06. mirrorball
Codificada por:
Lightyear 💫
Finalizada em: Fevereiro/2026
CAPÍTULO ÚNICO
I want you to knowfoi moldada como uma obra de exibição, para ser vista, desejada, escolhida. Desde cedo, aprendera que agradar era uma virtude e que versatilidade era uma necessidade. Para cada tipo de pretendente, tinha uma face cuidadosamente polida. Para cada expectativa, um reflexo adequado. Nada nela era ao acaso, e sim preparo. não foi criada para ser inteira, mas para ser múltipla. Era capaz de dançar conforme a música mudasse, de se adaptar ao tom da conversa, seja rindo com leveza, silenciando com elegância ou opinando apenas quando solicitado. Um perfeito globo espelhado, que encanta enquanto gira, capturando a luz e a devolvendo em fragmentos cintilantes. O problema era que, assim como um globo espelhado, se por um descuido ela quebrasse, seria em um milhão de pedaços pequenos demais para juntar novamente.
I’m a mirrorball
I can change everything about me to fit in
Naquela noite, contudo, não havia espaço para descuidos.
O baile de máscaras se espalhava pelo salão como um espetáculo cuidadosamente ensaiado, a decoração de circo abraçando o exagero com orgulho. Tecidos vermelhos e dourados pendiam das paredes como cortinas de palco, candelabros refletiam luz nas máscaras elaboradas, músicos tocavam enquanto acrobatas se equilibravam em plataformas elevadas, risos e aplausos ecoavam, taças tilintavam, e tudo parecia uma grande apresentação coletiva onde ninguém ousava errar. entrou como sempre entrava, com a postura impecável, passos calculados e um sorriso educado. Cumprimentava conhecidos, aceitava elogios com modéstia treinada, inclinava a cabeça no ângulo correto. Evitava, com maestria silenciosa, cruzar o caminho do homem ao qual fora prometida, lorde Berbrooke. Seus pais haviam se certificado de que ela estivesse perfeitamente ajustada para ele naquela noite. E não é que Nigel fosse desagradável. Pelo contrário, ele era uma companhia minimamente simpática, não a interrompia, além de não fazer mal aos olhos. Ainda assim, se esquivava, adiando o inevitável como quem tenta prolongar os últimos instantes antes do fim de uma apresentação.
You are not like the regularsFoi então que o salão pareceu mudar de foco. A porta principal se abriu e um novo convidado surgiu entre os tecidos e as luzes. Ele usava máscara, como todos os outros, mas havia algo em sua presença que se impunha mesmo assim. percebeu primeiro o silêncio breve que se espalhou, depois os olhares que seguiram a mesma direção. Não foi a única a notar. As jovens ao redor se endireitaram, cochichos começaram a circular, e ela sentiu o próprio olhar demorar por tempo demais no homem de cabelos dourados que transitava pelo salão com uma naturalidade quase indecente, como se não precisasse disputar atenção porque ela simplesmente lhe era concedida. Ele sorria com facilidade, um sorriso aberto, encantador, e, mesmo por trás da máscara, havia algo nele diferente dos outros homens, previsíveis demais, moldados pela mesma arrogância entediante, que a bebida só ajudava a expor.
The masquerade revelers
Drunk as they watch my shattered edges glisten
— . — A voz de sua mãe cortou o ar como um puxão invisível. Ela piscou, recompôs o sorriso e virou-se, sendo imediatamente guiada pela mão firme do pai até um pequeno círculo próximo à pista de dança, onde estava Berbrooke – impecável, orgulhoso, absolutamente entediante. — Estávamos à sua procura. Lorde Berbrooke estava ansioso para vê-la. — A mais velha disse, ajustando-lhe a postura com um toque quase imperceptível.
— Senhorita . — Nigel inclinou a cabeça educadamente. — Estávamos comentando sobre as recentes movimentações no Parlamento.
assentiu, inclinando-se no gesto correto. Ela conhecia cada passo daquela dança.
— De fato, é um tema… delicado. — Respondeu, escolhendo as palavras.
