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Autora Independente do Cosmos ✨
Concluída ✅


parte um


— Sabia que isso faz você parecer uma stalker obsessiva?
virou o rosto na direção da voz, se deparando com a expressão presunçosa e o sorriso debochado de atrás de si. Seu polegar ainda permanecia na tela do celular, o perfil aberto de Grant bem à vista e, de onde estava, ele claramente conseguia ver o que ela estava fazendo.
Porra, quanto tempo ele estava ali? Para não ter percebido a presença irritante dele, devia mesmo estar muito alheia, perdida na distração de olhar um perfil que não deveria. Ela crispou os lábios, o nariz dilatado de irritação.
— Eu só estava olhando — ela se defendeu, sem entender, na verdade, porque estava fazendo isso.
Não devia nenhum tipo de explicação para . Ele não tinha nada que estar se intrometendo na sua vida daquela forma, mas era impressionante como ele sempre dava um jeito de perturbá-la com o que quer que fosse.
— Eu vi você atualizando a tela pelo menos umas três vezes — retrucou, bebendo um gole do seu chá gelado, uma coisa que meio que a irritava, porque sério, não era nem mesmo o horário de almoço e esse cara se entupia de chá a cada duas horas. — Isso configura o quê? Uma obsessão esperançosa de que ele tenha postado algum story desde a última vez que você checou há dois minutos?
se recusava a deixar as bochechas esquentarem com o fato de que se sentia patética. Ser flagrada por ele stalkeando Grant beirava um pouco à humilhação. E a expressão divertida em seu rosto não ajudava em nada, principalmente quando sua covinha estava à mostra daquele jeito com o seu sorriso.
Ela deslizou o polegar da tela e apertou um botão, bloqueando tudo.
— Não é da sua conta — replicou, a voz baixa, se contendo. Olhou ao redor, notando o escritório particularmente vazio. — Você não tem mais o que fazer não?
fingiu pensar.
— Nada tão divertido quanto conversar com você — respondeu, por fim.
balançou a cabeça, se encostando contra a cadeira giratória, a tela do computador piscando em algum e-mail aberto. Deveria estar trabalhando. Não no Instagram, procurando ver se aquele idiota do Grant postou alguma coisa sobre o evento de ontem, tentando flagrá-lo em alguma mentira, porque já era a terceira vez na semana que ele dizia estar ocupado demais para sair com ela.
Ficava pior quando ela lembrava que eles não eram exatamente… alguma coisa. Grant sempre deixou claro que não gostava de rotular as coisas e, no início, ela nem ligava. Tudo era divertido, os encontros, os beijos, o sexo, até ele começar a passar alguns dias sumido e voltar como se nada tivesse acontecido. Se ela ligava, não podia contar que ele fosse atender o telefone e os encontros foram ficando cada vez menos frequentes, as mensagens quase esquecidas no chat do WhatsApp, e quando se viam, esquecia tudo, porque ele fazia parecer exatamente como o início.
— Isso não é uma conversa — ela retrucou, bufando, sem olhar para ele. — Cai fora, .
O som da risada dele preencheu aquele pequeno espaço que os envolvia e ela sabia que ele tinha se afastado, mesmo sem precisar olhar, pois estava alerta, ao contrário de antes. encarou o celular em cima da sua mesinha, ao lado do teclado do computador, a tela apagada, um aparelho minúsculo que tinha o miserável poder de aproximá-la de um imbecil. A ansiedade de alguma coisa se revirava dentro dela e, soltando mais um suspiro, decidida a voltar ao trabalho, foi impedida de dar início ao seu novo plano por outra voz conhecida.
? Pode vir até aqui, por favor? — Jorge, seu chefe, chamou. Ele estava parado na porta da sua sala, olhando para ela, mas logo desviou o olhar. — , você também.
franziu o cenho.
Quase nunca era chamada para a sala de seu chefe e, definitivamente, nunca era chamada para a sala de seu chefe junto com . Quer dizer, todo mundo ali sabia que eles sempre se bicavam, não importava o que fosse, as farpas estavam sempre voando de todo lado. Era aconselhável para qualquer um que não deveriam colocá-los juntos em um projeto, em uma mesa de jantar ou em um tribunal. Tipo, nunca.
Ninguém entendia se eles se odiavam de verdade.
Talvez fosse algum tipo de fachada, brincadeira ou porque era divertido irritar um ao outro. com certeza gostava de irritar . Tornava o seu dia até mais feliz se conseguisse duas coisas: deixar as bochechas dela vermelhas de irritação ou ver seus lábios se curvarem em um sorriso — fosse irônico ou não.
levantou da cadeira quando assistiu passar por ela de novo, agora sem a caneca de chá, indo em direção a sala de Jorge. Ela tentou não pensar muito no que aquilo significava, mas não podia ser demissão. Jorge não a demitiria na frente de ou junto com ele, não faria o menor sentido. Embora a desagradasse admitir, era um dos melhores advogados com quem já trabalhara. Não que ela não fosse tão boa quanto, mas reconhecia competência quando a via.
Ela andou logo atrás dele e, quando entrou na sala e Jorge instruiu que os dois se sentassem, eles obedeceram em silêncio.
— Obrigado por virem — Jorge iniciou, do outro lado da mesa. — Como sabem, estamos em processo de conseguir fechar um contrato com um grande cliente que causaria boa impressão e publicidade para nosso escritório. Ao que tudo indica, as coisas estão caminhando bem.
Os dois permaneceram em silêncio, esperando. tinha a leve impressão que não ia gostar nenhum pouco do que estava por vir, mas, mesmo assim, não disse nada ainda.
— No entanto — Jorge continuou, ajustando os óculos em cima do nariz, mantendo os olhos na dupla de advogados na sua frente —, o departamento jurídico deles é extremamente meticuloso. Exigiram uma auditoria completa em todos os nossos processos ativos antes de assinarem na sexta-feira.
reagiu com um balançar de cabeça quase imperceptível.
— Deixa eu adivinhar — iniciou. — Você quer que a gente revise três anos de arquivos em três dias?
— Eu não pediria isso se não fosse urgente — o mais velho reforçou, deixando claro a importância. — E como vocês dois são nossos melhores talentos em litígio, quero que trabalhem juntos nessa pequena força-tarefa.
O silêncio se instalou por um instante. sentiu o olhar de queimar em sua direção, mas ela estava ocupada demais com sua mente traindo a sua ética profissional por um segundo: sexta-feira. Grant tinha prometido, ou o mais perto do que seria uma promessa, que estaria na cidade na quinta à noite. Se ela ficasse presa no escritório com , não conseguiria ir vê-lo.
Ela, que até então estava quieta, se posicionou.
— Jorge, são mais de cem processos pra revisar — argumentou; embora realmente fosse boa na tarefa que estava sendo proposta, era um tempo curto para conseguir realizar com tanta maestria. não gostava de trabalho apressado e mal feito. — Fora que nossas agendas já estão…
— As agendas de vocês acabaram de ser limpas — seu chefe interrompeu sutilmente. — Eu prometo que serão recompensados. Não daria tanto trabalho por mero capricho.
engoliu a seco. Em silêncio, pareceu aceitar a batalha perdida que não lutou para ganhar.
Jorge entendeu aquilo como um sinal e abriu um sorriso sutil.
