13. marjorie
Revisada por: Saturno 🪐
Finalizada em: 29/05/2026
Prólogo
A água pingava da torneira da cozinha em intervalos irritantemente regulares, como uma batida ritmada sem fim.
Ploc. Ploc. Ploc…
mantinha seu olhar perdido e fixo naquele mesmo ciclo. A gota se formava na ponta metálica, deslizava lentamente, e então caía dentro da pia. Seus dedos frios apertavam a manga do moletom, enquanto ela repetia pela centésima vez naquela semana que consertaria aquilo.
Para falar a verdade, fazia dias que dizia a si mesma que faria muitas coisas, como dormir, comer, responder às dezenas de mensagens acumuladas em seu telefone, ou parar de ouvir vozes.
Essa última, no entanto, era claramente a mais impossível, e ela duvidava que conseguiria ajuda de alguém se pedisse.
O relógio do microondas marcava exatas 02:17 quando o sussurro atravessou o apartamento pela primeira vez naquela noite.
— !
Seus olhos se fecharam imediatamente.
Não.
Não, não, NÃO!
O nome veio outra vez, suave demais para ser real.
— …
Estava realmente louca, ou o som daquela voz parecia… molhado?
Seu estômago afundou. Ela se levantou tão rápido da cadeira que quase derrubou o copo ao lado da pia, e a água escura permaneceu ondulando por alguns segundos dentro do vidro.
O silêncio voltou a reinar.
Então foi interrompido pelo barulho da torneira.
Ploc.
tentou controlar a própria respiração, agora descompassada, passou as mãos pelos braços arrepiados e caminhou pelo pequeno apartamento, enquanto acendia todas as luzes que não precisava acender.
Sala. Corredor. Banheiro.
Não havia nada ali, apenas o insuportável vazio.
Negou com a cabeça e esfregou os olhos, que ardiam de cansaço, embora dormir ainda lhe parecesse uma ideia impossível.
Quando voltou para a cozinha, seu celular vibrava sobre a mesa.
Seu coração disparou em uma expectativa tola e, por um segundo horrível, ela pensou:
Marjorie.
No entanto, ao encarar o visor, encontrou apenas uma mensagem de sua mãe.
Você precisa sair de casa, filha.
Já faz dias.
Teve vontade de jogar o aparelho contra a parede, mas, em vez disso, apenas bloqueou a tela sem responder.
Seus olhos se prenderam na janela acima da pia. Morava no décimo andar, porém, mesmo dali, ela conseguia enxergar o lago ao longe, como uma mancha negra e imóvel no meio da cidade adormecida.
O peito apertou instantaneamente e sua garganta se fechou.
Não olhe!
Seu subconsciente gritou, porém não deu ouvidos e continuou a olhar.
Por um breve e cruel momento, teve a impressão de ver algo flutuando na superfície escura da água, e mesmo aquilo sendo impossível, foi capaz de paralisá-la por inteiro.
Lembranças a atingiram como uma enxurrada.
Aquela forma clara.
Os cabelos compridos.
O som nauseante da água.
recuperou seus movimentos e recuou da janela tão rápido que bateu a lombar na bancada.
— Merda! — Acariciou o local com veemência, então respirou fundo.
Inspirou.
E expirou.
Marjorie estava morta.
Pessoas mortas não chamavam seu nome no meio da madrugada.
Pessoas mortas não apareciam nadando em lagos.
E, principalmente, pessoas mortas não voltavam.
Ploc.
A torneira continuava a pingar, e levou as mãos às orelhas, como se assim conseguisse abafar alguma coisa, mas então ouviu novamente.
— …
Dessa vez, estava mais perto, bem atrás dela.
— Por que você foi embora, ?
O ar sumiu de seus pulmões, e a jovem se virou rápido demais.
Não havia ninguém na cozinha além dela.
Apenas, mais uma vez, o maldito vazio.
O pingar nauseante da água na torneira.
E o nome de Marjorie a ecoar dentro de sua mente há semanas.
Ploc. Ploc. Ploc…
mantinha seu olhar perdido e fixo naquele mesmo ciclo. A gota se formava na ponta metálica, deslizava lentamente, e então caía dentro da pia. Seus dedos frios apertavam a manga do moletom, enquanto ela repetia pela centésima vez naquela semana que consertaria aquilo.
Para falar a verdade, fazia dias que dizia a si mesma que faria muitas coisas, como dormir, comer, responder às dezenas de mensagens acumuladas em seu telefone, ou parar de ouvir vozes.
Essa última, no entanto, era claramente a mais impossível, e ela duvidava que conseguiria ajuda de alguém se pedisse.
O relógio do microondas marcava exatas 02:17 quando o sussurro atravessou o apartamento pela primeira vez naquela noite.
— !
Seus olhos se fecharam imediatamente.
Não.
Não, não, NÃO!
O nome veio outra vez, suave demais para ser real.
— …
Estava realmente louca, ou o som daquela voz parecia… molhado?
Seu estômago afundou. Ela se levantou tão rápido da cadeira que quase derrubou o copo ao lado da pia, e a água escura permaneceu ondulando por alguns segundos dentro do vidro.
O silêncio voltou a reinar.
Então foi interrompido pelo barulho da torneira.
Ploc.
tentou controlar a própria respiração, agora descompassada, passou as mãos pelos braços arrepiados e caminhou pelo pequeno apartamento, enquanto acendia todas as luzes que não precisava acender.
Sala. Corredor. Banheiro.
Não havia nada ali, apenas o insuportável vazio.
Negou com a cabeça e esfregou os olhos, que ardiam de cansaço, embora dormir ainda lhe parecesse uma ideia impossível.
Quando voltou para a cozinha, seu celular vibrava sobre a mesa.
Seu coração disparou em uma expectativa tola e, por um segundo horrível, ela pensou:
Marjorie.
No entanto, ao encarar o visor, encontrou apenas uma mensagem de sua mãe.
Você precisa sair de casa, filha.
Já faz dias.
Teve vontade de jogar o aparelho contra a parede, mas, em vez disso, apenas bloqueou a tela sem responder.
Seus olhos se prenderam na janela acima da pia. Morava no décimo andar, porém, mesmo dali, ela conseguia enxergar o lago ao longe, como uma mancha negra e imóvel no meio da cidade adormecida.
O peito apertou instantaneamente e sua garganta se fechou.
Não olhe!
Seu subconsciente gritou, porém não deu ouvidos e continuou a olhar.
