06. Forever

Autora Independente do Cosmos ✨
Concluída ✅


parte um

— no regrets, is what we said
we can't go back again


Fechei a porta do meu apartamento, assim que entrou. Era um lugar espaçoso o bastante apenas para mim, mas naquele momento, eu agradeci ter um quarto sobrando. Seria melhor ele dormir no conforto de uma cama, do que estar espalhado pelo sofá — que eu já testei não ser nenhum pouco confortável. Acendi as luzes e joguei as chaves em um frasco vazio na escrivaninha pequena, que ficava bem do lado da porta. Sem jeito, observei colocar a sua bolsa em cima do sofá. Nós tínhamos passado em seu apartamento, apenas para que ele pudesse pegar algumas roupas, sem saber exatamente quanto tempo ele ficaria ali na cidade.
Eu esperava que fosse pouco.
— É um lugar bem… — ele tentou dizer, olhando ao redor.
O espaço da sala era ligado à cozinha, tornando as duas uma coisa só. Havia um pequeno corredor que levava a três portas: os dois quartos e um banheiro. Tinha sido o melhor apartamento que eu pude comprar com o dinheiro da divisão de bens do divórcio.
— Você não pode ir assim amanhã — interrompi-o, avisando.
olhou para mim, a expressão confusa.
— Assim como?
Apontei para ele inteiro, como se fosse óbvio. Tirei os saltos dos meus pés, deixando os sapatos perto da escrivaninha e aproveitei para também tirar o meu sobretudo, revelando o vestido preto que eu usava por baixo.
— Parecendo que está bêbado o tempo todo — expliquei.
Por incrível que pareça, ele riu. Meu coração acelerou ao som da sua risada, uma coisa que eu jamais pensei que fosse ter o prazer de ouvir novamente.
— Tecnicamente, eu estou — ele disse.
Revirei os olhos, caminhando até a cozinha, somente para beber um copo de água. Algum ser cósmico devia estar gostando muito de me castigar no momento.
— Você precisa fazer a barba e os fios do seu cabelo precisam ser aparados — comentei.
— O que você sugere?
Terminei de beber o copo de água e encarei ele por um momento, tomando uma decisão.
— Venha — chamei.
Não olhei para saber se ele estava me seguindo, mas andei pelo corredor até a primeira porta e abri-a. O banheiro não era muito espaçoso, mas era grande o suficiente para caber duas pessoas dentro, então entrei e apareceu logo atrás de mim, parando na porta. Ele não disse nada, me observando em total silêncio, enquanto eu pegava um barbeador e creme de barbear, além de uma tesoura pequena.
— Entre — pedi.
hesitou um pouco, mas acabou entrando. De costas para a pia, tomei impulso com as mãos e me sentei em cima, fazendo com que ele ficasse de frente para mim, quase no meio das minhas pernas. Era uma coisa muito íntima, pensei, o que eu estava prestes a fazer, mas engoli a seco e afastei os pensamentos. Podíamos estar separados há pouco mais de dois anos, mas antes disso, tivemos anos de intimidade. Uma coisa tão intensa daquela maneira não era jogada fora do dia para a noite.
— Você vai mesmo fazer isso? — ele indagou.
— Talvez se você calar a boca — respondi.
Ele umedeceu os lábios e me obedeceu, calando a boca. Respirei fundo, tentando manter a concentração no que eu tinha que fazer, e não no fato dele estar tão próximo de mim daquela maneira. tentou manter os braços cruzados, mas acabou colocando as mãos uma de cada lado da pia, perto da minha perna. Prendi a respiração e soltei segundos depois, sentindo os seus olhos em mim quando comecei a passar o creme na área de sua barba mal feita.
— É estranho que você esteja preparada para barbear alguém — ele murmurou.
Mordi a parte interna da minha bochecha.
— Era do Ethan — expliquei, dando de ombros, evitando encarar os seus olhos.
Resolvi que eu não tiraria a barba dele. Só ajeitaria o que ele tinha deixado mal feito e apararia as pontas do seu cabelo, apenas o suficiente para deixá-lo com um ar mais profissional e apresentável. Do jeito que estava agora, parecia alguém que sempre estava à beira do fundo do poço.
— E quem é Ethan? — insistiu.
Não era algo que eu queria falar com o meu ex-marido, mas eu também sabia que ele não desistiria enquanto não tivesse as respostas que estava procurando. Comecei a trabalhar na sua barba, deixando-a mais apresentável, me concentrando mais naquela tarefa, do que em responder às suas perguntas. Eu tinha pedido que ele calasse a boca, era uma tarefa tão difícil?
— Ninguém — murmurei.
Ethan tinha sido um cara que eu me envolvi temporariamente, até perceber que não estava dando certo. Eu não me sentia preparada para apostar em um novo relacionamento, então terminei com ele antes que as coisas começassem a ficar sérias e ele achasse que nós tínhamos algum futuro. A única coisa séria que eu tinha para levar no momento, era o meu trabalho.
Entendendo o meu recado, não perguntou mais nada. Pelo restante do tempo, ele ficou totalmente em silêncio, deixando que eu completasse a tarefa em paz.
Quando terminei o seu cabelo, comecei a limpar o creme do seu rosto.
— Pronto — avisei, apontando para o espelho bem atrás dele, do outro lado. Ele se virou o suficiente para olhar a própria aparência e assentiu, sem dizer sequer uma palavra. Eu queria descer da pia, mas ele estava dificultando o meu caminho, então esperei.
— Obrigado.
Acenei com a cabeça, aceitando o seu agradecimento, esperando que ele saísse, mas continuou ali, as duas mãos em cada lado do meu corpo, seus olhos fixados em mim.
? — sussurrei, confusa.
Notei que ele tinha engolido a seco.
— Sinto sua falta, — confessou, a voz tão baixa que quase falhou.
Devia ter custado um pouco ele me dizer aquilo. Senti vontade de chorar, mas controlei a minha expressão.
— Sem arrependimentos, — falei, umedecendo os meus lábios. — Foi o que dissemos, lembra?
Meus olhos lacrimejaram. Levei a minha mão até o rosto dele e o ofereci um sorriso triste e exausto, beijando a pele da sua bochecha devagar. Meio atordoado, se afastou, me dando espaço. Eu finalmente desci da pia.
— Seu quarto é o da porta esquerda — avisei.
Saí do banheiro, deixando-o sozinho e fui para o meu quarto, trancando a porta. E desabei em um choro silencioso, torcendo para que ele não percebesse nada, porque, mais do que tudo, eu também sentia a sua falta.

07:11am


Seria uma mentira sem tamanho dizer que eu tinha tido uma boa noite de sono. Fiquei me revirando a noite toda na cama, depois de ter me acalmado da crise de choro, lembrando o tempo todo que estava a uma porta de distância, bem no quarto ao lado. Tive poucos intervalos de sono e fiquei aliviada quando o despertador tocou para o trabalho. Olhando pela última vez no espelho, vesti o casaco por cima da camisa, calçando os saltos pretos. Abri a porta do quarto, me assustando ao encontrar parado ali, com a mão suspensa no ar, prestes a bater na porta. Ele abaixou a mão quando percebeu que não precisaria bater mais e umedeceu os lábios.
— Fiz o café da manhã — anunciou, apontando para a cozinha e eu senti o cheiro de queijo e manteiga.
Não respondi imediatamente, notando que ele estava muito bem vestido, ao contrário da noite anterior. optou por usar uma camisa social preta, com um casaco de couro e calça jeans, o cabelo parecendo bem penteado — mas eu sabia que mais tarde seus fios estariam bagunçados —, e sua barba estava bem-feita e comportada. Ele tinha um ar cansado e cheirava a alguma lavanda que eu não conhecia.
— Obrigada — agradeci pelo café da manhã e saí do quarto, passando por ele. — Mas eu não tomo mais café da manhã.
Com o vício que eu tinha adquirido de me afundar no trabalho, eu mal lembrava de comer alguma coisa. Antes, eu gostava de sentar à mesa, com , e aproveitar a refeição do café da manhã antes de enfrentar o dia, mas agora eu simplesmente saía de casa e comprava um copo de café em qualquer lugar que eu encontrasse pelo caminho. Procurei a minha bolsa, largada em um canto do sofá e a peguei, me virando para o meu ex-marido.
— É torrada com queijo — ele disse, me encarando com olhos inexpressivos. — E suco de laranja com leite, como você gosta.
— Eu não tinha laranja e queijo — lembrei, estreitando os olhos para a bancada da cozinha, onde estava as refeições.
— Levantei mais cedo e passei na padaria — explicou, dando de ombros.
Algo dentro de mim se remexeu e eu me perguntei quanto tempo disso eu ainda iria aguentar. Era simplesmente cansativo sentir que eu estava pisando em ovos com , quando antes era fácil conversar com ele sobre qualquer coisa.
— Escute, … — Suspirei, sentindo que eu definitivamente precisava de uma boa noite de sono sem lágrimas. — Você não precisa fazer isso, não precisa agir assim.
— Assim como? — indagou.
— Como se ainda fôssemos… alguma coisa — expliquei, esperando que ele não se ofendesse.
— Eu prometi que cuidaria de você — sua voz soou firme, dando a entender que a promessa ainda era válida.
Balancei a cabeça, negando o seu fato.
— Sim — concordei. — Nos votos do casamento. E então, você pediu divórcio.
Sua expressão se fechou. Ele não esperava que eu falasse aquilo, mas não era nenhuma mentira. Eu não esperava que ele cumprisse nenhuma promessa em relação a mim mais. Mas mais do que isso, eu não podia culpá-lo por ter pedido o divórcio quando nem eu mesma lutei para manter o casamento. Eu simplesmente… aceitei.
… — sussurrou, mas não esperei que ele falasse mais nada.
Eu não queria ouvir. Tinha muitas emoções em jogo e eu estava um pouco cansada de sentir tudo.
— Temos que ir — interrompi. — Não gosto de me atrasar. Peguei a chave em cima da escrivaninha e abri a porta, escutando ele bufar atrás de mim.

