Revisada por Pólux até o capítulo 2 | Aurora Boreal 💫 do capítulo 3 em diante.
Atualizada em: 14/01/2026
As pessoas noturnas eram diferentes. Para elas, o brilho da lua não era menos poderoso que o do sol. O céu escuro era um refúgio e as estrelas eram um lembrete de que, mesmo na escuridão, havia beleza. Inspiradas pela tranquilidade da noite e guiadas pela luz prateada da lua, essas pessoas viviam à sombra do dia, invisíveis para a maioria, mas sempre presentes.
Então aconteceu. O dia que mudou tudo.
Um eclipse cobriu o sol, mergulhando o mundo em uma escuridão incompreensível. O tempo passou, os minutos viraram horas, e o eclipse não se desfez. A escuridão permaneceu, como uma cortina que jamais seria erguida novamente. O sol nunca mais voltou a nascer.
O mundo que outrora girava em torno da luz entrou em colapso. Mas, na escuridão, algo despertou. As sombras, sempre relegadas ao fundo, emergiram com força. Criaturas que antes se escondiam, temendo o brilho do dia, agora andavam livres. E as pessoas noturnas, aquelas que sempre haviam sido ofuscadas pela luz, finalmente podiam ser elas mesmas. A lua, que antes era secundária, tornou-se o centro de tudo.
Com o tempo, a humanidade se dividiu.
De um lado, os Filhos da Luz — aqueles que ainda carregavam a memória do dia e lutavam para trazer o sol de volta. Suas habilidades solares eram como uma faísca do antigo mundo, um lembrete de que a luz não deveria ser esquecida. Eles acreditavam que o retorno do sol era a única salvação, o único caminho para restaurar a ordem.
Do outro lado, os Filhos da Noite — pessoas que abraçaram a escuridão como parte de si mesmas. A lua lhes concedeu habilidades sombrias, um reflexo do mundo em que viviam agora. Para eles, a escuridão não era algo a ser temido, mas sim aceito. Era a liberdade de serem quem realmente eram, sem as limitações da luz.
A tensão entre os dois grupos cresceu e o mundo mergulhou em um conflito constante. A escuridão era agora o palco onde luz e sombra se enfrentavam, e cada lado acreditava estar lutando pelo futuro.
Enquanto isso, as estrelas observavam, indiferentes, enquanto o destino do mundo era decidido entre os que ansiavam pelo retorno do dia… e aqueles que acreditavam que a noite havia finalmente encontrado seu verdadeiro lar.
Todavia, nessa história aqui, as estrelas não olham para aqueles que carregam a memória do dia, mas para dois filhos das sombras. Dois jovens que caminham entre as trevas, desejando algo mais: e . Ele, um homem marcado pelas sombras que o abraçam como parte de si, mas que carrega o peso de um passado solitário. Ela, uma mulher feita de fogo e escuridão, determinada a provar que ninguém a subestima sem consequências.
Ambos querem deixar suas marcas no mundo sombrio, mas, para isso, precisam provar seu valor. E, nesse lugar, o valor não é medido apenas pela força ou pelas habilidades. Ele é medido pela lealdade às sombras… e ao Crepúsculo.
No centro desse mundo está a gangue conhecida como os Filhos do Crepúsculo, um grupo poderoso e temido, liderado por uma figura envolta em mistério: Kaelen Umbros. Dizem que ele é mais sombra do que homem, alguém que carrega o segredo da escuridão em seus olhos prateados. Sua palavra é lei, e sua aprovação, uma marca de poder.
e são atraídos pela gangue, cada um com suas razões. Talvez pela promessa de poder, de pertencimento, ou pelo desafio de enfrentar algo que parece maior do que eles mesmos. Mas o caminho para o Crepúsculo não é fácil. Eles precisam enfrentar as sombras dentro e fora de si, superar os testes cruéis e, acima de tudo, conquistar o respeito de Umbros.
As estrelas os observam, não porque estão destinados a grandes feitos, mas porque são imprevisíveis. Dois filhos das sombras, guiados pela lua, pela ambição e pelo desejo de provar que, mesmo na escuridão, podem brilhar.
E, talvez, descobrir que as sombras não apenas os rodeiam… mas também os definem.
Tem muitos jeitos de se acordar em uma manhã escura, e eu odiava com todas as minhas forças o jeito que eu acordava.
Os gritos dos meus irmãos, misturados com as birras das minhas primas, eram de longe, um inferno pessoal em que eu vivia presa.
Ter nascido em uma família grande era meu pesadelo de vida, não que a essa altura eu realmente me importasse, porque na verdade, já deixei de me importar a anos. Talvez ser vista sempre ‘como a errada’ ou a ‘filha que deu errado’, tenha contribuído para que eu deixasse de me importar com todos. Meus pais têm quatro filhos, mas agem como se tivessem apenas três.
Patrick, o mais velho e braço direito do meu pai, sempre fazendo suas merdas e sendo protegido constantemente por ele. Peter, o filho do meio e que se achava sempre mais esperto que todos, mas que era mais burro do que Patrick e nunca conseguia vencer sozinho suas próprias batalhas. Então tem Perry, o outro filho do meio, que é egocêntrico e persuasivo, sempre conseguindo tudo o que queria sem precisar fazer o trabalho de verdade, tanto dos nossos pais, quanto dos nossos irmãos e tios, que moram na mansão . E por último, eu, a única filha mulher e a que veio de uma gravidez indesejada.
Era constante ouvir quando criança que não era para eu existir, ou que eu não sabia fazer nada, já que nem para nascer homem eu prestei. Meu pai sempre deixou claro que nunca quis uma filha mulher e que se eu vim, era porque de alguma forma, ele estava sendo castigado aqui na terra.
Aprendi a me virar sozinha muito cedo, descobri meu dom sozinha também, abracei as sombras como minha única família e percebi que me tornar invisível dentro dessa casa, era o melhor para mim. Não tinha certeza se eles sabiam que eu ainda morava na mesma casa que eles, ou se sabiam, ignoravam minha existência o tanto que eu ignorava a deles.
Não existia amor fraternal ou parental entre mim e eles ou deles para mim, no começo sim, quando eu era uma criança ingênua e inocente, sempre corria atrás do afeto dos meus pais e irmãos, demorou e foi doloroso quando comecei a entender tudo, mas sobrevivi. Chorei uma única vez por tudo aquilo, e hoje sou até agradecida por ser do jeito que é.
Me arrasto para fora da cama, pois tenho objetivos a cumprir e ficar debaixo do mesmo teto que todas essas pessoas, não fazia parte deles. Tracei objetivos, metas e as alcancei, sem a ajuda de ninguém e sozinha. E agora estava pronta para lutar e dar tudo de mim para chegar até onde eu queria e, talvez, ter a chance de saber o que é fazer parte de algo importante e real.
Um banho gelado e rápido, foi o suficiente para me animar e, de volta ao meu quarto, vesti as mesmas roupas de sempre, calça e jaqueta jeans pretas, uma baby look branca e meu costumeiro batom vermelho nos lábios. Deixei meus cabelos ruivos longos e ondulados soltos para secarem naturalmente e encarei o meu reflexo no espelho, vendo determinação em meus olhos castanhos claros e um sorriso vitorioso em meus lábios vermelhos.
Guardei a carta em meu bolso e antes de sair, coloquei meu coturno, trancando meu quarto em seguida. Ao passar pelo quarto das minhas primas gêmeas, Ágata e Aria, vi as duas discutindo com Perry e Duska, minha outra prima, e revirar meus olhos para aquela gritaria toda foi minha única reação.
Embora eu tenha crescido com elas e com Perry, que é apenas dois anos mais velho que eu, nunca nos demos bem. Sempre eram eles contra mim em qualquer brincadeira, em qualquer situação. Todos gostavam delas e o fato de serem mulheres nunca foi visto como um problema, na verdade, para todos, elas não tinham defeitos.
Desci as escadas e andei direto para a cozinha, evitando os mais velhos que estavam na sala. Peguei uma maçã e ignorei as reclamações da cozinheira da mansão por eu estar pegando comida fora de hora e saí pela porta dos fundo, desviando dos homens do meu pai que guardavam a mansão .
Os dias de escuridão, eram sem dúvida, a melhor coisa que poderia ter acontecido para nós, os sombras. Não precisávamos esperar escurecer para andar na rua, podendo andar livremente em qualquer horário e isso era muito bom. Não ter que correr para se esconder do sol nascente, era melhor ainda. Era como estar livre de uma prisão coletiva e tenho certeza que todos os sombras se sentem assim.
O doce da maçã era minha única companhia enquanto caminhava pela rua escura. Olhei mais uma vez aquela carta, conferindo o endereço que estava nela. Todos já haviam ouvido falar de Os Filhos do Crepúsculo, uma organização secreta e temida por todos, formada por aqueles que possuem habilidades únicas e eu estava ali, encarando aquela carta que continha as palavras: Kaelen Umbros, sua habilidade, e Queremos te ver.
Aquelas palavras foram as que ficaram gravadas em minha mente e todo o resto que compunha aquela carta, parecia não ser tão importante. Embora nunca ouvi falar de ninguém que tenha sido chamado para fazer parte da organização, estava fielmente acreditando que era real, e aquilo foi o bastante para acender uma chama em mim. Minha intuição me dizia que aquilo mudaria minha vida e eu sempre confiava nas minhas intuições. Ninguém sabia onde ela ficava ou se ela existia realmente, mas, mesmo assim, as histórias sobre ela eram famosas.
O endereço que marcava na carta, era um lugar conhecido como abandonado, destruído por várias lutas e conflitos entre as luzes e sombras. Os boatos que circulavam era que não havia sobrado nada daquele lugar, tudo era ruínas e destroços espalhados por todos os lados, mas também havia aqueles que juravam que eram apenas histórias para manter as pessoas fora daquela região e que os que moravam lá, saíram por conta própria e o lugar apenas ficou esquecido.
A cada passo que eu dava em direção aquele lugar, meu coração batia um pouco mais rápido, ansiando descobrir logo qual das histórias era real. Meus passos eram certeiros e firmes, sem medo de descobrir o que me aguardava, determinados a pular por qualquer obstáculo que aparecesse em minha frente.
Cada vez mais perto, comecei a sentir como o ar ao meu redor havia mudado. A luz da lua banhava as árvores e casas escuras à minha volta e assim que entrei na rua descrita na carta, comecei a caminhar mais lentamente. Observei as construções destruídas, as casas aos pedaços, as ruínas de um lugar que algum dia foi a morada de muita gente.
Um arrepio passou por meu corpo, como se alguém tivesse passado muito perto de mim e girei meu corpo, olhando para trás o caminho por onde eu vim. A movimentação entre os escombros, entre as árvores, me deixou em alerta e pronta para lutar, caso fosse necessário. Sentia a adrenalina percorrer meu corpo, me deixando até um pouco agitada para fazer algo. As sombras começaram a andar até a rua, e era um grupo grande. Se eu conseguisse encostar em algum deles, teria alguma vantagem, temporariamente, mas teria.
Comecei a caminhar de costas conforme eles vinham em minha direção, tudo era escuro e não sabia onde aquela rua me levaria de fato. Estava em desvantagem e em um lugar que eu não conhecia. Um movimento à minha direita chamou minha atenção e uma sombra passou por mim, com uma rapidez que não era normal e assim que ele sumiu na direção que eu deveria continuar andando, risadas preencheram o silêncio ao nosso redor.
Uma emboscada, foi a primeira coisa que passou pela minha cabeça e não duvidaria se minha família estivesse envolvida em algo para me prejudicar. Joguei meus cabelos para trás, pronta para chamar quem quer que fosse para aparecer e me enfrentar, quando ouvi uma voz alta e grossa ecoar, cessando imediatamente os risos.
— Qual o seu nome? — falou, direto e seco.
Me virei para onde vinha o som e vi um homem alto bem no meio da rua. Suas roupas eram todas pretas e não conseguia ver seu rosto, pois havia uma capa com capuz que impedia de ser visto. Suas mãos estavam para trás do seu corpo e sua postura era imponente. Mesmo sem conseguir ver, sentia seus olhos em mim, me analisando e aguardando por minha resposta.
— — minha voz saiu firme e alta, e mesmo que meu coração estivesse acelerado, mantive minha postura de ataque.
O silêncio se estendeu a nossa volta e ele fez um sinal para que todos os outros se aproximassem e então fizeram um meio círculo em sua volta. Todos usavam as mesmas roupas e capas e a hipótese de que aquilo que eu vim buscar estava mesmo acontecendo, fez um pequeno sorriso surgir no canto dos meus lábios.
— Estávamos esperando você chegar — o homem falou, seu tom carregado de certeza.
Era mesmo verdade. A organização Os Filhos do Crepúsculo era real, e eu havia mesmo sido chamada para algo que os envolvesse.
Meu corpo relaxou momentaneamente ao ouvir aquelas palavras, mas mesmo assim, me mantive em alerta total. Um por um, foram sumindo de vista e o homem que estava na frente, se virou e seguiu pelo mesmo caminho. Tudo era feito em silêncio e segui eles, mantendo uma distância um tanto quanto segura entre mim e eles. Mesmo andando atrás deles, meus passos eram decididos, porque nada me faria desistir de fazer parte daquela organização. Não fazia nenhuma ideia de como seria, mas com toda certeza seria melhor do que continuar sozinha.
Mais a frente havia uma casa, não estava totalmente inteira, mas estava mais que as outras ao seu redor. A parte que deveria ser a lateral da varanda e provavelmente a sala da casa, estava destruída, com madeiras partidas ao meio e até galhos caídos sobre aquele pedaço, da grande árvore que tinha ali. Era visível que era uma casa abandonada a anos e até uni minhas sobrancelhas quando vi todos entrar pela passagem que deveria ter uma porta.
