Codificada por: Saturno 🪐
Finalizada em: 31/01/2026
CAPÍTULO ÚNICO
O que é idade, afinal?
Um número?
Uma desculpa conveniente?
Ou só a forma mais educada que as pessoas encontraram de dizer não quando não sabem exatamente por quê?
Porque, se você parar pra pensar, idade nunca impediu ninguém de querer. Só de admitir.
É engraçado como funciona. Quando você é novo demais, dizem que você vai entender quando crescer. Quando cresce, percebem que talvez tenham subestimado você… mas aí já é tarde demais pra voltar atrás sem parecer contraditório.
Idade é relativa. Sempre foi.
Depende de quem olha, de quem deseja, de quem se permite.
— Quantos anos você tem mesmo? — Alguém perguntou, do outro lado da mesa, rindo alto demais, enquanto girava o copo na mão.
— Vinte e dois. — Respondi automaticamente, apesar da minha cabeça já estar em outro lugar.
Porque a verdade é que ninguém nunca perguntou minha idade quando me viu sair sozinho de um bar às três da manhã. Ninguém nunca achou cedo demais quando eu aprendi a beber, dirigir, mentir, fingir que não me importava. Só acharam cedo demais quando o assunto virou Keating. Tá, muitos diriam que o motivo era ela ser a irmã mais velha do meu melhor amigo, mas não era por isso. sempre foi a “inalcançável”, a “muito velha pra você”, mas pra mim ela sempre foi… perfeita. E simplesmente aconteceu. Quando crianças, eu e Rob viramos amigos e ela a minha paixonite platônica, se é que podia chamar assim. Eu era obcecado por ela, na verdade. Droga, ela foi o motivo da minha primeira ereção. Pensei que finalmente tinha conseguido superar, conhecendo outras garotas, ficando afastado por alguns anos depois que ela foi trabalhar em outro estado, mas ao vê-la de frente para mim tudo havia sido em vão. Ela estava sentada do outro lado da roda, pernas cruzadas e o copo apoiado de leve na coxa, me encarando com um olhar debochado, como se eu fosse uma piada. Quando se tratava dela, eu era mesmo.
— Vinte e dois? Caralho, achei que você fosse mais velho. — Outra pessoa soltou, arqueando a sobrancelha.
— Ele tem cara de quem já viveu demais. — Robert comentou, meio distraído, apoiado no encosto do sofá. — Ou bebe demais… uma das duas.
— Ou as duas. — Completei, dando de ombros e sorrindo de canto, mas meus olhos não saíram dela.
inclinou levemente a cabeça, como se aquela resposta tivesse confirmado algo que ela já suspeitava.
— E aí, quem vai pegar mais bebida? — Alguém perguntou, já se levantando. — A música tá boa demais pra ficar sentado.
A roda começou a se desfazer aos poucos, gente indo pra cozinha, outros se levantando pra dançar, vozes se misturando com o refrão alto demais. Quando me dei conta, só nós dois ainda estávamos sentados ali. descruzou as pernas devagar, apoiando o copo na mesa baixa à frente. Finalmente desviou o olhar do meu, só pra se levantar.
— Hewson… quanto tempo. — Ela disse enquanto passava por mim, perfume caro demais para aquele tipo de festa. — Você cresceu.
Eu esperei o suficiente para não parecer ansioso. O suficiente para parecer confiante.
— Depende… — respondi, me levantando também. — Crescer é relativo, lembra?
Ela virou o rosto na minha direção, agora bem mais perto do que antes, os olhos claros me analisando de cima a baixo, sem pressa nenhuma.
— Cuidado… você ainda pode ser novo demais pra algumas coisas.
Eu sorri e inclinei levemente a cabeça.
— A gente só descobre tentando, não é? — O silêncio entre nós durou só o tempo de um batimento acelerado, o suficiente para eu juntar o pouco de coragem que me restava. — Então, o que tem feito?
me encarou por um instante a mais do que o necessário, como se estivesse decidindo o quanto dizer, depois deu de ombros.
— Fui transferida de volta pra cidade. Acabou sendo melhor do que eu imaginava, porque eu tava com saudade de casa. — Levou o copo à boca, bebendo um gole lento. — E… ficar longe de algumas dores de cabeça também ajudou.
Franzi a testa antes mesmo de perceber.
— Dores de cabeça?
O canto da boca dela se curvou num sorriso torto – não divertido, mas irônico.
