Não me teste!
– Ele tem uma chave? – Sabrina sussurrou, o horror brigando com a náusea.
– História longa. Envolve um drone, um bolo de aniversário e uma promessa que eu não devia ter feito. – Bucky respirou fundo e endireitou os ombros como quem se prepara para combate. – JÁ VOU!
Sam entrou como uma brisa carregada de intenções e café da manhã, segurando uma sacola de papel marrom e um sorriso suspeitosamente satisfeito.
– Bom dia, meu congressman favorito! – Ele avançou dois passos e congelou. Seus olhos capturaram movimento no fundo do corredor: uma camiseta surrada e claramente grande demais para quem a vestia desaparecendo na sala. O sorriso de Sam não surgiu de repente. Ele cresceu. – …Opa.
– Não – Bucky avisou, apontando o dedo para ele.
– EU SABIA. – A voz de Sam subiu meio tom, o dedo apontando alternadamente para Bucky e para o corredor vazio. – Eu sabia que o universo não me abandonaria assim. Eu senti. No meu espírito.
– Sam. – Bucky tentou, já cansado. – Não é nada do que você está imaginando.
– Sam. – A voz de Sabrina veio da sala, abafada pelo sofá onde ela já tinha se afundado. – Eu estou de ressaca, de TPM e, se você não me deixar em paz, juro que faço sua planilha de gastos parecer um crime federal.
O sorriso dele diminuiu só um pouco, dando lugar a curiosidade genuína.
– Então… vocês voltaram?
– Sam! – O quase grito saiu em uníssono.
Ele riu, aberto, rendido, e finalmente largou a sacola sobre a mesa com um baque suave.
– Tá bom, tá bom. Cessar—fogo. Sentem. Comam. Trouxe donuts. – Ele fez uma pausa. Franziu a testa ao ouvir um arranhar vindo da varanda. – E, já que estamos numa sessão de perguntas e respostas… por que raios tem um cachorro na sua sacada, Bucky?
– É meu... – Sabrina soltou um gemido sofrido. – É um cachorro gay e está apaixonado pelo Bucky.
– E por que ele está aqui? – Sam perguntou.
– Ele nunca parou de vir. – Bucky respondeu.
Sam olhou de Bucky para Sabrina. Depois para o cachorro. Depois de volta para os dois. E pela primeira vez desde que entrou, não havia piada pronta.
– Hm.
Porque aquilo não era só sobre o beagle que parecia estar acima do peso. E todo mundo ali sabia.
Washington nunca dormia de verdade, mas às duas da manhã, a cidade respirava um tipo específico de cansaço. O ar do apartamento temporário estava parado, carregado do silêncio elétrico de uma cidade que decide tudo, menos como descansar. A luz fria e distante do Capitólio entrava pela janela, uma constante lembrança do palco onde ele agora deveria atuar.
Bucky estava sentado à mesa de jantar, o paletó cuidadosamente pendurado no encosto da cadeira, a gravata esquecida ao lado. Diante dele, papéis se espalhavam (relatórios densos, propostas legislativas que pareciam escritas em outra língua, e suas próprias anotações à mão, garranchos tentando transformar abstração em ação).
Seu olhar, no entanto, não estava nos papéis. Estava fixo no celular. Nenhuma notificação. Nenhuma mensagem nova.
Ela provavelmente ainda estava acordada. Sabrina nunca foi uma muito matinal. Bucky apoiou os cotovelos na mesa e esfregou o rosto com as mãos.
Ele foi para Washington acreditando, com uma fé quase ingênua, que a distância poderia ser um ato de cuidado. Que se ele estivesse longe, ela estaria livre do fardo constante que era amar alguém que ainda estava aprendendo a simplesmente viver. Ninguém o avisara, porém, que a distância verdadeira não chega com estrondo.
Seu dedo polegar traçou o contorno frio do celular antes de finalmente virá—lo. A tela acendeu, iluminando seu rosto na penumbra. Ele abriu a conversa. A última mensagem ainda era dela, enviada no início da noite.
Sabrina: Tudo bem? Seus dedos pairaram sobre o teclado. Digitou uma resposta, um relato factual do dia. Apagou. Tentou de novo, buscando um tom mais leve, quase descontraído. Soou falso até para ele mesmo.
Bucky: Sim. Foi tudo tranquilo. O dia foi longo.
Ele pressionou "enviar" e então ficou ali, parado, a tela refletida em seus olhos. Esperando, contra toda a razão, que os três pontinhos pulsantes aparecessem do outro lado. Eles não apareceram.
Bucky levantou—se e foi até a janela. Lá embaixo, Washington se estendia, impecável em sua geometria de poder. Tudo tinha um lugar, um protocolo, um nome.
O celular vibrou em sua mão. Uma nova notificação.
Sabrina: Boa noite. Se cuida. E foi ali, sozinho naquele apartamento emprestado, que Bucky Barnes finalmente entendeu.
Ele já tinha enfrentado coisas infinitamente piores que a solidão. Sobreviveu a guerras, a décadas arrancadas da própria memória, a um passado que insistia em voltar como um eco indesejado. Mas nada se comparava ao peso daquela solidão específica.
Não era a solidão imposta por lavagem cerebral. Não era a ausência forçada de quem nunca teve escolha. Era a ausência da sua garota.
Algo tão simples. Tão banal. Tão humano.
Bucky percebeu que podia enfrentar exércitos, fantasmas e o próprio passado… mas não estava preparado para enfrentar um sofá vazio sabendo exatamente quem deveria estar ocupando o espaço ao lado dele.
– Consegue me ver?
– Bucky… você precisa virar a tela. – Ah. Certo. Espera. E agora?
– Agora sim. Aí está você. – Melhor assim?
– Definitivamente. – Você pintou o cabelo? De novo?
– Não é assim que se fala com uma mulher, James. – ...seu cabelo está bonito.
– Obrigada! – De onde você tirou essa ideia de videochamada?
– Você disse que tem uma geladeira de três portas. Eu precisava ver isso. – Sabrina… é só uma geladeira.
