14. Leaving My Love Behind

Autora Independente do Cosmos ✨
Finalizada em: 20/02/2026


01

I don't know how we got to where we are
Silverstone, Inglaterra.
Circuito de Silverstone – Final de semana do GP*

Ela adorava toda a agitação do Paddock, era evidente.
Gente andando rápido demais, o barulho dos rádios chiando, jornalistas montando as câmeras, milhares de mecânicos concentrados como se qualquer errinho ali dependesse de seu futuro na equipe.
E, de certa forma, realmente dependia.
Mas, mais evidente do que gostar de estar no meio da Fórmula 1, era se dar conta de que já estava há uma hora sentindo o cheiro de borracha e combustível só para assistir um pouquinho mais de perto. Só para estar mais próxima e conseguir, com sorte, um beijo do namorado.
Quem sabe conseguiria ver os olhos azuis que amava antes da onda de compromissos tomar conta dele.
sabia que era a última corrida do ano. Aquilo a deixava ainda mais ansiosa.
Ansiosa porque significava que agora teriam mais tempo um para o outro. Que tiraria uma folga e conseguiria dar atenção ao relacionamento deles. Já que era o que a mulher mais sentia falta.
Seu coração acelerou assim que viu se aproximando da equipe, concentrado em alguma explicação técnica e com o macacão até a cintura. Ele tinha o olhar sério concentrado que ela conhecia bem. Mas, no segundo que ele a avistou, a expressão no rosto se suavizou de imediato.
pediu licença aos membros da equipe antes de ir até ela.
— Chegou cedo hoje — o sorriso aumentou assim que se aproximou da namorada.
— Bom, é a última corrida — o olhou. — Merece um pouquinho de prioridade.
Ele deu uma risadinha fraca e ergueu as mãos, envolvendo o rosto dela.
Carinhoso e delicado, como sempre.
— Obrigado por sempre estar aqui — deixou um selinho quase demorado nos lábios da namorada. — Você tá bebendo água? O calor aqui dentro tá insuportável hoje.
não esperou que respondesse. E ela já imaginava aquilo.
Aproximou o corpo de uma das bancadas e pegou uma garrafinha de água lacrada, a entregando. Ele envolveu suas mãos por cima da dela por alguns segundos.
Aquilo era uma das coisas que mais amava em . O cuidado, a forma com que ele sempre cuidava dela, mesmo que de um jeito imperceptível.
E, no fundo, queria muito que só aquilo fosse suficiente.
— Pedi pro pessoal do hospitality* separar aquele lugar no fundo da garagem pra você. Tem um ventilador industrial e a tela de monitoramento é muito maior — arqueou uma das sobrancelhas. — Não quero que você se canse antes do jantar.
— Não precisava disso, . Você sabe.
— Mas eu quis — insistiu, com o mesmo sorriso que costumava dar quando achava que tinha tudo sob controle. o observou se aproximar um pouco mais. Ajeitou uma mecha do cabelo da mulher atrás da orelha. Era algo simples, que costumava fazer sentir o estômago cheio de borboletas. Mas não daquela vez. — Confirmei o jantar em Towcester para às oito. Reservei também a mesa que você gosta, aquela bem no fundo, longe do bar e da barulheira toda — deixou uma risadinha escapar e ergueu o olhar. só conseguia prestar atenção nos olhos azuis do namorado e de como eles não estavam focados nela. parecia mais preocupado com o painel de tempos atrás dela do que com o próprio programa dos dois. — E pedi pra deixarem o vinho tinto que você comentou na semana passada já do decanter. O que acha?
— Você lembrou do vinho?
Forçou um sorriso, sentindo o peito apertar.
— Claro. Eu anotei — piscou, genuinamente orgulhoso de si mesmo. quis rir, sem humor algum. Claro. Só assim para ele lembrar de algo relacionado à ela. — Hoje vai valer à pena, amor. Você tem estado tão quietinha esses dias, achei que um jantar pudesse ajudar. Sem correria, sem pressa pra nada.
E era aquilo que a magoava mais do que tudo. notava o que acontecia, notava seu silêncio e seu incômodo, mas sempre tentava resolver com algum plano que acabava não acontecendo.
, não preciso de um jantar assim — começou, com a voz mais baixa que o normal. já sentia a garganta começar a arder. — Só queria que…
, precisamos de você lá atrás. O briefing* vai acontecer agora — ouviu a voz urgente e conhecida de Riccardo Musconi. A voz que ela já estava enjoada de tanto ouvir não só ali, mas em casa por telefone e em alguns encontros deles, saindo pelo rádio preso no cinto de .
Ela sentiu o toque das mãos do namorado se afrouxarem das suas no mesmo segundo. Não a soltou de imediato, mas já podia sentir que ele não estava mais interessado no assunto que conversavam.
— Preciso ir. Aproveita o ventilador, tá? Se precisar de qualquer outra coisa, é só falar com o pessoal do VIP que eles sabem que você é prioridade aqui. Ou me manda uma mensagem que eu vejo assim que descer do carro.
Era nítido que a expressão de havia mudado para assumir a de piloto da Mercedes em uma fração de segundo. Como se nada mais importasse e não pudesse perder tempo.
, espera…
Tentou chamar, mas ele já se afastava. Não tinha tido tempo nem de conversar sobre o que estava sentido há tempos.
Aquilo a machucava.
— Te vejo depois da bandeirada!
Acenou por cima do ombro, já gesticulando para um mecânico que vinha em sua direção com o volante na mão.
ficou ali parada, só olhando ele vestir o macacão por completo.
Abaixou o olhar para a garrafinha que segurava e seus ombros caíram, já cansada do mesmo roteiro de sempre.
Ele havia garantido tudo de bom para . Água, ventilador e uma tela grande para que ela pudesse vê-lo ganhar. Tudo logisticamente perfeito para ele.
Mas, aquilo só deixava ainda mais claro que toda a preocupação não preenchia a falta de atenção e presença que ela sentia de . Ele estava ali, mas não estava.
Tomou um gole da água gelada. Agora, além do nó na garganta, seus olhos começavam a arder.
era o namorado mais atencioso, carinhoso e gentil que ela havia tido em toda sua vida.
E, ainda assim, nunca havia se sentido tão sozinha com ele.

