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Codificada por: Lua ☾
Finalizada em: Março/2026.


“Há quem diga que todas as noites são de sonhos.
Mas há também quem garanta que nem todas, só as de verão. No fundo, isto não tem muita importância.
O que interessa mesmo não é a noite em si, são os sonhos. Sonhos que o homem sonha sempre,
em todos os lugares, em todas as épocas do ano, dormindo ou acordado”

— SHAKESPEARE. Um Sonho de Uma Noite de Verão.
• 6 ANOS ANTES.

ERA UMA FIGURA CURIOSA. Destacava-se como um dedão podre em nossa família, e quase senti pena por ela. Como os Lancasters, nós vínhamos de uma família bem abastada. Estamos falando de gerações de riqueza, em algum momento, com conexões até mesmo dentro da constituição imperial grega e a realeza Norueguesa, até um de nossos ancestrais decidir pegar seu barco e seguir para a Irlanda. De lá, então, migramos para a Escócia, sob o contexto de um novo recomeço através das linhas e frotas marítimas — você já pode perceber de imediato que nossa história não é algo que eu me orgulhe muito. Uma riqueza geracional que nunca havia acabado, pelo contrário. Ao longo dos anos fomos nos tornando mais e mais influentes, o nome carregava imponência onde quer que fosse proferido, carregava dominância e certa reverência dependendo do local em que você estava. Privilégios esses que jamais foram desperdiçados — ao menos para mim.
Portanto, quando a vi atravessar a porta, seguida por meu irmão, senti a pressão das lágrimas por trás dos meus olhos, porque sabia que isso iria acabar mal.
Veja bem, não é que eu esteja aqui para reclamar de ninguém, na verdade, tirando pelas discussões mais óbvias, as pequenas tentativas de assassinatos infantis que tínhamos quando crianças e o acesso indevido a drogas mais refinadas do que deveríamos poder ter, desde uma tenra idade, não é assim tão mal fazer parte da minha família. Bem, de certa forma, não tão ruim quanto deveria ser ao menos. Minha mãe, Seline, adora conversar, acho que pode contar qualquer coisa e transformará isso em um assunto absurdamente interessante, é quase fascinante observá-la quando fala. Ela tem essa… essa coisa em si mesma que a faz parecer com uma gigante, como uma estrela mesmo, incandescente quando abre sua boca e emite sua opinião, e somente quando o silêncio se estende que você meio que percebe que ela é a menor entre nós todos. Tenho uma estatura semelhante a dela, talvez por apenas alguns míseros cinco centímetros de disparate, mas é o suficiente para que isso também não seja levado a sério.
Minha mãe tem esse ar de realeza em si mesma; é como se ela tivesse nascido para os vestidos caros e de grifes limitadas, para as roupas discretas e os olhares entrecortados que eram normalmente lançados durante um jantar de gala ou uma apresentação. Ela é uma excelente anfitriã, sabe exatamente o que perguntar e como fazer com que todos se sinta confortáveis, mesmo quando existe uma necessidade gritante de se esconder abaixo da mesa — disto meus irmãos nunca tiveram problemas, agora, eu, por outro lado… o que posso fazer, não sou exatamente do tipo social. Ela havia sido cantora, uma vez, no passado. Cantava em restaurantes chiques, mas de acordo com o que me contou uma vez, quando era pequena, era dos bares questionáveis que ela mais se divertia. Dizia que era livre até que sua família a cobrasse pelo tempo perdido e a obrigasse aceitar o casamento com meu pai. Não posso dizer com certeza se algum dia ela se ressentiu de sua escolha, mas posso dizer ao menos que, para meu pai, nunca houve nenhuma outra mulher que não fosse minha mãe.
Eu sei, eu sei, há esse clichê dentro de famílias como a minha. Essa ideia de que, com tamanho poder só pode haver corrupção em demasia aguardando do outro lado, por entre as portas fechadas e o silêncio que retumba dos corredores abobadados, elegantes de mansões. Para ser sincera, existem sim coisas perturbadoras em nossa família, coisas que me fazem questionar a realidade e o que diabos estão escondendo de nós, coisas que não atrevo-me a dizer em voz alta por vezes escolhendo o silêncio deliberadamente como método de alienação pessoal. Sei que não há santos nesta casa, que cada um carrega dentro de si o corrupto e o podre como nosso pai provavelmente o fez por muito tempo, e talvez seja justamente por isso que observar tenha se tornado algo quase fúnebre. Assemelhava-se com um ritual, a visão perturbadora de uma ovelha a caminho da casa de cortes. Engoli em seco, tentando afastar tais pensamentos, desenvolvendo de repente um grande interesse pela taça em minhas mãos.
Haviam restringido meu acesso a bebidas aquela noite, obviamente, é claro, mas mesmo assim, não precisava de muito para conseguir o que desejava, uma cara inocente aqui, algumas lágrimas ali, e voilá, tinha o que queria, só precisava finalizar o copo antes que minha mãe ou Mark me percebessem. John não iria fazer nada sobre, o meu irmão mais velho era uma figura um tanto quanto distante e fria, como progenitor, deu a sorte de nascer com o órgão sexual correto para que herdasse toda a fortuna e o dinheiro do meu pai. É claro, nós vamos receber alguma coisa também, quer dizer, eu e ela seríamos suficientemente ricas para conseguir viver tranquilamente a onde quer que desejassem, e se fosse de nossos gosto investir em alguma empresa, então éramos livres para o fazer desde já — meu pai era muitas coisas, mas não era este tipo de carrasco. Mas se quer saber a verdade, não somos nada se não uma moeda de troca conveniente. Eu sei, em pleno ano que estamos, e ainda esta conversa? Bem, famílias como a minha são estratégicas em relação ao futuro, é muito difícil que a somatória de todo o dinheiro se perca em apenas uma geração, mas mesmo assim, não dá para arriscar, é por isso que os casamentos arranjados são tão celebrados entre os nossos, é mais fácil criar um contrato de casamento do que arriscar uma vida inteira com uma pessoa que você se atraí.
