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Autora Independente do Cosmos ✨
Concluída ✅


01

when you say: honey…

O pub ficava a poucas quadras do lugar onde a banda tinha tocado, o que tornava a escolha conveniente e, ao mesmo tempo, péssima.
Conveniente porque ninguém precisaria atravessar Londres inteira de madrugada.
Péssima porque metade das pessoas que estavam no show parecia ter tido a mesma ideia que eles.
precisou desviar de dois grupos parados na entrada antes de conseguir encontrar Connor no fundo do salão, acenando por cima da cabeça de alguém. James estava do lado dele, encostado no balcão e ocupava espaço suficiente para três pessoas enquanto contava alguma história.
Claro que ainda não conseguia ouvir o que ele falava, mas reconhecia bem a cena; as mãos dele se mexendo mais que o necessário, Connor rindo antes da história terminar, interrompendo a própria narrativa para acrescentar algum detalhe que provavelmente não faria a menor diferença.
Ele foi o primeiro a ver . Parou no meio da frase e sorriu como se estivesse vendo a coisa mais bonita do mundo.
— Finalmente!
se aproximou, tirando o casaco.
— Nem começa.
Ele pegou o casaco, sem pensar muito e o colocou na cadeira vaga do seu lado.
— Te mandei mensagem deve ter uns quarenta minutos. Achei que tinha acontecido alguma coisa — fez uma careta.
— Mas eu te respondi que já estava chegando, — rolou os olhos, balançando a cabeça. — Você é impossível.
, quase por reflexo, puxou a cadeira dela alguns centímetros para perto da mesa antes que ela mesma fizesse. Foi um gesto automático.
Tão automático que nenhum dos dois comentou.
Connor, por outro lado, percebeu. E não deixou de fazer uma expressão para lá de engraçada.
— Tem hora que eu esqueço que vocês agem como um casal de setenta anos. Coisa mais brega.
Os dois viraram para Connor ao mesmo tempo.
— Cala a boca, Connor.
O timing foi tão perfeito que James começou a rir antes mesmo que o amigo erguesse as mãos em rendição.
— Tá vendo?
soltou uma risada.
— Vocês que vivem fazendo essas coisas — James completou, dando de ombros. franziu o cenho.
— Que coisas?
Foi aí que Connor começou a levantar os dedos, contando. Conhecia e há anos para saber exatamente cada detalhe da relação dos dois.
— Ele segura sua bolsa quando vocês saem.
virou o rosto.
— Ela sempre esquece em algum lugar.
— Eu nunca… — parou no meio da frase. — Tá, uma vez.
James soltou um pigarro.
— Umas cinco.
— Que exagero — ela cruzou os braços e encostou o corpo na cadeira de madeira. — Vocês vieram pra beber ou pra ficar falando da vida alheia?
— Não precisa ficar irritada, darling, sabe como eles são enxeridos — comentou, deixando uma risadinha de canto escapar. Mas sequer percebeu quando ia) deu uma pequena travada ao ouvir o apelido saindo de sua boca.
Claro que queria ter sentido o corpo arrepiar. Ou até o coração esquentar por ouvir a chamando carinhosamente daquela forma. Mas, a verdade era que odiava apelidos como aquele.