— Terminei o noivado.
Aquilo me atingiu mais forte do que deveria.
— Você… — engoli em seco. — O quê?
— Descobri que ele era um merda. — Disse, simples, direta, como quem comenta sobre o clima. — Mentiroso, controlador, cheio de promessas vazias. Achei melhor cortar antes de virar mais um erro caro.
Ela me observava com atenção agora, como se estivesse medindo minha reação.
— Sinto muito. — Falei, mesmo sem saber se era exatamente isso que eu sentia.
— Não sinta. Foi libertador, na verdade. — Havia algo diferente nela. Mais leve, mais solta, como se finalmente tivesse largado um peso invisível. — E você? O que anda fazendo da vida? Ainda tão com a bandinha que vocês tinham no colégio?
Pisquei uma vez, surpreso com a pergunta. Não porque fosse íntima demais, mas porque vinha dela.
— Tô terminando a faculdade de artes… e a “bandinha” ainda existe.
— Ainda? — arqueou a sobrancelha.
— Tá indo melhor do que eu esperava, na verdade. A gente tem tocado fora da cidade, umas músicas começaram a rodar… nada absurdo, mas já é alguma coisa.
— Olha só, quem diria.
— Achei que o Rob te mostrava as coisas. Ele vive falando da banda pra todo mundo.
O sorriso dela vacilou por um segundo quase imperceptível.
— Ele fala muita coisa… — respondeu, desviando o olhar e dando um gole no copo. — Mas nem sempre eu paro pra ouvir. — Algo naquela resposta soou como um corte limpo. Antes que eu pudesse insistir, ela voltou os olhos pra mim, mudando o rumo da conversa com facilidade demais. — Continua tentando provar que é mais velho do que realmente é? — Perguntou, inclinando a cabeça.
Dei uma risada baixa.
— Talvez eu só tenha cansado de ser visto como menos do que sou.
Os olhos dela percorreram meu rosto devagar, demorando um pouco mais nos lugares errados, como se estivesse redesenhando mentalmente a imagem que guardava de mim.
— Cuidado, esse tipo de conversa costuma levar a decisões ruins.
— Engraçado… — me aproximei meio passo, sentindo o espaço entre nós diminuir. — Você não parece alguém tentando evitar isso.
Por um instante, ninguém falou nada. A música pulsava ao redor, abafada, distante. Eu conseguia contar a respiração dela. Sentir aquele perfume misturado ao álcool, à noite, não tinha nome.
— ! — A voz de Rob surgiu às minhas costas antes que pudesse responder qualquer coisa. Ela ainda me encarava quando virei o rosto, o sorriso perigoso nos lábios ficando para trás. — Cara, vem cá, preciso de você um segundo. — Ele disse, já puxando meu braço de leve.
Dei um último olhar na direção dela antes de me afastar. já tinha voltado a atenção pro copo, como se aquele momento tivesse sido só mais um detalhe da noite. Como se não tivesse sido nada.
Mentira.
— O quê? — Perguntei quando já estávamos perto da cozinha, longe o suficiente.
— O pessoal quer saber se a gente topa tocar semana que vem… — Rob falou, empolgado. — Aquela casa de festas nova que abriu no centro. — Assenti automaticamente, mas minha cabeça ainda estava em outro lugar. — O pai do Logan é dono do lugar e tava procurando alguém…
— Cara… — falei, sem conseguir segurar. — Você nunca mostrou as músicas da banda pra ?
Robert me olhou como se eu tivesse feito a pergunta mais absurda da noite.
— Como não?
Franzi a testa.
— Ué, ela disse que…
— … — ele riu. — Minha irmã é literalmente a primeira pessoa que escuta todas as músicas. Sempre foi. Quando eu recebo uma demo, mando pra ela antes de qualquer um.
Aquilo me pegou desprevenido.
— Sério?
— Sim. — Ele deu de ombros. — Ela adora. Vive dizendo que a gente tinha potencial, mesmo quando a banda ainda era meio caótica.
Fiquei em silêncio por um segundo.
… ouvindo nossas músicas, acompanhando de longe, prestando atenção.
Levantei o olhar quase por instinto. Ela estava do outro lado da sala agora, conversando com alguém, mas virou o rosto na mesma hora, e nossos olhos se encontraram por um segundo rápido demais pra ser casual. Nenhum dos dois sorriu de imediato, mas, quando ela ergueu levemente a taça, num gesto quase imperceptível, algo dentro de mim cedeu. E eu não consegui evitar o sorriso que surgiu no meu rosto.