08:29am


Quando nós dois chegamos ao prédio principal, senti os olhares nos acompanhando a cada passo que eu dava em conjunto com . Todo mundo estava comentando sobre a presença do meu ex, claro, por que não estariam? Não havia ninguém naquele prédio que não soubesse sobre o caso, sobre a mãe dele e como o casamento tinha acabado, tornando a minha vida praticamente um livro aberto.
Qualquer um ali, que fosse um funcionário antigo, conhecia . Ele tinha trabalhado aqui antes de tudo, afinal.
— Parece que nada mudou — murmurou ao meu lado, mal-humorado.
Ele ignorava os olhares, exatamente como eu estava fazendo. Entrei no elevador, agradecendo mentalmente que ele estava vazio e apertei para nos levar até o décimo primeiro andar.
Durante o caminho inteiro, não trocamos sequer uma palavra que fosse. Ele parecia estar com raiva de algo e eu não me importei, desde que não precisasse manter um assunto forçado com ele apenas para manter um pouco de civilização entre nós.
Quando o elevador abriu, fui a primeira a sair, sentindo-o me seguir em silêncio, seus passos pesados anunciando a sua presença. Eu não precisava olhar para trás, para saber que ele estava com as duas mãos no bolso da calça, a expressão completamente fechada e os olhos nublado de mau humor, ignorando os novos olhares curiosos caindo sobre nós dois.
— Oi, Jeff. — Parei em uma mesa adiante, cumprimentando um dos funcionários com quem eu mantinha uma relação profissional bastante boa. — Eles já estão aqui?
Jeff era muito mais jovem do que eu e era excelente em seu trabalho.
— Sim — ele respondeu, tentando não olhar muito para , parado ao meu lado como se fosse meu segurança. — Na sala de reunião.
— Obrigada — agradeci com um sorriso mínimo e gentil. — Pode deixar isso na minha sala?
Estendi a minha bolsa para ele, que assentiu, pegando. Agradeci mais uma vez e revirei os olhos para , andando até a sala de reunião, do outro lado do espaço. Antes de abrir a porta, me virei para o homem que me acompanhava.
— Por favor, seja educado — pedi.
— E quando é que eu não sou? — reclamou, tirando as mãos de dentro dos
bolsos.
— É que você está com aquele olhar — me defendi.
estreitou os olhos para mim, desconfiado.
— Que olhar?
Coloquei a mão na escrivaninha e sorri fechado. Sem responder, abri a porta e entrei, encontrando o resto da equipe reunida ali. Todos estavam em pé, conversando baixo entre si, e a conversa morreu assim que todos os pares de olhos se viraram para nós dois. pigarreou, parando bem ao meu lado esquerdo, reconhecendo cada um presente ali.
— Bom dia — murmurei, preenchendo o silêncio que se instalou.
Fechei a porta atrás de mim. Charles foi o primeiro a se movimentar, parando na nossa frente. Eu observei ele estender a mão para , que aceitou sem cerimônia alguma, o corpo rígido, mas aparentemente só eu percebia a sua linguagem corporal.
— Obrigado por aceitar — meu supervisor pronunciou. — Sei que não é fácil.
assentiu, soltando a mão de Charles.
— Não vim por vocês — ele respondeu. — Vim pela .
Matt olhou para mim e deu de ombros, como se achasse graça em alguma coisa e eu soltei um suspiro resignado, balançando a cabeça em negação bem devagar. Deixei os dois sozinhos e fui a primeira a me sentar, me encolhendo em qualquer cadeira vazia enquanto o restante da equipe seguiu o meu exemplo. Fora eu e , ao todo, eram seis pessoas ali, reunidas.
— Podemos começar? — Charles indagou, sentando-se no topo da mesa.
Ele começou a abrir a pasta que estava ao seu alcance e percebi que tinha um para cada pessoa ali. Peguei a minha pasta e abri na primeira página, encontrando a foto de uma criança que devia ter a mesma idade que Grayson tinha quando foi sequestrado. A lembrança pesou para mim.
— Todos vocês conhecem o caso, porque estiveram aqui antes — Charles iniciou, evitando olhar para mim e . — Infelizmente, não conseguimos capturar o assassino. Mas temos uma chance agora.
estava sentado à minha direita, o que me fez perceber que ele estava sentado de uma maneira muito rígida. Quando olhei para ele, notei que ele estava encarando os três agentes bem à nossa frente.
— sussurrei, cutucando-o pelo cotovelo. — O que você está fazendo?
— Você lembra das mesmas coisas que eu? — questionou, sem sequer tirar os olhos dos três.
Charles continuou falando sobre alguma coisa, mas eu não estava prestando atenção. Os agentes Russel, Grishen e Hendricks não estavam prestando atenção em nós dois, alheios aos olhares de .
— O quê? — repeti, confusa.
— Desculpem interromper — ele aumentou o tom de voz, chamando a atenção de todo mundo, incluindo Charles. — Eu tenho uma observação e um pedido.
Meu ex-marido encarou o meu supervisor com uma expressão séria, as mãos cruzadas em cima do próprio colo. Charles olhou para mim, buscando alguma coisa, mas eu somente dei de ombros, mostrando que eu não sabia de nada. Eu nem sequer sabia com o que diabos o homem ao meu lado estava incomodado.
— Prossiga, agente . — Meu supervisor permitiu.
Esfreguei minhas mãos no rosto, tendo a certeza que eu iria ter um colapso de estresse.
— Você quer ter sucesso no caso dessa vez, certo? — questionou, recebendo um aceno positivo e bastante desconfiado de Charles. — Então não deveria manter a equipe original.
Engoli a seco, finalmente entendendo aonde ele queria chegar.
— Desculpe — Charles interviu. — O que disse?
Owen e Matt permaneceram quietos do meu lado esquerdo. , no entanto, parecia bastante decidido sobre a sua opinião.
— Eu disse que você deveria diversificar a equipe — meu ex explicou. — Ter pessoas novas, com opiniões e visões novas sobre o caso, ao invés de alguém que já tenha cometido erros antes. Isso compromete o sucesso do caso.
— Nós não cometemos o erro de propósito! — Russel se exaltou, as veias saltadas.
A agente Hendricks parecia tranquila, porque a acusação não envolvia ela, mas Grishen também parecia alterado.
— Não pode nos reduzir a um erro, — Joe Grishen completou.
Furioso, bateu com as mãos na mesa.
— Um erro que custou a vida do filho de alguém! — exclamou, a raiva escapando pelas palavras. — Você só tinha um trabalho!
Os dois homens se calaram. Então era isso que ele queria dizer quando me perguntou se eu não lembrava das mesmas coisas. Eu lembrava. Não esquecia nada daquele caso e nem de Grayson, mas ao contrário de , eu parei de culpar qualquer pessoa. A única responsável pelo que tinha acontecido estava foragido.
Mas tinha razão. Tinha sido um erro que custou muito a vida do garoto Batters. Grishen e Russel deviam ter seguido a ordem de não perseguir o assassino quando o vissem, esperando que ele mantivesse a sua palavra e entregasse a localização de Grayson, mas os dois agentes não obedeceram. O assassino ficou furioso com nossa quebra de acordo e nós pagamos da pior forma.
— Agente , entendo a sua preocupação — meu supervisor tentou amenizar a situação. — Mas tenho ordens de permanecer com todos os membros da equipe.
desviou os olhos dos dois agentes, encarando o meu supervisor com irritação.
— É uma pena, então — ele disse, olhando rapidamente para mim, um pedido de desculpas silencioso. — Acho que podem prosseguir sem mim.
Ele se levantou, pronto para ir embora.
— Não, … — Tentei fazê-lo ficar, mas ouvi a porta bater com força, indicando que ele já tinha ido.
Senti um desespero genuíno tomar conta de mim. Eu não podia fazer aquilo sem ele.
— O que acabou de acontecer aqui? — Matt questionou, mas ninguém respondeu, um clima tenso presente.
… — meu supervisor chamou, mas balancei a cabeça em negação.
— Ele não vai voltar — declarei, suspirando. — não tem mais nada a perder, Charles, e eu não vou fazer isso sem ele.
— O que isso quer dizer?
— Ela quis dizer — Matt se intrometeu — que vai sair da equipe também.
— Você não pode estar falando sério! — Russel exclamou, desacreditado.
Encarei-o com tamanha irritação, rangendo os dentes.
— Escute aqui, seu imbecil — comecei. — Posso ser mais profissional que o , mas isso não significa que eu esqueci. Eu não consigo trabalhar nesse caso sem ele, e ele não consegue trabalhar com vocês. — Apontei o que era bastante óbvio. Parei de encarar Russel e me virei para meu supervisor — Então, acho que você tem uma escolha a fazer.
— E acho melhor você decidir rápido, porque há uma criança por aí, em algum lugar, precisando de ajuda — Matt ajudou, recebendo um olhar fuzilante de Charles.
Nosso supervisor suspirou e fechou a pasta em seguida, encarando todos nós.
— Reunião encerrada.