🏎️💔

02

Could you tell me, is it all a waste of time?
Mônaco, Monte Carlo
Mar Mediterrâneo – Intervalo de Verão

— Água de coco. Gelada.
apareceu segurando a taça decorada em mãos, deixando um sorrisinho de canto transparecer nos lábios.
estava deitada na espreguiçadeira em que estavam e ajustou o chapéu que estava em sua cabeça, fazendo uma sombra mínima em parte do seu rosto.
Sentia o iate balançando devagar, em um movimento que quase a faria dormir se continuasse olhando o horizonte e sentindo a brisa do mar tocando sua pele.
— Obrigada — agradeceu, se sentando. — Você não para, né?
— Não é nada demais. Só quero que esteja confortável — se inclinou, deixando um beijo na testa da mulher. Segundos depois, ajeitou o guarda sol alguns centímetros para o outro lado. — Tá melhor? O sol tá virando.
— Ai, . Tá tudo ótimo. Agora para e senta aqui.
Deu um tapinha na espreguiçadeira do lado.
Ele obedeceu, mas seus olhos azuis observavam o barco ao redor. Meio segundo depois olhou para .
— O que achou do barco? O capitão disse que podemos ir à enseada depois do almoço. É bem reservado.
— É maravilhoso. De verdade. Mas você não precisa planejar cada hora do dia, sabia? — deixou uma risadinha escapar.
balançou a cabeça.
— Ah… É que depois da correria de Silverstone, você merece isso e um pouco mais. E eu tava até pensando… Maldivas em outubro?
colocou uma das mãos na testa, abaixando o rosto levemente e deixando uma risada desacreditada escapar.
era daquele jeito. Queria tudo ao mesmo tempo, mesmo sem tempo para aproveitar. Como ela bem conseguia ver.
Não aproveitava seus descansos e nem o pouco tempo que tinha com ela.
— Maldivas? A gente acabou de chegar em Mônaco, não tem nem três horas… Relaxa um pouco, por favor.
Disse, visivelmente cansada de sempre ser a mesma coisa.
— É só pra garantir que tenhamos o melhor hotel. Sabe que gosto disso. Se eu não reservar agora, em outubro não vai ter nada — justificou, já esticando a mão para pegar o celular. Quase automático.
suspirou.
— Larga isso — pediu, um pouco mais baixo. — Esquece isso por enquanto. Só fica aqui. Comigo. Agora.
— Eu tô aqui, — deixou uma risadinha escapar. Ela continuou o encarando. Não era possível que não se dava conta do mínimo. Se virou rapidamente e apertou a mão da namorada. — Não tô?
Ela quis dizer que não. Quis dizer que não estava ali com ela há um bom tempo e o quanto aquilo a machucava.
Até pensou em dizer de vez. Sem pensar muito.
Mas aí o celular de vibrou. A tela acendeu. Uma, duas vezes.
sentiu o braço de tensionar sobre o seu antes mesmo de olhar para o celular. Então, soltou a mão dele vagarosamente, já sabendo o que aconteceria.
— Pode atender.
— Não. Deixa. É nossa folga, lembra?
— Atende, . Sua perna não para de tremer — arqueou a sobrancelha e olhou para o joelho do namorado, que tremia com o balançar de sua perna pela ansiedade.
Ele mordiscou o lábio e desviou os olhos azulados de para o celular aceso.
Suspirou.