Não é sobre amor, nunca foi, é simplesmente sobre priorizar o que realmente importa para um futuro não assim tão distante que eventualmente irá alcançá-lo. Além disso, amor é condicional, e embora muitos casamentos arranjados não deem certo, eles não são forçados, as duas pessoas precisam desejar esse relacionamento, igualmente, e, se você tiver um pouquinho de sorte, é muito provável que a pessoa esteja disposta a criar alguma coisa sólida com você. Agora sou uma Zhao, mesmo que o peso do sobrenome recai sobre os meus ombros, Mark e sua família havia me acomodado em seus estandartes com até mesmo alegria; não somos exatamente como o meu pai e minha mãe — que de alguma forma, juraram lealdade um ao outro a anos atrás, e tal promessa ainda se mantém. Mark tem seus próprios desejos a serem atendidos fora de casa, desejos estes que eu não possuo o órgão correto para satisfazê-lo de fato, e eu, bem, o espelho; temos um excelente acordo entre nós dois, ocultado de olhares críticos de nosso ciclo social, desde que sejamos discretos e não coloquemos em jogo nossa própria lealdade diante nosso ciclo social, somos livres para fazer o que desejarmos. Em alguns anos, teremos que sentar e discutir o que faremos em relação aos futuros filhos que já estão sendo cobrados, mas tenho quase certeza de que não será preciso muito. De qualquer modo, meu irmão mais velho John, era uma figura fria, distante, com um maior interesse para seu aparelho celular ou para vangloriar-se dos contratos que ele conseguia convencer a velhos idiotas e soberbos assinarem no dia a dia, do que tinha qualquer interesse para com a nova namorada de — não que trouxesse muitas mulheres para conhecer nossos pais, mas bem, era , e em algum momento, John passou a compartilhar de meu ceticismo.
Solteiro por opção, acho que sempre ressenti-me de John exatamente por sua liberdade. Era algo irritante perceber-se presa dentro de uma família que tinha expectativas bem diferentes para si. Sei que meu pai poderia ter intercedido e quebrado o contrato do meu casamento, mas então admitir a ele que muito provavelmente ele teria uma nora e não um genro comigo era o suficiente para impedir-me de dizer mais do que deveria a Cormac . Meu pai era uma figura gigante, alta como uma porta e com músculos pesados que não lhe caiam bem com o imagético de apenas um empresário qualquer. Em algum momento, acho que ele trabalhou para a polícia, mas ele não era exatamente o tipo de pessoa que falava muito. Sei que possui cicatrizes, pelo corpo inteiro, que há marcas tatuadas por sua pele de violências que sofreu ao longo dos anos, e que a pior de todas é a culpa que ele carrega pela morte da própria irmã; sua alma, assumo. Aquela que realmente o conhecia, e a qual não conseguiu proteger, deve ser por isso que adotar foi quase instintivo para ele. Minha mãe também não fala muito sobre o passado de papai, só o suficiente para que você compreenda que talvez, alguns silêncios sejam melhor do que a especulação crescente.
Posso ter a estatura de minha mãe, mas possuo as cores, mesmo a mandíbula teimosa de meu pai, o que é surpreendente, mesmo se parece com Silene. De qualquer forma, meu pai é esta criatura quase mitológica, silenciosa e de expressão difícil de interpretar. Ele não é exatamente amoroso com suas palavras, com ele, o silêncio se estende como um manto sufocante, não é desconfortável a princípio, mas ter seus olhos voltados para si pode ser o suficiente para que ele compreenda exatamente o que diabos você está planejando, ou pior, veja quem você realmente é — e sua aprovação estaria em risco imediato. Mas seus gestos contam em demasia. Meu pai não fazia nada que não significasse algo, e isso incluía seus tapas leves em nossos ombros ou o afago gentil em nossas cabeças. Às vezes, ele ainda o faz com Ella, ou comigo, mas tem se tornado mais e mais raro. deveria ter despertado este lado de meu pai, quando ele a cumprimentou, porque percebo quase de imediato o toque gentil em seu ombro, embora seu olhar seja severo e distante — não é para que ele olha, é para .
Há uma diferença entre ser uma vítima da situação e deliberadamente forjar algo para que você pudesse sair como inocente quando era tão erroneamente culpado quanto os outros. Meu pai era capaz de ver isso com clareza nas ações dos outros, e era expert em agir deste modo quando bem lhe convinha.
Não digo que não exista uma parte dele que realmente a ame, mas há algo em seu olhar calculado que me faz ter certeza de qual será meu papel naquela noite, e o odeio por me colocar em tal situação. Bom, ele não me coloca tecnicamente na situação, sou enxerida o suficiente para me colocar de boa vontade nisso. Finalizo uma taça e busco com o olhar por outra no salão de jantar. Mark encara-me com uma expressão exasperada, ajustando o paletó elegante, antes de segurar meu braço esquerdo, impedindo-me de mover-me para mais perto das taças, por sorte sou destra e consigo alcançar o copo mesmo com meu marido impedindo-me de sair do lugar.
— Não acha que está exagerando demais, Lisa? — Sua voz é incriminatória, mas há uma nota de preocupação tangível que compartilhamos. Não é porque nossos interesses na cama não se alinham que não amemos um ao outro, o amor só é um pouco mais… relativo nesta situação. Tento conter um suspiro pesado, dando de ombros.
a trouxe aqui para causar um espetáculo, o mínimo que posso fazer é ajudá-lo — tento justificar, mas minhas palavras soam meras desculpas para apenas continuar bebendo. Mark percebe isso de imediato.
— Convenientemente sua ajuda começa com beber o estoque inteiro de álcool de seu pai em algumas horas — Mark pontua, retirando o copo de minha mão. Embora uma parte dentro de mim deseje avançar no pescoço de meu marido, resigno-me apenas observá-lo com exasperação, afastando a taça para longe. — Se vai causar um espetáculo, ao menos esteja sóbria para lembrar-se disso depois. Aposto que Simon vai querer ouvir sobre isso também.