– Só uma geladeira com três portas. Sabe quantas portas a minha tem? – Uma?
– Mal tem uma. – Não exagere.
– Eu só estou dizendo que três portas é ostentação. – É funcional.
– Claro. Você precisa de uma porta exclusiva para guardar… sei lá, as 10 toneladas de comida que você ingere em um dia? – Haha, engraçadinha. Então… você só ligou para julgar minha geladeira? É isso?
– Não só por isso. Mas ela é, sem dúvida, o ponto alto da chamada até agora. – Que honra. Posso te apresentar o freezer agora? Ele tem um dispensador de gelo.
– Um dispensador de gelo automático? Uau, você está vivendo no ano 3000, Bucky.
– É padrão, Sabrina. Século 21, sabe?
– Olha só, quem diria que essa frase sairia da sua boca e não da minha. Mas vamos voltar ao ponto importante: três portas. Me explica a lógica. – A de cima é para laticínios e coisas prontas. A do meio, para frutas e legumes. A de baixo, o freezer.
– E você realmente precisa de uma porta inteira e exclusiva para… cenouras e maçãs? – Mantém a organização! E os legumes ficam mais frescos. É ciência, Sabrina.
– Admita. Você gosta de abrir aquela portinha do meio só para sentir que é um chef renomado. – Eu… não faço isso.
– Você faz. Eu vi o seu sorriso aí, a câmera está virada para você, James! – Tudo bem, talvez um pouco. Mas funciona! A sua geladeira é um caos organizado em uma porta só, admita você também.
– É um ecossistema diversificado e autossustentável. O iogurte conversa com o queijo, que faz amizade com a sobra do almoço. É uma experiência comunitária. – É uma experiência, sem dúvida…
– Me conta da sua vida em Washington. Na prática, o que um funcionário do Congresso faz o dia inteiro? – A maior parte do tempo é filtrar e—mails que começam com “Prezados” e tentar decifrar letras miúdas de projetos de lei.
– E—mails? Bucky Barnes tem um e—mail e usa? Realmente estamos vivendo no mundo 3000. – Ontem, por exemplo, passei três horas numa reunião virtual discutindo a redação de um parágrafo sobre… regulamentação de fertilizantes usados em armas de apoio de proteção contra humanos—mutantes.
– Nossa. E você conseguiu ficar acordado? – Com dificuldade. E você? Como anda o mundo da… contadora? É isso que você é agora? Oficialmente?
– O mundo ficou bem mais chato sem meu cliente mais desafiador. – Sab… eu não sou tão ruim assim.
– Sem você, não tenho que preencher cinco formulários só para justificar um par de botas à prova de balas. A vida ficou… burocraticamente previsível. – Hmm, me sinto lisonjeado de ser lembrado como uma dor de cabeça contábil. Mas você acabou de admitir que sente falta do caos. Só um pouquinho.
– Eu sinto falta do cliente. Não do caos. – ...
– Pesei o clima? – Posso te contar uma coisa idiota? Às vezes, quando entro no elevador ou passo pelo corredor do prédio, fico achando que vou ver você entrando. Um hábito antigo da cabeça. É bobo.
– Não é bobo. – É. Pareço um idiota. Mas é que você tinha o péssimo hábito de aparecer do nada, sabe? Em momentos aleatórios. Enfim.. Sinto falta.
– De mim? – E do Eugene.
– Oi, Sabrina... Te acordei?
– Tá tudo bem. Aconteceu alguma coisa? – Eu só… precisava ouvir sua voz. Estou com... Saudades. É, acho que é isso. É bobo, eu sei. A gente se fala todo dia e, mesmo assim…
– Não é bobo, Bucky. Eu sinto a mesma coisa… Queria tanto que você estivesse aqui. Quando você volta? – Em uma semana… Preciso resolver umas coisas aqui. Ainda faltam sete dias.
– Sete… – Me conta como vai ser o seu dia amanhã…
– Humm, nada demais. É domingo. Provavelmente vou ver TV e ficar esperando sua ligação. – … Estou ligando demais?
– Eu fico brava quando você não liga...
Ele respirou fundo, uma vez, duas, antes de girar a chave na fechadura.
Nunca antes tinha sentido o coração acelerar para entrar em seu próprio apartamento. Mas sabia que Sabrina estava lá dentro.
Ela tinha pedido a chave para preparar um jantar quando soube que ele passaria o fim de ano em casa, longe de Washington.
Bucky esperava encontrar exageros: decorações de Ano Novo em cada superfície, balões, música alta demais. Talvez Elton e Sam esperando por ele com abraços estridentes, transformando o reencontro em um espetáculo, em algo grande e barulhento o suficiente para mascarar o silêncio que crescera entre eles.
Em vez disso, ao empurrar a porta e entrar, seu mundo se recolheu a um único ponto.
Era apenas Sabrina.
O cabelo dela estava diferente, uma cor mais quente, mais profunda, como se tivesse decidido amadurecer alguns tons desde a última vez que ele a viu. Eugene trotava animado pelo tapete, um ridículo e adorável laço de papel preso ao colarinho, enroscando—se nas próprias patas a cada volta como se estivesse orgulhoso demais da própria elegância improvisada.
Mas Bucky não viu mais nada.
Ele largou o que tinha nas mãos no exato segundo em que Sabrina fez o mesmo. Ela correu até ele e pulou em seu colo, braços ao redor do pescoço, pernas envolvendo sua cintura como se aquele espaço ainda fosse, instintivamente, dela.
E, naquela tarde tranquila, sem que ele soubesse dizer o momento exato em que a transição aconteceu, Bucky Barnes estava, inquestionavelmente, em casa.
– Isso conta como recaída? – Sabrina perguntou, sem se virar, enquanto arrumava alguma coisa na mesa.
– Recaída?
Ele se aproximou por trás e a envolveu com os braços. O gesto veio antes de qualquer raciocínio. E, pela maneira como ela puxou o braço dele e depositou um beijo leve ali, antes de voltar a atenção à mesa de centro espalhada pelo chão da sala, ficou claro que para ela também era assim.