Darling, sweetheart, baby, angel… Todos os ridículos apelidos que nunca lhe apareceriam em momentos bons, como aquele. Apelidos que há alguns anos, em seu cotidiano, eram marcados por amizades falsas e amores vazios.
Apelidos que ela queria nunca mais ter que ouvir na vida.
Respirou fundo e resolveu ignorar. E, depois de mais alguns minutos ouvindo Connor defender, pela terceira vez, que tinha sido ele quem tinha salvo o show daquela noite, deu um último gole na bebida.
— Vou no banheiro rapidinho.
levantou os olhos no mesmo segundo.
— Quer que eu peça outra enquanto isso? — ergueu o copo vazio.
balançou a cabeça.
— Pode ser gin dessa vez?
— Ok — assentiu. — Mas vê se não foge, hein.
— Claro, vou sair pela janela do banheiro — ironizou, não conseguindo evitar o sorriso na boca.
Observou rir baixinho e se virou, seguindo pelo corredor estreito do bar. Não demorou muito para entrar no banheiro, que estava mais vazio do que de costume em pubs como aqueles, ainda mais de madrugada. Havia apenas duas mulheres de frente para o espelho, retocando a maquiagem enquanto conversavam sobre um assunto aleatório.
entrou em uma das cabines sem prestar muita atenção no que acontecia. Só começou a entender depois de dar a descarga.
...ela estava na mesa da banda.
A outra respondeu alguma coisa que não conseguiu entender.
Piscou algumas vezes e abriu a porta da cabine, saindo.
As duas ergueram os olhos para o espelho quase ao mesmo tempo. se aproximou da pia para lavar as mãos e o silêncio entre elas ficou ainda mais incômodo que antes.
Uma das mulheres, a morena, inclinou levemente a cabeça.
— Adorei sua saia.
sorriu, educada.
— Obrigada. Confesso que eu quase—
— Eu só nunca teria coragem de usar uma assim — a mulher continuou, a interrompendo na mesma hora. franziu o cenho.
Olhou para a própria roupa.
— Por quê?
Ouviu uma risadinha da amiga.
— Ah... Esse tipo de saia marca muito — arqueou uma das sobrancelhas, analisando por completo. — Não combina com qualquer corpo.
— Mas até que você parece bem confiante, querida — a loira, mais baixa, pressionou os lábios, como se quisesse esconder uma gargalhada.
E foi aí que ela entendeu. Aquilo não era mesmo um elogio.
Óbvio que não iriam elogiá-la assim do nada. Ainda mais colocando mais um apelido horrível no meio da frase, só para ridicularizá-la.
sentiu o estômago embrulhar, ainda mais quando viu as duas passando pela porta.
Respirou fundo. Não iria se deixar levar por aquilo, mas involuntariamente alisou o tecido da saia que vestia, a puxando um pouco para baixo, como se aquilo fosse escondê-la de tudo e todos.
Saiu minutos depois, tentando pensar em qualquer outra coisa que não deixasse evidente, agora, sua expressão cabisbaixa. Quando chegou à mesa, Connor ainda falava sem parar e James já não estava mais ali.
virou o rosto assim que ela se aproximou.
Ela tentou sorrir. Tentou mesmo.
Mas conhecia o suficiente para ter certeza que ele notaria.
se sentou, já levando o copo de bebida na boca como se aquilo evitasse qualquer assunto que surgisse.
