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Codificada: Lightyear 💫
Finalizada em: Fevereiro/2026


TROVA ALCOVA DOS VERMES

Leito putrefato, revestido manto delirante, mácula perversa, De vício, mente submersa, corroí, vigário delator, vingativo desejo não cessa, Relegado errante condenado, rasteja-se a espurcícia, deleita-se com os vermes, Aguarda Te, tirano algoz, pois de tuas regalias, espinhos de queda, em ti cresces.
— OPHELIA.
MANCHESTER • 1972.

Fulgorosos esporos reluzentes tomavam de supetão a atmosfera como pequenas faíscas, ao direcionarem-se de volta ao cosmos de onde ramificação ancestral possuía. Espalhavam-se pelo cobertor noturno que envolviam os prédios, outrora, vitorianos do centro de Manchester, como pequenas estrelas, abrasadas de sua queda iminente; seguiam-na como sombra, mancha . Resguardada pela penumbra oscilante da lua, sombras e vultos comungavam em uma dança libertina, travessos seres ínfimos que ao deleitar-se de sua insignificância, galhofeavam taciturno tormento repleto de folia. Das curvas magras, tal como polidos entalhes sobre macia carne oriundos da maestria artesã inquestionável, colisão não tardou a reverberar sob ossos frágeis; visceral padecimento, latente severo, não tardou a roubar-lhe o fôlego com mesma precisão que o sol roubara, a muito, de Ícaro sua excitação, outorgando-a demasiado desarranjo, permeando por sua própria efêmera dor. De pontos abstratos escuros tomara a visão sempre cristalina e precisa, sobrepujando-se ofuscante névoa desorientadora, criando sombras a mais onde de nada possuía tangibilidade. Piscou algumas vezes, tentando afastar o marejar que formava-se em seus olhos e enevoar sua visão, pouco sucesso obtivera quando tu o que pudera enxergar fora nada mais do que apenas a figura obscurecida pelo casaco pesado, e o chapéu curvo e elegante, cuidadosamente tecido com penas de corvos e teias de aranha, agora levemente esfarrapados, que a criatura sempre havia usado; sua precisa assinatura.
Figura notória era esta que projetava-se agora sobre si, taciturna e desconfortável em sua própria pele, de poucas palavras sempre foi, limitados a resmungos esporádicos desaprovadores e ruídos afiados, quando concordância ou negação fazia-se necessário. Agora, transvestido por um manto colérico, olhos semelhantes espelhavam uma fúria mal contida, gélida como neve, que a mantiveram presa no lugar. Mãos pálidas quase esqueléticas enroscavam-se no couro obscurecido pelo tempo da bainha que resguardava a lâmina precisa de sua alongada espada, unhas amareladas, tortas porventura, igualmente quebradiças, arranhavam o material mirrado e desgastado a constância de sua necessidade, com espasmo involuntários, causa essa, de pressuposição matizada, fosse derivada das baixas temperaturas que, agora, começavam a assolar os telhas londrinos com tamanha familiaridade, ou por mero praxe recorrente, hábito feito de anos decadente, agora sina iniludível, externalizada por sua fúria mal contida. Mirra e orvalho tomavam-lhe as roupas, impregnando-as com veemência e certa rusticidade corrompendo a distante percepção, insólita de propriedade e postura da mácula humana, relegando-se a memória vivida do selvagem e do que de fato eram. Fios longos e extenuados, entrelaçaram-se com os prateados de uma raça miscigenada pelo anseio demasiado ao inerente arbítrio, criavam padrões assíduos entre as mechas iluminadas pelo toque tímido da lua, obducto por nuvens carregadas obscurecidas pela tempestade a aproximar-se. Acentuados traços fortes e austeros, anunciavam maçãs do rosto altas, mas bochechas magras, emoldurando os lábios finos que se retraiam em um pequeno grunhido ameaçador, ora expondo os dentes afiados como agulhas, ora apertado em fina linha rígida, severa e desgostosa por natureza. Olhos profundos, paramentados de olheiras arroxeadas, acompanhadas de pequenas linhas discrepantes de veias sobrepondo-se sob pele delicada, acentuavam demasiado aspecto moribundo e dolente incontestável.
O vento carregava o cheiro mordaz de petrichor, poeira que erguia-se da movimentação agitada dos carros e solas de sapato que transitavam pelas ruas de paralelepipedos de pedra da cidade, folhas que soltavam-se de seus galhos, atingindo com suaves inaudíveis ruídos o chão coberto por uma fina camada de neve, amontoando-se, mortas,, traziam consigo o mistério e o desconfortável, distante, porém tangível, que apenas aquela raça sensível era capaz de perceber. O cheiro do selvagem, o gosto metálico pungente que permeava sua língua e invadia-lhe as narinas sem aviso prévio, putrefato e vívido, abrasava-lhe as vias respiratórias como labaredas de chamas, beijando-lhe internamente pele sensível, vermelhidão atípica tingindo-a acompanhando pelo pelos das lágrimas que esvaiam-se por suas bochechas. Secou seus lábios, levemente rachados, contraiu a garganta, tamanha aridez equiparava-se as duas de um deserto distante que somente conhecera por descrições líricas de livros empoeirados que agora jaziam, esquecidos e abandonados, em um lugar que nunca chamara de casa, mas o sentira ser por um breve período de tempo. Raspava-lhe o ar que de teus lábios escapava, vil, porventura, em sua posição de desconhecido curiosidade, todavia, regalava de tal qual amante dissimulado, subterfúgios convidativos oferecidos pelo desejo ensandecido por mais uma dose por adrenalina.
Fizera o ato de engolir, em demasia aventura hermética, lhe contraíra o estômago com inexplicável cisma, das delicadas rendas feitas das teias miúdas de aranhas e das pétalas trancadas lhe abraçavam os dedos longos e elegantes, gélido suor se condensava, grudando o tecido suave contra a pele, fazendo-a consciente de mesmo por menor movimento inesperado, do deslizar sobre tal superfície. Olhos arregalados, mancharam-se com uma temeridade nascida de sua cautela, ao inclinar-se para trás, arrastando-se para trás, tentando colocar distância entre ela e a figura provinda de pesadelos à sua frente; pouco pudera fazer para afastar-se. O Rei das Fadas, imponente em sua presença, meramente inclinou sua cabeça, intenção vil e cruel cintilando como estrelas por seu rosto gélido e belo, mordaz como a neve, afiado como os dentes de pequenas sprites que serviam-se de suas informantes.
— Pai… — debilitada súplica estremecida, escapou dos lábios de Ophélia, entrecortados, doloroso ardor crepitando sob a jaula de ossos ao centro de seu peito, contraindo-se, obstruindo caminho como se por vivo, tomara-lhe como objetivo pessoal macerar resquícios quaisquer que fossem que estivessem a seu alcance. Quebradiça criatura tornara-se seu coração, que não mais assemelhava-se com o órgão, mas mera composição abstrata de um pássaro cativo. Seus olhos encontraram-se com o vislumbre cintilante do mais velho, acusação contrastando com a fúria frígida que poucos poderiam compreender os meios, mas certamente lembravam-se de imponência. Tremores estalavam como esta´tica por sua tez, fragilizada pelo toque do freixo puro, que ao centro de seu ombro esquerdo, talho formara. Isento da mancha vermelha que humanos poderiam carregar, não era de sangue que tal golpe considerado fatal desfazia-se, mas sim de um icor puro e dourado impregnando fibras delicadas das pétalas de camélias que compunham delicado vestido. Faíscas desprendiam-se no ar, espiralando ao redor, onde o ferimento havia sido aberto, comungando em unississimo com o pulsar acelerado em seu peito, misturando-se com a magia; um lembrete etéreo de sua própria raça, de sua própria criação, agora asfixiante esconjuro inexorável. — Por favor, não…
Excruciante fora o tilintar cortante do metal ao retirar-se da bainha que de suas palavras comandou nada mais senão silêncio. Os olhos de Ophélia arregalaram-se, o grito que alojavam-se em sua traquéia desvaneceu-se tomado pela trepidação do choque, ao observar a ponta da espada daquele que outrora vira como senhor e guia, voltada para si. O Rei das Fadas, trajado por penas de corvos, teias de aranhas delicadas, e roupas finas que apenas os artesãos mais bem capacitados poderiam ser capazes de confeccionar, portava-se a sua frente agora, não como a figura de airosa afabilidade, serena concessão excepcional para a única que de todos tornara-se bequista, mas sim de vil objurgação, um algoz ensandecido por sua própria cólera que de seus olhos, estes cegos, enxergavam-na apenas como uma flagiciosa farsante.
— Se ousas clamar meu sangue como teu que ao menos recuse-se indulgência — rezingado volátil escapou, amargo tal fel, de Oberon, os dentes afiados como agulhas que compunham mandíbula forte e severa, retesaram-se para trás, ao pesar tamanha acusação com o profundo vilipêndio. — Ensinei-te melhor que isso tola precita.
Singulto trépido, demasiado oxítono desfez-se em sua garganta, ao tentar arrastar-se, mais uma vez para longe da figura imponente do Rei das Fadas. Longa espada cortou o ar, em um arco elegante, acertando preciso a lateral do rosto de Ophélia. Um grunhido escapou de seus lábios apertados, ao lançar-se para o lado contrário, rolando pelos paralelepípedos de pedra que compunham a rua movimentada de civis abstraídos; doce névoa mágica, traiçoeiro manto das fadas para ocultar olhares inquisitivos, agora ocultavam também, embate mortal entre o Rei das Fadas e sua preciosa filha, traidora. Faíscas dançaram pela atmosfera como um convite singelo ao confronto que antecipava, icor escorreu pela lateral do rosto delicado de Ophélia, que, não ocultou aversão desmedida pela monstro que oferecera-lhe vida.
— Mesmo agora, reconhece-me como tua! — , tomada pelas cálidas brasas do desalento, esbravejou, pressurosa, tal como uma gentil alma tentaria fazer-se compreendida por uma besta selvagem. Jogo este que fazia, já havia sido perdido a tempo suficiente, só ainda não percebia. Coibir-se de tamanho desalento tampouco pudera. — Rejeite-me outra vez! Diga-me que não sou tua filha! — clamou, entre lágrimas e ofegos, silentes.
Sombra padeceu sob as feições tão belas quanto mortais de Oberon ao ouvir tal proclamação. Os olhos de estrelas estreitaram-se, e os dedos alongados, com pequenos espinhos curvados projetando-se para fora de suas falanges unidas por membranas delicadas, quase invisíveis, curvaram-se ao redor da empunhadura de cobre, demasiado viço indicava o confronto iminente. Ao pranto silencioso que manchava, tal como tinta sob uma tela em branco, o rosto de , pesadas gotas desfaziam-se ao cair, rítmica, sob as pétalas de camélias que envolviam seu vestido.