– É – Sabrina sorriu, relaxando contra ele. – Todo casal de ex—namorados fica junto pelo menos mais uma vez depois do término. É tipo um rito de passagem emocional.
– Quem inventou essa regra? – Bucky apoiou o queixo no ombro dela e respirou fundo, passando o nariz pelo seu ombro.
– A vida. E estatísticas completamente científicas baseadas em experiências pessoais desastrosas. – Ela se virou lentamente dentro de seu abraço, o suficiente para que seus olhos se encontrassem.
– Eu achei que você ia trazer gente – Bucky comentou. – Balões. Música alta. O Sam fazendo um daqueles discursos.
– Considerei seriamente – admitiu, um canto da boca se erguendo. – Mas aí pensei… talvez você não precisasse de barulho, Bucky. Só precisasse de casa.
Seu polegar traçou um caminho lento e consciente pelo braço dela, sobre o tecido macio da blusa.
– E o cabelo? – perguntou, sua voz mais baixa, mais próxima do ouvido dela. – É novo.
– Gostou? – Ela ergueu uma sobrancelha, um desafio brincalhão nos olhos.
– Muito. – A resposta foi imediata, sincera. Ele estudou as mechas, a cor que parecia capturar a luz de uma forma diferente. – Uma cor só. Parece até estabilidade, Sabrina. Combina com você.
Ela riu, um som leve e verdadeiro, e negou com a cabeça.
– Pare por aí. Tentei copiar umas mechas que vi no Instagram, deu tudo errado, manchei metade do cabelo e tive que pintar tudo com uma cor só para disfarçar o desastre. – Ela encolheu os ombros, um gesto de resignação divertida. – Estabilidade improvisada, no máximo.
– Improvisada ou não, – ele murmurou, seu olhar fixo no dela – ficou perfeita.
O cheiro de comida tomava o ar. Algo reconfortante, caseiro, que não envolvia entrega por aplicativo ou refeições solitárias em seu apartamento de Washington.
– É só um estrogonofe – ela respondeu quando ele perguntou, soltando—se gentilmente de seu abraço para ir até a cozinha. Mas ela não se afastou completamente; sua mão escorregou da cintura dele para segurar sua mão, puxando—o suavemente junto. – Vem. Ajuda a tirar as coisas do forno. Seu metabolismo hiperativo vai ser útil.
Ele a seguiu, os dedos entrelaçados nos dela, Eugene trotando atrás deles como um guarda—costas fofinho e desastrado.
– E então? – Sabrina perguntou, cortando um pedaço de pão. – Congressman Barnes. Como é?
Ele hesitou, olhando para o alimento em seu prato. Como resumir meses de uma existência dividida, de discursos ensaiados e solidão silenciosa?
– É… estranho – admitiu, finalmente. – As pessoas falam muito. Gritam, às vezes. Discutem sobre coisas que parecem tão… pequenas, quando você já viu o que o verdadeiro caos faz. – Ele fez uma pausa, buscando as palavras. – E ao mesmo tempo, não são pequenas. São as regras do jogo. E eu estou tentando aprender a jogar sem… sem quebrar a mesa.
Sabrina ouviu, mastigando devagar. Ela não ofereceu soluções fáceis nem frases de incentivo clichês. Apenas ouviu, e naquele espaço de escuta atenta, Bucky sentiu algo dentro dele se desfazer.
– E você? – ele perguntou, inclinando levemente a cabeça. – Novos clientes problemáticos ou já cansou de salvar gente incompetente?
Sabrina soltou um sopro pelo nariz, quase um riso.
– Tenho tido mais clientes por fora do que os meus próprios chefes do escritório – Admitiu, girando a taça de vinho com falsa casualidade. – O boca a boca está forte. Tão forte que… bem. Isso tem chamado atenção. Talvez eu seja “convidada” a sair em breve.
Ele via a preocupação, apesar de também ver o orgulho, por ter se tornado boa o suficiente para incomodar.
– Eles seriam idiotas de te perder – disse, firme. – Mas se acontecer… você tem plano B?
Ela deu de ombros. Tentou parecer leve. Ele conhecia aquele movimento. Era o “não quero que você perceba que estou a dois passos de um colapso estratégico”.
– Eu sempre tenho um plano – respondeu, dando de ombros. – Plano B, C, D… talvez um E dramático. É o que fazemos, não é? A gente se prepara para o pior.
– E espera pelo melhor – ele completou, mais baixo.
A mão dele se moveu antes que ele decidisse. Deslizou pela mesa até encontrar a dela. Os dedos tocaram os dela como quem pede permissão sem usar palavras.
– Eu sinto sua falta. – Bucky Barnes não soube exatamente de onde tirou coragem para admitir. Talvez do vinho. Talvez do silêncio. Talvez dela.
Sabrina não desviou o olhar.
– Eu também sinto sua falta.
Ficaram se encarando por alguns segundos que pareceram mais longos do que deveriam. Avaliando, como se estivessem diante de uma porta invisível, decidindo juntos se valia a pena atravessá—la de novo.
Depois do jantar, ele estava jogando as louças na pia, distraído demais para organizar qualquer coisa de verdade, quando percebeu que ela tinha parado de arrumar a mesa.
– Eu fiz cookies para a sobremesa. Estão no forno. Devem estar quase prontos.
Ela se levantou e caminhou até o forno, e ele a seguiu quase sem perceber, como se fosse instinto acompanhar o movimento dela pela casa. Como se aquele trajeto já estivesse memorizado no corpo.
Ela se abaixou para espiar pelo vidro do forno, concentrada, mordendo levemente o lábio inferior daquele jeito que sempre fazia quando estava esperando algo dar certo. Um leve choque percorreu seu corpo quando suas nádegas roçaram nele. Ele estava muito perto.
Bucky prendeu a respiração, suas mãos, quase por vontade própria, encontraram os quadris dela, as palmas se moldando à curva familiar através do tecido.
– Cookies, hein? – Ele forçou a voz, tentando manter o tom leve, mas soando rouco, carregado. – Você está me mimando, Sabrina.