— Usem a sala de conferência dos fundos — ele instruiu. — Peçam a comida que quiserem por conta do escritório. Só me tragam essa auditoria pronta até sexta-feira de manhã.
Se sentindo derrotada, não restou outra opção para a não ser aceitar. Ela escondeu a sua frustração, saindo primeiro que , que a alcançou logo depois. A advogada esfregou o rosto com as duas mãos, olhando ao seu redor, parada um pouco distante da sala que tinha acabado de sair.
— Vamos, não vai ser tão ruim ficar presa comigo — brincou, parando ao lado dela. — Eu prometo que eu sou uma companhia…
— Desagradável — ela completou, sem dar a chance dele terminar a frase. — Eu já tirei a prova disso, convivo com você cinco dias por semana, lembra?
Ele deu de ombros, sustentando o olhar dela.
— Mas nunca ficamos sozinhos por tanto tempo — pontuou, como se fosse uma coisa positiva.
quase riu, desacreditada.
Não bastava perder três preciosos dias presa em uma auditoria chata sobre processos ativos, ainda teria que aguentar a presença dele. Sinceramente, não sabia o que era pior. Talvez fosse uma boa ideia engolir aqueles dois comprimidos de aspirinas até para conseguir evitar a onda de dor de cabeça que estava chegando.
— Tire esse sorriso idiota do rosto — reclamou, incomodada com a sua covinha aparecendo de novo. — Não vai ser um trabalho divertido.
Ele abriu a boca para responder algo, mas ela não deixou.
— Vou terminar de protocolar um processo e te encontro depois do almoço — avisou, sem esperar resposta. — Contra a minha vontade, só pra deixar isso claro.
apenas deu as costas para o seu irritante e bonito colega de trabalho, caminhando de volta até a sua mesa, os olhos de acompanhando-a o tempo todo, mantendo aquele sorriso no rosto, que ela não estava mais vendo. admitia que realmente o trabalho não seria divertido, mas não se importava. Só se importava mais com o fato de que estaria na presença dela.
Ele seguiu o próprio caminho para sua mesa, só para verificar o que tinha para deixar pendente até sexta-feira. Mesmo que Jorge tenha dito que sua agenda estava livre, nem tudo poderia ser deixado para depois; ainda odiava acumular trabalho. Por outro lado, sentou-se sobre sua cadeira novamente, acendendo a tela do computador à sua frente. O celular ainda estava ali, de lado, sem emitir nenhum som de notificação e, antes mesmo que ela cedesse à vontade de bater na tela e verificar, Carol apareceu ao seu lado.
— Consegui dois ingressos para o jogo de amanhã — ela disse, com um sorriso empolgante no rosto, exibindo os dois ingressos na mão.
digitou seu login e senha para acessar o sistema do escritório e finalmente protocolar aquele bendito processo, a única tarefa do dia que estava impedindo-a de ir imediatamente para a sala de conferências dos fundos.
— Você vai ter que encontrar outra pessoa para te acompanhar — avisou, sem tirar os olhos da tela do computador. — O Jorge acabou de pedir uma auditoria completa e urgente dos nossos casos ativos dos últimos três anos. E precisa disso até sexta-feira.
Carol murchou, abaixando a mão que exibia os ingressos.
— Qual a necessidade dessa auditoria?
— Exigência do novo cliente — explicou. — Essa não é a pior parte. Ele me colocou para fazer essa tarefa com o .
Carol voltou a abrir um sorriso assim que girou a cadeira e se virou para ela, encarando a amiga.
— Fala sério, . — Riu. — Essa é a pior parte? Não revisar mais de não sei quantos processos ativos?
levantou um dedo em riste.
— Só porque ele é bonito não significa que seja menos irritante — argumentou.
Carol se encostou contra a mesa dela, guardando os ingressos no bolso de trás de sua calça.
— Ao menos você admite que ele é bonito — disse, olhando para do outro lado, alheio a conversa das duas. — Sabia que Amber tentou chamá-lo para sair, mas ele gentilmente recusou?
Carol sempre trazia alguma fofoca conosco. Ela fazia questão de estar sempre a par de tudo o que acontecia no escritório e também fazia questão de contar tudo para . Não só isso, ela também dava um jeito de estar a par das fofocas de outros escritórios do prédio, pois ela tinha uma facilidade absurda de fazer amizade com qualquer pessoa e puxar assunto com qualquer um devido à sua personalidade extrovertida.
— Não vejo como isso é da minha conta — respondeu, cruzando os braços.
Amber era uma das advogadas que fazia parte da equipe, responsável quase sempre pelos casos envolvendo famílias. Ela era alta, os lábios estavam sempre pintados de um tom de rosa nude e nunca soltava o cabelo, deixando-o amarrado em um rabo de cavalo alto. Era bonita e solteira. E aparentemente bastante interessada em , mas isso já tinha percebido, tendo observado a interação dos dois e em como ela sempre ria de modo exagerado.
nem era tão engraçado assim.
— Seria da sua conta se você acreditasse na minha teoria — Carol murmurou, convencida.
revirou os olhos e descruzou os braços, decidindo voltar para a tela do computador brilhando no seu campo de visão. A teoria de Carol era ridícula, mas ela insistia que estava certa e, pior, fazia sentido.
— Lá vem você de novo com essa história…
Seus dedos se perderam no teclado, buscando os relatórios do processo em uma pasta dentro do sistema.
— Você tá tão cega com essa obsessão pelo Grant que não quer acreditar no que eu tô te dizendo! — Carol reclamou, defendendo sua teoria com muito afinco. — Quando foi a última vez que ele te mandou uma mensagem?
mordeu o lábio, sem querer encarar a amiga, e sem querer responder. Carol nem precisava de uma resposta verbal, o silêncio da outra já era um indicativo de qual era a resposta para sua pergunta. Foi a vez dela revirar os olhos.
— Você nem tá apaixonada por ele — disse Carol, continuando. — É só que ele sabe como te manter no limbo. E sempre funciona, não é?
gemeu com a verdade, abaixando o rosto contra o teclado do computador. Carol sempre era sincera naquele nível e a advogada sabia que a amiga estava certa, mas sempre era mais fácil falar do que fazer. Não sabia como parar de confundir as coisas, nunca teve muitas referências sobre relacionamentos, era provável que colecionasse homens com atitudes babacas e, naquele momento, Grant estava no topo dele.
— Ele disse que ia vir na quinta-feira — murmurou, ainda com a cabeça baixa, mas Carol entendeu. — Mas não posso ir, porque vou estar presa com o .
Carol jogou as mãos para cima.
— Graças a Deus por isso — murmurou de volta. — Não sabe como estou torcendo que você deixe esse paspalho no lugar dele. Tem caras decentes por aí ainda, sabia?
soltou uma risada abafada e levantou o rosto, encarando Carol.
— É? Me aponta um, porque não conheço ninguém.
A loira balançou a cabeça, abriu um sorriso que meio beirava ao deboche, meio era irônico. Sua única resposta para foi apenas olhar na direção de . Carol deu uma tapinha em seu ombro, sabendo que ela tinha entendendo a mensagem, mas ia fingir que não, então só disse:
— Vou levar a Kim para o jogo, ela gosta de beisebol.
E deixou ali, encarando um totalmente alheio a tudo, batendo a cabeça contra o teclado novamente enquanto soltava um grunhido baixo de frustração.