Por um breve e cruel momento, teve a impressão de ver algo flutuando na superfície escura da água, e mesmo aquilo sendo impossível, foi capaz de paralisá-la por inteiro.
Lembranças a atingiram como uma enxurrada.
Aquela forma clara.
Os cabelos compridos.
O som nauseante da água.
recuperou seus movimentos e recuou da janela tão rápido que bateu a lombar na bancada.
— Merda! — Acariciou o local com veemência, então respirou fundo.
Inspirou.
E expirou.
Marjorie estava morta.
Pessoas mortas não chamavam seu nome no meio da madrugada.
Pessoas mortas não apareciam nadando em lagos.
E, principalmente, pessoas mortas não voltavam.
Ploc.
A torneira continuava a pingar, e levou as mãos às orelhas, como se assim conseguisse abafar alguma coisa, mas então ouviu novamente.
— …
Dessa vez, estava mais perto, bem atrás dela.
— Por que você foi embora, ?
O ar sumiu de seus pulmões, e a jovem se virou rápido demais.
Não havia ninguém na cozinha além dela.
Apenas, mais uma vez, o maldito vazio.
O pingar nauseante da água na torneira.
E o nome de Marjorie a ecoar dentro de sua mente há semanas.
Parte I
Nos dias seguintes, passou tentando permanecer acordada. Suas noites de sono já não eram mais prazerosas.
Agora, dormir significava sonhar com água.
Aquela água escura que entrava por sua boca, abafava seus gritos e…
Escondia o rosto de Marjorie sob a superfície do vasto lago.
não conseguia suportar aquilo, então simplesmente não dormia.
Ficava sentada no sofá, com a televisão ligada no volume mínimo, sem prestar atenção de fato à programação que ia e vinha, enquanto o céu clareava lentamente atrás das janelas do apartamento. Fazia suas obrigações diárias mecanicamente e depois voltava ao mesmo lugar fundo e cômodo da sala.
Às vezes, acabava cochilando por alguns minutos, então acordava assustada, com a sensação gélida de ter ouvido alguém andar pela casa.
Ou sussurrar seu nome.
Sua mãe continuava a mandar mensagens.
Você precisa reagir, minha filha.
Você precisa conversar com alguém. Não pode continuar se isolando desse jeito.
Marjorie não ia querer vê-la assim.
Essa última mensagem foi o bastante para que desligasse o celular completamente.
Sua mãe estava errada.
Porque Marjorie não costumava gostar de nada daquilo.
Marjorie não gostava do apartamento escuro.
Não gostava do cheiro constante de café frio, ou das olheiras profundas sob os olhos de .
E, definitivamente, Marjorie não gostava daquele silêncio.
Na verdade, ela detestava o silêncio.
conseguia lembrar perfeitamente da voz dela, alta demais em bibliotecas e animada demais nas salas de cinema. Sempre preenchendo o espaço vazio antes que este pudesse se tornar desconfortável.
Com Marjorie, não havia segundos o bastante para os pensamentos que agora rondavam sua mente.
Antes, os instantes de silêncio até eram bem vindos quando estava cansada demais para acompanhar o ritmo de Marjorie.
Agora, o silêncio parecia insuportável, porque ele nunca existia entre elas.
Seu olhar recaiu para a caixa de papelão esquecida há algumas semanas ao lado da estante.
Desde o desaparecimento, havia tentado ignorá-la, covarde demais para enfrentar as lembranças contidas ali dentro.
No entanto, naquela manhã, algo a puxou até ela.
Fotos, bilhetes antigos, roupas e objetos que a mãe de Marjorie a entregou e disse que talvez quisesse guardar.
Talvez.
Como se de fato existisse qualquer possibilidade de ela não querer.
A voz chata dentro de sua mente sussurrou que ela não devia, e a ignorou mais uma vez.
Suas mãos tremiam levemente enquanto mexia nas coisas.
Um catálogo com uma coleção de ingressos de cinema.
As diversas versões de suas pulseiras de amizade desbotadas.
Um chaveiro quebrado no formato de uma estrela.
Então encontrou a fotografia.
As duas estavam sentadas lado a lado dentro de um barco e sorriam para a câmera.
Não precisou de muito para se lembrar de que aquilo fora no verão passado.
O ar escapou de seus pulmões.
Marjorie roubou o boné dela naquele dia e se recusou a devolver até ela remar o barco sozinha como pagamento. riu do quão boba a amiga era, e as duas quase caíram na água após começarem uma guerra ainda mais boba de empurrões.
As duas gargalharam tanto que sentiu dor no estômago.
O olhar de Marjorie na foto, de repente, estava diferente, como se o futuro fosse algo simples.
Como se ainda existisse.
virou a fotografia rapidamente.
No verso, escrita com a caligrafia inclinada de Marjorie, havia a seguinte frase:
Nós duas contra o mundo sempre.
Aquilo a atingiu como uma dolorosa facada, e seu peito se apertou tão forte que precisou fechar os olhos.
Porque aquilo já não era mais verdade fazia tempo.
Muito antes de…
Suas mãos tremeram mais, e a foto escorregou de suas mãos.
As mudanças haviam começado pequenas.
Mensagens demoradas, planos cancelados.
Novos amigos que nunca lembrava o nome.
Marjorie passou a falar sobre ambientes que havia frequentado sem ela, e pior, lugares distantes que desejava conhecer.
New York. Boston. Países da Europa.
Qualquer lugar bem longe dali.
Longe do lago.
Longe da cidade.
Longe dela.
No começo, fingiu não perceber. Depois, fingiu que nada daquilo a afetava.
Mas ela percebia e sentia tudo.
Marjorie já não sorria mais para ela da mesma maneira, estava sempre distraída entre as conversas, e às vezes até pegava o celular para responder áudios de outras pessoas, sem nem perceber quando cortava a fala de .
Ela passou a evitar planos longos e cancelar até mesmo os curtos de última hora.
Então veio a faculdade.
Desde crianças, elas planejavam fazer aquilo juntas. Aplicar para a mesma cidade, mesmo campus e mesmo dormitório.
Morar juntas era seu maior sonho, uma promessa selada pela corrente com um pingente de coração que ainda usava no pescoço.
Então deixou de ser.
Marjorie já não usava mais a corrente, e se lembrou da sensação exata das palavras dela quando as ouviu:
— Acho que agora eu preciso de alguma coisa diferente.
Diferente.