— Esconjuro pérfido, é o que você é, e se acaso tenho parte com isso, pois que o retire agora — expeliu Oberon, sem clemência. Severidade pungente, traçava agora linha nítida entre ofensor e executor, e nada mais que isso. Arfares suaves desfizeram-se por entre os lábios entreabertos da princesa das fadas, que tratou logo de colocar-se de pé. Os talhos que espalhavam-se por sua pele, ainda misturavam-se pelo ar, com uma pequena demonstrativa da magia que tomava-lhe como vassala, mesma magia, esta que corria pelo sangue de Oberon; agora, renegada como nociva peçonha, contaminada existência. Dedos deslizaram por entre as finas camadas de fibra que envolviam o tronco, a mistura de pétalas com correntes cuidadosamente projetadas por cobre e prata, encontraram a bainha da adaga curva que respondia a seu nome. Não era o suficiente para lutar contra a imponente espada do Rei das Fadas, mas a lâmina que parecia mudar de cor conforme o toque da luz, evidenciava sua mortalidade ao apresentar um pernicioso veneno ali. O suficiente para matar o Rei das Fadas se assim fosse preciso. Vil sorriso desenhou-se no rosto cruelmente belo de Oberon, sórdido pelo escárnio que oferecia. — Pois aos meus, você não será nada se não uma ladra.
Olhos de luar de acenderam-se com tal acusação.
— Ela pertencia a mim! — vociferou .
Empoleirado entre galhos retorcidos, olhos de ébano retornava atenção aos dois feéricos em iminente confronto que outrora fora pai e filha. Inquisitivos em sua diminuta forma selvagem quase contraditória em comparação a tamanho e voracidade, penas pretas que se destacavam contra a modernidade do cenário abrasivo atraía de imediato o olhar e o compelia, fosse por sua curiosidade ou por temerosa percepção, misturava-se com penas mais claras, esbranquiçadas e até mesmo algumas que falsamente apresentava-se azuladas. O magpie solitário, grasnou com variações tonais em crocito perceptíveis; denotava-se de imediato vagaroso canto, baixo, quase curioso, percorrera entre os telhados de barro vermelho e as poucas árvores como um murmúrio convidativo, um incentivo, talvez, irrevogável traiçoeiro para que se fosse aceita oferta de aproximação, imperceptível de sua armadilha desafortunada. Lúgubre lamùria desacompanhada, ao implorar por efêmera atenção, que não tardou a tornar-se mais intenso e severo. E o que viera ser percebido inicialmente como mero convite, transmutou-se ao amálgama acusatório, até mesmo cruel. Ecoou pelos ouvidos de , escorchado, como se porventura a censurou por sua tolice — ou, ao muito, anunciasse o preço que estava prestes a pagar por colocar-se contra o Rei das Fadas. De arauto, fazia-se, repetindo sua singular acusação , mas não era mera inepta obnóxia para não reconhecer-lhe o tom: soava exasperado, até mesmo ameaçador, porventura, poderia encontrar suave escárnio pairando em seu soar, lembravam-na, de imediato, do tio que a tudo observava, e a nada interferia. Lembrava-a do tempo que em escassez perdia ao confrontar o Rei das Fadas, quando deveria, naquela altura, ter conseguido localizar o pub em que sua estava.
— E com qual direito você tinha propriedade sobre ela? — nas palavras, embora embebidas de uma docilidade enviesada, não escapou, desta vez, de sua atenção a maestria do vilipêndio amargo, pouco infundado que cortava a voz baixa e grave do Rei das Fadas. o encarou, incrédula, com os dentes cerrados. Os dedos longos e delicados, agora banhados pelo icor dourado, enroscaram-se com mais força pelo punhal de rubi talhado. — Se sua própria existência, minha é por direito? — Oberon girou outra vez a espada, acertando a perna direita dela. sequer registrou dor, ao girar para o lado contrário permitiu-se forçar a lâmina envenenada contra o antebraço de seu Rei, cortando o ar por mero milímetro. Projetou-se para frente, desengonçada, cambaleando para a esquerda, ao tentar defender-se do próximo golpe. Oberon, é claro, era mais rápido, e não tardou muito a conseguir abrir um considerável buraco no abdômen de .
De seus lábios entreabertos, suave arfar desfez-se, carregado pelo clamor espectral do vento, errante ao arrastar-se rua movimentada abaixo, mensageiro implacável, ofertando apenas tremores por baixo do tecido frágil de pétalas, teias de aranha e vinhas de rosas que compunham seu vestido. Arrepios acariciaram a pele exposta de seus ombros e pernas, afastou tal um amante, os cachos que adornavam seu pescoço, agora empapados com o icor que escorria de seus ferimentos abertos, arranhando superficialmente o laço esbranquiçado de renda com o brasão de sua Corte, cuidadosamente lapidado no pingente de rubi puro que permanecia, ainda assim, preso contra sua garganta. Encolheu-se, por instinto, ao eco do grasnado de da pequena criatura que a tudo assistia, sentiu o gosto metálico lhe invadir os lábios, as mãos envoltas pelas delicadas luvas, pareceram suar, frias e desconfortáveis pelo tecido que a impedia de sentir a textura do rubi esculpido que formava a empunhadura de sua adaga envenenada, misturavam-se com a sensação gosmenta do próprio icor. Agitado e irregular, seu coração, tal qual um pássaro cativo ainda debatia-se na prisão de seu peito, uma pequena dor despontou por suas têmporas, elétrica descarga de adrenalina fez-se presente, despertando-a de seu torpor, jogando-a, sem quaisquer cortesia, em esfera tomada pelo furor violento e brutal que seu pai havia lhe entregado como herança.
Você a matou! — Embargada pelas lágrimas que transbordavam por seus olhos, o esbravejar perdeu sua violência quando o soluço desesperado miscigenou-se com a acusação. Os olhos de acompanharam o mais velho, tentando lançar-se para trás a tempo de desviar do golpe, mas sentiu quando a lâmina gélida deslizou pelo ar, cortando-lhe um ramalhete de seus cabelos, tranças cuidadosas de vinhas e flores silvestres desabou no chão com um ruído silencioso, o peso dos cachos pesados agora fazia-se estranhamente ameno, distante ao espaço vago ofertado. gritou, não por sentir dor, não por frustração, mas por puro e completo lúgubre desalento. Lançou-se outra vez contra o pai, riscando, desenfreada, o ar ao seu redor, tentando em vã dança mortal atingi-lo de alguma forma. — Você roubo-a de mim! Se há alguém cuja alcunha de ladrão serve, é você! Ela era minha! Minha! — E tamanha dor que pairou por sua voz, doce como o canto de um canário, distorcida pelo peso das lágrimas que a tragava tal qual um oceano revolto, ameaçando a submergir de volta lapso vazio que carregava desde que deixara , sua ir.
Mas o Rei das Fadas riu, deleitando-se com a crueldade de seu sofrimento. Não podia fugir de sua natureza, não mais do que a própria prole, e tal qual como um dos seus, não ocultou sua satisfação em ver tamanha miséria tingida no rosto outrora doce e gentil daquela que fora sua preferida. Sua pequena princesinha.
— Culpe-me se quiser, vítrea verdade não se altera — Oberon retorquiu, girando para longe da lâmina da adaga, um amontoado de penas farfalhando atrás de si, antes de finalmente acertá-la com a bainha da empunhadura de sua espada. — Foi você quem a trouxe para nosso mundo, quem revelou o segredo, quem entregou o nome. Diga-me, pombinha, como pode culpar-me por tomar algo que você sequer conseguiu guardar?
Oberon cortou o calcanhar de , seguido de seu pulso, talhos precisos que a lançaram novamente para o chão, bruscamente. Fagulhas pairavam pelo ar, a magia queimando ao desfazer-se, esvaindo-se de seu corpo trêmulo. Despido de quaisquer indulgências, o Rei das Fadas, preparou-se para desenlace violento, mirando agora mero leviana impugnador, mais nada.
— Diga-me suas últimas palavras, — comandou o Rei das Fadas, e desta vez, coagida pela própria magia que a tornava quem era, ao ouvir seu verdadeiro nome, não tivera outra escolha senão proferi-las.
— Por favor, meu senhor… — obsecrou , agoniada, o som de sua própria voz misturando-se com os soluços suaves que escapavam de sua traquéia. Seus olhos encontraram-se outra vez com os do Rei das Fadas, desta vez, desprovido opróbrio não ocultou tamanho desalento. — Rogo-lhe só por algumas horas, minutos se não quiser, então a minha existência dê seu fim. Só permita-me vê-la outra vez…
Algo obscureceu ainda mais feições belas e imortais de Oberon, que por um instante apenas a assistiu como um gato observava seu moribundo pássaro finalmente desistir de escapar de suas garras. Pressionou a ponta de sua espada, firme, abaixo do queixo de , um pequeno corte formando onde o metal beijou a carne macia delicada da fada.
— Não. Não posso mudar minha natureza, assim como você não pode mudar a tua — Oberon sussurrou, pela primeira vez, lânguido afago parecia tornar mais digestiva tal sentença mortal. E isso, para seu próprio deleite pessoal, servira apenas para que a quebra de se tornasse mais perceptível quando ela chorou.
Soluços permearam as vielas de Manchester em meio a noite estrelada e pacífica de festas boêmias comuns para a área. Soluços perderam-se no silêncio que o véu mantinha, separando o Mundos das Fadas com os dos mortais. Arrastou-se em direção ao pai, como se pudesse apelar para sua bondade, mesmo ciente que fadas não possuíam bondade , sequer humanidade — era por isso que precisavam tanto dos humanos, era por isso que precisavam ser lembrados, com comum frequência.
— Por favor, meu senhor — desalento desmedido lhe roubado lugar da sanidade, derramou-se por seus lábios carnudos, ao tomar-lhe suave súplica, rogou-lhe pelos lábios dela, tal qual um acompanhante lamurioso para as lágrimas pesadas que, silenciosamente sequer havia encharcado o chão. Dissonantes batidas de seu coração, despedaçaram-se como vidro a cada pequeno pulsar. Olhos de luar foram tocados pelo brilho efêmero que ainda indicava o caminho, mas nada disso fez seu congênere reflexo abaixar a espada afiada de seu pescoço. — Uma última vez, rogo-lhe, meu pai, ofereça-me esta pequena dádiva quando a muito míngua patavina apenas o reconheço por — a espada moveu-se, enterrando-se com pressão um pouco maior ao centro de sua garganta, diferença a nada fez. — Por favor, é só o que peço, dê-me a chance de vê-la só uma última vez, só esta, então… ah, então, meu senhor, faça de mim o que quiser. Por favor, por favor, meu pai tenha piedade… — velocidade demasiada de uma curva elegante pelo ar, o tinir do metal provou-se, mais uma vez, mais rápido do que as palavras que poderiam de sua boca derramar-se. E então, houve apenas silêncio.