– Alguém tem que fazer isso – respondeu, virando a cabeça para olhá—lo por cima do ombro. Seu sorriso era terno, mas seus olhos estavam escuros, com um brilho que ele conhecia bem. – E eu tenho a impressão de que Washington não está exatamente cheia de cookies caseiros.
Ele riu, um som baixo e rouco que morreu na garganta quando ela se endireitou, seu corpo se encaixando perfeitamente contra o dele. Então ele se inclinou, descansando a testa contra a dela, fechando os olhos. Ambos suspiraram, uma libertação coletiva de meses de distância, saudade e palavras não ditas.
– O timer apita em um minuto – ela avisou.
– Se queimarem, a gente chama de cookie artesanal.
Bucky Barnes se aproximou sem pressa, o nariz roçando de leve no dela antes que seus lábios se encontrassem. O sorriso de Sabrina ainda estava ali quando o beijo começou. O beijo se aprofundou com rapidez, carregado por meses de silêncio e por uma ausência que nunca fora realmente preenchida. Sabrina deixou escapar um som baixo contra a boca dele, as mãos subindo para o rosto de Bucky, os dedos tremendo levemente antes de se firmarem. Então desceram, decididas, agarrando a gola da camisa dele e puxando—o para perto com uma força que dispensava qualquer dúvida.
Ele se afastou só o suficiente para respirar, a testa ainda apoiada na dela, os olhos escuros denunciando a batalha interna.
– Me peça para parar… – pediu, a voz quase falhando. – Agora. Antes que eu não consiga.
Era uma saída oferecida por honra, não por desejo.
– Você quer mesmo que eu peça? – Sabrina ergueu o olhar, os lábios inchados, quentes. Ela o puxou mais para perto, eliminando qualquer espaço restante, e inclinou—se para sussurrar junto ao ouvido dele: – Ex—namorados precisam de recaídas, Bucky. É a lei…
Foi tudo o que ele precisava ouvir.
Com um som entre um suspiro aliviado e um gemido contido, Bucky a ergueu do chão, os lábios encontrando os dela novamente, agora sem freios, sem espaço para hesitação.
O apito agudo do timer cortou o ar da cozinha, insistente, anunciando que os cookies estavam prontos.
Sabrina podia jurar que havia pássaros azuis acompanhando seus passos na rua. O sol da manhã parecia mais dourado, o ar de Brooklyn mais fresco. Tudo isso porque, naquela manhã, ela havia acordado ao lado de Bucky Barnes.
Com o peso de seu braço metálico sobre sua cintura, a respiração profunda e regular dele contra suas costas, o mundo, por algumas horas, havia se recolhido aos limites daquele quarto, àquele cheiro misturado, à paz absurda e completa que só aquele homem – aquele homem específico, complicado e familiar – poderia lhe dar.
Agora, dentro da cafeteria do bairro, o mundo exterior parecia ter se realinhado em cores mais vibrantes. Ela percorreu o cardápio com um olhar rápido, mais por hábito do que por necessidade de escolher algo diferente.
– Bom dia, Sabrina! – A voz animada de Taylor, a atendente, cortou seu devaneio. A jovem sorria, os olhos curiosos pois Sabrina raramente pedia dois cafés. – O mesmo de sempre?
– Oi, Tay. Sim, o mesmo – ela confirmou, e então acrescentou, tentando soar casual e falhando miseravelmente pelo brilho nos olhos: – Só adiciona um café preto. Sem açúcar. Só preto mesmo.
Um sorriso de cumplicidade, quente e sem julgamento, surgiu no rosto da atendente.
– Claro. Um latte e um preto, sem açúcar. – Ela repetiu, digitando no terminal. Sua voz baixou um tom, num sussurro. – Parece que alguém teve uma boa noite. – Sabrina riu, um som leve e verdadeiro, e não respondeu. Não precisava. – Eu reconheço o visual. Nos outros, claro. Em mim é uma lástima – Taylor brincou, revirando os olhos com teatralidade.
– Não fala assim, Tay. Você vive tendo encontros – Sabrina contra—atacou.
– Ah, uns desastres ambulantes. Um ou outro que se salva… como aquele seu vizinho, por exemplo.
– Elton? – Sabrina arqueou uma sobrancelha, genuinamente intrigada. – Você saiu com o Elton?
– Não! Deus me livre. Elton é o loiro que vive pegando minhas caixas de papelão vazias para “projetos artísticos”? Não, outro… James.
O nome caiu no ar entre elas como uma pedra. O sorriso congelou no rosto de Sabrina, não desaparecendo completamente, mas tornando—se estático, como uma foto mal tirada.
– James… Barnes? – ela perguntou, a voz um pouco mais plana do que um segundo antes. – Você teve um encontro com o…
– Ah, foi! Tem um tempinho, um ou dois meses. Foi… divertido, eu acho. Embora o cara mal tenha aberto a boca. Mais quieto que uma porta fechada. Mas tinha um charme, sabe?
– Ah, jura?
A voz de Sabrina saiu suave, leve. Quem não a conhecesse – como Taylor, que a via apenas na fila do café – pensaria que aquele era um sorriso de cumplicidade, de alguém compartilhando a fofoca do bairro.
Mas não era.
Era um sorriso enferrujado. Um mecanismo de defesa que se ativou com um rangido seco. Por dentro, uma série de imagens disparou, nítidas e cortantes: Bucky, na cozinha dela, segurando sua mão sob a mesa. Bucky, na cama naquela mesma manhã, o rosto relaxado no sono de um jeito que ela só tinha visto umas poucas vezes. Bucky, pedindo um café preto, sem açúcar.
O mesmo homem que, segundo a atendente, tinha saído para um “encontro divertido” algumas semanas atrás, enquanto Sabrina contava as horas entre mensagens curtas e tentava convencer a si mesma de que a distância dele era nobre.
Taylor, alheia ao terremoto interno que acabara de desencadear, terminou de preparar os cafés com um floreado.
– Prontinho! Um latte e um preto. – Ela entregou a sacola com um sorrisão. – Aproveita, Sab.