Aquela palavra continuava machucando, porque ela sabia o seu verdadeiro significado.
não era mais o suficiente.
Seus lábios tremeram, uma lágrima silenciosa escorreu por sua bochecha e foi enxugada rapidamente.
Com um longo suspiro, se abaixou para pegar a fotografia do chão, porém, no mesmo instante, um som ecoou no apartamento.
Água.
Ela se levantou rapidamente e percebeu que o barulho vinha do banheiro.
Seu coração disparou dentro do peito enquanto caminhava pelo corredor escuro. Suas pernas custavam a obedecê-la, e uma sensação gelada se espalhou por todo o seu corpo.
A porta do banheiro estava entreaberta, e tinha absoluta certeza de que a deixou fechada.
Engoliu em seco, mais um pouco e desmaiaria ali mesmo.
— Marjorie? — Sua voz saiu pequena, esganiçada.
Nenhuma resposta.
tomou coragem e empurrou a porta devagar.
O som ficou ainda mais alto e, com pavor, constatou que o chuveiro estava ligado e a água escorria pelas paredes de azulejo, enquanto o vapor preenchia o banheiro lentamente.
No chão, haviam pegadas molhadas.
Uma.
Duas.
Três.
Então pararam exatamente diante dela.
Agora, dormir significava sonhar com água.
Aquela água escura que entrava por sua boca, abafava seus gritos e…
Escondia o rosto de Marjorie sob a superfície do vasto lago.
não conseguia suportar aquilo, então simplesmente não dormia.
Ficava sentada no sofá, com a televisão ligada no volume mínimo, sem prestar atenção de fato à programação que ia e vinha, enquanto o céu clareava lentamente atrás das janelas do apartamento. Fazia suas obrigações diárias mecanicamente e depois voltava ao mesmo lugar fundo e cômodo da sala.
Às vezes, acabava cochilando por alguns minutos, então acordava assustada, com a sensação gélida de ter ouvido alguém andar pela casa.
Ou sussurrar seu nome.
Sua mãe continuava a mandar mensagens.
Você precisa reagir, minha filha.
Você precisa conversar com alguém. Não pode continuar se isolando desse jeito.
Marjorie não ia querer vê-la assim.
Essa última mensagem foi o bastante para que desligasse o celular completamente.
Sua mãe estava errada.
Porque Marjorie não costumava gostar de nada daquilo.
Marjorie não gostava do apartamento escuro.
Não gostava do cheiro constante de café frio, ou das olheiras profundas sob os olhos de .
E, definitivamente, Marjorie não gostava daquele silêncio.
Na verdade, ela detestava o silêncio.
conseguia lembrar perfeitamente da voz dela, alta demais em bibliotecas e animada demais nas salas de cinema. Sempre preenchendo o espaço vazio antes que este pudesse se tornar desconfortável.
Com Marjorie, não havia segundos o bastante para os pensamentos que agora rondavam sua mente.
Antes, os instantes de silêncio até eram bem vindos quando estava cansada demais para acompanhar o ritmo de Marjorie.
Agora, o silêncio parecia insuportável, porque ele nunca existia entre elas.
Seu olhar recaiu para a caixa de papelão esquecida há algumas semanas ao lado da estante.
Desde o desaparecimento, havia tentado ignorá-la, covarde demais para enfrentar as lembranças contidas ali dentro.
No entanto, naquela manhã, algo a puxou até ela.
Fotos, bilhetes antigos, roupas e objetos que a mãe de Marjorie a entregou e disse que talvez quisesse guardar.
Talvez.
Como se de fato existisse qualquer possibilidade de ela não querer.
A voz chata dentro de sua mente sussurrou que ela não devia, e a ignorou mais uma vez.
Suas mãos tremiam levemente enquanto mexia nas coisas.
Um catálogo com uma coleção de ingressos de cinema.
As diversas versões de suas pulseiras de amizade desbotadas.
Um chaveiro quebrado no formato de uma estrela.
Então encontrou a fotografia.
As duas estavam sentadas lado a lado dentro de um barco e sorriam para a câmera.
Não precisou de muito para se lembrar de que aquilo fora no verão passado.
O ar escapou de seus pulmões.
Marjorie roubou o boné dela naquele dia e se recusou a devolver até ela remar o barco sozinha como pagamento. riu do quão boba a amiga era, e as duas quase caíram na água após começarem uma guerra ainda mais boba de empurrões.
As duas gargalharam tanto que sentiu dor no estômago.
O olhar de Marjorie na foto, de repente, estava diferente, como se o futuro fosse algo simples.
Como se ainda existisse.
virou a fotografia rapidamente.
No verso, escrita com a caligrafia inclinada de Marjorie, havia a seguinte frase:
Nós duas contra o mundo sempre.
Aquilo a atingiu como uma dolorosa facada, e seu peito se apertou tão forte que precisou fechar os olhos.
Porque aquilo já não era mais verdade fazia tempo.
Muito antes de…
Suas mãos tremeram mais, e a foto escorregou de suas mãos.
As mudanças haviam começado pequenas.
Mensagens demoradas, planos cancelados.
Novos amigos que nunca lembrava o nome.
Marjorie passou a falar sobre ambientes que havia frequentado sem ela, e pior, lugares distantes que desejava conhecer.
New York. Boston. Países da Europa.
Qualquer lugar bem longe dali.
Longe do lago.
Longe da cidade.
Longe dela.
No começo, fingiu não perceber. Depois, fingiu que nada daquilo a afetava.
Mas ela percebia e sentia tudo.
Marjorie já não sorria mais para ela da mesma maneira, estava sempre distraída entre as conversas, e às vezes até pegava o celular para responder áudios de outras pessoas, sem nem perceber quando cortava a fala de .
Ela passou a evitar planos longos e cancelar até mesmo os curtos de última hora.
Então veio a faculdade.
Desde crianças, elas planejavam fazer aquilo juntas. Aplicar para a mesma cidade, mesmo campus e mesmo dormitório.
Morar juntas era seu maior sonho, uma promessa selada pela corrente com um pingente de coração que ainda usava no pescoço.
Então deixou de ser.
Marjorie já não usava mais a corrente, e se lembrou da sensação exata das palavras dela quando as ouviu:
— Acho que agora eu preciso de alguma coisa diferente.
Diferente.
Aquela palavra continuava machucando, porque ela sabia o seu verdadeiro significado.
não era mais o suficiente.