• ATO I.

. De sua graça, gosto adocicado pareceu permear os lábios de , pungente e vicioso. Assimilou o som com o gosto que o mel possuía, proferira aos ventos tal qual como uma promessa feita ao desconhecido, deleitando-se com o suave tilintar de seu próprio sussurro reverberando por seus ouvidos. Travessa criatura, enredou-se por entre vinhas e rosas, passagens reduzidas e estreitas, envoltas por raízes e lamas, esgueirou-se pela penumbra da noite, e dançou entre rostos desconhecidos como se fosse parte de um deles, determinada a ao menos ter um pequeno vislumbre de .
Ocorreu durante o Solstício, em meio à fartura com jarras de ambrosia e refinadas iguarias ofertadas pela generosidade do Rei das Fadas, que tal alvitre fez-se oportuno. Entre risos, provocações e traiçoeiros jogos de palavras para enganar e iludir meros humanos que haviam tido o infortúnio de segui-los até onde a festa acontecia, viera de Rhobyn tal sugestão; outrora um dos filhos queridos do Rei das Fadas, agora relegava-se a um mero exilado, aprisionado espectro, volátil e selvagem composição, condenado a vagar pelas partes sombrias de seus mundos sem ter mais o que oferecer, que contou-lhe sobre uma deslumbrante cantora. De poucos fulgores as fadas poderiam encantar-se com os mortais, mas de sua arte, de certo, inegável atração lhe oferecia. Não melhores do que mariposas magnetizadas pelo fogo, prontas para serem queimadas vivas. Mas a arte mortal era uma das poucas coisas que os atraíam, que os convidavam a arriscar-se para um único vislumbre, e talvez, se tivessem sorte, a possibilidade de um acordo. Rhobyn fora sucinto, como sempre, mais guerreiro do que artista, declarara que a mortal era de fato uma visão de graça e delicadeza, não uma rosa como as que costumavam a ver a distância, aventurando-se insensatamente por entre as vinhas e raízes das florestas que possuíam entradas ocultas para seu mundo, mas sim, uma delicada margarida.
Era um raio de sol sob a pele em plena manhã, era sorriso sincero e docilidade tal qual o filhote curioso de alguma criatura selvagem. Poderia rosnar, mas não era menos convidativa amizade. Algo na maneira reverente que Rhobyn havia contado-lhe a história fez com que imediatamente considerasse seguir o estreito caminho, buscando delicada deslumbrante criatura apenas pela curiosidade aflorada que sempre tivera. Então, quando o sol começou a despontar, e seus súditos a dormir pacificamente, aproveitou-se da situação para escapar. Desde então, vinha esgueirando-se por entre sombras e pequenas fissuras no casarão dos , observando a todos com olhos curiosos e às vezes até mesmo aproveitando-se de uma ou outra travessura para entreter-se enquanto esperava a dona de sua atenção aparecer. E ela sempre aparecia.
Criatura curiosa era sua . Possuía uma voz suave, doce como mel, mas que parecia carregada pelo peso do amargor de seu próprio ressentimento. Era silenciosa, como um fantasma vagando entre as paredes refinadas do casarão, mas seus olhos gritavam, tão intensos, e tão dolorosamente desesperados, que entretia a Princesa das Fadas assisti-la. Entretia-a vê-la em sua miséria, tão atraente para si quanto a promessa de um fruto proíbido. Este fruto, o que decidira tomar-lhe para si na primeira oportunidade que encontrasse. Mas havia igualmente delicadeza em , uma doçura estrangeira que causava reações adversas à jaula de ossos que prendia seu coração em lugar, despertava-lhe não apenas a curiosidade, mas uma sensação crescente e cálida que era estrangeira para . Ela já havia sido amante de muitas criaturas no mundo das fadas, gostava de envolver-se com outras criaturas, fossem elas o que desejassem, gostava da sensação de suas peles pressionadas contra si, gostava de ter suas atenções e de seus lábios e mãos explorando cada centímetro de seu corpo como se fosse feita para aquele tipo de adoração, gostava de ser o centro, o sol guia, o comando silencioso quando estava entediada, mas … ah, parecia ser a exceção, à magia e o convite desconhecido para algo que nunca soubera que precisava, mas que de certa forma, ansiava a eras por.
Ardilosa como era, não demorara muito para descobrir as dinâmicas que a família oferecia em seu espetáculo particular. O patriarca era um homem robusto, de feições facilmente avermelhadas, e bigode desnecessariamente longo, não parecia estar presente mesmo quando fisicamente era necessário, vivia em seu próprio mundo, e divertia-se ao enganá-lo em seus próprios devaneios. Observara seus sonhos, ladina, roubara seus anseios, e então apresentara a sua frente como um amontoado de presentes; enfeitiçou pedras para que tal criatura patética acreditasse que tinha exatamente o que desejara, e deleitou-se com o filhote quando o viu perceber que fora enganado. A matriarca era uma figura imponente, severa e de temperamento volátil, frígida como a neve, parecia ter muito mais apreço a filha caçula do que a , tamanho apreço era este que apoiara de imediato quando a traição do até então noivo de reverberou pelas paredes de tal casarão desafortunado, como lembrete do coração facilmente quebrado que agora a deslumbrante jovem carregava.
Agora, no anuncio de noivado de seu ex-noivo e sua irmã mais nova, observava, como uma gata que havia acabado de deleitar-se com sua tigela de leite, o rosto impassível de queimar como labaredas intensas das próprias emoções que ela tentava esconder. E pelos deuses que os cercavam, tal bela era sua música, sua angústia comprimida em notas. pairou pelos ares, ocultando-se porventura ora em candelabros e lustres grandes demais para que opulência fosse considerada necessária, ora, acompanhando as sombras dos convidados que dançavam elegantemente pelo salão. Girou, encantada com a desesperada canção, nem mesmo um ruído escapava dos lábios de que de seu foco repousara toda intensidade nas teclas pálidas do piano, e permitiu-se perder-se naquele sápido ritmo a arrepiar sua pele. O farfalhar das saias feitas das mais finas folhas e poeira estelar, a princesa das fadas saltou, agitando suas asas holográficas atrás de si, até onde estava. Colocou-se ao seu lado a noite inteira, admirando-a curiosa.
Estonteante criatura, percebera de imediato, cuja pele parecia mais macia do que o veludo mais cuidadoso que poderia envolver seu ninho. De olhos intensos e escuros como uma noite sem estrelas, tão escuros que era difícil identificar suas pupilas, de lábios convidativos tingidos suavemente pelo tom e o aroma como morangos, nariz delicado que agitava-se a cada vez que capturava o aroma selvagem de flores silvestres que a acompanhava como parte de sua alma. regalou-se de pequenos tiques simplórios à primeira vista, mas que faziam-se perceptíveis de sua presença. Brincou com as mechas curtas de seus cabelos, macios sob o toque como seda, mas estranhamente ressecados nas pontas, no cheiro mortal e humano que ela possuía misturando-se com algo mais suave, convidativo, como frutas, romã, de fato. Talvez até mesmo maçã. inclinou-se em sua direção até que estivesse a meros centímetros de distância do rosto melancólico e dócil da jovem humana. Considerava lhe roubar um beijo, quando o ruído de aproximação ecoou. Era a irmã de , frívola e ignóbil, pequena criatura que tentava fazer-se maior do que jamais poderia ser. Sorriso largo e satisfeito, fez com que soltasse um risinho entretida, ao permitir-se deitar, mais uma vez no corpo do piano, lânguida, esticou seus dedos para o ar, permitindo que as faíscas de seus dedos, magia dançasse sob a luz dos cristais do lustre. Considerou peripécias a serem feitas, sequer deu-se ao trabalho de ouvi-las, uma discussão emocional era divertida, quando ao menos uma possuía culpa e a outra raiva, mas sua , ah, sua era doce demais para guardar rancor.
Agradeceu todavia a Grace, graça esta perfeita dicotomia daquela família que batizara a irmã mais nova por tal coisa, quando fizera disparar correndo, aos prantos para longe daquele salão. soltou um riso animado, extasiada, agitando suas asas suavemente antes de saltar do piano que permanecia deitada. Correu como um espectro, saltando entre mesas e janelas para o jardim que havia seguido. Do lado de fora, o vento suave outonal a envolveu com uma dádiva irrecusável, uma promessa de bacorejo infundado, acalanto irrevogável. A oportunidade que por meses buscara, agora oferecia-se tal qual uma amante desesperada, e a princesa das fadas seria estúpida se a esta não se agarrasse. Então, saltou por entre as cercas vivas do labirinto elegante que formava-se no jardim da família . Solas despidas de seus pés deixavam rastros simplórios, não menos fantásticos, espalhando-se como uma enxurrada de vida e vitalidade pelas plantas que a mãe de tão orgulhosamente dizia gostar de cuidar — porventura pérfida mentira, mas que agora bem lhe convinha. Flâmulas de seus cachos tocaram o vento atrás de si, o farfalhar suave das camadas de folhas e penas de cisnes que compunham suas saias seguindo-a tal qual uma sombra, enquanto a Princesa das Fadas saltava de um lado para o outro, tentando alcançar .