— Vou pegar mais bebida. Vocês querem? — Connor perguntou, vendo assentir. negou.
Assim que saiu, continuou olhando para ela.
— Que foi?
— Você tá com uma cara estranha — franziu a testa.
Ela desviou os olhos por alguns segundos.
— Tá tudo bem.
— Tem certeza? — insistiu.
não respondeu. Ficou pensando se deveria contar sobre o que aconteceu, principalmente porque, vendo de fora, parecia algo tão bobo e superficial.
Mas havia mexido com ela.
Havia incomodado. Magoado.
E odiava se sentir daquele jeito.
— Tinha duas garotas no banheiro — começou. Ele ouvia, atento. — E fizeram um comentário desnecessário.
permanecia imóvel.
— Sobre?
Ela olhou para a própria saia, deixando um sorrisinho amarelo surgir.
— Isso aqui.
Ele franziu o cenho, tentando entender.
Abaixou o olhar para onde ela encarava e a olhou outra vez.
— Disseram que esse tipo de saia não combina com qualquer corpo. Obviamente, não com o meu.
ainda não tinha dito absolutamente nada. E ela conhecia bem aquele silêncio. Mil coisas estavam passando pela cabeça do melhor amigo, ela sabia muito bem.
Era o exato silêncio de quando ele estava realmente incomodado.
— E você acreditou nelas? — perguntou.
A pergunta pegou desprevenida.
Demorou alguns segundos para responder.
— Não.
— Você gostou dessa saia quando saiu de casa? — assentiu. — Quando entrou aqui também? — a garota assentiu outra vez. Ele inclinou a cabeça. — Então por que duas pessoas que você nunca viu na vida passaram a saber mais sobre você do que você mesma?
abriu a boca, mas não encontrou resposta.
— Você tem um ponto.
Ela sorriu pela primeira vez desde que tinha voltado do banheiro.
— Até que você é bom com conselhos, .
— Claro. Sou seu melhor amigo, te conheço como ninguém — a empurrou de leve pelo ombro. — Agora experimenta isso aqui.
olhou para o líquido âmbar.
— Melhor não. Você fez uma cara muito estranha quando bebeu — apontou.
— Fiz.
— Então, porque raios eu vou beber?
sorriu.
— Porque aí, em vez de ficar pensando naquelas duas, você vai passar os próximos cinco minutos pensando em como essa bebida consegue ter gosto do pior enxaguante bucal que já experimentou na vida.
deixou uma risadinha escapar, já sentindo a mente mais leve do que antes. conseguia fazer aquilo com facilidade; espantar suas preocupações para longe como se não fossem nada. E, de certa forma, coisas como aquela realmente eram aquilo: nada.
Sem pensar, levou a mão até o rosto dela, afastando delicadamente uma mecha do cabelo castanho, que havia caído sobre seus olhos.
O gesto foi rápido. Natural.
Quase distraído. Mas, foi suficiente para que ela parasse de rir.
Ele percebeu a mudança e franziu o cenho.
— O que foi?
balançou a cabeça. Suas bochechas começavam a queimar.
— Nada não.
continuou com a mão por mais meio segundo antes de soltar.
A observou, conferindo se tudo estava bem mesmo e sorriu, como costumava fazer. Com o mesmo sorriso calmo e maravilhoso que sempre tinha nos lábios.
O mesmo sorriso que deixava o coração de aquecido, sem ao menos perceber.
— Melhor assim, honey.