Seus lábios tremeram, uma lágrima silenciosa escorreu por sua bochecha e foi enxugada rapidamente.
Com um longo suspiro, se abaixou para pegar a fotografia do chão, porém, no mesmo instante, um som ecoou no apartamento.
Água.
Ela se levantou rapidamente e percebeu que o barulho vinha do banheiro.
Seu coração disparou dentro do peito enquanto caminhava pelo corredor escuro. Suas pernas custavam a obedecê-la, e uma sensação gelada se espalhou por todo o seu corpo.
A porta do banheiro estava entreaberta, e tinha absoluta certeza de que a deixou fechada.
Engoliu em seco, mais um pouco e desmaiaria ali mesmo.
— Marjorie? — Sua voz saiu pequena, esganiçada.
Nenhuma resposta.
tomou coragem e empurrou a porta devagar.
O som ficou ainda mais alto e, com pavor, constatou que o chuveiro estava ligado e a água escorria pelas paredes de azulejo, enquanto o vapor preenchia o banheiro lentamente.
No chão, haviam pegadas molhadas.
Uma.
Duas.
Três.
Então pararam exatamente diante dela.
Parte II
não voltou àquele lago depois da morte de Marjorie.
Nenhuma vez.
Mudava o caminho para evitar vê-lo através da janela do ônibus. Desligava a televisão quando a previsão do tempo mostrava imagens aéreas da cidade e ignorava qualquer comentário a respeito do local.
Para falar bem a verdade, qualquer som de água corrente já era o suficiente para fazer seu estômago se contorcer.
No entanto, naquela tarde cinzenta, pela primeira vez em semanas, pegou as chaves do apartamento e saiu.
Seu olhar ainda era distante, e o céu estava pesado, do tipo que fazia o mundo inteiro parecer submerso.
quase desistiu no meio do caminho.
Por uma fração de segundos, o coração parecia desejar saltar pela boca, e ela só queria voltar para a sua casa, se encolher como uma bola e nunca mais sair do casulo que havia criado.
Em vez disso, no entanto, suas mãos apertaram o volante com tanta força que os nós dos dedos ficaram pálidos.
Não podia desistir, afinal.
O rádio do carro murmurava alguma música baixa e distante, porém mal conseguia ouvi-la por cima das batidas de seu próprio coração.
Quando estacionou perto da trilha, ainda ficou alguns minutos parada dentro do veículo. De repente, o ar parecia ter fugido de seus pulmões.
Respira, .
Uma parte dela a deixou presa ali e gritou o mais prudente a se fazer.
Vai embora!
Precisava seguir em frente. Precisava…
Você já foi embora uma vez.
Outra voz sussurrou em seus pensamentos, e odiou o quão familiar ela soava.
Fechou os olhos imediatamente e a mão trêmula segurou o trinco da porta com firmeza.
— Para…
Aquele silêncio insuportável foi sua resposta.
E, mesmo assim, respirou fundo e finalmente saiu do carro.
O lago surgiu entre as árvores poucos metros depois e estava exatamente do jeito que se lembrava.
Imóvel. Escuro. Sombriamente belo.
Seu peito se apertou tão rápido que doeu fisicamente e a fez levar a mão à região para esfregá-la devagar.
Tudo parecia estar mesmo igual.
Haviam as mesmas docas de madeira, o mesmo cheiro úmido e o mesmo vento frio a deslizar sobre a superfície da água.
Era como se nada tivesse acontecido ali.
Como se o lago sequer se importasse.
caminhou devagar até a margem. Não tinha percebido o quanto sentia falta de respirar ar fresco até aquele momento.
Ultimamente, seu apartamento parecia pequeno demais. Fechado e sufocante demais. Como um lugar onde cada mofo criado nas paredes representava uma parcela de sua culpa.
No entanto, ali fora era muito pior.
Porque, embora conseguisse respirar, o lago estava ali, diante de seus olhos.
E ele poderia até não se importar, mas lembrava.
O lago tinha visto tudo.
Ele sempre via tudo.
abraçou os próprios braços, então ouviu aquele som.
Risadas.
Seu corpo inteiro congelou, e o pescoço reclamou quando ela virou rápido demais.
Não viu nada. Apenas as árvores balançando ao vento.
No entanto, a próxima lembrança veio com toda a força. Não como uma voz dessa vez, mas, sim, uma memória vívida.
— Você tá remando torto, garota! — Marjorie ria, enquanto tentava puxar o remo das mãos dela.
— Lógico, porque você tá mexendo o barco! — Revirou os olhos e tentou recuar.
— , me dá logo esse negócio!
— Não! Fique quieta você aí! — Desviou mais uma vez da amiga.
— Eu juro por Deus que…
O barco balançou perigosamente, e as duas se calaram. O olhar arregalado de uma encontrou o da outra, então, inevitavelmente, elas caíram na gargalhada.
Aquilo havia acontecido no verão passado, e tudo estava tão diferente.
O sol estava forte, a pele quente, e não havia nenhuma culpa.
apertou os olhos com força. Quando tornou a abri-los, viu o pequeno cais à frente e estremeceu.
O barco ainda estava lá, preso na madeira como se continuasse a esperar por elas esse tempo todo.
Seu estômago revirou e a bile subiu à garganta.
— Não… — murmurou.
Não, não, não.
não queria chegar perto daquilo. Não podia. Mas seus pés continuaram a andar devagar, cada passo mais pesado que o anterior.
Ao finalmente chegar diante do barco, notou a tinta descascada na lateral. Havia pequenos arranhões na madeira, água acumulada no fundo.
Então viu o remo, e sua respiração parou.
A memória veio tão rápido que quase a jogou para trás.
— Então é isso? — Sua voz tremia, enquanto os olhos lutavam contra as lágrimas que queriam se formar. — Você simplesmente decidiu ir embora?
Marjorie soltou uma risada nervosa.
— Não é “ir embora”. É faculdade!
— Em outro estado?!
— E qual é o problema, poxa? Eu não posso querer sair desse lugar? Fazer uma faculdade melhor? Caramba, , eu não posso escolher o meu futuro baseada em…
Ela parou imediatamente, como se acabasse de se dar conta do peso que suas palavras teriam.
Mas havia entendido.
— Baseada em mim? — Não queria soar tão chorosa ao dizer aquilo.
O que mais doeu foi o silêncio de Marjorie.
— Continua! Baseada em mim?
O barco balançava violentamente sob as duas. O lago parecia ainda mais escuro naquela tarde e o vento forte fazia a água bater contra a madeira.
