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Codificada por: Sol
Finalizada em: 04/08/2025


01

There's glitter on the floor after the party
Girls carrying their shoes down in the lobby
Candle wax and Polaroids on the hardwood floor
You and me from the night before, but…
Já eram quase duas da manhã quando atravessou o lobby do apartamento em Notting Hill.
Sentiu o frio que se fazia naquela madrugada em Londres quase cortando sua pele e, por meio segundo, quase pensou em desistir da festa que Anny havia chamado com tanta insistência.
Respirou fundo, aguardando o elevador e, assim que as portas se abriram, observou um grupo de meninas saindo dele carregando seus sapatos, com cabelos levemente desgrenhados e deixando evidente como o álcool que haviam bebido já fazia efeito.
Não era exatamente a noite de Ano Novo que havia imaginado, para ser sincera. Seu plano era ficar em casa — já que não tinha conseguido passagem de avião a tempo para visitar seus pais no Michigan —, enquanto observava a queima de fogos no céu de Shepherd Bush e bebericava a garrafa de vinho que tinha comprado para a ocasião.
Só não estava fazendo aquilo porque, quando sua melhor amiga soube do que planejava, disse não trezentas vezes e fez com que prometesse aparecer ali, na virada de ano no apartamento de Tristan.
Raios, aquela era a hora que gostaria de saber dizer não.
Mordiscou o lábio inferior e, ao ouvir o barulho do elevador anunciando sua chegada ao andar desejado, deu dois passos para fora dele, já analisando o caos que se encontrava no lugar.
O hall de entrada estava cheio de confetes pisoteados, balões estourados e podia ouvir claramente risadas ecoando do outro lado. E quando atravessou a porta principal, a visão não era muito diferente; copos espalhados pelas mesas improvisadas, um sofá cheio de casacos esquecidos e muito glitter colado no chão de madeira escura.
Muito provável que o auge da festa já havia acabado, mesmo que ainda tivessem pequenos grupos espalhados ali, conversando, rindo e bebendo enquanto uma playlist tocava em um volume mais baixo.
O que é que eu tô fazendo aqui mesmo? — murmurou, soltando um suspiro demorado.
ajeitou a alça do vestido e começou a procurar Anny com os olhos. Talvez, se a encontrasse logo, pudesse inventar qualquer desculpa para voltar para casa pelo menos em meia hora.
Mas, antes que pudesse continuar, seu olhar focou em algo. Alguém.
Uma silhueta que ela conhecia bem demais.
Mais do que queria conhecer — pensou.
Ele estava de costas, perto da parede. Segurava a cerveja em uma das mãos enquanto com a outra ajeitava os fios castanhos ondulados. Seu violão, o instrumento preto que já tinha visto tantas vezes, estava apoiado no sofá de Tristan.
ouviu sua risada segundos depois e sentiu o corpo arrepiar de imediato. A risada rouca, gostosa demais de se ouvir.
A risada de .
Seu coração quase congelou, desconfortável e ansioso. Como se tivesse acabado de lembrar de algo que tentava enterrar de vez há três anos.
A primeira coisa que passou em sua cabeça foi virar as costas e ir embora dali de uma vez por todas. Queria fingir que não tinha o visto e aproveitar que ninguém tinha percebido sua chegada.
Mas a voz animada de Anny ecoou pelo cômodo segundos depois.
! — chamou, quase correndo até ela. sentiu as bochechas queimarem pelo alvoroço. — Achei que nem ia aparecer mais.
— É… Acabei me atrasando um pouquinho — murmurou.