Talvez a idade seja só isso: o intervalo entre quando alguém começa a querer e quando o outro finalmente percebe que sempre quis também.
E eu não iria para a cama até conseguir o que queria.
A casa parecia menor agora, quente demais, cheia demais. Gente rindo, dançando, se esbarrando e, ainda assim, minha atenção se reduzia a um único ponto do outro lado da sala: ela. O jeito como inclinava o corpo quando ria, como esquecia o copo na mão quando se distraía, como sempre parecia estar indo embora, mas nunca ia de fato. Eu pensava em tudo o que ela via quando me olhava agora. Não o garoto que sentava no chão da sala esperando Rob terminar o dever, não o adolescente magricela que ela fingia não perceber, mas alguém que ocupava espaço, que sustentava o olhar, que não pedia permissão. E acho que aquilo a incomodava. Em algum momento, estávamos na mesma roda de novo. Eu comentava qualquer coisa só para ouvir a voz dela reagindo, mesmo que fosse com ironia.
— Você sempre foi assim? — provocou, depois de eu fazer algum comentário atrevido demais pra situação. — Ou isso é novo?
— Assim como? — Perguntei como se não soubesse do que ela estava falando.
— Soltando essas provocações aleatoriamente.
— Depende… — inclinei o corpo em sua direção, mas sem tocar. — Tem coisas que só aparecem quando a pessoa certa tá por perto.
Ela revirou os olhos, mas não se afastou.
— , sabe que eu ainda sou velha demais pra você…
Aquilo me fez rir de leve.
— Não. A diferença é que antes eu era uma criança. Agora você só não quer admitir que o tempo passou.
— Talvez porque eu saiba onde isso pode parar.
— Que interessante… — me inclinei um pouco mais, o suficiente para ela sentir minha presença sem eu encostar. — Eu tô exatamente contando com isso.
A mão dela roçou na minha quando alguém passou por trás, apertando o espaço, e senti seu corpo enrijecer por um segundo. Eu sabia que bastava um passo a mais, uma palavra certa, ou um toque menos cuidadoso para acabar com aquele meio-termo, mas também sabia que, se fizesse isso cedo demais, ela colocaria a culpa na bebida, e eu definitivamente não queria ser um erro de madrugada. Queria ser a escolha que ela fazia apesar de saber exatamente o que estava fazendo.
Alguém gritou pedindo música ao vivo e a casa respondeu com aplausos tortos, copos erguidos, aquela empolgação meio caótica que só existe quando a noite já passou do ponto certo. Robert olhou na minha direção antes mesmo de perguntar qualquer coisa e eu assenti, lançando um último olhar para antes de me afastar. Minutos depois, estava com a guitarra nas mãos, luz improvisada demais, som longe de perfeito. Quando minha voz entrou, senti o ambiente mudar, como se a festa tivesse se recolhido um pouco para dar espaço àquilo.
Takes me all night, takes my whole life…
Vi quando respirou fundo, como se não esperasse aquilo. Como se cada palavra tivesse encontrado um lugar específico dentro dela.
Just won’t feel right… until I have you.
descruzou os braços sem perceber. O copo desceu devagar demais. Os olhos não saíram de mim nem por um segundo. Quando o refrão chegou, mais alto, mais direto, senti o impacto atravessar o espaço entre nós.
I don’t wanna go to bed without you!
Ela desviou o olhar por um instante, mas voltou. Quando a última nota morreu, a casa explodiu em aplausos, assobios, gritos. Rob bateu nas minhas costas. Alguém falou alguma coisa que eu não ouvi. E, no meio do barulho todo, enquanto eu descia do palco improvisado, me esperava com um sorriso contido.
— Tinha que ser justo essa. — Falou, se referindo a música.
— Qual o problema? Não gosta da ideia de não ir pra cama sozinha?
Ela virou o rosto devagar na minha direção.
— Gosto da ideia de dormir, só não de decisões impulsivas.
Me aproximei o suficiente pra que só ela ouvisse.
— E quem falou em dormir? — O silêncio que se seguiu era carregado.
fechou os olhos por um segundo e respirou fundo. — Isso não tá facilitando as coisas. — Admitiu, quase contra a própria vontade.
— Não era pra facilitar.
Ela riu, cansada, rendida só até certo ponto.
— Você vai acabar me convencendo.