– Obrigada, Tay – Sabrina respondeu, o sorriso enferrujado ainda grudado no rosto. Ela pegou a sacola, a sensação do papelão quente agora completamente diferente.
Ela saiu da cafeteria, o sol já não parecia tão dourado e os pássaros azuis haviam sumido.
Bucky desviou do sapato, que acertou a parede atrás dele com um baque seco. Um objeto banal, carregando toda a raiva que Sabrina não conseguia mais conter. Ele passou a mão pelos cabelos, puxando o ar pelo nariz.
– Ei, ei… – A voz saiu mais controlada do que ele se sentia por dentro. – Para de jogar coisas, ok? A gente pode conversar. Com palavras. Aquilo não foi um encontro. De verdade.
Sabrina cruzou os braços, o peito subindo e descendo rápido demais. Havia um brilho úmido e perigoso em seus olhos, aquele que antecede o choro ou a explosão.
– Ah, claro! Porque sair para jantar e passar horas com uma mulher que claramente queria você não configura encontro. É o quê, então? Trabalho de campo? Um estudo sociológico sobre a vida noturna do Brooklyn?
– Foi… uma distração. Uma noite. Uma tentativa idiota de ver se eu conseguia ser normal.
– E conseguiu? – ela rebateu, sem hesitar. – Se sentiu normal enquanto eu tentava respeitar o seu espaço, o seu “processo”? Enquanto você estava a dez quadras daqui, sendo normal com a Taylor da cafeteria?
Ele estendeu a mão num gesto automático de apaziguamento. Sabrina recuou na hora, como se o toque queimasse.
– Sabrina, por favor. Mal consegui formar frases completas. Foi um desastre. Foi… patético.
– E isso era para me consolar?
A imagem dele deslocado, miserável num quase—encontro, não a acalmava. Só tornava tudo pior.
– Sab…
– Não – ela o cortou, a mão erguida como uma lâmina. – Dois meses atrás você terminou comigo porque “não sabia quem era”. Porque “precisava de espaço”. E agora eu descubro que esse espaço incluía sair com outras pessoas?
– Não foi um encontro! – A voz dele finalmente subiu, rasgada pela frustração. O som fez Eugene se encolher no canto. – Eu só fui comprar café tarde da noite! Ela estava fechando, me chamou para sentar um pouco e… eu fui. Só isso. Um momento de fraqueza, não um plano. – Ele respirou fundo, forçando o controle de volta. – Não existe mais ninguém, Sabrina. Só existe você.
Sabrina balançou a cabeça, os olhos marejados, mas o olhar firme, preso ao dele como uma âncora.
– Você me pediu confiança, disse que se eu fosse paciente tudo ia se ajeitar. E eu fiquei. – A voz tremeu, mas não quebrou. – Enquanto isso, o que eu era? A ex compreensiva? A opção que você guarda para quando cansar de se sentir perdido?
– Eu nunca te tratei como opção! – ele respondeu num impulso bruto. – Eu estava tentando… eu estava tentando te proteger.
– De quê? De você mesmo? Da sua incapacidade de ficar? Dessa sua mania de achar que sofrer sozinho é mais nobre?
– Eu não sei fazer isso direito, Sabrina – disse por fim, exausto. – Nunca soube. Mas eu juro… nunca teve mais ninguém. Nem perto.
– Não é sobre ter outra pessoa, Bucky. Nunca foi. – As palavras saíram firmes, mesmo doendo. – É sobre você nunca me escolher em voz alta. Você me pediu para esperar. Eu esperei. Pediu paciência. Eu tive. E agora… isso?
– Sabrina, a Taylor… – Ele tentou, a voz um fio de resistência em um argumento que já estava perdido.
– Isso não é mais sobre ela! – O grito dela não foi alto, foi cortante, carregando um desapontamento que ia muito além de um simples ciúme. – É sobre você me fazer sentir a maior idiota do mundo. A prioridade é sempre outra, Bucky! É a Taylor, é o Congresso, é uma missão, é até o Eugene… mas nunca sou eu.
Bucky sentiu o chão ceder sob seus pés, uma vertigem súbita de compreensão e desespero. Não se tratava mais de um desentendimento sobre um suposto encontro. Era sobre a estrutura inteira de confiança que ele, com suas ações silenciosas e suas omissões convenientes, havia minado tijolo por tijolo.
E o pior – a parte que o estrangulou por dentro – era que ele via, com uma clareza dolorosa e absoluta, que ela estava certa. O problema agora não era admitir a culpa. Era que ele não fazia a menor ideia de como consertar o que havia quebrado.
Sabrina não esperou por uma resposta. Ela viu a confusão, o arrependimento genuíno e a completa falta de um caminho à frente em seus olhos, e isso, de alguma forma, doía mais do que qualquer desculpa furada. Ela sacudiu a cabeça, um gesto lento de cansaço, como se a fúria tivesse evaporado e deixado apenas um resíduo de profunda exaustão.
Voltar para Washington com Sabrina ainda viva na memória – mas ausente em todos os outros sentidos – foi quase tão irreal quanto caminhar por Nova York logo após o Blip.
Ela estava em tudo: no copo que ele pegava automaticamente em duplicidade, no lado esquerdo da cama que permanecia intocado...
Sabrina não tinha sido arrancada dele por guerra, explosão ou destino cruel. Não tinha desaparecido no caos nem sido reduzida a pó por uma luva infinita. Ela tinha escolhido ir embora. Virou as costas com uma dignidade silenciosa que deixou a raiva dele sem alvo e o arrependimento sem onde pousar.
Pela primeira vez, não era o mundo que tinha tirado alguém dele. Era ele mesmo.
Foi numa quarta—feira qualquer que o universo resolveu mover as peças. Sam Wilson precisava de um lugar que não constasse em registro nenhum. Nada ligado a ele, ao Capitão América, a missões ou relatórios. Um espaço que fosse apenas… comum. Dentro do possível.
Foi assim que ele acabou no apartamento de Bucky Barnes, no Brooklyn.