Seguiu o choro como uma mariposa seguiria a linha da luz, os olhos de luar de desviaram-se por curta fração de segundos para a entrada, sentindo o pesar de seu juízo sobre suas costas, mas a fada ignorou como a quem ignora um desconhecido. Quando finalmente encontrou , próxima ao centro do labirinto, travessa como era, não hesitou em usar sua magia para fechar os caminhos da mortal, criando trepadeiras das extensões da cerca viva, entrelaçando raízes e prendendo-a, tal como uma presa, a sua mercê. Um riso escapou dos lábios de , quando percebeu a confusão tingir o semblante melancólico de . Girou em seu vestido azul claro, como a água cristalina, com pequenas pedrarias, reto, lhe ocultavam a silhueta atraente, os cabelos curtos agitaram a atmosfera ao seu redor, sendo tocados pelo vento contra a própria vontade. E então, olhos escuros estavam presos em seus rostos. piscou, inesperada surpresa tingiu seu belo e imortal rosto, ao inclinar-se na direção de , como uma gata curiosa. Apoiou-se em seus joelhos, se questionou, porventura se acaso a sorte havia oferecido-lhe um pequeno truque, ou pequena dádiva a muito suplicada, uma chance de conseguir roubar aquilo que desejava para si, mas então os olhos de desviaram-se para a entrada do labirinto, como se estivesse considerando voltar para a festa.
franziu o cenho, apertando os lábios em fina linha firme; insatisfeita com tal reação. Porque diabos iria querer retornar para aqueles que apenas de sua boa fé a usavam e torturavam? Não! Ela agora lhe pertencia! Saltou de onde estava empoleirada, os cachos pesados agitaram-se ao seu redor, carregando o aroma familiar do selvagem, um indício silencioso que deveria ter assustado a mortal ao perceber que possuía uma companhia perigosa, mas ao em vez disso, apenas a fez congelar no lugar. Aproveitou-se disso, para alcançar o pequeno saquinho de couro com o pó dourado, e assoprá-lo no rosto de . Prendeu a respiração, girando graciosamente para longe, de modo a ficar entre e o caminho de volta para a grande mansão. Prendeu a respiração ansiosa, as asas holográficas agitaram-se atrás de si, ao esperar reação de seu objeto de desejo.
primeiro pareceu confusa. Esfregou os olhos com força, como se porventura a fricção pudesse lhe ajudar a enxergar melhor, então, espirrou, um pequeno amontoado de pó dourado, cintilando como poeira estelar projetou-se a frente de seus lábios avermelhados, e então, ah… então a encarou. Aturdida percepção, permeada por um hediondo grito de terror, surpreendeu-se quando saltou para trás, tentando proteger-se de sua presença. Ofegou, ofendida, ao vê-la desabar sobre suas saias e pernas ao chão coberto pela relva ressecada do jardim, encarando-a como se ela fosse um monstro.
— Que são todos demasiado descorteses, isto é senso comum — murmurou como o cantar de um pássaro, ao apoiar as duas mãos em seus quadris, revelando crescente exasperação. — Mas mesmo que acaso fosse um monstro, esperava que tal alma doce e gentil como a tua, oferecesse me um pouco de cachimônia. Se porventura estiver errada, então por obséquio que faça nosso encontro mero manifesto de seu inconsciente.
piscou, ainda aturdida, levando as duas mãos enluvadas em direção aos lábios, como se pudesse silenciar sua reação, embora de seus olhos, esta gritasse a distância.
— E culpa-me por tal sobressalto quando sequer oferecera-me simplória regalia em anunciar sua presença? — murmurou com um tremor em sua voz, mas não menos teimosa. quase sorriu ao perceber tal petulância na voz da mortal. Era isso que a interessava, todavia, não sua coragem, mas sua capacidade de responder-lhe quando incentivada de modo correto. Sua alma transbordava pelas fissuras outrora cobertas da armadura que sua família tinha projetado para ela. estreitou os olhos com a acusação, mas tampouco pareceu importar-se, um passo à frente, flores silvestres projetando-se para cima como se em busca de sua senhora enredando-se por entre os dedos dos pés despidos dela. , que ainda a encarava estupefata, não pareceu notar, ou se o fez, comentário inadequado, manteve para si.
— Suas regras mortais não se aplicam a mim — murmurou, abanando o ar com indiferença, algo quente e irritadiço cruzou o semblante de . sentiu como se um gole de vigoroso elixir percorresse por seu corpo, despertando algo que a muito acreditara que estaria sempre adormecido. A sensação a surpreendeu, mas igualmente a instigou, pois a atenção de percebeu-se incapaz de desejar desfecho. Não agora, porventura, talvez nunca. — Sou uma criatura da floresta quiçá encontrou dinâmica curiosa entre os seus, não me culpe por não fazer questão de aprender os seus costumes, soam tão insuportáveis quanto entediantes.
revirou os olhos, colocando-se de pé em movimento vagaroso. Limpou as saias de seu vestido azul delicado, ajeitou as luvas, e o cabelo. inclinou-se na direção dela, atraída como um pássaro em um banquete oferecido. Suas narinas inflaram e desinflaram, a fim de capturar, ainda que de forma breve, algum resquício de seu cheiro. Tentou não sorrir, percebendo que cheirava a maçã. Nunca fora exatamente uma grande fã de tal iguaria, mas agora, percebia-se inclinada a possuir uma maior tolerância a tal fruto. O quão traiçoeira inocente humana poderia ser para a princesa das fadas que descobrira algo que jamais pensara ser possível? Algo que ainda não possuía nomenclatura, mas que não menos poderia ser considerada real.
— Por que faz isso? — indicou as lágrimas que esvaiam-se dos olhos escuros de , curiosa e sorrateira. Esticou o indicador na direção de seu rosto, por uma fração de segundos hesitando, antes de coletar uma única gota, observando-a com um sorrisinho satisfeito. Então, levou aos lábios, provando seu sabor. Salgado, sem dúvidas, o que apenas levantou ainda mais questionamentos da princesa da fada.
— E acaso você não chora? — Petulante, é claro, não hesitou em retorquir-lhe.
sorriu, e tal brilho felino nunca ficara tão evidente em suas feições etéreas.
— Receio que de tal acepção pouco faça conhecimento — murmurou divertida, um risinho como o soar de sinos ecoou ao girar graciosamente por entre raízes e vinhas ao redor de . Podia sentir o olhar da outra preso em seu corpo, em seus movimentos. — Inteiramente humano, isso é. Nós, criaturas da terra, não sabemos o que é desvanecer em líquidos por nossos olhos, ou o que é forçar um sorriso que nunca está ali. Como dizem, um de nós não pode nunca mentir.
pareceu levar alguns minutos para absorver as palavras de . Os olhos voltaram-se outra vez para a entrada do labirinto, mas pela primeira vez, desde que esbarrara em tal curiosa criatura, hesitou. Mordeu o interior de suas bochechas, girando mais uma vez em seu lugar, como se não suportasse a ideia de perdê-la de vista; para , tamanho deleite não poderia ser mensurado, gostava de ter os olhos de para si. Somente para si.
— E quem diabos é você? Por que fala de maneira tão…
— Requintada? — Provocou , com um sorriso largo, evidenciando angélicas covinhas ao redor de suas bochechas. estreitou os olhos, sem ocultar o cinismo crescente.
— Insólita — finalizou a mortal.
O sorriso de diminuiu um pouco, ao observar a sinceridade nos olhos da outra, não pode deixar perceber-se incerta. Porventura tornara-se ousada demais, egocêntrica demais, mas viera a esquecer-se, ladina, que nem todas as pessoas que a conheceu, lhe ofereceriam palavras dóceis e convidativas. Insólita, repetiu as palavras de com uma pontada de exasperação, provinda de mero ego ferido. Estreitou os olhos, ergueu o queixo desafiadora, mas não pode negar, a verdade; de fato, certa perspectiva era bem contígua com a realidade apresentada.
— Quem sou? Não posso dizer-lhe de fato — murmurou, revirando os olhos, antes de caminhar, passo por passo, em direção a . Viu a jovem dar um passo para trás, e então mais outro, até que suas costas se chocarem contra as vinhas e ramalhetes da cerca viva. Como se inspiradas por sua presença, pequenas flores silvestres brotaram de onde havia escorado sua mão gentil, ao lado da cabeça de . Era porventura, menor que , talvez apenas uma cabeça mais baixa, mas de certo, tal coisa não lhe impedia, quando, com um agitar suave de suas asas, um ruído animalístico acompanhou o gesto, conseguira vencer tamanha disparidade de altura ao flutuar graciosamente no ar a frente de seu alvo de atenção. — Os meus chamam-me por Vossa Majestade sorriu, arrogante, ao observar a expressão confusa e descrente de encontrar-se com mera pontada de reverência, a percepção do título pois lhe era familiar, sentiu-se satisfeita que ao menos isso poderiam compartilhar em traços semelhantes de convívio. — Meus amigos, no entanto, costumam a se referir a mim por — Apresentou-se com um floreio, demasiado exagerado, porventura mesmo teatral, mas não menos travesso. Ela inclinou a cabeça para o lado, observando atentamente o rosto anguloso e mortal da jovem à sua frente. — E por que não me oferece o seu nome como retribuição?
, mortal insonte, piscou a princípio surpresa com estranha conjuntura de palavras, mas então, por instinto, se muito não mera ingenuidade, suavemente, entregou-lhe exatamente o que a princesa das fadas precisava para selar aquele acordo não dito:
.
O sorriso de aumentou ao estender-lhe a mão, em um silencioso convite.
— Venha comigo, , que lhe apresentarei portentos inesquecíveis — ofertou, e, sem resistência alguma, aceitou sua mão estendida.