— Eu sei.
— Convencido.
— Persistente. — Corrigi. — Talvez eu só esteja esperando a hora certa.
deu um gole no drink, os olhos nunca deixando os meus.
— A hora certa costuma trazer consequências.
— Eu sei.
— E mesmo assim?
Inclinei o corpo um pouco mais, sentindo o calor dela, o perfume, a proximidade que já não era acidental.
— Mesmo assim.
Por um instante, pensei que ela fosse recuar. Que fosse lembrar de todas as razões pelas quais aquilo era uma péssima ideia – do passado, do futuro, do que alguém poderia dizer amanhã – mas, em vez disso, estendeu a mão e segurou meu pulso.
— Então vem… — disse, simples, firme. — Antes que eu mude de ideia.
Ela me puxou pela mão sem olhar para trás, em direção ao corredor mais escuro, longe da música, longe dos olhares curiosos. Cada passo fazia o som da festa ficar distante, como se alguém tivesse abaixado o volume do mundo. Quando chegamos perto de uma das portas fechadas, parou de repente. Virei de frente pra ela antes que pudesse perguntar qualquer coisa. Estávamos próximos demais. O tipo de perto que obriga o corpo a reagir antes da cabeça.
— Você sabe que isso é uma péssima ideia. — Disse, a voz baixa, firme, mas não convincente.
— Sei. — Respondi, sem recuar.
Ela ergueu o olhar devagar, avaliando meu rosto como se tentasse encontrar algo que a fizesse desistir, mas não encontrou.
— Ainda assim, não parece nem um pouco arrependido.
— Porque não estou.
O silêncio entre nós se esticou. Eu conseguia sentir a respiração dela, o calor, a tensão contida em cada pequeno movimento. apoiou a mão na porta atrás de si, como se precisasse de algo sólido.
— Quando eu te conheci, você mal alcançava meu ombro.
Inclinei o corpo, devagar, só o suficiente para que ela sentisse a mudança.
— E agora?
— Agora… — não terminou a frase.
Minha mão subiu até a altura do braço dela, sem tocar, como um aviso, uma pergunta silenciosa.
— Diz pra eu parar.
fechou os olhos por um segundo. Quando abriu, havia um brilho diferente neles.
— Entra. — Disse, girando a maçaneta, e a porta se fechou atrás de nós com um clique. O quarto estava na penumbra, iluminado só pela luz que entrava pela janela. Ela se virou pra mim. — Ainda acha que idade é relativa? — Perguntou, num sussurro.
Sorri, me aproximando até que não houvesse mais espaço algum entre nós.
— Nunca tive tanta certeza.
O local parecia menor do que antes, o ar mais denso. A música da festa chegava abafada, como um lembrete distante de que o mundo ainda existia do lado de fora. Ela apoiou as costas na porta, sem pressa, como se soubesse que aquele gesto simples já dizia demais. Meus olhos acompanharam o movimento, gravando cada detalhe com uma atenção quase dolorosa.
— Desde quando você é tão seguro do que quer?
— Desde quando eu te vi nessa festa.
A mão dela subiu devagar, pousando no meu peito, um toque leve, mas ainda assim o suficiente para me desmontar.
— … — murmurou, como se meu nome fosse um aviso.
— Ainda dá tempo de mandar eu sair… eu vou.
Ela riu baixo, sem humor.
— Esse é o problema. Você realmente iria. — A mão dela deslizou até a minha nuca, os dedos se fechando ali. — E eu não quero.
O espaço entre nós desapareceu num beijo que começou profundo demais para ser um teste. Ela suspirou contra mim no primeiro segundo, o suficiente para eu perder qualquer noção de cautela. Minha mão encontrou a cintura dela instintivamente, puxando-a mais para perto, sentindo o corpo dela reagir ao contato. respondeu na mesma moeda, os dedos se enterrando no meu cabelo, como se quisesse me manter ali. Eu mordi de leve o lábio dela antes de me afastar um centímetro e riu baixo contra a minha boca, quase sem ar.
— Droga…
— Ainda dá tempo… — provoquei, a testa encostada na dela.
— Cala a boca. — Respondeu, antes de me beijar de novo.
Dessa vez, não houve hesitação nenhuma. O som que escapou dela foi baixo, involuntário, e arrancou um sorriso curto de mim. Aquela noite não terminaria tão cedo e eu definitivamente não iria para a cama sozinho.
Um número?