10:00am

— Tem algum bar por aqui?
Matt arqueou a sobrancelha na minha direção, desconfiando da pergunta que eu tinha acabado de soltar. Balancei a cabeça e descartei a ideia com a mão, indicando que ele tinha entendido errado.
— É o — expliquei.
— Ah. — Ele expressou entendimento e coçou a nuca em seguida. — Segunda rua
à direita, depois que você sai do prédio.
Depois que Charles encerrou a reunião e se enfiou em seu escritório, procurei o meu ex por todo o andar, até perceber que ele não estava em lugar nenhum. Tinha ido embora, mas eu duvidava que tivesse voltado ao meu apartamento — uma vez que só eu tinha a chave —, e também sabia que ele não iria voltar para a sua cidade, tão de repente. Não sem me avisar, pelo menos. Então, só havia um lugar onde ele estaria agora.
— Obrigada — murmurei para Matt, guardando o meu celular no bolso da calça. — Se houver alguma mudança, me avise.
Apontei para a porta do escritório de Charles e ele assentiu. Meu supervisor não tinha dito mais nada depois do fracasso da reunião e eu estava falando bem sério quando comuniquei que não iria pegar o caso se aqueles dois imbecis estiverem nele. Eu poderia ter lidado com isso, claro, mas se se recusava a trabalhar com eles, eu não podia fazer muita coisa. E eu tinha deixado bastante claro que só continuaria ali se ele também estivesse junto.
Saí do prédio, seguindo a instrução que Matt tinha me dado, entrando na rua do bar. Eu ainda andei um pouquinho mais até finalmente encontrar o local. Era meio decadente, mas era o único lugar perto e servia para . Sem cerimônias, entrei no bar. Não demorou muito para que eu avistasse ele, sentado em um banco justamente perto da bancada, facilitando o seu acesso a um barman e às bebidas. Ele tinha um copo cheio na mão e quando me aproximei, o líquido diminuiu para a metade do copo.
— Acho que já basta — murmurei, parando ao lado dele.
Tirei o copo da mão de , que me olhou feio por um momento, mas logo desfez a expressão, deixando os ombros caírem derrotados.
— Veio me buscar?
— Não — respondi. — Vim te levar para casa. Seus olhos escureceram na minha direção. Era horrível ver o seu sofrimento refletir em mim.
— Não tenho uma casa — declarou.
Como eu tinha afastado o copo dele, ele levantou a mão, chamando um barman para pedir mais. Neguei com a cabeça para o homem que se aproximava, indicando que não era para ele trazer mais nada.
— Não, , já chega.
— Vá embora, . — Um suspiro sôfrego escapou dos seus lábios. — Por que está fazendo isso?
— Porque eu me importo! — quase gritei, sentindo algo dentro de mim desabar. — Você não pode esperar que seus problemas sumam a cada vez que você bebe um copo. Precisa começar a encarar a sua realidade! — Eu estava furiosa e magoada, tudo ao mesmo tempo, cuspindo as palavras na frente dele, sem me importar como ele receberia. — O caso foi um desastre, sua mãe se foi e você me deixou. Eu luto todos os dias para permanecer inteira, mas ver você assim… me destrói.
Daquela vez, não consegui impedir a bola de choro que se formou em minha garganta. Lágrimas quentes molharam as minhas bochechas e eu me encostei no banco, encarando qualquer coisa que não fosse ele, o silêncio se instalando entre nós.
Eu desejava todos os dias que as coisas fossem normais como antes, mas nunca mais seriam. Não sem o Grayson. Não sem o .
— Eu te deixei porque você merecia mais — ele confidenciou em um sussurro, que eu só ouvi porque estava bem próxima. — Não podia suportar a ideia de você estar presa ao meu luto.
Balancei a cabeça, limpando as minhas lágrimas.
— Sua mãe também era como uma mãe para mim, , não foi só você que a perdeu — murmurei, exausta. — Era o pior momento para você querer ser generoso dessa forma. Nós precisávamos um do outro. Você precisava de mim e tudo o que fez foi… me afastar.
— Eu sei — ele disse, repetindo as palavras. — Eu sei. Sinto muito, .
No momento seguinte, seus braços estavam enrolados em mim, em um abraço. Puxei-o pela gola da camisa para mim, abraçando-o como eu não fazia há muito tempo, como se eu precisasse daquilo para compensar um pouquinho o que eu sentia, precisando respirar o seu ar, seu cheiro. sempre tinha sido tudo para mim, até me deixar aprender a ser tudo sem ele.

parte dois

— two burning hearts are dared to break, remember


Não contei por quanto tempo o momento do abraço durou, mas um bipe de mensagem fez eu me afastar dele, pegando o celular do bolso. Era uma notificação de mensagem de Charles. Quando abri o conteúdo, suspirei.
— Charles tirou Russel e Grishen do caso — informei para , sem encará-lo.
— Mas, em contrapartida, temos que arranjar substituto para os dois.
— Ele jogou isso para nós dois? — questionou.
Levantei um ombro, guardando o celular de volta.
— Se você arranja problema para o Charles, arranja a solução também — expliquei. — E então? Alguma sugestão?
Ele pareceu pensar um pouco. Tirou a carteira do bolso e deixou uma nota em cima do balcão, pagando as bebidas que tinha consumido. Mantive a minha postura ereta, desencostando do balcão, agradecendo mentalmente que o local não estava cheio. Ninguém tinha assistido o meu momento de fraqueza.
— Tenho alguém em mente — disse. — Vou fazer uma ligação.
Concordei com um aceno, deixando-o ir na minha frente, acompanhando seus passos lentos bem atrás. Eu não tinha ideia de para quem ele ligaria, mas eu conhecia todos os amigos dele, que também costumavam ser os meus. Depois de tudo o que tinha acontecido, foi inevitável evitar um afastamento. Do lado de fora, fiquei parada na calçada, enquanto esperava ele terminar a sua ligação. Havia pouco movimento daquele lado da rua, mas devia ser por causa do horário. Pela noite, estava sempre mais cheio.
— Para nossa sorte, ela está aqui em Los Angeles — disse, guardando o celular. — Marquei um almoço.
— Você ligou para a Maddie? — questionei.
olhou ao redor da rua, até parar os olhos em mim e acenar com a cabeça positivamente. Madison Watkins era uma amiga em comum nossa. Tivemos alguns treinamentos juntas, mas ela estudou mais com e escolheu seguir carreira na Força-Tarefa de Fugitivos. Era óbvio que ele pensaria nela, principalmente com suas experiências.
— Ela te mandou um oi.
— Onde você marcou o almoço? — perguntei, começando a andar de volta para o prédio, com ele me acompanhado de lado.
— No nosso restaurante — respondeu, percebendo logo em seguida o que tinha acabado de soltar. — Desculpe, força do hábito.
Achei seguro não responder, mantendo meus pés firmes contra o chão, olhando qualquer ponto na minha frente que não fosse ele. Nosso restaurante era um lugar em que costumávamos ir, mesmo sem ocasião especial, quando ainda éramos casados. adorava o lugar e eu nunca tinha encontrado ninguém que fizesse meu prato favorito tão bem quanto lá. Então, acabamos adotando como nosso restaurante. Um ponto em comum que tinha se perdido.
Chegamos ao prédio de volta, ainda em silêncio.
— Posso te esperar aqui? — ele pediu.
Olhei para trás, notando que ele sequer tinha subido as escadas, que davam entrada ao prédio. Não precisei perguntar porque ele preferia esperar ali, eu também não iria querer enfrentar os olhares de novo.
— Tudo bem.
Subi sozinha até o meu andar. Ignorei todo mundo pelo meu caminho, percebendo que eu estava só um pouquinho mau humorada. Começava a achar que tinha sido uma péssima ideia ter no mesmo caso comigo, mas eu sabia que isso era uma opinião estritamente pessoal. Ele era meu ex-marido e eu ainda mantinha sentimentos por ele. É óbvio que eu iria me incomodar com alguns de seus comentários, principalmente quando tinha sido ele quem pediu a porra do divórcio.
?
— O quê?! — exclamei, soando totalmente grossa. Quando me virei e percebi o meu tom de voz, respirei fundo. — Desculpa, Matt.
— Ninguém disse que seria fácil — ele tentou amenizar o clima e levantou as mãos na altura dos ombros. — Sabe, não vai haver julgamentos se você resolver não seguir com o caso. Nós temos outros agentes.
Mordi a parte interna da minha bochecha, andando até a minha sala. Matt me seguiu, segurando a porta.
— Eu agradeço a sua preocupação, Matt, mas eu consigo lidar.
Peguei a minha bolsa, que estava em cima da mesa, onde Jeff deixou. Verifiquei o relógio, decidindo que estava quase na hora do almoço e era melhor ir adiantada do que atrasada, mas quando me virei para sair da sala, meu parceiro ainda estava parado na porta.
— Eu sei que você consegue lidar — ele disse, sincero. — Mas você vai me dizer quando estiver no limite?
Não “se”. Quando. Como se ele estivesse esperando que isso acontecesse.
Encarei-o, deixando meus ombros caírem com um suspiro e esfreguei as minhas têmporas, esperando que eu relaxasse. Desde a separação, eu tinha me afastado de todo mundo, mas Matt tinha sido um porto seguro para mim. Eu devia muito a ele.
— Eu prometo.
Satisfeito, ele assentiu e me abraçou rapidamente. Quando ele me soltou, passei por ele e pela porta.
— Avise ao Charles que eu tenho um almoço com a substituta — pedi.
— O que isso significa?
— Significa que eu só volto amanhã — avisei.
Ele apontou um dedo em riste para mim, mas fui embora antes de ouvir qualquer coisa.