⚔️

Emaranhados de relva vigorosa, pungente vívido esverdeado estendia-se como uma joia líquida, transformada em um manto confortável e convidativo sobre as colinas irregulares das terras das Fadas. Vinhas retorcidas e cipós enroscados por pequenas orquídeas projetavam-se das árvores como cortinas naturais, ocultando pequenas passagens secretas e atalhos que poderiam servir tanto para levar mais rápido ao seu destino final, como igualmente, desnortea-lo tanto que reencontrar seu caminho soaria apenas como um eco distante de um sonho abandonado ao vazio. havia ouvido inúmeras exortações que pouco juízo lhe faziam, provindas daqueles que dispunham a ofertá-la gentileza quando muito, preciosa raridade, sobre como deveria sempre estar atenta, e jamais seguir uma linha ininterrupta de cogumelos, jamais espreitar-se por entre as vinhas e sombras que se projetavam por cantos mais afastados, jamais dizer seu nome e muito menos seguir, porventura, o eco de seu nome entoado pelo vento. Árvores formavam-se em posições abstratas, algumas apresentavam-se como um túnel longínquo, fosse para os céus ou para a profundidade do solo, não dava para saber ao certo sua extensão, algumas deslocavam-se pelo espaço, como se atraídas pelo sol ou pela magia que pairava como vagalumes pelo espaço. Cores estonteantes, flores silvestres vívidas roçavam-lhe a pele, o aroma pungente do selvagem, inebriante elúvio, demasiado reconforto ao tomar-lhe de abrupta movimentação seus pulmões. Enganavam seus sentidos, desorientavam-na ao mesmo tempo que apenas fazia mais e mais o crescer de seu próprio anseio; de fazer parte daquelas criaturas, de ser como eram, de pertencer — mesmo que vã esperança não passasse de ilusório devaneio.
não lembrava-se de como havia chegado aquelas terras; lembrava-se de ter aceito o convite de , de ter questioná-la para onde diabos poderiam ir, e a feito prometer que ao menos, nunca deixaria voltar — um ato desesperado para escapar de sua própria realidade, mas a qual não parecia ter inclinação alguma de contrariá-la —, mas depois disso tudo tornou-se mera névoa oblíqua, ocultando-se pelos arredores de sua mente, envolvendo-a como uma brisa distante, um sonho de veraneio confuso, colorido e repleto de emoções que outrora nunca havia sentido. De repente vira cercada de curiosas criaturas, algumas tão belas que chegavam a doer apenas de olhar, outras tão horrendas que causavam-lhe pesadelos por dias a fio; um elegante senhor de idade próxima a sua sentado em um trono feito de ossos e pedras, coberto por penas de corvos e a mais fina seda que bichos da seda poderiam confessionar sozinhos, com uma coroa de espinhos e metal, presa em sua cabeça envolta de fios negros e brancos, longos, como se em alguma batalha pessoal entre sombra e luz. Visão sombria e aterrorizante não se restringia a tal criatura, mas em toda sua corte. Em demasia, inúmeras destas assombravam o espaço, um jovem de cabelos longos e pálidos como a lua, chifres curvados como os de um carneiro, manchas na pele escura que lembravam a estrelas e expressão taciturna curvava-se sobre um amontoado de ossos, espalitando os dentes afiados como o que parecia ser uma adaga dourada. Uma dama de cabelos como o fogo, que parecia alterar-se para as cores de folhas durante o outono, de olhos verdes como grama e membranas nas mãos elegantes, asas como de borboleta longas quase invisíveis, oscilavam com a imagem de uma caveira conforme a luz do sol lhe fazia contato. Uma criatura de cabelos curtos e desgrenhados, escuros como piche, que parecia ser mais feita de sombras do que qualquer outra coisa, amarrada a correntes que preguiçosamente debruçava-se próximo aos pés do trono do Rei das Fadas.
Mas então, havia .
era diferente. De tão bela sentia-se como porventura estivesse olhando diretamente para o sol, os cabelos sempre impecáveis envoltos por vinhas e flores silvestres que desabrocharam conforme seu humor alterava-se. Quando estava irritada, as pétalas desfaziam, cercando-a como uma chuva elegante e delicada, a pele azulada, ganhava um brilho esverdeado conforme o toque da luz do sol, mas durante a noite parecia ser como uma pérola, destacavam seus olhos de luar, claros e atentos, sempre parecendo ocultar algo, um jogalhete, uma nova oferta. Usava roupas estranhas, sua maioria feitas por teias de aranhas cuidadosamente trançadas para formar as mais finas rendas possíveis, estas contavam histórias, ouvira dizer uma vez, durante um festival sob a luz do luar. Histórias que mais gostava, fossem de amantes desafortunados ou meramente algum artista perdido em sua própria miséria. ressentiu-se por um tempo da criatura de asas holográficas e olhar tão atento que fazia com que sentisse como se sua pele estivesse em chamas, como se dentro de si tamanho anseio, acendido com mera fagulha, aos pouco a consumisse de corpo e alma sem mais demandas e questionamentos. Deleitava-se com as estripulias da corte, espreguiçava-se sobre troncos de árvores como uma gata manhosa, e às vezes, em momentos aleatórios, quando menos esperava, lhe trazia um presente. Uma dádiva dizia: coisas simples, mas de certo, marcantes. Uma lágrima de gelo, cuidadosamente esculpida para que pudesse refletir a aurora boreal de lugares distantes. Um dente esculpido em um prendedor de cabelo que poderia transformar alguns fios de seus cabelos em ouro puro, trançando-os com o aroma suave de jasmim. Uma gota de sangue petrificada dentro de um talismã que ajudava-a a dormir à noite, e a manter-se desperta durante os dias. Um vestido feito de pétalas de camélia e pequenas penas de pombas brancas. Uma harpa cuidadosamente entalhada com flores e carvalho branco, que apenas reconhecia os dedos de como donos.
Mas elusiva era sua presença física.
Conforme as estações mudaram, percebeu-se entediada com alguns jogos, previsíveis demais. A beleza a ser desfrutada na Corte das Fadas era demasiada, mas não possuía tamanha vivacidade como possuía, e de alguma forma, mesmo sem sequer perceber, passou a gravitar ao redor da princesa. Percebera de certo imediato que era a favorita de seu Rei. Ambos se pareciam, de certa forma, mas onde o Rei das Fadas parecia ser a dicotomia de luz e sombra, era cores. Vividas, inúmeras, transmutando pelo espaço como uma entidade própria, inesquecível. Florescia radiante entre tantos pesadelos e sonhos, real. , mesmo a contra gosto, se percebeu gravitando ao redor de . Tentou resistir a princípio, a criar desculpas e manter distância, soubera por Rhobyn, a criatura taciturna de cabelos pálidos como neve e chifres curvados como os de um carneiro, irmão de , que ela só a sequestrara com o único propósito de mantê-la como sua musicista pessoal. Gostava do som de sua voz, gostava de como cantava, e como suas habilidades pareciam encantar os outros membros de sua corte, gostava de como a atenção de voltava-se para ela, mas apenas isso. De crueldade e distância, parecia ser composta — como todos os outros naquele lugar.
Mas traiçoeiro como era, não poderia domar seu coração, mais do que compreendê-lo. Mesmo a contragosto, mesmo contra os avisos e pedidos, decidira que naquela noite, colocaria um basta. Pediria para voltar para casa. Pediria para deixar aquele mundo de maravilhas impossíveis de serem compreendidas por uma mera mortal, tão belo quanto dolorosos espinhos, como quem despertava de um sonho, e jamais iria se arrepender. A essa altura, tinha plena consciência de que alguns anos haviam passado. Não muito para que as linhas do tempo se fizessem presentes em sua pele, mas o suficiente para que tal ressentimento e mágoa que a trouxera aquela escapada pela traição de sua família, tivesse se desintegrado a mero incômodo, uma cicatriz leviana, quase desaparecida sob sua pele. Faria um acordo com , se assim fosse necessário, mas não passaria mais um segundo ali.
Acossada pelos reverberados grasnados do magpie que a tudo observava, atravessou o riacho de águas cristalinas e pedras que lembrava vidro marinho, cintilando com uma infinidade de cores que sua mente humana jamais seria capaz de registrar em toda sua completude. Desprovida de graça, saltou de superfície plana em superfície plana, estendendo os braços para manter seu equilíbrio, falhou, torpe e desengonçada em seu objetivo. Seus calcanhares afundaram na água gélida, sentindo a correnteza tocar-lhe os calcanhares despidos, forçando-a com suave empuxo para longe. Um pouco mais à frente, deparou-se com uma cena um tanto quanto inusitada, mas não menos familiar. Uma festa, de certo, em todos os seus aspectos mais formais da Corte do Rei das Fadas, sob desenlaces luminosos do por do sol, criaturas dos suas mais variadas naturezas dançavam, riam e embebedavam-se, um grupo de faunos tocavam alaúdes e harpas, cavaleiros do Rei das Fadas observavam ao longe, no topo das colinas, alguns balançavam as cabeças no ritmo familiar, outros permaneciam como figuras pétreas tal qual as estátuas que eram. Sopros de pura cor eram lançadas pelos ares, tingindo e manchando as peles translúcidas de sereianos, de fadas e elfos, mortais, capturados por algum travesso feérico dançavam sem conseguir conter-se, movendo-se ao ritmo com anseio permeado por desalento. Giravam em círculos, saltavam e dançavam sem que seus corpos obedecessem. Corpos moviam-se em sincronias em tórrida passional dança, peles expostas sem quaisquer compreensão de promiscuidade e propriedade. E em algum lugar, podia sentir o peso da presença do Rei das Fadas, ainda que este não estivesse participando do banquete. Um pequeno enxame de pixies flutuavam pelos ares, um pouco mais acima onde frutos de uma tonalidade dourada como ouro, refletindo os tons alaranjados e avermelhados do pôr do sol, em um formato vago que assemelhava-se com uma mistura de maçãs e romãs, agitavam-se tentando roubar mais um fruto ou apenas acertar os mortais que se desviasse da roda de dança.
engoliu em seco, hesitando. Seus olhos voltaram-se para a trilha de pedras que tentara saltar, lembrando-se de onde seu caminho havia começado, observando onde ladino magpie a assistia com olhos pretos intensos, arbitrário. Sabia que se assim desejasse, poderia fazer caminho inverso e retornar para a segurança de seus aposentos na árvore de . Sabia que deveria fazer; banquetes de fadas eram raramente um evento vantajoso para humanos se você não estivesse disposto a oferecer algo, mas então, obrigou-se a lembrar porque havia seguido tal caminho. Resfolegou uma, duas vezes, então, endireitando os ombros, marchou por entre as flores silvestres, pela música convidativa e tentadora, pelos rostos sorridentes, e pelos toques convidativos daqueles que havia passado a reconhecer como seus novos senhores, buscando, ansiosamente, pelo rosto familiar de . Não a encontrou de imediato.
Vira rostos familiares, breve lampejo tivera de Rhobyn com sua expressão taciturna e chifres polidos desaparecendo pelas sombras, a dama de cabelos como chamas, Althea se embebedava ao som de um fauno sorridente ao recitar-lhe destrezas outrora valiosas; cantava sobre cavaleiros, sobre damas nos lagos, e sobre uma promessa quebrada. A criatura composta de sombras, vagava projetando-se sobre o ombro de uma mortal enfeitiçada, risonha, alvo de atenção de algumas pixies. Sentiu-se pequena, insignificante, como se o tempo, cruel senhor como era, pudesse apagá-la em um simples estalar de seus dedos. E então, deparou-se com o Rei das Fadas. O temor não tardou a tomar-lhe o coração como refém, engoliu em seco como se o ato de mero respirar fosse agora, composto de força hermética. A mesura desajeitada fora feita pelo medo de irritar tal criatura que de poder emanava como uma sombra. Não saberia dizer se de tal ato bom grado havia conquistado ou se apenas irritá-lo por sua presença. Olhos insondáveis a acompanharam como um predador, antes de girar em seus calcanhares e disparar por entre um caminho estreito de roseiras, desesperada para escapar daquela sandice ilusória. De seus lábios secos, arfares escapavam, seus pés chapinhavam relva macia, acostumados a essa altura com a textura do solo, com a sensação de lama entre os dedos, o ruído distante de seu próprio desalento a persegui-la como fantasma.
Não percebeu sopro colorido quando virou para a direita, tentando lembrar-se de qual caminho tomara para chegar até ali, quando uma nuvem de pigmentos coloridos acertou-a com precisão. Um riso melodioso ecoou à sua esquerda, mas o exalo exasperado, seguido de uma tosse brusca silenciou doce canto.
piscou algumas vezes, tentando afastar a mancha colorida de seus olhos, antes de voltar-se na direção de onde havia partido. Escorada languidamente contra um tronco largo de carvalho, os olhos de luar de pareciam cintilar com uma mistura de curiosidade, afabilidade e, sem sombra de dúvidas, irritação. Os lábios cheios estavam curvados para cima, em um sorriso afiado como navalha, mas havia certa reprovação em sua postura. engoliu em seco, suprindo o impulso de encolher-se com olhar severo que recebera. poderia ser muitas coisas, mas jamais a olhava daquela forma, arriscar-se pela floresta, ciente de um banquete aconteceria sem ao menos as sorvas de proteção que usava enroladas nos pulsos, fora leviano, e digno de punição. Vindo de uma fada, sabia que não seria algo que desejava de fato conhecer. Tão cruéis quanto belos, nenhum deles oferecia segunda chance.
