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Codificada por: Sol
Finalizada em: 05/08/2025


CAPÍTULO ÚNICO

Voltar para a escola depois do verão sempre parecia um pouco estranho, mas, dessa vez, por ser o último ano, já tinha um gosto de despedida. Os corredores pareciam os mesmos, apesar da sensação de que tudo iria mudar, mesmo que nada tivesse mudado ainda.
! — Ouvi alguém chamar antes mesmo de alcançar os armários.
Virei o rosto e sorri ao ver meu grupo de sempre reunido, como se o verão inteiro tivesse passado em um piscar de olhos. Abracei um por um, ouvindo risos, fofocas apressadas e promessas de que “esse ano seria diferente”. Mas, involuntariamente, meus olhos foram direto até , encostado no armário como se tivesse acabado de sair de uma propaganda de perfume, rindo de algo que Liam tinha dito. Sempre falava com todo mundo daquele jeito leve, charmoso, quase como se estivesse flertando. E, talvez por isso, ou por aquele sorriso meio torto que soltava sem perceber, várias garotas da escola caíam de amores por ele – já havia acontecido inúmeras vezes e, com o tempo, comecei a temer que, talvez, nem eu estivesse imune.
— Oi, vizinha… — disse, com aquele brilho nos olhos que me deixava estranhamente em silêncio às vezes. — Achou mesmo que ia escapar de mim no primeiro dia?
— Nem se eu quisesse. — Respondi, tentando manter a voz firme, mesmo que minha pele já tivesse memorizado a forma como ele sempre me abraçava.
Nosso abraço durou um segundo a mais do que o necessário, mas ninguém pareceu notar – exceto eu e, talvez, ele também. e eu éramos próximos desde sempre. Nossas famílias viajavam juntas, nossos quartos ficavam um de frente para o outro e nossas mães tinham aquela ilusão de que acabaríamos nos casando um dia. Quando éramos crianças, dormíamos no mesmo sofá assistindo desenho, mas agora eu não sabia nem como sentar ao lado dele sem sentir o ar ficando mais denso. Não sei quando começou. Talvez quando ele cresceu de verdade, a voz mudando, o rosto afinando, os ombros ficando largos demais pro casaco que usava no oitavo ano. Talvez quando me defendeu de algum comentário idiota no colégio. Ou quando reparei em como olhava pra mim quando achava que eu não estava olhando de volta.
— Você tá com cara de que odiou o verão. — Provocou, enquanto se encostava no armário ao meu lado, como se estivéssemos sozinhos no corredor.
— Talvez eu só tenha sentido falta do ar-condicionado da escola.
Ele riu baixinho, daquele jeito que fazia o peito vibrar, e passou os olhos por mim de cima a baixo.
— Cortou o cabelo… gostei.
— Você não tá tão mal também.
— Não tô tão mal? — Arqueou uma sobrancelha. — Isso é tipo… um elogio “passivo-agressivo”?
— É um elogio “mais-ou-menos”. Bem melhor do que aquele cabelo raspado.
— Sério que cê quer falar do meu cabelo? Depois de ter feito aquela coisa ridícula no sétimo ano?
Coloquei a melhor expressão de indignada que consegui no rosto, apesar de não conseguir esconder o sorriso.
— Ei! Descolorir o cabelo tava na moda naquela época, seu idiota.
— Não quer dizer que não seja extremamente brega… — ele encurtou a distância entre nós só um pouco, de um jeito quase imperceptível, mas que, para mim, pareceu um passo inteiro. — Promete que não vai fugir de mim esse ano?
— Promete que vai parar de me olhar assim?
— Assim como?
Eu podia ter respondido, feito uma piada, ou virado de costas, mas, naquele segundo, a única coisa que consegui fazer foi olhar de volta… e o tempo parou um pouco.
A primeira aula do ano parecia durar uma eternidade. A professora falava sobre a estrutura do curso como se fosse a coisa mais empolgante do mundo, enquanto a turma alternava entre bocejos disfarçados e sussurros abafados. Meus olhos insistiam em ir até a janela, ou até , que estava sentado uma fileira atrás e um pouco na diagonal. Tentei focar na minha folha em branco, até sentir uma leve cutucada nas costas, mas pisquei devagar, respirei fundo e ignorei. Dez segundos se passaram até eu sentir novamente e, assim que virei o rosto, encontrei o olhar dele, que estava com uma caneta na mão e a expressão mais falsa de inocência que eu já tinha visto, como se dissesse “não fui eu”. Puxei um post-it amarelo do canto do meu fichário e escrevi com calma:

“Se fizer isso de novo, vou enfiar essa caneta no seu olho.”

Dobrei o papel e joguei discretamente no colo dele, que, dois segundos depois, tossiu de leve – provavelmente tentando disfarçar a risada – e me devolveu o post-it, agora com outra caligrafia, inclinada e despreocupada:

“Agressiva. Tá com saudade de mim ou é impressão minha?”

A resposta certa seria escrever uma piada de volta, uma ironia, talvez. Mas a verdade é que eu senti falta dele. Só que esse tipo de coisa a gente não fala. Pelo menos, não do jeito que ele tinha escrito. Segurei a caneta com mais força do que devia e escrevi:

“Só senti falta dos intervalos, se quer saber.”