parte dois


fechou a porta da sala de conferências com um clique quase pesado, isolando-os do resto do escritório. já estava ali, as mangas longas da camisa arregaçadas até o meio do seu braço, em pé do outro lado da sala, três caixas em cima da mesa e o seu notebook aberto. Ela se aproximou em silêncio, só sendo possível ouvir o som do zumbido do velho ar-condicionado, e jogou a pasta com os contratos recentes sobre a mesa, o que chamou a atenção dele, que levantou os olhos na direção dela.
Foi bem a tempo dele ver ela checando, em um movimento quase automático, a tela do celular pelo que parecia ser a décima vez em menos de uma hora. As palavras de Carol estavam na cabeça dela desde que foram ditas, mas ainda não conseguia se afastar daquilo.
Nenhuma notificação.
— Você vai acabar desgastando o vidro do seu celular se continuar fazendo isso. — A voz dele preencheu o ambiente e, quando ela levantou o rosto, se deparou com o meio sorriso provocativo dele.
Aquela covinha de novo não…
Mantendo o contato visual, não disse uma palavra. Ela apenas puxou a cadeira, sentou-se e guardou o celular, esticando as pernas contra a mesa, se apoiando ali. Seu notebook já estava ali, no canto da mesa, onde tinha deixado mais cedo. Ela reparou que, além das mangas arregaçadas, ele estava com o nó da gravata bem frouxo, estranhamento estando muito à vontade ali.
— Não sei do que você tá falando — disse, a voz contida de uma calma que não sentia.
balançou a cabeça, o canto de sua boca se erguendo em um sorriso.
— Claro que não sabe — retrucou, com humor, andando até a máquina de café que ainda existia no canto da sala. — Você passa a maior parte do tempo aqui dentro fingindo estar ocupada demais, mas também sei que seu cérebro está dividindo a atenção para outro lugar. Lugar esse onde alguém, muito provavelmente com menos capacidade de interpretação de texto que você, ainda não te respondeu e nem mandou uma mensagem básica.
Claro, conheceu o Grant uma vez. Foi um encontro bem rápido, mas ela sempre achou que Grant, ainda assim, conseguiu deixar suas próprias impressões, e não foram nada boas.
sentiu o sangue subir pelo pescoço, o calor das bochechas denunciando a sua irritação, algo que sempre era objetivo do advogado. Era impressionante como ela sempre caía em todas as provocações dele.
— Por que você não cuida da sua vida? — ela rebateu, fechando a cara.
Pegou o próprio notebook, colocou-o no colo e entrou com seu login e senha no sistema para começar a puxar os processos ativos dos últimos três anos que o escritório vinha trabalhando.
— Só acho curioso — ele disse, se defendendo, a voz preenchendo os ouvidos dela, que tinha a esperança de tê-lo calando a boca. — Você é uma advogada brilhante e inteligente. Me pergunto o que você ganha com um cara desse.
queria bater a cabeça de novo.
Pensou que a melhor resposta fosse o silêncio e, por ora, até aceitou. Parecia que as pessoas ao seu redor sabiam de algo que ela ainda não tinha descoberto e entraram em uma missão conjunta de fazê-la entender. Abrir os olhos. Carol e estavam batendo uma tecla que provocava um imenso desconforto em , porque a fazia começar a pensar e questionar um pouco as coisas, algo que ela sempre evitava fazer se tratando de Grant.
Era visível que algo a incomodava, claro; esse sentimento começou a aparecer quando Grant decidiu que o melhor jogo de flerte era a sua ausência, tentando mantê-la por perto e interessada para os seus próprios interesses. Tudo ficava bem quando ele estava por perto, o problema era sempre o depois. se perguntou, uma vez, se era assim mesmo que as coisas funcionavam. Se podia aceitar as idas e vindas dele quando bem entendesse.
Mas isso era um problema.
Detestava ficar esperando por uma mísera mensagem ou ficar extremamente ansiosa quando ele avisava que iria vê-la. Ele nunca perguntava muita coisa sobre ela, as mensagens eram sempre curtas, corridas, sem emoção. Talvez ela soubesse qual a cor ou bebida favorita dele, porque observou, mas não teria a mesma reciprocidade.
Pelas próximas horas seguintes, ele a deixou em paz e conseguiu se concentrar no trabalho. Sua mente se perdeu entre páginas e mais páginas de cláusulas, contratos e autos, o som dos teclados preenchendo o ambiente. Em algum momento do dia, tirou as pernas da mesa, colocou o notebook em cima e continuou trabalhando dali, mas acabou cochilando em cima do teclado do notebook, ao lado da pasta que tinha deixado ali em cima.
Não tinha ideia de que horas eram.
A sala não tinha janelas e ela nem sequer mexeu no celular. Quando percebeu que ela tinha caído no sono — muito provavelmente sem querer —, ele não a acordou. Muito pelo contrário, ele deixou que ela descansasse um pouco e saiu por quase 1 hora e, quando voltou, ela ainda estava dormindo. Ele deixou a sacola em cima da mesa, um pouco afastada dela, e voltou a se sentar no seu lugar de antes, continuando de onde tinha parado em seu notebook.
acordou alguns minutos depois.
Primeiro, um pouco desnorteada, ela demorou a entender onde estava, até se lembrar aos poucos, parando os olhos em , que tinha pequenas rugas de concentração na testa, a tela fixa em seu monitor. Ela esfregou a têmpora, girando o pescoço para afastar o desconforto e sentiu um cheiro familiar. Foi quando , ainda sem tirar os olhos do monitor, apenas esticou um braço e empurrou a sacola de comida até ela.
— Hambúrguer, batata frita e uma garrafa de água mineral — ele disse, indicando que era para ela.
encarou a pequena sacola de comida, tudo o que saiu da sua boca foi:
— Não tinha refrigerante?
— Você não toma refrigerante.
— Como você…? — ela tentou perguntar, confusa.
Foi quando ele finalmente tirou os olhos do monitor e encarou ela, a expressão suave.
— Eu convivo com você cinco dias por semana, lembra?
pegou a sacola e conferiu o conteúdo, o cheiro fazendo sua barriga embrulhar, confirmando que ela realmente estava com fome. Não tinha feito uma refeição decente no horário de almoço, então aceitou de bom grado aquela comida, tirando o hambúrguer de dentro da sacola.
— E depois você me acusa de ser uma stalker — ela murmurou, dando uma mordida no hambúrguer em seguida.
Ele riu. Um som melódico, suave, gostoso de ouvir.
— Vamos, , existe uma diferença entre ser stalker e ser observador. Tô ficando preocupado com a sua distorção das coisas.
Sem conseguir pensar em um argumento decente para derrubar o dele, ela se calou e encarou o lanche, o cheiro da batata chegando até o seu estômago, que roncou. Então pegou um pouco e começou a comer, o som dos dedos dele contra o teclado sendo o único som ambiente. Ele estava concentrado na sua própria tela e em seu próprio lanche, mas em sua cabeça passava alguns pensamentos.
O lanche estava delicioso, aplacando a fome dela, não tinha do que reclamar.
Mas tinha que admitir que aquilo foi uma dose de atenção que não esperava receber de . Começava, contra sua própria vontade, a se perguntar se Carol não estava certa. Se a teoria da outra era mesmo viável e não ridícula e impossível, como tinha reclamado que era.
Beleza, não beber refrigerante não era a coisa mais incomum do mundo, disso ela tinha certeza e qualquer um sabia daquele fato, mas não tinha dito sobre sua preferência particular para ninguém. teria que ter observado-a em todos os buffets, almoços e confraternizações que tiveram até ali para pescar aquilo.