Uma desculpa conveniente?
Ou só a forma mais educada que as pessoas encontraram de dizer não quando não sabem exatamente por quê?
Porque, se você parar pra pensar, idade nunca impediu ninguém de querer. Só de admitir.
É engraçado como funciona. Quando você é novo demais, dizem que você vai entender quando crescer. Quando cresce, percebem que talvez tenham subestimado você… mas aí já é tarde demais pra voltar atrás sem parecer contraditório.
Idade é relativa. Sempre foi.
Depende de quem olha, de quem deseja, de quem se permite.
— Quantos anos você tem mesmo? — Alguém perguntou, do outro lado da mesa, rindo alto demais, enquanto girava o copo na mão.
— Vinte e dois. — Respondi automaticamente, apesar da minha cabeça já estar em outro lugar.
Porque a verdade é que ninguém nunca perguntou minha idade quando me viu sair sozinho de um bar às três da manhã. Ninguém nunca achou cedo demais quando eu aprendi a beber, dirigir, mentir, fingir que não me importava. Só acharam cedo demais quando o assunto virou Keating. Tá, muitos diriam que o motivo era ela ser a irmã mais velha do meu melhor amigo, mas não era por isso. sempre foi a “inalcançável”, a “muito velha pra você”, mas pra mim ela sempre foi… perfeita. E simplesmente aconteceu. Quando crianças, eu e Rob viramos amigos e ela a minha paixonite platônica, se é que podia chamar assim. Eu era obcecado por ela, na verdade. Droga, ela foi o motivo da minha primeira ereção. Pensei que finalmente tinha conseguido superar, conhecendo outras garotas, ficando afastado por alguns anos depois que ela foi trabalhar em outro estado, mas ao vê-la de frente para mim tudo havia sido em vão. Ela estava sentada do outro lado da roda, pernas cruzadas e o copo apoiado de leve na coxa, me encarando com um olhar debochado, como se eu fosse uma piada. Quando se tratava dela, eu era mesmo.
— Vinte e dois? Caralho, achei que você fosse mais velho. — Outra pessoa soltou, arqueando a sobrancelha.
— Ele tem cara de quem já viveu demais. — Robert comentou, meio distraído, apoiado no encosto do sofá. — Ou bebe demais… uma das duas.
— Ou as duas. — Completei, dando de ombros e sorrindo de canto, mas meus olhos não saíram dela.
inclinou levemente a cabeça, como se aquela resposta tivesse confirmado algo que ela já suspeitava.
— E aí, quem vai pegar mais bebida? — Alguém perguntou, já se levantando. — A música tá boa demais pra ficar sentado.
A roda começou a se desfazer aos poucos, gente indo pra cozinha, outros se levantando pra dançar, vozes se misturando com o refrão alto demais. Quando me dei conta, só nós dois ainda estávamos sentados ali. descruzou as pernas devagar, apoiando o copo na mesa baixa à frente. Finalmente desviou o olhar do meu, só pra se levantar.
— Hewson… quanto tempo. — Ela disse enquanto passava por mim, perfume caro demais para aquele tipo de festa. — Você cresceu.
Eu esperei o suficiente para não parecer ansioso. O suficiente para parecer confiante.
— Depende… — respondi, me levantando também. — Crescer é relativo, lembra?
Ela virou o rosto na minha direção, agora bem mais perto do que antes, os olhos claros me analisando de cima a baixo, sem pressa nenhuma.
— Cuidado… você ainda pode ser novo demais pra algumas coisas.
Eu sorri e inclinei levemente a cabeça.
— A gente só descobre tentando, não é? — O silêncio entre nós durou só o tempo de um batimento acelerado, o suficiente para eu juntar o pouco de coragem que me restava. — Então, o que tem feito?
me encarou por um instante a mais do que o necessário, como se estivesse decidindo o quanto dizer, depois deu de ombros.
— Fui transferida de volta pra cidade. Acabou sendo melhor do que eu imaginava, porque eu tava com saudade de casa. — Levou o copo à boca, bebendo um gole lento. — E… ficar longe de algumas dores de cabeça também ajudou.
Franzi a testa antes mesmo de perceber.
— Dores de cabeça?
O canto da boca dela se curvou num sorriso torto – não divertido, mas irônico.
— Terminei o noivado.
Aquilo me atingiu mais forte do que deveria.
— Você… — engoli em seco. — O quê?