— O que importa é que você chegou. A maioria já foi embora, mas sobrou um pouco de bebida e petiscos. Vem!
não protestou. Anny a puxou pelo braço, a guiando pelo meio da sala até o outro lado, onde o grupo principal estava.
Observou Tristan, James e Connor ao lado de , enquanto Kirstie — esposa de James —, ajeitava um prato com petiscos no balcão.
— Por pouco quase não fui te pegar em casa — Tristan comentou, abraçando a garota de lado. Ela sorriu.
— Não é pra tanto também.
Deixou uma risadinha escapar.
— Finalmente apareceu — Connor mencionou, fazendo graça. — Vou pegar uma cerveja, quer?
se limitou a assentir enquanto Connor seguia até a cozinha. James e Kirstie também a cumprimentaram do mesmo jeito caloroso que os outros, mas o olhar de insistia em queimar sobre ela. Como se não acreditasse que realmente pudesse estar ali.
Não depois do que havia acontecido entre os dois.
não sabia exatamente o que sentia. Mas, sabia que era complicado demais para que pudesse descrever e aquilo queimava em seu peito lentamente todas as vezes que pensava no relacionamento que haviam tido.
Ele morria de saudades dela.
Só conseguia lembrar das noites que riam até tarde, das conversas jogadas fora, os abraços quentes e os beijos roubados. De como gostava de acariciar os traços do rosto de , de como fazia questão de mostrar ao mundo inteiro que ela era sua.
De como ela tinha seu coração.
E sentia a mesma coisa. Mesmo tendo se passado tanto tempo do término que ao menos sabia quando é que haviam colocado um ponto final.
Sentia falta das piadinhas internas, os olhares cúmplices trocados, da rotina bagunçada que os dois tinham juntos.
Como é que tinham acabado daquele jeito? Quase como dois estranhos.
Connor havia voltado com a cerveja gelada e bebericou de imediato, como se aquilo fosse espantar seus pensamentos.
Observou os demais do grupo conversando entre si; Tristan contava para Anny sobre alguma viagem que havia feito recentemente, e James e Kirstie riam de alguma coisa que Connor dizia.
queria estar animada e imersa na conversa assim como eles, afinal, era um novo ano. Mas saber e sentir que estava bem do seu lado, com os dedos quase roçando nos dela, fazia o mundo ao redor quase desaparecer.
Foi quando virou o rosto em sua direção, preparado para puxar qualquer que fosse o assunto. Só para ter olhando nos seus olhos outra vez.
— Que bom que você veio.
Sua voz, rouca, saiu baixa. Quase casual. sentiu o corpo arrepiar.
— Bom, não podia faltar, né? Anny me xingaria de tudo quanto é nome — respondeu, desviando o olhar brevemente.
— Realmente, ela não deixaria você escapar fácil assim — riu fraquinho. o acompanhou. tinha aquele efeito de deixar tudo tranquilo sem muito esforço. — Mas, sério, tô bem feliz que ela foi insistente desse jeito.
As bochechas da garota queimaram. não tirava seus olhos dela.
Ela sentia o coração bater mais rápido que o normal, mesmo que no fundo ainda se sentisse magoada com o término.
Na verdade, não queria que fosse fácil demais estar perto dele. Não queria manter uma conversa, nem mesmo queria estar tão próxima assim.
Mas era como se não tivesse controle sobre suas ações. E tudo o que importava naquela hora, para ser bem sincera, era que estava ali com do seu lado.
— Eu também — murmurou, como se ele não pudesse ouvir.
Mas ouviu.
E sorriu um pouquinho mais do que antes, pela primeira vez naquela noite.