Como todos entraram, os segui também e entrei, cuidando para não encostar em nada e realmente tudo ali mostrava que era uma casa abandonada, até mesmo o cheiro de poeira e mofo estava impregnado no ar. No entanto, ao passar pelo corredor, aquele mesmo homem de postura imponente me aguardava em frente a uma parede com um retrato antigo e danificado, com uma parte da tela rasgada. Sem falar nada me aproximei e quando cheguei perto, uma porta se abriu naquela parede, bem no lugar em que o quadro ficava pendurado. Olhei para aquele homem, que mantinha seu rosto ainda coberto, e ele estendeu sua mão, indicando que eu deveria entrar.
Depois da porta tinha uma escada de metal, longa e em espiral, que me levou para uma grande construção subterrânea.
Algumas paredes eram de pedras gigantes, outras de concreto como o chão. Olhei tudo com atenção, seguindo aquele homem por um enorme corredor de má iluminação, portas de metais com números em preto apareciam por onde passávamos e me perguntei o que teria atrás delas, mas antes que fizesse a pergunta em voz alta, chegamos em um espaço amplo e aberto, com as paredes altas de pedras e muitas pessoas usando as mesmas roupas. Era como um mini exército, seguidores leais e obedientes.
Um longo corredor se abriu conforme íamos avançando mais, vi cabelos loiros e pretos caídos para fora daquele capuz enorme que cobria o rosto das pessoas, revelando que havia outras mulheres na organização. Meus olhos atentos foram para além de onde estávamos indo e vi seis cadeiras em um tipo de plataforma e uma cadeira na frente das outras com um homem que parecia ser maior e mais alto que este que me acompanhava. Cinco daquelas cadeiras estavam ocupadas e a primeira à esquerda estava vazia.
Quando chegamos em frente àquela plataforma, notei que tinha mais pessoas em pé ali, aguardando por algo. O silêncio estava se tornando um incômodo para mim. Não se ouvia um sussurro, um suspiro ou nem mesmo um cochicho entre todos ali presente. O homem que me trouxe até aqui, subiu e tomou o lugar que antes estava vazio na plataforma e eu fiquei parada no mesmo lugar. Naquela carta não havia instruções do que deveríamos fazer ou o que aconteceria quando chegássemos naquele endereço. Seguir o homem e confiar naquela carta era como aquele famoso dizer: “Um tiro no escuro”, mas para o azar deles, era que eu sabia atirar e a escuridão não era um problema para mim.
Passei meus olhos por aqueles que estavam parados ao meu lado, com roupas comuns como a minha, e notei que havia mais homens do que mulheres. Éramos em torno de seis mulheres e uns doze homens. Ia contar para ter certeza, quando um deles chamou minha atenção, e eu não podia acreditar que ele estava mesmo ali, no mesmo lugar que eu.
. O garoto que passou todos os anos que frequentei o colégio, querendo provar que era melhor que eu. Bom, em partes ele era mesmo melhor que eu, mas sempre me mantive a altura e nunca fugi de um desafio quando ele me chamava para provar que era melhor que eu. Eu tive minhas vitórias para cima dele e fiz questão de me vangloriar quando isso acontecia, além de que ver ele perder em qualquer coisa para mim, era a melhor coisa do mundo. Sempre tivemos uma rivalidade, um sempre estava competindo com o outro e nunca fomos amigos nem nada do tipo.
Encarei seus olhos quando vi que ele me olhava e arquei uma sobrancelha em deboche, deixando um sorriso surgir no canto dos meus lábios. Não sabia o que aconteceria a seguir, mas ter o ali, tornou tudo mais divertido e competitivo, porque, além de já estar determinada em ser a melhor, agora iria poder ser melhor que ele e ter como prêmio, seus olhos queimando de raiva.
Meu contato visual foi quebrado, quando vi pela minha visão periférica, a movimentação daqueles homens de capas em cima da plataforma.
As sombras pareciam vivas naquele lugar, pulsando como se tivessem vontade própria. O ar era denso, quase palpável, e meu coração batia acelerado enquanto todos olhavam para a figura encapuzada no centro do salão. Ele era o líder, o dono daquele domínio sombrio, e até mesmo o silêncio parecia obedecê-lo.
Então, com um movimento lento e calculado, ele retirou o capuz. Meu corpo gelou. O homem diante de nós era ao mesmo tempo belo e aterrorizante. Seus olhos prateados brilhavam como se refletissem um mundo que ninguém mais podia enxergar, e sua presença era esmagadora. Ele parecia carregar as sombras dentro de si.
Seu rosto era uma obra-prima de linhas austeras, com uma barba perfeitamente alinhada que realçava o maxilar afiado. Os cabelos dourados, curtos e bem cuidados, contrastavam com os olhos prateados, que brilhavam como lâminas refletindo a luz da lua. Havia algo de etéreo em sua presença, uma mistura de beleza quase divina e ameaça palpável, como um anjo caído que carregava a escuridão em cada célula do corpo. A postura ereta, o semblante severo e o pequeno sorriso que curvava seus lábios tornavam impossível desviar o olhar. Ele era um paradoxo vivo: encantador e assustador na mesma medida, irradiando autoridade e perigo em cada movimento.
Ele deu um passo à frente e falou. Sua voz era grave, como o trovão distante de uma tempestade prestes a atingir.
— Bem-vindos ao coração das sombras. Meu nome é Kaelen Umbros. Mas para vocês, isso pouco importa. O que importa é que eu sou o princípio e o fim para aqueles que pisam neste solo. Sou a escuridão que consome… ou eleva.
Ele começou a andar pelo salão, os passos ressoando como batidas de um tambor fúnebre. Cada palavra dele parecia envolver o espaço, como se o ambiente respondesse à sua presença.
— Vocês estão aqui porque carregam as sombras dentro de si. Elas os chamaram. Agora, cabe a vocês decidirem: abraçá-las ou serem consumidos por elas. Não há meio-termo. Aqui, só existem dois caminhos: ascender… ou desaparecer.
Senti o peso do olhar dele sobre mim. Meu corpo inteiro se arrepiou, como se ele pudesse ver cada pedaço de quem eu era, até mesmo as partes que eu queria esconder. Então, ele olhou para , com a mesma intensidade perturbadora, antes de continuar.
— Eu não prometo glória. Eu não prometo misericórdia. O que ofereço é simples: poder. Poder para se erguer acima de tudo e todos. Poder para moldar o mundo à sua imagem. Mas saibam de uma coisa… — ele parou, voltando a nos encarar com uma expressão dura. — As sombras não servem a ninguém. Elas consomem o fraco sem piedade.
Sua voz ficou ainda mais grave, cada palavra carregada de ameaça e promessa.
— Se vocês não forem dignos, não sairão vivos daqui. E se forem… talvez descubram o que significa, de verdade, fazer parte dos Filhos do Crepúsculo.
Ele ergueu o queixo, analisando-nos como um juiz prestes a dar seu veredito. Um silêncio pesado tomou conta do salão. Meu coração batia como um tambor descontrolado, mas, ao mesmo tempo, algo dentro de mim queria provar que eu era digna. Que eu pertencia àquele lugar.
Kaelen sorriu levemente, um sorriso que não tinha nada de gentil.
— Mostrem que merecem as sombras. Ou elas devorarão vocês.
Ele se afastou, mas o peso de suas palavras ficou queimando dentro de mim como uma marca.
Um dos membros da gangue, que até então estava encostado na parede, com os braços cruzados, se aproximou. Ele era alto e magro, mas havia algo de inquietante na maneira como se movia, como se as sombras ao redor respondessem a cada passo seu. Seus olhos eram escuros como breu, e um sorriso enviesado brincava em seus lábios.
— Bem, vocês ouviram o chefe. Agora, é comigo — sua voz era rouca, mas firme, carregada de uma casualidade quase insolente. — Vou mostrar onde ficarão. Seus aposentos. Não que eu ache que vão aproveitar muito… — ele riu de leve, mas o tom sarcástico fez a tensão no ar crescer.
Ele nos encarou, os olhos passando de mim para e, em seguida, para os outros ao nosso redor.
— A partir deste momento, considerem-se sob observação. Cada palavra, cada movimento, cada escolha. Tudo que fizerem será analisado. Aqui, não há segundas chances. Não há espaço para erros — ele deu um passo à frente, olhando diretamente para mim, como se já estivesse me julgando. — Vocês acham que passaram no teste só por estarem aqui? Errado. O verdadeiro teste começa agora, e, acreditem, ninguém passa sem provar que merece.
Ele virou as costas, começando a caminhar em direção à saída.
— Sigam-me. Ou fiquem para trás. Não que alguém vá sentir falta de vocês se desaparecerem.
e eu trocamos um olhar breve antes de o seguirmos. Era claro que, a partir daquele momento, cada passo que dávamos era uma escolha entre ascender ou cair.
Ninguém ousou falar nada, nem uma pergunta, e o silêncio era como uma parte importante de tudo ali.
Diminui um pouco meus passos, deixando que alguns passassem por mim, e assim eu poderia analisar um pouco das pessoas que estariam no mesmo grupo que eu. Era óbvio que isso era como uma competição e eu não deixaria ninguém tentar passar por mim. Enquanto todos seguiam o homem à nossa frente, olhando os detalhes à nossa volta, meus olhos estavam naquelas pessoas, analisando seus olhares curiosos e, de alguns, olhares assustados. Embora meu coração ainda batesse desenfreado em meu peito, não sentia medo, não disso pelo menos e talvez isso se remetesse ao fato de que estou disposta a tudo para ascender e a palavra ‘falhar’ nunca foi colocada em pauta para mim.
Chegamos em um corredor estreito e cheio de portas de metal, com números em preto pintada nelas. Era um corredor sem saída, diferente daquele em que passei antes, na última porta no final dele não havia nada para identificação. O homem à nossa frente parou e se virou para o grupo, e automaticamente, todos paramos. Meus olhos foram para , que estava a alguns passos à minha frente. Ele olhava para frente, focado e pensativo, não demonstrando o que se passava em sua mente, como se já tivesse traçado seus planos e não queria que ninguém soubesse disso. Esse pensamento fez um pequeno sorriso surgir em meus lábios vermelhos. Isso realmente será divertido.
Então, eu as notei. As asas. Sempre ali, sempre presentes, como uma extensão natural de quem ele era. Não eram sombras projetadas nem algo que ele invocava; eram reais, tão reais quanto ele, como se tivessem nascido com ele. Eram parte dele. As penas escuras, feitas de pura escuridão densa, absorviam qualquer vestígio de luz ao redor, deixando um rastro de penumbra onde quer que ele fosse. E agora, olhando para elas, percebi que estavam maiores do que da última vez. A envergadura era impressionante, quase majestosa, mas carregavam um peso que só alguém como poderia suportar.
Quando ele deu um leve passo para o lado, as asas também se moveram, fluindo como se respirassem junto com ele. Havia algo de visceral naquilo, algo que me fazia questionar se, de todas as coisas sombrias naquele lugar, elas não eram as mais perigosas. Eu me peguei pensando, por um breve momento, se ele sabia o quão imponente parecia. A resposta era óbvia: é claro que ele sabia.
— Aqui é o alojamento para os novatos — falou com sua voz rouca e firme, olhando para todos. — A última porta é o banheiro compartilhado, e em cada quarto ficaram quatro pessoas — explicou rapidamente, apontando para a última porta sem identificação.
A ideia de dividir o quarto com outras pessoas já é em si uma coisa ruim, nos deixando sem privacidade e ainda podendo ter a grande chance de dividir com pessoas babacas, mas o banheiro? Isso era horrível e desconfortável, no mínimo, e não fui a única a achar isso, porque todos do grupo se entreolharam, não acreditando que havíamos ouvido mesmo aquilo.
— Eu mesmo vou separar vocês nos quartos, as camas têm números que correspondem aos armários que tem em cada quarto — continuou, ignorando a reação que todos tiveram com as revelações. — Em cada armário, tem um kit de higiene e três mudas de roupas para começarem, após isso, terão liberdade para ter outros itens e outras peças para vestirem.
Pelo jeito a hipótese de voltar para a mansão eu já poderia descartar e se soubesse disso, teria trazido meu batom junto. Agora terei que esperar três dias para ter as coisas que gosto. Chato! Não que estivesse querendo voltar para aquela casa, ficar longe era um bônus extra dessa mudança.
Os nomes foram sendo chamados e o primeiro grupo de quatro pessoas entrou no quarto um. O próximo grupo no dois, e assim foram os grupos sendo formados e comecei a ficar ansiosa, olhando as pessoas que estavam sobrando e neguei com a cabeça quando pensei que poderia cair no mesmo quarto que o…
— , Nora Evans, Charlie Rither e — prendi a respiração enquanto via aquele homem passar os olhos pelas pessoas que estavam sobrando, quase implorando para ele não falar… — — filho da puta! Tantas pessoas sobrando e tinha que ser ele?! — Vocês ficam com o quarto sete.
Como estava atrás, olhei a garota loira e o rapaz negro se encaminhar e suspirei vendo o seguir eles. Que outra saída eu teria além de seguir eles?
A ideia de me divertir parecia bem longe agora, porque não contava ter que dividir o quarto com ele e se só ter pouco contato com já era algo quase insuportável, dividir o quarto seria uma tortura eterna.
Segui eles, ouvindo meu coração bater em meus ouvidos, uma mistura de raiva e indignação percorria meu corpo e antes que eu pudesse ver o próximo grupo ser formado, entrei naquele quarto, que a partir de agora seria o pior lugar do mundo.
O quarto era simples, com duas beliches de cada lado do quarto, com número pintado igual aos armários metálicos que estavam na outra parede. As paredes eram reforçadas e em uma delas tinha como decoração grafites com símbolos da gangue. Sobre as camas havia lençol, travesseiro e um cobertor.