________

O estúdio estava silencioso pela primeira vez naquele dia.
Connor e James tinham saído para comprar café e alguns croissants de amêndoas que eles adoravam, enquanto tinha ficado com , os dois espalhados no meio dos cabos, instrumentos e computadores.
estava sentada no sofá perto da janela, editando as fotos do último show no notebook. Não podia negar que amava seu trabalho. Conseguir capturar os melhores momentos de uma banda, ainda mais sendo uma de suas favoritas, não poderia ser um emprego melhor.
dedilhava distraidamente o violão do outro lado da sala. Não tocava nenhuma música em específico. Só fazia barulho o suficiente para não deixar o silêncio tomar conta, e de quebra, irritar um pouco a melhor amiga.
Ele via alternando entre uma foto e outra, editando as que precisava e excluindo as que não tinha gostado. Gostava de vê-la tão concentrada e gostava ainda mais de ter sua companhia na maioria dos dias.
E, para , estar com era a válvula de escape que precisava depois de um dia turbulento.
Depois do pub, ambos pareciam nem ter notado que a proximidade entre eles já estava um pouquinho maior do que o de costume. fazia questão de estar presente, mesmo sem ser solicitado e ela fazia o mesmo.
Grandes amigos, claro.
— Vai sair hoje? — o vocalista perguntou, ainda com os olhos nela.
pareceu despertar, piscou algumas vezes e o olhou.
— Vou.
— Com quem? Aquele cara ainda?
Ela clicou em outra fotografia.
— O Daniel? Sim.
demorou um segundo para lembrar. Era o rapaz de quem ela tinha falado alguns dias antes. Os dois tinham se conhecido em um aniversário e tinham saído para tomar café uma vez.
Depois outra.
Agora já era o quarto encontro.
— Então ele continua existindo — resmungou. riu. Era engraçado ver se comportar daquele jeito, com algo tão bobo. — Achei que você tivesse desistido — continuou, soltando um estalo com a boca. — É o que normalmente acontece.
— E por quê eu faria isso? — virou o corpo em sua direção.
— Você costuma desistir depois do segundo encontro.
— Desde quando você acompanha minha vida amorosa, ? — indagou, fingindo frustração.
— Não é como se eu precisasse acompanhar, , é só ter olhos e observar — deu de ombros, como se não ligasse para o assunto.
Mas a verdade era que ligava, e até demais. Saber que estava dando a atenção, que costumava ser dele, a outra pessoa, incomodava bem lá no fundo do peito.
— E então? — perguntou, outra vez.
Claro que não queria parecer nitidamente interessado no que acontecia. Era só curiosidade. A curiosidade normal de quem pergunta se a outra pessoa prefere um sanduíche com ou sem queijo.
Nada demais. Era o que ele queria pensar que era.
Mas uma coisinha dentro de si incomodava mais que o normal.
— Então o quê?
— Não sei. Você saiu com ele ontem. Depois de um encontro, as pessoas têm opiniões.
— Ah, foi bom — deu de ombros, voltando a olhar para a tela do computador. — Fomos ao cinema e depois a um restaurante. Nada demais.
dedilhou o violão de novo, distraído.
— Gostou dele?
Notou que sorriu de canto.
— Gostei.
assentiu, lentamente. Ela ainda editava as fotos, sem qualquer pressa e respondia suas perguntas da forma mais natural que conseguia.
— Isso é bom.
E foi aí que ela o olhou de relance. Algo não parecia certo.
— Você tá muito calmo — franziu o cenho.
Ele soltou uma risada nasalada. Claro que perceberia. Ela sempre percebia.
— Como assim?
— Achei que ia fazer, sei lá, trezentas perguntas. Como sempre.
O silêncio durou alguns segundos logo depois. Só o clique do mouse e algumas notas soltas ecoando pelo estúdio.
ponderava se deveria fazer mais perguntas. E se queria mesmo saber mais sobre aquilo.
— Vocês vão sair de novo? — perguntou, sem tirar os olhos do violão.
— Acho que sim — mordiscou os lábios. Percebeu, no canto dos olhos, que o melhor amigo assentiu outra vez.
— Legal.
piscou algumas vezes e então virou o corpo para ele, outra vez.
— Só isso?
— O quê?
— Você respondeu como se estivesse super tranquilo — a garota resmungou.
levantou os olhos para ela, por fim.
— E eu não tô?
Ela riu fraquinho.
— Não muito. Tá fazendo muito esforço em tentar parecer tranquilo — fechou parcialmente o notebook, agora, dando toda sua atenção à ele. Sabia que conversas como aquela mexiam, de certa forma, com ambos. — Pode perguntar, vai.
pensou por meio segundo.
— Ele te faz rir?
A pergunta saiu mais séria do que ele imaginou. E seu sorriso diminuiu três quartos nos lábios. notou no mesmo instante.
— Faz.
Ele balançou a cabeça, assentindo. Talvez mais para si mesmo do que para ela.
— Que bom, então — as palavras saíram quase em um sussurro. Diretas demais.

— Hm?
— Você tá preocupado comigo?
tinha voltado a dedilhar o violão, mas a pergunta da melhor amiga o fez parar de imediato. Ele não queria que se machucasse. Não queria ninguém quebrando seu coração.
Não queria vê-la magoada. Não queria mesmo.
Se ele ao menos pudesse fazer algo…
— Sempre vou me preocupar com você, .
E a olhou uma última vez, antes de voltar a focar em seu trabalho.

02

But you touch my face,
redefine all of those blues…


não percebeu quando aquilo deixou de ser divertido.
O começo parecia maravilhoso com Daniel nitidamente interessado; mandava mensagens durante o dia, perguntava sobre o trabalho, comentava de alguns detalhes dos encontros que haviam tido, de como gostava de conversar com ela… Só que, algumas semanas depois, aquilo tinha mudado.
Ao invés de mensagens durante o dia, elas só apareciam bem tarde da noite.