Ela mordeu mais um pedaço do hambúrguer e gemeu, sem perceber, frustrada. Não podia mesmo estar dando tanta importância para aquele detalhe. É só que parecia pesar um pouco naquele instante, considerando que estava esperando mensagem de uma pessoa que sequer prestava atenção nela e sempre comprava Coca-Cola, sem perceber, nenhuma vez sequer, que ela nunca tomava um gole do copo cheio.
— Tá tão bom assim? — provocou, sem tirar os olhos do monitor, mas quando levantou o rosto e o encarou, aquele sorriso dele estava decorando os seus lábios, esticando um pouco as bochechas.
— Talvez eu só esteja surpresa que não tá envenenado — ela respondeu, com um tom amargo de humor.
— Veneno, não, mas um laxante até que foi uma possibilidade possível — ele brincou de volta.
riu e jogou uma batatinha contra ele. Sem se abalar, ele pegou a batatinha que caiu em seu colo e levou até a boca, mastigando.
— Desculpa ter dormido.
Ele finalmente tirou os olhos da tela por um instante e a olhou, os braços descansando perto do teclado do notebook aberto. Não parecia cansado; ela não sabia sequer que horas eram, nem por quanto tempo tinha se permitido cochilar, desejando o conforto da sua cama. Ao invés disso, estava ali, fazendo algo que era mais do que sua simples função.
— Sem problemas — ele respondeu. — Parecia que você tava precisando disso.
não era conhecida por ter as melhores noites de sono. Se ela conseguia dormir por 4 horinhas, já era muito. O resultado disso era sempre os cochilos em horários impróprios. Considerou, uma vez, apelar para os remédios, mas quando pensou na possibilidade de ficar dependente disso, desistiu. Os meios naturais também não faziam muito efeito. Talvez a terapia conseguisse explicar o seu fenômeno particular, mas no momento, ela só se acostumou com as necessidades incomuns do próprio corpo.
Sem querer responder àquilo diretamente, ela continuou comendo e apontou com um aceno de cabeça para o notebook dele, mudando de assunto:
— O quanto você já avançou?
voltou a atenção imediatamente para o monitor.
— Bom, fiquei entediado quando você dormiu, então avancei um pouco mais do que o suficiente pra hoje, eu acho — ele respondeu com uma careta, como se tivesse incerto da própria resposta.
respondeu de volta apenas com um murmúrio, pegando o seu notebook de volta para o colo, deixando o restante do lanche em cima da mesa. Ela abriu a própria pasta de arquivos, compartilhadas com , e organizou o que já estava mexendo antes. O silêncio recaiu entre os dois, sem incomodar nenhum. O prazo estava realmente curto para perderem mais tempo, então focaram em agilizar um pouco mais a análise. tentou compensar, sentindo-se um pouco culpada por ter dormido e deixado-o fazer o trabalho sozinho.
Os únicos sons que conseguiam ouvir eram a respiração suave um do outro e o barulho dos dedos contra os teclados.
— Esse caso é do Carter? — quebrou o silêncio, selecionando o arquivo para que pudesse ver em sua própria tela. — Achei que estavam perto de fechar um acordo. Ou tô errada?
parou de digitar, focando em prestar atenção no arquivo que ela estava destacando. Ele abriu apenas para conferir o que ela estava questionando.
— É dele, sim — afirmou. — Ele disse, inclusive, que o aperto de mão final é amanhã, por quê? Alguma coisa errada sobre o valor da indenização?
— Não, o problema não é o valor — murmurou, rolando a tela, a expressão focada. Ela destacou uma linha específica para que notasse o seu raciocínio. — O problema está na redação dessa cláusula de propriedade intelectual. Se o cliente assinar isso aqui para encerrar o caso amanhã, ele vai perder o direito de licenciamento das patentes no exterior — ela explicou o erro que tinha encontrado. Parecia algo pequeno no meio de tanto parágrafo jurídico e tantas páginas intermináveis. — Carter deixou passar um erro de concordância que muda o sentido do parágrafo inteiro.
O silêncio reinou por mais um instante, mas era diferente dessa vez. Ela levantou os olhos, observando checar o que tinha acabado de informar, os olhos dele se estreitando enquanto lia a linha do parágrafo selecionado com mais atenção. Ela quase podia ver a tensão transformando a sua expressão suave.
— Merda, o erro também é meu — ele admitiu, passando a mão pelos fios do cabelo. — Revisei com ele semana passada e não vi isso.
Aproveitando a oportunidade de alfinetá-lo, arqueou uma sobrancelha.
— Tá me dizendo que eu acabei de salvar o seu traseiro?
soltou um suspiro.
— O meu e o do escritório inteiro — respondeu. — Se o Jorge souber disso…
se adiantou.
— Ele não vai saber — garantiu, começando a digitar no documento. — Vou corrigir agora mesmo. Mas talvez você devesse dar um toque depois ao Carter sobre isso. Um erro como esse pode parecer pequeno, mas dá uma dor de cabeça tão grande depois.
assentiu. Ele continuou olhando para ela, estreitando os olhos.
— Você é meio assustadora quando está focada — confessou logo depois.
Ela deu de ombros.
— Nada como um cochilo revigorante para melhorar um pouco seu foco.
Ele soltou uma risada baixa, balançando a cabeça, e voltou ao seu trabalho.
Ainda tinha muitos arquivos para serem analisados, mas quando ele conferiu a barra de horário no canto da tela do seu notebook, constatou que já estava muito tarde e seus músculos começavam a doer. Recostou-se contra a cadeira e soltou um suspiro, chamando a atenção da sua colega, sentada bem de frente a ele.
— Acho que deveríamos parar por hoje — sugeriu, o tom de voz denunciando o cansaço.
o encarou.
— Mas ainda falta um monte de arquivos — protestou, encarando a tela do monitor rapidamente, verificando o que tinha acabado de dizer.
Ela se sentia cansada, claro. Mas começava a pensar se realmente daria tempo de ver tudo até a manhã de sexta, considerando o que restava analisar. Não pensou que tivessem tantos casos ativos dentro de um espaço curto de tempo. Talvez aquilo dissesse muito sobre como funcionava o sistema da justiça.
— Não tenho nem mais um neurônio decente, retrucou, desligando o notebook e fechando a tela, decidido. — Teremos o dia inteiro amanhã, mais tempo do que tivemos hoje. Vai dar certo.
reconhecia quando não valia a pena argumentar. Ela precisou reconhecer que ele realmente estava cansado e visivelmente com sono, uma desvantagem que tinha sobre ela, que ainda conseguiu aproveitar um cochilo. Sentiu- se culpada por um instante, então aceitou a sugestão dele e fez o mesmo, fechando a tela do seu próprio notebook, levantando-se.
— Vou pedir um Uber — informou, alcançando o seu celular.
pareceu quase ofendido, parando de ajeitar a bagunça da mesa.
— Não seja boba, eu vou te levar.
— Não precisa, , sério. É muita contramão.
Ele cruzou os braços na altura do peito, a expressão decidida. acompanhou os movimentos e seus olhos recaíram nos bíceps dele, que pareciam durinhos e…
— São três horas da manhã, não vou deixar um estranho qualquer te deixar em casa quando eu mesmo posso fazer isso — ele retrucou e, quando ela estava prestes a abrir a boca e recusar mais uma vez, brilhando em qualquer outro tipo de argumento que provavelmente o faria desistir, completou: — Pelo amor de Deus, não seja teimosa.
Tudo o que ele recebeu em resposta foi um suspiro resignado que ele considerou como um aceite. não protestou mais. E, enquanto saíam do escritório direto para o estacionamento, ela não se deu conta de que não tinha mais pegado o celular pra verificar notificação de mensagem.
Nenhuma vez sequer.