A tal Nora se virou para mim e seus olhos desceram por meu corpo, como se me analisasse e não gostei do que vi em seus olhos quando eles voltaram a me encarar. Ela era loira e tinha a mesma altura que eu, magra e bonita. Seus olhos eram verdes e frios, com ar de superioridade. Revirei meu olhos para ela, e fui em direção às camas da esquerda, me sentando na beliche de baixo.
— Vou ficar com essa — falei alto para que todos ouvissem. A cama era de número 2 e peguei as coisas dela, começando a arrumar.
Não ergui meus olhos e talvez se eu usasse a mesma tática que usava na mansão e ignorasse todos, ficar naquele quarto se tornaria mais fácil.
— Acho que a parte de baixo fica melhor para você, cara — o tal Charlie comentou com .
— Tanto faz. As asas sempre ficam atentas mesmo quando eu durmo — respondeu com seu tom grave e rouco. — Posso ficar na cama de cima da , ela adora quando eu fico por cima mesmo — provocou, e dessa vez o olhei, vendo aquele sorrisinho estúpido no canto de seus lábios.
Me levantei e cruzei meus braços, sorrindo de um jeito provocativo, pois ele sabia que eu não iria ficar calada.
— Você ainda faz essas piadinhas sem graça?! — falei com deboche, aumentando meu sorriso. — Já falei para você parar de alimentar esses seus sonhos comigo, — pisquei meus olhos, não desviando dos tons escuros dele e passei minha língua por meus lábios em provocação.
Ele me olhou com aquele mesmo sorrisinho presunçoso, deixando o peso das palavras no ar por um momento antes de responder.
— Sonhos? — perguntou, arqueando uma sobrancelha, o tom grave de sua voz carregado de sarcasmo. — , se eu sonhasse com você, seria um pesadelo. Mas, já que insiste em se tornar o centro das atenções, quem sou eu para não dar o que você quer? — ele inclinou levemente a cabeça, os olhos escuros brilhando de pura provocação. — Só espero que consiga lidar com o que está pedindo.
As asas dele se moveram suavemente, como se respondessem ao seu humor. Era quase irritante o quanto ele conseguia ser confiante e ao mesmo tempo insuportável.
— Uau quanta tensão! — Charlie zombou, ou pareceu tentar amenizar o clima.
— Ou tesão — Nora comentou maldosamente.
acabou rindo do comentário dela, mais como uma lufada de ar do que uma risada de fato.
Acabei revirando meus olhos, tanto para a fala do quanto para os comentários daqueles dois.
— Da minha parte não esperem nenhum desses dois — olhei para a loira e depois para o Charlie. — Pesadelo é você estar aqui — apontei o óbvio para o . — E se eu fosse você, dormiria bem longe de mim. Nunca se sabe quando um acidente pode acontecer.
Me virei de costas e tirei minha jaqueta, jogando ela sobre a cama, não aguentando mais olhar aquele sorriso pretensioso que ele sempre tinha.
— E não estou pedindo nada de você, . Não quero nada que venha de você, só a distância — me sentei novamente na cama, fingindo que as provocações dele não me irritaram.
soltou uma risada baixa, grave, que parecia vibrar no ar ao nosso redor. Ele cruzou os braços, se inclinando casualmente contra a parede, como se cada palavra minha fosse um entretenimento pessoal.
— Distância? — ele repetiu, como se saboreasse a palavra. — Ah, … — Seu tom era tão insuportavelmente provocador quanto aquele sorriso que eu já odiava. — Você fala como se eu fosse uma sombra que pode evitar. Mas adivinha só? — Ele inclinou a cabeça levemente, as asas se mexendo de forma sutil, como se fossem uma extensão de sua própria arrogância. — Eu sempre estarei aqui. Perto o suficiente para garantir que você nunca esqueça meu nome.
Ele deu um passo à frente, os olhos sombrios fixos nos meus por um breve instante, antes de se virar e caminhar até a cama de cima com uma calma irritantemente confiante.
— E quanto aos acidentes… — completou, já subindo. — Se forem acontecer, , tenta fazer direito. Seria uma pena se você falhasse em me acertar… de novo.
Suas palavras me deixaram mais irritada, e isso me fez levantar novamente e encarar ele na beliche de cima. Sabia que meus olhos estavam queimando e não me importei em tentar esconder.
— Você é tipo uma praga, daquelas que grudam e a gente faz de tudo para se livrar e elas nunca vão embora — falei, fingindo uma calmaria que não refletia em meu interior. — Só cuida para não chegar tão perto, e ser drenado — lancei meu olhar provocador para ele, acompanhado do meu sorriso confiante.
Ele poderia me irritar, mas eu não ficaria quieta e muito menos deixaria ele ou qualquer outro pensar que poderia me vencer.
— Não conte sempre com a sorte, — intensifiquei meu olhar nele, aumentando meu sorriso provocador. — Porque foi isso que você teve, sorte.
me encarou de cima, aquele sorriso pretensioso ainda curvando os cantos de seus lábios. Ele se deitou de lado na beliche, apoiando o rosto na mão, como se minha irritação fosse um espetáculo que ele fazia questão de apreciar.
— Sorte, ? — ele repetiu, o tom rouco e arrastado carregado de ironia. — Ah, como você é adorável quando tenta diminuir o óbvio. Sorte não tem nada a ver com isso. É habilidade, algo que você insiste em ignorar porque, bem… deve doer admitir que nunca vai me superar.
As asas dele se mexeram levemente, quase como se reagissem ao que ele dizia, e ele inclinou a cabeça, os olhos escuros fixos nos meus, desafiadores.
— Mas, por favor, continue. Eu adoro quando tenta me assustar com essas ameaças vazias — ele sorriu ainda mais, o brilho irritante de confiança voltando. — Quem sabe, algum dia, você realmente consiga chegar perto.
Ele então se virou de costas, como se eu não fosse mais do que uma distração menor, mas antes de se acomodar completamente, ele lançou mais uma provocação por cima do ombro.
— Até lá, , tente não se afogar no seu próprio veneno. É divertido demais te assistir lutar para acompanhar.
A única habilidade visível que ele tinha era de me irritar. Meu sangue borbulhava em minhas veias e a vontade de tirar aquele sorriso dos lábios dele gritava em mim.
Eu não era menos que ele, não era menos que ninguém. Passei minha vida toda ouvindo isso de pessoas que deveriam ser importantes para mim e não iria ouvir isso vindo dele.
— Não serão ameaças tão vazias quando eu… — minha única vontade era encostar nele e só soltar quando sentisse ter drenado tudo dele, e eu ia fazer isso, mas a risada de Nora fez eu recuar o passo que havia dado na direção dele.
Me virei com chamas nos olhos e encarei a loira deitada na beliche de baixo, mexendo em suas unhas com desinteresse.
— Qual a graça, querida? — perguntei com sarcasmo na voz, tentando controlar a tempestade que provocou em mim.
Ela não respondeu, continuou a mexer nas unhas como se eu não tivesse falado com ela. Não havia passado nem um dia e eu já odiava meus 'colegas’ de quarto. Charlie estava olhando para o teto do quarto, mas podia ver o sorriso em seus lábios e revirei, mais uma vez, os meus olhos para aqueles três. Talvez se eu falasse com alguém, conseguiria mudar de quarto.
Ignorei todos e fui até meu armário, abri e tirei de lá uma muda de roupa. Era uma calça cargo preta e uma camiseta com um símbolo nas costas. Linhas geométricas intrincadas, formando um tipo de labirinto que parecia representar a complexidade e os segredos protegidos pela organização. Suas cores eram preto e dourado, como se para simbolizar o mistério e o poder, com um leve toque de vermelho para representar o perigo.
Achei a camiseta muito comprida, então rasguei ela e fiz um cropped. Sem me importar com eles, porque eles não eram nada para mim, tirei minha camisa branca e a guardei no armário, vestindo o cropped preto, em seguida tirei meus coturnos e meu jeans preto, para vestir aquela calça mais larga. Não eram as roupas que costumava usar, mas por enquanto serviria. Não olhei para nenhum deles, mas sentia seus olhares em mim, queimando em minhas costas.
Guardei tudo e fechei meu armário, caminhando para a porta sem olhar para trás, mas antes de fechar a porta, olhei uma última vez para , vendo que seus olhos acompanhavam cada movimento meu e para provocar, mandei um beijo para ele, batendo a porta em seguida.
Primeiro dia no inferno e eu quase deixei ele vencer, precisava me controlar e não cair nas provocações dele. A distância entre eu e ele, minha determinação em não falhar para fazer parte de algo maior, era minha maior aliada.
As sombras sempre foram meu lar, mas estar aqui, entre os Filhos do Crepúsculo, era diferente. Este lugar pulsava com uma energia perigosa, imprevisível, e talvez fosse exatamente isso que me atraía. Eu não buscava glória nem aprovação; eu buscava algo que quebrasse o vazio que me consumia, algo que me fizesse sentir parte de algo maior do que eu mesmo.
Deitei-me na cama de cima, as asas se ajustando como sempre faziam, ocupando o espaço ao meu redor como uma extensão natural de quem eu era. Fechei os olhos por um momento, tentando apagar a agitação do salão e as provocações de , mas, em vez disso, as memórias voltaram como um turbilhão.
A primeira vez que ouvi o nome Filhos do Crepúsculo foi de um mercador que cruzava terras esquecidas, suas palavras carregadas de mistério e temor. Ele falou sobre uma gangue que não apenas vivia nas sombras, mas as dominava, as moldava, as transformava em armas. “Eles não são como você,” ele disse. “São algo… além.”
A ideia me incomodou, mas também plantou uma semente. Porque, no fundo, eu sabia que ele estava certo. Eu podia conjurar as sombras, dobrá-las à minha vontade, mas o que isso significava quando ninguém estava por perto para ver? O que significava ter poder se eu estava sempre sozinho?
Foi esse pensamento que me perseguiu durante semanas, até que finalmente decidi. Não por curiosidade ou por desejo de poder, mas porque o silêncio do meu mundo era insuportável. Se eles fossem tão perigosos quanto diziam, talvez… talvez fosse isso que eu precisava.
Abri os olhos de volta à realidade, encarando o teto acima de mim. A verdade era que eu não sabia o que buscava aqui, não realmente. Mas era melhor estar cercado de perigo e caos do que encarar a monotonia do vazio. Pelo menos aqui, o silêncio não me acompanhava. Pelo menos aqui, cada escolha importava.
Deitei-me na cama de cima, as asas se ajustando ao espaço estreito. Fechei os olhos por um momento, mas os sons no quarto me puxaram de volta. havia se trocado ali mesmo, na frente de todo mundo, sem o menor pudor. E, claro, eu assisti. Seria mentira dizer que não. Ela era gostosa, e sabia disso, o que só tornava tudo ainda mais irritante.
Porém, eu também sabia que ela era encrenca. Sempre foi. Desde que éramos mais jovens. Nós basicamente crescemos juntos, sempre no mesmo círculo, mas nunca no mesmo lado. Eu não a odiava, nunca odiei, porque odiar seria forte demais. O lance entre nós era implicância, pura e simples. Como se irritar um ao outro fosse a única constante que tínhamos.
Ainda assim, era insuportável, do tipo que me fazia questionar por que eu ainda dava corda para as provocações dela. Talvez porque fosse fácil, talvez porque fosse familiar. Mas também sabia que jamais rolaria nada entre nós. Ela não era do tipo que alguém “tinha”. era caos puro, e qualquer um que se aproximasse demais acabaria queimado.
De qualquer forma, não era nisso que eu deveria estar pensando. Eu estava aqui por um motivo maior. A gangue, os testes, o perigo… isso era o que importava agora. podia ser o caos, mas este lugar era um abismo. E eu estava pronto para mergulhar.
O sono veio mais rápido do que eu esperava. Apesar do desconforto das novas paredes ao meu redor e da constante agitação do quarto, meu corpo cedeu ao cansaço. As sombras sempre me mantinham seguro, mesmo no meio do caos. Mas a tranquilidade não durou muito.
Fui arrancado do sono por um barulho ensurdecedor, um estrondo que fez meu coração disparar e minhas asas se ajustarem automaticamente, como se fossem responder a uma ameaça iminente. Me sentei rápido, os olhos ainda pesados enquanto o som se repetia, ecoando pelo ambiente como um trovão contínuo. Pelo canto do olho, vi se levantar, já praguejando, enquanto os outros no quarto pareciam tão confusos quanto eu.
A porta foi aberta com violência, e figuras encapuzadas, cobertas por mantos negros e com olhos brilhando em um tom profundo de âmbar, entraram no quarto. A energia deles parecia preencher o espaço, pressionando cada centímetro do ar ao nosso redor.
— Todos para o grande salão. Agora! — a voz de um deles soou, grave e inquestionável, como se viesse das próprias profundezas.
Não havia espaço para perguntas ou hesitação. Pulei da beliche, aterrissando suavemente, minhas asas se ajustando em resposta ao movimento. Não perdi tempo; enfiei os coturnos de guerra e passei uma mão pelos cabelos, jogando-os para trás. Ainda meio sonolento, forcei meu corpo a se preparar para o que estava por vir. A adrenalina começava a correr, mas a sensação de perigo iminente já estava presente, tão real quanto o chão sob meus pés.
Quando levantei o olhar, lá estava ela: , parada em frente à cama dela, ajeitando a jaqueta e me encarando com aqueles olhos de tons esverdeados que nunca consegui decifrar por completo. Eu retribuí o olhar, intenso e cheio de palavras não ditas. Era o mesmo tipo de troca que tínhamos desde sempre — desafio, irritação, e algo mais que nenhum de nós parecia disposto a admitir.