11:27am


— Quer pedir alguma coisa?
Aceitei o cardápio que me estendeu e olhei as opções, mas eu só fazia isso por puro tédio. Eu sabia, assim como ele, que no fim, eu sempre acabaria pedindo as mesmas coisas. Deixei o cardápio em cima da mesa e cocei a minha bochecha, olhando-o sentado bem de frente para mim. Madison ainda não havia chegado, mas ele já tinha mandado mensagem para ela, informando que já estávamos no restaurante.
— O de sempre — respondi.
Ele sorriu discretamente, assumindo que nem sempre algumas coisas mudavam.
Olhar para , às vezes, era doloroso.
— Você tem falado com sua irmã? — perguntei, de repente.
Ele piscou os olhos para mim.
— Não.
… — sussurrei, sentindo meu coração quebrar em mais um pedacinho.
Travando a mandíbula, ele respirou baixo e contido.
— Eu sei, é só… Ainda é difícil.
— E sempre vai ser — constatei o óbvio.
Eles tinham perdido a mãe. Eu duvidava que fosse ser fácil de lidar com aquilo, qualquer que fosse o momento.
— Ouvi você chorando ontem à noite — confessou.
Todos meus esforços para que ele não percebesse tinham sido em vão, então.
— É, às vezes eu faço isso — murmurei, sem saber exatamente o que dizer.
Ele se calou. Em seguida, estendeu a mão sobre a mesa para que eu aceitasse e assim o fiz, entrelaçando os meus dedos nos dele.
me lançou um sorriso contido, melancólico e balançou a cabeça minimamente na minha direção.
— Fale com a Sarah, está bem? Ela está sofrendo tanto quanto você e é sua irmã — aconselhei.
Ele me encarou com uma expressão afetada, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa Madison Watkins apareceu, se desculpando pelo atraso, mas eu e não nos importamos com isso.
— Já fizeram o pedido? — Maddie perguntou.
— Ainda não — meu ex-marido respondeu, entregando o cardápio para ela.
Esperamos ela escolher e fizemos nosso pedido para o garçom mais próximo.
— Então — ela começou a dizer, alternando o olhar entre nós dois, sentada do lado oposto, de modo que pudesse dividir a sua atenção. — Algum problema? Você parecia urgente na ligação.
Esfreguei as minhas mãos e deixei um suspiro escapar. Madison estava linda, embora estivesse com uma expressão cansada. Sua franja caía perfeitamente, contornando o seu rosto, mas ela parecia diferente. De alguma forma, eu soube.
— Você está grávida? — questionei, de repente.
me olhou como se eu fosse louca, por fazer uma pergunta tão direta, sem que fosse o foco do assunto. Maddie abriu a boca para responder, mas riu, sem graça.
— Desculpa, eu não queria te constranger — me adiantei, balançando as mãos no ar.
— Não, é que… — ela umedeceu os lábios, balançando o rosto para afastar alguma mecha. — Eu não queria chegar anunciando, principalmente depois de…
— Está tudo bem, Maddie — cortei-a, abrindo um sorriso para reforçar o que eu tinha acabado de dizer. — Isso foi há muito tempo.
O que ela achava? Que, por eu ter perdido um filho em um aborto espontâneo, isso anulava a novidade dela? Eu sabia separar as coisas. E a gravidez dela não tinha nada a ver com a minha perda.
— Você está grávida mesmo? — questionou, incrédulo. Eu não via surpreso por tantas vezes assim. — Como deixou isso acontecer?
! — repreendi.
Mas Madison começou a rir. Por um lado, eu entendi totalmente a curiosidade dele, uma vez que Maddie era a última pessoa que nós veríamos sendo mãe.
— Para ser sincera, eu também não sei — respondeu, dando de ombros. — Estou surpresa que tenha percebido, minha barriga não está tão grande e a maioria das pessoas ainda não sabem. Eu prefiro assim, por enquanto.
Ela olhou para mim e eu assenti, entendendo. Estar grávida em um ambiente de trabalho como o nosso não era exatamente um motivo para comemoração.
— Devo ter percebido por experiência própria — justifiquei.
— Mas não se preocupem com isso, eu estou perfeitamente bem para executar o meu trabalho — explicou.
— Nunca duvidamos disso — disse. — O que está fazendo em Los Angeles?
— Burocracia — ela respondeu, soltando um suspiro cansado. — Eu vou ficar sabendo do motivo do convite? Não pode ser saudades, você não atendeu nenhuma das minhas ligações.
Assisti um semblante culpado surgir no rosto de e contive qualquer comentário de sair pela minha boca, ansiosa para alfinetá-lo por aquilo.
— Desculpe, Maddie — ele murmurou, sincero. — Fase ruim, você sabe.
Ela mostrou um sorriso compreensivo.
— O assassino do Grayson Batters está de volta — soltei, explicando de uma vez. — Ele sequestrou uma nova criança.
Madison soltou um suspiro longo. Todos nós fomos impedidos de falar pelo garçom chegando com os nossos pedidos. Dei um tempo para que a agente especial processasse a informação e esperei o garçom terminar de colocar os nossos pratos, indo embora em seguida. Eu peguei a taça de vinho, bebendo um gole.
— Isso… — Madison tentou dizer, bebendo a garrafa de água que tinha pedido. — Caramba.
— Nós estamos no caso de novo — continuei explicando, começando a cortar um pedaço de carne. — E nós queremos pegá-lo dessa vez, Maddie. Mas não podemos fazer isso sozinhos.
— Precisamos de você — completou, levando uma garfada de macarrão à boca. — Mas vamos entender se negar.
Madison não disse nada, por alguns instantes. Aproveitei o silêncio para saborear o meu prato favorito, enquanto tentava não pensar em muita coisa, senão aquele momento, buscando me manter em um só lugar, e não perdida em memórias, como por muitas vezes eu ficava.
A agente manteve sua atenção no seu purê de batata. não gostava do silêncio em qualquer ambiente que fosse, então ele estava visivelmente um pouco incomodado.
— Eu tenho uma semana de folga — Watkins finalmente respondeu. — Acho que não vai me fazer mal ficar e dar uma ajudinha.
— Você tem certeza? — meu ex perguntou.
Eu estava aliviada por ela ter aceitado. Ter um rosto conhecido por perto me faria bem.
— Vamos pegar aquele desgraçado — ela disse, selando a sua decisão de ficar. — Eu prometo.
E me agarrei naquela promessa, porque se havia alguém que cumpria elas, era Madison Watkins.

09:47 pm


Joguei a bolsa em cima do sofá e tirei os meus sapatos, aliviada de sentir o chão sob os meus pés.
Nós passamos boa parte da tarde inteira com Madison, antes de decidir que era hora de ir para casa, descansar para o dia seguinte. Depois que ela tinha aceitado, mandei uma mensagem para o Charles avisando e escrevi o endereço do prédio para ela comparecer. Andei até a cozinha, abrindo a geladeira para beber um pouco de água gelada, antes de ir direto para o banho. bateu a porta atrás de mim e eu girei a cabeça, tentando relaxar o pescoço.
— Quer pedir algo para comer? — ele ofereceu, sentando no sofá pequeno.
Ponderei sobre a proposta, mas no fim de tudo, eu só queria deitar na cama e dormir. Mas eu sabia que iria chorar antes.
— Não estou com fome.
Guardei a garrafa de volta na geladeira e saí da cozinha, passando direto pela sala.
— Estou aqui há um dia e já percebi que sua rotina alimentar está péssima — ele disse.
Ele tinha razão, mas também não esperava que ele notasse que eu estava comendo bem menos do que antes. Às vezes, simplesmente esquecia, mas outras vezes não sentia vontade.
— Disse o cara que tem uma rotina saudável bebendo o dia inteiro — respondi de volta.
Ouvi uma risada baixa, mas nenhuma resposta. Fui direto para o banheiro, me despindo inteira, demorando mais que o necessário no chuveiro, deixando a água quente lavar o meu corpo, como se isso também pudesse limpar a minha alma, toda minha angústia.
Todas as noites, eu desejava que as coisas mudassem, e todos os dias acordava vivendo o mesmo inferno.
Saí do banheiro enrolada em uma toalha e estava prestes a ir direto para o meu quarto vestir um pijama, mas chamou a minha atenção antes.
— Você ficou sem falar comigo por dois dias aqui.
Quando voltei para a sala, ele estava em pé, quase perto da televisão, com um porta-retrato na mão. Eu não precisava me aproximar para saber qual era a foto, eu simplesmente sabia, de tanto olhá-las.
No retrato, estava Gabe, meu sobrinho, completamente sujo de tintas coloridas, pelo corpo inteiro. tinha deixado ele sozinho e permitiu que ele fizesse a travessura, o que me deixou furiosa no dia. Mas eu gostava da foto, porque apesar dele estar sujo, estava com um sorriso enorme no rosto e os olhinhos fechados, expressando a sua felicidade.
— Quando penso sobre isso agora, parece besteira — confessei.
Ele ainda não me olhava, mas observei sua cabeça balançar positivamente, os olhos perdidos na foto, como se estivesse visitando a lembrança que a originou. Para onde os dias eram mais fáceis e nós ainda estávamos juntos. Deixei ele sozinho e voltei a andar pelo corredor pequeno, entrando no meu quarto. Me livrei da toalha e vesti um pijama confortável, amarrando o meu cabelo. Deitei na cama e tentei dormir, mas meus pensamentos não deixavam. Eu pensava o tempo todo em mil coisas diferentes, o que me impedia de relaxar, para que, finalmente, eu pudesse descansar um pouco.
Um tempo depois, rolando de um lado para o outro na cama, me levantei, resolvendo que talvez um copo de leite morno me ajudasse a dormir, mas eu mal me aproximei da porta, quando ouvi uma batida baixa soar.
— Entre.
Eu sabia que era , claro, mas não esperava que ele viesse bater no meu quarto em qualquer que fosse o momento. Ainda sentada na cama, observei ele abrir a porta e entrar um pouco.
— Insônia? — arriscou.
Assenti em resposta, sem tirar os olhos dele.
— Eu só vim pedir uma coberta maior — explicou, coçando a bochecha, passando os olhos discretamente pelo quarto. — Vou dormir no sofá.
— Por quê? — questionei, confusa.
Tinha uma cama bem confortável no quarto ao lado, não tinha lógica alguém querer uma noite mal dormida na sala.
— Você deixou as caixas com algumas coisas da minha mãe lá — respondeu, a voz baixa. — Estou cercado de lembranças e não consigo dormir.
Eu tinha me esquecido daquele detalhe. Com tanta coisa na cabeça, ficava difícil lembrar de tudo. Antes de me mudar da antiga casa depois do divórcio, não conseguiu levar aquelas caixas e eu não consegui jogar fora. Sempre pensei que ele deveria decidir o que fazer com elas, já que sua irmã também não tinha nenhuma decisão. Então juntei tudo em caixas pequenas e deixei guardadas no quarto de hóspede.
— O sofá é bem desconfortável — avisei.
Ele deu de ombros. Não era algo absurdo com o qual não pudesse lidar e eu desconfiava que ele já estava acostumado a dormir mal nos últimos meses seguidos. Sem pensar muito para não me arrepender da ideia, suspirei.
— Feche a porta — mandei. — E deite aqui.
Ele não moveu um músculo sequer.
, não…
— É uma cama bastante espaçosa para dois — cortei-o, indicando a cama.
— Não sei se é uma boa ideia — replicou.
Respirei bem fundo e me joguei de volta na cama, deitando.
— Só vamos dormir, — expliquei, encarando o teto. — Anda logo. Precisamos estar descansados amanhã.
A resposta não veio. Até pensei que ele tinha voltado para a sala e se jogado no sofá, recusando a minha proposta, mas ouvi a porta sendo fechada e no segundo seguinte, o outro lado da cama sendo afundado.
Era estranho dividir a cama com ele agora. Tinha sido uma coisa tão normal por tanto tempo.
— Vou procurar um apartamento para alugar amanhã — ele disse, após um tempo. — Talvez não seja bom ficarmos tanto tempo juntos.
Aquilo me doeu mais do que eu esperava.
Eu não tinha esperanças de reatar o nosso casamento. Era bastante decidida e pé no chão para me iludir com uma coisa como aquela, mas esperava um pouco mais de alguém com quem eu tinha dividido parte da minha vida.
Me virei para o lado oposto do que ele estava.
— Boa noite, — murmurei em resposta.