— É o Shovlin. Juro que é um minuto.
— Claro. Um minuto — repetiu para si mesma, já que já estava longe dali, com o celular no ouvido.
Ele levantou, já com o celular na orelha e se afastou em direção à popa do iate. ficou ali, parada, o observando. Deixou os olhos pousarem sob as costas desenhadas de , na camisa de linho. gesticulava com a mão livre, sua postura mudando no segundo que o assunto era algo relacionado à Fórmula 1.
E aí dez minutos se passaram.
Meia hora.
Uma hora e meia.
O gelo já havia virado água há muito tempo e, por baixo do óculos de sol, sentia os olhos quererem lacrimejar, mesmo contendo muito a vontade de chorar que apertava seu peito.
Quando voltou, duas horas depois, o sol começava a se pôr.
— Desculpa, amor. Estavam com dúvida sobre alguns dados da simulação e eu precisava dar meu feedback antes da reunião com a engenharia — se sentou novamente do seu lado, encostando o corpo na espreguiçadeira. — Onde a gente tava mesmo? Ah! As Maldivas. O que você acha de…
— Que dia é hoje, ?
Perguntou, direta e seca. Nem se deu ao trabalho de olhar para ele.
Ele travou por meio segundo.
— Quarta-feira? Dia 25?
quis levantar dali e ir embora. Quis chorar no segundo em que não se lembrou.
— Dois anos, . Faz dois anos hoje.
O silêncio se tornou presente e evidente logo depois. Tinha dado até para ouvir o suspiro alto de .
Ele sabia que tinha pisado na bola.
, eu… Juro que não esqueci. Tenho o lembrete do jantar de comemoração na sexta, lá no restaurante do porto. Achei que íamos celebrar na data da reserva.
— E precisamos de reserva pra comemorar? No começo não tinha nada disso. A gente só ficava junto, sem mais nada importante — sua voz ia sumindo aos pouquinhos. só queria a atenção do namorado.
Só isso. Nada mais.
— Eu tô tentando te dar uma vida incrível, — desabafou, deixando notável sua frustração. — Trabalho dobrado, planejo cada detalhe das férias, escolhi o barco porque sabia que você queria paz… Tô fazendo tudo por você.
Ela franziu o cenho. Não tinha pedido nada daquilo.
Como ele não percebia que ela só queria o mínimo?
— Você faz tudo pra mim, mas não faz nada comigo.
já a observava há um bom tempo, mas se limitou a olhá-lo rapidamente enquanto sentia o nó se formar na garganta.
Virou o rosto em direção ao mar e respirou fundo.
O pior não era só a situação. Era o fato de que, por mais que ela enxergasse que quisesse dar o melhor a ela e que fosse o namorado mais atencioso do mundo inteiro, o essencial ele não estava dando.
Aquilo só deixava tudo ainda mais doloroso.
— Vai mergulhar, .
, olha, eu…
— Por favor. Aproveita a água que você planejou — o interrompeu. Ergueu o óculos de sol e se levantou, pronta para entrar na cabine sem nem olhar para trás.
Sabia que o olhar do namorado queimava sobre si, mas para ser sincera, a última coisa que queria era pontuar, mais uma vez, sobre o que lhe incomodava e ouvir mais uma desculpa de .
Ela precisava colocar sua cabeça no lugar. E acalmar o próprio coração.