"Tá acordada?"
"O que você tá fazendo?"
"Manda uma foto sua"
"O que você tá usando?"


E parecia que só aquilo importava. Como se fosse um passatempo, que só convinha a Daniel quando ele bem entendesse.
Foi então que, em uma madrugada enquanto encarava a tela do celular que havia acabado de notificar um “Você vem aqui?” dele, que decidiu acabar com tudo de uma vez. E, claro, recebeu o silêncio dele como resposta.
Típico — pensou.
Então, na manhã seguinte, um pouco depois das dez, não demorou para que a garota já estivesse com a chave reserva do apartamento de nas mãos, abrindo a porta sem pensar muito.
A primeira coisa que escutou foi a música alta. A voz de ecoava na sala de estar.
Involuntariamente, sorriu.
?
O chamou, vasculhando o cômodo com os olhos.
Cozinha!
deixou a bolsa no sofá e caminhou até lá, sabendo exatamente o que encontraria segundos depois. estava de costas para a porta, cantarolando a própria música enquanto remexia o corpo e tentava, de forma muito falha, virar um ovo na frigideira.
Metade dele já grudava na espátula. A outra metade parecia prestes a cair no fogão.
Ela cruzou os braços, encostando no batente da porta. Ficou meio segundo só assistindo o puro caos que acontecia.
— Sabe que tem formas muito mais fáceis de fritar um ovo, né?
olhou por cima do ombro, ainda tentando desgrudar o que restava do ovo da frigideira.
— Eu sei fritar um ovo, .
se aproximou um pouco mais e analisou o estrago que o melhor amigo fazia.
— Não faz essa cara.
— Que cara?
— A de quem tá me julgando silenciosamente — murmurou, contrariado.
Ela soltou uma risadinha e apontou para a frigideira.
, você conseguiu destruir um ovo.
— A frigideira que é ruim.
— A frigideira antiaderente caríssima que eu comprei pra você? — a garota arqueou uma das sobrancelhas.
Ele parou por meio segundo, pensou e a olhou de relance.
— Tá. A frigideira é ótima.
riu mais uma vez e estendeu a mão.
— Me dá isso aqui, vai.
balançou a cabeça.
Não queria ceder. Nem concordar que o que estava fazendo realmente parecia uma bagunça.
— Eu consigo.
.
Ele tentou mais uma vez. A gema terminou de se desfazer por inteira.
Um caos perfeito.
Entregou a espátula para ela com um suspiro.
— Só quero deixar registrado que estava tudo sob controle antes de você chegar — mencionou. se limitou a balançar a cabeça e ficou de frente para o fogão.
Enquanto ela tentava salvar o café da manhã, pegou outra caneca e colocou café, preparando do jeito que sabia exatamente como gostava.
Então, encostou na bancada, observando a garota por alguns segundos. Sem qualquer pressa.
— Você tá bem?
Perguntou, direto. tomou um gole do café ao ouvir a pergunta.
— Tô sim. Por que?
Mentiu.
— Você apareceu aqui às dez da manhã num domingo. Voluntariamente. E isso não é normal — fez uma careta.
— Talvez eu tenha virado uma pessoa matinal. Já parou pra pensar? — respondeu, sem olhar para ele.