Tento não sorrir com a menção de seu parceiro. Simon era um bom homem, e bem atraente. Era bi também, o que significava que poderíamos muito bem dividir quando Mark não estivesse lá assim tão interessado no companheiro — o problema era que Mark possuía uma personalidade bem mais territorialista do que deveria, e eu detestava apenas assistir.
— Não vai ser lá assim tão interessante, claramente está a usando apenas como desculpa para escapar desse lugar — digo com um tom entediado, agitando o ar ao meu redor como se estivesse afastando alguma coisa para longe. Endireito-me, ajustando meu vestido, enquanto Mark retira uma mecha teimosa da frente de meu rosto e alinha a frente de meu vestido com prática ensaiada. Toques leves, íntimos que diziam muito mais do que nossas palavras; se eram reais ou não, tampouco importava.
— O que quer dizer com isso, Liz? — Questionou Mark com um tom de voz baixo, mas não faço questão de respondê-lo, apenas volto meu olhar na direção de meu irmão do meio.
Na hierarquia éramos: John, então , Ella e por último, eu. John era sério, Ella, a ausente, eu, o problema, e : o garoto de ouro. Acho que ele deve ter nascido em um dia de muita sorte, ou que, ao menos, quaisquer que fossem as forças que aprovavam sua existência, o abençoaram com dádivas que o resto de nós não possuía. Desde pequeno havia sido carismático, quando ria alto, dizia-se que a sala inteira se iluminava, como costumava acontecer com minha mãe, mas tudo tornava-se mais vibrante. Ele era inteligente, mesmo quando criança, e não hesitava em encantar os adultos com perguntas rápidas e sagazes — enquanto isso, Ella e eu mordiamos uma a outra disputando por uma boneca da barbie careca. Sabia exatamente o que dizer para encantar, e como fazer amizades. Brilhante, carismático, elegante, sempre pareceu que ele havia herdado apenas as qualidades de nossos pais: a inteligência e observação de papai, a calorosidade de mamãe, mas ao fundo de tudo isso, havia igualmente alguém tão egoísta quanto qualquer um de nós. Ele só usava mais máscaras que os outros.
Não o cumprimento quando ele se aproxima de nós. Meus olhos estão presos em , questionando-me se ela estava se sentindo como a escolhida, ou a garota que é vista por uma pessoa incrível, que é amada por alguém marcante como meu irmão. Questiono-me se alguma parte dela se arrepende de estar ali, ou se porventura, não havia algo dentro de si que estava hesitando diante de tal situação. Que não a avisa que há algo de errado conosco, mas recolho o pensamento com um sorriso polido, educado, fazendo conversa afiada.
Ela na verdade é bem mais inteligente do que deveria, e isso aperta meu coração. Quero agarrá-la pelos braços e implorar para que suma dali, que pegue suas coisas e corra como se nunca houvesse amanhã. Como se sua vida dependesse disso; não o faço, apenas enrosco meu braço no de Mark, questionando-me quando a máscara de iria escapar de seu lugar.
Não demora muito para ser sincera. O jantar é agradável, é encantadora e sabe fazer as perguntas certas para conquistar as respostas que precisa. É inteligente, consegue conversar sobre quaisquer assuntos que forem jogados, mesmo o papo irritante de John sobre economia e o estado atual do mundo é curioso e atraente quando o responde com alfinetadas precisas. Provocações sutis que o fazem ter que se esforçar para continuar a manter sua postura de homem de negócios diante da mesa com minha família. Em alguns momentos, percebo-me rindo baixinho. Recebo um chute discreto de mamãe, um olhar calculado de papai, mas no fim, é tarde demais, já tenho a atenção de voltada para meu rosto. É quando aproveito minha oportunidade: indico discretamente para que ela siga-me antes de pedir desculpas e retirar-me da mesa. Posso ver o olhar de Mark preso em meu rosto, o aviso silencioso ali: “não se envolva em algo que não lhe diz respeito”, mas são palavras demais para fingir que entendi quando o encarei.
Dou um tapa silencioso no ombro de , em um código pessoal e infantil de que queria conversar com ele longe dos ouvidos alheios. Caminho sem pressa algum para o escritório de meu pai, ao final do corredor, longe o suficiente da sala de jantar para que pudéssemos ter privacidade. Os saltos de minhas sandálias ecoaram mais altos do que deveriam pelo piso de mármore enquanto passo minhas mãos por meus cabelos, tentando afastá-los de meu pescoço. Sequer é final de primavera e a casa inteira parece estranhamente abafada, úmida e igualmente insuportavelmente quente. Tentou prendê-los em um coque, mas acabaram caindo por minhas costas, pesados, e uniformes. Reviro meus olhos aproximando-me da lareira e desligando o fogo ali com a água de uma das jarras com as flores de mamãe. Não preciso voltar-me na direção da porta para ter certeza de que havia me seguido e agora se jogava contra o divã de camurça e mogno elegante do século XIX que papai tanto gostava.
Não quebro o silêncio, ao menos, não a princípio. Espero ouvir o pequeno farfalhar das saias de antes de voltar-me na direção de com um sorriso plácido, até mesmo neutro.
— Parabéns, ! Eu não achei que você teria a coragem, mas parece que está com tudo planejado não é? — Abro meu sorriso mais largo, observando-o com atenção enquanto vejo-o agir com aquele cinismo familiar como se o que havia acabado de dizer não passasse de um amontoado de palavras desnecessárias arranjadas de maneira esquisita para deixá-lo confuso e acusá-lo de algo que ele provavelmente não havia feito. Um excelente ator, ele sempre havia sido incrível em interpretar inocência. Mesmo quando era ele que empurrava-me contra a lama.