parte três


nunca se atrasava; ela se orgulhava do fato de sempre conseguir chegar primeiro que no escritório, mas naquele dia, foi diferente. Quando a advogada chegou, o cabelo preso em um rabo de cavalo e uma maquiagem básica denunciando a sua pouca vontade de ter qualquer disposição naquele dia, ela notou um copo de café fechado em cima da sua mesa. Um post-it pequeno de cor amarela estava colado bem em cima da tampa do copo, a mensagem desenhada resumindo-se a uma carinha sorridente, sem mais nada e, de algum jeito, ela soube quem era o autor daquele feito.
— Que cheiro de café. — A voz de Carol denunciou sua presença.
Ela parou bem ao lado de , que virou o rosto na direção dela, franzindo a testa rapidamente enquanto um dedo em riste era apontado para o copo de café em sua mesa.
— Vai ser uma pergunta meio idiota — começou —, mas isso não foi obra sua, né?
Carol cruzou os braços e balançou a cabeça, interessada.
— Definitivamente, não — respondeu, se aproximando do copo, observando o conteúdo do post-it. — É a letra do .
fez uma careta, jogando a bolsa em cima da cadeira que costumava sentar.
— É, tipo, um emoji — disse, parecendo apontar o óbvio. — Não tem como você saber, por um emoji, que foi o . Emojis não têm letras.
Sem se abalar, Carol apenas deu de ombros, sempre convicta em tudo.
— Vocês passaram metade de um dia juntos e já estão assim? — Carol provocou, virando o rosto com um sorrisinho para , abrindo o café só para sentir o cheiro do conteúdo. — Tô impressionada que ele já gravou o seu café favorito.
— Não é meu café favorito.
— Canela, leite e… — bebeu um gole de teste — pouco açúcar?
pegou o café da mão da amiga com cuidado, cheirando o líquido e bebendo um gole, duvidando da afirmação de Carol, esperando que fosse mais uma de suas provocações, mas não, ela estava certa. O café tinha canela, leite e pouco açúcar, exatamente como ela gostava. Não havia combinação melhor de café do que aquele pra ela.
— Ah, merda, como é que ele sabe disso?
A loira segurou uma risada, crispando os lábios ao observar a reação da amiga. Se fosse parar pra pensar, era até um pouco divertido o que estava acontecendo bem diante de seus olhos. Não havia qualquer outra pessoa ali que não quisesse mais que largasse o Grant do que ela.
— A gente descobre um monte sobre as pessoas só observando, sabia? — respondeu, com um tom de provocação.
a fuzilou com os olhos, e, crispando os lábios, pegou a bolsa de volta e saiu andando em direção à sala que ela e estavam dividindo para trabalhar na auditoria. Não queria pensar sobre nada daquilo, muito menos que Carol tivesse certa razão. O copo de café não representava nada além de uma gentileza por parte de , que, com certeza, não fazia muitas gentilezas daquele tipo. Ao menos, não para ela. Soltando um suspiro e abaixando os ombros, ela empurrou a porta e entrou, encontrando-o sentado na mesma cadeira de antes.
— Bom dia — ele disse primeiro.
deixou a bolsa na cadeira ao lado da que se sentou, ainda segurando o copo de café na mão.
— Bom dia — ela devolveu. — Devo supor que isso é presente seu?
Ele levantou os olhos na direção dela, com aquele sorriso charmoso de sempre, as covinhas aparecendo em suas bochechas, fazendo-a sentir o estômago afundar, uma reação exagerada só para um sorriso. Mas qualquer um que o visse sorrindo…
— Acertei nas escolhas?
umedeceu os lábios.
— Certeiro demais pra ser coincidência — respondeu.
Ela bebeu um gole do líquido, depositou o copo na mesa e tirou seu notebook da bolsa, ligando-o para começar o trabalho. só balançou a cabeça, ainda sorrindo. Ele estava prestes a dizer mais alguma coisa, quando um som de notificação do celular dela soou, atrapalhando.
pegou o celular sem hesitar, conferindo a barra de notificações. Foi sua expressão que denunciou pra que a notificação não era o que ela esperava e ele podia imaginar o quê. O sorriso sumiu do seu rosto e ele voltou a prestar atenção no que estava fazendo antes, os olhos presos na tela do monitor, disfarçando sua pequena irritação. Não que ele tivesse o direito de ficar irritado, mas odiava ver como sempre parecia esperar algo daquele idiota do Grant, que não conseguia oferecer o básico. Ainda assim, era Grant quem tinha ela, e não ele.
Isso fazia querer se encolher.
Porque ele se lembrava de quando viu pela primeira vez, atravessando a porta daquele escritório, como uma das mais novas contratadas, logo depois dele, cinco meses depois. Ela tinha um sorriso que chegava aos seus olhos, os fios do cabelo caindo em cascatas por suas costas, os lábios pintados do que parecia ser rosa ou nude. Se fosse um homem de apostar sua crença em amor à primeira vista, ele diria que foi exatamente isso que aconteceu, mas a ideia fazia parecê-lo patético, então ele se contentou com a mentira de que só a achou bonita. Mais bonita do que qualquer outra mulher que já tinha visto, mas isso era só um detalhe.
Então, um mês depois, eles viviam se implicando por todos os corredores do escritório. Começou a gravar qualquer detalhe que tivesse algo a ver com ela, exercitando sua mente com informações novas todos os dias, mas era fácil saber sobre ela e, uma vez que descobria algo novo, nunca mais esquecia, por mais que tentasse. E ele tentou mais de uma vez. Também tentou chamá-la para sair uma vez, mas achou que ele estivesse zoando, os dois bêbados, e tudo bem, o advogado admitia que não tinha sido sua melhor estratégia para chamá-la a um encontro. Mas sóbrio ele perdia a coragem.
E agora estava ali.
Com ela sentada bem à sua frente, parecendo focada e pouco relaxada, o corpo esticado contra a cadeira e as pernas apoiadas em cima da beira da mesa. Ele não tinha ideia de quanto tempo tinha se passado desde então, mas sua irritação se dissipou depois de analisar diversos outros arquivos. Considerando o vazio em sua barriga, verificou a hora e constatou que estava na hora do almoço. Quando estava cogitando pedir algo e perguntar pra o que ela queria comer, ela foi mais rápida:
— Quer sair pra almoçar?
piscou, surpreso.
Sair?
tirou as pernas em cima da mesa, colocando o notebook ao lado do copo vazio de café.
— É, tipo, abriu um restaurante novo lá embaixo, a gente podia ir lá almoçar — explicou. — Preciso sair um pouquinho daqui. Minhas costas estão me matando.
— Tinha alguma coisa errada com o café? Tô achando que te fizeram uma lavagem cerebral — ele provocou, sem perder o costume.
nunca o chamou para almoçar só os dois juntos ou algo do tipo. Ele tinha razão em estranhar.
— Você vai ou não? — ela rebateu, já levantando.
riu e, sem pensar muito, a seguiu.