— Não precisa mentir pra mim, . — ela continuou em silêncio. O sorriso de diminuiu um pouco. — Aconteceu alguma coisa?
desligou o fogo e apoiou a espátula sobre a bancada. Era claro que notaria que alguma estava estava errada ali.
A conhecia como ninguém.
— Terminei com o Daniel ontem.
ficou quieto.
Ah.
— É — completou.
Demorou um pouquinho para pensar no que falar.
— Foi ruim?
— Nem tanto. Só… Cansei — girou a caneca nas mãos. — Ele praticamente parou de falar comigo durante o dia. Aí chegava tarde da noite e começava a mandar mensagem perguntando se eu estava acordada, o que estava fazendo, o que estava usando…
fez uma careta.
— Ele é um idiota.
A resposta direta e rápida arrancou uma risada sincera de .
— Você nem pensou.
— Não tem muito o que pensar sobre isso.
Ele pegou um prato no armário e deixou do lado do fogão.
— Se o cara só lembra que você existe quando tá sozinho e entediado de madrugada, ele é um idiota. É bem simples.
respirou fundo e colocou os ovos no prato.
— Acho que eu nem tô triste por ele. Só é bem frustrante.
— Porque você queria que desse certo?
Ela pensou por um instante.
— Na verdade, eu tava gostando da possibilidade do que aquilo poderia ser, sabe? — remexeu o líquido na caneca. assentiu, pegando um garfo.
— Então talvez você tenha perdido uma possibilidade bem ruim — deu de ombros, apoiando os braços na bancada enquanto levava um pedaço na boca.
Ela o olhou.
— Isso foi quase inteligente.
— Quase?
— Também não vamos exagerar, né — balançou a cabeça, segurando uma risadinha.
levou a mão ao peito, ofendido.
— Você chega na minha casa, critica meu café da manhã, rouba meu fogão e ainda me insulta. Não tem vergonha, não?
— Esqueceu que me deu a chave reserva? — levantou uma das sobrancelhas, o empurrando de leve com a mão.
— E foi o maior erro da minha vida — colocou uma das mãos na testa, como se tivesse mesmo arrependido do que tinha feito.
Ela abriu a boca.
— Ah. Quer de volta, mané?
fez menção de procurar a chave no bolso do short, mas segurou seu pulso antes que terminasse.
Olhou bem no fundo dos seus olhos.
— Nem pense nisso.
A garota ergueu o olhar e a soltou quase imediatamente, puxando o prato para o meio da bancada.
Seu coração bateu mais acelerado que o normal.
— Agora senta aí. Você salvou meu ovo, merece pelo menos metade dele.
— Eu fiz praticamente tudo, ! — questionou, cruzando os braços.
— Exatamente. Metade.
O vocalista passou por ela, beijando seu ombro antes de sentar ao lado da melhor amiga. Foi inevitável não soltar uma risadinha fraca.
Não era preciso muito para que conseguisse fazer Daniel se tornar um acontecimento insignificante em sua vida.
Era o efeito que ele tinha, sem que a garota ao menos percebesse.
Conseguia tornar as coisas muito mais leves. Uma piada idiota, um café feito do jeito que ela gostava, uma discussão absurda sobre quem tinha direito a mais ovo.
E, quando percebeu, estava tranquila outra vez, sem qualquer peso para machucar seu coração.