Marjorie passou as mãos pelos cabelos, num gesto claro de frustração.
— Não é isso. Olha, você tá transformando tudo numa coisa muito maior do que realmente é.
Dessa vez, o silêncio partiu de .
Ela sentiu algo quebrar dentro de si.
Porque Marjorie não conseguia enxergar a verdade. Era maior sim. Na verdade, era tudo.
Os segundos se passaram como uma dolorosa sentença.
— Eu senti você me deixando. — Por fim, o sussurro de o rompeu.
— …
O tom de pena a cortou como uma faca e ficou ali, fincado em suas entranhas.
— Sinto muito, , mas… Mas as coisas mudam, sabe? Nós não somos mais duas garotinhas.
— Não fale assim comigo! Não fale como se eu vivesse no passado, enquanto você cresce e faz todas essas novas amigas idiotas…
— , você está se ouvindo? Caramba, não tem mais como conversar com você. Não é sobre amigas novas, é sobre…
— Cala a boca! Cala a boca! Não quero ouvir mais nada!
O presente trouxe de volta com um solavanco. Um gosto metálico invadiu sua boa.
Era impressão sua, ou o lago diante dela parecia começar a se mover devagar, quase como se respirasse?
Recuou um passo… Dois.
Então, bem perto de seu ouvido, ela ouviu novamente.
— Você me deixou, .
Girou o corpo rapidamente e….
Ninguém.
No entanto, dessa vez o vento trouxe consigo mais um som.
Água se movendo.
Seu olhar foi atraído para o lago e, com horror, constatou que algo havia emergido perto do barco. Uma silhueta escura, que agora estava sob a superfície, com seus cabelos longos flutuando lentamente na água.
tropeçou para trás e, por muito pouco, não desabou. Seu coração quase explodia no peito, as mãos suavam frio e as pernas amoleceram.
— Marjorie?
A figura desapareceu e tudo que restou não passava de pequenas ondas quebrando contra a madeira do cais.
Então, em um golpe ainda mais cruel, a última memória finalmente começou a voltar.
O grito dela.
O remo escapando de suas mãos.
E o corpo de Marjorie atingindo a água.
Nenhuma vez.
Mudava o caminho para evitar vê-lo através da janela do ônibus. Desligava a televisão quando a previsão do tempo mostrava imagens aéreas da cidade e ignorava qualquer comentário a respeito do local.
Para falar bem a verdade, qualquer som de água corrente já era o suficiente para fazer seu estômago se contorcer.
No entanto, naquela tarde cinzenta, pela primeira vez em semanas, pegou as chaves do apartamento e saiu.
Seu olhar ainda era distante, e o céu estava pesado, do tipo que fazia o mundo inteiro parecer submerso.
quase desistiu no meio do caminho.
Por uma fração de segundos, o coração parecia desejar saltar pela boca, e ela só queria voltar para a sua casa, se encolher como uma bola e nunca mais sair do casulo que havia criado.
Em vez disso, no entanto, suas mãos apertaram o volante com tanta força que os nós dos dedos ficaram pálidos.
Não podia desistir, afinal.
O rádio do carro murmurava alguma música baixa e distante, porém mal conseguia ouvi-la por cima das batidas de seu próprio coração.
Quando estacionou perto da trilha, ainda ficou alguns minutos parada dentro do veículo. De repente, o ar parecia ter fugido de seus pulmões.
Respira, .
Uma parte dela a deixou presa ali e gritou o mais prudente a se fazer.
Vai embora!
Precisava seguir em frente. Precisava…
Você já foi embora uma vez.
Outra voz sussurrou em seus pensamentos, e odiou o quão familiar ela soava.
Fechou os olhos imediatamente e a mão trêmula segurou o trinco da porta com firmeza.
— Para…
Aquele silêncio insuportável foi sua resposta.
E, mesmo assim, respirou fundo e finalmente saiu do carro.
O lago surgiu entre as árvores poucos metros depois e estava exatamente do jeito que se lembrava.
Imóvel. Escuro. Sombriamente belo.
Seu peito se apertou tão rápido que doeu fisicamente e a fez levar a mão à região para esfregá-la devagar.
Tudo parecia estar mesmo igual.
Haviam as mesmas docas de madeira, o mesmo cheiro úmido e o mesmo vento frio a deslizar sobre a superfície da água.
Era como se nada tivesse acontecido ali.
Como se o lago sequer se importasse.
caminhou devagar até a margem. Não tinha percebido o quanto sentia falta de respirar ar fresco até aquele momento.
Ultimamente, seu apartamento parecia pequeno demais. Fechado e sufocante demais. Como um lugar onde cada mofo criado nas paredes representava uma parcela de sua culpa.
No entanto, ali fora era muito pior.
Porque, embora conseguisse respirar, o lago estava ali, diante de seus olhos.
E ele poderia até não se importar, mas lembrava.
O lago tinha visto tudo.
Ele sempre via tudo.
abraçou os próprios braços, então ouviu aquele som.
Risadas.
Seu corpo inteiro congelou, e o pescoço reclamou quando ela virou rápido demais.
Não viu nada. Apenas as árvores balançando ao vento.
No entanto, a próxima lembrança veio com toda a força. Não como uma voz dessa vez, mas, sim, uma memória vívida.
— Você tá remando torto, garota! — Marjorie ria, enquanto tentava puxar o remo das mãos dela.
— Lógico, porque você tá mexendo o barco! — Revirou os olhos e tentou recuar.
— , me dá logo esse negócio!
— Não! Fique quieta você aí! — Desviou mais uma vez da amiga.
— Eu juro por Deus que…
O barco balançou perigosamente, e as duas se calaram. O olhar arregalado de uma encontrou o da outra, então, inevitavelmente, elas caíram na gargalhada.
Aquilo havia acontecido no verão passado, e tudo estava tão diferente.
O sol estava forte, a pele quente, e não havia nenhuma culpa.
apertou os olhos com força. Quando tornou a abri-los, viu o pequeno cais à frente e estremeceu.
O barco ainda estava lá, preso na madeira como se continuasse a esperar por elas esse tempo todo.
Seu estômago revirou e a bile subiu à garganta.
— Não… — murmurou.
Não, não, não.
não queria chegar perto daquilo. Não podia. Mas seus pés continuaram a andar devagar, cada passo mais pesado que o anterior.