— Assumo que inquirir sua presença aquém seja mero praxe — murmurou, um ronronar convidativo, tão traiçoeiro quando espalhou-se pelo pequeno corredor de rosas e vinhas que se formava para lugar algum. Desencostando-se da árvore, a princesa das fadas conduziu-se, elegante como uma gata até onde estava. Esta apertou os lábios em uma linha, estreitou os olhos e preparou-se para a opugnação. Observou-a com cuidado, e de imediato, não pode deixar de esbaldar-se em sua beleza. sempre havia sido uma visão de graciosidade e perigo, mas sob a luz do pôr do sol, ganhava maior notoriedade, como se aquele entremeio dourado, banhado tudo a ouro, pudesse oferecer-lhe tamanha lisonja ao ponto de ter saído de um dos mais doces sonhos que tivera. Uma figura, não caricata, mas de impossível compreensão mesmo para as mentes mais capazes. Cachos pesados presos em um penteado meio preso, meio solto, revelava orelhas pontudas, uma pequena penugem formava-se nas pontas, como penas de pássaros, esbranquiçadas, embora algumas ainda parecessem cintilar holográficas. Lábios cheios e convidativos possuíam marca dourada do sumo da fruta que provavelmente havia pego das pixies, manchas coloridas da magia em pó espalhavam-se pelo corpo semi despido. havia aprendido mais rápido do que deveria que modéstia não era algo natural para os feéricos, mas rubor não tardou em tingir suas feições, mesmo coberta com suave camada de pigmento esverdeado, ao notar como as folhas secas, avermelhadas adoravam o corpo de com graciosidade. O vestido curto não chegava a metade das coxas, possuía um corte em forma que revelava parte de seu abdômen e cintura, e se cobria seus seios, por muito o fazia sem desinteresse algum. Naquela iluminação, sua pele parecia como uma pérola, as asas, agitando-se atrás de si com suave tilintar, pareciam com diamante. — Se ao acordo ultraja, que ao menos de tua boca faça bom uso, ande, elucide tal afoita, espero-te.
tencionou a mandíbula com suave estalo, lançando um breve olhar na direção de onde o banquete acontecia, antes de voltar a encará-la. Ergueu o queixo, petulante, e a viu conter um pequeno sorriso.
— Acinte criatura — ao sequer importar-se em perder batalha contra seu sorriso, murmurou, divertida, ao inclinar a cabeça para o lado, assistindo como um predador satisfeito por ter sua presa no exato lugar que desejava. — De minha indulgência, menospreza com tamanha platitude? Toma-me por parva, de certo? Ou viera aqui com coração farto de outros desígnios?
revirou os olhos, endireitando os ombros.
— Do acordo há nada quebrei — pontuou, teimosa. soltou um bufar baixinho, sorrindo como uma gata. Os olhos de luar nunca pareceram tão vividos, e por um momento perdeu-se ali, imaginou a sensação que seria de tê-los voltados para si sem restrição. Piscou algumas vezes, desconcertada, levou as duas mãos para trás de suas costas, tentando lembrar-se do motivo para estar ali. Viera porque tinha um pedido, e com este realizado somente sairia, nenhum encantamento ou charme feérico poderia impedi-la, ao menos, não desta vez. — Se estou aqui, venho porque peditório tributo espero — estreitou os olhos, parecendo incomodada, mas nada disse. Seu queixo fino e delicado ergueu-se, não por desafio ou provocação, mas por pura atenção. E traiçoeiro este coração batia no peito de que não podia deixar de acelerar com tal visão. Sua garganta apertou-se um pouco, e esqueceu-se do ato de respirar com a mesma facilidade que a seguira para aquele mundo fantástico. — Servi-lhe a tua maneira como era de nosso acordo, agora, peço que leve-me para casa.
Palavras que derramaram-se de sua boca, roubaram o ar e o raciocínio de . Os olhos de luar da princesa das fadas endureceram, assistiram-na com atenção permeada pela irritação, o ego gritante mais alto do que a compressão julgava-a por sua atitude como mera ingratidão calculada. prendeu sua respiração e aguardou, todavia, em silêncio à espera de sua sentença. Forçou-se a banhar na inércia de sua presença, recusando-se a intimidar sob peso de tal olhar, ainda que uma parte de si, permeada por instinto e sobrevivência, soubesse que não era uma boa ideia irritar um feérico. Mas não era apenas uma feérica, era .
— Diga-me … — começou a dizer, mas soltou suave chiado em reprovação.
— corrigiu, afiada, pelo o que pareceu ser a vigésima vez. pausou por um momento, erguendo uma sobrancelha angulosa, sem dizer nada, então com movimento gracioso, virou-se para a direita, estendendo os dedos longos e elegantes, envoltos por fina membrana que transparente reluziam, como teias de aranhas. Traçou ausente as pétalas de sortuda rosa, e os olhos de perderam-se no movimento, no gesto quase imperceptível. Traiçoeira fora tua mente que conjurou suave convite, imaginando como porventura seria a sensação de tê-la tocando-a com a mesma reverência como fazia com a flor.
— repetiu , e um arrepio indevido percorreu pelo corpo de . Rubor de suas bochechas não tardou a aumentar, mesmo que naturalidade desesperada tentava invocar. — Não oferto o que anseia? Malogradas tentativas de cativar-lhe de efêmeras existência tornam-se? — virou seu rosto na direção de , a dureza de seus olhos aos poucos transmutou-se para uma melancolia crescente, um pesar suave ao deixar suas mãos desabarem da rosa, e então deu mais um passo na direção da outra. Frente a frente, o aroma irresistível tomou as narinas de que sentiu uma parte de si começar a ceder mesmo sem perceber. Seu coração agitou-se como um pássaro, não mais preso em uma gaiola de ossos, mas livre o suficiente para ansiar voo. uniu as sobrancelhas, transparente como água, suave como um sussurro saudoso que nunca soubera que desejava, mas que agora, reconhecia percebia-se esfomeada. — Diga-me, minha , o que fiz para que se despoja de minhas regalias?
engoliu em seco. A presença de sobrecarregou, estava por todo lado e era tudo o que ela conseguia perceber. Um arfar suave escapou de seus lábios entreabertos, quando sem resistência alguma, permitiu que tomasse seu rosto em suas mãos elegantes. Sua pele era macia, não como veludo, mas como seda pressionada sob baixa temperatura, era gelada, é claro, mas não de forma incômoda. Intoxicante por existência. Suas palavras perderam-se em sua garganta, e tudo o que pudera fazer foi ansiar por romper-lhe a distância, por descobrir qual seria o gosto de seus lábios contra os seus, qual seria seu gosto, e se assombro religioso pudesse lançá-la a compulsória reprimenda, não fizera questão de lembrar-se por muito, concepção de pecado, naquela terra de criaturas livres, soava como troca cômica. De risos fariam-se descrença de sua existência.
— E como não posso rejeitar se a me tratar como animal? Uma conveniência para seus caprichos! — sussurrou, cálido hálito misturando-se com aroma pungente de flores silvestres que pareciam permear a pele de como sua marca registrada. Não era um perfume, era o cheiro dela. Selvagem, puro, indomável, e dolorosas batidas de seu coração ansiava pelo gosto do que sabia que jamais poderia ser inteiramente seu. — Pois então ofereça-me liberdade, senão pode dignidade.
franziu o cenho, parecendo ultrajada, não pelo pedido, mas pelas palavras escolhidas. Encarou-a como quem vê pela primeira vez um desconhecido, ou, se porventura a tanto, assistiu-a como a quem finalmente enxergava tal companhia como um todo, não somente as partes que bem lhe fascinavam.
— Não permitirá que ao menos tente convencê-la de oposta percepção?
— Desguarnecido empenho, de alguma idoneidade o tomo!
— Pois que de uma jura permita-me oferta! — Contrapôs , pesaroso desalento tingindo doce voz, tornando-a agridoce mesmo para seus ouvidos mortais. De tamanha firmeza, assemelhando-se como o mais puro dos metais, todavia, fazia-se. A severidade com que encarava , sua urgência mal disfarçada, ofereceu momentânea cautela a ela. Engoliu em seco, mais uma vez, assentindo, sem mais nada a dizer. — Darei a liberdade que deseja, pois de atroz cunho recuso-me a tornar-me parte, se permito-lhe estadia aqui, o faço porque anseio por sua permanência, mas se não mais deseja, que parta em paz, sem arrependimento ou olhares para trás. Que esqueça-me tal qual sonho febril, que tratarei de fazer o mesmo contigo, nem que para isso precise arrancar de meu peito coração cuja existência me era desconhecida até o momento — retrucou , a elegância quase divina natural de seus atos adquirindo leve desjeito. Sua graciosidade oferecia-se tingida por sua própria ansiedade e melancolia. Apertou os lábios, com um assentir suave, concordando com antes de afastar seu rosto para trás. — Mas ao menos outorgue-me digna convicção, por que, somente agora, decide ir embora? Se por saudosismo infestou seu peito, não teria a pedir tal favor antes? Por que somente agora, depois de tanto tempo, decide abandonar-me?
engoliu em seco, tentando encontrar palavras para responder a pergunta, mas pegou-se a exiguidade destas. Sua garganta se contraiu, como se porventura estivesse disposto a tentar expelir suas palavras, mesmo a força, sem obter qualquer sucesso. Ecoou, em contrapartida, as palavras de , quase viciosa forma, incapaz de impedir-se, questionamento sem resposta pulsava por sua mente vívida e em explícita exposição de sua falha de julgamento. Tivera anos para fugir, para ir embora, porque o escolhia agora? Percebeu-se então à frente de uma admissão a muito relegada prioridade. Não poderia mais escapar disso, por mais que desejasse.
— Preciso evidenciar o motivo? Se acaso ainda não percebeu, torna-se cega por conveniência — exalou, desviando os olhos do rosto e e apertando os lábios, com certo ressentimento. Tencionou a mandíbula, tentando conter o tom embargado que apoderava-se de sua voz. — Não pertenço a tua vida mais do que pertence à minha, mas se até mesmo liberdade nega-me, como posso ver aqui como minha casa?
uniu as sobrancelhas, outra vez, deixando suas mãos desabarem, e dando um passo para trás. Assentiu deliberadamente como se absorver tais palavras tal fosse tarefa hermética, causando-se lhe demasiado cansaço. O gosto amargo que deveria ter sentido espalhar-se explicou-se por seu rosto deslumbrante com uma discreta careta.
— Pois que seja como desejar, então — assentiu, parecendo o mais próximo de magoada que uma criatura como ela poderia sentir-se. estreitou os olhos, desta vez, aquela a se aproximar, de repente curiosa com coloridas emoções que tingiam a face etérea de tal criatura. Tentou compreendê-la, mas não soube ao certo se seria capaz de o fazer, não com tamanha disparidade de realidades que ambas carregavam. Os olhos de luar de voltaram-se para outra vez, e aquele brilho ladino presente mas permeado por uma melancolia crescente. Brisa suave tocara ambas as peles cálidas, afastando as mechas de seus cabelos para longe de seus rostos, e por um momento sentiu-se tentada em apenas inclinar-se na direção de . Se lhe roubasse um beijo, a recusaria ou puniria por tamanha ousadia? Sentiria nojo? Desprezaria-a como tantos os outros faziam? Ou… — Ofertarei sua liberdade, se é o que deseja, mas em troca peço-lhe uma única coisa — aproximou-se mais uma vez de até que suas respirações amalgamaram, cálidas e potentes, rarefeito para a mente mortal de não menos convidativa. Sem desviar de seus olhos, permitiu-se admirá-la por um momento. — Torne-se minha, por efêmero dia, mesmo que apenas por vã promessa e infundadas palavras.
engoliu em seco, buscando nos olhos de a onde estaria porventura sua mentira. Esperou encontrar a travessura ou mínimo gesto traiçoeiro que entregasse leviana patranha elaborada, mas de seus olhos deparou-se apenas com sinceridade.
— Prometa-me que jamais usará de seus artifícios para enganar-me outra vez — comandou, seu tom não oferecia barganhas ou alternativas se não imediato acato. estreitou os olhos, cautelosa, mas para estupefação de , concordou com aceno de cabeça. considerou questionar-lhe com qual profundidade de seriedade tomava suas palavras, mas quaisquer pensamentos que pudesse ter ocupando sua mente, desapareceram quando a princesa das fadas ficou na ponta de seus pés, asas agitando-se atrás de si, ao beijá-la.
A princípio sentiu-se tensa, quase pega desprevenida com o gesto, seu corpo enrijeceu e seus olhos se arregalaram, o toque macio e cálido dos lábios de , pressionados contra os seus pareciam adquirir uma mistura de sabores irresistíveis. O gosto pungente e adocicado como mel da fruta dourada que ela estivera saboreando anteriormente, misturando com aquele sabor unicamente de . Mas então, como se ela estivesse se desfazendo, tal qual espuma no mar, tudo pareceu desaparecer com a sensação dos lábios de movendo-se contra os seus. suspirou, entregando-se aquele beijo. O calor outrora tímido em crescente contagiou-a por completo, queimava sua pele como pequenas brasas, eletrizou os pelos de seu corpo, pulsava com um ritmo acelerado em seu peito. Um suspiro suave escapou de seus lábios, ao sentir aprofundar o beijo. agarrou-se à princesa das fadas como alguém que se afogava, ansiando pelo porto-seguro que encontrara ali, à sua espera. Beijou-a como se memorizá-la não fosse o suficiente, como se desejasse imprimir uma parte dela em si, e aceitar tal acordo nunca lhe soara tão fácil.
— como súplica suave, a voz de ecoou pelo ouvido esquerdo de . O arrepio que se seguiu por seu corpo fora o suficiente para que desvairado anseio a tomasse de supetão. Fechou os olhos como se pudesse aproveitar fisicamente a intangibilidade do mel que encontrava-se nas doces promessas de . , havia dito, e em um suspiro, deixou escapar. — Para que quando sinta falta, invoque-me que a encontrarei. Diga meu nome, minha , que como desejar, farei. — E desta vez, foi quem a beijou.
Nenhuma das duas, todavia, percebeu que de todos, o impenetrável olhar do Rei das Fadas, em suas costas, recaía.