Então, começaram a conversar – ou algo parecido com isso. O lorde falava, seus pais concordavam, e intercalava comentários ensaiados, opiniões seguras, sorrisos contidos. Ainda assim, sua atenção insistia em escapar, como se estivesse sendo atraída. O homem estava mais perto agora. Ela o via entre um intervalo e outro da conversa, sendo abordado por jovens ansiosas, convidado para dançar, arrancando risos, aceitando alguns pedidos e recusando outros com uma gentileza sútil. Em determinado momento, sentiu antes mesmo de ver. Quando ergueu os olhos, encontrou o olhar dele fixo no seu, e nenhum dos dois desviou.
— Ah! — Nigel interrompeu a própria fala ao notar a aproximação. — Olha quem decidiu finalmente aparecer.
O homem soltou um sorriso ainda mais encantador agora que estava perto.
— Londres tem o hábito de me puxar de volta quando menos espero.
— Senhores… — continuou o lorde, colocando a mão brevemente nas costas dela. — Permitam-me apresentá-los ao lorde , um velho colega.
Então aquele era seu nome.
— Mas podem me chamar de . — Ele disse, inclinando a cabeça na direção de . — É um prazer. — Sua voz era baixa e agradável sem esforço.
— O prazer é inteiramente meu. — Respondeu ela, automaticamente.
A conversa seguiu, agora girando em torno dele. De suas viagens, dos anos passados fora, dos lugares que conhecera. Todos falavam, enquanto soltava apenas comentários pontuais, apesar de, no fundo, querer saber mais sobre aquelas histórias. respondia com interesse genuíno, sem ostentação, como se o mundo não fosse algo a ser exibido, mas vivido. E então, por algum motivo que ela não soube explicar, o círculo se desfez. Talvez seus pais tivessem sido chamados, talvez Nigel tivesse sido requisitado, ou até mesmo o espetáculo tivesse mudado de ato. Quando se deu conta, restavam apenas ela e lorde .
— A senhorita não vai se apresentar? — Ele perguntou após alguns segundos, o tom leve, quase divertido.
arqueou levemente a cabeça, o sorriso surgindo sem ensaio.
— Mas não seria esse o intuito de um baile de máscaras? Não se apresentar?
Os olhos dele brilharam por trás da máscara.
— Justo. Então ficaremos assim, dois desconhecidos cercados pela plateia.
Antes que ela respondesse, a música cessou abruptamente. O burburinho do salão diminuiu quando as luzes se concentraram no centro, onde artistas se posicionavam. Um novo espetáculo começava. Acrobatas subiam em tecidos vermelhos, equilibrando-se no ar enquanto a orquestra retomava uma melodia lenta e hipnotizante.
— O espetáculo parece adequado. — Ele comentou, quebrando o silêncio, enquanto observava os acrobatas se elevarem no ar. — Belo, calculado… e perigosamente próximo da queda.
sorriu, um gesto leve, ensaiado.
— É exatamente esse o objetivo, não é? Encantar sem deixar transparecer o esforço.
— E a senhorita faz isso com excelência.
Ela sentiu o calor subir pelo rosto, quase imperceptível, mas real. Ainda assim, respondeu sem hesitar:
— A prática ajuda.
inclinou a cabeça, estudando-a agora com mais atenção.
— Sempre sabe o que dizer.
— Perdoe-me?
— Não como uma crítica. — Esclareceu, rápido. — É… curioso. Cada resposta sua vem no tempo exato, com o tom exato. Como se já estivesse preparada para esta conversa antes mesmo dela começar. — Não havia acusação em sua voz, apenas curiosidade.
Por um instante breve demais para ser notado por qualquer outra pessoa, vacilou, surpresa o suficiente para esquecer qual expressão deveria vestir.
— Imagino que isso seja apenas educação. — Respondeu, recuperando-se. — Somos todos instruídos a…
— A agradar? — Completou ele, com suavidade. — Sim. Mas a senhorita vai além disso.
O silêncio se alongou, preenchido apenas pela música e pelos suspiros da plateia ao redor do espetáculo. sentiu-se estranhamente exposta, como se ele tivesse apontado para algo que ela sempre soubera, mas jamais ousara nomear. Então ajustou as luvas, desviando o olhar por um segundo antes de reencontrar o dele.
— Não é exatamente isso que se espera de mim?