Ao finalmente chegar diante do barco, notou a tinta descascada na lateral. Havia pequenos arranhões na madeira, água acumulada no fundo.
Então viu o remo, e sua respiração parou.
A memória veio tão rápido que quase a jogou para trás.
— Então é isso? — Sua voz tremia, enquanto os olhos lutavam contra as lágrimas que queriam se formar. — Você simplesmente decidiu ir embora?
Marjorie soltou uma risada nervosa.
— Não é “ir embora”. É faculdade!
— Em outro estado?!
— E qual é o problema, poxa? Eu não posso querer sair desse lugar? Fazer uma faculdade melhor? Caramba, , eu não posso escolher o meu futuro baseada em…
Ela parou imediatamente, como se acabasse de se dar conta do peso que suas palavras teriam.
Mas havia entendido.
— Baseada em mim? — Não queria soar tão chorosa ao dizer aquilo.
O que mais doeu foi o silêncio de Marjorie.
— Continua! Baseada em mim?
O barco balançava violentamente sob as duas. O lago parecia ainda mais escuro naquela tarde e o vento forte fazia a água bater contra a madeira.
Marjorie passou as mãos pelos cabelos, num gesto claro de frustração.
— Não é isso. Olha, você tá transformando tudo numa coisa muito maior do que realmente é.
Dessa vez, o silêncio partiu de .
Ela sentiu algo quebrar dentro de si.
Porque Marjorie não conseguia enxergar a verdade. Era maior sim. Na verdade, era tudo.
Os segundos se passaram como uma dolorosa sentença.
— Eu senti você me deixando. — Por fim, o sussurro de o rompeu.
— …
O tom de pena a cortou como uma faca e ficou ali, fincado em suas entranhas.
— Sinto muito, , mas… Mas as coisas mudam, sabe? Nós não somos mais duas garotinhas.
— Não fale assim comigo! Não fale como se eu vivesse no passado, enquanto você cresce e faz todas essas novas amigas idiotas…
— , você está se ouvindo? Caramba, não tem mais como conversar com você. Não é sobre amigas novas, é sobre…
— Cala a boca! Cala a boca! Não quero ouvir mais nada!
O presente trouxe de volta com um solavanco. Um gosto metálico invadiu sua boa.
Era impressão sua, ou o lago diante dela parecia começar a se mover devagar, quase como se respirasse?
Recuou um passo… Dois.
Então, bem perto de seu ouvido, ela ouviu novamente.
— Você me deixou, .
Girou o corpo rapidamente e….
Ninguém.
No entanto, dessa vez o vento trouxe consigo mais um som.
Água se movendo.
Seu olhar foi atraído para o lago e, com horror, constatou que algo havia emergido perto do barco. Uma silhueta escura, que agora estava sob a superfície, com seus cabelos longos flutuando lentamente na água.
tropeçou para trás e, por muito pouco, não desabou. Seu coração quase explodia no peito, as mãos suavam frio e as pernas amoleceram.
— Marjorie?
A figura desapareceu e tudo que restou não passava de pequenas ondas quebrando contra a madeira do cais.
Então, em um golpe ainda mais cruel, a última memória finalmente começou a voltar.
O grito dela.
O remo escapando de suas mãos.
E o corpo de Marjorie atingindo a água.
Parte III
não se lembrava de ter voltado para casa.
As lembranças daquele dia no lago continuavam a vir em flashes desconexos, enquanto ela permanecia sentada no chão da cozinha. Seu corpo balançava para frente e para trás, e seus olhos estavam fixos na mesma torneira pingando sem realmente vê-la.
Ploc. Ploc. PLOC!
O som agora parecia ainda mais alto, como se fossem passos se aproximando, ou, quem sabe, a contagem regressiva de um relógio.
Seu corpo inteiro doía de tensão, e apertava tanto as mãos uma contra a outra que suas unhas deixavam marcas avermelhadas na própria pele.
Os flashes continuavam a vir como um turbilhão. A cada minuto mais nítidos e mais perturbadores.
O remo. O barulho seco e nauseante. Marjorie caindo.
— !
Aquele grito ecoou dentro de sua cabeça, tão claro que se levantou bruscamente, esbarrou na cadeira ao seu lado e a derrubou com um estrondo.
— Para… Por favor, para! — sussurrou e cobriu os ouvidos.
Mas não parava, porque finalmente ela criava consciência de tudo.
Não apenas daquela maldita queda, mas do que veio logo depois.
caminhou desesperadamente até a borda do barco. Suas mãos trêmulas derrubaram o remo. O lago estava escuro demais para enxergar qualquer coisa.
— Marjorie?
Não houve resposta, apenas água e o silêncio.
— Marjorie, por favor… MARJORIE! — Seus olhos transbordaram, seu coração batia desesperado, então…
Bolhas surgiram na superfície.
sentiu as lágrimas quentes queimarem e, se agarrando à toda esperança que tinha, ela esperou.
Esperou que Marjorie voltasse à tona rindo, ou furiosa, a xingando de todos os nomes possíveis.
Qualquer coisa aliviaria seu suplício.
Mas os segundos se passaram, então se tornaram minutos e… nada aconteceu.
A respiração de se tornou ainda mais irregular, e o desespero tomou conta de cada poro de seu corpo.
Naquele momento, ela podia ter mergulhado.
Podia ter gritado por ajuda.
Podia ter ligado para alguém.
Podia ter feito qualquer coisa.
Porém o pânico tomou conta de si. E, em vez de ajudar Marjorie, ela simplesmente foi embora.
cambaleou até a parede da cozinha e deslizou lentamente até se sentar no chão outra vez.
A culpa agora parecia ainda mais viva, como se respirasse junto dela dentro do apartamento.
Seu olhar caiu no reflexo escuro da janela e, por um instante, viu Marjorie atrás dela.
Molhada. Pálida. A água escorria por seus cabelos e empoçava o chão.
virou imediatamente e encontrou o vazio atrás dela.
Quando olhou de novo para o vidro, o reflexo havia desaparecido.
Seu peito subia e descia rápido demais. O nó apertava tanto sua garganta que doía.
Estava enlouquecendo, e talvez fosse realmente o que merecia.
O barulho do celular vibrando sobre a bancada a fez se assustar violentamente.
levou a mão ao peito e hesitou antes de pegá-lo, então leu a mensagem de sua mãe na tela.
A polícia encontrou alguma coisa?
Seu estômago pareceu afundar.