parte três

— darling, nobody said that it would last forever
that doesn’t mean we didn’t try to get here


06:37am


— Pessoal, essa é a Agente Especial Madison Watkins.
Maddie deu um aceno discreto com a cabeça, assim que a apresentei para o restante da equipe em questão, reunidos na sala de reunião anterior. Observei, bebendo um gole de café, cada um cumprimentá-la com um aperto de mão, principalmente um Matt interessado. Quando meu parceiro olhou para mim, fiz que não com a cabeça e quase soltei uma risada da sua expressão murcha. Ele nunca aprendia.
— Feita as apresentações, podemos começar? — Charles usou o tom de voz urgente, recebendo acenos positivos como respostas. — Estamos atrasados nesse caso e precisamos correr contra o tempo.
— Eu só preciso de uma breve apresentação do caso — Maddie se pronunciou. — Sabe, só para me inteirar.
Todos nós sentamos ao redor da mesa, cada um com sua própria pasta contendo as informações antigas e novas do caso.
— O nome do suspeito é… — comecei a dizer, mas paralisei ao abrir a pasta e me deparar primeiro com a foto de Batters no topo da página. O silêncio preencheu o ambiente e não percebi o quanto fiquei quieta, até , do meu lado, continuar falando, com a voz mais firme que a minha.
— Tim Hooks — ele pronunciou o nome do responsável pela morte da vítima. — Ele sequestrou e assassinou Grayson Batters.
Olhei para rapidamente, resolvendo beber o restante do café.
— Nós tentamos de tudo — Ella Hendricks continuou explicando. — Mas no fim, sempre parecia que ele estava um passo à nossa frente.
— Ele pediu resgate? — Watkins questionou.
— Não — respondi. — Quem dera fosse esse o caso.
Ela assentiu devagar, compreendendo.
— Quando ocorreu o primeiro sequestro, ele demorou dois dias para entrar em contato com a família — Charles retomou. — Sean Davis, a nova vítima do suspeito, está sequestrado há dois dias. Acreditamos que o sequestrador possa entrar em contato hoje.
— Os pais da criança já estão aqui? — Owen Morezzi indagou.
Charles assentiu.
— Maddie — chamei, me virando para ela, deixando o copo de café de lado. — Ele não queria dinheiro, vingança ou qualquer outra coisa que esses casos mostram. Ele alegava que Batters estava sendo abusado fisicamente por algum familiar e que nós não estávamos ajudando-o.
— No começo, nós não acreditamos — continuou por mim. — Mas investigamos mesmo assim. Nós descobrimos que ele estava certo e que o culpado pelo abuso físico contra o Grayson, era o padrinho dele.
— Fizemos a prisão. Quando o sequestrador entrou em contato conosco novamente, ele propôs uma troca — Matt assumiu. — Ele libertaria Grayson, se nós o deixássemos fugir.
Maddie apertou a minha mão, tentando me confortar do melhor jeito possível, mas eu estava calma e tranquila, mesmo que um caos por dentro. Eu só precisava fazer o meu trabalho. Era a única coisa em que eu ainda era boa.
— Nós concordamos — Owen continuou. — Deveríamos ter deixado uma bolsa com 100 mil dólares, no endereço escolhido por ele. O plano era ter vigiado o local, esperar que ele pegasse o dinheiro e segui-lo, para que ele nos levasse até o menino.
— Infelizmente — endureceu a voz. — Os Agentes Russel e Grishen tiveram dificuldade em seguir as ordens, então quando o assassino apareceu para pegar o dinheiro, eles tentaram efetuar a prisão.
— Tim Hooks conseguiu escapar — Charles lamentou. — Ele se sentiu traído pela quebra de acordo, então…
— Isso custou a vida de Grayson Batters — completei. — Mas não precisa custar a de Sean. Vamos fazer nosso trabalho.

Depois de termos deixado Maddie a par do caso, solicitei que, junto comigo e , ela também viesse conosco falar com a família. Particularmente, era sempre a parte mais difícil, mas era inevitável.
Maddie entrou na sala primeiro. A Sra. Davis estava abraçada ao marido, quando nos viu e levantou imediatamente, ansiosa por alguma resposta, por alguma esperança.
— Sra. e Sr. Davis, eu sou a Agente — comecei me apresentando, escutando a porta ser fechada atrás de mim. — Essa é a Agente Maddison Watkins e o Agente .
Apontei para cada um respectivamente e fiz um aceno para que eles voltassem a se sentar. Me sentei no sofá de frente para eles, e Maddie ocupando os lados opostos ao meu.
— Encontraram o nosso filho? — a Sra. Davis questionou, a voz mostrando o quanto estava abalada.
Seja quem fosse, eu não queria estar na pele do responsável pela notícia do sequestro do seu filho.
— Ainda não — Maddie respondeu.
— Ele só tem 13 anos — continuou, sendo reconfortada pelo marido. — Quem seria tão cruel assim?
Para continuar levando meu trabalho adiante, tive que aprender a lidar com aquelas perguntas. Eu via coisas cruéis todos os dias e sabia que cada um de nós tinha um limite. Era difícil, às vezes, ir para casa e dormir tranquilamente.
— Nós estamos fazendo o possível — tentou. — Eu prometo.
Olhei rapidamente para ele, apenas uma olhada rápida. mantinha a melhor postura profissional possível, sem deixar transparecer nenhum tipo de emoção, apenas a determinação de não deixar aquele caso ter o mesmo destino do antigo.
Engoli a seco, voltando a olhar para os pais da vítima e tomei coragem para iniciar a pior parte do dia.
— Nós precisamos fazer uma pergunta — comecei a dizer, mantendo a voz calma e tranquila, a fim de não passar mais angústia para eles. — Entendo que é difícil e talvez vocês não compreendam imediatamente, mas nós estamos aqui para ajudar.
Os pais de Sean assentiram.
— Vocês notaram algum comportamento diferente em Sean? Ele andava fazendo algo ou agindo estranho? — questionei.
— O quê?! — O pai se exaltou. — Ele é um menino de 13 anos! Crianças fazem coisas diferentes o tempo todo.
A Sra. Davis pediu que ele se acalmasse e olhou para mim novamente.
— Pode ser mais específica?
Eu não conseguia. Tentei fazer com que as palavras formuladas saíssem da minha boca, mas como eu podia perguntar a esses pais se eles sabiam quem estava abusando fisicamente do seu filho?
— Escutem, antes de mais nada, quero que saibam que nada disso é culpa de vocês — Maddie tomou o meu lugar e eu consegui respirar aliviada. — Esse sequestrador já agiu antes. Por isso, estamos com informações novas para salvar o seu filho.
— Ele já sequestrou outra criança antes? — a mulher indagou, com os olhos enrugados de preocupação.
— Sim.
— E onde está ela?
, ao meu lado, se remexeu desconfortavelmente.
— Infelizmente, nós não conseguimos salvá-lo a tempo — ele respondeu.
— Ah, meu Deus!
Ela abraçou o marido, que tinha uma expressão infeliz. Ao meu ver, ele estava tentando ser forte ali, para que ela pudesse desabar. Sinceramente, eu não sabia o que faria a eles perder o filho.
— Sra. Davis, precisamos que respondam a nossa pergunta e sejam sinceros — Maddie continuou. — Havia algum parente que Sean não gostava de ficar perto? Ele aparecia com machucados frquentes ou algo do tipo?
A expressão do Sr. Davis se desfez em confusão. Ele apertou as mãos da mulher.
— Sim, mas… — respondeu, meio hesitante, como se não tivesse prestado muita atenção a aqueles detalhes, até agora. — Ele faz judô. Nós achamos que era a origem dos machucados.
— O judô não é um esporte tão violento — respondeu.
— Nós não percebemos essas coisas — a Sra. Davis começou a dizer. — Passamos tempo com Sean, mas também trabalhamos muito. Às vezes, costumavámos deixá-lo com a minha irmã.
— Sean reclamava? — questionei.
Os dois assentiram.
— Havia dias que ele batia o pé para não ir — o pai explicou. — Mas não podíamos deixá-lo tanto tempo sozinho sem supervisão.
— Não é sua culpa — garantiu.
— Não estamos entendendo o que está acontecendo — Sra. Davis comentou. — O que isso tem a ver com o sequestro de Sean?
— Tem tudo a ver, Sra. Davis — Maddie respondeu. — O sequestrador pegou o Sean para fazer justiça.
— Como assim?
Nenhum de nós teve tempo de responder, porque o celular do Sr. Davis começou a tocar. Quando ele pegou o aparelho e nos mostrou o número desconhecido na tela, eu sabia que era Tim Hooks. Levantei rapidamente, passando pela porta e chamei Owen Morezzi para rastrear a ligação. Quando ele fez um sinal, o Sr. Davis atendeu a ligação no viva-voz.
— Alô?
Uma risada seca soou do outro lado.
Como se sente de volta ao caso, Agente ? — perturbou, a voz irritantemente calma. — Já desvendou o enigma que eu estava prestes a jogar?
Mordi a parte interna da minha bochecha, tentando conter a raiva. fechou as mãos em punho, mas balancei a cabeça, pedindo que ele mantivesse a postura.
— Isso não é um jogo — respondi. — E parece que você não quer deixar a história se repetir.
A resposta demorou um pouco.
Não — concordou. — Eu gosto do Sean, mas a vida dele depende de vocês. Sr. e Sra. Davis, eu espero que isso os torne pais melhores. Alguém abusa do seu filho e eu não gosto de abusadores. A polícia tem duas horas para descobrir quem é o responsável — ele exigiu. — Vou ligar novamente. Se descobrirem a tempo, terão seu filho de volta. Vivo, dessa vez.
Ele encerrou a ligação e quando olhei para Owen, soube que não era possível rastrear.
— Desgraçado — xingou, baixinho.
— Abuso? — o pai de Sean repetiu. — Vocês não estão achando que… Ai, meu Deus, Alice. Não pode ser a Celestia.
A Sra. Davis soluçou, nervosa demais depois da ligação. Ela balançava a cabeça freneticamente, negando o que fosse para si mesma.
— Sra. Davis, eu sinto muito — Maddie iniciou. — Mas vamos precisar de todas as informações sobre a sua irmã.