🏎️💔

03

Are you leaving my love behind?
Abu Dhabi, Emirados Árabes Unidos
Circuito de Yas Marina

O camarote da Mercedes não estava tão cheio naquele instante e as luzes do LED enorme do lado externo eram refletidas no vidro que separava o lugar que eles estavam, da pista de Abu Dhabi.
estava sentada no sofá de couro branco, observando conferir o tablet pela milésima vez. estava impecável, como sempre. Nem uma gota de suor, nem um fio de cabelo bagunçado, mesmo após o treino.
Quase um modelo da Vogue.
— Confirmei o motorista para às dez, — disse, sem levantar o olhar. — Vai nos levar direto para o jantar no hotel.
, senta aqui. Só um pouquinho — deu um tapinha no sofá. Ele segurou o tablet com um pouco mais de força, deixando um suspiro escapar. Mas não protestou. Se sentou logo em seguida, com o corpo tenso como se fosse competir a qualquer momento.
— O que foi? Tá sentindo alguma coisa? O ar tá muito gelado? — ele já procurava o controle remoto com o olhar, preocupado. — Se quiser, peço pra trocar a temperatura agora.
— Não é o ar. Sou eu — procurou os olhos azuis do namorado, mas era como se estivesse em estar de alerta a todo instante e observasse o movimento do corredor detrás dela. — A gente não conversa mais. Você percebeu?
— Como não, amor? — inclinou a cabeça. Seu tom de voz era calmo. — Conversamos hoje cedo sobre a viagem, não foi? Passei meia hora escolhendo um bangalô com a melhor vista, sem a barulheira dos hidroaviões.
Deu uma risadinha. Ela continuava séria.
— Você planejou a logística. Não conversou comigo — apertou as mãos, tentando manter a própria voz firme. — Parece até que sou um item na sua agenda. E eu tô sumindo aos poucos da sua rotina.
O que?— soltou o tablet na mesa de vidro e procurou a mão da namorada. A acariciou de leve. — É o contrário disso, . Tudo isso é justamente pra você não se preocupar. Quero te garantir o melhor assento, a melhor comida, a melhor hospedagem… Pergunto se você tá bem dez vezes por dia porque me importo muito com você.
— Você pergunta se eu tô bem fisicamente! Se eu tô com sede, com calor, com fome. Mas você não me vê — exclamou, já sentindo a voz embargar. Sua garganta começava a arder, assim como seus olhos. — Não percebe nem que eu não tô feliz há meses.
— Não tá? — ele franziu o cenho. Genuinamente confuso. Como se alguém tivesse chegado com algum dado de telemetria* que não fizesse o menor sentido. — Mas como? Eu tento fazer tudo certo. Se o problema é a viagem, a gente muda o destino. Pode ser? Ou é outra coisa? Quer que eu peça algo específico pra equipe?
— Não quero nada disso, … Só quero mais tempo com você. Quero sua atenção. Só isso. É pedir muito?
Ele ficou calado, como se estivesse processando o pedido da namorada. Um pedido tão pequeno.
Nada de viagens. Nada de presentes caros.
Só sua atenção.
O relógio de vibrou no pulso. Aquilo atraiu toda sua atenção.
Olhou para o visor automaticamente. Um segundo. Dois.
, olha pra mim — pediu. Quase suplicou. — Esquece o relógio. Só um minuto. Por favor.
É o Toto, meu amor — tinha o tom de voz calmo, quase aveludado para explicar para ela. Como se qualquer palavra errada colocasse tudo a perder. — Encontraram uma oscilação no motor e precisam comparar com minha telemetria agora. Você sabe… Sabe que é o encerramento da temporada, né? Se eu não for, posso colocar tudo a perder. Por nós dois. É pelo nosso futuro, entende?
Ela balançou a cabeça, desviando o olhar brevemente.
— Nosso futuro não vai existir se não tiver um presente — soltou a mão do namorado vagarosamente. — Tô tentando salvar a gente, . Aqui e agora.
— E eu tô garantindo que a gente tenha uma vida pra ser salva, amor — pontuou, evidentemente magoado. Respirou fundo e se levantou, ajeitando a camisa e apertando o macacão na cintura. O que mais doía em era que, ela conseguia ver que mesmo magoado, ainda era doce e gentil com ela. — Olha, eu juro… Juro que assim que sair da reunião, sou todo seu. Eu prometo. A gente janta, eu desligo o celular e a gente conversa sobre o que você quiser. Até pedi pro chef trazer aquele canapé que você gostou em Silverstone — deixou um sorrisinho mínimo transparecer. — Come um pouco, tá? Volto em vinte minutos. Juro.
Se inclinou levemente, deixando um beijo calmo na testa de .