— Está tendo outro surto, Liz? Ou isso é só mais um dos seus deslizes com bebida? — questionou, sarcástico, coçando a lateral de sua mandíbula. Nossos olhos escuros, tão iguais, refletem níveis diferentes de enfadonho e impaciência. Ele é cínico, eu, reativa. Já dá para saber onde essa conversa irá acabar, só preciso que a escute por tempo o suficiente.
Ergo uma sobrancelha, recusando-me reagir a sua provocação.
— Pegando assim tão baixo, ? Achei que de todos nós era você quem era o gentil trinca a mandíbula com um estalo, seus olhos fuzilam meu rosto, e não posso deixar de sorrir com uma ponta de satisfação com aquele olhar. Bem onde lhe doía. Bom, era exatamente o que precisava. — Então, você já contou seus planos para o seu novo brinquedinho ou ainda está planejando usá-la até conseguir o que você quer?
parece se empertigar, os olhos queimam meu rosto, mas não ouso reagir. Em algum lugar da porta de entrada do escritório de meu pai, posso ouvir um inspirar fundo. Tento com muito empenho não rir, sustentando o olhar venenoso que recebo.
— Você não sabe o que está falando, Elizabeth.
— Ah, eu sei sim. Acha mesmo que você é assim tão sutil, ? Olha você pode ser um ótimo ator quando quer, mas, bem… — faço uma careta um tanto exagerada, levando minha mão esquerda em direção a meu peito, fingindo-me de pesarosa quando na verdade não poderia estar mais satisfeita de finalmente ter uma chance de revidar . Por Alina. Por tudo que ele havia tirado de mim. — Eu, infelizmente, ainda te conheço. Acha mesmo que não iria perceber o seu jogo? Essa é, o que? A segunda garota que você trás para essa casa a fim de fingir um relacionamento apenas para conseguir fugir para Hollywood vive seu grande sonho? E supondo que você já deve ter recebido aquela ligação esperada de volta do seu agente, sua grande chance de ser o galã que você sempre quis — pauso momentaneamente, apoiando meu braço esquerdo sobre a lareira, enquanto volto minha atenção para a mesa ao lado. O whisky de meu pai está ali, intocado, pronto para ser ingerido, mas contento-me em alçar da pequena mesa de mogno escura apenas um cigarro. Não o prendo em meus lábios apenas finjo demasiado interesse em estudá-lo. — O que vai acontecer com ? Você vai manter um relacionamento às escondidas com ela para que isso não atrapalhe sua crescente fama de garoto branco do mês?
coloca-se de pé abruptamente, parecendo impaciente. Observo-o como uma gata, considerando se já está fazendo as contas ou se está paralisada pelo choque de perceber-se apenas como um peão naquele jogo inteiro. Sinto pena da jovem, sei exatamente bem como é a sensação. Forço um sorriso divertido para , antes de deixar minha expressão voltar a ficar neutra e distante.
— Não. Você sabe que não — diz em um tom de voz baixo, e quase posso perceber uma nota de pesar ali. Talvez ele realmente a ame, mas certamente não a ama o suficiente para escolhê-la sobre si mesmo. Típico .
— Oh, então você já está planejando terminar com ela? Por que diabos a trouxe aqui então?
— Elizabeth, isso não tem nada haver com você. Por que não se preocupa com sua própria vida desmoronando aos pedaços do que com a minha?
— Por que você realmente fodeu as coisas com Alina, e agora, eu quero saber o que você irá fazer com a sua nova garota. — O rosto de se torna um pouco mais frio com meu comentário sobre Alina, e desta vez, não seguro um riso nasalado, desdenhoso. Ele pode fingir ser inocente, pode atuar que não possuí culpa alguma, mas conheço-o bem o suficiente para saber onde procurar as quebras em sua máscara. São pequenas e rápidas demais, mas ainda estão ali. Não passava de um egoísta mentiroso.
— Ah, por favor, Liz, você ainda está presa a isso? Olha, eu não tenho culpa se a sua amiga não quis escolher você, já faz anos! Supera essa merda logo! — explode com desdém e arrogância. Limito-me apenas a inclinar minha cabeça para o lado, observando-o com atenção e desprezo.
— Fácil falar quando é você, não é ? O garotinho de ouro da família que nunca teve que se preocupar com nada, sempre há pessoas para cuidar da sua bagunça.
— Então isso tudo é sobre seus ciúmes, Liz? Você sabe que já é uma adulta né? Sentir ciúmes de irmãos, na sua idade? Isso é patético, mas então, você conhece bem a fundo a palavra não é? — Filha da puta, preciso admitir, ele me pegou. Encontrou a ferida e a abriu com a facilidade de um sopro. Trinco meus dentes, com força, obrigando-me a sorrir, embora meus olhos queimem com a raiva contida.
— Então qual é o plano, agora? — Questiono com um sorriso sarcástico, afiado como uma navalha sustentando seu olhar. Repouso minhas mãos atrás de minhas costas, ocultando o pequeno tremor que se instala ali. — Vai mantê-la até ter certeza que tem seu futuro como ator garantido? Olha, só, se eu fosse você já começava a me despedir então…
lança-me um olhar enviesado.
— De todos nós, você é a pessoa mais desprezível, Elizabeth, e isso é algo levando em consideração quem somos — retorquiu. Não preciso respondê-lo, a porta se abre antes que possa abrir minha boca e uma de mãos trêmulas e rosto impassível adentrar no escritório.
Está prendendo a respiração, os olhos parecem marejados, a mandíbula tensionada de maneira tão firme que acho que deve estar doendo. Mas ela se mantém firme, os ombros eretos, a cabeça erguida desafiadoramente, os olhos fixos em , não em mim. Desta vez, estou sorrindo, e não oculto minha satisfação pessoal com a situação, especialmente quando o semblante de empalidece ao vê-la ali, voltando-se momentaneamente em minha direção antes dele perceber o que havia acabado de acontecer. Questiono-me se ele irá dizer alguma coisa, se irá cobri-la com desculpas esfarrapadas como fizera com as outras mulheres antes dela, para minha surpresa, ele permanece a perda de suas palavras, encarando com uma expressão culpada, entristecida e pesarosa; não era nem de longe arrependida. Seguro um riso nasalado, voltando a me escorar contra a lareira, uso a unha do polegar para cutucar a parte interna da unha de meu dedo indicador, sentindo o familiar beliscão seguido de dor do gesto, mas sem incomodar-me. Era sempre bom manter meus pés firmes no chão, através da dor.
pigarreia, limpando sua garganta, os olhos marejados, são frios e fingidamente indiferentes.