— Eu quero saber tudo sobre Celestia Davis — pediu.
Owen, ao lado de Ella, juntaram-se ao notebook, sempre postos para cumprirem o trabalho da maneira mais rápida possível. Esfreguei minhas têmporas, sentindo a minha cabeça latejar, a conversa com os pais de Sean ainda presente na minha cabeça. Depois da ligação e do pedido de Maddie, os dois estavam abalados demais para darem qualquer informação verdadeira sobre a tia do menino, então saiu da sala, comigo e Watkins o seguindo até a sala principal de reunião.
— Vou tentar conseguir um mandado com Charles — Matt me informou e eu assenti.
Observei-o sair pela porta e respirei fundo.
— Ela é enfermeira e trabalha no Hospital Central de Los Angeles — Ella começou a falar, mantendo os olhos atentos na tela do notebook à sua frente. — Divorciada, tem dois filhos.
— Quantos anos as crianças têm? — Madison questionou, mexendo em algo no próprio celular.
— Quatro e sete — Owen respondeu. — O ex-marido mantém a guarda compartilhada das crianças com ela, mas aqui mostra que faz duas semanas que ele não entra em contato.
— Onde estão as crianças agora? — indaguei.
— Na escola, a cinco quadras do hospital — Ella continuou.
Eu estava prestes a fazer minha próxima pergunta, mas Owen foi bem rápido em adivinhar.
— A mãe está de plantão e o pai trabalha em um restaurante — ele disse. — Enviei para vocês.
Três celulares apitaram ao mesmo tempo. Tirei o meu do bolso e abri a mensagem, verificando o endereço que Morezzi tinha acabado de enviar. A porta foi aberta e Matt e meu supervisor entraram juntos.
— O mandado de prisão de Celestia Davis está sendo emitido — Charles avisou. — Se vocês sabem onde a suspeita está, vão atrás dela.
Nós assentimos.
— Senhor, precisamos dividir a equipe — informei a Charles. — Alguém tem que pegar as crianças e ir atrás do pai delas. Matt, eu e podemos ir atrás da Celestia. Owen e Ella vão atrás do pai.
— Eu pego as crianças — Maddie sugeriu.
Agradeci com um aceno, guardando o meu celular de volta, ignorando qualquer latejar de cabeça que estivesse me incomodando. Eu tinha coisas mais importantes para fazer no momento e estava muito ansiosa em pegar a desgraçada que abusava fisicamente de um menino de 13 anos de idade.
— Então se preparem — Charles permitiu. — Vocês saem em cinco minutos.
Eu estava prestes a sair da sala, com os outros, mas me puxou pelo cotovelo, me virando para si. Seus olhos estavam um pouco nublados de preocupação e percebi que ele estava ansioso para que aquele caso acabasse, de preferência, com o menino bem e vivo.
— Não tive oportunidade de perguntar — iniciou. — Você está bem? Aquela conversa foi… difícil.
Respirei fundo, assentindo devagar. Havia uma parte de mim que sempre o amaria, não importava quanto tempo passasse.
— Se Grayson estivesse vivo — comecei. — Nós teríamos sobrevivido? Tinha sido uma pergunta repentina. Sua expressão vacilou e ele coçou a bochecha esquerda com a mão, um pouco desconfortável. Eu o conhecia bem o suficiente para saber que ele tinha pensado naquela pergunta primeiro do que eu.
— Apesar de eu nunca dizer que era para sempre, não significa que não tentamos chegar lá, .
Foi uma resposta melhor do que eu esperava. Umedeci os lábios, sorrindo fechado para ele, uma melancolia me envolvendo. Ele beijou a minha testa, um gesto de respeito e carinho que ele sempre gostava de deixar claro e se afastou em seguida, seguindo os outros. Esperei um pouco e segui o mesmo caminho.

— Matt, você pode vigiar os fundos?
Ele assentiu, preparado. Antes de eu e entrarmos no hospital, esperei que meu parceiro estivesse perto dos fundos.
— Vocês nunca tiveram nada? — questionou.
Encarei-o, como se ele tivesse uma segunda cabeça nascendo perto do pescoço e fiz uma careta verdadeiramente confusa para sua pergunta repentina. Eu e o Matt? Urgh.
— Claro que não, — murmurei em resposta, aumentando o tom de voz um pouco, apenas constatando para ele o quão absurdo era a sua questão. — Matt é só um amigo. Um bom amigo.
— Eu não me importaria se a resposta fosse sim — concluiu.
Bufei, balançando a cabeça em negação.
— Eu não ligo — retruquei. — Matt?
Pressionei a minha escuta, esperando receber uma resposta do meu parceiro.
Quando ele murmurou um “tudo certo”, comecei a andar na frente de , adentrando o hospital direto para a recepção.
— Olá — cumprimentei uma das recepcionistas. — Eu gostaria de falar com Celestia Davis.
Ela me olhou por um momento, parando os olhos no meu ex marido, que finalmente tinha me alcançado e estava do meu lado.
— Ela está de plantão — a recepcionista respondeu.
— Sim, nós sabemos — respondi. — Mesmo assim, poderia chamá-la, por favor?
Ao mesmo tempo, e eu mostramos nossos distintivos. A recepcionista abriu e fechou a boca, desistindo de falar algo e assentiu, pegando o telefone. Sua ligação demorou um minuto inteiro e nesse meio tempo, ignorei totalmente.
— Ela está vindo — avisou. — Pode aguardar, por favor?
Concordei com um aceno e me afastei do banco da recepção. Olhei ao redor, encontrando uma área para visitantes e andei até lá, me sentando em um dos bancos livres, esperando que a suspeita aparecesse. Com sorte, a recepcionista não tinha informado que era a polícia. Ou melhor, que era o FBI.
— Não precisa ficar emburrada, implicou. — Foi só uma pergunta.
— Estou bem.
— Não está, não — retrucou, me contrariando. — Quando você se irrita comigo, não consegue me olhar. Nunca entendi isso, sabia?
— Seu humor está bem melhor, não é? — reclamei, mas ele tinha razão, eu não conseguia olhá-lo quando estava irritada.
— Estou tentando.
Passei a língua pelos meus lábios secos e puxei a respiração, o mais forte que eu consegui. Então, soltei o ar pela boca e virei o meu rosto na direção dele, finalmente encarando-o.
— São seus olhos — acusei. Ele adquiriu uma expressão confusa.
— O quê?
— Seus olhos — repeti. — Você é muito transparente, . Eu nunca olhava para você quando estava irritada, porque se eu olhasse, não encontraria motivos para continuar irritada. Seus olhos me amavam.
Pude perceber que minha resposta o abalou.
— O que vê em meus olhos agora?
— Culpa e tristeza — respondi, depois de um tempo.
assentiu devagar, como se já esperasse por aquilo. Provavelmente, diante do espelho, ele via a mesma coisa.
— Não vê amor? — indagou. Não consegui identificar qual era a emoção na sua voz.
Neguei com um aceno.
— Não por mim — respondi.
Nossa, Matt chiou através da escuta, me assustando um pouco. Eu sinceramente tinha esquecido que ele podia ouvir a nossa conversa. — Você não conhece o significado de “delicadeza”?
Revirei os olhos, desviando a atenção de .
— Por que você não cala a boca? — retruquei.
Tentando desesperadamente fugir daquela conversa, olhei para qualquer coisa e avistei a suspeita chegando na recepção. Ela conversou com a mesma recepcionista que nós e olhou na nossa direção. Sua expressão não estava muito boa e sua linguagem disse que ela ia fugir.
— chamei, apontando para a mulher.
Ele olhou na mesma direção que eu apontei no exato momento em que a enfermeira começou a correr. Murmurei um xingamento baixinho, assistindo começar a correr atrás dela. Pressionei a escuta contra o meu ouvido.
— Matt, a suspeita está indo em sua direção — avisei, recebendo uma resposta positiva dele.
Corri, ouvindo meu ex pedindo que ela parasse de correr, anunciando que éramos o FBI, mas ela continuava correndo, derrubando coisas pelo caminho, para dificultar a nossa perseguição. Ela entrou no elevador e não conseguiu alcançar a tempo, antes das portas se fecharem.
— Escadas! — anunciei para ele.
subiu as escadas e eu fiquei ali, parada no mesmo andar, de frente para o elevador, verificando onde ele pararia.
— chamei, através da escuta. — Ela está no segundo andar.
Esperei uma resposta positiva vindo dele, mas não recebi nada. Matt murmurou algo e eu comecei a andar na direção da escada, prestes a subir correndo, mas parei no meio do caminho quando ouvi a confirmação.
— A suspeita está sob custódia.

