13. epiphany
Revisada por:
Hydra
Finalizada em: Fevereiro/2026
CAPÍTULO ÚNICO
Outono de 1944
O mar não soa como o mar.
Ele explode.
O cabo Hawthorne perde seu capacete antes mesmo de perceber, e em seu coração apenas martelava os sentimentos de perda e cansaço. A guerra não ambicionava ter fim, e a promessa de rever Adaline parece se diluir ainda mais. O choque da onde em seu corpo o derruba de joelhos, que de imediato sentiu o peso em que seu corpo carregava. E não estamos falando do peso físico. Mas aquele peso em que sua sanidade mental confunde a realidade com a ilusão de estar em casa com quem se ama.
O céu acinzentado.
Há gritos, mas eles chegam tarde, como cartas enviadas para um endereço errado. Vozes embaçadas que pareciam fazer pedidos impossíveis de se realizar. Sua visão se mostrou embaçada, e logo foi sentindo um gosto amargo na boca.
“Fique com seu capacete. Fique com sua vida, filho!” — Foram as últimas palavras que ouviu do seu capitão.
O rifle pesa demais para algo feito para salvar. E realmente salva? começa a rastejar pela areia, sentindo a opressão daquela praia que se impunha sobre todos os homens, tornando-os pequenos demais, pequenas crianças que rastejam à procura da mãe. Forçando-os a se agarrarem ao chão como se ele fosse a mais cruel figura materna.
Em um vislumbre de esperança, ele vê um corpo, brevemente reconhecendo-o.
O soldado deitado de lado, com seus olhos abertos, focados em nada. O capacete está intacto e o uniforme sem traços de desgaste, contudo, uma mancha escura crescia lentamente, como se a terra estivesse bebendo dele.
— É só um arranhão. — diz o homem, com o soar fraco e cansado. — Tenente… — ofegante por seu rastejamento, o olha com preocupação — Só um arranhão?!
Sabia que não seria apenas um arranhão.
As mãos de se mostravam trêmulas, ao pressionar o local exata no corpo do amigo, o sangue era quente demais. Vivo demais. O tenente forçou uma fala, porém, a frase morreu antes de nascer.
— Senhor… Senhor… — o tom desesperado de , seguia em conjunto com a aflição da realidade — SOCORRO!!!
Um pedido de ajuda que ninguém responderia.
O cabo Hawthorne segurou aquele homem como se fosse um amigo antigo, embora houvessem se conhecido há poucos meses devido à realidade em que o mundo vivenciava.
Quando um coração para, o mundo não faz nenhum anúncio.
A guerra continua como se nada tivesse sido retirado dela.
Contudo, sentia com algo quebrado por dentro. Algo que nunca mais aprenderá a dizer em voz alta, e o fazia refletir sobre o que viria a seguir.
Será que ele seria o próximo?
Será que teria a chance de ver os olhos de sua amada novamente?
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Primavera 2020
Naqueles dias, o hospital não cheirava a hospital.
Cheirava a medo contido.
A doutora Hawthorne ajustou a máscara com um gesto automático. Pelos dias de guerra invisível que vivia, aquela era sua maior proteção contra o inimigo. O rosto da paciente parecia ser sufocado diante de tantos tubos, fios e plástico, acompanhado pelo monitor, que ditava o tempo como um juiz impaciente. A cada som, uma preocupação se continuaria ou não.
Ela segurou a mão da mulher, mesmo não podendo sentir o calor humanos devido as luvas de plástico, um leve aperto é realizado.
— Estou aqui. — diz, sem saber se ainda existe alguém para ouvir.
Logo alguém murmura atrás dela, lhe despertando a atenção.
— Doutora, acho que ela está caindo. — era a voz do enfermeiro James.
A última palavra pesa mais do que deveria.
em seu instinto médico, age de imediato. Medicamentos e ordens, no habitual tom firme, mesmo tendo dormido apenas vinte minutos em dois dias. O corpo na cama reage como pode, como quer, como não consegue.
A doutora Hawthorne observa.
Por um vislumbre de lembranças de quando criança e brincava de médico com o avô, logo uma história lhe invadiu a mente. Justamente aquela que contava as perdas que o patriarca militar da família presenciou.
Ela é filha de alguém. — pensou, reprimindo seus sentimentos — Mãe de alguém.
A faculdade nunca falou sobre isso, sobre ser forte e guardar suas emoções no bolso enquanto estiver com o estetoscópio no pescoço. Nunca explicou como segurar a mão de um estranho, enquanto o mundo dele acaba.
O monitor muda de som.
O som que não deveria existir.
O som que ela não desejava ouvir.
não se permite esboçar nenhuma reação, ainda tinha outros tantos pacientes que contavam com seu equilíbrio emocional para sobreviverem ao que acontecia no mundo. Apenas permanece ali por alguns segundos a mais do que o protocolo permite.
Minutos para se recompor.
A doutora adentra o vestiário e sentada no chão frio. Ao fechar os olhos, buscava apenas vinte minutos. Apenas isso.
Vinte minutos de silêncio.
Sua mente reconstrói a cena da história do avô. A areia molhada, o céu acinzentado e uma pessoa ajoelhada segurando outra pessoa.
Quando finalmente abre os olhos, não entende o motivo de ter aquelas recordações.
Mas entende o peso que seu corpo sentia.
E não era físico!
Apenas vinte minutos para dormir
Mas você sonha com alguma epifania
Apenas um único vislumbre de alívio
Para entender o que você viu.
- Epiphany / Taylor Swift
“Vida: Quando um coração para, o mundo não faz nenhum anúncio.” - Pâms