Mas Sam tinha sido seguido e o prédio residencial, até então anônimo, virou alvo em questão de horas.
A notícia alcançou Bucky em Washington, não por canais oficiais, nem por alertas criptografados. Veio num telefonema truncado, a voz nervosa de um contato do locador falando demais e esclarecendo quase nada.
O prédio fora parcialmente evacuado. “Falha estrutural induzida”, segundo um relatório preliminar que já circulava por baixo dos panos. Dois andares atingidos. Feridos leves. Alguns apartamentos… destruídos. A mente de Bucky, treinada para imaginar o pior antes mesmo que ele respirasse, completou a imagem.
Sabrina.
– Você não precisa ir pessoalmente – disse o assessor do outro lado da linha, num tom tão profissional que soava quase mecânico. – A situação está sob controle. As equipes já estão no local.
– Eu sei.
– Então por que…?
Ele não deixou a pergunta terminar. Já puxava o zíper da mochila tática que nunca ficava longe demais.
– Porque a minha namorada mora lá.
Do outro lado, o assessor demorou um segundo a responder, como se estivesse recalculando alguma coisa.
– Senhor, com todo respeito, justamente por isso talvez seja melhor que o senhor não...
Bucky já estava atravessando o apartamento enquanto ele falava. Pegou as chaves da mesa, desligou o celular e empurrou a porta com o quadril.
A viagem até New York City foi um borrão. Bucky não registrou o trânsito, o aeroporto, os anúncios nos alto—falantes ou os rostos ao redor. Quando chegou, o cenário estava montado. Seu prédio estava enfaixado em fitas amarelas de isolamento, iluminado pelas luzes azuis e vermelhas de viaturas.
Ele respirou fundo e digitou uma mensagem rápida para um contato, exigindo a localização de Sam, queria saber se ele precisaria se preparar para alguma luta. Apesar de que não sairia dali enquanto não a visse.
Sem esperar resposta, estacionou atrás de uma viatura. Um oficial tentou barrá—lo com um gesto firme, mas ele apenas passou pela fita amarela sem olhar para trás.
O saguão estava inundado por holofotes. Moradores se amontoavam em cobertores térmicos, olhos perdidos entre o choque e a confusão. Bucky varreu o grupo com o olhar, rápido, metódico. Procurando um único rosto.
O cheiro de poeira, fiação queimada e algo metálico ainda pairava no ar. Um paramédico tentou interceptá—lo com perguntas automáticas, mas Bucky já estava avançando, desviando dos escombros que bloqueavam parcialmente o elevador. A porta do apartamento no final do sexto andar simplesmente não existia mais.
O sofá estava virado, esmagado sob pedaços de concreto. O mesmo sofá onde tinham rido. Onde Eugene costumava dormir enroscado. A mesa de centro era apenas madeira partida. Vidro estilhaçado refletia a luz em pontos cortantes.
O mundo pareceu inclinar por um segundo.
– Ela não estava aqui. – A voz veio de trás dele. Bucky se virou tão rápido que o policial deu um passo para trás, as mãos subindo instintivamente num gesto de cautela. – A moradora não estava no apartamento no momento do ataque. – O oficial repetiu, medindo cada palavra.
– Onde ela está?
– Foi levada para avaliação pelos paramédicos. Está aguardando na rua, na área isolada. – Ele passou pelo policial sem pedir permissão.
Sabrina estava sentada no meio—fio do outro lado da rua, um cobertor térmico prateado frouxamente apoiado sobre os ombros. O olhar perdido, fixo no buraco escuro e fumegante que antes era a janela do sexto andar.
O mundo pareceu desacelerar quando ele a viu.
Ela devia ter pedido para entrar em casa. Bucky conseguiu captar apenas fragmentos da resposta do policial, as palavras chegando até ele quebradas, levadas pelo vento frio da noite.
– …infelizmente não, senhorita… – A voz dizia, abafada pela distância. – …ainda está sendo periciado… podemos providenciar acomodações alternativas…
Sabrina deixou escapar um suspiro longo, pesado, que não era exatamente choro, era pura exaustão. Seus olhos se perderam no chão, enquanto os dedos afundavam no pelo de Eugene, encolhido nos braços dela como um bebê amedrontado.
Ela ergueu a cabeça lentamente, e por um instante seus olhos encontraram os dele. Foi um olhar rápido, carregado de alívio, cansaço, a estranha paz de ter alguém ali. Ambos suspiraram ao mesmo tempo.
Elton se aproximou em silêncio, primeiro tocando levemente o ombro de Bucky, um gesto firme e quase protetor, antes de se ajoelhar diante de Sabrina. Com cuidado, ele se colocou entre ela e o policial, formando uma barreira delicada de segurança e atenção.
– Não se preocupe com nada disso, querida – disse, a voz firme, mas carregada de calor. – Nós vamos cuidar de tudo. A empresa tem protocolos. Vamos ter nossa casa de volta.
Sabrina assentiu devagar, como se a exaustão tivesse drenado cada gota de energia. Colegas do prédio começaram a se aproximar. Palavras baixas, quase sussurros de conforto, formavam uma rede silenciosa de apoio. Ao redor, a tristeza coletiva dos vizinhos pairava no ar como uma névoa densa, uma lembrança de tudo que fora perdido, mas também de que ali, naquele momento, ninguém estava realmente sozinho.
Bucky parou diante dela, estendendo a mão com calma e precisão.
– Vamos – disse, baixo, mas carregado de comando e cuidado. – Vamos te tirar daqui.
Os dedos dela apertaram por um instante o pelo de Eugene antes de levantar. Bucky pegou a bolsa que estava aos pés dela sem pedir permissão, passando o braço por cima dos ombros dela com delicadeza.
Dentro do carro, o silêncio reinou absoluto até que a porta se fechou, selando—os em uma bolha de ar—condicionado, calor humano e uma segurança relativa. Então, finalmente, ela desabou.
Um tremor começou em seus ombros e se espalhou por todo seu corpo. Ela virou o rosto e o enterrou no peito dele, um movimento instintivo de busca por abrigo. Bucky a envolveu sem hesitar.