Sem dizer uma palavra, ambos sabíamos que a noite estava só começando, e seja lá o que nos esperava no salão, não seria simples. Ela saiu na frente, me deixando para trás, mas eu segui logo depois.
Enquanto caminhávamos pelo corredor mal iluminado, as sombras ao nosso redor pareciam vivas, como se tivessem uma vontade própria. A tensão era palpável, e algo dentro de mim sabia que este momento, esta convocação, era o verdadeiro motivo de eu estar aqui.
Eu queria o perigo. Eu queria o desafio. E ele acabava de chegar.
O salão principal estava envolto em sombras, tão densas que pareciam vivas, pulsando a cada palavra não dita no ambiente. A sala estava cheia, mas o silêncio era absoluto, exceto pelo som de passos firmes que ecoaram quando Kaelen Umbros apareceu. Ele estava encapuzado novamente, a figura imponente dominando o espaço. Todos os olhares se voltaram para ele.
— Bem-vindos ao que realmente importa — começou ele, sua voz grave ressoando como um trovão contido. — Estar aqui não é o suficiente. Sobrevivência neste lugar exige mais do que vontade. Exige força, sacrifício e, acima de tudo, lealdade.
Os encapuzados ao redor de nós não se moviam, mas suas presenças faziam o ar parecer mais pesado. Kaelen continuou:
— Os Filhos do Crepúsculo não aceitam fraquezas. Esta noite, cada um de vocês será testado. Não há garantias de sucesso, e não haverá misericórdia para os fracos.
Ele fez uma pausa, deixando suas palavras ecoarem pelo salão antes de continuar.
— Vocês serão colocados em duplas. Sobrevivam juntos… ou pereçam juntos.
Ouvi murmúrios baixos ao meu redor enquanto alguns olhavam nervosos uns para os outros. Eu, no entanto, não desviei o olhar de Kaelen, mantendo a expressão neutra. Até que ele começou a chamar os nomes.
— … .
Minha mandíbula apertou. Claro que seria ela. Olhei para , que já estava cruzando os braços com um sorriso irônico, como se tivesse certeza de que isso era obra do destino apenas para nos irritar.
Kaelen não deu tempo para protestos.
— Sigam-nos.
Fomos levados por corredores estreitos e sombrios, as paredes parecendo pulsar com uma energia viva, até uma abertura onde uma arena subterrânea se revelava. A escuridão parecia mais espessa ali, quase sólida.
— Bem-vindos à Arena das Sombras — anunciou Kaelen, de pé acima de todos nós. — Sobrevivam. Vejam através das ilusões. E provem que merecem estar aqui.
Um som baixo, gutural, começou a ecoar das paredes, como se algo estivesse se movendo. Criaturas começaram a emergir das sombras, híbridos grotescos com formas distorcidas, olhos brilhantes e movimentos erráticos. Cada uma parecia mais mortal que a anterior, e eu sabia que não seriam apenas ataques diretos; eles mexeriam com a nossa percepção, com a nossa mente.
Olhei para rapidamente.
— Espero que você consiga acompanhar — provoquei, ajeitando as asas e preparando minha postura.
Ela estava atenta a tudo à nossa volta, em sua posição de ataque. Seus olhos, puro fogo, queimaram nos meus e aquele pequeno sorriso irritante surgiu no canto dos seus lábios.
— Faça as honras, … — debochou, apontando as feras a nossa frente. — E então descobrirá.
Em um movimento rápido, a ruiva prendeu seus cabelos em um rabo de cavalo alto e se adiantou à minha frente, piscando um olho para mim.
Mas ela voltou a ficar séria no segundo seguinte, girando seu corpo e escapando do ataque daquele híbrido. Ela parecia saber o que fazer, e vi quando ela chutou um deles e o segurou, drenando a energia vital dele, e deixando a marca de suas mãos no lugar tocado. O híbrido, sem força caiu no chão e pulou por cima dele, indo de encontro com outro que vinha rápido na sua direção.
Observei enquanto se movia com a graça de quem parecia feita para aquilo, como se cada passo e golpe fossem parte de uma dança cuidadosamente ensaiada. Mas, claro, ela não perderia a oportunidade de jogar suas farpas.
— “Faça as honras, ” — repeti, com uma leve ironia na voz, enquanto minhas asas se agitavam, prontas para o combate. — Eu adoraria, mas parece que você está se divertindo demais para dividir.
Meus olhos captaram o movimento de outra criatura se aproximando pelas laterais. Suspirei, ajustando minha postura, e avancei antes que ela pudesse me alcançar. Convoquei as sombras ao meu redor, moldando-as em algo quase tangível. Com um movimento rápido, as lancei em direção ao híbrido, envolvendo-o antes que ele sequer tivesse a chance de reagir.
Outro veio na direção dela, e ela já estava pronta, ágil, quase antecipando o ataque antes mesmo que ele acontecesse.
Desviei o olhar para me concentrar no meu próprio alvo. Um híbrido grotesco avançava, seus membros distorcidos pulsando com uma energia sombria. Suspirei, deixando as sombras ao meu redor se tornarem mais densas. Elas fluíram como uma extensão do meu corpo, moldando-se em lâminas afiadas que cravei direto no peito da criatura. Ela tentou reagir, mas as trevas não perdoavam.
Enquanto o híbrido caía aos meus pés, meus olhos voltaram para . Minhas asas se abriram levemente enquanto eu me preparava para o próximo ataque. Não havia tempo para admirar a luta dela, por mais fascinante que fosse. As sombras estavam vivas, o perigo real, e se eu hesitasse, essa arena iria nos consumir sem piedade.
A batalha se desenrolava em um caos absoluto, cada híbrido grotesco parecendo mais determinado que o anterior a nos despedaçar. Eu mantinha minha distância, usando as asas para ganhar altura enquanto lançava rajadas de sombras contra os inimigos. As trevas respondiam ao meu comando, moldando-se em lâminas e correntes que cortavam o ar, prendendo e destruindo os híbridos que se aproximavam.
, como sempre, fazia questão de chamar atenção. Lá embaixo, ela enfrentava os híbridos de frente, chutando, desviando e drenando suas forças vitais com toques precisos. Cada golpe seu era brutal e calculado, mas eu percebia a tensão em seus movimentos, como se a força dos inimigos estivesse começando a se acumular contra ela.
Por um momento, nossos olhares se cruzaram. Eu sabia que ela não pediria ajuda - nunca pediria. Mas enquanto mais híbridos surgiam das sombras, a realidade ficou clara. Estávamos cercados. Eu estava tentando controlar o cenário de cima, enquanto ela lidava com tudo sozinha no chão, e não estávamos indo a lugar nenhum assim.
Desci rapidamente, aterrissando próximo a ela, as asas batendo uma última vez antes de recolherem parcialmente.
— Você vai continuar brincando de heroína ou vamos acabar com isso juntos? — perguntei, o tom seco, mas os olhos avaliando rapidamente nossa posição.
— Se você parasse de ficar voando como uma borboleta e me ajudasse de verdade, já teríamos acabado com eles — esbravejou, chutando outro híbrido que veio na direção dela.
Aquele híbrido não desistiu e avançou novamente pra cima dela, e como seus olhos estavam em mim, ele conseguiu puxá-la pela camisa, prendendo suas garras naquele tecido e os arrebentando, deixando ela apenas com um pedaço da camisa e seu sutiã à mostra. esbravejou palavras que não consegui entender e suas mãos seguraram com força na cabeça do híbrido, pegando para si toda a energia vital dele, sem piedade, até que a criatura caísse no chão, diante de seus pés.
— Inferno! — falou entredentes, me olhando com irritação. — Odeio dizer isso, mas qual seu plano? — perguntou, atenta à nossa volta, vendo mais híbridos surgirem na arena.
Observei a cena com uma mistura de irritação e fascínio, minhas asas se movendo levemente em resposta à adrenalina crescente. , como sempre, era um espetáculo por si só — feroz, implacável e, naquele momento, claramente furiosa comigo. A camisa rasgada e o brilho em seus olhos só tornavam tudo mais caótico.
Respirei fundo, tentando ignorar o impulso de provocá-la, algo que parecia tão natural quanto respirar. Mas ela tinha razão, infelizmente. Agir de forma independente estava nos atrasando, e esses híbridos só continuavam a surgir.
— O plano? — respondi, ajustando minha postura enquanto avaliava rapidamente a arena. As sombras ao nosso redor pulsavam como se fossem vivas, e as criaturas se moviam como predadores implacáveis.
Me concentrei nas sombras ao nosso redor, sentindo-as, moldando-as na minha mente. Precisávamos limpar o campo e ganhar algum controle antes que fosse tarde demais.
— Eu seguro eles aqui — falei com firmeza, reunindo as trevas em torno de nós, formando uma barreira densa. Era temporária, mas daria tempo para nos reagruparmos. — Você foca nos que ultrapassarem isso. E, … tenta não rasgar o resto das suas roupas.
Não esperei pela resposta dela. As sombras responderam ao meu comando, se espalhando rapidamente para formar uma espécie de jaula que mantinha os híbridos afastados por alguns segundos. Usei o tempo para avançar em um dos pontos mais fracos do grupo, cortando através das criaturas com lâminas de trevas, minhas asas batendo forte enquanto ganhava impulso para golpes precisos.
Mesmo com a tensão crescente, não pude deixar de notar como ela agia rápido, cobrindo as lacunas que eu deixava. Por mais que não quiséssemos admitir, estávamos começando a trabalhar juntos. Não era perfeito, mas era eficaz. E, naquele momento, eficácia era tudo o que importava.
Enquanto conjurava mais sombras à minha volta, notei em uma luta com dois deles que passaram por mim. Por instantes acreditei que ela gritaria por ajuda, mas em um girar do seu corpo, a ruiva correu rapidamente, pegando impulso e apoiando seus braços nos ombros da criatura, caindo com graça e leveza atrás do corpo dele, deixando ele caído no chão, pois com seu toque rápido e certeiro, ela havia drenado ele e em segundos estava lutando com determinação contra o outro híbrido que vinha logo atrás do que ela havia derrubado.
A ruiva rolou no chão e chutou uma das pernas da fera, fazendo ele se desequilibrar, então se levantou e se lançou contra ele, o acertando novamente e parecia que cada vez que ela drenava uma daquelas criaturas, sua força aumentava, mas ao mesmo tempo, conseguia ver o quanto isso a cansava. E por segundos, quando ela terminou a drenagem do outro híbrido, ela me olhou e um vislumbre de vulnerabilidade surgiu em suas íris, junto com um sorriso fraco. Mas tudo sumiu quando ela correu e passou por mim, indo de encontro a mais feras que estavam vindo e parecia ser esse o objetivo deles, nos cansar e desistir e ter nossos fins pelas garras dessas criaturas.
E mesmo estando perto do seu limite, lutava como uma força desenfreada da natureza.
Uma das criaturas, mais rápida do que as outras, avançou enquanto ela estava distraída com outra. Seu corpo já não era tão ágil quanto no início, e dessa vez ela não conseguiu desviar. A fera a derrubou no chão, cravando suas garras próximas demais de sua garganta. lutava, mas eu podia ver que estava perdendo terreno.
Parei por um momento, observando a cena. Eu poderia deixá-la morrer ali.
Bastava um instante de hesitação, uma escolha, e tudo acabaria. A irritação constante, as farpas que trocávamos, o fardo de ter que lidar com alguém como ela. Bastava não fazer nada.
Meus olhos se fixaram nos dela, que ainda queimavam com aquele fogo teimoso, mesmo quando estava à beira de ser esmagada. E por um momento, pensei: "Seria tão simples..." Mas algo dentro de mim não deixou. Porque, por mais que fosse encrenca, caos, e tudo o que eu fingia desprezar, ela era . E eu não estava pronto para ver aquele fogo apagar.
Com um movimento rápido, deixei as sombras me envolverem e as asas se abriram, lançando-me em um impulso direto para a criatura. As trevas se moldaram em lâminas afiadas enquanto eu caía sobre o híbrido, atravessando-o antes que pudesse dar o golpe final. Ele gritou e se dissipou em fumaça antes de colapsar completamente.
A ruiva ofegava no chão, claramente exausta, mas o fogo ainda estava lá. Me abaixei levemente, os olhos fixos nos dela, e deixei que o peso da minha presença falasse por mim. Não precisei dizer nada, mas ela sabia. Sabia que eu poderia ter escolhido outro caminho.
Sabia o que eu tinha acabado de decidir.
Me levantei sem desviar o olhar, a sombra de um sorriso curvando meus lábios.
— Não se acostume — falei baixo, mais para mim mesmo do que para ela.
Porque, no fundo, eu sabia que isso não era sobre ela. Era sobre mim. Sobre o que eu estava disposto a fazer — ou a não fazer — nesse lugar onde tudo era consumido pelas trevas.
— Idiota! — rosnou, orgulhosa demais para agradecer o que eu havia acabado de fazer por ela.
Ela se levantou do chão e segurou em seu ombro esquerdo, onde no ataque, o híbrido havia conseguido ferir ela. Não parecia ser nada profundo, mas mesmo assim, sangue escorreu por seu braço.
Um rugido veio do lado direito da arena e quando ambos nós viramos para aquele lado, assim como haviam aparecido, os híbridos também haviam sumido e no lugar deles, tinha uma fera ainda maior que os outros, parecendo mais forte e muito mais rápido, como se eu e ela tivéssemos passado de nível e agora teríamos que enfrentar algo mais desafiador do que os outros anteriores.
Seus olhos eram de pura fúria, flamejantes em determinação a nos destruir. O ar a nossa volta parecia conspirar a favor da criatura horrenda que nos encarava e senti a presença de ao meu lado, seu braço quase tocando o meu. Ela tinha seus olhos voltados para a fera, mas então seu rosto se virou para mim, deixando seus olhos de um tom claro, preso nos meus.