02

But I stay when you're lost, and I'm scared
And you’re turning away
I want your midnights
But I'll be cleaning up bottles with you
On New Year's Day…
conseguia ouvir baixinho o som da música calma que tocava na sala, mesmo estando na cozinha.
Todos já haviam ido embora e só tinha restado o grupo de amigos no apartamento de Tristan. Anny estava sentada com ele e Connor no sofá, conversando baixinho enquanto James e Kirstie haviam escapado para a sacada, em um momento à sós. aproveitou a brecha para fugir para a cozinha, já que precisava espairecer um pouco e respirar com a presença de tão próxima assim.
Sentia que ia enlouquecer a qualquer momento.
Sua mente estava tão longe que limpava alguns copos e talheres no automático, sequer percebendo o que fazia. O pano tremia levemente nos dedos, com o nervosismo e ansiedade que sentia.
Claro que não era nada demais. Ou pelo menos era o que tentava se convencer.
Era ali. Seu ex-namorado.
Depois de tanto tempo. Depois de tanto conviver só com as lembranças e a saudade que esmagava seu coração.
Jogou o pano na bancada e passou uma das mãos pelo cabelo, tentando se acalmar a todo custo. Só conseguia lembrar dos momentos que tiveram juntos e de tudo o que havia vivido com .
Era sufocante demais.
Fechou os olhos brevemente. E aí ouviu passos se aproximando, fazendo seu coração acelerar. Como se já soubesse quem era.
olhou de relance para o lado e conseguiu observar encostando o corpo no batente da porta.
Também a olhando.
Lindo como sempre havia sido. Tão calmo e sereno como ela costumava se lembrar.
— Tá se escondendo de mim? — perguntou. tinha um sorrisinho no canto dos lábios.
não o olhou. Continuou fingindo estar limpando algo só para não olhar para ele.
— Só queria ficar um pouco sozinha.
A voz da mulher quase não saiu, só pelo nervosismo. Faziam tantos anos e agora ele estava ali, parado há poucos metros como se tivessem se visto no dia anterior.
Que ironia.
deu dois passos para dentro da cozinha e parou perto do balcão.
— Posso te ajudar? — apontou com o queixo para os copos dentro da pia.
— Não precisa. Já tô quase terminando — murmurou, ainda sem coragem de encará-lo. respirou fundo e se aproximou, o suficiente para que quase pudesse sentir o calor de seu corpo.
— Eu insisto.
pegou um dos utensílios que precisam ser lavados e começou a fazer a mesma coisa que ela, ambos lado a lado. O silêncio entre os dois era nítido demais, sendo cortado apenas pelo barulho da água caindo da torneira.
tentava ao máximo se concentrar no que fazia. E tentava encontrar palavras para conversar qualquer que fosse a coisa com ela.
— Você não mudou nada — comentou, a olhando brevemente. Ela deu uma risadinha nervosa, virando o rosto em sua direção.
— Claro que mudei. Todo mundo muda.
Ele sorriu de canto. tinha um jeito que deixava seu coração balançado só de dizer poucas palavras.
— Mas continua você. E eu reconheceria em qualquer lugar.
o olhou brevemente por sua resposta e sentiu o peito esquentar por meio segundo. Sentiu o coração apertar com força, só de lembrar que costumava ser daquele jeito mesmo, intenso demais em tudo o que dizia e fazia.
Ela virou o rosto para frente, disfarçando.
… — disse, baixinho. Logo depois suspirou. — Não faz isso.
Colocou uma taça limpa na bancada, virando o corpo brevemente para .
— O que? — deixou uma risadinha escapar, sem qualquer humor. — Não consigo fingir que não sinto falta disso. De nós dois, como antes.
— Não é como se fosse fácil pra mim também.
sorriu. Era quase uma confissão.
Se aproximou minimamente da mulher. Colocou o pano úmido pendurado em seu lugar e mordiscou o lábio, se virando de costas para a bancada.
Encostou o corpo ali.
— Você lembra quando passamos seu aniversário no apartamento da Anny? Quando ela viajou com Tristan e teve um apagão quase perto da meia noite? — perguntou, com os olhos focados na parede do cômodo. Um sorrisinho nostálgico surgia no canto dos lábios e, involuntariamente, sorriu também.
Claro que se lembrava.
Eram lembranças como aquela que ela se recusava a esquecer.
Ela fechou os olhos por meio segundo, se lembrando da sensação de ter outra vez.
Seu .
— Não tem como esquecer — riu fraquinho. virou o corpo também. — Você quase queimou a ponta dos dedos tentando acender as velas.
Ele balançou a cabeça.
— E você soprou como se fosse salvar minha vida.
— De certa forma, sim. Além da guitarra, eles são seus instrumentos também — o olhou de relance.
sorriu abertamente, deixando seus olhos castanhos caírem sobre o rosto dela. Seu coração parecia explodir ao mesmo tempo que aquecia só de olhar a feição da garota.
— Não faz ideia de como senti sua falta — confessou. Não era como se precisasse que ouvisse aquilo, mas não era algo que conseguia guardar por muito tempo mais.
Precisava deixar claro que se arrependia.
Que queria em sua vida outra vez.

— Sei que não devia dizer nada. Não depois de tanto tempo — disse. Sua voz era quase falha. — Você foi a melhor parte dos meus dias. E doeu te ver indo embora. Doeu demais.
Ela sentiu a garganta trancar de imediato só de ouvir a voz rouca e baixa de assim. continuava com o mesmo olhar intenso sobre ela e tinha certeza que, qualquer proximidade a mais, largaria tudo para estar nos braços dele outra vez.
Então, fez exatamente o que a mulher temia. Se inclinou um pouco, diminuindo a curta distância entre os dois.
Os olhos do rapaz alternavam entre os dela e sua boca, como se procurasse qualquer permissão para avançar.
E não se mexeu. Nem mesmo conseguiu.
aproximou seus dedos, tocando nos dela e o calor que sentiu foi instantâneo. Ele a puxaria para perto a qualquer segundo.
Mas foi aí que um vulto se aproximou, com bochechas vermelhas e uma garrafa vazia de champanhe nas mãos.
Connor.
— Achei vocês — sorriu bobo. Sua voz estava mais alta que o normal. — Pensei que tinham ido embora. Só vou pegar um negocinho aqui e…
— Eu… Eu preciso sair daqui.
se afastou rápido, quase tropeçando nos próprios pés. Suas bochechas queimavam de vergonha.
ficou parado, imóvel. O coração ainda disparava.
Observou sair o mais rápido que conseguia da cozinha e por pouco não foi atrás dela. Não fosse Connor parando do seu lado, olhando a situação, sem entender muita coisa.
— Tá tudo bem com ela?
o encarou, querendo esganar o amigo de todas as formas possíveis. Soltou um suspiro pesado e se afastou de onde estava, pronto para sair dali também.
Espero que sim… — murmurou.