— Os outros, talvez. Mas confesso que gostaria de conhecê-la fora das expectativas. Ter uma conversa… não banal. Algo que não exija respostas perfeitas. — abriu a boca para responder, mas foi interrompida quando ele estendeu a mão num gesto elegante e seguro. — Dançaria comigo?
Ela hesitou. Naquela noite, fora moldada para um único papel. Para um único homem. Sabia que cada minuto longe de Nigel era um desvio do roteiro cuidadosamente escrito por seus pais.
— Eu… — ainda assim, algo dentro dela já havia se deslocado. — Suponho que uma dança não faria mal.
— Então permita-me. — sorriu, pegando sua mão com delicadeza para anotar o nome no pequeno cartão preso por uma fita em seu pulso. O toque foi breve e, mesmo por cima do tecido fino da luva, foi o suficiente para um arrepio percorrer a pele. Quando terminou, lançou um olhar curioso ao cartão ainda quase intocado. — Nenhum outro nome? — Perguntou, sem malícia aparente.
Ela engoliu em seco e inclinou a cabeça, tentando disfarçar.
— A noite ainda é jovem.
Ele aceitou a resposta, mas o sorriso que surgiu em seguida carregava algo mais afiado.
— Melhor assim. Teremos tempo suficiente para conversar sobre muitas coisas, até que eu descubra algum assunto no qual a senhorita não seja tão especialista.
riu, genuinamente, antes que pudesse se conter.
— Está confiante demais.
— Apenas gosto de desafios. Ainda assim… não vai se apresentar?
Ela sustentou o olhar, o sorriso surgindo lento, quase travesso.
— Se o senhor é tão perspicaz quanto parece, descobrirá meu nome antes que a noite termine.
E, contra toda vontade, contra todo preparo, afastou-se dele com um último sorriso por cima do ombro, sabendo que, a partir daquele instante, nenhuma das versões que aprendera a ser parecia suficiente.
I’m still trying everything to keep you looking at meAs danças começaram como em todos os outros bailes, com os cavalheiros conduzindo as damas até o centro. dançou uma única vez com Nigel. Ele tinha boa vontade, isso era inegável, mas também era completamente desprovido de ritmo. Em menos de uma música, conseguiu pisar nos pés dela mais de quatro vezes, além de conduzi-la com uma firmeza equivocada, como se acreditasse que força compensava falta de coordenação. sorriu, como sempre fazia.
— Perdoe-me. — Disse ele pela terceira vez.
— Não foi nada. — Respondeu, embora o pé esquerdo começasse a protestar silenciosamente.
Ao final da dança, encontrou uma abertura e escapou com a elegância de quem fugia de uma situação extremamente incômoda sem parecer alarmada. Mal tivera tempo de recuperar o fôlego quando sentiu a presença familiar e controladora ao seu lado.
— . — Chamou a mãe, segurando-lhe o braço com suavidade estratégica. — Vejo que o cartão já está preenchido, imagino de quem seja. — O olhar atento pousou sobre o pequeno cartão preso à luva da filha, que escondeu um pouco a mão por trás do vestido. — Lorde Berbrooke parecia… particularmente encantado. Se continuar assim, não me surpreenderia se um pedido surgisse antes mesmo do fim da temporada.
assentiu no reflexo.
— Fico feliz em ouvir isso, mamãe.
Mas seus olhos vagavam. Do outro lado do salão, dançava com outra jovem. Ele a fazia rir, girando-a com facilidade, passos seguros e precisos. Seus movimentos eram naturais, confiantes, como se a música o reconhecesse. percebeu o contraste de imediato. Não apenas com Nigel, mas com a maioria dos homens presentes. E, mais inquietante ainda, parecia procurá-la entre um passo e outro.
— , querida. — Insistiu a mãe, já olhando ao redor. — Lorde Berbrooke certamente adoraria outra dança.
abriu a boca para responder, mas a música cessou antes que pudesse ser convocada novamente. O salão se reorganizou, vozes se elevaram, e, aproveitando o instante, a mais nova se afastou com uma desculpa vaga.
— Apenas um momento. Preciso pegar um refresco…
Ela se virou, andando o mais rápido que conseguia para fugir daquela situação, até esbarrar em alguém.