— Só mais um? — perguntou em um murmúrio, como se fosse um pedido de lutarmos juntos, só mais uma vez.
Ela não iria desistir, sabia disso, pois seus passos sempre eram determinados e isso refletia visivelmente em seus olhos.
— Me acompanhe… — falou, e voltou a olhar a fera.
Antes dela sair do meu lado, sua mão esbarrou na minha, foi rápido, intenso e quente, e no segundo seguinte, ela estava correndo na direção daquele híbrido, se lançando no chão e deslizando entre as pernas dele, e em um golpe, puxou uma das pernas, deixando ele desequilibrado e distraído para que eu pudesse lhe atacar de surpresa, enquanto ela chamava a atenção dele para si.
Observei enquanto a ruiva avançava com uma coragem que beirava a loucura, como sempre. Ela deslizava com precisão entre as pernas da criatura, forçando-a a se desequilibrar.
O movimento dela era ágil, calculado, mas também suicida. Ela sabia exatamente o que estava fazendo: arriscando a própria vida para criar uma abertura para mim.
Minha mente trabalhava rápido, avaliando o momento perfeito para atacar. As sombras ao meu redor se agitavam, respondendo ao meu comando silencioso enquanto eu moldava uma lâmina delas em minhas mãos. A fera rugiu, suas garras tentando alcançar , mas ela continuava chamando sua atenção, provocando-a como se isso fosse algo natural para ela.
As asas se abriram atrás de mim, batendo uma vez e me lançando no ar. Eu não podia hesitar. Um ataque rápido e certeiro era a única chance que tínhamos. A fera estava distraída, exatamente como planejou.
Subi mais alto, sentindo o peso das sombras se acumularem na lâmina que eu havia criado. O mundo pareceu desacelerar por um momento quando vi a criatura girar na direção dela, os olhos flamejantes fixos em sua figura.
Com um impulso final, mergulhei em direção à fera. Minhas asas cortaram o ar, e a lâmina sombria brilhou antes de atingir o pescoço da criatura. O impacto foi brutal, e a fera rugiu de dor enquanto tentava me alcançar. Mas eu não dei chance. Girei no ar, reforçando o ataque com um segundo golpe, atravessando sua pele espessa e atingindo algo vital.
A criatura cambaleou, mas ainda lutava, mesmo enquanto o sangue escuro escorria de seus ferimentos. não perdeu tempo. Ela se levantou, drenando energia vital da fera enquanto ela ainda estava viva, suas mãos deixando marcas profundas que pareciam queimar.
Finalmente, a criatura caiu de joelhos, e eu recuei, deixando-a aos cuidados dela. finalizou o trabalho, e a arena ficou em silêncio. As sombras ao redor pareciam se acalmar, mas o ar ainda estava pesado. Ambos estávamos ofegantes, feridos, mas inteiros.
Suspirei, limpando o suor da testa com o dorso da mão e me aproximando dela.
Não que fosse preocupação — claro que não —, mas ela parecia estar a um passo de desmoronar, e alguém precisava garantir que ela não morresse antes que pudesse pagar pelas provocações de sempre.
Cheguei perto, parando a poucos centímetros dela, perto o suficiente para ouvir sua respiração ofegante.
Olhei para o ferimento em seu ombro, o sangue manchando o tecido rasgado que ainda restava.
— Vai sobreviver ou quer que eu te carregue até lá fora? — perguntei, o tom carregado de sarcasmo, mas meus olhos ainda fixos no corte.
Inclinei-me ligeiramente, avaliando o ferimento mais de perto, ignorando o fato de que ela provavelmente estava se segurando para não me afastar com uma provocação.
— Não vai morrer — murmurei, o tom seco enquanto me afastava um pouco, deixando meus olhos caírem de volta nos dela. — Mas se desabar, eu te deixo aqui. Só pra deixar claro.
Dei um passo para trás, deixando um sorriso de canto surgir no rosto. Mas por mais que minhas palavras fossem carregadas de ironia, algo dentro de mim sabia que, se ela realmente caísse, eu seria o primeiro a segurá-la. E era exatamente isso que me irritava.
Ela arrumou sua postura, tentando demonstrar que não estava tão mal quanto parecia e balançou seus ombros como se nada tivesse acontecido, tirando em seguida o resto daquela camisa rasgada e ficando de fato, apenas com sua peça íntima.
— Se encostar em mim, se prepare para ter as marcas das minhas mãos em você — sorriu como se tivesse me contado algo legal, mas deixou claro que não tinha problema em usar seu poder em mim.
A porta da arena se abriu, e piscou um de seus olhos para mim e saiu andando na minha frente, balançando seu corpo provocativamente de propósito, como se não estivesse acabado de lutar e muito menos estivesse ferida.
— Já percebeu como você gosta de ficar para trás?! — falou debochada, aumentando seu tom para que ouvisse. — Pode se acostumar a ver minhas costas, , porque você sempre ficará para trás — ela riu e me olhou por cima de seu ombro bom, voltando seu olhar para a frente logo depois.
Sorri de lado com a visão, descendo meus olhos por ela toda e lambi meu lábio superior, sem pudor algum.
— E quem te disse que eu não goste de ficar atrás mesmo? — ergui as sobrancelhas, rindo nasalado enquanto a seguia. — Até prefiro, pelo menos não preciso ficar olhando para sua cara — rebati, dando de ombros e quando a alcancei, sussurrei no seu ouvido: — E você tem uma bunda gostosinha até.
Pisquei um olho para ela e saí, agora na sua frente. Mas tive que parar quando demos de cara com o líder Umbros, ele sorriu satisfeito para nós dois e bateu palmas.
— Vocês tem grande potencial — comentou, olhando para mim e para . — Mas isso foi só o começo. O maior teste ainda está por vir — avisou, transformando o sorriso em algo sombrio.
Ele fez um sinal para os outros nos acompanharem de volta para os dormitórios. Charlie e a loirinha não tinham voltado ainda. Meus olhos foram até a ruiva, e sabia pelo olhar dela que ela também estava pensando nas palavras de Umbros para nós.
O que será que estava por vir?
Desde que recebi aquela carta, estava me preparando, mentalmente e fisicamente, para qualquer coisa, mas nem de longe imaginei que teríamos que lutar contra tantas feras ao mesmo tempo, e sendo apenas em dois. Mas não tive medo, sabia o que fazer e como fazer, e fiquei grata pela ajuda que me deu, embora nunca direi isso a ele e ter que aguentar dias de provocações sobre isso.
Medo é uma coisa que não costumo ter, igual pensar demais sobre as coisas, eu simplesmente me jogo e dou o meu melhor, lutando para não cair e falhar e uso isso em qualquer área da minha vida, vivendo o hoje e o agora, sem medo, sem pensar muito.
Quando nós permitimos ter medo, ficamos vulneráveis e frágeis e isso era uma coisa que não poderia jamais deixar visível para outras pessoas. Como também pensar demais evitava viver novas experiências, novas aventuras e descobrir coisas novas. E por isso eu me jogava de cara em tudo, independente do que fosse.
Não fazia ideia de como estavam sendo os testes dos outros, mas o nosso foi intenso e até prazeroso, porque pude extravasar um pouco da irritação que o causava em mim.
Nora e Charlie ainda estavam nos seus testes e quando e eu fomos liberados para voltar ao nosso quarto, tudo o que eu queria era me jogar embaixo da minha coberta e dar o descanso que eu sabia que meu corpo queria, mas me recusava a fazer isso sem antes tomar um banho.
Andei em silêncio um pouco atrás dele, deixando o resto das minhas forças para o meu banho, mesmo que sua fala sobre a minha bunda ainda estivesse bem fresca em minha cabeça. Ele era um abusado, e eu, uma provocadora com orgulho, e como não pude responder ele por termos sido interrompidos, iria lhe dar a resposta com atos.
Ele parecia andar sem fazer nenhum esforço, com suas asas em sua retaguarda, parecendo ter vida própria conforme seu corpo balançava com o andar. Ele era irritante, mas fez um bom trabalho lutando hoje.
Assim que passei pela porta do quarto, fui direto ao meu armário, não olhando para ele para ver o que ele fazia. Estava, na verdade, com um pouco de pressa e não queria ficar frágil na frente dele. Abri meu armário e peguei aquele kit de higiene, vendo que tinha shampoo e sabonete nele e agradeci por ter outra troca de roupa, já que perdi uma, e suspirei em alívio ao ver embaixo do kit peças íntimas. Peguei apenas uma calcinha preta e uma daquelas camisas enormes, que a barra batia na minha coxa, e a toalha de banho.
Tirei meu coturno e deixei embaixo da minha cama, tirando em seguida minha calça e ficando só de calcinha e sutiã. Não olhei para , mas senti algo estranho passar pelo meu corpo, sendo obrigada a olhar para ele. Meus olhos se prenderam nos dele e minha pele pareceu queimar com o olhar que recebia dele. Peguei minhas coisas para o banho e andei até a porta, me virando mais uma vez para ele.
— Sobre seu comentário sobre minha bunda… — Lhe dei um sorriso provocador. — Pode ficar à vontade para olhar, porque é só isso que você fará…
Passei pela porta e a fechei, indo em direção ao banheiro e não esperando para ouvir as baboseiras que ele sempre falava.
O corredor estava vazio e andei a passos rápidos até a última porta, entrando em seguida. O banheiro era amplo, feito para acomodar várias pessoas ao mesmo tempo. As paredes todas brancas com um piso branco também, deixavam o lugar até um pouco iluminado demais, se fosse comparado aos outros ambientes, onde não existia quase nada de luz. Em uma parede, seis cabines individuais fechadas com vaso sanitário, em frente a elas, uma bancada com seis pias, acompanhadas com um longo espelho e atrás da parede do espelho, seis repartições com chuveiros sem portas.
Suspirei com aquilo, mas deixei minhas roupas em cima do banco de cimento que tinha em frente aos chuveiros, pendurei minha toalha no gancho que tinha ali dentro e entrei na cabine, ligando o chuveiro na água gelada. Como estava sozinha, lavei rápido meus cabelos e aquele sangue seco do meu braço e daquela ferida, tirando minha calcinha e sutiã, ficando nua. Me lavei o mais rápido que consegui, deixando as peças ali para depois lavar. Desliguei o chuveiro e peguei rápido a toalha, antes que alguém aparecesse.
Já havia me secado e estava secando meus cabelos, quando ouvi a porta bater, indicando que alguém havia entrado. Me enrolei rapidamente na toalha e juntei minhas coisas, indo até o banco e me sentando para guardar o que eu havia usado. Passos se aproximaram e quando ergui meus olhos, era ele.
estava com a sua toalha pendurada em seu ombro, sem camisa e com o botão da sua calça aberta, mostrando a barra da sua cueca box preta. Seu peitoral largo e definido o deixava tão… nada! Deixavam ele ainda mais insuportável do que já era com camisetas.
Arrumei minha postura, puxando todo o meu cabelo para um lado só, sabendo que ele viria com alguma provocação para cima de mim, e olhei em seus tons escuros, apenas esperando sua gracinha.
— O que foi? — perguntou, erguendo suas sobrancelhas. — Se for ficar assistindo, eu vou cobrar — provocou, abaixando sua calça e começando a se despir sem ver problema nenhum em fazer aquilo na minha frente.
— Só se eu quiser queimar meus olhos. — Sorri debochada para ele, passando meus olhos por ele e os revirando, ainda sorrindo. — Já estou de saída, de repente o ar ficou tóxico demais. — Fiz uma careta e voltei a arrumar minhas coisas.
— Então aprenda a respirar toxicidade, ruivinha, porque vamos conviver muito juntos — respondeu com aquele tom insuportavelmente arrogante e ouvi ele ligar o chuveiro.
O jeito que me chamou fez minha cara se fechar e respirei profundamente ao me dar conta que ele estava certo.
— Então vou torcer para você cair logo, , porque me recuso a me acostumar a respirar esse ar. — Meu tom não saiu muito alto, mas sabia que ele ouviria.
Me levantei e vesti aquela camisa enorme por cima da toalha de banho, tirando ela quando tive certeza que a barra da camisa ia mesmo até minhas coxas, e então vesti minha calcinha, voltando a terminar de secar meus cabelos.
Os efeitos após o uso das drenagem estavam aparecendo e estava começando a me sentir fraca, e isso veio junto com uma dor forte em meu ombro. Grunhi e me abaixei para juntar minhas coisas e sair rápido dali, mas senti uma tontura ao fazer o movimento.
— Merda! — resmunguei para mim mesma, e me apoiei no banco para ficar em pé novamente.
— Ora, ora… acabou de desejar que eu caísse e o feitiço tá voltando para a feiticeira. — Ouvi seu deboche, logo seguido de uma risada. — Sabe, , apesar de não gostar de você e não ir nem um pouco com a sua cara, eu não desejo o seu mal. Ao contrário de você, é claro. Aí está uma enorme diferença entre nós.
apareceu ao meu lado, a toalha enrolada em sua cintura e seu corpo todo molhado. Então ele estendeu a mão para mim.
— Você vai desmaiar aí, para de ser uma escrota — disse, mais sério.
— Me deixa em paz — falei baixo, buscando por forças para sair daquele banheiro. — Eu estou bem e não preciso de você… de ninguém…
Não olhei para ele, me recusava a ver qualquer coisa em seus olhos, apenas deixei minhas coisas para trás e saí dando passos incertos para fora do banheiro, precisando me apoiar na parede do corredor quando minha visão escureceu por alguns segundos. Eu só precisava chegar na minha cama e descansar e depois voltaria para pegar minhas coisas.