03

Honey, I'm home, we can play house
You could be my forever night stand…


Já haviam se passado semanas e já não sabia dizer quantas coisas suas estavam espalhadas pelo apartamento de .
Um casaco no armário da entrada, um carregador ao lado da cama, produtos no banheiro e, em algum momento que ela não se lembrava exatamente quando, ele tinha esvaziado uma das gavetas da cômoda para ela.
também parecia não se importar.
entrou usando a própria chave, outra vez e equilibrando uma sacola de mercado no braço.
— Querido, cheguei! — disse mais alto, brincando.
— Você trouxe comida? — a voz de veio da sala quase na mesma hora.
— Que recepção calorosa — murmurou, fingindo estar decepcionada.
Claro que tinha um sorriso nos lábios. Aquela era uma das coisas que ela mais gostava na relação dos dois. Não precisava de muito para estar feliz.
— Senti sua falta também — respondeu, surgindo no corredor segundos depois. Os olhos foram direto para a sacola em seu braço. — Mas a pergunta continua.
— Você só gosta de mim porque eu te alimento.
— Isso não é verdade — franziu o cenho. Pegou a sacola de sua mão e espiou o conteúdo enquanto caminhava para a cozinha. — Você também tem uma conta da Netflix.
— Que você usa mais do que eu!
riu e o seguiu.
— Trouxe algumas coisas pra fazer macarrão — apontou para alguns itens que ia tirando da sacola. — E antes que pergunte, você vai ajudar.
Ele, que já organizava as coisas na bancada, parou com um pacote de tomates nas mãos.
— Mas eu sempre ajudo.
semicerrou os olhos.
— Você fica sentado bem aqui — colocou o indicador no mármore. — roubando o que eu corto.
— Isso se chama controle de qualidade.
— Se chama ser folgado — colocou uma das mãos na cintura, observando o amigo.
tinha os cabelos escuros ondulados caindo sobre os olhos e a mesma expressão tranquila no rosto, que sempre costumava ter.
E ela amava.
— Também.
Ele abriu um sorriso, também adorando a brincadeira e colocou o pacote em cima da bancada. Enquanto ele começava a cortar, colocou água para ferver e separou o restante dos ingredientes. Por alguns minutos, a música baixinha da TV da sala foi a única coisa que era possível ser ouvida ali. E, também, uma pequena discussão sobre o tamanho correto de um tomate cortado para molho.
Os dois ficaram imersos nos próprios pensamentos enquanto faziam os afazeres para uma janta básica naquela noite. Vez ou outra soltavam piadinhas, cantarolavam a música que tocava e até arriscavam uma dança ou outra.
Mas foi quando passou por detrás dela para pegar alguma coisa no armário que sentiu seu coração chacoalhar outra vez.
tocou sua cintura por reflexo, a colocando centímetros para o lado.
— Licença, sweetheart.
Foi rápido. Natural até demais.
Pegou o que precisava e voltou para a bancada como se nada tivesse acontecido.
Mas continuou ali, parada, demorando um segundo a mais para voltar a mexer o molho.
— Que foi? — perguntou, a olhando de relance.
— Nada, não.
Desviou o olhar, sentindo as bochechas queimarem subitamente.
Droga. O que raios era aquilo?!
— Você parou do nada. E estava sorrindo — ele apontou o talher que segurava. tentou controlar o sorriso, mais uma vez.
— Não tava.
Ele deixou a faca sobre a tábua, virando o corpo minimamente.
— Tava sim.
, termina os tomates — a garota revirou os olhos.
Sentia o coração tamborilar. estava odiando ter sido pega no flagra.
Ele se aproximou para colocar os tomates cortados ao lado dela.
— Por que você sempre faz isso? — indagou, curioso. piscou algumas vezes, sem entender. — Essa cara quando eu te chamo de querida. Você sempre sorri.
Ela sentiu as mãos suarem bem vagarosamente. Não era normal acontecer.
Bom, não quando era com .
— Talvez eu só esteja feliz.
— Toda vez então? — provocou. Ele sabia exatamente do que se tratava. E não podia negar que gostava.
Ela abriu a boca, mas nenhuma resposta suficientemente boa apareceu.
percebeu.
— Sabia!
— Você não sabe de nada — bateu de leve em sua mão.
— Então me conta.
voltou a mexer o molho, tentando parecer muito mais interessada nele do que realmente estava. Só que não fazia a menor ideia de como camuflar mais ainda o fato de seu peito estar querendo explodir com o que acontecia ali.
— Não tem o que contar. Eu só... Gosto — admitiu. Seus olhos ainda estavam focados na panela. Encarar naquele momento só faria suas bochechas queimarem ainda mais.