— Descobri que ele era um merda. — Disse, simples, direta, como quem comenta sobre o clima. — Mentiroso, controlador, cheio de promessas vazias. Achei melhor cortar antes de virar mais um erro caro.
Ela me observava com atenção agora, como se estivesse medindo minha reação.
— Sinto muito. — Falei, mesmo sem saber se era exatamente isso que eu sentia.
— Não sinta. Foi libertador, na verdade. — Havia algo diferente nela. Mais leve, mais solta, como se finalmente tivesse largado um peso invisível. — E você? O que anda fazendo da vida? Ainda tão com a bandinha que vocês tinham no colégio?
Pisquei uma vez, surpreso com a pergunta. Não porque fosse íntima demais, mas porque vinha dela.
— Tô terminando a faculdade de artes… e a “bandinha” ainda existe.
— Ainda? — arqueou a sobrancelha.
— Tá indo melhor do que eu esperava, na verdade. A gente tem tocado fora da cidade, umas músicas começaram a rodar… nada absurdo, mas já é alguma coisa.
— Olha só, quem diria.
— Achei que o Rob te mostrava as coisas. Ele vive falando da banda pra todo mundo.
O sorriso dela vacilou por um segundo quase imperceptível.
— Ele fala muita coisa… — respondeu, desviando o olhar e dando um gole no copo. — Mas nem sempre eu paro pra ouvir. — Algo naquela resposta soou como um corte limpo. Antes que eu pudesse insistir, ela voltou os olhos pra mim, mudando o rumo da conversa com facilidade demais. — Continua tentando provar que é mais velho do que realmente é? — Perguntou, inclinando a cabeça.
Dei uma risada baixa.
— Talvez eu só tenha cansado de ser visto como menos do que sou.
Os olhos dela percorreram meu rosto devagar, demorando um pouco mais nos lugares errados, como se estivesse redesenhando mentalmente a imagem que guardava de mim.
— Cuidado, esse tipo de conversa costuma levar a decisões ruins.
— Engraçado… — me aproximei meio passo, sentindo o espaço entre nós diminuir. — Você não parece alguém tentando evitar isso.
Por um instante, ninguém falou nada. A música pulsava ao redor, abafada, distante. Eu conseguia contar a respiração dela. Sentir aquele perfume misturado ao álcool, à noite, não tinha nome.
— ! — A voz de Rob surgiu às minhas costas antes que pudesse responder qualquer coisa. Ela ainda me encarava quando virei o rosto, o sorriso perigoso nos lábios ficando para trás. — Cara, vem cá, preciso de você um segundo. — Ele disse, já puxando meu braço de leve.
Dei um último olhar na direção dela antes de me afastar. já tinha voltado a atenção pro copo, como se aquele momento tivesse sido só mais um detalhe da noite. Como se não tivesse sido nada.
Mentira.
— O quê? — Perguntei quando já estávamos perto da cozinha, longe o suficiente.
— O pessoal quer saber se a gente topa tocar semana que vem… — Rob falou, empolgado. — Aquela casa de festas nova que abriu no centro. — Assenti automaticamente, mas minha cabeça ainda estava em outro lugar. — O pai do Logan é dono do lugar e tava procurando alguém…
— Cara… — falei, sem conseguir segurar. — Você nunca mostrou as músicas da banda pra ?
Robert me olhou como se eu tivesse feito a pergunta mais absurda da noite.
— Como não?
Franzi a testa.
— Ué, ela disse que…
— … — ele riu. — Minha irmã é literalmente a primeira pessoa que escuta todas as músicas. Sempre foi. Quando eu recebo uma demo, mando pra ela antes de qualquer um.
Aquilo me pegou desprevenido.
— Sério?
— Sim. — Ele deu de ombros. — Ela adora. Vive dizendo que a gente tinha potencial, mesmo quando a banda ainda era meio caótica.
Fiquei em silêncio por um segundo.
… ouvindo nossas músicas, acompanhando de longe, prestando atenção.
Levantei o olhar quase por instinto. Ela estava do outro lado da sala agora, conversando com alguém, mas virou o rosto na mesma hora, e nossos olhos se encontraram por um segundo rápido demais pra ser casual. Nenhum dos dois sorriu de imediato, mas, quando ela ergueu levemente a taça, num gesto quase imperceptível, algo dentro de mim cedeu. E eu não consegui evitar o sorriso que surgiu no meu rosto.