• ATO II.

Presença silenciosa projetava-se sobre o trono, a inexpressividade oferecida, provinda de fria indiferença, explicitava distância insólita a súplica apavorada que o Rei das Fadas assistiu. A seus pés, lutava para manter seu semblante neutro, mas a urgência que pairava por seu olhar identificava, facilmente, seu desalento. Mas pouco poderia ser feito. A súplica desesperada havia atingindo ouvidos surdos, e não importava o quanto ela tentasse convencê-lo, não importava o quanto implorasse por sua compreensão, para que considerasse seu pedido, Oberon permanecia, como sempre uma figura pétrea, sua única companhia o retumbar inquestionável de seu pedido:
. Ele a queria para si, e , sendo sua filha, não tinha outra escolha senão acatar a seu comando; ao pronunciar seu nome, o Rei das Fadas teria o que desejava. Entregou o nome de com a facilidade de um suave arfar, como se movida pela névoa sombria de um pesadelo que sequer havia começado, mas que de certo não havia escapatória. Ela ainda tentou lutar, tentou cortar a própria língua, mas restringindo seus braços com vinhas repletas de espinhos em suas costas, havia perdido antes mesmo de ter começado. Fizera então a única coisa que restara: fugiu.
Permeado por desalento e intrínseco pavor, a princesa das fadas correu com toda a força que restava em seu corpo pelos corredores esverdeados das árvores. Ignorou os clamores repletos de advertências, ou o grasnado lânguido do magpie que a tudo assistia. Os olhos de luar desviavam-se do caminho para vislumbrar o que encontrava-se atrás de si. A certeza de que os cavaleiros de pedra de seu pai estavam alcançando-a não era pior do que a urgência permeada pela hedionda sensação ditame que apunhalava o peito. A certeza de que desta vez não haveria como impedi-lo por mais que desejasse. Os pés descalços, sempre elegantes, chapinhavam a lama que se formava por entre as raízes e solo irregular com urgência, o eco do choque fazia com pequenas fagulhas cintilantes de bioluminescência dos cogumelos pelo caminho se erguerem como manto brilhante. Espiralavam pelo ar como pequenas estrelas cadentes, adentrando outra vez na atmosfera. O ar escapava, irregular e áspero de sua garganta, sua caixa torácica expandia-se com força quase violenta, tentando manter o ritmo, os olhos de luar cintilavam, marejados, ao buscar uma maneira de escapar do mundo das fadas e encontrar . Sabia onde deveria ir, sabia que ela porventura estaria a esperando. Havia a chamado na noite anterior, e então na posterior, e por assim consequente. Mas agora, agora o fazia por puro e solene desespero. Se não chegasse a tempo, não poderia salvá-la. Se não chegasse a tempo, então Oberon a alcançaria, e se o fizesse tudo estaria perdido.
lançou-se contra um desfiladeiro, rolando pelo próprio corpo sem fazer menção quaisquer para impedir-se de parar, pedregulhos fincaram-se contra sua pele, rasgando-a sem quaisquer delicadezas, icor dourado deslizando pelos pequenos arranhados, manchando o vestido de renda de teias de aranha e ossos de cervos, folhas secas adentraram em seus lábios partidos, dissipadas pelo arfar desesperado, o trêmulo corpo aos poucos esgotando-se a seu limite. Flechas cortaram os ventos acompanhadas de zunidos baixos não menos reais, riscando o espaço, beijando-lhe de raspão maltratada pela pele. O grito que projetara-se em sua garganta não tardou em desaparecer conforme a dor espalhava-se pelo corpo. Não a dor de ter sido atingida por um de seus, agora, inimigos, mas o desespero que amalgamava-se com a desesperança com a certeza de que não conseguiria chegar a tempo. Com a certeza de que a perderia desta vez.
Já estava amanhecendo quando , exausta, mas sem parar, alcançou uma pequena cabana bem cuidada e simplória ao pé das montanhas, entre o mundo dos mortais e a entrada para o mundo das fadas, que havia se instalado. Por tanto tempo tal local viera a ser conforto e uma oportunidade de recuperar seu fôlego, de escapar das tramoias constantes dos membros da Corte de seu pai, e da realidade em que a leviandade andava de mãos dadas com a travessura inconsequente. descobrira para si um mundo diferente, um mundo onde ela não era apenas a princesa das fadas, desesperada por atenção, buscando sem reprimendas algo que pudesse preencher o vazio de formato estranho que formava-se em seu peito desde que fora muito pequena; era sua casa. Sua verdadeira casa. E havia escolhido ficar, havia escolhido compartilhar aquilo com ela. De repente o buraco em seu peito havia sido preenchido por tudo o que era : seu cheiro, sua atenção, seus olhos e sorrisos, suas roupas, sua presença e sua alma. Embebida de , deleitava-se todas as noites, ainda que pelas manhãs tivesse que tomar seu caminho de volta para o palácio do pai o fazia com a consciência tranquila que teria a quem voltar uma vez que o sol voltasse a se pôr.
Até agora. Agora a cabana tornou-se um lembrete amargo de uma promessa que ela teria que quebrar. Um sacrifício desesperado para garantir que sua amada ao menos tivesse uma chance de sobreviver ao monstro que Oberon, seu pai, realmente era. O Rei das Fadas nunca recebeu um não. Vivia sob suas regras claras e precisas, jamais quebradas. O que lhe era dito, tornava-se lei, e incontestável quanto, reverberava por toda eternidade. Oberon não era conhecido por sua paciência, tampouco por sua misericórdia. Não havia escolha, não havia outra alternativa. Deparou-se com a esperando como sempre a frente de seu piano, doce melodia abruptamente silenciada com um erro dissonante que sequer fora notado por . Os olhos de luar arregalados encontraram-se urgentes com .
— Preciso que faça o que digo — comandou urgentemente, e franziu o cenho, desconfiada com o tom que a voz de sua amada carregava. Ajudando-a a livrar-se das vinhas que cravaram-lhe a pele, tivera pouco tempo para compreender tamanha dimensão do problema que encontrava-se. Liberta de suas restrições, tomou o rosto de , obrigando-a a encará-la, ignorando o pesar que crescia por seu peito, corrompendo o pouco do calor que a mantinha conectada a , corroendo-a de dentro para fora com o peso de sua escolha. — , você irá ir embora, irá esquecer tudo o que sabe sobre os meus, toma tua vida de volta como se nada nunca tivesse visto, sequer sonho ousara ter — comandou, as palavras derramadas por seus lábios ecoando aveludadas, como mel, doces e convidativas ao serem permeadas pela magia que , outrora havia jurado que jamais usaria outra vez com .
Por um momento, prendeu a respiração, envolta por tamanho desalento pode apenas esperar para que o truque tivesse funcionado, mas algo em seu estômago pareceu contorcer-se ao perceber que ao em vez de clareza e nebulosidade da desorientação do feitiço, o semblante de havia tornado-se primeiro surpreso, então sombrio e em última instância, magoado. Com um empuxo abrupto, empurrou para trás, as bochechas coradas não pelo afeto, mas pela crescente mágoa, mísero lampejar traiçoeiro pareceu pulsar por seus olhos intensos, a recusa em acreditar misturada com a estupefata percepção de que havia acabado de traí-la.
— Prometeu que jamais faria isso… — sussurrou, e a ofensa em sua voz não foi pior do que a acusação que pairava por seu olhar. abriu a boca para explicar a sua porque havia o feito, questionando-se a onde poderia ter errado, porque o feitiço não havia funcionado. Viera percebeu apenas semanas depois, em meio ao vazio assombroso da terra dos mortos que sua promessa, selada com a própria magia, tornara , por consequência, invulnerável a suas tentativas de enfeitiçá-la. Tamanha falha, ainda encoberta pelos subterfúgios do desespero, era mínima comparada com o olhar repleto de traição que lhe ofertava. — Saia — Comandou com a voz embargada, mas não pode acatar a tal ordem.
Tentou agarrar-se aos pulsos e braços de , mas um solavanco abrupto a empurrou para trás com força o suficiente para que a momentânea graciosidade fosse esquecida, substituída por uma efêmera sensação de desnorteamento.
, por favor, me deixa explicar… você não entende… — tentou suplicar, mas não estava ouvindo. A quebra de sua confiança pesava mais do que a âncora que outrora havia sido suspensa de seu uso ao acolhê-la. — Meu pai está atrás de você, a quer como parte…
— E a primeira ideia acaso é justamente tornar-me tua serva outra vez?! — bradou, magoada. A raiva condensou-se em vaga frustração permeando sua voz com o peso de pequenas adagas afiadas direcionadas bem ao centro de seu peito. — Pois que seja então, saia! — Ordenou novamente, mas não moveu um músculo, tentou esticar as mãos para alcançá-la outra vez. Tentou agarrar-lhe o braço e implorar por perdão, pelo erro que cometeu, embora estivesse disposta a tudo, incluindo sacrificar o que possuía se isso fosse garantir que estivesse longe do alcance de seu pai.
Mas não esperou para ouvi-la. Em contrapartida ao rompante de , a mortal marchou de volta a seus aposentos, e de poucas coisas preparou uma mala. Atravessaria a entrada para o mundo humano, e desta vez, não a chamaria, não invocaria seu nome nem sua presença, deixaria para trás tudo o que era das fadas, e focaria em esquecer. Se porventura não conseguia vê-la como mais do que um animalzinho de estimação, então, que convivesse consigo mesma sozinha. O que quer que estivesse preso em sua garganta quando marchou em direção da porta de entrada da cabana, nunca fora proferido.
Um ruído metálico rápido, preciso tilintar pela atmosfera, marcado pelo golpe rápido e limpo, desprovido de quaisquer indulgências ofertadas a princesa das fadas. Os olhos de sequer registraram de imediato o que havia acontecido, sua respiração perdeu-se ao centro de sua garganta, os olhos arregalados estavam congelados na imagem que transcorria a sua frente. Em um segundo, parecia prestes a lhe dizer para que nunca mais a procurasse, para dizer algo que de certo tornaria frangalhos algo em seu peito sem que pudesse corrigi-lo outra vez. No segundo seguinte, uma linha avermelhada surgira a base de seu pescoço, projetando-se por sua pele macia, a linha avermelhada pareceu crescer quando os olhos intensos de aos poucos se tornaram pétreos. Então a cabeça de inclinou-se para trás, mas seu corpo pendeu para frente, e com hedionda compreensão, de que havia a perdido. Que não havia como colocar-se contra os desejos do Rei das Fadas

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Ao estandarte das almas condenadas, figura curvada e silenciosa fazia-se observadora, com esmero afiava a ponta de uma de suas flechas. A cabeça inclinada para o lado, resvalava contra a madeira e espinhos de seu trono, quando a ossada no formado de galhadas de um cervo arranhavam o mesmo local, por movimento repetitivo. Os lábios permaneceram recurvados em uma expressão desaprovadora ao ouvir o eco dos passos que tocavam o chão de mármore polido, não ousou erguer a linha de seu olhar, os olhos prateados como estrelas permaneceram fixos nos delicados entalhes mágicos que a extensão de sua flecha possuía. A base era feita com suas próprias penas, azuladas, esbranquiçadas e pretas, era, de certo, maneira de explicitar sua posse sobre sua caça. Inúmeras almas em seu território possuíam sua marca, renomado caçador, nunca perdera um alvo. Mas de indulgências e concessões igualmente não vivia, e a presença dela ali não era uma surpresa quanto igualmente de seu próprio agrado.
— Não posso realizar o que desejas criança. Pois tome teu rumo então, retorne para casa, em frente a punição daquele a quem ofertou sua primeira respiração, e deixe-me em paz — latente voz grave, de pungente intensidade parecia vibrar abaixo da pele de , sentindo-a pulsar, suave tormento, com promessa de retribuição diante de imediato desacato. Ainda assim, não se intimidou. Desesperada como encontrava-se, parou à frente do trono de seu tio, a alguns degraus abaixo, colocando-se de joelhos. Abatidos olhos lunares permaneceram fixos no chão, não no rosto do antigo caçador, os lábios ressecados evidenciaram a torutra suportada de um Rei tão cruel quanto poderoso que deleitava-se com tal visão. Os cabelos estavam cortados de maneira errática, violenta, em variados tamanhos e forma, mas a visão que mais incomodava era a delicadeza com a qual abraçava gentil e cuidadosa a cabeça enrolada em panos limpos, o polegar traçando o crânio agora desfazendo-se de suas carnes e peles para explicitar os ossos.
não ergueu seu olhar, como se presa em um transe distante, quase sufocante, proveniente de seus mais profundos pesadelos. Como se a apatia tivesse corroído-a por completude que mais nada parecia importar.
— Por favor… — rogou em uma fina e frágil voz, a docilidade tão quebradiça quanto uma fina camada de gelo sob águas revoltas, embargada, transbordando com o próprio luto e desalento. não ocultou as lágrimas que de seu rosto escorriam, manchando a pele perfeita com marcas avermelhadas, não importou-se com a forma patética e desesperada que poderia parecer, pois não mais sentia-se uma princesa, não mais importava-se em ser uma delas. Se estava vivendo no limbo, de bom grado, desejava apenas permitir-se ser consumida por completo. Se porventura isso ao menos aplacasse um pouco o peso da culpa e o saudosismo dilacerante que a cortara com tamanha profundidade, não mais importava. — Por favor… por favor meu tio… que compreenda minha situação… — Implorou .
Gwyn exalou por entre as presas afiadas que pemeavam sua boca, um tom reprovatório permeado por compreensão e gentileza. Mesmo que fosse o guardião da morte, não era desprovido de consciência tampouco coração, então o rei do Outro Lado, voltou seu olhar para a sobrinha, repousando sua flecha no chão.
— Sabe que não posso ajudá-la — informou Gwyn com seriedade, mas não menos cuidado, pois o coração partido entendia a necessidade desesperada de agarrar-se ao pouco que restava. Não queria que a sobrinha, tão bem quista e de nobres intenções deturpadas pelo pesar, desalento seguissem caminho semelhante que o pai dela havia tomado. — Enterre-a com tuas glórias, recorde o nome, mas não peça-me para que ofereça-a de volta, pois mesmo que seja uma das minhas agora, não posso liberar uma alma de seu leito eterno para vagar por essas terras sem nova consequência, .
soluçou, erguendo a linha de seu olhar para prender-se aos olhos estelares de Gwyn Ap Nudd.
— Por favor… — tentou novamente, a voz tornando-se mais esganiçada, desesperada ao arrastar-se na direção de onde o tio permanecia sentado, assistindo-a com uma mistura de pesar e implacabilidade. Não menos gentil, mas não menos inclinado a ceder a suas demandas. — Oferto-lhe o que desejar, o que quiser, tome e será teu, mas por favor, só desta vez… eu imploro, traga a de volta… traga-a para mim…
Gwyn permaneceu impassível, encarando-a por um longo momento em completo silêncio.
— Não.
Retumbante sepulcral silêncio estendeu-se pela sala de seu trono. Os soluços de , melodia lamuriosa mal contida que pulsava como os batimentos cardíacos da outrora princesa das fadas. Os olhos pareceram adquirir ainda mais nota de desesperança, mas o Rei do Outro Lado permaneceu firme em sua decisão. A morte não poderia criar exceções, existia um equilíbrio, existia uma equivalência de seus atos, como tal, deveria permanecer.
— Pois então, que façamos uma troca — sussurrou por fim, estendendo-lhe cabeça decepada da mulher que outrora amou, repousando-a com um cuidado demasiado, uma silenciosa veneração aos pés de Gwyn, o líder da Caçada Selvagem assistiu a outrora princesa inclinar-se para frente em uma mesura profunda e respeitosa. — A minha vida, pela a dela.
Desta vez, Gwyn não conteve um suspiro pesado, pesaroso.