— Justamente quem eu procurava. — estava diante dela, o sorriso fácil agora tingido de algo mais intencional. — Estava começando a achar que a senhorita havia desaparecido. — Disse ele, estendendo a mão. — Aceitaria esta dança?
olhou para a mão oferecida, hesitando só por um segundo, então aceitou.
— Com prazer.
Ele entrelaçou os dedos aos dela e a conduziu até o centro do salão. A música recomeçou, mais lenta, mais íntima. posicionou a mão em sua cintura com cuidado, como se pedisse permissão sem palavras. Dessa vez, não precisou sorrir para disfarçar dor, muito menos antecipar passos. conduzia com leveza, atento aos movimentos dela, ajustando-se quando necessário. Era simples, natural e extremamente perigoso.
— Vejo que sobreviveu à pista até agora. — Comentou ele, baixo, divertido.
— Não foi fácil. — Ela respondeu, sentindo-se estranhamente leve. — Alguns homens acreditam que dançar é uma batalha.
— E outros esquecem que é uma conversa.
A música os mantinha próximos demais, e espaço entre eles diminuindo a cada volta. conduzia com a mesma atenção que observava, como se a dança fosse apenas uma extensão da conversa que insistia em se aprofundar.
— . — Disse, de repente.
Ela ergueu o olhar, surpresa pelo som do próprio nome nos lábios dele.
— Então descobriu.
— Não foi difícil. Nesta festa, todos falam de todos. Seu nome circula com uma familiaridade curiosa.
— Imagino que não seja um elogio.
— Pelo contrário. — O polegar dele acariciou de leve a lateral da mão dela, um gesto quase distraído. — Falam de você como se fosse… inevitável.
sentiu o peito apertar.
— E o senhor, lorde . — Devolveu o tom — Também circula com bastante entusiasmo.
— Culpa das viagens. O mundo é maior do que os mapas fazem parecer.
Ela se permitiu perguntar mais, curiosa de verdade agora. falou de cidades que não constavam nos mapas sociais de Londres, de mercados barulhentos, de idiomas diferentes, de pessoas que viviam sem se preocupar com quem observava.
— Deve ser libertador. — Murmurou , o olhar encantado.
— É. Principalmente quando ninguém espera nada específico de você.
Ela não respondeu. Apenas girou com ele, o vestido roçando-lhe as pernas, a mão dele firme demais em sua cintura para ser considerada apenas formalidade.
— Disse que gostaria de encontrar um assunto no qual eu não fosse especialista… — comentou ela, tentando retomar o controle. — Já encontrou?
— Ainda não. Política, música, literatura, dança… a senhorita transita por tudo com uma facilidade impressionante.
— Fui bem instruída.
— Não duvido, mas começo a suspeitar que isso também seja parte do espetáculo. — Ele inclinou-se um pouco mais, o tom baixando. — Posso perguntar qualquer coisa?
sentiu o coração acelerar.
— Qualquer coisa. — Respondeu, sem pensar.
parou por um segundo, o suficiente para que o mundo ao redor parecesse desacelerar, e fixou o olhar no dela, sério agora, intenso.
— A senhorita permitiria que eu fosse… um pouco indecente?
O ar entre eles pareceu se fechar e engoliu em seco.
— Depende… — respondeu, finalmente. — O que o senhor considera indecente?
O sorriso que surgiu nos lábios dele foi lento, quase satisfeito.
— Algo que não se aprende em salões de baile… algo que não possa ser ensaiado.
A mão dele ajustou-se em sua cintura, mais quente, e, pela primeira vez naquela noite, ela percebeu que não sabia qual versão de si deveria oferecer em resposta. Então assentiu, ainda que o corpo tivesse ficado tenso em antecipação. inclinou-se levemente, o rosto próximo demais, a máscara quase roçando a dela.
— O que a senhorita faz quando deseja tanto alguém que o corpo começa a denunciar antes que a mente perceba? — Perguntou, baixo o suficiente para que apenas ela ouvisse.
A música seguiu, implacável, obrigando-a a continuar girando enquanto aquela pergunta se espalhava por dentro dela como fogo contido. Ninguém nunca lhe perguntara aquilo. Para falar a verdade, ela mal sabia o que responder. Sequer havia sentido aquilo antes. Abriu a boca, mas nenhuma frase ensaiada veio. Nenhuma resposta elegante, nenhuma saída segura. Apenas o reconhecimento incômodo de que seu corpo, naquele exato momento, estava perigosamente desperto, a respiração um pouco mais curta, o pulso acelerado sob as luvas.