— Bem, é bom saber onde nós ficamos, . — A voz de é fria, afiada como uma navalha, e não consigo conter um sorriso largo ao voltar a minha linha de olhar para . Meu irmão empalidece, de alguma forma, as palavras afiadas dela parecem ter atingindo-o em cheio, e surpreende-me ver que talvez, ele realmente gostasse dela. Tento não sorrir, recostando-me contra a lateral da lareira, assistindo os dois com atenção. Tudo bem, tudo bem, admito, eu queria ver o espetáculo, mas mais satisfatório observar como simplesmente vai embora, como ignora enquanto deixa para trás tudo o que poderia ter significado entrar nesta maldita família. Olha, eu disse que não era assim tão ruim ser uma , eu só não disse a você que existe um preço para fazer parte dessa família; normalmente, é cobrado sua alma. é apenas inteligente o suficiente para fugir disso antes que a consuma igualmente.
Posso sentir o olhar de meu irmão preso em meu rosto, fuzilando-me com uma raiva genuína crescente. Uma parte de mim questiona se ele irá avançar em minha garganta, ele não era violento, este era John, mas tendo em vista que eu acabei de destruir sua passagem de fuga da família, até mesmo eu posso entender querer me atacar. Também o faria, mas não faz nada, apenas parece perturbadoramente traído por minhas palavras. Dou de ombros desdenhosa; se ele não queria passar por aquela situação, era apenas ter sido sincero, que culpa eu tenho se ele não sabe como conversar? Que culpa eu tenho por salvar uma idiota de cair no conto do vigário?
Então retorno-lhe com apenas um sorriso; olho por olho, acho que finalmente eu e estamos quites.

ATO ÚNICO

AGORA.


De: carpadoaline.rp@valiant.com
Para: Myra..jornal@valiant.com
Assunto: Leia a porra das mensagens, !
Olha, eu não faço ideia do que está acontecendo com você, mas isso já é demais!
Estou te ligando faz exatamente duas horas, e posso ver que você está declinando minhas ligações! Já falei com sua família e tanto sua irmã quanto sua madrasta me disseram que você não está doente, nem com nenhum problema, então posso apenas assumir que você ignorar-me é a sua gigante falta de profissionalismo!
Mya, eu sei que a situação não é perfeita. Eu sei que você tem a sensação de que está sendo usada e descartada de novo, e que provavelmente culpa o time por ter colocado você nisso, mas foi um pedido dele. Ele pediu para que fosse você a jornalista a entrevistá-lo, e se recusa a falar com mais alguém! Estamos de mãos atadas.
Olha, sou sua amiga, mas você está sendo mesquinha e bem anti-profissional agora. Se não fizer isso, precisarei levar seu comportamento à diretoria, e não é algo que deseje fazer, não depois de tudo o que você já fez por nós. Por favor, Mya, não me obrigue a ter que reportar você. Só… só faz o que foi pedido, e a gente encerra tudo isso, logo!
Leia as mensagens.
É serio, .
LEIA AS MENSAGENS.

CLICO IMEDIATAMENTE NO BOTÃO DE DELETAR O E-MAIL. O movimento é quase instintivo, e posso sentir que minhas mãos estão trêmulas o suficiente para que não possa ocultar o tormento que toma meu peito como uma avalanche. Engulo em seco, inspirando fundo, mas tenho a sensação de que minha garganta está inchada, como se houvesse um impedimento invisível ali que faz-me ficar completamente ciente do amargor da bile. O gosto amargo, a sensação de algo enroscado em minha traqueia, é o suficiente para fazer meu estômago se retorcer. Mal havia comido alguma coisa, tendo passado os últimos dias ainda recuperando-me de uma gripe irritante, não havia tido coragem para comer mais do que uma torrada com pasta de amendoim; talvez o excesso de doce tenha acabado por dispor-me ao ponto de genuinamente considerar se vou passar mal outra vez no banheiro do trabalho ou se é apenas um ataque de pânico. Fecho meus olhos, empurrando a porta com um praguejar entre dentes, antes de escolher a primeira cabine do banheiro para me esconder ali. Devo ter inventado alguma história para Malina, mas tampouco me importo muito no momento, minha chefe pode esperar por mais alguns minutos enquanto vejo minha vida desmoronar graciosamente a minha frente.
Certo, tudo bem, é exagero. A situação não é assim tão ruim, não estou sendo obrigada a entrevistar um abusador ou algum criminoso que Hollywood convenientemente havia acobertado, mas o fato de que , o agora, heartthrob do momento, estava disposto a sair de seu roteiro original para gravar uma entrevista para a Valiant apenas se eu concordasse entrevistá-lo era o suficiente para causar arrepios indevidos por minha pele e me fazer querer desaparecer pelos próximos cinco dias úteis.
Seis anos inteiros. Para ser sincera não sei se fico feliz por ter descoberto cedo quem diabos ele era e o que estava fazendo comigo ou se fico frustrada por não ter percebido antes. A verdade é que ele não quebrou meu coração tanto assim, mas era frustrante perceber que uma parte de mim tivera esperanças de que fosse algo a mais. Ele nunca se desculpou, todavia, igualmente não demorou muito para seguir em frente com outra beldade de Hollywood quando conseguiu estrelar seu primeiro filme e ganhou status de celebridade. Tentei seguir em frente, e consegui, de certa forma, seis anos era muito tempo para se apegar a um completo idiota que havia usado você apenas para conseguir o que bem desejava, mas ainda assim, não era como se esperasse vê-lo outra vem em minha vida. Pelo contrário, uma parte de mim apegava-se à possibilidade de que nunca mais teria que lidar com ele, era fácil ignorar as propagandas, os posters e até mesmo entrevistas em carpetes vermelhos ao redor de Hollywood. Não era sequer o tipo de jornalista que eu sou; que lindo engano tenho contado em segredo achando que alguém conseguiria escapar de .