Puxei o ar quando minha visão voltou e busquei pelo número do meu quarto nas portas, dei mais alguns passos e passei pela porta sete, deixando meus olhos focados na minha cama. Ouvi passos atrás de mim, e uma fraqueza dominou meu corpo, me fazendo cair sobre a cama.
Senti minha camisa subir com o jeito que meu corpo caiu, mas não consegui me arrumar, nem mesmo puxar minha coberta. Minha visão escureceu novamente e a dor em meu ombro se espalhou por todos os lados me fazendo choramingar baixinho. Os passos se aproximaram mais, mas eu já estava longe e não sabia identificar quem era.
A última coisa que registrei antes de apagar, foi as mãos de alguém erguendo minhas pernas na cama.
Vozes chatas e irritantes ecoavam em minha cabeça, se juntando com a dor que irradiava do meu ombro. Não ousei me mexer e nem revelar que eu havia acordado ao perceber que as vozes eram da Nora, Charlie e .
Meu corpo estava quente, sentia minha camisa enrolada até minha cintura e o peso da coberta sobre mim. Forcei minha mente para lembrar em qual momento eu havia puxado ela, mas não conseguia porque eu não havia me cobrido e nem me deitado corretamente sobre a cama. Se eu não tivesse perdido tempo com o no banheiro, teria conseguido chegar a tempo na minha cama antes de ficar esgotada.
A risada chata da Nora chamou minha atenção e prestei atenção na conversa deles, onde Charlie estava contando como havia sido seu teste e que a sua dupla foi um rapaz do quarto dois. Eu não sabia nada sobre nenhum deles, quais eram suas habilidades, seus dons, suas fraquezas, nada. Mas como presenciou a minha fraqueza, apostava que todos já sabiam o que acontecia comigo quando usava meu poder e isso me deixava em desvantagens com eles.
Era nessas horas que o ódio que sentia por meu dom se sobressaia, porque eu não conhecia ninguém que ficava fraca e frágil após usar seu poder. As palavras do meu pai, ainda gravadas em minha mente, como estacas fundas, dizendo que eles sempre estiveram certos e que eu não prestava para nada.
Um gosto amargo desceu pela minha garganta, e me mexi desconfortável na cama, mas ninguém percebeu, pois na mesma hora alguém os chamou para o jantar no refeitório principal. Esperei, de olhos fechados, eles saírem. E quando o quarto ficou em silêncio, abri meus olhos e me sentei na cama, vendo meus pertences no canto dela.
Uni minhas sobrancelhas, não entendendo como elas vieram parar ali, ou quem as trouxe, mas então a lembrança que ele estava comigo no banheiro ocupou espaço em meus pensamentos. Me neguei a acreditar que ele havia trazido para mim, e o toque em minhas pernas se tornou vivo também. Ele havia me arrumado na cama e puxado a coberta para me cobrir? Por quê? Provavelmente para jogar na minha cara o quanto eu era fraca e não conseguia fazer nada sozinha.
Ainda me sentia cansada, como se não tivesse recuperado toda a minha energia, mas empurrei a coberta para longe e arrastei minhas pernas para fora, me levantando e sentindo a camisa cair por meu corpo como um vestido. Olhei para meu ombro, vendo que a camiseta tinha grudado na ferida por estar sem curativo algum. Teria que ir até o banheiro e molhar o tecido para desgrudar ele com cuidado, para não fazer sangrar.
Quando ergui meus olhos, para ir até meu armário, ele estava parado,encostado na parede ao lado dos armários, me olhando de um jeito que não conseguia ler o que se passava em sua mente.
Meu coração disparou, e fiquei em alerta, me preparando para qualquer coisa que viesse dele. Eu poderia estar mais fraca que o normal, mas mesmo assim não abaixaria a cabeça para ele.
— Você vai precisar de alguns pontos nessa ferida — comentou, sério, apontando meu ombro com o queixo. — Poucos, mas vai, ou irá infeccionar.
Olhei séria para ele, processando o que ele havia falado. Não tinha deboche em seu tom, nem um pingo de provocação, nada.
— Por quê? — perguntei encarando ele, usando o mesmo tom de antes. — Foi você? — fiz outra pergunta, apontando com meu queixo para as coisas na cama.
— Por quê o quê? — Franziu o cenho e deu de ombros para minha outra pergunta, não respondendo.
— Por que se preocupar com meu ombro? — Revirei meu olhos, não entendendo nada desse monólogo.
— Não estou preocupado, estou te alertando. Não sabemos o que está por vir, e se isso infecciona, esse braço seu já era para uma próxima luta — respondeu, abaixando o tom de voz.
— Que fofo. — Sorri como se tivesse agradecida, até coloquei minha mão no peito teatralmente. Mas depois voltei a ficar séria. — Não preciso que você me alerte de nada, . Sei me virar sozinha e sei quando devo ir atrás de algo ou não — falei, cruzando meus braços e engolindo a dor que o movimento causou no meu ombro.
— Ok então — foi o que respondeu, passando por mim e pegando seu casaco na beliche de cima, saindo do quarto em seguida.
Soltei meu ar e fui até o armário, vestindo uma calça e me sentei na cama para colocar meu coturno. Tentei tirar a camiseta, mas ela estava mesmo colada na minha ferida e bufei por ter que concordar com ele e ter que ir atrás pelo menos de um curativo.
Saí do quarto e fui em direção ao refeitório, encontrando mais pessoas pelo caminho. Entrei naquele espaço amplo, cheio de mesas compridas e bancos que as acompanhava e passei meus olhos pelo lugar, vendo de cara onde havia sentado e indo para o lado contrário ao dele.
Passei entre as mesas, ouvindo as conversas que tinham ali, e parei atrás de uma garota morena quando ouvi ela e seus companheiros rindo dos novatos que haviam caído no primeiro teste. Seu ar de superioridade era até mesmo sufocante e esbarrei nela, propositalmente, quando ela ergueu seu garfo para levar a sua boca, fazendo ele arranhar sua bochecha.
Continuei meus passos ignorando a voz estridente dela, chegando até os pratos e me servindo, indo para o outro lado e me sentando em um canto onde só havia homens. Ali estavam todos quietos e agradeci a isso, podendo comer em silêncio e sem precisar falar com ninguém.
Estava quase acabando e pronta para levantar, quando a morena e mais outras duas garotas pararam atrás de mim.
— Por que não me respondeu quando te chamei, ruiva? — falou, com aquela voz irritante.
Não respondi ela e segurei com força a faca que usava, pronta para qualquer coisa.
Naquele canto da mesa havia sobrado apenas eu e mais dois homens, que não deram bola para a morena, assim como eu.
— Você é surda, caralho? — Seu tom saiu mais alto, e ela apertou meu ombro, bem em cima da minha ferida.
Meu movimento foi rápido em segurar seu braço e torcer para trás, puxando seu corpo contra o meu, deixando minha mão, que segurava seu braço, entre nós duas.
— Nunca mais encoste em mim — rosnei contra seu ouvido, apertando com força minha mão.
A morena tentou se soltar e me acertar, mas na minha outra mão ainda estava aquela faca e a levei até sua barriga.
— Você não pode…
— Quer ver se eu posso ou não? — desafiei, e nessa hora as amigas dela se manifestaram.
Uma garota mais baixa que eu moveu as mãos em círculo, provavelmente iria usar seu poder contra mim.
— Fala para ela parar, ou vou drenar você — avisei, apertando mais minha mão no braço dela, e a faca na sua barriga.
— Lexie, não — falou para a amiga, e ela a olhou indignada. — Resolvemos isso outra hora, nem sempre ela vai ser tão rápida assim — falou mais para mim do que para a amiga dela.
— Você não sabe o que acabou de provocar, lindinha. — Sorri com escárnio, olhando para todas elas. — Eu adoro um desafio, e adoro mais ainda provar que as pessoas estão erradas.
A empurrei para cima das amigas dela, que foram rápidas em segurar a morena para não cair. Deixei a faca na mesa e saí desviando das pessoas que tinham se juntado à nossa volta para ver o que aconteceria.
Busquei entre os corredores alguma sinalização de onde ficava a enfermaria, e depois quando achei que estava perdida, avistei um porta com um cruz vermelha. Por sorte, a senhora que cuidava daquela ala era gentil e conseguiu tirar o tecido colado da minha ferida. Não me importei em ficar sem camisa para ela dar uns pontos, mesmo que estivesse sem sutiã. E quando ela terminou, fez um curativo e pude me vestir novamente.
Antes de sair, a enfermeira pediu para que eu voltasse depois de quatro dias para ela ver se já dava para tirar os pontos e me deu curativos para trocar sozinha. Sorri em agradecimento para ela e voltei para o dormitório. Precisava descansar mais para a próxima prova.
Quando estava perto da porta sete, Nora e Charlie estavam saindo dela e os parei no corredor.
— Aonde vão? — perguntei para eles, interessada se havia mais coisas para fazer naquele lugar além das provas.
— Conhecer o lugar — Charlie falou, simples. — Quer ir junto? Depois do que rolou hoje, merecíamos um lugar para relaxar.
Concordei com ele e olhei para Nora, que tinha seus olhos verdes e frios em mim.
— Hoje vou passar, mas se acharem algo, vou da próxima vez — falei e passei por eles, ouvindo uma risada do Charlie.
— Só não vão se matar — falou mais alto, quando eu estava entrando no quarto, e quando vi na cama dele, entendi sua fala.
Entrei e fechei a porta, notando que ele estava sem camisa e fui até meu armário, tirar meu coturno, minha calça e aquela camisa que estava suja do meu machucado. Me virei de costas para as beliches e troquei a camisa primeiro e depois que ela caiu sobre minhas coxas, tirei o coturno e a calça.
Andei até minha cama e antes de me abaixar, olhei para ele mais uma vez e então me deitei. O silêncio era quebrado apenas pelo som da nossa respiração e pelos movimentos que suas asas faziam às vezes. Não me lembrava quando eu e ele começamos com essa implicância e, embora conhecesse ele há anos, não sabia nada sobre ele.
— Por que aceitou vir para cá? — perguntei em um murmúrio, minha voz soou estranhamente calma e olhei para cima, encarando a grade da cama dele, esperando para ver se ele me responderia.
ficou em silêncio por um momento, e quando finalmente respondeu, sua voz veio baixa e carregada de desdém.
— Isso importa? — disse, ríspido. — Não é da sua conta.
— Eu sei que não é da minha conta — respondi com outro murmúrio, com o mesmo tom de antes. — Eu só… deixa para lá — sussurrei, me virando de barriga para baixo, buscando um jeito melhor para não doer tanto meu ombro. — Só espero que eu tenha vindo pelos motivos certos — completei meu pensamento, sussurrando para mim mesma.
— Não tem motivo certo para estar aqui. Você sabe disso — murmurou. — Nossas vidas são uma bosta e não temos nada a perder. Por isso estamos aqui.
Ele estava certo, mas eu esperava ter mais aqui do que tinha na minha antiga vida.
— É, eu sei, mas isso não muda o que de fato estou buscando aqui — falei de olhos fechados, ouvindo as asas dele se moverem na cama de cima. — E não é o poder que eles tanto falam…
— Cuidado com o que deseja, — sussurrou, com a voz mais rouca e grave.
— Não tenho medo do que vou encontrar. — Mesmo minha voz estando baixa, eu estava sendo sincera. — Vou falar só uma vez, , e depois você nunca mais ouvirá nada assim vindo de mim — completei, mantendo minha voz baixa e meus olhos fechados. — Obrigada por ter me ajudado.
— Eu te falei, eu não desejo o seu mal — repetiu, no mesmo tom.
— Isso é novidade para mim — murmurei. — De onde eu venho, todos sempre querem meu mal, meu fracasso e o que tiver de pior…
— Eu não sou de onde você é e nem sou como todo mundo — respondeu, e suas asas se movimentaram sutilmente.
— Você tem um dom extra, sabia?! — murmurei e sorri de olhos fechados. — Estar irritantemente certo — revelei, baixinho. — Mas só dessa vez, .
— Você pode repetir essa frase mais uma vez? Acho que não ouvi direito… — pediu, com o tom de provocação agora.
— Uma pena você não ter ouvido de primeira, porque eu não repito minhas falas — falei baixo, mas ainda sorria.
— Qual é, ruivinha. Fala aí! — rebateu, e sua voz estava mais leve em um tom zombeteiro.
— Não me faça levantar para jogar meu sapato em você. — Minha voz saiu mais séria. — Porque se me chamar assim de novo, é o que vai acontecer. — Mesmo de olhos fechados, sabia que ele estava com aquele sorriso odioso nos lábios.
— Podia te provocar e realmente fazer você se levantar só pra isso — brincou, rindo nasalado. — Mas estou cansado e com uma preguiça da porra — resmungou, se mexendo na cama. — Deu um jeito nesse ombro, ? — Pareceu lembrar daquilo.
Sorri com sua fala e ele era bem capaz de fazer aquilo mesmo e agradeci mentalmente por ele desistir da provocação, porque eu estava cansada ainda.
— Sim, está com pontos e curativos — falei a verdade. — Pode ficar tranquilo e não precisa se preocupar — provoquei um pouquinho, fazendo uma voz doce e falsa.
— Vou até dormir tranquilo depois dessa, totalmente relaxado! Estava até ficando com as penas das asas brancas de tanta preocupação — debochou.
— Você é um idiota. — Apontei o óbvio para mim. — Falando em penas, você troca elas também, tipo igual as galinhas? — perguntei rindo, provocando ele.
— Cuido delas igual você cuida do seu cabelo, ruivinha — implicou, rebatendo logo em seguida.
Meu riso parou quando ouvi como me chamou e revirei meus olhos mentalmente.
— Precisa cuidar mais, , elas andam bem caidinhas e sem brilho — rebati para implicar. — Elas teriam sorte se você conseguisse cuidar igual eu cuido do meu cabelo. Me deu até dó delas. — Meu tom falso de preocupação com as penas dele era para provocar mesmo.