Entreguei o bilhete de novo, sem olhar para trás e ouvi o som abafado da risada dele logo depois, sentindo um calor subir pelo meu pescoço. Fingi prestar atenção na professora, mas meu corpo inteiro estava ciente da presença de atrás de mim e do jeito que ele cruzava os braços e deixava os dedos tamborilarem devagar na mesa. O refeitório parecia exatamente o mesmo. As mesas riscadas, o cheiro de comida quase comestível e aquela mistura de vozes e risadas que criava uma espécie de eco familiar no fundo da cabeça. apareceu do nada, se jogando no banco ao lado do meu.
— Você viu o cabelo da Jess? Se mais uma pessoa virar ruiva, a escola vai parecer a própria família Weasley.
Soltei um riso fraco, ajeitando meu próprio prato na mesa.
— Confesso que ficou melhor do que eu esperava. — Respondi, mesmo não prestando tanta atenção assim. Meus olhos estavam ocupados em outra parte do refeitório – mais especificamente, na mesa à frente.
Liam e falavam animados sobre alguma coisa que envolvia futebol e duas meninas estavam sentadas perto demais – uma ria de tudo o que ele dizia e a outra mexia no cabelo a cada cinco segundos. Aparentemente, bastava sorrir para acionar o alarme hormonal da escola inteira – o pior é que nem era culpa dele.
— Você tá olhando… — ela pontuou, entre uma mordida e outra de batata.
— Eu não tô olhando.
— Aham. Tá só… avaliando o comportamento social dos colegas, né?
— Exatamente. — Murmurei, cruzando os braços.
virou o rosto bem na hora e, mesmo no meio da conversa e com todo o barulho, seus olhos encontraram os meus, como se soubessem exatamente onde eu estava. Então, deu um sorriso lento e, segundos depois, levantou da mesa com a bandeja e veio até a nossa.
— Com licença, senhoras… — disse, com aquele tom dramático que usava quando queria ser idiota, e sentou ao meu lado sem pedir permissão, como se o lugar fosse naturalmente dele.
— A fila de meninas continua te perseguindo, né?
— Inacreditável… ainda bem que eu tenho você pra colocar meus pés no chão, meu balde de água fria pessoal.
— Eu me esforço pra ser exatamente isso.
Ele riu e foi aí que cometeu o crime: pegou uma batata do meu prato.
— Ei! — Exclamei, empurrando seu cotovelo. — Roubar comida logo no primeiro dia?
— Justiça emocional por todas as vezes que você fez isso comigo. — Respondeu, colocando a batata na boca com a maior tranquilidade do mundo, e lambeu os dedos, com o olhar ainda em mim.
Como uma idiota, percebi que estava olhando também e desviei rápido, sentindo o coração dar uma batida mais forte, como se minha consciência estivesse me dando um tapa. Logo Liam e Theo se juntaram a nós, ocupando os lugares da frente com as bandejas bagunçadas e a típica energia barulhenta de sempre.
— Primeiro dia e já jogaram dois trabalhos, parabéns pra nós. — Theo reclamou. — Essa professora nova de inglês quer nos matar antes do baile de formatura.
— Eu achei ela simpática… — disse, dando de ombros. — Só meio intensa.
— Intensa tipo “sou fã de Nietzsche” ou intensa tipo “já joguei uma tesoura em alguém”? — Liam perguntou, arrancando uma risada geral.
A conversa se espalhou por vários temas – professores novos, quem tinha ficado com quem no verão, teorias sobre o próximo campeonato – e eu fiquei ali, ouvindo mais do que falando, absorvendo cada fragmento de normalidade. Sempre foi fácil rir com eles, mas, agora, parecia que uma parte de mim estava sempre escutando o que ele dizia.
— E aí, … — Theo começou, jogando um sachê de ketchup na mesa. — Aquela garota que você tava saindo no verão… como era o nome mesmo? Julie? — A pergunta caiu como um gole de água gelada na garganta.
demorou um segundo a mais do que o normal para responder, o suficiente para me fazer sentir.
— É, Julie… saímos algumas vezes.
— E então?
Ele deu um sorrisinho sem mostrar os dentes, olhando para o próprio prato.
— Foi legal, mas não foi pra frente… — desviou o olhar em seguida, pegando uma batata, como se aquilo encerrasse o assunto.
— Melhor assim… — disse Liam, dando um tapinha nas costas dele. — Esse ano tá só começando, parceiro. Tem muito chão ainda.
riu de novo, com menos entusiasmo, e, mesmo com a conversa seguindo e com o grupo se dispersando entre piadas e planos para o fim de semana, continuei pensando no jeito como ele falou da tal Julie.
O sinal tocou como música divina e os corredores se encheram de mochilas batendo, vozes falando alto demais e passos apressados. Fechei meu armário com um suspiro leve e joguei a alça da mochila por cima do ombro, pronta para finalmente sair dali, apressando o passo até alcançar o grupo já reunido perto da saída principal. Descemos os degraus da escola juntos, rindo de alguma piada boba que Theo contava, até parar ao meu lado:
— Ei, “sumida do verão”… quer carona pra casa?
— Esse é o meu apelido agora? — O olhei, debochada. — Pensei que seu pai só cedia o carro dia de quarta e sexta…
Ele jogou uma chave para cima e pegou no ar de volta com um sorriso de quem adorava aquele tipo de efeito dramático.
— Não mais… desde que meus pais decidiram que me dar um carro no fim das férias era um presente justo por “sobreviver ao ensino médio até aqui”.
— Você tá brincando…
— Tô falando sério. — Respondeu, sorrindo de canto. — Quer ver?
Apontou com o queixo para um carro azul escuro estacionado do outro lado da rua, brilhando sob o sol como se tivesse saído da concessionária naquela manhã.
— Meu Deus, você é oficialmente um adulto agora! — Exclamei, me aproximando e o abraçando como se aquilo fosse uma grande conquista nossa.
— Um adulto com responsabilidade zero.
— Então um adolescente com carro, o que é, basicamente, uma ameaça pública.
Antes que qualquer um dissesse algo, Rebeca falou, se aproximando:
, agora que tem carro, vai ser o nosso Uber oficial pro shopping.
— Amei! Ele leva a gente e ainda carrega as sacolas. — se animou.
deu um passo para trás, levantando as mãos como se estivesse se rendendo.
— Vocês acham que isso aqui é o quê? Aplicativo por voz?
— Não, mas posso pagar com fofocas exclusivas.
— Eu aceito pagamento em milkshakes. — Respondeu e todo mundo riu, mas, mesmo no meio da brincadeira, seu olhar voltou para mim. — Vai querer a carona?
Dei de ombros, tentando esconder o sorriso.
— Só se o motorista for confiável.
— Ah, não sou… mas sou bonito, o que compensa. — Revirei os olhos, mas o segui até o carro, ouvindo os outros se despedirem entre piadas e acenos dramáticos. Ele caminhou até a porta do passageiro e, numa encenação digna de premiação, a abriu com uma reverência exagerada. — Madame…
— Você não presta.
— Mas sou seu motorista exclusivo agora. — Retrucou, fazendo uma pose dramática, e entrei no carro ainda sorrindo, o observando dar a volta para o banco do motorista. Quando ligou o motor, olhou de soslaio para mim, claramente esperando alguma reação. — Você nem comentou nada… — disse, com um tom de falsa indignação que sempre gostava de usar.
Olhei de relance em sua direção. Uma mão no volante, a outra descansando no câmbio e aquele sorriso idiota nos lábios. O mesmo de sempre e, ainda assim, parecia outro.
— Ué, eu abracei você. — Retruquei, erguendo as sobrancelhas. — Quer o quê, uma placa comemorativa?
— Eu estava esperando pelo menos um discurso, um outdoor, fogos de artifício, uma lágrima de emoção… algo digno da ocasião.
— Dramático. — Falei, rindo e encostando a cabeça no banco. — Devia ter entrado pro teatro, ganharia um Oscar fácil.
— Eu sou multifuncional. — Respondeu, dando uma piscadinha. — Não é à toa que fui eleito o mais carismático do colégio.
— Autodeclarado, no caso. — Rimos e, por alguns segundos, só se escutava a música de alguma playlist selecionada por ele tocando baixinho, até que perguntei: — Por que não contou antes do carro? Achei que você fosse mandar cinquenta fotos no grupo, fazer uma contagem regressiva… nomear o carro, talvez.
Fez um som debochado com a boca, recostando melhor no banco, mas sem tirar os olhos da estrada.
— Porque você passou as férias inteiras fora… — disse, mais baixo, quase como se estivesse confessando algo. — Achei que tivesse me esquecido.
Aquilo me pegou desprevenida. Eu podia rir, brincar, dar de ombros, mas, por algum motivo, a frase ficou martelando.

Esquecer você, ? Bem que eu queria.

— Eu fui visitar meus avós, drama queen. Como todo verão… — retruquei, tentando soar leve. — E você sabia, só tá querendo fazer cena mesmo.
— Talvez… — me olhou de relance, o sorriso voltando. — Mas foi estranho sem você por perto.
Não respondi. Fiquei mexendo no zíper da mochila entre os dedos, tentando controlar uma coisa besta que começava a crescer no peito.
— E como foi a sua viagem pra praia? — Perguntei, antes que minha cabeça fosse longe demais.
— Ensolarada… mas meio sem graça.
— Bom saber que sem mim o mundo perde um pouco da cor. — Brinquei com uma ironia fingida e ele soltou um riso baixo.
— Você não faz ideia.
— Mas eu ouvi boatos de que você tava bem acompanhado…
— Ah, aquilo… — deu de ombros. — Saímos algumas vezes, mas… nada demais. Parou por aí.
— Por quê?
Fez uma pausa curta, como se escolhesse bem as palavras.
— A gente não combinava.
Foi simples, direto, mas o suficiente para alguma parte de mim se contrair, como se eu estivesse esperando – torcendo? – para ouvir isso, e odiando o fato de que talvez significasse algo. Fingindo interesse em uma vitrine qualquer na calçada, tentei afastar a sensação.
— Você é exigente demais.
— Ou talvez eu só saiba o que eu quero.
Soltei uma risada seca, tentando disfarçar, apesar daquilo me fazer prender a respiração por um segundo, e, buscando uma rota de fuga antes que aquele clima deixasse tudo mais evidente do que deveria, perguntei:
— Você vai no churrasco das famílias? Vai ser na fazenda da sua tia esse ano.
demorou para responder, mas eu notei pelo canto do olho como seus olhos desviaram para mim.
— Você vai? — Perguntou, a voz mais baixa agora.
— Vou.
— Então eu vou.
Tentei ignorar o que aquela resposta fez comigo. Alguns minutos depois, estacionou o carro na própria garagem e desligou o motor, me olhando com um sorriso no canto da boca.
— Valeu pela carona. — Falei, soltando o cinto e abrindo a porta, e ele fez o mesmo.
— Sempre que quiser… motorista do ano, lembra?
Nos despedimos com um aceno contido, como se qualquer gesto mais prolongado fosse cruzar uma linha invisível, e eu entrei em casa, fechando a porta atrás de mim mais forte do que pretendia, como se aquilo bastasse para segurar tudo o que eu não conseguia dizer.