— Eu… — começou, mas parou.
não a pressionou. Apenas observou, atento, como se estivesse menos interessado na resposta do que na reação.
— Não precisa responder. Às vezes, o silêncio já diz o suficiente. — Disse por fim, com suavidade. — A senhorita passa a vida inteira sendo o que esperam. Imagino que até o desejo precise obedecer a regras.
Ela ergueu o olhar para ele, vulnerável de um jeito que jamais permitiria em público.
— O desejo não é algo que me ensinaram a administrar. — Confessou, finalmente.
O sorriso dele foi lento, intenso, nada parecido com os outros que ela havia visto naquela noite.
— Então talvez esse seja o único assunto em que ainda não seja especialista.
A música terminou e, por um instante, acreditou que ainda estivesse presa ao silêncio que deixara entre eles. O salão voltou a existir de repente, barulhento, vivo demais, quando uma voz conhecida se interpôs.
— , minha querida. — Nigel surgiu ao lado deles, satisfeito, como se nada de extraordinário tivesse acabado de acontecer. — Espero não estar interrompendo, afinal já é de conhecimento de todos que a senhorita e eu… — ele não precisou concluir, entendeu no mesmo instante.
viu o exato momento em que algo se reorganizou por trás da máscara dele. Não houve raiva, nem choque, apenas compreensão. Um pequeno som escapou de seus lábios.
— Ah. — Foi quase um riso leve, contido. Um gesto de quem finalmente encaixava todas as peças. — Perdoe-me, não imaginei que estivesse… prometida. — Disse enfim, recuando um passo e inclinando a cabeça, voltando os olhos para , agora com uma distância nova, cautelosa. — Lamento o mal-entendido, senhorita. — E então ele se afastou. Simples assim.
And when I break it’s in a million piecessentiu o ar faltar. O peito apertou, a respiração acelerou sem pedir permissão e o corpo inteiro enrijeceu. O calor que antes a envolvia se dissolveu, deixando apenas um vazio incômodo. Nigel continuava falando. Comentava algo sobre a dança, sobre a noite, sobre expectativas futuras. ouvia, assentia, sorria – automaticamente, como sempre – mas, por dentro, algo rachava. A única pessoa naquela sala que parecia enxergar além da máscara acabara de perceber que ela era exatamente aquilo que aparentava ser: um reflexo bem treinado. Uma farsa socialmente aceita.
— . — A mão da mãe surgiu em seu pulso, firme, precisa. O toque fez seu estômago revirar. — Venha comigo. — Foram apenas alguns passos para o lado, discretos o suficiente para não chamar atenção. A mãe baixou o olhar até o cartão preso à luva da filha. O nome ali escrito não passou despercebido. — ? O que estava pensando? — tentou responder, mas a garganta parecia estreita demais. — Este baile está chegando ao fim e não é momento para improvisos. Você sabe exatamente o que se espera de você. Comporte-se. Não agora. Não esta noite.
assentiu, apesar do corpo já não obedecer como antes. Quando conseguiu se afastar, foi quase uma fuga. Passou por corredores laterais, escapou de olhares, abriu uma porta qualquer e entrou em uma sala vazia, mal iluminada, longe da música e dos aplausos. Ali, finalmente, parou. As mãos tremiam, a respiração vinha curta, irregular. Apoiou-se na parede, sentindo algo se romper de vez. Dentro de si, sentiu os milhões de fragmentos se estilhaçarem, pequenos cacos invisíveis, impossíveis de recolher. A música ainda chegava até ela, abafada pelas paredes, como se viesse de outro mundo. Um eco distante de cordas e risos que já não lhe pertenciam. fechou os olhos por um instante e tudo o que restou foi a lembrança do toque de em sua cintura, a firmeza gentil com que a guiara, a facilidade perigosa de conversar sem pensar em quem deveria ser… a pergunta.
O que a senhorita faz quando deseja tanto alguém que o corpo começa a denunciar antes que a mente perceba?