Talvez a idade seja só isso: o intervalo entre quando alguém começa a querer e quando o outro finalmente percebe que sempre quis também.
E eu não iria para a cama até conseguir o que queria.
A casa parecia menor agora, quente demais, cheia demais. Gente rindo, dançando, se esbarrando e, ainda assim, minha atenção se reduzia a um único ponto do outro lado da sala: ela. O jeito como inclinava o corpo quando ria, como esquecia o copo na mão quando se distraía, como sempre parecia estar indo embora, mas nunca ia de fato. Eu pensava em tudo o que ela via quando me olhava agora. Não o garoto que sentava no chão da sala esperando Rob terminar o dever, não o adolescente magricela que ela fingia não perceber, mas alguém que ocupava espaço, que sustentava o olhar, que não pedia permissão. E acho que aquilo a incomodava. Em algum momento, estávamos na mesma roda de novo. Eu comentava qualquer coisa só para ouvir a voz dela reagindo, mesmo que fosse com ironia.
— Você sempre foi assim? — provocou, depois de eu fazer algum comentário atrevido demais pra situação. — Ou isso é novo?
— Assim como? — Perguntei como se não soubesse do que ela estava falando.
— Soltando essas provocações aleatoriamente.
— Depende… — inclinei o corpo em sua direção, mas sem tocar. — Tem coisas que só aparecem quando a pessoa certa tá por perto.
Ela revirou os olhos, mas não se afastou.
— , sabe que eu ainda sou velha demais pra você…
Aquilo me fez rir de leve.
— Não. A diferença é que antes eu era uma criança. Agora você só não quer admitir que o tempo passou.
— Talvez porque eu saiba onde isso pode parar.
— Que interessante… — me inclinei um pouco mais, o suficiente para ela sentir minha presença sem eu encostar. — Eu tô exatamente contando com isso.
A mão dela roçou na minha quando alguém passou por trás, apertando o espaço, e senti seu corpo enrijecer por um segundo. Eu sabia que bastava um passo a mais, uma palavra certa, ou um toque menos cuidadoso para acabar com aquele meio-termo, mas também sabia que, se fizesse isso cedo demais, ela colocaria a culpa na bebida, e eu definitivamente não queria ser um erro de madrugada. Queria ser a escolha que ela fazia apesar de saber exatamente o que estava fazendo.
Alguém gritou pedindo música ao vivo e a casa respondeu com aplausos tortos, copos erguidos, aquela empolgação meio caótica que só existe quando a noite já passou do ponto certo. Robert olhou na minha direção antes mesmo de perguntar qualquer coisa e eu assenti, lançando um último olhar para antes de me afastar. Minutos depois, estava com a guitarra nas mãos, luz improvisada demais, som longe de perfeito. Quando minha voz entrou, senti o ambiente mudar, como se a festa tivesse se recolhido um pouco para dar espaço àquilo.
Takes me all night, takes my whole life…
Vi quando respirou fundo, como se não esperasse aquilo. Como se cada palavra tivesse encontrado um lugar específico dentro dela.
Just won’t feel right… until I have you.
descruzou os braços sem perceber. O copo desceu devagar demais. Os olhos não saíram de mim nem por um segundo. Quando o refrão chegou, mais alto, mais direto, senti o impacto atravessar o espaço entre nós.
I don’t wanna go to bed without you!
Ela desviou o olhar por um instante, mas voltou. Quando a última nota morreu, a casa explodiu em aplausos, assobios, gritos. Rob bateu nas minhas costas. Alguém falou alguma coisa que eu não ouvi. E, no meio do barulho todo, enquanto eu descia do palco improvisado, me esperava com um sorriso contido.
— Tinha que ser justo essa. — Falou, se referindo a música.
— Qual o problema? Não gosta da ideia de não ir pra cama sozinha?
Ela virou o rosto devagar na minha direção.
— Gosto da ideia de dormir, só não de decisões impulsivas.
Me aproximei o suficiente pra que só ela ouvisse.
— E quem falou em dormir? — O silêncio que se seguiu era carregado.
fechou os olhos por um segundo e respirou fundo. — Isso não tá facilitando as coisas. — Admitiu, quase contra a própria vontade.
— Não era pra facilitar.
Ela riu, cansada, rendida só até certo ponto.
— Você vai acabar me convencendo.
— Eu sei.
— Convencido.
— Persistente. — Corrigi. — Talvez eu só esteja esperando a hora certa.
deu um gole no drink, os olhos nunca deixando os meus.