Alguns dias depois…

O sol da tarde ainda batia nas janelas quando empurrei a porta de casa e fui recebida pelo cheiro de tempero fresco e o som familiar da voz da minha mãe vindo da cozinha. Ela apareceu no corredor com um pano de prato jogado despreocupadamente no ombro e um sorriso que dizia que o dia dela tinha sido melhor que o meu.
— Oi, filha! Chegou cedo hoje.
— A aula terminou antes… vou subir, trocar de roupa, depois desço pra ficar com vocês. Ela assentiu com um sorriso e voltou para o sofá, enquanto eu subia as escadas preguiçosamente, sentindo o peso acumulado da semana. Entrei no quarto, larguei a mochila no canto e, mesmo sem querer, meus olhos foram direto para a janela do quarto de , que estava fechada, claro – tinha ficado depois da aula para jogar futebol com os meninos. Tomei banho sem pressa, vesti um top e um short leve e me joguei na cama ainda com os cabelos úmidos, olhando para o teto, até acabar adormecendo sem perceber. Só acordei com um susto:
! VEM ME AJUDAR COM O JANTAR! — O grito da minha mãe ecoou do andar de baixo, me fazendo dar um pulo e quase tropeçar no lençol embolado.
— Merda… — murmurei, sentando na cama meio zonza, e fui direto até a cadeira onde deixava umas roupas largadas, puxando a primeira peça que vi.
A janela estava aberta, a cortina balançando levemente com a brisa e, ao me virar, meu olhar caiu exatamente onde não deveria. A cortina do quarto de agora estava aberta e ele sentado no sofá, com o violão apoiado nas pernas, como se fosse personagem de um filme adolescente. O susto me fez congelar por um segundo e, com a blusa ainda na mão, encarei sua expressão, que parecia indecifrável por um momento, até que sua boca se curvou num sorriso divertido. Mordi o lábio, sem conseguir evitar o riso constrangido, e vesti a blusa o mais rápido que pude. Quando voltei a olhá-lo, já tinha colocado o violão de lado e pegado um caderno, rabiscando algo e o segurando contra o vidro da janela:

“Dormiu demais?”

Tentei não rir, mas um sorriso envergonhado escapou, quase como um reflexo, e peguei uma caneta qualquer e um caderno na escrivaninha, fazendo o mesmo:

“Obviamente…”

Ele olhou de volta pro papel, riscou a primeira frase e escreveu outra logo abaixo:

“Filme mais tarde?”

A gente sempre fazia isso, desde os 12 anos – maratonas de filmes, pipoca, cobertor dividido. Era o nosso clássico. Mas agora o meu coração não era mais tão neutro assim perto dele e eu temia o que mais poderia mudar se continuasse fingindo que nada estava diferente. Mesmo assim, com tudo isso martelando na cabeça, assenti, porque era e eu nunca soube dizer não para ele. O sorriso que veio em resposta foi tão automático quanto devastador – daqueles que parecia ter sido moldado sob medida pra me deixar sem chão. Largou o caderno no sofá, satisfeito, mas, antes que qualquer outro gesto, palavra ou pensamento pudesse acontecer, o grito familiar cortou o ar outra vez:
— FILHA, VEM LOGO! — A voz da minha mãe atravessou a casa inteira e ergueu as sobrancelhas, fingindo um susto, e levantou o caderno novamente:

“Já te declaro a filha deserdada.”