Com dedos trêmulos, levou as mãos ao rosto e retirou a máscara. O ar pareceu diferente sem ela, mais frio, mais honesto. Depois, descalçou os sapatos, deixando-os de lado como se fossem parte de um figurino que já não precisava vestir. E então, sozinha naquela sala vazia, começou a dançar. Sem plateia, passos corretos ou expectativa. Moveu-se como se ainda estivesse sendo guiada, como se as mãos de ainda estivessem ali, conduzindo-a com cuidado. Girou devagar, os pés descalços tocando o chão frio, o vestido acompanhando o movimento em ondas suaves. Era como se os últimos minutos não tivessem existido. Como se nada tivesse se quebrado. Como se ainda estivesse brilhando apenas para ele.
Hush, when no one is around my dearDo outro lado da porta, permaneceu imóvel. Havia ido atrás dela sem perceber, atraído por algo que não soubera nomear desde o primeiro instante em que a vira no salão. Quando encontrou a fresta entreaberta e viu ali dentro, sem máscara, dançando como se finalmente respirasse, decidiu observar a cena em silêncio, o coração apertado de um jeito inesperado, certo agora de algo que suspeitara desde o início: nunca fora apenas um reflexo bem polido. Havia nela uma luz própria, rara, que só aparecia quando ninguém exigia que ela brilhasse. sorriu, encantado por ela desde o primeiro minuto.
You’ll find me on my tallest tip-toes
Spinning in my highest heels, love
Shinning just for you
ainda girava quando sentiu a mudança no ar, parando no meio do movimento, o coração disparando ao perceber a silhueta refletida no espelho lateral da sala. Virou-se, levando a mão ao peito, como se tivesse sido flagrada fazendo algo proibido.
— Eu… — ele começou , imediatamente consciente da invasão. — desculpe. Não pretendia interromper.
Ela não respondeu de imediato. Apenas o observou, os pés ainda descalços, o rosto exposto pela primeira vez naquela noite, sem máscara, sem defesa. deu alguns passos à frente, mantendo a distância respeitosa, como se temesse quebrar algo frágil demais.
— Não quis assustá-la, mas achei… que devia vê-la mais uma vez antes do fim do baile. — O olhar de percorreu-a devagar, como se estivesse tentando memorizar cada detalhe, e algo nele suavizou. — Eu imaginava que fosse bonita, mas… — ele não terminou a frase.
sentiu o calor subir pelo rosto e desviou o olhar, um gesto pequeno, quase tímido. Era estranho ser vista daquele jeito – não como debutante, mas como mulher. Com um movimento simples, levou a mão à própria máscara e a retirou. Ela ergueu os olhos novamente. A confirmação foi imediata. Ele era ainda mais bonito do que imaginara. Os traços simétricos, o sorriso honesto, o olhar que parecia não exigir nada além do que ela estivesse disposta a oferecer. Eles ficaram ali, frente a frente, separados por poucos passos e algumas palavras não ditas.
— Agora estamos quites, vistos como realmente somos.
— E isso muda alguma coisa?
a observou por um longo instante antes de responder.
— Não esta noite. — Ela assentiu lentamente. A resposta doeu, mas não surpreendeu. Eles permaneceram ali, frente a frente, como se aquele fosse o último quadro de um espetáculo silencioso. — Foi um prazer dançar com a senhorita, mesmo quando o mundo inteiro parecia exigir outra coreografia.
deu um sorriso pequeno, verdadeiro.
— Foi a única dança que não precisei ensaiar.
— Até algum dia, senhorita . — inclinou a cabeça, um gesto de despedida elegante, e se afastou.
ficou ali, sozinha outra vez.
— Até algum dia.
Mas, dessa vez, não completamente estilhaçada, e sim com a certeza de que, mesmo que voltasse a girar sobre outras luzes, uma parte dela jamais refletiria da mesma forma, porque alguém a tinha visto inteira. Porque alguém tinha visto sua versão original naquela noite. Algumas luzes ainda permaneciam acesas dentro dela. E talvez aquilo fosse o suficiente para continuar girando.
I’m a mirrorball
And I’ll show you every version of yourself tonight
FIM!
Nota da autora: Eu amei escrever essa fic e, por mais que me doa, a letra pedia um final desses. Mas não significa que eles não podem se encontrar novamente rs. Espero que tenham gostado e comentem o que acharam💜