parte quatro

— take those long summer days, when love was untamed


mais tarde


— Precisamos divulgar sobre o perfil do assassino e a prisão de Celestia Davis.
Bebi um longo gole de café morno de uma vez, remexendo o meu pescoço, como se isso fosse me ajudar a relaxar. Encarei Maddie, que parecia rejuvenescida e me questionei se eu tinha aquela energia toda no início da gravidez.
— O que vamos dizer sobre a prisão? — Owen questionou. — O caso não está na mídia.
Eu sabia que devia estar prestando atenção naquela discussão, mas Matt apareceu atrás de mim, começando a fazer massagem nos meus ombros. Ele parecia saber do que eu precisava, sem que eu dissesse sequer uma palavra sobre aquilo.
— Eu ouvi o que te perguntou — Matt sussurrou perto de mim, também alheio à discussão. — Sobre nós dois. Ele sabe que eu sou gay, certo?
Pisquei meus olhos, bebendo mais um gole, relaxando com a massagem. , do outro lado, nos encarou por um momento, como se duvidasse muito da minha resposta de mais cedo.
— Não — respondi a Matt. — Não é como se você andasse por aí com uma bandeira colorida, anunciando. — Você sabe que eu sei sobre você e Charles, não é?
Ele começou a tossir baixinho, como se estivesse surpreso por eu saber uma coisa do tipo. Sempre esperei que ele me contasse sobre isso, mas respeitava a sua decisão, afinal, ele estava envolvido com o nosso chefe. Não era proibido, mas também não era exatamente legal.
— Odeio como você é observadora — ele reclamou, parando de fazer a massagem. — Devíamos prestar atenção na reunião.
— Nós vamos conversar sobre isso depois? — indaguei.
Eu tive o prazer de me virar e encontrar Matt corado, mas não impliquei. Apenas sorri e deixei que ele se afastasse de mim, agradecendo por aquela distração leve do momento.
— Onde está o pai das crianças? — Maddie indagou e eu voltei a prestar atenção no que estava acontecendo.
— Elle está com ele — Matt respondeu. — E, pelo pouco que eu soube, os filhos dela também são vítimas.
Soltei um suspiro resignado.
— Como você quer divulgar o caso? — questionei a Watkins.
— Ele é um fugitivo — declarou o óbvio. — Está cometendo o mesmo crime que cometeu antes e quer justiça. Quando ele descobrir que nós prendemos a suspeita, vai entrar em contato para devolver o menino.
— Não é garantia que ele vá devolver — interviu.
Madison encarou-o por um momento, tentando encontrar uma resposta plausível para aquilo, mas no fim, ela apenas deu de ombros.
— Vamos ter que confiar no trabalho, — ela disse.
— Talvez esse seja o problema.
— Owen — chamei, interrompendo a conversa. — Pode pesquisar a vida inteira do suspeito? Puxe todos os arquivos que temos sobre ele e dê a Maddie tudo o que ela quiser. Matt, comunique a imprensa.
Ele assentiu, saindo da sala em seguida. Eu pude ver, através da janela de vidro, que ele esbarrou com Charles do outro lado. Meu supervisor tinha ficado encarregado de interrogar Celestia Davis, mas a julgar pela expressão dele, não tinha tido muito resultado.
— Eu quero que você procure pontos em comum entre Grayson e Sean — Maddie instruiu a Owen, sentando-se bem de frente para ele. — Esse cara descobriu que os dois eram vítimas de abusos e eu quero saber como.
Owen tinha uma linha fina de concentração no rosto, mantendo os olhos atentos na tela do notebook, enquanto os dedos corriam ágeis pela tela. Fiquei em silêncio, assim como , esperando por alguma resposta, tentando não pensar muito sobre nada.
— Tim nasceu no Texas, mas veio para Califórnia com a mãe aos quatros anos de idade. — Owen começou a informar tudo o que eu já sabia, mas era bom manter a agente convidada a par. — Ela morreu de câncer e ele passou a frequentar casas adotivas e abrigos, onde os abusos começaram.
Madison assentiu, mostrando que estava ouvindo.
— Não era muito sociável e não se mantinha muito tempo no mesmo emprego, mas ele costumava ser zelador nas escolas.
— Quais escolas? — Maddie questionou.
— School Palm, Children’s Valley e Hope School.
— O Grayson era da School Palm — informou quando Maddie o olhou.
— Qual a escola de Sean? — questionei.
Se ele mantinha um padrão, tinha que ser aquele. Owen demorou apenas alguns segundos para responder.
— Olive St. School — respondeu. — Mas não há nenhum Tim listado como funcionário.
— Como eu disse — Maddie começou —, ele é um fugitivo, não vai usar o nome verdadeiro. Procure pelas fotos dos funcionários, principalmente os zeladores da escola.
Owen exalou um ar de surpresa. Não disse nada imediatamente, mas olhou para mim e , como se procurasse o melhor jeito de dizer algo.
— O que foi, Owen? — questionei.
Ele coçou a bochecha, desconfortável. — Ele está contratado como Grayson Batters — avisou, girando a tela do notebook na nossa direção.
Havia uma foto do suspeito ali, e o nome do Grasyon logo abaixo. Eu não conseguia acreditar que aquele desgraçado tinha feito aquilo. Despertada por copos de vidro caindo, olhei para , que tinha derrubado tudo que estava ao seu lado.
— Eu vou matá-lo — declarou, furioso.
— É assim que ele escolheu Sean — Watkins continuou, fingindo que nada tinha acontecido. — Ele deve se aproximar das crianças e gerar confiança o suficiente nelas, para que elas confessem algo ruim acontecendo.
Observei passar os dedos pelos fios do cabelo, nervoso e furioso, as mãos cerradas em punho. Deixei um suspiro escapar e desviei o olhar, mantendo a minha atenção em Maddie e Owen.
— Vocês podem preparar a imprensa? — pedi.
Eles assentiram, compreendendo meu pedido e esperei que eles saíssem. Assim que a porta foi fechada, fui até a janela, puxando a cortina, para ter o mínimo de privacidade possível.
— chamei, a voz baixa.
Ele se virou para mim. Seus olhos estavam lacrimejados e era a primeira vez que eu o via tão vulnerável em tanto tempo. Devia estar sendo tão difícil para ele quanto era para mim estar naquele caso.
Caminhei até ele devagar, sem dizer nada. Apenas parei na frente dele e o envolvi em um abraço.
E fiquei ali, abraçada a ele, por mais tempo do que eu podia contar.