Procurou o olhar do namorado mais uma vez, mas ele já ia em direção à porta.
— Vinte minutos, . Um minuto pro Toto e dezenove pra você — brincou, como se aquilo fosse minimizar a situação que se encontravam. — Sim, Toto, já tô indo. O sensor do setor dois deu erro de novo?
Aquela foi a última coisa que ela ouviu antes da porta se fechar, fazendo sumir no corredor.
não foi capaz de sorrir. Nem de sentir vontade de fazer tal ato.
Só continuou olhando para a porta fechada. Ficando sozinha ali.
Foi então que se levantou devagar. Pegou sua bolsa e olhou uma última vez para o camarote em que estava.
Se não fazia esforço para entender, ela não tentaria mais.

🏎️💔

04

Just let me go, just let me go...
Hotel Yas Island
Horas depois…

O silêncio da suíte presidencial era quase esmagador. Era possível ouvir o barulho do ar-condicionado um pouco mais alto que o normal.
sentia que surtaria a qualquer instante se continuasse ali um pouco mais, só esperando aparecer para colocar os pingos nos i’s. Continuava sentada na poltrona acolchoada, sentindo as mãos geladas pousadas no próprio colo.
Suas malas, arrumadas e fechadas perto do hall de entrada do quarto.
Seu coração batia descompassado e dolorido. Estava triste, magoada, decepcionada.
Não queria tomar uma decisão sobre o que acontecia, mas precisava.
E não tinha como continuar do jeito que estava.
Foi então que ouviu o barulho do cartão magnético na fechadura e seu corpo quase tremeu.
Ele entrou, mais animado que o normal. A adrenalina provavelmente estava nas alturas. Carregava o capacete em uma das mãos e o celular na outra, digitando algo com o polegar enquanto seguia até ela.
— Amor? Ei — disse, se aproximando. — Não te encontrei depois da corrida. Achei que ficaria no paddock, mas acho que deve estar cansada, né?
— È. Eu tô exausta.
Sua voz saiu bem mais baixa que o normal. Não se mexeu na poltrona, só continuou o observando. sentou na beirada da cama.
— O que houve? Alguém te ligou? — franziu o cenho, começando a se preocupar. — Se for sobre o hotel ou o voo de amanhã, eu dou um jeito. Posso falar com a assessoria e mudar o horário, não tem problema nenhum. E se quiser cancelar o jantar de hoje pra descansar, peço algo aqui no quarto e…
, para — o cortou, se levantando devagar. Caminhou até perto das malas paradas no canto. E foi aí que as encarou. — Para, por favor.
O sorriso que antes mantinha no rosto vacilou levemente. Olhou para as malas e depois para a namorada, rindo fraquinho de nervoso, como se tentasse entender o que acontecia.
— Que isso? O serviço de quarto vai buscar as malas pro voo antes da hora? — deixou o capacete de lado e se levantou. — Eu disse que era só amanhã cedo. Vou ligar pra recepção e reclamar que…
— Não tem voo, .
Ele ficou em silêncio. Então a olhou.
— Como assim? — piscou algumas vezes. Calmo como sempre. — Nós organizamos a viagem há meses, amor. Justamente pra ficarmos em um lugar isolado, em paz. Só nós dois. O que aconteceu?
— Você planejou o descanso. Mas nem por um segundo, pensou se realmente iria “descansar” comigo — fez aspas com os dedos. — Tentei conversar com você hoje no camarote. Tentei em Mônaco. E em Silverstone. Tô tentando fazer isso há meses, mas você nunca para pra me ver. Pra me ouvir. Pra tentar entender.
— Ei, olha — se aproximou um pouquinho mais, tocando o braço de levemente. Ela olhou para o gesto e respirou fundo. — Eu ouvi você. Juro que ouvi. Só… Achei que tava resolvendo as coisas.