Exalo entre dentes, esfregando minha testa, buscando uma solução para aquele maldito impasse. Não é que acredite que Aline irá seguir com sua ameaça, mas tenho certeza de que isso não será esquecido, eventualmente terei que responder sob minha conduta antiprofissional e o peso que isso carrega para minha carreira. Aperto meus lábios, observando meu celular outra vez. Minha garganta se contraí enquanto tento compreender a dimensão daquela situação. Além disso, porque diabos poderia tratar-se comigo quando houvesse outros profissionais mais adequados para aquele tipo de matéria? Ele poderia apenas pedir para seu agente escolher uma pessoa que lhe conduzisse…
Pauso por um momento, o rascunho de uma ideia começando a surgir por minha mente. Considero as possibilidades, o preço que teria que pagar se fosse pedir um favor ao idiota, mas considerando que fazia tempo o suficiente que não tinha noticias dele, era de se arriscar ao menos uma tentativa de contato. Quer dizer, ele não era lá brilhante, mas ainda havia dito que “se eu precisasse de ajuda, poderia apenas ligar para ele”, e bem, considerando que meu emprego está na reta, não seria assim tão estúpido, nem má ideia… só preciso que ele atenda desta vez. Desta única vez.
Levo meu indicador em direção aos meus lábios, roendo o canto de minhas unhas enquanto ouço o martelar suave da linha ecoando por meus ouvidos com a chamada. Minha primeira tentativa é um fracasso completo, no segundo pulsar da linha, posso ouvir a ligação sendo desligada. Tento outra vez, então mais uma, e mais uma, começando a ficar impaciente. Este idiota era muitas coisas, mas não era sutil; se não queria falar comigo, sabe-se lá por quê, então já teria desligado o celular para que minhas tentativas fossem imediatamente para sua caixa postal. Ele estava deliberadamente assistindo o celular tocar e mandando “o que?” no chat de conversa. Inspiro fundo, imaginando o quão bom seria apenas estrangulá-lo, mas então lembro-me que preciso de sua ajuda; continuo ligando até que ele atenda.
— Preciso da sua ajuda! — Praticamente cuspo as palavras assim que ele finalmente atende a vídeo-chamada. Por um breve momento, esqueço-me que estou dentro de uma cabine de banheiro, questionando minhas escolhas e arrependendo-me amargamente de ter conhecido , ao deparar-me com um par de olhos escuros fixos em meu rosto, cinicamente esperando por resposta, enquanto uma parede repleta de rostos desconhecidos, mas rabiscados com chifres e bigodes ridículos se projetava atrás dele. Tenho vontade imediata de questionar o que diabos ele estava fazendo, mas então, calo-me abruptamente. Minha mandíbula solta um pequeno estalo, ao trincar os dentes. Lembro-me que ele tinha um caderno semelhante aquilo durante as aulas de português, ele colava fotos de nossos colegas, inclusive a minha, e os rabiscava da pior maneira possível para tirar sarro consigo mesmo; o fato que ele se deu ao trabalho de fazer a mesma coisa, aonde quer que ele estivesse, mas em uma parede inteira com fotos que pareciam ter tamanho natural de seus alvos agora, era suficientemente surpreendente. E ao mesmo tempo, não era.
Estamos falando de Remy LeBlanc, afinal, não há nenhum pensamento coerente na cabeça dele. Talvez nunca tivesse. Abro minha boca para dizer algo, mas então, silêncio me erguendo uma sobrancelha.
— Me diz que você não tá cagando agora — fecho meus olhos com força, arrependendo-me imediatamente de ter feito a ligação.
— Não estou cagando agora — Remy resmunga com seu sotaque criolo levemente pesado em sua voz, torna as palavras arrastadas, estranhamente mais charmosas do que deveriam, mesmo que o homem fosse o completo oposto da palavra charme. Seu tom de voz era sério, quase cínico, mas o sorriso que começa a surgir no canto de seus lábios, era prova o suficiente para que soubesse, tardiamente, que ele está se divertindo muito com toda a situação. Contenho um praguejar entre dentes, tentando não revirar meus olhos. Conte sempre com Remy para se divertir com sua desgraça.
— Então que porra você tá fazendo? — Obrigo-me a abrir os olhos, fuzilando o semblante quase plácido e límpido de meu antigo colega de faculdade. Remy lança um olhar breve à esquerda, estreitando os olhos, e então considera alguma coisa, antes de dar de ombros singelamente, me encarando através da tela.
— Aliviando o estresse — rebate calmamente, como quem comentava sobre o tempo e não porque diabos toda vez que tentava entrar em contato com ele, algo estranho e muito suspeito estava acontecendo. Ou ele estaria em um ambiente questionável, ou estaria fazendo algo questionável, ou teria uma ruiva ao fundo, o que por si só, de todas as coisas, era o mais questionável sobre ele. Pisco com o comentário, pega desprevenida com sua escolha de palavras, faço uma careta, sem saber ao certo o que dizer, mas tentando muito encontrar alguma palavra útil.
Após alguns minutos em silêncio, nego com a cabeça, um suspiro pesado escapa de meus lábios, pesaroso. Porque só me apareciam pessoas desse tipo? Talvez o problema fosse realmente eu e não as outras pessoas.
— Você viu aquele vídeo sobre rebolar no banheiro, não foi?
— Totalmente.
— Por que você é assim, LeBlanc?
— Por que você é assim? — Ele rebate e suspiro pesado, dando de ombros, solenemente.
Ele tinha um excelente ponto. Não tinha ideia do porquê sou do jeito que sou, mas tenho quase certeza que não passam de consequências e resultados de negligência afetiva. De modo geral, considero.