— Se eu fosse você, parava de falar delas, porque elas são parte de mim, mas elas têm vida própria e quase sempre tem opiniões próprias. Depois não fala que não avisei… — alertou agora, e eu vi suas asas ficando mais agitadas mesmo.
— Nossa, como você e elas são sem graças — falei, baixo, virando meu rosto para a parede. — Não vou mais falar delas, mas vê se cuida melhor então.
— E em qual momento eu pedi sua opinião sobre minhas asas? — retrucou, bufando em seguida. — Garota insuportável — ouvi ele resmungar.
— Credo, a gente não pode nem tentar ser amiga de ninguém aqui dentro, pelo jeito. — Me fiz de inocente, com um falso tom de indignação, mas minha voz ainda era baixa. — Não se pode jantar em paz e nem falar amigavelmente com ninguém. — Suspirei como se estivesse chateada, mas sorri de lado depois.
— Está tentando fazer amizades no lugar errado. Logo, logo vão nos colocar para um matar o outro naquela arena — comentou, só que agora mais sério.
— Jurava que conseguiria ter amigos que levaria para sempre em meu coração — falei fingindo tristeza, zombando novamente. — Não sou burra, , sei o que vai acontecer e sei que ninguém é amigo de ninguém aqui dentro — falei séria agora, mas minha voz continuava em tom baixo.
— Que bom que sabe, — disse por fim, ficando quieto.
Não queria amizades ou nada do tipo, mas não podia negar que uma parte minha desejava fazer parte de algo real, concreto e forte. Eu me virava bem sozinha e falava para mim mesma que não me importava em ser sozinha, mas até quando eu conseguiria acreditar em minhas próprias palavras?
A determinação de provar que eu era capaz e forte como qualquer outro ser das sombras ainda reinava em meu peito e isso não mudaria por nada, mas mesmo que eu tentasse negar, tudo o que fez por mim hoje mudou algo lá no fundo. Eu tinha ciência de que ele fez por talvez achar que era o certo, e não porque de fato se preocupava, mas mesmo assim, ele havia feito muito mais do que qualquer um da minha família já havia feito por mim.
Um dia e a minha cabeça já estava bagunçada. Suspirei cansada, bloqueando esses pensamentos da minha mente, porque pensar demais não me ajudaria em nada, pelo contrário, só iria me atrapalhar.
Enquanto caminhava pelos corredores do quartel, meus passos ecoavam, mas o som parecia ser engolido pela escuridão antes de se espalhar. As paredes pulsavam suavemente, como se fossem parte de algo vivo, algo que respirava junto comigo. Às vezes, eu jurava ouvir sussurros, baixos demais para entender, mas altos o suficiente para me manter alerta. Talvez fosse o cansaço, ou talvez fosse isso que eles queriam.
Passei por uma curva e, por um instante, vi algo no limite da minha visão. Uma sombra, mais densa e mais rápida do que deveria ser, desaparecendo no canto do corredor. Parei, o corpo tenso, as asas se ajustando em resposta ao perigo que parecia tão próximo. Meu instinto dizia para seguir, investigar, mas a lógica me dizia para continuar em frente. As coisas aqui não seguiam regras normais, e as sombras… bem, elas não eram confiáveis, nem mesmo para mim.
Continuei andando, mas cada passo parecia mais pesado, como se o próprio chão quisesse me prender. A luz fraca, se é que podia ser chamada de luz, parecia vacilar, lançando sombras que se esticavam e se dobravam em ângulos impossíveis. Eram só sombras, eu dizia a mim mesmo. Apenas minha mente pregando peças depois do dia que tivemos. Mas o arrepio que percorreu minha espinha dizia o contrário.
Então ouvi. Um som baixo, quase imperceptível, como algo arrastando no chão, vindo de algum lugar atrás de mim. Parei novamente, virando lentamente, mas o corredor estava vazio. Ou, pelo menos, parecia estar. A presença estava lá, mesmo que eu não pudesse vê-la.
Respirei fundo, reunindo as sombras ao meu redor como um reflexo automático e continuei andando. Este lugar não queria que ninguém se sentisse seguro. Talvez fosse parte do teste, talvez fosse simplesmente o jeito das trevas lembrarem quem realmente estava no controle. De qualquer forma, eu não podia me dar ao luxo de vacilar. Aqui, hesitar significava morrer.
Eu me perguntei, por um breve momento, se também sentia isso. Se ela percebia como este lugar parecia vivo, faminto, sempre esperando pela menor fraqueza. Mas sacudi o pensamento. Eu tinha que me preocupar comigo mesmo. E as sombras que me rodeavam estavam sempre atentas. Assim como eu.
Enquanto caminhava por aquele corredor sufocante, as sombras pareciam mais próximas, mais insistentes. Era como se elas sussurrassem ao meu redor, invocando memórias que eu preferia esquecer. E, como sempre, elas ganharam. O passado voltou com força, me puxando para um tempo que eu tinha enterrado fundo demais.
Eu era só uma criança quando tudo começou. Devia ter uns oito anos, talvez menos. Lembro da dor. Como poderia esquecer? Foi como se algo estivesse tentando rasgar minha pele por dentro. Meus ossos pareciam se partir, e eu gritava, mas ninguém entendia. Não era algo que os outros podiam ver, não no início. Apenas sentiam o desconforto, o estranho, a diferença.
As asas começaram a crescer semanas depois. Primeiras sombras fracas que pareciam flutuar ao meu redor, sem forma. Eu não entendia, ninguém entendia. As crianças da vila riam de mim, sussurravam às minhas costas, mas com o tempo, começaram a ter medo. As sombras começaram a se solidificar, se tornaram algo tangível, algo que eu não conseguia esconder.
A dor nunca parou completamente, mesmo quando elas finalmente cresceram por completo. Eram parte de mim, mas o preço que paguei foi alto demais. Eu era o “monstro”, “o garoto da escuridão”. Não importava o quanto tentasse me misturar, eu sempre era diferente, sempre uma ameaça. O medo nos olhos deles queimava mais do que qualquer provocação.
Minha própria família não demorou para ceder ao peso desse medo. Lembro do rosto do meu pai, endurecido, sem emoção, quando ele disse que eu não podia mais ficar ali. Não houve gritos, nem despedidas. Apenas um silêncio cortante enquanto ele fechava a porta atrás de mim. Eu nunca mais voltei. Nem quis.
De lá para cá, a vida foi uma série de portas fechadas. Sempre sozinho, sempre procurando um lugar onde eu pudesse existir sem ser uma aberração. Mas, no fundo, eu sabia que nunca encontraria. Não havia espaço para algo como eu.
Voltei ao presente com o som de algo se movendo no corredor à frente. As sombras ainda estavam lá, me envolvendo como sempre. Elas nunca me abandonaram, mesmo quando todo o resto fez. Mas eu sabia o que elas queriam. Elas não eram amigas, nunca foram. Apenas lembranças constantes de quem eu realmente era.
Passei a mão pelos cabelos, tentando afastar as memórias, mas elas nunca desapareciam completamente. E talvez fosse melhor assim. O passado era uma ferida que nunca cicatrizava. Uma que eu carregaria para sempre.
As sombras no corredor estavam mais densas do que o normal, e os sussurros que vinham delas me deixavam inquieto. O ambiente aqui era sempre carregado, mas havia algo diferente naquela noite. Era como se a tensão pairasse no ar, uma brisa fria antes de uma tempestade.
Enquanto seguia pelo corredor, ouvi vozes. Baixas, no início, mas rapidamente ficando mais altas, carregadas de escárnio e provocação. Parei por um momento, me ajustando às sombras e observando. Foi então que vi .
Ela estava cercada por um grupo. Reconheci a garota no centro, a mesma que havia provocado no jantar na outra noite. Pelo jeito, ela não esqueceu, e agora tinha juntado reforços para acertar as contas.
, como sempre, mantinha a postura desafiadora. O que quer que eles dissessem, ela apenas respondia com aquele sorriso irritante que ela sempre usava quando queria provocar alguém. Mas eu podia ver no jeito que ela se posicionava, no modo como seus punhos estavam cerrados, que ela sabia o que viria.
Por mais que eu soubesse que era perfeitamente capaz de lidar com eles, isso era covardia. Um grupo contra uma só? Isso não era um combate; era um massacre esperando para acontecer.
Suspirei, passando a mão pelos cabelos enquanto avançava na direção deles.
— Vocês estão realmente precisando de tantos assim para lidar com uma só? — Minha voz cortou o ar, baixa, mas o suficiente para fazê-los virar na minha direção.
Os olhos de encontraram os meus, mas ela não disse nada. Talvez estivesse surpresa, talvez apenas irritada. Eu não me importei. Dei mais alguns passos até ficar ao lado dela, deixando que as sombras ao meu redor se agitassem levemente, como uma advertência.
— Sei que ela é insuportável — continuei, olhando diretamente para a garota que liderava o grupo —, mas vocês estão começando a parecer desesperados.
A tensão no ar era palpável. Alguns deles trocaram olhares, inseguros, mas a garota no centro estreitou os olhos para mim, claramente não gostando da minha interferência. continuava em silêncio, mas pelo canto do olho vi seu sorriso aumentar, aquele tipo de sorriso que dizia “você sabe que eu vou provocar depois.”
A garota deu um passo à frente, desafiando.
— E você vai fazer o quê?
Deixei que minhas asas se abrirem levemente, só o suficiente para que a sombra delas cobrisse o grupo.
— Vocês podem descobrir — falei, o tom baixo, mas carregado de ameaça.
Os murmúrios cessaram, e por um momento, o grupo pareceu reconsiderar suas opções. Então, um por um, começaram a recuar, até que a garota também desistiu, lançando um último olhar de desprezo antes de se virar e sumir no corredor com os outros.
riu com deboche e sustentou o olhar da morena, até ela sumir, mas quando se virou para mim, ela estava séria e seu olhar passou por todo meu corpo até que me encarasse com um mistura de irritação e escárnio.
— Eu já sabia que você era irritante, um chato, arrogante, metido que se acha um todo poderoso, — ela foi falando e erguendo seus dedos finos de unhas compridas, como se enumerasse qualidades minhas. Sua voz era baixa e com um falso tom de calmaria — e até aquelas pragas que ninguém consegue se livrar, mas estraga prazeres, ?! Nossa, fiquei decepcionada agora. — Bateu seus longos cílios para mim, com aquela carinha falsa de decepção.
Então sua postura mudou e ela deu um passo para trás, me encarando séria, como se buscasse algo em meus olhos.
— Quantas vezes vou ter que te falar que eu não preciso da sua ajuda para nada? Se eu me meti nisso é porque sei que consigo sair sozinha. — Seu tom era baixo e seus olhos refletiam suas palavras com clareza.
Ela falava e reafirmava sempre as mesmas palavras, mas agora tinha algo diferente brilhando no fundo dos seus olhos que antes não tinham.
— Você não pode chegar e fazer o que quer e deixar tudo uma bagunça — resmungou, irritada, se afastando, começando a andar.
Observei enquanto ela falava, seu tom carregado de provocação e aquela postura exagerada que ela adorava usar para me irritar. Cada palavra dela parecia calculada para testar minha paciência e eu senti o canto dos meus lábios ameaçar um sorriso enquanto ela enumerava “minhas qualidades”. Não dei a ela a satisfação de reagir.
Quando ela finalmente mudou de postura, se afastando, mais séria, e jogando suas palavras irritadas na minha direção, eu apenas a observei. sempre fazia isso: criava um espetáculo, jogava sua teimosia como uma arma, mas havia algo diferente dessa vez. Algo no olhar dela, naquela intensidade que ela tentava esconder atrás da irritação.
Deixei o silêncio pesar por um momento antes de falar, minha voz baixa, carregada de ironia.
— Não pedi permissão para nada, . E não vou.
Ela podia odiar minha interferência, mas, no fundo, eu sabia que ela não precisava gostar para saber que eu tinha razão.
Esperei até que ela estivesse a alguns passos de distância antes de responder, minha voz baixa e carregada de ironia.
— Bagunça? Achei que fosse especialista nisso, .
Ela parou de caminhar e se virou, voltando seus passos e parando na minha frente, empinando seu nariz fino e arrebitado e olhando para cima, encontrando meus olhos.
— Eu sei bem disso, você sempre se metendo onde não é chamado — falou, com seus tons claros presos nos meus escuros. — Sendo tão irritante. Não se cansa de ser assim?
Deu mais um passo, ficando mais perto ainda, deixando quase inexistente o espaço entre nós.
— Você chegando e se metendo, fez eu parecer fraca, , e eu não sou. — Seu tom estava firme e baixo. Seus lábios grossos, afastados, soltaram seu ar em um tipo de suspiro. — Agora vão achar que preciso de ajuda para resolver minhas coisas.
Fiquei onde estava, observando-a com aquele típico ar de desafio. Ela estava tão perto que eu podia sentir a tensão entre nós, mas não me movi. Mantive minha expressão firme, deixando que o peso do silêncio caísse por um momento antes de falar, minha voz baixa e cortante.
— Fraca? — perguntei, inclinando levemente a cabeça enquanto deixava um sorriso frio surgir. — Eu sei que você dava conta deles, . Isso não tem nada a ver com você.
Dei um passo para o lado, criando um pouco de espaço entre nós, mas sem desviar os olhos.
— Isso foi sobre eles. Um grupo inteiro contra uma só pessoa? Covardia. Só isso. Mas é claro que você transformou em algo sobre você, como sempre.
Deixei a provocação pairar por um instante antes de continuar, o tom ficando ainda mais direto.