Eu revirei os olhos e levantei o dedo do meio antes de correr até a porta, descendo as escadas ainda meio atordoada e encontrando minha mãe na cozinha com uma colher na mão e um sorriso debochado no rosto.
— Até que enfim, Bela Adormecida. Achou que ia escapar?
— Achei que valia a pena tentar. — Prendi o cabelo num coque mal feito.
Meu pai cortava legumes na bancada ao lado, com aquela paciência de quem achava graça na correria da casa. Me juntei a eles, pegando a salada para temperar, tentando fingir normalidade.
— O chegou também? — Ela perguntou, casual até demais.
— Chegou sim, tava no quarto… — dei de ombros, mantendo os olhos na tigela. — Foi jogar bola com os meninos depois da aula.
— Vocês ainda se falam pela janela? — Soltou, com um risinho. — Coisa mais fofa.
— Mãe… — resmunguei, sem conter o calor subindo pelo pescoço. — A gente cresceu.
— Soube que ele tá de carro novo… agora vocês podem sair mais, né? — Insistiu, apoiando o queixo nas mãos. — Quer dizer, vocês vivem juntos desde pequenos, pra cima e pra baixo…
— Mãe… — repreendi novamente e me sentei na cadeira, como se ela fosse me teletransportar dali.
— É só porque ele é um menino educado, gentil, bonito… — meu pai soltou uma gargalhada e eu quase engasguei com a comida. — Ele vai ao churrasco, né? — Ela perguntou, com a maior naturalidade do mundo.
— Sim, claro.
— Sua irmã também vai. Falou que viria direto do campus.
Meus olhos se animaram um pouco. Lucy era o tipo de pessoa que conseguia fazer graça da minha vida sem me deixar irritada, e eu sentia falta dela.
Depois do jantar, ajudei a lavar a louça enquanto ouvíamos alguma playlist antiga que meu pai insistiu em deixar tocando. Ficamos no sofá por um tempo, até eles decidirem subir para dormir, e, quando a escada rangeu sob seus passos, senti um arrepio por todo o meu corpo, como se soubesse que, em pouco tempo, seríamos só eu e . Fiz pipoca na cozinha, peguei uns doces que estavam escondidos na parte de trás da geladeira, levando tudo para o quarto com um cuidado quase cerimonial, e vesti uma regata simples e um short de pijama, tentando me convencer de que aquilo era só mais uma noite qualquer. Estava arrumando as almofadas na cama quando ouvi o som abafado de algo batendo suavemente na parede e, ao me virar, vi a silhueta de na varanda, como se escalar até ali fosse tão fácil quanto atravessar a rua. Empurrei o vidro e abri espaço para ele, que passou com facilidade. Seus olhos encontraram os meus e depois escorregaram pelo meu corpo.
— Você tem um problema sério com escadas, né? — Provoquei, tentando quebrar o silêncio enquanto me virava para esconder o rubor que com certeza havia surgido no meu rosto.
— Elas são superestimadas… — deu de ombros e sorriu, se jogando na cama e apoiando a cabeça no travesseiro, mas seus olhos desviaram para um ponto específico logo acima dele. — Caramba… — murmurou, erguendo a mão para passar devagar pela madeira. — Isso ainda tá aqui?
Segui seu olhar até a cabeceira, vendo um “” cravado de forma torta na lateral, bem onde ninguém via a não ser que deitasse do lado esquerdo da cama. As letras marcadas a canivete, mal feitas, mas eternas.
— Você fez isso quando a gente tinha uns quatorze… — falei, com um meio sorriso. — Disse que era pra ninguém esquecer que você já esteve aqui.
Ele riu, de um jeito leve, quase envergonhado.
— Achei que você tivesse mandado lixar ou coberto com tinta.
— Eu tentei, mas não consegui…
Ele não respondeu. Só ficou olhando pra mim por alguns segundos a mais do que devia até quebrar o silêncio.
— A gente podia ver um terror hoje. — Sua voz veio baixa, casual, como se não estivesse propondo um pacto com meus pesadelos.
O olhei por um segundo, com o controle em mãos, como se a decisão já tivesse sido tomada, suspirei e me afundei nas almofadas, tentando parecer mais corajosa do que realmente era.
— Claro, por que não? — Porque eu tinha medo. Porque passava dias tendo pesadelos, mesmo dormindo com o abajur aceso. Mas isso… eu nunca contei para ele.
riu, provavelmente já em busca do título mais grotesco que conseguisse encontrar, enquanto eu beliscava a pipoca e fingia não notar nossas pernas se encostando, ou como os músculos dos braços dele pareciam mais definidos desde o verão e, principalmente, o fato de estarmos completamente sozinhos no meu quarto.
— Durante as férias… — ele começou, ainda com os olhos na tela. — Você não conheceu nenhum cowboy do interior, não?
Soltei uma risada inesperada.
— Cowboy?
— Sei lá. Um desses caras de chapéu, que tocam violão e mexem com gado… que te chamam de “moça bonita”.
— Nossa… você tem uma visão bem específica do interior. — Ri novamente, balançando a cabeça. — Não, , nenhum cowboy metido a besta. A última coisa que eu queria era um cara com ego inflado por saber laçar vaca.
— Então… que tipo de cara você gosta?
Fiquei em silêncio por um segundo – tempo demais. Foi quando o filme começou, com uma trilha sonora pesada explodindo pela TV como um salva-vidas conveniente.
— Assiste o filme, .
Me arrependi dessa frase assim que saiu da minha boca, porque claro que ele tinha escolhido o mais perturbador possível: A Casa dos Mil Corpos. Só o nome já causava calafrios. Os minutos se arrastavam e, cada vez que a música subia, me encolhia um pouco mais. Numa cena particularmente grotesca, virei o rosto sem pensar, buscando refúgio no ombro dele, ao mesmo tempo em que seu braço me envolveu com naturalidade.
— Achei que você não fosse medrosa… — provocou, os lábios tão próximos do meu ouvido que senti sua respiração ali.
— Eu só… acho que o jantar me deixou meio enjoada. — Menti, mantendo o rosto escondido. O cheiro dele, o calor do corpo, o toque firme na minha pele – nada daquilo ajudava a manter o controle.
Ficamos em completo silêncio por um tempo, enquanto o barulho grotesco da televisão preenchia o quarto, cenas absurdamente sangrentas piscando na tela e pintando nossos rostos com flashes vermelhos e sombras disformes. Se alguém nos visse de fora, talvez achasse que estávamos assistindo ao filme com concentração absoluta, mas a verdade era que, dali em diante, eu não registrei mais nenhuma imagem. Minha atenção estava inteiramente em . Na forma como seu braço continuava firme em volta da minha cintura, ou como a outra mão, distraída, começou a deslizar devagar pelos meus cabelos, de um jeito quase possessivo. Um arrepio subiu pela minha espinha quando seus dedos roçaram a base da minha nuca e eu tive que morder o lábio para não deixar escapar um som que não combinava em nada com o terror na tela. Tudo entre nós parecia prestes a desmoronar, ou explodir, como se todo o verão longe tivesse sido só uma preparação silenciosa para esse momento, e a única coisa que ainda tentava me manter racional era o fato de que a gente sempre fazia aquilo.
— Meu braço tá começando a ficar dormente… — murmurou, a voz mais grave do que o normal, vibrando contra minha pele.
Antes que eu dissesse qualquer coisa, ele me puxou pela cintura com uma facilidade absurda, colando minhas costas em seu peito e encaixando meus quadris entre suas pernas, perto demais – um tipo de proximidade que parecia um erro para melhores amigos. Sua respiração encostava na minha nuca, quente e irregular, como se cada segundo daquele contato também o afetasse. Me encolhi ao ver mais uma cena grotesca na televisão, virando o rosto num reflexo instintivo, e senti seu nariz roçando meu cabelo e seus lábios quase tocando minha orelha. Os dedos dele começaram a vagar pela minha cintura, depois meus braços, subindo lentamente até o pescoço, como se estivesse tentando me acalmar – apesar de estar apenas alimentando o caos que já explodia dentro de mim. Fechei os olhos por um segundo e pude jurar que senti um volume duro se encaixando sutilmente no meu quadril. Meu sangue corria tão quente que meu short parecia úmido só com aquele toque, o corpo implorando, respondendo antes mesmo que minha mente tivesse coragem de admitir.
— Nunca te vi tão nervosa vendo um filme de terror… — disse, com a voz arrastada, debochada, como se soubesse exatamente o que estava fazendo comigo.
— Esse filme é pesado demais, só isso. — Tentei soar convincente, mas até minha voz tremeu. Porque, sinceramente? O verdadeiro terror não estava na tela e sim sentado atrás de mim, tocando… endurecido. E eu o queria tanto.
Suas mãos deslizaram da minha cintura para a borda do short, os dedos roçando a pele em uma carícia lenta, quase preguiçosa, que me fez morder o lábio para não soltar nenhum som.
— Você tá tão tensa… relaxa.
Antes que eu pudesse responder – ou entender como relaxar com ele colado em mim daquele jeito – senti seus lábios encostarem na lateral do meu pescoço em um beijo lento, delicado, que me arrepiou até a espinha. Virei o rosto no mesmo instante por reflexo, encontrando o seu olhar, e então, devagar, ele se aproximou de novo, depositando outro beijo, dessa vez na minha mandíbula. Minhas mãos estavam espalmadas sobre suas pernas, meu corpo inteiro tenso e trêmulo e meu coração batendo em um ritmo que não fazia sentido. O polegar dele encontrou meus lábios e passou ali devagar.
… — sussurrei, mas minha voz falhou.
Ele se inclinou mais, os lábios roçando nos meus, num toque que não era um beijo ainda, e meu corpo se inclinou por reflexo, buscando mais. Até que o celular vibrou em algum lugar sobre a cama, com um barulho estridente demais para aquele momento. Não prestamos atenção de imediato, mas a vibração insistente preencheu o silêncio, nos fazendo despertar do transe. recuou um pouco, como se tivesse lembrado onde estávamos, quem éramos e o que não deveríamos estar fazendo, e passou a mão pelos cabelos, inquieto.
— Foi mal… — murmurou, com a voz contida, evitando o meu olhar. — Eu… não devia ter feito isso.
Aquela frase me atingiu como um balde de água fria. Claro que ele “não devia”. Não era desejo, nem tensão acumulada. Ele só estava cuidando de mim, como sempre fez… como um bom amigo. Tudo aquilo – as mãos, os beijos, a proximidade absurda – era ele tentando me acalmar. E eu tinha entendido tudo errado.
— Tá tudo bem… você só tava… me ajudando. — Minha voz saiu mais fraca do que gostaria. — Eu também… devo ter me assustado com o filme, sei lá…
assentiu rapidamente, como se agarrasse à desculpa que dei.
— É, foi só o filme. Muito… perturbador. — Forçou um sorriso, mas não conseguiu manter por muito tempo. — Já tá tarde, né? Acho melhor a gente ir dormir… temos aula amanhã.
Assenti, num gesto rápido e levantou da cama com movimentos apressados, como se o quarto fosse pequeno demais para nós dois. Notei o jeito que ajeitou a camiseta na frente do corpo – como se tentasse disfarçar alguma coisa – e, por um segundo, me perguntei se estava tão afetado quanto eu. Mas se virou para mim com um aceno breve, evitando qualquer contato visual.
— Boa noite,
— Boa noite…
Então escalou a janela com a mesma facilidade de sempre e desapareceu, enquanto eu tentava entender quando tudo tinha começado a sair do controle e fingir que não doía o fato dele ter pedido desculpas, como se tivesse feito algo errado.
— Merda,
Nos dias seguintes, apesar de ninguém ter dito uma palavra sobre aquilo, tudo entre a gente tinha mudado. Continuávamos com os mesmos olhares casuais no corredor, os mesmos comentários nas aulas, as mesmas piadas soltas que ninguém mais entendia além de nós dois, mas, agora, havia uma linha tênue e silenciosa que não existia antes. Ele evitava conversas longas comigo, parava de me encarar quando eu notava, nas caronas, mantinha as mãos no volante, os olhos na estrada, o corpo longe, e, o que mais doía era que, em vez de falar sobre o que aconteceu, estava direcionando toda a atenção para o “clã das perseguidoras”, que riam alto demais perto dele e encostavam em seu braço como se fosse um hábito.
No fim daquela semana, as meninas queriam fazer compras e, como sempre, precisávamos de um motorista.
… — arrastou o nome, fazendo charme. — Por que você não faz o seu papel de melhor amigo e leva a gente pro shopping?
— Vocês são muito interesseiras. Tô me sentindo usado. — Ele fez drama, levando a mão ao peito, e todos rimos.
Até que lançou um olhar na minha direção, como se perguntasse se estava tudo bem ele ir junto, e, mesmo com o estômago levemente revirado, dei um sorriso leve, de canto de boca. Então assentiu de volta e finalmente cedeu.
— Tá, eu vou com vocês… mas só se me pagarem com os milkshakes que me prometeram.
— Fechado! — respondeu, já animada.
Alguns meninos do grupo também decidiram ir, para “julgar os looks”, como se fossem jurados de um desfile fashion, apesar da real intenção ser o pós em um fast-food superfaturado. Enquanto todo mundo se organizava para sair, eu me perguntava quando foi que as coisas se tornaram tão ensaiadas entre mim e .
Já na loja, começamos a nos espalhar e, apesar de tentar focar na empolgação das minhas amigas escolhendo roupas, acabava me distraindo com ele conversando com os garotos ou dando sugestões irônicas para as outras meninas – parecia à vontade, natural, como sempre. Até que lembrei de algo que me fez parar no meio do corredor.
— Merda…
— O quê? — perguntou, sem tirar os olhos de um cropped.
— Tenho que comprar um vestido para o churrasco… minha mãe vai me matar se eu aparecer lá com uma camiseta larga e um short velho…
— Ah, o evento em família semestral com o ? — Ela levantou a sobrancelha, com malícia. — Eu vi algo perfeito para essa ocasião… — se afastou por uns segundos e voltou com um vestido curto, provocante, mas comportado o suficiente para que minha mãe não tivesse um ataque. — Com o seu corpo, vai ficar perfeito.
Não era o tipo de roupa que eu normalmente escolheria, mas havia algo nele que me fez levá-lo para o provador. Quando o vesti, levei um segundo para me reconhecer no espelho. Era justo na medida certa, marcando minha cintura e subindo um pouco mais do que eu estava acostumada, ao mesmo tempo em que era elegante. E, por mais que algo em mim quisesse correr de volta pro básico, a outra queria que visse. Então, tomei coragem e sai do provador. A bagunça foi instantânea:
— Lá vem ela, direto das passarelas de Milão! — Gritou Theo, batendo palmas como se eu estivesse numa passarela improvisada, arrancando risadas até de clientes que passavam por perto.
Ri, um pouco envergonhada, mas, entrando na brincadeira, girei sobre os calcanhares, fazendo a melhor pose de modelo que consegui. Todo mundo ria, assim como tinha sido com as outras, mas então olhei para , que estava parado, um pouco atrás dos meninos. Apesar de não dizer nada, seu olhar percorreu meu corpo inteiro, do modo mais descaradamente silencioso possível, como se tivesse esquecido onde estava e que, por um segundo, não fosse só meu melhor amigo me vendo num vestido novo. Ele pareceu perceber que estava olhando demais, porque rapidamente desviou o rosto, tentando focar em qualquer outra coisa – na vitrine, no teto e até na etiqueta de uma blusa ridícula. E, por um momento, passou pela minha cabeça que ele estava lutando para manter o que havia entre a gente onde achava que devia estar: no silêncio.
Depois das compras, fomos para um fast food perto dali. As sacolas se empilhavam num canto da mesa, enquanto nos espremíamos nos bancos, rindo alto, zoando os looks uns dos outros, comentando quem tinha gastado mais e quais roupas combinavam com qual evento. Eu havia sentado entre e Rebeca e também ria, comentava, mas, toda vez que olhava para , ele parecia estar em outro lugar. Mexia nas batatas fritas, encarava o cardápio na parede como se fosse a coisa mais interessante do mundo e sorria só quando alguém o chamava diretamente, ainda assim meio automático. Em qualquer outro dia, estaríamos lado a lado, dividindo refrigerante, fazendo piada dos outros. Ele colocaria catchup demais e me convenceria a roubar uma batata de seu prato. Mas agora… parecia que tinha uma parede invisível entre a gente e ninguém além de nós dois notava.
Na volta, ele dirigia com uma mão no volante e a outra largada no câmbio. Normalmente a gente não parava de falar, com piadas, histórias, provocações idiotas que faziam os minutos passarem sem nem perceberem, mas, dessa vez, o único som no carro era o do rádio, que tocava baixinho alguma música qualquer. Eu estava com a sacola do vestido no colo, fingindo prestar atenção nos postes que passavam pela janela. Foi ele quem quebrou o silêncio:
— Tá tudo bem entre a gente?
Virei o rosto devagar. A pergunta me pegou de surpresa.
— Claro… — respondi, tentando parecer natural. — Por que não estaria?
Vi quando ele mordeu de leve o canto da boca, como se estivesse escolhendo as palavras.
— Sei lá… eu só… eu realmente não devia ter feito aquilo.
Minha respiração travou um segundo e olhei para frente de novo, tentando manter a calma.
— Já entendi,
— Fui um idiota… não era a minha intenção.
, tá tudo bem… — falei, sentindo um incômodo crescer no peito. — Não precisa ficar se desculpando.
— É que… — passou a mão pelos cabelos, tenso. — Eu já tinha pensado nisso antes. Que, se alguma coisa assim acontecesse entre a gente… — soltou o ar, meio frustrado. — … ia ficar estranho… diferente.
Franzi levemente a testa, me virando em sua direção.
— “Alguma coisa assim”?
Ele me olhou rápido, direto.
— Tipo o que aconteceu no seu quarto.
Silêncio de novo. Porque, por mais que eu pudesse concordar ou zoar com a cara dele e dizer que estava delirando… doía. Doía um pouco saber que ele estava arrependido, mas, principalmente, doía saber que eu não estava e que não conseguiria esquecer. Quando ele finalmente parou na frente da minha casa, soltei um sorrisinho fraco.
— Pela milésima vez, tá tudo bem, de verdade. A gente ainda é a gente, tá? — Tentei encerrar o assunto, apesar de saber que não estava tudo bem – para falar a verdade, acho que ele também sabia. Então, suspirei e acrescentei, antes que tentasse insistir de novo: — Quem tá estranho aqui é você, que mal olha na minha cara, evita qualquer conversa mais longa e fica lá, todo simpático com o grupo das suas stalkers. Se alguém aqui mudou… foi você.
Ele virou a cabeça devagar, me encarando como se estivesse tentando entender cada palavra antes de reagir. Seu olhar ficou mais intenso e um meio sorriso se formou em sua boca.
— Tá com ciúmes?
Meu coração deu um tropeço, mas revirei os olhos antes que notasse.
— Me poupe. — Soltei, com aquele tom de ironia azeda, já me inclinando para abrir a porta. — Boa noite, .
Antes que eu pudesse sair, senti sua mão segurar a minha.
… — me encarou por um segundo e, como se não conseguisse evitar, seus olhos desceram até minha boca. — Você… o vestido… tava muito bonito.
Fiquei em silêncio por um momento, sentindo minha respiração se prender de leve, mas forcei um meio sorriso, mantendo a compostura.
— Obrigada. — Soltei sua mão devagar e saí do carro.
Dessa vez, mesmo querendo, não olhei pra trás.