— A hora certa costuma trazer consequências.
— Eu sei.
— E mesmo assim?
Inclinei o corpo um pouco mais, sentindo o calor dela, o perfume, a proximidade que já não era acidental.
— Mesmo assim.
Por um instante, pensei que ela fosse recuar. Que fosse lembrar de todas as razões pelas quais aquilo era uma péssima ideia – do passado, do futuro, do que alguém poderia dizer amanhã – mas, em vez disso, estendeu a mão e segurou meu pulso.
— Então vem… — disse, simples, firme. — Antes que eu mude de ideia.
Ela me puxou pela mão sem olhar para trás, em direção ao corredor mais escuro, longe da música, longe dos olhares curiosos. Cada passo fazia o som da festa ficar distante, como se alguém tivesse abaixado o volume do mundo. Quando chegamos perto de uma das portas fechadas, parou de repente. Virei de frente pra ela antes que pudesse perguntar qualquer coisa. Estávamos próximos demais. O tipo de perto que obriga o corpo a reagir antes da cabeça.
— Você sabe que isso é uma péssima ideia. — Disse, a voz baixa, firme, mas não convincente.
— Sei. — Respondi, sem recuar.
Ela ergueu o olhar devagar, avaliando meu rosto como se tentasse encontrar algo que a fizesse desistir, mas não encontrou.
— Ainda assim, não parece nem um pouco arrependido.
— Porque não estou.
O silêncio entre nós se esticou. Eu conseguia sentir a respiração dela, o calor, a tensão contida em cada pequeno movimento. apoiou a mão na porta atrás de si, como se precisasse de algo sólido.
— Quando eu te conheci, você mal alcançava meu ombro.
Inclinei o corpo, devagar, só o suficiente para que ela sentisse a mudança.
— E agora?
— Agora… — não terminou a frase.
Minha mão subiu até a altura do braço dela, sem tocar, como um aviso, uma pergunta silenciosa.
— Diz pra eu parar.
fechou os olhos por um segundo. Quando abriu, havia um brilho diferente neles.
— Entra. — Disse, girando a maçaneta, e a porta se fechou atrás de nós com um clique. O quarto estava na penumbra, iluminado só pela luz que entrava pela janela. Ela se virou pra mim. — Ainda acha que idade é relativa? — Perguntou, num sussurro.
Sorri, me aproximando até que não houvesse mais espaço algum entre nós.
— Nunca tive tanta certeza.
O local parecia menor do que antes, o ar mais denso. A música da festa chegava abafada, como um lembrete distante de que o mundo ainda existia do lado de fora. Ela apoiou as costas na porta, sem pressa, como se soubesse que aquele gesto simples já dizia demais. Meus olhos acompanharam o movimento, gravando cada detalhe com uma atenção quase dolorosa.
— Desde quando você é tão seguro do que quer?
— Desde quando eu te vi nessa festa.
A mão dela subiu devagar, pousando no meu peito, um toque leve, mas ainda assim o suficiente para me desmontar.
— … — murmurou, como se meu nome fosse um aviso.
— Ainda dá tempo de mandar eu sair… eu vou.
Ela riu baixo, sem humor.
— Esse é o problema. Você realmente iria. — A mão dela deslizou até a minha nuca, os dedos se fechando ali. — E eu não quero.
O espaço entre nós desapareceu num beijo que começou profundo demais para ser um teste. Ela suspirou contra mim no primeiro segundo, o suficiente para eu perder qualquer noção de cautela. Minha mão encontrou a cintura dela instintivamente, puxando-a mais para perto, sentindo o corpo dela reagir ao contato. respondeu na mesma moeda, os dedos se enterrando no meu cabelo, como se quisesse me manter ali. Eu mordi de leve o lábio dela antes de me afastar um centímetro e riu baixo contra a minha boca, quase sem ar.
— Droga…
— Ainda dá tempo… — provoquei, a testa encostada na dela.
— Cala a boca. — Respondeu, antes de me beijar de novo.
Dessa vez, não houve hesitação nenhuma. O som que escapou dela foi baixo, involuntário, e arrancou um sorriso curto de mim. Aquela noite não terminaria tão cedo e eu definitivamente não iria para a cama sozinho.
FIM!
Nota da autora: Eu nunca tinha escrito uma fic com age gap antes e achei divertida a dinâmica. Espero que tenham gostado e comentem o que acharam. 💜