– Me desculpa. – A voz dela saiu presa, afogada entre soluços e o tecido da camisa dele. – Eu… estou bem… juro que estou… é que… eu fiquei com tanto medo.
– Não. – Ele a apertou mais forte, envolvendo—a com cuidado, firmeza. – Não peça desculpa. Você não precisa se desculpar por sentir medo.
Bucky se afastou apenas o suficiente para encará—la. Seus olhos percorreram cada detalhe do rosto dela. As pálpebras inchadas, o vermelho nos cantos dos olhos, o modo como ela apertava Eugene contra o peito, quase como uma criança agarrando seu bicho de pelúcia depois de um pesadelo. Com delicadeza extrema, ele passou o polegar pela bochecha dela, limpando a trilha de lágrimas e poeira que ainda insistia em permanecer.
– Eu teria atravessado qualquer coisa para chegar até você hoje — ele assegurou. – Qualquer barreira, qualquer explosão, qualquer coisa. Não existe nada que eu não faria por você. Sabe disso, não sabe?
Ela riu fraco, um riso que saiu quebrado, misturado com soluço e assentiu.
– Você estava ocupado salvando o mundo em Washington – murmurou, baixinho.
– Eu teria matado eles, Sabrina. – A afirmação saiu sem exageros, sem bravata, apenas carregada da certeza absoluta de um homem que conhecia seus limites e sabia que os ultrapassaria sem pensar se ela estivesse ferida. – Se alguém tivesse encostado um dedo em você…
Bucky encostou a testa na dela. Ficou assim por um tempo, só sentindo o calor do rosto dela perto do dele, a respiração quente batendo na boca dele. Ela não respondeu com palavra. Só deixou o corpo pesar contra o dele, finalmente, como se ali – e só ali – o mundo encaixasse no lugar certo.
Mais tarde, longe do caos, em um refúgio seguro que Bucky havia conseguido com alguns telefonemas silenciosos, ele a guiou até a cama. Deitou—se ao lado dela sem se preocupar em tirar o jeans ou a jaqueta, envolvendo—a com um braço como se pudesse impedir que o mundo a alcançasse. A mão dele firmemente apoiada na cintura dela mantinha—a presa contra ele, segura, como se soltar aquele abraço significasse permitir que os fantasmas do dia a alcançassem.
Sabrina adormeceu assim, finalmente segura, seu rosto afundando contra o peito dele.
Bucky permaneceu acordado, por horas, os olhos fixos no teto escuro. Sentia a elevação e queda da respiração dela contra seu corpo, cada suspiro dela uma âncora que o mantinha presente, desperto, mas em paz.
E, no silêncio do quarto, ele se pegou pensando na lista. Naquela lista invisível que ele mantinha desde sempre. Todas as razões pelas quais ele era perigoso demais, todas as falhas, todos os riscos, todos os motivos para se afastar.
Ele apertou o braço em volta do corpo dela, devagar, com cuidado para não acordar. E deixou o pensamento terminar sozinho, sem alarde, sem discurso: O medo de machucar ela ainda existia. Entretanto, o medo de não estar com ela era maior.
O prédio havia sido liberado para os moradores, exceto para os do sexto andar. Foi assim que Sabrina acabou passando alguns dias no apartamento de Bucky. O que começou como provisório foi se estendendo.
Os primeiros dias foram silenciosos. Não um silêncio incômodo, mas contido. Ela se movia com cuidado de visita, em um esforço visível em não ocupar espaço demais.
Aos poucos, pequenos rituais domésticos se estabeleceram. Ele preparava café antes que o dia clareasse. Ela se perdia em pensamentos e esquecia de comer; ele passou a deixar frutas já descascadas ou um sanduíche embrulhado sobre a bancada, sem dizer uma palavra. À noite, sentavam—se em pontas opostas do sofá, dividindo um cobertores sobre os joelhos e deixavam a TV ligada em qualquer coisa – documentários sobre a natureza, reprises antigas – apenas para que vozes alheias preenchessem o silêncio que ainda não tinham voltado compartilhar.
Foram dias simples, quase banais. Mas, de algum modo, o eixo do mundo deles mudou.
Bucky ficou.
Quando o assessor ligou, com aquela voz pragmática e sempre organizada, perguntando sobre prazos, agenda no Congresso, e quando ele voltaria a Washington, a resposta foi tranquila, quase sem esforço: – Ainda não.
Alguns dias antes, ele fez uma compra rápida e discreta pela internet. Não disse nada. Apenas apagou o e—mail de confirmação quando chegou, como se tivesse guardado mais um segredo só para ele.
Sabrina voltava do trabalho, os passos leves, com uma leveza que parecia vir de dentro, de algum lugar que o caos dos últimos dias não havia conseguido tocar. O telefone vibrou. Era uma mensagem do locador:
"Olá, Sra. Sabrina. As obras de reparo estrutural foram concluídas e a vistoria final aprovada. O apartamento está liberado para retomada de posse quando desejar." Ela sorriu, e com o coração acelerado, quase sem conseguir conter a energia, subiu as escadas do prédio de Bucky dois degraus de cada vez, o pensamento fixo apenas em compartilhar a notícia.
Quando chegou à porta, destrancou—a – agora tinha uma chave própria – e a empurrou. E parou.
Bucky estava agachado no chão da sala, imóvel na luz fraca da tarde. Diante dele, o manual de instruções jazia aberto. Entre seus dedos firmes e ainda sujos de pó, segurava a última perna.
Uma mesa nova.
A memória da antiga mesa invadiu—a: o riso contido antes do tombo, o estalo seco da madeira quebrando, a queda desengonçada, os dois no chão, ofegantes, rindo.
As outras três pernas já estavam firmemente ancoradas. Ele rosqueava a última com precisão quase cirúrgica, a língua pressionando levemente o interior da bochecha, os músculos dos ombros e braços tensionados em concentração.
Eugene disparou como um foguete felpudo em direção a Sabrina, mas ela mal percebeu. Seus olhos estavam fixos em Bucky.