— Você tava resolvendo problemas. O tempo todo. Só não o nosso —mencionou, balançando a cabeça. Ele continuava a olhando. — O problema foi que você me protegeu tanto de todas as preocupações que acabou me protegendo de você. E afastando também, porque olha só — ergueu as mãos. — A gente não conversa mais. Nem mesmo como dois velhos amigos. Como era antes — sentia que choraria a qualquer momento. — Você me deu um iate em Mônaco, mas não me deu meia hora da sua atenção sem olhar pro celular. Tentou me dar o mundo e não percebeu que eu só queria um pouquinho da sua atenção. O seu tempo de verdade. Não o que sobra depois de uma reunião ou uma corrida cansativa.
A expressão de mudou instantaneamente. Como se tivesse levado um baque forte, quase como se seu carro tivesse batido contra o muro em uma corrida acirrada.
Deu um passo para trás levemente, digerindo todas as palavras da mulher.
Como se começasse a entender.
— Me dá uma chance — sua voz falhou. — Só uma. Eu desligo o celular agora. Jogo ele no mar. Não falo com Toto por um mês. Mudo os parâmetros, . Juro que aprendo a parar e a desacelerar. Coloco você no topo de tudo. Eu faço o que for preciso.
— Não se trata de mudar tudo, . Se trata de quem você é — deu um sorriso triste, olhando para baixo. Depois o encarou novamente. — Você foi feito pra viver a Fórmula 1. Sem qualquer impedimento. Nasceu pra vitória e merece isso. Mas eu não consigo me ver no seu mundo mais. Não ficando em segundo plano o tempo inteiro. Quase tendo que ser lembrada por um alerta no celular também.
Mordiscou o lábio, segurando o choro que viria à tona a qualquer segundo.
balançou a cabeça, negando para si mesmo o que acontecia. E decidiu ir até as malas, pronta para sair do quarto.
Ele foi até ela, bloqueando a saída levemente, em um ato de desespero.
, por favor. Não faz isso. Eu busco equilíbrio. Prometo pra você — ergueu o olhar. E podia jurar ter sido o seu maior erro. Os olhos azuis de estavam marejados e ele engolia em seco. Por mais um pouco desmoronaria por inteiro na frente dela. Aquilo partiu seu coração em pedaços. — Só não sai por essa porta. Por favor.
… — sussurrou, buscando qualquer resquício de esperança nos olhos dele. Mas não conseguia encontrar. — Pela primeira vez na vida, não tente vencer. Só me deixa ir.
— Eu não sei como fazer isso — a voz de estava embargada. Ele havia começado a chorar. Passou uma das mãos pelos olhos. — Não sei como perder você.
se aproximou do piloto, sentindo uma lágrima escorrer pelo seu próprio rosto. Então levou uma das mãos até o rosto dele, acariciando de leve.
— Você já perdeu, . Há muito tempo — murmurou. — Só não tinha percebido ainda.
O olhou uma última vez, até que ele desse passagem para ela. Seus ombros caíram, como se tivesse acabado de sofrer uma pane no sistema.
Ela puxou as malas e abriu a porta, sem olhar para trás. Seu coração doía mais do que tudo e, sem se importar, saiu da suíte já chorando sem nem perceber direito.
E , pela primeira vez na vida, se deu conta de que aquilo era algo que ele não poderia consertar.

LEGENDA:
Paddock: É o coração dos bastidores. A área reservada atrás dos boxes onde ficam os caminhões das equipes, os pilotos e os convidados VIP.
Hospitality: São as estruturas de luxo (como "casas" temporárias) onde as equipes recebem patrocinadores, convidados e servem as refeições dos pilotos.
Briefing: Uma reunião técnica rápida e essencial. É onde os pilotos e engenheiros discutem estratégias, regras da pista e ajustes de última hora.
Telemetria: O sistema de dados do carro. São os gráficos que mostram tudo o que o piloto faz: quando freou, quanto acelerou e como o motor reagiu.

FIM!

Nota da autora: Oie! Espero que tenham gostado desse versefic, escrevi com muito amor e com o coração partido pelo final rs.