— Essa foi a coisa mais idiota que eu já ouvi.
O ambiente do restaurante era agradável. Não havia muitas pessoas e os dois optaram por pegar uma mesa lá dentro, perto da janela, e também optaram por pedir a sugestão do dia, que consistia em alguma massa. Enquanto esperavam o almoço ficar pronto, pediram uma garrafa de cerveja para cada um, mesmo que ainda estivessem em horário de expediente, mas disse que aquilo era o mínimo que Jorge poderia permitir depois de jogar aquela auditoria para cima dos dois. A conversa calorosa deu início quando a TV estava ligada em um canal de futebol, os apresentadores discutindo o calendário de partidas do fim de semana, quando soltou que, apesar de curto tempo, o Real Madrid ainda iria conseguir a vantagem da tabela e roubar o primeiro lugar do Barcelona na La Liga1.
— Você não pode ser tão cega assim — retrucou depois de um gole na garrafa de cerveja, convicto da própria opinião. — A defesa do Barcelona é uma vergonha, vocês têm sempre um zagueiro expulso na partida e perderam os últimos dois jogos por besteira. Se continuar assim, nós vamos ultrapassar vocês na tabela.
encarou-o.
Seu time só ganha na base do contra-ataque e da sorte — ela frisou a indireta, retrucando de volta.
Não era nenhuma novidade as polêmicas que o time de branco estava envolvido com as arbitragens, sempre sendo favorecido nas partidas. Quando não eram, faziam questão de arrumar desculpas para encontrar um culpado por terem perdido que não fossem eles próprios.
sorriu.
— Eu não chamaria de sorte.
bufou, bebendo um gole da sua cerveja, esfregando a têmpora com uma mão.
— O clássico sempre me dá dor de cabeça — ela murmurou, desgostosa. — Seu time é insuportável.
— Sabe, fico ofendido que você só enxerga os meus defeitos — ele disse, a mão sobre o peito para encenar uma falsa ofensa, a expressão adquirindo o mesmo tom de atuação. — Eu tenho muitas qualidades, sabia?
segurou o sorriso.
— Tipo…?
Ele não conseguiu responder de imediato, sendo interrompido pela chegada do garçom com o almoço dos dois. Os advogados ficaram em silêncio enquanto eram servidos com os pedidos na mesa, o cheiro quase fazendo a barriga de roncar de fome. Quando o garçom se afastou, ele pegou os talheres, mas não começou a comer ainda.
— Tipo… — ele retomou, começando a responder à pergunta dela, disfarçada de uma provocação genuína, como se não acreditasse que ele realmente tivesse uma qualidade. — Eu sou atencioso, como você deve ter percebido pelo refrigerante e o café. Tenho uma paciência incrível para lidar com uma advogada teimosa e bonita que torce para times inferiores. E, o mais importante: eu sou ótimo em notar quando alguém está tentando fingir que não está se divertindo.
A advogada revirou os olhos, mas não conseguiu, daquela vez, evitar que o sorriso aparecesse. Cortando sua carne, disse:
— Sua modéstia é realmente sua maior virtude, .
Ela disfarçou bem.
Tinha mesmo notado que ele era atencioso com detalhes, mas não esperava que ele fosse dizer que ela era bonita. Bom, ele a chamou de teimosa e bonita, mas o primeiro adjetivo não importava muito. Ela precisava admitir para si mesma que gostava daquele clima leve e, sinceramente, era muito diferente do que ela costumava ter com Grant, quando resolvia sair com ele para algum lugar. Ele estava sempre reclamando do preço de alguma coisa, as cervejas nunca estavam do seu gosto e queria sair pouco tempo depois que chegava. A parte que mais interessava para ele era só os dois juntos em um quarto, onde o humor dele era sempre melhor que em público.
Mesmo que fosse situações diferentes, não deixou de pensar que era diferente em tudo. Se esse fosse o caso, não parecia ser o tipo de homem que ia preferir tê-la em privado e não em público. Do jeito que Carol falava, era o tipo oposto de Grant.
— Eu tento manter as coisas equilibradas — brincou, enrolando um pouco da massa do prato em seu garfo. — Mas quer saber uma qualidade que eu acho indispensável, se puder contar como uma qualidade? Não deixar uma mulher esperando por uma mensagem.
Atingida pela indireta nada sutil, comeu um pedaço da sua carne, bebendo outro gole de sua cerveja, dessa vez mais por necessidade do que por sede. Até que estava demorando para ele tocar naquele assunto, mesmo que não fosse da conta dele.
— Você não sabe simplesmente falar sobre o clima ou sobre como o escritório está um caos? — ela murmurou, tentando fugir do assunto.
Ele percebeu.
— O clima está previsível e o escritório está sempre um caos. — Deu de ombros, levando o garfo à boca. — Você gosta desse cara?
não sabia se queria mesmo ouvir a resposta, mas perguntou mesmo assim, ignorando as batidas do seu coração bem perto do seu ouvido. Sua expressão permaneceu impassível, não havia como alguém saber que, de repente, ele ficou nervoso pela própria pergunta. Ele só assistiu ficar em silêncio, a expressão reflexiva, os lábios apertados. Ela desistiu de cortar a carne no meio do caminho e olhou para ele.
— Qual o seu interesse nisso?
— Entender porque você aceita tão pouco de alguém que não parece se esforçar por você, — ele respondeu, sincero.
Não havia mais nenhum tom de brincadeira, nenhum tipo de humor, sem provocações. sentiu uma dualidade de sentimentos que não contrastavam muito bem entre si: parecia que a enxergava mais do que ela gostaria, enquanto também se sentia invisível para uma pessoa que nem estava ali.
Carol tinha feito a mesma pergunta antes e já afirmou, com uma certeza irredutível, que ela nem era apaixonada pelo Grant. E era verdade. sequer teve a oportunidade disso e talvez fosse melhor assim. Se estivesse apaixonada, a situação ia estar bem pior. Drástica.
— Não sou apaixonada por ele, mas não sei, talvez eu quisesse acreditar nisso — ela começou a dizer, baixando a própria guarda. — Ou talvez quisesse acreditar que ele diz a verdade quando diz gostar de mim.
mastigou um pedaço de carne e esperou, observando encarar o próprio prato e beber outro gole de cerveja, sua garrafa já chegando ao fim.
— Mesmo que ele diga isso, as atitudes dele não comprovam esse fato, certo? — Observou, escolhendo as palavras com cuidado. — Gostar de alguém deveria tornar as coisas fáceis, , não complicadas. Gostar de alguém é fazer questão. Olha, no nosso trabalho, a gente faz o possível e o impossível para ganhar o caso, mas mesmo com todo nosso esforço do mundo, precisamos reconhecer quando um caso é um caso perdido.
Ela soltou o talher em cima do prato e mordeu a parte interna da sua bochecha, em silêncio por um instante. Ergueu os olhos para encarar seu colega de trabalho sentado bem na sua frente, com aqueles olhos gentis e bonitos e soltou um suspiro tão baixinho que mal deu pra perceber.
— Meu pai foi ausente minha vida inteira — ela começou a falar, a honestidade saindo de si mesma sem muito esforço. Era estranho se sentir tão à vontade com daquela maneira. — Ainda quando eu era criança, minha mãe começou a se envolver com todo tipo de cara, mas era sempre o mesmo padrão. Eles apareciam e depois sumiam e minha mãe dizia a mesma coisa o tempo todo. Que os homens eram assim mesmo, que pareciam desinteressados, mas não estavam, nós é que precisávamos deixá-los ter o próprio espaço e que a ausência gerava saudade, coisa do tipo. Como se isso fosse um traço de personalidade charmosa, e não um sinal de alerta.
Ela deu uma pausa. Não que precisasse se justificar pra , mas ela sentiu vontade de desabafar sobre aquela parte da sua vida, a que a colocou em um ciclo vicioso que parecia difícil sair.
— Achei que o amor precisava ser conquistado através de paciência e muita espera — continuou, exibindo um sorriso amargo. — Talvez, se eu esperasse só o suficiente… No trabalho, eu sei que se eu me esforçar, posso vencer. Com o Grant… parece que eu ainda sou aquela garota esperando na sala de estar por alguém que prometeu me buscar às oito da manhã e só apareceu no dia seguinte, bêbado. E não tenho orgulho de admitir que Grant não é o primeiro dessa lista.
não desviou o olhar. Ele deixou até a massa em seu prato esfriar, prestando atenção nela, absorvendo cada palavra do que ela estava dizendo. Odiava que ela estivesse naquele tipo de situação, aceitando menos do que deveria e merecia.
— Você não é mais aquela garota na sala de estar, — ele disse, a mão quase se movendo sobre a mesa, parando a centímetros da dela, como se quisesse oferecer conforto, mas não soubesse como. Ou se deveria. — E, definitivamente, não é como sua mãe. Você é inteligente, brilhante e encontra erros em contratos que ninguém mais vê. Deveria saber que uma cláusula que só beneficia um dos lados não é um contrato, é uma armadilha.
— É bem mais fácil falar, na teoria — ela murmurou em resposta, embora soubesse que ele estava certo.
abriu sua palma e ofereceu sua mão mais abertamente. encarou a mão dele estendida em sua direção em cima da mesa e, sem pensar, se viu aceitando o conforto dele quando encaixou sua mão na palma dele, entrelaçando os seus dedos. Ela não soube descrever a sensação que a consumiu, mas era tudo tão… diferente.
— Eu sei que é — ele concordou, sincero. — Mas o primeiro passo sempre é dado de algum lugar se você quiser mudar.

parte quatro


ainda sentia o fantasma do toque da mão de na sua, seus dedos formigando como se estivesse sentindo falta do calor.
Ela se repreendeu por estar pensando naquilo, mas mesmo quando voltaram do almoço e passaram as horas seguintes focados cada um em seu próprio trabalho, ela não deixou de pensar sequer um minuto sobre o que conversaram. Sobre como ele parecia entendê-la, enxergar algo que ela não imaginava que desse para alguém enxergar a olho nu, mesmo se prestasse atenção demais nela. Como ele tinha aquele cuidado genuíno, a gentileza sempre presente em suas írises.
Era possível que estivesse tão cega por uma situação fadada ao fracasso com o Grant que parou de enxergar o potencial das coisas ao seu redor? Desde que se lembrava, quando começou a trabalhar naquele escritório, estava sempre ali. Fosse implicando com ela, um comentário sarcástico sempre pronta na ponta da língua ou em salas de reuniões, discutindo argumentos com ela.
O celular, bem ao seu lado, vibrou com uma notificação. Seus olhos ardiam por estar tanto tempo na frente do monitor do notebook e esticou seu pescoço, tentando relaxar os seus músculos. Quando a segunda notificação ecoou, ela pegou o celular e verificou; daquela vez, não era mais a mensagem de Grant que ela esperava, talvez pensasse ser apenas uma notificação de curtida no story do seu perfil no Instagram, mas, ironicamente, porque não estava esperando mais, era uma mensagem do Grant.