— Olha, esse não é o ponto agora, preciso de um favor. Seu, especificamente, agora — pronuncio, por fim, tentando ocultar minha ansiedade e falhando miseravelmente. Exalo por entre meus lábios, deixando-me recostar contra a porta do banheiro fechado, sinto o peso, não apenas de minhas responsabilidades, como, igualmente, o peso do passado que parecia assombrar-me como um fantasma errante. Um obsessor, Remy teria sabiamente colocado se pudesse ler minha mente; que bom que ele não pode. — Preciso que você venha até aqui e faça uma entrevista com um completo idiota de Hollywood.
— É o Danny Devitto? — Remy questiona cautelosamente, e genuinamente contemplo a ideia de atravessar o aparelho celular e esganá-lo. Não faço ideia do porque, mas ele tem um rosto bem sociável.
— É sério, Remy!
Remy bufou, revirando os olhos.
— Não para mim.
— Vai se foder — ele abre um sorriso largo com meu comentário e antes que ele possa responder com um comentário obsceno e bastante descritivo, o interrompi imediatamente seguindo com minha linha de pensamento. — Estou falando sério, LeBlanc, preciso de ajuda e você me prometeu que ajudaria. Não posso… não consigo encará-lo depois de tudo…
Remy ao menos tem a decência de ficar em silêncio por um momento, as sobrancelhas grossas se unindo enquanto sua expressão se torna um pouco mais sóbria.
— E vai continuar fugindo? — Remy enunciou as palavras, com os olhos estreitados. — Porra, , faz a vida dele um inferno. É você que irá contar a história, eles te contrataram para isso, não para agradar o ego de um idiota como ele — Remy faz uma pausa considerando, antes de dar de ombros. — Seja lá quem seja a pessoa que nós odiamos no coletivo — acrescenta como se isso fosse incrível, e admira-me que ele tenha uma ótima disposição para compartilhar do ódio alheio, mas seja exatamente o tipo de pessoa que não move um dedo para ajudar alguém.
— respondo, e Remy suspira pesado. Ótimo, agora é o maldito idiota que está com pena de mim. Tudo o que eu precisava.
— Merda — murmura antes de erguer a cabeça com uma expressão surpresa, e, ao mesmo tempo, tensa. Alguém parece chamar pelo nome dele e o coloca em alerta. — Não posso sair daqui. Tem muita merda acontecendo, mas se quer saber? Você tem a chance de escrever o que quiser sobre ele, expõe a verdade. É para isso que a gente trabalha, não é? Para expor o que tá escondido… — Remy pausa abruptamente, antes de revirar os olhos e simplesmente desligar. Fecho meus olhos com força, enterrando meu rosto em minhas mãos. Que grande ajuda do caralho, Remy. Como sempre.

•••


: Você está ciente de que tudo o que for dito aqui será transcrito diretamente para a revista Valiant, certo?
LANCASTER (ator): Sim.
: Está pronto? Podemos começar?
LANCASTER: Tudo bem, vai em frente, o que você quer saber? Pode perguntar (pausa longa). Nasci no começo de Agosto, no dia 12, o que significa que (pausa) sou de Leão, seja lá o que isso signifique e minha família sempre foi abastada o suficiente para que nunca tivesse tido problemas algum. Cresci em uma casa eduardiana no Chelsea, em Londres. Vizinhança rica, com tortas feitas do zero esfriando em janelas, aulas com tutores caros, todo o roteiro que se espera de uma pacata vizinhança (pausa longa) olha, , digo… (pigarro) estou morrendo de vontade de contar toda a minha história para você mas essa parte é bem entediante, porque simplesmente não pulamos para frente? Existe algo que eu gostaria muito de falar com você, se me der apenas… [CORTE]
(...) puta merda, eu devo ter enlouquecido (pausa longa) tudo bem como estava dizendo, era como viver um perfeito sonho americano, mas em um país europeu. Viajamos muito, conhecemos outros lugares, não havia limites que pudessem ser impedidos, ou não alcançados, só não me encaixava muito bem ali. Olha, amor, eu concordei em fazer isso, eu sei, e tudo mais, e vou fazer, mas pelo menos para de me olhar assim.
: Assim como?
LANCASTER: Como se você ainda me quisesse. Eu sei que sou gostoso e tenho um charme irresistível, mas pelo menos se mantenha profissional, sabe? Se continuar me despindo assim com o olhar, vou ficar gripado (risos).
: Ah, puta que pariu, vai a merda, caralho de [CORTE]
LANCASTER: (pausa longa), certo, parei. Ei, parei, prometo, tem minha palavra. Qual é , oi espera, qual é amor, eu estou falando sério! Olha, eu realmente não quero [CORTE]. Certo, quando quiser (pausa longa) minha família tem um aspecto complexo, nós não somos exatamente as melhores pessoas para falar sobre sentimentos. O que expressamos normalmente é apenas aquilo que se condiz apropriado para o momento, e o apropriado sempre era uma expressão séria e olhar distante. Minha mãe é gentil, ela consegue conversar, mas se for apontar uma falha, é que ela não fez muito para que nós aprendêssemos a nos comunicar direito. Não quando diz respeito sobre nossos sentimentos (pausa longa), de todos assumo que sou o pior. Minha compreensão sobre como expressar o que sinto é defasada, ridícula diante das outras pessoas. Não consigo expor o que sinto porque não entendo o que sinto. Está ali, mas ao mesmo tempo, não está. Havia essa… bom, havia essa garota, Alina (Alina Zhao, falecida), irmã gêmea de Mark (Markus Zhao, Herdeiro da Companhia Zhao, marido de Elizabeth , irmã de ), ela era essa criatura… essa pessoa expressiva. Não ocultava nada, usava o coração em suas mangas e sempre era honesta com o que sentia. Um pouco como você [CORTE] (pausa longa), ela era instável, a Alina. Era doce e gentil, mas instável como um tsunami. Às vezes chegava em um pico de energia em casa, às vezes, não se sentia disposta a fazer nada. Ela tinha esses… esses momentos em que simplesmente ficava deitada, fosse na sala de casa ou no quarto de minha irmã, apenas assistindo algum tipo de filme em preto e branco, ou lendo algum romance velho que estava no porão, ela costumava recitar as falas encenando-as uma por uma.