Há semanas as buscas por Marjorie seguiam incansáveis, mas seu corpo ainda não havia sido encontrado, mesmo quando foram até o lago.
Era como se ele a tivesse engolido completamente, e talvez fosse aquilo que tornava tudo pior.
Sem corpo, sem despedida, sem fim.
Apenas ausência e culpa.
As mãos de tremiam tanto que quase deixou o celular cair.
Então ouviu novamente, e, dessa vez, não atrás de si, mas dentro do apartamento inteiro.
— !
A voz era a mesma de todas as outras vezes. Suave. Familiar.
Quase triste.
Lágrimas quentes escorreram pelo seu rosto.
— E-eu… Eu não queria, Marjorie…
O silêncio foi sua resposta, como sempre.
fechou os olhos com força.
— Por favor, me perdoe. Eu não queria que você fosse embora.
A frase ecoou quebrada, patética, quase infantil, mas era verdadeira.
estava apavorada pela ideia de ser deixada para trás. Aquilo a sufocava e dilacerava de todas as formas possíveis.
Porque Marjorie sempre havia estado ali por ela. Eram as duas contra o mundo.
E, de repente, deixaria de estar.
Agora estava sozinha de qualquer forma.
Uma risada fraca, quase histérica, escapou entre suas lágrimas, porque finalmente entendeu a crueldade daquilo.
Do que ela fizera.
Passou semanas ouvindo Marjorie chamá-la, sentindo sua presença e tentando fugir da culpa, mas a verdade era simples, e não havia mais para onde correr.
Marjorie não estava voltando para assombrá-la, era quem continuava presa naquele dia.
O apartamento, de repente, pareceu pequeno demais mais uma vez. Sufocante. Cheio de água invisível.
Com um longo suspiro, no entanto, soube exatamente o que precisava fazer.
Então se levantou, pegou as chaves do carro e dirigiu mais uma vez até o lago.
As lembranças daquele dia no lago continuavam a vir em flashes desconexos, enquanto ela permanecia sentada no chão da cozinha. Seu corpo balançava para frente e para trás, e seus olhos estavam fixos na mesma torneira pingando sem realmente vê-la.
Ploc. Ploc. PLOC!
O som agora parecia ainda mais alto, como se fossem passos se aproximando, ou, quem sabe, a contagem regressiva de um relógio.
Seu corpo inteiro doía de tensão, e apertava tanto as mãos uma contra a outra que suas unhas deixavam marcas avermelhadas na própria pele.
Os flashes continuavam a vir como um turbilhão. A cada minuto mais nítidos e mais perturbadores.
O remo. O barulho seco e nauseante. Marjorie caindo.
— !
Aquele grito ecoou dentro de sua cabeça, tão claro que se levantou bruscamente, esbarrou na cadeira ao seu lado e a derrubou com um estrondo.
— Para… Por favor, para! — sussurrou e cobriu os ouvidos.
Mas não parava, porque finalmente ela criava consciência de tudo.
Não apenas daquela maldita queda, mas do que veio logo depois.
caminhou desesperadamente até a borda do barco. Suas mãos trêmulas derrubaram o remo. O lago estava escuro demais para enxergar qualquer coisa.
— Marjorie?
Não houve resposta, apenas água e o silêncio.
— Marjorie, por favor… MARJORIE! — Seus olhos transbordaram, seu coração batia desesperado, então…
Bolhas surgiram na superfície.
sentiu as lágrimas quentes queimarem e, se agarrando à toda esperança que tinha, ela esperou.
Esperou que Marjorie voltasse à tona rindo, ou furiosa, a xingando de todos os nomes possíveis.
Qualquer coisa aliviaria seu suplício.
Mas os segundos se passaram, então se tornaram minutos e… nada aconteceu.
A respiração de se tornou ainda mais irregular, e o desespero tomou conta de cada poro de seu corpo.
Naquele momento, ela podia ter mergulhado.
Podia ter gritado por ajuda.
Podia ter ligado para alguém.
Podia ter feito qualquer coisa.
Porém o pânico tomou conta de si. E, em vez de ajudar Marjorie, ela simplesmente foi embora.
cambaleou até a parede da cozinha e deslizou lentamente até se sentar no chão outra vez.
A culpa agora parecia ainda mais viva, como se respirasse junto dela dentro do apartamento.
Seu olhar caiu no reflexo escuro da janela e, por um instante, viu Marjorie atrás dela.
Molhada. Pálida. A água escorria por seus cabelos e empoçava o chão.
virou imediatamente e encontrou o vazio atrás dela.
Quando olhou de novo para o vidro, o reflexo havia desaparecido.
Seu peito subia e descia rápido demais. O nó apertava tanto sua garganta que doía.
Estava enlouquecendo, e talvez fosse realmente o que merecia.
O barulho do celular vibrando sobre a bancada a fez se assustar violentamente.
levou a mão ao peito e hesitou antes de pegá-lo, então leu a mensagem de sua mãe na tela.
A polícia encontrou alguma coisa?
Seu estômago pareceu afundar.
Há semanas as buscas por Marjorie seguiam incansáveis, mas seu corpo ainda não havia sido encontrado, mesmo quando foram até o lago.
Era como se ele a tivesse engolido completamente, e talvez fosse aquilo que tornava tudo pior.
Sem corpo, sem despedida, sem fim.
Apenas ausência e culpa.
As mãos de tremiam tanto que quase deixou o celular cair.
Então ouviu novamente, e, dessa vez, não atrás de si, mas dentro do apartamento inteiro.
— !
A voz era a mesma de todas as outras vezes. Suave. Familiar.
Quase triste.
Lágrimas quentes escorreram pelo seu rosto.
— E-eu… Eu não queria, Marjorie…
O silêncio foi sua resposta, como sempre.
fechou os olhos com força.
— Por favor, me perdoe. Eu não queria que você fosse embora.
A frase ecoou quebrada, patética, quase infantil, mas era verdadeira.
estava apavorada pela ideia de ser deixada para trás. Aquilo a sufocava e dilacerava de todas as formas possíveis.
Porque Marjorie sempre havia estado ali por ela. Eram as duas contra o mundo.
E, de repente, deixaria de estar.
Agora estava sozinha de qualquer forma.
Uma risada fraca, quase histérica, escapou entre suas lágrimas, porque finalmente entendeu a crueldade daquilo.
Do que ela fizera.
Passou semanas ouvindo Marjorie chamá-la, sentindo sua presença e tentando fugir da culpa, mas a verdade era simples, e não havia mais para onde correr.