dia seguinte — 07:48am


— Ele está ligando.
Levantei imediatamente, atravessando a porta do meu escritório e um corredor, entrando na sala de reunião, onde os pais de Sean estavam. O celular tocava em uma música suave e a Sra. Davis parecia nervosa. Ella, que estava ao lado dela, tentou acalmá-la com palavras baixas que eu não conseguia compreender. Owen estava a postos, pronto para tentar rastrear a ligação. Maddie estava em algum lugar lá fora, comandando uma entrevista, depois do caso ter repercutido na mídia. Nós não divulgamos o nome de Sean e nem o que estava acontecendo de verdade, apenas demos uma história em partes, informando que Celestia Davis tinha sido presa por cometer abusos físicos e psicológicos contra os próprios filhos. Era assim que o sequestrador e assassino iria descobrir que tínhamos feito o nosso trabalho.
— Pode atender — Charles permitiu.
Matt também não estava ali, provavelmente estava fazendo companhia para Watkins.
O Sr. Davis assentiu no exato momento em que adentrou a sala, parando bem ao meu lado. Ele segurou a minha mão por um momento, soltando-a segundos depois, uma promessa silenciosa que tudo ia acabar bem. Pelo menos, dessa vez.
— Em uma hora, vocês devem buscar o Sean na Pacific Avenue, atrás do antigo Galpão — ele informou.
— E o que vai querer em troca? — Sr. Davis questionou, instruído por Ella.
Houve uma risada seca do outro lado da linha.
Na verdade, não quero nada, Sr. Davis — respondeu. — Eu vou entregar um presente para o FBI. Agente , está na escuta?
Olhei para , assentindo.
— Sim.
— Ótimo — murmurou. — Vou me entregar. Mas você deve vir sozinho.
Eu não esperava por aquilo. Na verdade, eu duvidava muito daquela informação, mas não disse nada.
— Preciso de uma prova de vida — avisou.
Por um momento, achei que o suspeito tinha encerrado a ligação, mas logo em seguida, uma voz infantil soou.
— Papai? — Sean chamou.
— Sean! — os pais exclamaram, aliviados.
Você vem me buscar, papai?
Claro que vou, querido, eu… — ele tentou continuar, mas foi cortado.
Uma hora!
E então, a ligação foi encerrada. Owen balançou a cabeça, em negação.
— Ele está usando algum dispositivo para bloquear o acesso de rastreamento — avisou. — Tentei quebrar o bloqueio, mas não deu tempo.
Concordei com um aceno, mostrando que estava tudo bem. Me virei para .
— Você não vai sozinho.
— Eu não estava contando com isso. — Forçou um sorriso, saindo da sala em seguida.
Pedi que Ella continuasse com os Davis e saí da sala com os outros.
— Owen — Charles chamou. — Comunique a SWAT.
Morezzi assentiu e saiu do nosso campo de visão. Madison e Matt vieram até nós.
— O nos contou — Maddie disse primeiro. — E eu preciso avisar: acho que é uma armadilha. Um fugitivo não se entregaria dessa maneira.
— O que você está sugerindo? — meu supervisor questionou.
— Estou dizendo que ele pode se ressentir de vocês pela fuga não ter dado certo da primeira vez — explicou. — Não sei porquê ele escolheu o especificamente, mas devemos estar preparados.
— E cadê ele? — perguntei, me referindo ao meu ex.
— No estacionamento — Matt me respondeu.
Deixei eles conversando entre si e caminhei diretamente até o estacionamento. O local estava praticamente vazio, mas encontrei encostando em um dos carros, bem de frente ao elevador social. Ele devia ter chegado por ali, enquanto optei pelas escadas.
— Eu odiei como o caso antigo terminou — desabafou, assim que me viu chegando. — Não estava no meu melhor momento e perder minha mãe ao mesmo tempo foi…
Me encostei contra o carro ao lado dele, respirando devagar pela primeira vez desde tudo.
— Eu sei.
Observei ele balançar a cabeça, encarando o chão com uma expressão desacreditada.
— Desculpa, — murmurou, a voz meio rouca, como se ele estivesse carregando aquele peso por muito tempo e finalmente estava se dando uma chance de deixar pesar menos. — Sei que provavelmente o divórcio não foi minha melhor escolha e fico me perguntando como as coisas seriam diferentes se eu tivesse…
— Eu entendo melhor agora do que não entendia na época — falei, um sorriso melancólico em meus lábios. — Eu sofri pela morte da sua mãe, , mas não posso imaginar como foi para você perdê-la assim.
Ele levantou a cabeça, inclinando o rosto na minha direção. Prendi a respiração ao perceber o quão próximo nós estávamos, me sentindo patética por estar nervosa, como se eu não estivesse junto dele há tanto tempo antes, mas era diferente agora. acariciou a minha bochecha com os dedos e seus lábios roçaram nos meus por um breve momento.
Estávamos prestes a nos beijar, mas a voz de Owen nos separou.
— A equipe está pronta — avisou.
Me afastei dele no mesmo instante e umedeci os meus lábios, nenhum de nós dois dizendo uma palavra sobre aquilo. Querendo não estender aquele momento, dei as costas para ele e comecei a andar na frente.

— Nossa equipe está inspecionando o local.
Encarei o rapaz que parecia jovem demais para estar na SWAT, atenta a todas informações que ele estava passando. A equipe estava pronta a alguns quarteirões do Galpão, mas perto o suficiente para assistir tudo o que acontecia ao redor dele. devia ir sozinho com os Davis buscar Sean, mas tínhamos homens preparados para invadir o local, caso as coisas dessem errado.
— Obrigada — agradeci ao rapaz, que assentiu e voltou para a própria equipe. Me virei para Maddie, ao meu lado. — Eu me sentiria mais segura se você tivesse ficado na Sede.
Ela riu, segurando na ponta do colete.
— Você está parecendo um pouquinho com o Luke.
— Não posso culpá-lo por estar preocupado. — Dei de ombros. — Não estou dizendo para você ficar atrás de uma mesa a gravidez toda, mas talvez evitar alguns riscos.
Ajeitei meu próprio colete, observando Ella preparar os Davis. Owen não estava em lugar nenhum.
— Eu sei que não é o melhor momento, mas… — Maddie hesitou. Encarei-a, incentivando ela a continuar o que estava dizendo. — Eu queria te convidar para ser madrinha do bebê.
Eu não esperava o convite. Madison me olhou com expectativas e eu tentei controlar a minha emoção, sorrindo verdadeiramente.
— É claro que eu aceito, Maddie — aceitei, feliz por uma notícia boa. — Eu nem sei o que dizer, só…
— Obrigada, . — Pude jurar que vi lágrimas nos seus olhos, mas ela disfarçou tão rápido me abraçando que eu não tive certeza.
— Agora venha, vamos fazer nosso trabalho.
Balancei a cabeça, me afastando do abraço dela e andei até Ella e os Davis.
— Nós estamos prontos — avisei.
Os pais de Sean assentiram.
, Charles e Matt vieram até nós e repassamos o plano de novo, apenas para deixar os Davis seguros. garantiu a segurança deles e quando a SWAT liberou, os três começaram a andar em direção ao galpão. Charles chiou para Owen — que descobri estar em um dos telhados, sendo um dos olhos da operação —, sobre ficar atento. Ele podia ser muito bom com tecnologia, mas era melhor ainda sendo atirador.
— Eles chegaram na entrada do galpão — Owen avisou, através da escuta.
Nós entramos na van. Havia diversas telas mostrando a equipe da SWAT e a nossa em conjunto, além do campo de visão do galpão, onde eu conseguia ver e os Davis parado.
— Atenção! — Owen chiou no meu ouvido. — Movimento, fiquem atentos.
O movimento em si era do suspeito saindo de uma das portas caídas do galpão.
Sean vinha logo atrás dele, segurando a sua mão. Quando viu os pais, ele fez menção de correr, mas o sequestrador não deixou. Ele disse algo que não conseguimos ouvir.
Deveríamos conseguir.
— O que está acontecendo? — Charles questionou a um dos técnicos.
— O agente desligou o microfone, senhor — respondeu.
? — chamei, pela escuta, mas não obtive resposta. — , me responda!
Pela tela, pude ver Sean correndo até os pais. O Sr. Davis pegou-o no braço e começou a voltar com o menino e a esposa direto até nós. Na porta da van, o mesmo rapaz jovem da SWAT apareceu, com uma expressão infeliz no rosto.
— Tenho más notícias — disse, ofegante. — O local está cheio de explosivos.
Meu coração acelerou. Quando olhei pela tela mais uma vez, tinha acabado de entrar no Galpão com o assassino.
— Não temos mais campo de visão do agente — Owen avisou.
— E você só comunica agora? — gritei para o rapaz jovem sobre os dispositivos explosivos. Saí da van, empurrando-o para o lado, desesperada. — , o que você está fazendo?
Surpreendente, a resposta veio dessa vez.
— Estou garantindo que ele não fuja.
, — Minha voz saiu cortada. — O local está cheio de explosivos. Por favor, saia. Nós estamos com a criança.
Ouvi a respiração pesada dele do outro lado.
— Lembra o que você me prometeu, ? — respondeu. — Não posso fazer isso.
Percebi o momento em que ele se livrou da escuta, mas não sem antes ouvir o som de um tiro ecoando. Gritei o nome dele, tentando correr até o Galpão, mas os braços fortes de Matt me impediram.
— Não posso deixá-lo lá dentro — falei. — Tire-o de lá! Agora!
Gritei para o rapaz da SWAT, que não se moveu um músculo sequer.
— Não posso — respondeu. — Não com ameaças de bomba. Nós temos um protocolo.
— Eu não me importo! — berrei, furiosa. — Matthew, me solte!
Me debati contra os braços dele, mas ele era muito mais forte. O som da explosão ecoou e eu gritei por , implorando que ele saísse dali, que eu não o tivesse perdido também. Vi o Galpão pegar fogo e lágrimas grossas descerem pelas minhas bochechas, Matt me segurando antes que eu caísse contra o chão. Ele me abraçou, enquanto eu enterrava o rosto em seu pescoço, chorando tudo o que eu podia. Ouvi alguém pedir para solicitarem o bombeiro, a SWAT discutir protocolos, Maddie berrando alguma ordem.
— Matt me chamou, mas não respondi. — , olhe.
A urgência na sua voz fez eu virar a cabeça. Do outro lado, perto do Galpão, a parte que ainda não estava pegando fogo, andava mancando, até que caiu no chão. Me afastei de Matt, levantando e correndo até o meu ex marido.
!
Me agachei sobre ele, notando um ferimento na sua perna e um sangramento na lateral de seu rosto. Ele olhou para mim, exausto.
— Seu imbecil! — Estapeei-o como eu pude, xingando-o de tudo quanto era nome. — Você não pode me assustar assim!
Continuei reclamando, até ele reunir forças e me impedir de continuar estapeando seus braços, abdômen e peito.
— sua voz saiu em um sussurro rouco. — Acabou.
Pisquei meus olhos, afastando as lágrimas. Havia alívio nas íris dele.
— Você é louco, .
Ele sorriu, acenando positivamente. Escutei alguém gritar por uma ambulância, mas caí sobre ele, em um abraço desajeitado e aliviado.

FIM!

Nota da autora: Sem nota!