Ela não era cruel, entende? Ela realmente me ouvia, mesmo ciente de que na maioria das vezes não retornava o gesto. Gostava muito de arte, então passávamos a nos conectar com isso. Era algo bobo, que não parecia ter significado algum. Mas para mim, realmente criou raízes (pausa longa) percebi que poderia ser o que desejasse se estivesse atuando. Soube naquela época, ainda criança, que era tudo o que mais desejava em minha vida. Uma chance de sair da minha própria mente e ser outra pessoa. E para ser sincero? Não era assim tão difícil. Já sabia como portar-me diante das pessoas, o que dizer para encantá-las, para que me permitissem entrar em suas vidas. Sei como soa, mas prometi que não haveria mentiras nessa entrevista [CORTE]
:
Então, o que aconteceu?
LANCASTER: Alina não aguentou a pressão. Em algum momento acredito que foi apenas demais. Veja bem, acho que uma parte dela realmente me amava, mas para mim, ela sempre foi a melhor amiga da minha irmã. Além disso Elizabeth era muito apegada a Alina, jamais poderia fazer alguma coisa que pudesse comprometer isso (pausa), não altera o fato de acabei cometendo erros o suficiente para afetá-la. Lembro-me de que ela havia dito com todas as palavras que a culpa não era minha, em sua carta de despedida. Mas não altera o fator final, altera? Ainda senti-me culpado por não retribuir seus sentimentos, por tê-la usado de certa forma, sem mesmo perceber que estava o fazendo. Mas minha irmã… minha irmã ficou arrastada. Elizabeth se ressentiu, muito, e não posso culpá-la por isso, acho que (pausa longa), se estivesse no lugar dela, também o faria. Teria ressentido-me no instante que viesse alguém (pausa longa seguida de pigarro) de qualquer forma, depois desse incidente, algo despertou dentro de mim.
Precisava sair de casa, ficar o mais longe de minha família. Eu sei que não sou uma boa pessoa, , eu sei que já fiz muita merda, e você não precisa ouvir isso [CORTE] (pausa longa seguida de pigarro) a onde estávamos? Você quer que volte do começo, ou podemos seguir de onde paramos?
: De onde paramos.
LANCASTER: Certo, muito bem, de onde paramos (pausa). Conseguir um papel em um filme mediano de Hollywood não foi muito difícil para mim. Tenho a aparência, uma boa capacidade de atuação, e meu pai possuía dinheiro o suficiente para financiar um blockbuster sem sequer preocupar-se com o desfalque, não demorou muito para que chamasse a atenção de diretores interessados. Não pude mudar meu nome, mesmo que desejasse, mas finalmente consegui fugir da minha família. Das garras deles, dos teatros desnecessários, de toda… aquela realidade sufocante. Mas não fiz isso de forma graciosa, eu admito. (pausa longa) Elizabeth estava mentindo, você sabe, não, sabe?
: Isso não é sobre nós, , mantenha o foco, por favor, estou aqui como jornalista, não como sua [CORTE]. Pode prosseguir, por favor.
LANCASTER: Bem, fama, sucesso, tudo isso, não era exatamente o que eu esperava, ou sequer desejava. É legal, é claro, há algo de atraente em ser amado por pessoas desconhecidas, de ter a atenção alheia voltada para mim. Ser adorado, te faz sentir um pouco como um deus, entende? Essa parte é viciante. Você quer agradar mais, quanto mais chama atenção, mais quer ser o centro das atenções, o destaque, os elogios, te fazem acreditar que você é realmente tudo aquilo (riso seguido de pausa) é mentira, é claro, uma fantasia, no final do dia você é apenas humanos, e precisa lidar com todas as suas decisões, mas mesmo assim. Apelativo. Mas não é exatamente o que eu desejava encontrar, não se comparava com o que já tinha, antes (pausa longa). É por isso que precisava que fosse você, entende? Por que é a única pessoa que acredito que me odeia o suficiente para ser sincera, para me dizer exatamente o que pensa de mim, não elogios ou comentários sobre meus filmes, apenas (pausa longa) verdadeira o suficiente para ver o que há por trás de tudo.
: Para alguém com tanto sucesso, é difícil acreditar que você se arrependa de alguma coisa, .
LANCASTER: (riso seguido de pausa) sou um excelente ator, amor, sempre fui, aprendi com meu pai a esconder minhas emoções, a fingir que não há nada por trás de meu rosto. O fiz por tanto tempo que agora parece que vou me afogar.
: Perdoe-me por não simpatizar com as consequências de seus atos.
LANCASTER: (risos) acho que mereço isso.
: Ah, você acha [CORTE] certo, então, me diga, se a fama é tão corrosiva como diz ser, do que diabos mais se arrepende então? Sequer existe algo que tenha o feito se arrepender tanto assim?
LANCASTER: (pausa longa) sim (pausa) existe sim, você. Me arrependo de ter deixado você ir, , de todos os meus erros, não há um dia que não considere… que não arrepender-me de ter trocado você por Hollywood, eu detesto tudo isso, detesto o que Hollywood é, as câmeras, os fãs, é insuportável, corroí minha alma, me faz querer arrastar-me para fora de minha pele, porque não importa o que faça, estou preso nessa… nessa maldita condição em que sempre procuro você, mas nunca encontro. , espera, por favor, só me escute, só preciso de uma… [CORTE].

FIM!

Nota da autora: > Remy LeBlanc fazendo cameos em fanfics aleatórias porque eu si divirto com meu jornalista investigativo de um neurônio só 🫶. Obrigada por ter lido!