O cheiro de tempero fresco se espalhava pela cozinha enquanto eu ajudava minha mãe a preparar o prato que levaríamos para a festa na fazenda dos . Meus dedos mexiam automaticamente na massa, mas minha cabeça estava estacionada dentro de um carro, com as palavras martelando sem parar.

“Você… o vestido… tava muito bonito.”

Aquela frase, o olhar demorando no meu rosto e na minha boca, a forma como segurou minha mão, como se não quisesse que eu fosse embora ainda. Respirei fundo, tentando me concentrar na tigela à minha frente, mas não funcionava.
— Terra pra ? — A voz da minha mãe me tirou do transe. — Você tá amassando esse pobre recheio como se fosse um saco de pancadas.
— Desculpa… — murmurei, soltando a colher e me afastando um pouco da bancada.
— Tudo bem. Pode pegar o azeite ali pra mim?
Assenti e fui até a prateleira, sem dizer nada, mas parei no meio do caminho ao ouvir a porta da frente bater.
— Cadê a mais gata dessa família? — A voz da minha irmã ecoou pela casa antes mesmo de eu ter tempo para reagir e saí correndo em sua direção, quase sendo engolida pelo abraço apertado que ela me deu. Eram só alguns meses sem vê-la, mas a saudade parecia coisa de anos. — Você tá tão diferente! — Exclamou, me olhando de cima a baixo, apertando minhas bochechas com força desnecessária. — Mais mulher, sei lá.
— Nossa, obrigada, vó… — provoquei, sendo empurrada de leve como resposta. — Falou a que virou dona de casa.
— Ai, nem me fala. Quase morri de fome no primeiro mês, mas agora já sei fazer arroz, macarrão instantâneo e misto quente… e lavar e passar roupa.
— Impressionante… — comentei, rindo. — Daqui a pouco ganha um programa no Lifetime.
— Melhor que isso, vou arranjar um sugar daddy pra me tirar da república. — Lucy rebateu, me fazendo rir mais alto. — Mas vai, me conta tudo. Como tá o último ano? O drama adolescente, os crushes impossíveis, as festas escondidas do papai e da mamãe?
— Não tá rolando nada demais. — Respondi, seca, tentando disfarçar o leve calor que subiu pelo meu rosto. — Eu quero saber é das histórias universitárias.
Depois dela falar com nossos pais, nos jogamos no sofá e ela começou a contar dos colegas de república, dos professores malucos, das festas “inacreditáveis” e de um menino da turma que ela jurava que era insuportável, mas falava dele demais para ser verdade. Fiquei ali, só ouvindo, meio perdida na admiração e na inveja boa de quem já tinha dado esse salto. Faculdade, liberdade, essa vida meio caótica e independente que ela sempre sonhou. Era engraçado pensar que éramos tão diferentes – ela sempre tão expansiva, exagerada, sem medo, enquanto eu ainda estava tentando entender como me sentia quando me dizia que meu vestido estava bonito. Conversamos por um tempo, entre risadas, lembranças e o papo animado da Lucy sobre o primeiro ano da faculdade. Depois, subi para o quarto ainda com o cabelo preso de qualquer jeito e, antes mesmo de puxar a cortina, notei o quarto de escuro. Provavelmente já tinham ido para a fazenda da tia dele.

Ótimo… menos uma coisa pra lidar agora.