— Do quê?
Respirou fundo antes de resolver erguer o rosto.
— Gosto quando é com você. Quando é você me chamando assim.
O sorriso dele desapareceu aos poucos.
Mas não era como se ela tivesse dito a coisa errada. Pelo contrário.
simplesmente ficou olhando para a garota, como se precisasse de alguns segundos para assimilar exatamente o que tinha acabado de ouvir.
Ah.
soltou uma risadinha, já sentindo o rosto esquentar mais do que antes.
— Não faz isso ficar estranho. Por favor — murmurou, desligando o fogo. — Não fica me olhando assim.
— Você acabou de falar uma coisa dessas e quer que eu faça o quê?!
Ele parecia procurar palavras para responder direito.
Para falar para que ele também gostava de chamá-la daquele jeito e que não havia outra pessoa no mundo que ele gostaria de chamar daquela forma.
— Acho melhor esquecer o que aconteceu agora — brincou. — Terminou com os tomates?
— a chamou.
Ela tentou passar por ele para alcançar o escorredor, mas segurou delicadamente sua mão.
.
Ela parou.
Por um instante, não soube como começar. Nem sabia se conseguiria. E, pela primeira vez naquela noite, não encontrou nenhuma piadinha boba ou motivo para implicar com ela.
Apenas a olhou.
Para seu rosto. Seus olhos.
Depois para a boca.
E, novamente, para seus olhos.
sentiu o coração acelerar. Pela milésima vez.
...
Ele respirou fundo, ainda segurando sua mão.
— Eu tô tentando pensar em um jeito de fazer isso sem estragar tudo.
franziu levemente o cenho.
— Fazer o quê?
soltou uma risada curta, nervosa e passou a mão livre pelos cabelos.
Parecia um adolescente. E era vergonhoso.
não conseguia conter o sorrisinho nos lábios. Era estranho vê-lo daquele jeito. sempre tinha alguma coisa para dizer, mesmo quando não devia. Agora parecia ter esquecido todas as palavras que conhecia.
— Você tá nervoso? — perguntou, se divertindo.
Muito.
A sinceridade da resposta fez rir.
— Eu só... — começou, passando o polegar distraidamente sobre os dedos dela. — Faz um tempo que eu tô tentando descobrir se isso aqui é só uma coisa que a gente faz ou se… — ele fez um gesto entre os dois com a mão livre. — É alguma coisa.
o observou.
Isso aqui é uma descrição muito boa.
— Eu tava indo tão bem… — murmurou, jogando a cabeça para trás.
— Tava péssimo, !
Os dois riram baixinho. se aproximou um pouco mais.
— Posso tentar de outro jeito?
Ela sentiu o coração bater mais forte, ainda olhando nos olhos de .
Caramba! Como nunca tinha percebido em como eram tão bonitos?
— Pode.
hesitou só por meio segundo antes de levar a mão até o rosto dela.
Claro que o toque já era conhecido, entre um carinho e outro que costumava fazer, sem ao menos perceber.
Já tinha acontecido tantas vezes que provavelmente seria incapaz de contar.
O polegar passando pela bochecha. Os dedos se perdendo entre alguns fios de cabelo.
Mas nunca daquele jeito.
se inclinou devagar e, quando seus lábios se tocaram, sentiu como se tivesse sido pega completamente de surpresa.
Não foi um beijo demorado. Era calmo, gentil, como se o mundo ao redor não importasse mais para nenhum dos dois.
Ele se afastou, mas não foi muito longe. Seu peito batia descompassado.
abriu os olhos devagar e encontrou ainda perto o bastante para sentir a respiração dele contra seu rosto.
Por alguns segundos, nenhum dos dois falou nada. Nem queriam.
— Você tá sorrindo — ela murmurou.
— Você também.
— Não tô.
— Tá sim.
riu fraquinho, abaixando o rosto e se afastando minimamente. passou o braço por sua cintura, a puxando de volta.
Vem cá.
não teve muito tempo para reagir.
Os lábios de já estavam colados aos seus outra vez.
Dessa vez, sem nervosismo. Sem pensar demais.
sorrindo entre um beijo e outro, enquanto o puxava pela camiseta para ainda mais perto.
— Vai terminar os tomates.
Ela o empurrou de leve, brincando. riu, balançando a cabeça.
— Tá bom, honey.
E aí ele roubou outro beijo antes de voltar para a bancada.
ficou ali parada, sorrindo enquanto voltava a mexer o molho e ouvindo cantarolar, feliz da vida. Tão feliz quanto ela.
Talvez fosse só isso.
podia se acostumar com a ideia de ouvir apelidos bregas e bobos outra vez.
Mas só se viesse dele.

FIM!

Nota da autora: Oie! Espero que tenham gostado desse versefic, escrevi com muito amor e carinho para vocês <3