Marjorie não estava voltando para assombrá-la, era quem continuava presa naquele dia.
O apartamento, de repente, pareceu pequeno demais mais uma vez. Sufocante. Cheio de água invisível.
Com um longo suspiro, no entanto, soube exatamente o que precisava fazer.
Então se levantou, pegou as chaves do carro e dirigiu mais uma vez até o lago.
Parte IV
Tudo era silêncio quando chegou.
Não havia vento.
Não havia chuva.
Não havia vozes.
A água escura refletia o céu noturno como um espelho belo e ao mesmo tempo sombrio demais.
Após fechar a porta do carro devagar, ela permaneceu imóvel por alguns segundos, perdida no vislumbre da margem vazia diante dela.
Sempre havia sido sobre aquele lugar, e era ali que terminaria.
Caminhou lentamente pela trilha, com os galhos úmidos a estalar sob seus pés. O frio da madrugada atravessava o moletom fino, porém mal percebia. Na verdade, sequer havia se dado conta do horário o qual havia saído.
Seu corpo parecia distante agora. Leve. Como se algo dentro dela tivesse finalmente parado de tentar resistir.
Seu olhar ainda estava perdido quando chegou ao cais, então ela parou.
O barco ainda balançava preso à madeira, pequeno, abandonado e fantasmagórico sob a luz fraca da lua.
engoliu em seco, mais lágrimas quentes escorreram de seus olhos distantes.
Por um momento, as lembranças nítidas das duas ali voltaram, e era quase como se pudesse vivê-las novamente.
Marjorie rindo.
O som da água.
O verão perfeito ainda intacto.
Nós duas contra o mundo.
Seu peito doeu.
— Eu ouvi você, Marjorie — sussurrou, trêmula, e sua própria voz quase desapareceu no silêncio do lago.
então tirou os sapatos devagar e deu um passo à frente.
A água estava absurdamente gelada, porém nem aquilo a fez recuar.
Estremeceu quando entrou até os tornozelos, depois até os joelhos.
Sua respiração saía trêmula e descompassada, enquanto o lago subia lentamente por seu corpo.
Quanto mais avançava, mais tudo se desligava.
Pela primeira vez em semanas, não havia mais nenhuma voz.
Nenhum sussurro.
Nenhum “”.
Só o silêncio, sem dor e sem culpa.
Ela fechou os olhos e mais lágrimas quentes escorreram por seu rosto frio.
— Eu sinto muito, Marjorie.
A água chegou à sua cintura, depois ao peito.
olhou uma última vez pela superfície escura ao redor e, por um breve instante, pôde jurar ter visto Marjorie parada diante dela.
Dessa vez, no entanto, não estava molhada, ou ferida. Era apenas ela.
Apenas Marjorie.
Sua melhor amiga.
Ali. Como se a esperasse desde o início.
As duas contra o mundo outra vez.
deu mais um passo, então outro.
A água a engoliu lentamente, fria e escura, porém ela afundou sem lutar.
Os sons do mundo simplesmente desapareceram um por um, até que apenas o movimento suave da água restou.
Um sorriso se formou em seu rosto.
Finalmente, estava em paz.
Não havia vento.
Não havia chuva.
Não havia vozes.
A água escura refletia o céu noturno como um espelho belo e ao mesmo tempo sombrio demais.
Após fechar a porta do carro devagar, ela permaneceu imóvel por alguns segundos, perdida no vislumbre da margem vazia diante dela.
Sempre havia sido sobre aquele lugar, e era ali que terminaria.
Caminhou lentamente pela trilha, com os galhos úmidos a estalar sob seus pés. O frio da madrugada atravessava o moletom fino, porém mal percebia. Na verdade, sequer havia se dado conta do horário o qual havia saído.
Seu corpo parecia distante agora. Leve. Como se algo dentro dela tivesse finalmente parado de tentar resistir.
Seu olhar ainda estava perdido quando chegou ao cais, então ela parou.
O barco ainda balançava preso à madeira, pequeno, abandonado e fantasmagórico sob a luz fraca da lua.
engoliu em seco, mais lágrimas quentes escorreram de seus olhos distantes.
Por um momento, as lembranças nítidas das duas ali voltaram, e era quase como se pudesse vivê-las novamente.
Marjorie rindo.
O som da água.
O verão perfeito ainda intacto.
Nós duas contra o mundo.
Seu peito doeu.
— Eu ouvi você, Marjorie — sussurrou, trêmula, e sua própria voz quase desapareceu no silêncio do lago.
então tirou os sapatos devagar e deu um passo à frente.
A água estava absurdamente gelada, porém nem aquilo a fez recuar.
Estremeceu quando entrou até os tornozelos, depois até os joelhos.
Sua respiração saía trêmula e descompassada, enquanto o lago subia lentamente por seu corpo.
Quanto mais avançava, mais tudo se desligava.
Pela primeira vez em semanas, não havia mais nenhuma voz.
Nenhum sussurro.
Nenhum “”.
Só o silêncio, sem dor e sem culpa.
Ela fechou os olhos e mais lágrimas quentes escorreram por seu rosto frio.
— Eu sinto muito, Marjorie.
A água chegou à sua cintura, depois ao peito.
olhou uma última vez pela superfície escura ao redor e, por um breve instante, pôde jurar ter visto Marjorie parada diante dela.
Dessa vez, no entanto, não estava molhada, ou ferida. Era apenas ela.
Apenas Marjorie.
Sua melhor amiga.
Ali. Como se a esperasse desde o início.
As duas contra o mundo outra vez.
deu mais um passo, então outro.
A água a engoliu lentamente, fria e escura, porém ela afundou sem lutar.
Os sons do mundo simplesmente desapareceram um por um, até que apenas o movimento suave da água restou.
Um sorriso se formou em seu rosto.
Finalmente, estava em paz.
FIM!
Nota da autora: Juro pra vocês que não esperava que essa história fosse mexer tanto comigo, mas terminei literalmente em prantos. Espero que também toque vocês como me tocou. Ela é sobre luto, culpa e ciclos que se encerram mesmo quando a gente luta contra. Me identifiquei com ela em muitas situações que já passei.
Enfim, espero que gostem e comentem!
Beijos e até a próxima.
Ste a.k.a. Saturno.
Enfim, espero que gostem e comentem!
Beijos e até a próxima.
Ste a.k.a. Saturno.