TROVA CONÚBIO DO CALVÁRIO

Doravante selvagens espíritos, vassalos da acrimônia, desertores fadários, Entregues ao extraordinário, recusa ao fardo resignado, iminente vicário, Angariadas almas perdidas, conchavo indelével, elo amiudado, Torna-te déspota tirano, de bom agrado, a morte o tenha saudado.
— GWYN.
MANCHESTER • 1972

Ensurdecedor silêncio alastrou-se pela rua tal qual revestindo-se de um manto pesado, degradada fome arrastava-se sob outrora terra bruta e fétil. Severa e pungente, não houve um ruído sequer que pudesse tomar-lhe para si seus ouvidos pontiagudos; fez-se soberana, magnânima rivalizado apenas com o pulsar contínuo de seus próprios batimentos cardíacos ao centro de seu peito. Os olhos de luar, arregalados, voltaram-se então para a figura de cascalhos manchados de vermelho. Sob seus pés, a cabeça desconectada de quem outrora viera ter conhecido como pai, mas que agora, desfazia-se em um amontoado de poeira estelar e fagulhas como pequenos cintilantes vagalumes a permear tal volátil atmosfera. Os olhos arregalados de , não ocultaram a mistura de surpresa e alívio ao encontrar olhos de estrelas presos em sua face. A expressão impassível da criatura era acompanhada por retumbante silêncio, alastrando-se pelos paralelepípedos de pedras, severamente enterrados no solo, como um lembrete vívido do acordo que havia feito com a própria morte. Não ousou dizer palavra alguma, apenas presa em seu torpor crescente ao observá-lo encará-la de volta. Viu-o girar a espada, elegante e preciso, antes de repousá-la de volta em sua bainha, ocultando-a existência para longe de olhares mais atentos, encobertas por sua aljava. As galhadas de cervo projetavam sombras sob o corpo e rosto de , mas não mais ameaçador era tal presença que o tempo.
O tio não disse nada à sobrinha, sua interferência imediata era um indício de alta traição. Das consequências de sua atitude, por menor dolorosa compreensão, pagamento alto viria a ser feito, mas ao sustentar o olhar da princesa das fadas, tal criatura apenas indicou com a cabeça para que seguisse seu caminho. Desprovida de tempo, não hesitou. Tratou de obrigar-se a levantar, ignorando a dor e o desconforto dos golpes que maltratou seu corpo, da precisão dolorosa que Oberon sempre havia tido, e então, disparou outra vez, correndo carregada pelo vento, agitando suas asas quando era necessário, mesmo que não mais pudesse voar de fato. Disparou por entre vielas estreitas, saltou e deslizou por obstáculos mortais sem parar, até que suas panturrilhas estivessem doloridas, queimando com a intensidade de seu esforço, até que as dores dos cortes e golpes tivessem sido esquecidas pelo latejar contínuo de sua pulsação, ritmado com seu coração.
Não parou até que finalmente tivesse alcançado o pub. Espreitou-se pelas sombras, projetou-se para frente, desviando de corpos que moviam-se ao ritmo agitado do punk rock. Ao centro do palco alguém gritava palavras de ordem, agitando a cabeça ao ritmo da música. Cheiros mortais, variados permeavam o local quase com intensa asfixia, suor, cigarro, e perfume vencido, bebidas espalhavam-se pelo caminho, algumas abandonadas, outras nas mãos das pessoas que riam e conversavam animadamente sobre qualquer tópico mortal possível. Encoberta pelo névoa, não era mais nada se não uma visão comum, desinteressante, exceto para um único olhar.
Escorada contra o balcão do bar, com uma bebida colorida em suas mãos e um cabelo desalinhado, agora de mechas escuras como a noite, mas que lhe eram tão familiar quanto a própria respiração, observou o rosto da mulher que um dia amou, voltar-se em sua direção como se atraída por um imã. Os lábios avermelhados se curvaram suavemente em um pequeno sorriso curioso, porém indiferentes, antes de voltar sua atenção para o pequeno copo com a bebida. Ela estava conversando com alguém do outro lado do balcão, provavelmente o bartender. Explicava-o algo com pequenos detalhes, e por vezes soltava suave risada, tal bálsamo acalentava a alma frígida que outrora considerara perdida. Por um momento considerou se deveria mesmo seguir com aquilo.
Ao vê-la tão feliz e livre, ao vê-la em sua segunda chance sem quaisquer memórias da crueldade que fora capaz de ofertar-lhe, fizera com que a princesa das fadas sentisse o peso de suas ações sob seus ombros, e a contração dolorosa de seu coração bem ao centro de seu peito. Não poderia colocá-la em tal situação outra vez. Não poderia arriscá-la como vã egoísta fora no passado. Então considerou dar-lhe as costas e deixá-la para viver sua vida sob uma névoa de imperícia. Mas havia algo dentro de si que não podia deixá-la escapar, não desta vez, não de novo; algo forte o suficiente que movia seus pés antes mesmo que seu cérebro pudesse acusá-la da escolha egoísta e mesquinha que tomara. E então, guiada como um imã de polaridade oposta, viu-se mais uma vez frente a sua ; mesmo que não fosse exatamente a mesma pessoa.
— Para alguém com sua aparência — ouvi-a dizer e tamanho golpe sentira atingir em seu peito ao perceber com pesar que sequer poderia dizer que lembrava-se da voz dela até ouvi-la outra vez. engoliu em seco apoiando os dois braços sobre o balcão frígido de madeira do bar, voltando seu olhar para frente. Prendia a respiração sem perceber, mas a sensação rarefeito de tudo estar girando não era reflexo de seu instinto, mas pura e imediata causa da presença que por tanto tempo ansiava ter de volta. — Este não parece ser o melhor lugar para estar — pontuou com um pequeno sorriso, parecendo divertida.
Era fato, todavia sua percepção. não era uma figura adequada entre aquelas pessoas repletas de roupas escuras e desafiadoras, mas ainda assim, não permitiu que tais palavras a parassem. Não deixou-se intimidar, mesmo quando sabia que o mais sábio seria apenas partir.
— E acaso deveria seguir seu conselho porque? — questionou, desafiadora, mas seus olhos cintilavam com uma mistura de emoções quase impossíveis de serem compreendidas, um acúmulo que desvanecia em enxurrada invisível diante da mortal à sua frente. soltou um riso abafado, revirando os olhos, mas seu sorriso, ah, seu sorriso foi o suficiente para roubar a respiração de mais uma vez.
— Não siga — murmurou com indiferença, levando o copo em direção aos lábios e virando o copo de uma vez. não conseguiu conter um sorriso ao observá-la. Doloroso saudosismo misturou-se com desesperado anseio para ter de volta o que um dia perdera. — De mim sequer nome sabe, por que seguiria o que faço juízo? — Provocou , lhe oferecendo um pequeno sorriso, quase divertido.
soltou um riso suave, o eco, como suave sinos, pareceu reverberar por baixo da música pesada e raivosa. Um contraste atraente e convidativo que parecia ter capturado a atenção de , ao menos por hora.
— E como poderia chamá-la se porventura não queira que odeie-me? — insistiu, girando em seus calcanhares como a brisa que a envolvia, carregada pelo aroma suave de flores silvestre, do selvagem e perigoso que apenas aqueles como o seus poderiam emanar, e, abaixo de tudo, inquestionável cheiro a tornar-se pungente. Esperança. Traiçoeira amante que já fazia-se presente ao resguardado coração, clamava-o para si sem espaços para questionamentos e hesitações. E após tanto tempo, pela primeira vez, a princesa permitiu-se ser tomada por completo por tal emoção,
sorriu como o sol poderia gentilmente tocar-lhe a pele. Sorriu como se os céus precisassem por ventura de mais uma lua, ou mais um motivo para obscurecer-se apenas para que de apreciação, tomassem com tal visão. Sorriu como se realmente desejasse sorrir, e o coração outrora jurado a sua própria maldição e desalento, pareceu menos frígido a mágoa que outrora tomava-lhe. Dentes delicados fincaram-se suavemente sob pele macia a qual não ousara acreditar que poderia sentir
— doce voz retorquiu suavemente singelo convite. Os olhos marcantes cintilavam permeados das promessas que outrora ecoara altas em um passado não tão distante, o queixo teimoso ergueu-se, uma incitação deleitosa repleta de juros traiçoeiras, mesmas juras estas que por tanto tempo ansiou permitir-se inundada por, mais uma vez. Um passo em sua direção, e então outro, e , o motivo de seu desalento, a percepção pura e precisa de seu coração, batendo, viva e deslumbrante como sempre fora, respirava a seu cheiro, exalava próxima aos seus lábios, respirações misturando-se com um só corpo, essência e ser. Como se estivesse muito privado de ar, finalmente ousava soltá-lo.
— saboreou mais uma vez ao agitar sua cabeça, permeado por um sorriso incandescente. — Que não tarde minha apresentação — esvaindo-se em sua própria ansiedade permeada pelo anseio desvairado, desfez-se com um suspiro, o sorriso preso aos lábios, sem jamais desaparecer. — Os meus conhecem-me por condenada, chamam-me traidora, mas meus amigos me chamam de…
abriu um sorriso quando viu as palavras desvaneceram dos lábios convidativos de . A princesa das fadas piscou, estupefata com tal som, então, ela riu. Porque mesmo na morte, a alma de lembrava de sua graça. Lembrava-se dela. — Que de meus sonhos tornara refém de seus queres, questiono-me se o que dissera em indiscernível névoa fantasiosa ainda vale. Se pedir para que acompanhe-me a um café, e conte-me tua história, porque assombra-me como tímido fantasma desde que conheço-me por gente, diga-me, você o fará?
— Como você desejar — riu-se , sem resistência alguma ao comando.
E se o Rei do Outro Lado a assistia debulhar-se em lágrimas de mavioso júbilo, tampouco poderia culpá-la. Ao subterfúgio noturno, atirou-se como saudoso amante, engolido pela escuridão que a noite trazia consigo, com um grasnado em forma de aviso, retornou para seu reino, fleumático regente. E esperou. Por uma longa e canícula vida mortal, até que fosse o momento de reclamar incumbência acordada. Uma vida mortal, por uma eternidade de servidão. Que assim fosse.

FIM!

Nota da autora: a beleza da chama encontra-se na fragilidade com a qual permite-se consumir, ainda que efêmera vida, o faz por completo — L.