Grant às 11:01pm:
oi
tá acordada?
queria te ver

Era o que ela conseguia ler pela barra de notificações. tentou fingir que não estava prestando atenção nos movimentos dela, mas estava alheia a ele. Deslizou o dedo pela tela, desbloqueando, e clicou na mensagem. Tinha esperado tanto tempo por aquela mensagem que agora não tinha mais importância nenhuma. Então só respondeu:

às 11:03pm:
tô acordada
mas não dá pra gente se ver
presa no trabalho 🙂


Sem esperar resposta, ela bloqueou a tela de volta e deixou o celular no mesmo lugar de antes. pigarreou, disfarçando; depois daquele almoço, disse a si mesmo que não se meteria mais no rolo dela com aquele idiota e muito menos faria piada ou implicaria. era adulta o suficiente e, por mais que ele também odiasse a situação, não era da conta dele.
— O Jorge mandou um e-mail pedindo que a gente desse uma olhada no contrato que vai ser assinado amanhã — ele avisou.
ergueu o rosto e tirou o notebook do seu colo, colocando-o em cima da mesa.
— Tá, cadê? — Ela levantou, girando a mesa e parando ao lado dele, ficando de pé, os olhos no monitor do computador dele.
se desconcentrou por um instante com ela tão perto, mas logo se recompôs, como se não tivesse sentindo o cheiro do perfume dela. Clicou para abrir a mensagem do e-mail de novo e deixou que ela lesse o conteúdo, mas precisou aproximar o rosto ainda mais perto da tela para conseguir ler, sem perceber que seu rosto estava muito próximo do de , que ficou em silêncio.
— Abre o anexo — ela pediu.
obedeceu, clicando no anexo, que encheu a sua tela.
ficou alguns minutos analisando rapidamente, sua mão tomando conta do mouse sem fio dele, deslizando as páginas como bem entendesse. Ela ignorou o som de notificação vindo do celular, provavelmente pensando que deveria tê-lo deixado no silencioso. Daquela posição, sentia o perfume mais forte.
— É, parece tá tudo ok — murmurou, tirando a mão do mouse e subindo para a primeira página. — A gente pode…
Foi um erro ter virado o rosto na direção dele.
Os narizes estavam quase se tocando e ela arquejou ao se dar conta da proximidade perigosa, fingindo não ter notado que os olhos dele caíram direto para a sua boca, um frio na barriga surgindo só com a mera possibilidade…
Ela se assustou com o toque do celular, o corpo dando um pulo para trás. Xingou-se mentalmente e desviou os olhos de , voltando para o seu lugar, fingindo que nada tinha acontecido. Na verdade, não tinha mesmo. Foi só um clima esquisito ou coisa assim. Não precisava pensar muito nisso, não ia acontecer nada.
Pegou o celular e viu o nome de Grant brilhar na tela em uma ligação, mas antes que pensasse se valia a pena atender, a ligação caiu e ela abriu a mensagem dele.

Grant às 11:25pm:
tô aqui embaixo
pode descer?

Aqui embaixo?
leu de novo, só pra ter certeza de que não estava lendo errado. As letras estavam na ordem certa, formando mesmo aquelas palavras. Ela trincou os dentes e, sem avisar nada, saiu da sala com passos firmes, bufando. Que tipo de ideia idiota ele teve para pensar em aparecer na frente do seu local de trabalho, tão tarde da noite? Ela disse que estava ocupada, trabalhando. Entrou no elevador e apertou o botão do térreo.
Quando chegou, ele estava lá, na portaria da recepção.
— Oi — ele foi o primeiro a falar, abrindo um sorriso na direção dela.
engoliu a seco. Olhou bem pra ele, tentando ver se algo estava diferente, mas Grant ainda era o mesmo, ainda com aquele corte de cabelo cheio de pontas duplas que ele não fazia questão de cuidar. O sorriso ainda era o mesmo, mas percebeu que não tinha nada diferente com ele, mas talvez com ela, ao perceber a ausência daquele frio na barriga idiota que sempre parecia um pouco com ansiedade.
— Oi, Grant. — Forçou um sorriso, segurando o celular com força na mão esquerda. — O que tá fazendo aqui?
— Eu queria te ver — respondeu, direto, sem enrolação nenhuma, e ela já sabia o que aquilo significava. Ele coçou a nuca. — Vai demorar muito para sair daqui?
As vozes de Carol e preencheram os pensamentos de , um conselho atrás do outro. Ela pensou sobre Carol afirmar que não gostava dele, que ele só sabia como manter ela no limbo e usar quando precisasse; pensou em dizendo que um caso perdido era um caso perdido e não tinha muito o que fazer, mas, aquele caso em específico, ela ainda tinha a carta na manga.
Talvez estivesse na hora de quebrar mais aquele ciclo, de deixar os aprendizados errôneos de sua mãe pra trás.
— Tô no meio de uma auditoria urgente, vai levar a noite toda — foi tudo o que respondeu.
— Não dá pra deixar pra fazer depois?
— Qual parte do “urgente” você não entendeu, Grant?
A expressão dele vacilou e os ombros caíram. O braço se esticou, entregando uma sacola pequena.
— Eu trouxe seu suéter de volta — ele entregou.
piscou os olhos, mas aceitou a sacola pequena e murmurou um agradecimento, mesmo sem saber direito o porquê.
— Desculpa não ter respondido antes, minha avó ficou doente e…
Ela já ouviu aquela desculpa antes. Era conveniente o quanto a avó dele estava doente o tempo todo, mas não se importou mais. Terminar aquilo não seria tão difícil quanto ela imaginou que seria.
— Tenho que voltar ao trabalho — ela disse, apontando com um polegar para o caminho bem atrás dela. — Eu te mando uma mensagem depois.
Sem esperar resposta, ela virou as costas e pegou o mesmo elevador de antes. Sua curiosidade lhe permitiu abrir a sacola e pegar o suéter que estava ali dentro, soltando uma risada sem humor ao balançar a cabeça. Seja lá de quem fosse aquele suéter, definitivamente não era dela. Jogando o pano de volta dentro da sacola, ela saiu do elevador e jogou a sacola no primeiro lixo que encontrou, sem fazer questão de devolver ou de avisar a ele que aquilo pertencia a outra pessoa.
Provavelmente outra otária caindo na lábia dele, como ela tinha caído primeiro.
Exausta, ela adentrou a sala de novo. O clima de antes com dissipou do local, mas não de sua mente. Com o celular ainda em mãos, ela desbloqueou a tela e nunca mais mandou mensagem pra Grant em lugar nenhum.
Porque bloqueou ele de tudo.