Ele apenas girou a cabeça, devagar, natural. Sustentou o olhar pelo tempo exato para que ela entendesse, então voltou à mesa, apertando o parafuso final com firmeza resoluta.
Ela sorriu suavemente, não precisou perguntar. Ele não precisou explicar.
– Pronto. – A mão deu o último giro decisivo na chave de fenda. Ele deslizou a ferramenta para o lado e, com as duas mãos, testou a estabilidade da mesa. Empurrou—a suavemente, primeiro de um lado, depois do outro.
– É bonita – wla murmurou, se aproximando quase tímida.
– É forte.
Ela estendeu a mão, não para a mesa, mas para a dele, ainda apoiada ali. Seus dedos limpos se entrelaçaram aos dele, ásperos e empoeirados. Ele inclinou a cabeça e beijou de leve a testa dela. Quando se afastou, ainda olhando para ela, percebeu um pequeno brilho de humor surgindo em seus olhos.
– Sem sexo em cima dela por pelo menos um ano, ok? – ela brincou e ele riu baixinho, um som raro e precioso, apertando a mão dela contra a madeira.
– Combinado. – Acenou com a cabeça, compreensivo, e a puxou suavemente para sentar—se em seu colo.
Sabrina se acomodou, apoiando a cabeça na curva do ombro dele, sentindo o calor firme e seguro do corpo dele contra o seu.
– Ia contar uma coisa – ela murmurou, os olhos fixos na mesa à frente. – Sobre meu apartamento. Consegui a liberação. Posso voltar quando quiser.
Ele não respondeu de imediato. Um suspiro profundo escapou de seu peito e os dedos dele traçaram círculos distraídos no quadril dela.
– E você quer? – A voz saiu baixa, quase hesitante, mas carregada de expectativa, como se cada sílaba precisasse de permissão para existir.
– Acho que quero… quero que a gente decida juntos.
– Juntos – ele repetiu, saboreando a palavra como se fosse a primeira vez. – Combinado.
O apartamento parecia diferente agora, mais leve, mais arejado, como se o ar tivesse encontrado novamente seus caminhos. Mesmo com a noite começando a escurecer as janelas, tudo parecia mais claro.
– Vamos pedir comida, – ela sugeriu, os dedos subindo para acariciar os fios curtos na nuca dele. – E você vai me contar como aprendeu a montar móveis sem explodir nada.
– Não foi fácil. Perdi um parafuso no caminho.
– E agora? Onde ele está? – Ela inclinou a cabeça, curiosa, sobrancelha arqueada.
– No estômago do Eugene, provavelmente.
– O quê? – Ela endireitou o tronco, o encarando.
– Brincadeira. – Ele virou a cabeça para o beagle, que apenas roncava como se confirmasse a história, e franziu o cenho. – Eu acho… – Murmurou, sem muita convicção.
– James. – Ela cruzou os braços, olhando para ele.
– Ele está vivo, roncando e provavelmente sonhando com comida. Então, ou não comeu, ou tem um estômago de ferro.
– Ou amanhã descobrimos que precisamos de um veterinário e uma cirurgia de emergência.
– Aí você usa aquele desconto que conseguiu no plano de saúde pet para gente pagar.
– Quer que eu use minha habilidade de negociação? – Ela revirou os olhos, mas as mãos subiram para apoiar—se nos ombros dele.
– Sua habilidade de negociação, suas planilhas, seu jeito de falar com atendentes que faz milagres… – ele enumerou cada item com pequenos beijos: na testa, na ponta do nariz, um rápido e roubado nos lábios. – Tudo isso. Você.
– Se o Eugene tiver uma parada cardíaca no meio da noite, você também terá. – Ela ameaçou, brincando. Ou quase.
– Justo.
Eugene, completamente alheio ao papel de protagonista que lhe atribuíram, apenas mudou de posição no sofá, um suspiro profundo escapando do focinho, e voltou a roncar.
Mais tarde, o jantar tinha migrado para o chão da sala. Containers de comida estavam espalhados pelo tapete, e Eugene – que até poucos minutos antes dormia profundamente – agora estava milagrosamente desperto e sentado bem no meio deles. Porque, claro, cachorro sempre sabe quando há comida envolvida.
Sabrina assistia Bucky lutar contra os hashis com uma concentração quase comovente, enquanto ele narrava, cheio de gestos e dramatização, a saga de duas horas e meia que tinha sido sua ida à loja de móveis.
– …aí a senhora virou pra mim e disse: “Moço, se vai montar sozinho, pelo menos leva um criado—mudo combinando. Senão vai ficar feio.” – Ele imitou o tom da funcionária com indignação teatral. – E eu respondi: “Minha namorada é contadora. Ela não me deixa gastar por impulso.”
Sabrina gargalhou, jogando a cabeça para trás. O riso veio alto, livre, enchendo a sala de um jeito que fazia tudo parecer mais leve.
Bucky a observou em silêncio, um meio sorriso curvando os lábios. Havia algo profundamente satisfatório em vê—la assim. No fim das contas, nada realmente competia com aquilo. Nem o caos cotidiano, nem mesas quebradas, nem os dias difíceis que insistiam em aparecer de vez em quando.
Estar ali com ela sempre bastava.
Apenas os dois, sentados no chão da sala, cercados por caixas de comida vazias, a sensação tranquila de que, finalmente, tudo estava no lugar certo. E um beagle acima do peso, com tendências homossexuais bastante evidentes, correndo em círculos ao redor deles como se também tivesse algo a celebrar.
FIM!
Nota da autora: Eu sabia que não ia conseguir nunca mais escrever sobre esses dois kkkk nem eu acreditei em mim mesma quando disse que não teria continuação
A verdade é que, enquanto Sabrina Carpenter continuar lançando álbuns – e sendo homenageada nos versefics – Sabrina e Bucky tbm estarão! 💛
A verdade é que, enquanto Sabrina Carpenter continuar lançando álbuns – e sendo homenageada nos versefics – Sabrina e Bucky tbm estarão! 💛