Suspirei e olhei o vestido pendurado na maçaneta do guarda-roupa como se estivesse me esperando desde o dia da loja. Passei os dedos pelo tecido com uma hesitação idiota e me troquei devagar, ajustando as alças, me encarando no espelho com uma expressão que nem eu sabia explicar. Balancei a cabeça, impaciente comigo mesma, mas não tive tempo de afundar demais nesses pensamentos, porque a porta foi escancarada.
— Uau! — Lucy exclamou, entrando no quarto como um furacão. — Aposto que isso foi ideia da .
— Foi mesmo. — Respondi rindo, pegando uma presilha qualquer para prender o cabelo.
Ela jogou o corpo na minha cama como se tivesse voltado a morar ali.
— Tá linda, , de verdade… mas você ainda não me respondeu como vão as coisas por aqui.
— Ah, tudo igual. Aulas chatas, provas, festas…
?
Fiquei em silêncio por meio segundo a mais do que devia e ela sorriu.
— Até você? — Perguntei, bufando, e ela deu de ombros.
— A mamãe e a senhora nunca foram muito discretas em esconder que queriam que vocês ficassem juntos.
— Como é que é? — Arregalei os olhos.
… — começou, com aquele tom de quem estava prestes a me dar um tapa de realidade. — A senhora ama você e a mamãe… bom, sempre dá um jeito de mencionar o toda vez que você fala “menino”. Tipo: “Ah, , já que é pra sair com alguém, que seja com alguém como o ”.
Revirei os olhos, mas não consegui evitar o riso.
— É muita gente torcendo por um casal que nem existe.
— Eu só tô verbalizando o que tá implícito nesse bairro inteiro desde que vocês tinham… sei lá, sete anos. — Ela retrucou com a maior cara de pau do mundo.
Abri a boca pra responder, mas a voz do nosso pai ecoou do andar de baixo:
— Meninas, hora de ir!
— Vamos, Cinderela… — Lucy falou, se levantando com um sorriso sapeca. — Vai que o seu príncipe resolveu prestar atenção de verdade hoje.
— Idiota. — Soltei uma risada fraca e a segui, tentando ignorar o frio insistente no estômago.
Era só um churrasco entre as famílias. Era só o . Não tinha nada demais naquilo.