parte cinco


Quando voltou para sala depois de ter dado uma saída que durou menos de dez minutos, percebeu uma mudança sutil nela. Reparou que, pelas próximas horas seguintes, ela não olhou mais o celular, não parecia nem querer fazer isso, como se aquela ansiedade tivesse sido cortada de uma vez e, mesmo prometendo não se meter mais, não se aguentou; fez uma piada qualquer que o fez conseguir a informação que queria: Grant já era.
Ele quase não conseguiu esconder o seu sorriso idiota do rosto pelo resto do dia. Continuou assim mesmo quando cochilaram juntos sem querer e amanheceu naquela mesma sala, com Jorge batendo à porta, questionando se estava tudo certo. Os dois acordaram em um sobressalto, finalizaram a auditoria dentro de mais uma hora extensa e entregaram. Ao invés de irem embora, ainda estavam ali. Jorge estava na sala de reunião com o novo cliente, para realizar a assinatura do contrato.
ficou na sua mesa. ficou na copa.
A primeira mal conseguia manter os olhos abertos e Carol ainda não havia conseguido um tempo livre desde que chegara pra trabalhar naquela manhã e, como passou a madrugada toda trabalhando, considerou que Jorge não acharia ruim ela mesma se dar uma folga, afinal de contas, do jeito que estava, não focaria em nada, e ela se orgulhava de ser uma pessoa focada. O cansaço só a deixaria propensa a cometer erros. E talvez ela precisasse de um pouco de café.
Por outro lado, o segundo continuou na copa, sozinho com os próprios pensamentos, enquanto tomava coragem de… bem, não sei. Seria uma péssima ideia chamar pra sair quando ela acabou de passar por uma situação de merda com um cara daqueles? Ela daria uma chance a ele, apesar disso? Ou ia preferir um tempo, sem querer se envolver com outro cara ou algo do tipo…?
Tudo isso parecia apenas desculpas pra não seguir adiante no que queria fazer. Algo que ele queria há muito, muito tempo, mas nunca oficializava. E depois daquele pequeno clima de ontem, com ela tão perto dele… suspirou. Colocou a mão no bolso frontal da calça e tirou de lá um par de ingressos que dava acesso à uma arquibancada VIP para assistir o próximo clássico entre o Barcelona e o Real Madrid, que aconteceria no domingo. Ele conseguiu os ingressos de última hora, com um amigo que trabalhava no meio.
Ele estava no meio de outro pensamento conflitante quando a porta da copa se abriu e Carol entrou em seguida. A loira andou direto até a cafeteira e olhou para ele, um pouco desconfiada, principalmente pelo fato de que ele estava encostado contra a bancada do outro lado e não parava de balançar as pernas. Talvez fosse a privação de sono, mas ela arriscou perguntar mesmo assim:
— Tá tudo bem aí?
piscou. Ainda segurava os ingressos na mão e soltou outro suspiro, encarando Carol.
— Eu me sinto um idiota — ele respondeu, balançando a cabeça, deixando a outra sem entender nada. — Desde que eu entrei aqui, só tenho olhos para ela e, mesmo assim, nunca fiz nada. Assisti ela sair com outros caras e sempre parecia que eu não era digno de chegar a minha vez. A é inteligente, divertida e determinada. Eu esperei o momento certo e agora…
Carol tomou um gole do café, escutando o desabafo de em silêncio, até que ele se interrompeu de repente e ela assentiu devagar. Sentia-se muito bem sabendo que sua própria teoria estava certa e não via a hora de jogar isso na cara de .
— Às vezes não existe momento certo — Carol começou a dizer. — Tem gente que passa a vida inteira esperando por esse tal momento certo e nunca chega, o que só acontece é que você perdeu muito tempo pensando nisso. Algumas coisas só precisamos assumir o risco, sabe?
— Até o risco do “não”?
— O risco do sim — Carol corrigiu. — O “não” todo mundo já tem.
Ele ficou em silêncio, absorvendo. Carol continuou:
— Você tem razão, é inteligente, divertida e determinada. E faz algumas escolhas erradas para homens, mas eu te observo desde que você chegou aqui e sempre me perguntei por que você nunca a chamou pra sair. As opções mais plausíveis eram: ou você não gostava dela mesmo ou você não se envolve com colegas de trabalho — ela constatou. — Mas, porra, quem grava como ela gosta do café ou que ela não toma refrigerante? Você sabe dos restaurantes favoritos dela e sempre sugere eles quando Jorge quer levar todo mundo pra almoçar.
coçou a bochecha, sentindo-a esquentar.
— Seja lá o que estiver decidindo, é melhor ser rápido — Carol disse, abrindo a porta pra sair. — Ela acabou de ir embora, mas talvez você a alcance no estacionamento. Emprestei meu carro pra ela.
A loira piscou o olho com um sorriso e sumiu do campo de visão dele.
encarou os ingressos e, sem pensar muito, correndo o risco de desistir, saiu correndo direto para o estacionamento, ignorando qualquer um em seu caminho. Ele conseguiu alcançá-la bem a tempo dela destravar o carro. levantou o rosto na direção dele, ao som do seu nome, encontrando-o com a respiração ofegante.
— O que foi? Deu alguma coisa errada na assinatura? A gente esqueceu de alguma coisa? — ela disparou as perguntas.
parou ao lado do carro, de frente pra ela, balançando a cabeça.
— Não, nada errado.
estreitou os olhos.
— Então o que você tá fazendo aqui? — questionou, confusa. — Por que veio correndo?
— Eu…
Tentando regularizar a sua própria respiração, ele apenas exibiu os dois ingressos na direção dela. hesitou um instante e pegou, abrindo um sorriso ao constatar o que era, umedecendo os lábios.
— O que é isso? — ela perguntou, arqueando a sobrancelha, mesmo sabendo o que era.
abriu um sorriso. Ela se derreteu naquelas covinhas.
— Ingressos para o Clássico no Bernabéu, domingo — ele respondeu, mesmo que parecesse óbvio. — Pensei que seria divertido irmos juntos só para eu ver de perto o seu sofrimento quando o Real colocar o seu time no devido lugar.
Incrédula, soltou uma risada, cruzando os braços.
— Você está muito seguro de si, . O que te faz pensar que eu aceitaria ir com um madridista insuportável?
Como sempre, ele não se abalou. Nem mesmo com seu coração parecendo bater a mil por minuto.
— Que tal uma aposta? — ele propôs, ousando dar apenas um passo na direção dela, a necessidade de diminuir o espaço entre os dois até que ela pudesse sentir o calor da presença dele. A lembrança da noite anterior surgiu entre eles. — Se o Real ganhar, você vai ter que admitir que o meu time é o melhor do mundo pra todo mundo ouvir.
Sustentando o olhar dele, pensou um pouco. Ela descruzou os braços e permaneceu segurando os ingressos em mão.
— E se o Barcelona ganhar? — perguntou, a voz em um tom desafiador.
deu de ombros, mantendo o sorriso de canto.
— O que você quiser, . O risco é seu.
Ela se aproximou mais um centímetro, o suficiente para ver o brilho de surpresa nos olhos dele quando ela inclinou a cabeça.
— Se o Barcelona ganhar... — ela sussurrou, a ousadia brilhando em seus olhos, pela primeira vez sentindo-se confiante. Algo dentro dela vibrava, fazendo-a se sentir ótima — eu beijo você.
Ela assistiu o sorriso dele vacilar por um milésimo de segundo, substituído por uma expressão genuína de choque, misturada com um desejo súbito. sentiu-se satisfeita pela reação e sustentou o olhar dele, enquanto ele processava a proposta que ela tinha acabado de fazer.
Se fosse em campo, ele já teria perdido aquele jogo no primeiro tempo.
— Você está me dando um motivo pra torcer contra o meu próprio time, ? — ele perguntou, a voz subitamente rouca.
Ela abriu um sorriso divertido, dando de ombros.
— Isso não seria problema meu, seria? — rebateu, abrindo a porta do carro. Ele pegou os ingressos de volta quando ela estendeu. — Eu te vejo no domingo, .
Ele deu espaço quando ela entrou no carro e assistiu quando ela partiu. Ficou processando o que tinha acabado de acontecer, até, por fim, soltar uma risada enquanto coçava a nuca e passava os dedos pelos fios bagunçados do seu cabelo.
Enquanto voltava para dentro do escritório, ele pensou, pela primeira vez, que não tinha tanta certeza assim se realmente queria que o seu time vencesse o clássico daquela vez.
Tudo porque ele ficaria feliz em perder a aposta.

FIM!

Nota da autora: Sem nota!