03

Hold on to the memories, they will hold on to you
And I will hold on to you
Please, don't ever become a stranger
Whose laugh I could recognize anywhere…
A rua estava quase vazia quando colocou seus pés na calçada, depois de se despedir de Anny e Tristan, e observar seus amigos indo embora, no carro já dobrando a esquina.
Apertou o casaco emprestado da amiga no corpo e, por um segundo, quis fingir que não estava parado ao seu lado também. O perfume suave que costumava usar exalava minimamente e quase fez com que voltasse há anos atrás, quando sentia o mesmo cheiro quase todos os dias em seu apartamento.
Respirou fundo, relaxando os ombros brevemente e o olhou de relance.
tinha as mãos no bolso da calça e os cabelos escuros levemente bagunçados. Ele olhava alguns flocos de neve caindo, como se aquilo fosse suficiente para permanecer ali, ainda ao lado dela.
A verdade era que nenhum dos dois queria ir embora. Sabe-se lá quando se veriam novamente. E a saudade era esmagadora demais para simplesmente dar as costas.
virou o rosto de vez em direção à ele.
Seu coração aqueceu ainda mais quando viu os fios castanhos do rapaz com glitter da festa e pontinhos brancos da neve espalhados por ele.
Como algo tão simples conseguia deixá-lo tão gracioso daquele jeito?
— Tem glitter no seu cabelo — sorriu.
— Glitter?
arqueou a sobrancelha, levando a mão automaticamente nos fios.
— E neve também — completou, sorrindo um pouquinho mais que antes.
Não deixou que ele bagunçasse ainda mais o cabelo que ela achava tão bonito.
levantou a mão, passando os dedos delicadamente pelos fios, espalhando os pontinhos brilhantes e a neve. O gesto tão pequeno fez o coração dos dois quase explodir no peito.
não se moveu por meio segundo. Deu um passo à frente, se aproximando até ficar a poucos centímetros dela. E não era como se o frio da madrugada importasse mais — o calor que sentia só de estar tão perto dela o fazia esquecer desse detalhe.
Se olharam por um tempinho, ainda em silêncio. Como se todos os pensamentos viessem à tona naquele exato instante.
desviou o olhar logo depois, deixando evidente o nervosismo que sentia.
— Isso é muito estranho. E, por incrível que pareça, também é muito bom.
— Sei exatamente como é — murmurou, ainda com os olhos nela. — Sinto a mesma coisa.
Ela respirou fundo, tentando organizar os próprios sentimentos.
O que acontecia ali? O que acontecia entre eles justo naquela hora? O que significava?
— A gente já se despediu uma vez, … — disse, mais baixo que o normal. Sua garganta começava a trancar. — Foi difícil demais e era o certo a se fazer.
— Certo pra quem? — indagou. — Porque pra mim, desde aquele dia, nada pareceu certo sem você.
sentiu o peito apertar na hora. Ouvir confessar com tanta sinceridade a fazia querer esquecer tudo e começar, mais uma vez, com ele.
Deixou um sorrisinho frágil surgir nos lábios e tinha certeza que seus olhos brilhavam mais que o normal. O problema era que, mesmo querendo se jogar nos braços dele de uma vez por todas, passar por tudo o que passou depois do término seria pesado demais. Triste demais.
E ela não sabia se conseguiria consertar cada caquinho do seu coração de novo.
— Então… Acho que é a hora de nos despedirmos mais uma vez.
balançou a cabeça, tentando entender.
— É. Talvez seja.
Seus olhos não conseguiam olhar para outra coisa que não fosse a íris brilhante de bem na sua frente. Por pouco, quase a abraçou apertado.
respirou fundo uma última vez, recuando um passo.
— Boa noite, .
E se virou, pronta para seguir seu caminho para casa. Precisava admitir que seu coração começava a despedaçar aos pouquinhos, só de saber que não o veria mais.
Só de ter certeza que nunca mais veria o sorriso que iluminou seus dias outra vez.
a observou se afastar. Seus pés pareciam presos ao cimento da calçada. Mas resolveu fazer o inesperado.
E correu até ela.
Não esperou que questionasse qualquer que fosse a coisa. Segurou em um dos seus braços a virando para si e, com a outra mão, apoiou o pescoço da garota, a beijando com toda a saudade do mundo.
Era urgente. Intenso demais. Guardado a tempo demais.
cedeu no mesmo instante. Segurou o casaco de , como se não fosse soltá-lo nunca mais.
E ali, depois de tanto tempo, em meio ao glitter perdido da festa e a neve que caía, só aquilo importava.
Os dois, juntos, como sempre deveria ter sido.

FIM!

Nota da autora: Espero que tenham gostado desse VF escrito com muito amor!