A fazenda dos ficava a poucos minutos da cidade e, logo que o carro parou no gramado, já deu para ouvir o som das conversas, o cheiro de carne na brasa e o riso alto das mulheres reunidas perto da varanda. Descemos com travessas nas mãos e fomos recebidos com aquele calor típico de reuniões de família: abraços apertados, perguntas sobre a escola, elogios ao crescimento da Lucy e todos os “nossa, como você tá diferente!” que alguém podia ouvir em um só minuto. A mãe de apareceu em seguida, com os braços abertos e um sorriso caloroso.
! — Me puxou pra um abraço apertado. — Olha só como você tá linda, meu Deus! Vai acabar deixando uns corações acelerados hoje…
Sorri, sem graça, fingindo não entender a indireta.
— Imagina, tia. É só um vestidinho qualquer.
— Aham… “qualquer”, tá bom. — Ela piscou, ainda segurando meu braço por mais tempo do que o necessário.
Me afastei educadamente e deixei o olhar vagar pela varanda, até parar em Brooke, irmã de , que já tinha puxado Lucy para perto, animada com algum papo de faculdade, até se virar para mim com um sorriso.
, você tá linda! tá na cozinha com os primos… ele já perguntou umas seis vezes se vocês tinham chegado.
Meu coração bateu mais rápido, traindo qualquer tentativa de me manter neutra, mas, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, a porta da casa se abriu, revelando saindo com alguns primos, cada um carregando garrafas nas mãos – sucos, refrigerantes e outras que, com certeza, não tinham nada muito inocente dentro. Ele ria de alguma piada dita ao pé do ouvido por um dos garotos, os cabelos bagunçados pelo vento, o olhar distraído até encontrar o meu. Seu sorriso vacilou por um segundo e os olhos desceram devagar por mim, passando pelo meu rosto, vestido e parando no meu corpo. Umedeceu os lábios, como se nem percebesse o que estava fazendo e algo nele tivesse travado, voltando ao mundo real quando um dos primos lhe deu um leve empurrão no ombro, chamando sua atenção de volta, e desviou o olhar rápido, fingindo se concentrar nas garrafas. Engoli em seco, tentando disfarçar o arrepio que percorreu minha espinha, respirei fundo e voltei a sorrir para uma tia distante que vinha se aproximando.
Conversei com alguns tios, abracei outros e ri com conhecidos que eu mal lembrava. A típica função em festa de família grande: sorrir, responder sempre as mesmas perguntas e fingir que não estava me desmontando por dentro cada vez que cruzava os olhos com . Foi só quando me virei, ajeitando uma mecha de cabelo atrás da orelha, que dei de cara com ele vindo em minha direção sozinho, por fim.
— Oi… — abriu um sorriso meio torto e, antes que eu pudesse responder, me puxou para um abraço. — Você tá muito bonita. — disse, perto demais do meu ouvido, e senti meu estômago se contrair.
— Obrigada. — Sorri, mantendo o olhar nele por um segundo a mais do que deveria.
— E aí, o que tá achando até agora?
— Tá legal… é sempre estranho ver todo mundo junto assim… mas legal.
— É… mais estranho ainda é ver você com um vestido desses. — Ergueu uma sobrancelha, com aquele sorriso que fazia meus joelhos fraquejarem.
— E você de camisa social. Nunca achei que fosse ver isso na vida. Sua mãe sempre manda e você nunca usa.
Ele deu uma risada baixa, como se estivesse tentando não olhar demais para o meu corpo, mas olhou, de novo. E então, Lucy apareceu com Brooke e mais alguns primos nossos e dele, animados como se estivessem planejando um evento secreto.
— Vamos pra área dos jovens. — Brooke disse, já puxando Lucy pela mão. — A fogueira tá acesa, já tem som e… bebidas.
— Certeza que nossos pais não vão atrás? — Perguntei, mesmo sabendo a resposta.
— Só se um de nós desmaiar. — Um dos primos respondeu e todos riram.
me lançou um olhar, quase como um convite silencioso. Seguimos pelo caminho de terra, desviando dos adultos espalhados por cadeiras, mesas e redes, até chegar em uma área mais afastada da fazenda, onde o som era mais alto, algumas luzes estavam penduradas e um grupo já se espalhava em volta de uma fogueira. Nos sentamos com o grupo e logo pegou uma garrafa de alguma bebida escura que eu nem tentei identificar.
— Prossiga com cuidado. — Avisou, entregando a garrafa para mim.
— Que nojo. O que é isso? — Reclamei depois de quase cuspir a bebida.
— Uísque, princesa. Bem-vinda ao mundo real.
— Prefiro vinho… ou água… ou ácido.
Ele riu, pegando a garrafa de volta.
— Claro que prefere vinho. Você e sua vibe “só tomo vinho suave”.
— Me poupe. Só porque eu tenho bom gosto?
— Bom gosto… — ele repetiu, me olhando de um jeito que fez meu rosto esquentar. — Então quer dizer que vinho é sua fraqueza? — Provocou, ainda com a garrafa de uísque na mão.
— Não é uma fraqueza. — Revirei os olhos, mas sorri. — É só uma preferência… refinada, diga-se de passagem.
— Ah, entendi. , apreciadora de vinho e destruidora de paladares descolados.
— Ei, vinho é super descolado! Pelo menos eu não fico oferecendo gasolina disfarçada de bebida.
riu, jogando a cabeça um pouco para trás.
— Tá bom… — levantou de repente. — Já volto.
— Vai aonde?
— Resolver sua vida. — Respondeu, andando de costas com aquele maldito sorriso, e eu continuei sentada com o grupo. Lucy e Brooke continuavam conversando sobre a faculdade, um dos primos falava alguma coisa absurda sobre ter sido confundido com um ator famoso no shopping e o resto só ria. reapareceu alguns minutos depois, com uma garrafa de vinho na mão, levantando como se fosse um troféu. — Um presente. — Disse, me entregando, e eu ergui uma sobrancelha.
— De onde veio isso?
— Roubei da adega da minha tia. Ela não vai sentir falta.
!
— Que foi? Você disse que preferia vinho. Eu sou só um bom anfitrião. — Se defendeu, sentando ao meu lado, mais perto do que antes, e apenas balancei a cabeça, rindo. Ele abriu a garrafa improvisadamente com um garfo e uma faca – talento questionável, mas funcional –, me serviu num copo de plástico qualquer e brindamos com as costas das mãos se encostando por um segundo a mais do que o necessário. — Melhor? — Perguntou, observando minha reação ao primeiro gole.
— Muito.
Conversas rolavam em volta da fogueira. Risadas, provocações entre os primos, brincadeiras sobre quem aguentava mais bebida e, no meio de tudo isso, eu seguia tentando me distrair, mas minha atenção sempre voltava para . Para o jeito como ele bebia direto da garrafa, os lábios molhados, a garganta se movendo com aquele movimento lento e involuntário, que, com certeza, ele nem percebia que tinha. Para o cabelo meio bagunçado, o sorriso preguiçoso, a camiseta escura que marcava o braço sempre tensionado ao levantar a garrafa. Era quase irritante o quanto ele conseguia ser provocante sem nem mesmo tentar.
O tempo passou e, em algum momento, percebi que estava rindo mais alto do que o normal e minhas bochechas estavam quentes, não só por causa do fogo da fogueira que haviam feito. O vinho tinha descido fácil demais.
— Uau… — disse, inclinando a cabeça e me olhando com um sorriso provocante. — Nem eu, que tô tomando uísque, tô assim…
— “Assim” como?
— Meio boba. — Deu de ombros, mal disfarçando o deboche.
— Eu não tô boba. — Resmunguei, bebendo mais um gole, mesmo sabendo que provavelmente estava provando o ponto dele. — Mas eu, definitivamente, preciso ir ao banheiro. — Anunciei, me levantando com um pouco mais de cuidado do que o necessário.
— Quer que eu vá com você? — Lucy perguntou, mas, antes que eu pudesse responder, já tinha se levantado também.
— Eu levo. Vou garantir que ela não dê de cara com seus pais no caminho e seja exilada da família.
— Para, idiota… — o empurrei de leve, tentando não rir. — Tô bem, só… só tô feliz.
— Felizona, né? — Ele respondeu, enquanto saíamos em direção à casa por um dos caminhos mais escuros e tranquilos. — Vinho tem esse efeito nos sensíveis.
— Me respeita. — Segurei a garrafa com firmeza. — Eu só sei aproveitar uma boa festa.
Atravessamos o gramado pelos fundos, tentando evitar a movimentação da área principal, e entramos pela porta da cozinha, que estava mais vazia. Assim que dobramos o corredor, um dos tios de saiu do banheiro, ajeitando a camisa com a maior calma do mundo, nos cumprimentando com um aceno rápido antes de se afastar.
— Eu me recuso a entrar nesse banheiro. Homens são nojentos.
— Não vou discordar. — respondeu, rindo. — Vem, vamos pro de cima. Mas prepara o ninja interior, a casa tá cheia.
Seguimos em silêncio, contornando pessoas, desviando de olhares e rindo baixinho como se estivéssemos fazendo algo proibido. Chegamos ao andar de cima, que por um milagre estava vazio, e entrei no banheiro sem pensar muito, deixando a porta apenas encostada. O tempo passou, provavelmente mais do que deveria, e , que estava do lado de fora, bateu levemente na porta.
, é a terceira vez que eu olho no relógio, e já se passaram uns 10 minutos… — mas eu não respondi. — , se você tiver desmaiado na pia eu juro que vou te carregar que nem um saco de batata até lá embaixo. — Ele adentrou o banheiro devagar, me encontrando ajoelhada ao lado da banheira, enchendo-a calmamente com água morna. — O que cê tá fazendo? — Perguntou, num tom entre confusão e riso.
— Tô enchendo a banheira, ué. — Respondi, como se fosse óbvio, apoiando a garrafa no chão.
— Isso eu percebi, mas… por quê?
— Porque parece uma ideia muito boa agora… banheira, água morna, silêncio… longe de todo mundo. — Olhei para ele como se fosse a coisa mais lógica do mundo. — E eu tô de vestido. Não preciso nem tirar roupa nenhuma pra mergulhar.
— Você tá mesmo considerando entrar aí?
— Considerando? Eu tô decidida. Mas ainda tô terminando de me convencer se deixo ou não o vinho entrar comigo.
Ele riu, levando a mão à testa, balançando a cabeça.
— Meu Deus, você é impossível.
— E você é um covarde. Não vai entrar? — me encarou por um segundo e um sorriso meio desacreditado se formou nos lábios. A água já tinha coberto metade da banheira quando eu simplesmente me joguei dentro, com vestido e tudo, soltando um suspiro longo de satisfação. — Melhor ideia do dia… — murmurei, fechando os olhos por um segundo, sentindo o calor da água em contraste com o frescor do vinho ainda no meu sistema. Ouvi a porta se fechando e, quando abri os olhos, estava encostado nela, olhando para mim. — Pelo menos fecha direito, né. Vai que algum primo seu resolve vir aqui escovar os dentes.
— Deus me livre… — respondeu, girando a chave da maçaneta e vindo até mim. Sentou-se no chão ao lado da banheira, com um joelho dobrado, os cotovelos apoiados, me observando. — Tá confortável aí?
— Surpreendentemente… você devia entrar.
— Tô bem aqui, do lado da bêbada que resolveu tomar banho de vestido numa festa de família.
Peguei a garrafa de vinho do chão e fiquei observando-a por um segundo, pensativa.
— Será que se eu derramar isso aqui a água fica escura?
… — ele já estava rindo, antecipando a minha idiotice.
— É uma dúvida científica. — Protestei, já começando a inclinar a garrafa sobre a água.
— Obviamente não vai ficar escu… — mas, antes que terminasse a frase, eu já tinha derramado um bom gole do vinho na banheira, gargalhando sozinha.
— Pronto. Experimento feito.
— Você é completamente louca… — disse, se aproximando e tentando pegar a garrafa da minha mão. — Se eu soubesse que cê ia desperdiçar o vinho caro da adega da minha tia, eu tinha trazido suco de uva.
— Você que me deu! É presente! Não tem reembolso!
— Dá isso aqui!
Ele se esticou mais, tentando pegar a garrafa da minha mão, e eu puxei para o lado oposto, em desafio, mas seu movimento foi mais rápido. No segundo seguinte, a garrafa escorregou da minha mão, ele tentou segurá-la no reflexo, perdeu o equilíbrio e caiu em cima de mim, dentro da banheira. Gritamos e rimos ao mesmo tempo, enquanto a água transbordava, molhando o chão todo. Os risos foram diminuindo aos poucos, engolidos pela tensão que crescia entre nós, até que ele me puxou pela cintura com uma das mãos, encaixando nossos corpos, e eu me apoiei em seus ombros, sem conseguir desviar o olhar. me beijou, intenso, desesperado, como se tivesse se contido por tempo demais, e eu respondi no mesmo ritmo, agarrando sua camiseta molhada, até que, em um esforço visível, se afastou, tentando recuperar o ar.
— Ok, ok, levanta… — murmurou com a voz ainda abafada, se afastando de vez, enquanto a água escorria dos nossos corpos encharcados. — Precisamos nos secar antes que alguém venha ver o estado ridículo em que estamos.
Assenti, ainda meio zonza, e não só pela bebida. Saí da banheira primeiro, escorregando um pouco no azulejo molhado e tentando não rir alto demais, e me seguiu.
Começamos a vasculhar o banheiro por toalhas, pegando as duas primeiras que encontramos. Eu tentava não olhar, mas era impossível ignorar a forma como a camiseta colava ao corpo, revelando cada músculo, cada linha do abdômen. Assim que escutamos uma voz distante na parte de baixo da casa, trocamos um olhar rápido.
— Melhor a gente sair por trás. — Ele disse, já abrindo a porta com cuidado. — Anda, vai!
Descemos as escadas correndo e saímos pela porta dos fundos, descalços, molhados, rindo em silêncio enquanto fugíamos como duas crianças que tinham feito besteira.
foi na frente, guiando por um caminho entre os fundos da casa e um pequeno depósito de ferramentas. Paramos só quando alcançamos uma parte da fazenda onde não dava para ver ninguém, apenas uma cerca de madeira antiga e algumas árvores próximas. O som da festa estava longe e, enquanto tentávamos recuperar o fôlego, fomos engolidos por um silêncio estranho. Não o silêncio confortável de dois amigos que se entendem, mas um cheio de perguntas não ditas e tensão demais para ignorar. E eu não aguentava mais aquilo.
… — comecei, virando o rosto em sua direção. — O que tá acontecendo com a gente?
— Eu não sei… — passou a mão pelo cabelo molhado, desviando os olhos. — Só sei que foi confuso e que… a gente passou dos limites. E desde então tudo ficou meio estranho.
— “Meio” estranho? — Me virei completamente, decidida a enfrentar aquilo de vez.
Ele deu um riso soprado, nervoso, e enfim me encarou.
— Tá, muito estranho. Eu só… — passou a mão pelos cabelos de novo, claramente frustrado com a própria dificuldade de falar. — Não queria que aquilo tivesse te feito mal, ou te deixado desconfortável. Juro que não foi a intenção.
Uma parte de mim queria rir da ironia. Mal? Desconfortável? Se ele soubesse o quanto minha cabeça estava girando desde aquela noite, entenderia que o que me consumia não era culpa ou vergonha e sim o desejo que ficou. Mas não era fácil dizer isso. Não depois do jeito que ele se calou, dos olhares evitados, da maneira como tudo voltou a ser nada.
— Você já disse isso naquela noite… — falei, mantendo a voz estável. — Que não devia ter acontecido.
— Eu disse aquilo porque eu achei que a gente fosse se arrepender… que isso fosse atrapalhar tudo.
— E você se arrepende?
congelou, o olhar demorando um pouco para me alcançar, mas, quando alcançou, era como fogo puro.
— Não… esse é o problema. — Minhas mãos se fecharam ao lado do corpo e ele deu um passo na minha direção, depois outro. — Eu não me arrependo do que aconteceu. Eu me arrependo de não ter falado nada depois e de fingir que aquilo não mexeu comigo, quando na verdade… eu não paro de pensar.
Meu coração disparou como se eu estivesse correndo uma final. Quis perguntar: pensar exatamente em quê? No beijo? No toque? Em mim sentada entre suas pernas, sentindo seu corpo contra o meu? Mas tudo que saiu foi um sussurro:

— Eu sei que a gente sempre foi amigo… que você é importante pra mim… e que a gente tem toda essa coisa de convivência, de confiança, mas, … — a voz dele vacilou. — … tem alguma coisa mudando e eu tô tentando entender. Lembro de cada detalhe daquela noite… do jeito que você olhou pra mim, de como tremia quando eu encostava em você e como não desviou quando eu te toquei…
Respirei fundo, tentando conter o caos dentro de mim.
— Você acha que eu não fiquei confusa também? Que eu não pensei nisso um milhão de vezes?
— Você nunca gostou de filme de terror… — sua voz me atingiu como uma pedra jogada num lago calmo e eu me mexi, sentindo a toalha escorregar dos ombros enquanto o ar entre nós ganhava um peso estranho.
— Que? Do nada? — Tentei rir, buscando o tom desinteressado que sempre funcionava com ele. — Claro que gosto…
— Você sempre passa metade dos filmes com o rosto enterrado num travesseiro… ou no meu ombro.
— Isso é exagero…
— E no dia seguinte… olheiras. — Ele deu mais um passo e agora a pouca distância entre nós parecia impossível de ignorar. — Suponho que porque você não dormia bem… pesadelos. Eu via. — Não havia deboche em seu rosto, nem aquele sorrisinho presunçoso.
— Você… notava tudo isso?
— Sempre notei. Então, me ajuda a entender uma coisa. Você odeia filme de terror… e ainda assim viu todos os que eu escolhi. Por quê?
— Porque… — minha voz quase falhou. — Porque você adorava e… eu queria estar com você, mesmo que significasse ter pesadelos.
O silêncio depois daquela confissão era denso e parecia reprocessar cada lembrança, cada detalhe.

— Não fala… — pedi, quase num sussurro. — Por favor, só…
Mas suas mãos deslizaram para a minha cintura, puxando-a com firmeza, e ele me beijou novamente, nos guiando até o galpão de ferramentas que havíamos passado antes. As portas estavam entreabertas e, assim que entramos, o cheiro de madeira velha e ferrugem pairou no ar – ainda assim, parecia o lugar perfeito. me encostou contra a parede de madeira, a respiração acelerada contra a minha boca, me beijando como se tentasse recuperar o tempo perdido.
— Isso também é só como amigo? — Perguntei, sem conseguir esconder o tremor, e ele respondeu com aquele maldito sorriso, que sempre me desmontava.
— Isso foi tudo… menos amizade.
Ele começou a explorar lentamente cada centímetro do meu corpo, ao mesmo tempo que meus dedos se agarraram à gola de sua camisa. Seus lábios desceram para o meu pescoço, fazendo o ar escapar de mim num suspiro quebrado, depois voltaram para perto dos meus, quase tocando, e ele sussurrou:
— Você não tem ideia do quanto eu tô me controlando pra não arrancar esse vestido de você aqui mesmo.
Mordi o lábio, sentindo um arrepio percorrer todo o meu corpo, e olhei dentro de seus olhos.
— Talvez eu só tenha comprado esse vestido pra você tirar.
Seus olhos estavam escuros quando ele uniu nossas bocas, dessa vez com mais urgência, e suas mãos deslizaram por baixo do vestido, os dedos tocando sem pressa, me fazendo arquear o corpo em resposta e gemer baixo contra seus lábios.
— Não sabe o quanto eu imaginei como seria… você assim.
— E agora? Tá como você imaginou?
— Tá muito melhor. — Ele me ergueu com facilidade ao mesmo tempo em que eu envolvi minhas pernas na sua cintura e me agarrei em seus ombros, arfando ao sentir a fricção dos nossos quadris. — Se quiser parar… me fala agora.
— Se você parar agora, eu te mato. — Sorri, mesmo ofegante e tremendo por dentro.
riu baixo, voltando a me beijar, e suas mãos começaram a me explorar por baixo do vestido encharcado, mapeando cada curva e fazendo minha pele queimar.
… — murmurei contra seu pescoço, implorando por mais.
— Tá tudo bem? — Sussurrou, enquanto roçava os lábios no meu maxilar, e eu só consegui assentir.
Sua mão desceu até a base das minhas coxas, deslizando para o espaço entre elas e, quando finalmente encontrou o começo da minha calcinha, ele parou, suspirando contra a minha clavícula, e me encarou, como se me pedisse permissão.
— Por favor… — sussurrei, com a voz rouca, trêmula.
Foi tudo o que ele precisou. Seus dedos deslizaram lentamente por cima do tecido molhado ao mesmo tempo em que meu quadril se curvou em direção ao toque, implorando por mais. Minhas mãos deslizaram por baixo da camiseta dele, que ergueu os braços o suficiente para eu puxar a peça molhada, jogando-a num canto do galpão.
… — encaixei mais nossos corpos, buscando o contato, e ele soltou um gemido abafado na minha boca.
— Você tá tão linda assim… — murmurou, roçando os lábios nos meus.
Ele parou os movimentos, agarrou a barra do meu vestido e começou a puxá-lo para cima, os dedos esbarrando na minha pele úmida, como se quisessem memorizar cada centímetro. As alças deslizaram pelos meus ombros e ele o tirou o tirou por completo, me deixando só de lingerie, com o corpo ainda molhado.
— Droga, … — seus olhos correram por todas as minhas curvas e suas mãos percorreram o contorno dos seios, até pararem na minha cintura.
Ele me deitou com cuidado sobre o lençol improvisado de roupas e toalhas molhadas no chão do galpão, deitando sobre mim e deslizando os dedos por dentro da minha calcinha novamente, dessa vez mais rápido. Um gemido escapou dos meus lábios sem que eu conseguisse controlar e meus quadris se moveram contra sua mão por reflexo, desesperados por mais. tirou a peça de lingerie com uma lerdeza que parecia tortura, me deixando completamente nua sob o olhar dele, e se afastou apenas o suficiente para tirar o resto de suas roupas. Quando voltou, se posicionou entre minhas pernas e roçou a ponta do membro contra minha intimidade, me provocando, antes de finalmente me preencher de verdade, fazendo com que um suspiro escapasse dos meus lábios. Ele se moveu dentro de mim com lentidão, os olhos ainda presos nos meus, como se quisesse sentir cada reação.
— Você é perfeita… sempre foi.
Aos poucos, o ritmo aumentou, e nossos corpos se moviam juntos, sincronizados, como se tivessem feito aquilo mil vezes. Meus gemidos se misturavam aos dele, abafados pelo calor da noite, e a tensão que tinha se acumulado por anos entre nós explodiu ali, até que tudo que restou foi o som das nossas respirações se acalmando. Ele deitou ao meu lado, me puxando contra o peito, ainda sem dizer nada, apenas desenhando caminhos invisíveis na minha cintura com os dedos.

E eu finalmente entendi por que tinha escolhido aquele vestido. No fundo, sempre soube.

FIM!

Nota da autora: Admito que não era a maior fã de escrever friends to lovers, mas eu me apaixonei tanto por esse casal, que mudei de ideia kkkkkkkkk Espero que tenham gostado e comentem o que acharam💜