— Sabe o que é realmente fraco? Isso. — Fiz um gesto vago com a mão. — Implicando com os outros, provocando, como se ainda fosse uma adolescente tentando chamar atenção. Você não percebe que está perdendo tempo?
Cruzei os braços, inclinando-me levemente para frente, deixando minhas palavras atingirem o ponto que eu sabia que ela não queria ouvir.
— Você não é mais uma garotinha, . Então para de agir como uma.
O silêncio nos cercou e vi seus olhos se suavizar enquanto ela parecia absorver minhas palavras. Ela negou com a cabeça, como se espantasse algum pensamento que não deveria ter surgido.
— Entendi… — Sua voz era baixa, e ela desviou seu olhar do meu. — Pode deixar, vou só ouvir a provocação dos outros, ver eles sendo uns babacas comigo e não vou devolver a provocação, porque os outros podem…
Ela se afastou mais, não ergueu seu olhar para me encarar e sabia que ela ainda estava pensando nas minhas palavras. Seu tom de voz também não alterou, não teve deboche, ironia, irritação, nada.
— Por que você sempre fala que quero chamar atenção para mim, ? — perguntou, voltando a me olhar.
Observei enquanto ela falava, a voz baixa, sem as usual provocações ou sarcasmo. Isso era raro. sem deboche era quase… desconfortável. Seu olhar encontrou o meu novamente, mas dessa vez havia algo diferente. Uma vulnerabilidade que eu nunca tinha visto antes e isso me incomodou mais do que eu gostaria de admitir.
Cruzei os braços, mantendo minha postura firme. Respirei fundo antes de responder, tentando escolher as palavras certas, mas meu tom saiu seco, como sempre.
— Porque é o que parece, . Sempre. — Olhei para ela, deixando meu olhar pesar sobre o dela. — Toda vez que você provoca alguém, toda vez que se mete em confusão, parece que está gritando: “Olhem para mim”.
Dei um passo para o lado, criando espaço entre nós, mas continuei.
— Talvez você não perceba, ou talvez não queira admitir, mas às vezes, parece que você precisa disso. Como se não conseguisse ficar em silêncio por tempo suficiente pra provar que é mais do que isso.
Fiquei em silêncio por um momento, observando sua reação. Ela parecia absorver minhas palavras de novo, mas havia algo nos olhos dela que eu não conseguia decifrar. Suspirei, passando a mão pelos cabelos e quebrando o contato visual.
— Mas, quer saber? Talvez eu esteja errado. Talvez você só goste do caos. Se for isso, pelo menos seja honesta consigo mesma.
Deixei o silêncio voltar, dando a ela tempo para processar, mas também para evitar que eu dissesse mais do que deveria. tinha esse jeito de me fazer falar coisas que eu nem sabia que estavam na minha cabeça e isso me irritava mais do que qualquer provocação dela.
— Não vou mudar o jeito como você e os outros me veem, e nem quero — falou, depois de um tempo, aquele mesmo tom, sem as provocações de sempre, e seu olhar era outro, como se essa fosse ela de verdade. — É melhor sempre acharem que quero atenção, que ajo como uma adolescente e adoro um caos. Mantém as coisas como devem ser, . — Meu nome soou como algo diferente entre suas palavras, mas vi diante dos meus olhos ela vestir aquele escudo e o olhar zombeteiro surgir em suas íris claras.
Ela chegou mais perto e sorriu de lado, daquele jeito provocativo, típico dela, e sussurrou com deboche.
— Você fica um gato quando fala essas coisas para mim, sabia? — Seus olhos passaram por todo meu rosto e seu sorriso aumentou. — Uma pena você ser tão irritante, .
Então se afastou e passou por mim, dando alguns passos para o lado contrário de que iria antes.
— É, e você é um encanto — falei, o sarcasmo pingando em cada palavra. — Pena que estraga tudo quando abre a boca.
Eu deveria deixar isso pra lá, deveria simplesmente ignorar. Mas, por algum motivo, era impossível. tinha essa habilidade irritante de ficar na minha cabeça e isso me incomodava mais do que qualquer coisa que ela pudesse dizer.
Depois que se afastou, deixei o corredor para trás e me dirigi para a área de treinos. O silêncio e as sombras que me cercavam ali eram mais bem-vindos do que a irritação que ela sempre conseguia despertar em mim. Ainda assim, as palavras dela ecoavam na minha mente, mais do que eu gostaria de admitir.
O espaço era amplo e vazio, com luzes fracas que não chegavam a iluminar por completo, deixando cantos imersos em trevas. Era perfeito. Fechei a porta atrás de mim e o som do clique ressoou no ambiente, cortando o silêncio por um breve instante. Respirei fundo, sentindo as sombras ao meu redor pulsarem, sempre presentes, sempre esperando.
— Vamos começar — murmurei para ninguém além de mim mesmo, mas as sombras pareceram responder, se movendo suavemente como fumaça viva.
Comecei pelo básico. As sombras eram uma extensão do meu corpo, mas não respondiam por conta própria. Eu precisava controlá-las, moldá-las. Estendi a mão e elas se concentraram ao redor de meus dedos, formando pequenas lâminas escuras que pairavam no ar. Com um movimento rápido, lancei-as contra alvos imaginários na parede, vendo as trevas se espalharem em impacto antes de se recolherem para mim.
— Mais rápido — ordenei, a voz firme. Repeti o movimento, desta vez ampliando o alcance das lâminas e testando minha precisão. Cada golpe precisava ser perfeito. Cada ataque, letal.
As sombras vibraram, como se testassem meus limites, desafiando-me. Isso sempre acontecia. Elas não eram apenas uma ferramenta; eram parte de mim, mas também uma força imprevisível, sempre testando quem estava no controle. Era um jogo constante, uma batalha silenciosa.
Depois de alguns minutos, mudei o foco. Minhas asas se abriram lentamente, preenchendo o espaço ao meu redor. O som do movimento delas cortava o ar e eu senti o peso familiar delas em minhas costas. Voo nunca foi só sobre força; era sobre agilidade, sobre equilíbrio. E eu precisava ser mais rápido.
Com um impulso, deixei o chão, as asas batendo com força enquanto me lançava no ar. O espaço limitado tornava o treino mais difícil, mas era exatamente isso que eu precisava. Me movi de um lado para o outro, girando no ar, desviando de obstáculos imaginários enquanto tentava aumentar minha velocidade. A cada batida, as sombras ao meu redor pareciam seguir meus movimentos, como um reflexo.
— Mais uma vez — sussurrei, o esforço começando a pesar em meus músculos. Subi até o teto, dobrando meu corpo em um mergulho rápido. As asas se fecharam parcialmente, aumentando minha velocidade enquanto o chão se aproximava. No último segundo, as abri novamente, girando e pousando suavemente.
O impacto do pouso ecoou no espaço vazio e minha respiração estava pesada. Mas não parei. As sombras ao meu redor se agitaram novamente, e desta vez, deixei que elas me envolvessem completamente, criando uma armadura de trevas que se moldava ao meu corpo. Era como vestir o próprio vazio, sentir o peso e a liberdade das sombras ao mesmo tempo.
Movi-me pelo espaço, alternando entre ataques com as lâminas sombrias e movimentos de voo curtos, testando a combinação entre velocidade e precisão. Cada golpe precisava ser perfeito, cada defesa impenetrável. Porque aqui, nesse lugar, qualquer erro custaria caro.
Depois de um tempo, parei, deixando as sombras recuarem lentamente para o chão, como fumaça dissolvendo-se no ar. Minha respiração estava pesada e o suor escorria pela minha testa. Olhei para minhas mãos, sentindo o leve tremor que vinha após o esforço.
— Ainda não é suficiente — murmurei, minha voz ecoando no silêncio.
Não importava o quanto eu treinasse, o quanto eu aprimorasse minhas habilidades, parecia que nunca seria o bastante. O que quer que estivesse lá fora, além dessas paredes, seria mais rápido, mais forte, mais mortal. E eu tinha que estar preparado. Porque se não estivesse… ninguém estaria.
Fechei os olhos por um momento, sentindo as sombras ainda pulsando ao meu redor, como se esperassem por mais. Mas por agora, bastava. Soltei um suspiro, recolhi minhas asas e me virei para sair, sentindo o peso do treino em cada passo.
As sombras me acompanhavam, como sempre, silenciosas, mas nunca ausentes. E por mais exaustivo que fosse, eu sabia que amanhã começaria tudo de novo. Porque, no final, era isso que eu tinha. As trevas. Sempre elas. E, de alguma forma, isso era o bastante.
Enquanto me virava para sair, o som de passos ecoou pela sala. Era lento, quase imperceptível, mas distinto o suficiente para me fazer parar. Não deveria haver mais ninguém aqui. As sombras ao meu redor se agitaram novamente, alertas, enquanto meu corpo inteiro se preparava para uma ameaça.
— Impressionante… — disse uma voz baixa, carregada de uma calma que parecia ameaçadora por si só.
Me virei lentamente e lá estava ele. Kaelen Umbros. Sempre envolto naquela aura de autoridade esmagadora, com os olhos prateados que pareciam atravessar qualquer fachada. Ele estava encostado em uma das paredes, como se estivesse ali o tempo todo, observando.
— Treinando tarde, ? — Sua voz era quase casual, mas havia algo nela que me mantinha alerta.
Mantive minha expressão firme, mas minha mente já trabalhava. Ele não estava aqui por acaso. Kaelen nunca fazia nada por acaso.
— Não há hora certa para estar preparado — respondi, a voz mais calma do que eu esperava.
Ele deu alguns passos em minha direção, o som de suas botas contra o chão reverberando pelo espaço vazio. As sombras ao redor pareciam responder a presença dele, como se o reconhecessem. Como se o obedecessem.
— Preparado para quê? — perguntou, inclinando levemente a cabeça. — Para lutar? Sobreviver? Ou para provar algo?
As palavras dele carregavam peso, cada uma atingindo como um golpe bem calculado. Mas eu não recuei.
— Para qualquer coisa — respondi, meu tom mais firme desta vez.
Kaelen parou a poucos passos de mim, seus olhos prateados avaliando cada detalhe, cada movimento. Ele ficou em silêncio por um momento e o espaço ao nosso redor pareceu ficar ainda mais denso.
— Suas sombras são fortes, , mas elas ainda não te obedecem completamente — ele disse, quase como se estivesse dando uma lição. — Elas te seguem, mas há hesitação. Como se elas sentissem que você ainda não está completamente… entregue a elas.
Minha mandíbula apertou levemente. Ele estava errado. Ou talvez estivesse certo, e isso me irritava mais do que qualquer provocação.
— Eu as controlo — retruquei.
Kaelen soltou um riso baixo, quase inaudível, mas que carregava algo desafiador.
— Controlar, sim. Mas dominar? Não. — Ele deu mais um passo à frente e sua presença parecia preencher o espaço entre nós. — Você acha que estar aqui, treinando sozinho, vai te preparar para o que está por vir? Acha que pode lutar contra o que se aproxima com metade de sua força?
Fiquei em silêncio, mas meus olhos nunca deixaram os dele.
— Este lugar… — ele continuou, gesticulando vagamente para as sombras ao redor. — Ele não é para sobreviventes. Ele é para os que se rendem, que aceitam o que são e vão além disso. E você, , está preso. Ainda se agarra a algo que não deveria mais existir.
Minha voz saiu baixa, mas carregada de firmeza.
— Não estou preso a nada.
Kaelen sorriu, mas não havia nada de caloroso naquele gesto.
— Não minta para mim. Você ainda olha para o passado como se ele tivesse algo a te oferecer. Família? Amigos? Propósito? — Ele inclinou a cabeça, os olhos prateados brilhando. — Nada disso importa mais. As sombras sabem disso. Por que você não?
Dei um passo à frente, reduzindo a distância entre nós.
— O que você quer, Umbros?
Ele permaneceu onde estava, inabalável.
— Eu quero ver o que você realmente é. — Sua voz era baixa, quase um sussurro. — Não o garoto que foi expulso, nem o jovem perdido. Quero ver o que as sombras vão fazer de você. Porque, , se você não se tornar algo maior, elas vão consumir você.
O silêncio voltou a nos cercar, pesado e impenetrável. Por um instante, parecia que as sombras ao redor pulsavam, respondendo a cada palavra dele. Eu não sabia o que dizer, mas, antes que pudesse responder, Kaelen deu meia-volta, caminhando lentamente para fora da sala.
— Continue treinando — disse, por cima do ombro, sem olhar para trás. — Vamos ver quanto tempo você aguenta antes que elas exijam tudo.
E então ele desapareceu nas sombras, deixando para trás apenas o eco de suas palavras e a sensação desconfortável de que, no fundo, ele estava certo.
Charlie era rápido, mas não era muito bom em luta corporal, e seu poder era consumir luz, o que era uma desvantagem para ele, já que ele roubava pontos de luz para se fortalecer e enfraquecia os seres da luz. Nós estávamos em um ponto totalmente escuro e isso não ajudaria em nada para ele.
Freya, a morena do quarto nove. Eu ainda não sabia como ela era sem seu poder, se sabia lutar ou usar as armas que os humanos usavam antes da evolução para sombras e luz, mas sabia que seu poder era cura das sombras e, a não ser que ela tivesse aliados ali para ajudar, ela parecia estar em desvantagem também, sendo que para sua cura funcionar, ela usava as trevas e enfraquecia a luz dos inimigos. Freya parecia nervosa, mas estava tentando a todo custo se mostrar forte e determinada.
E por último, o rapaz do quarto um, Mith. Eu teria que tomar cuidado com ele, pois seu poder parecia favorecer ele nesse cenário que nos encontrávamos. Controlar o manto das trevas era algo único, pois ele poderia escurecer a visão do seu adversário por alguns minutos, lhe dando uma vantagem que em uma situação como essa, o deixaria na nossa frente.
Já tive treinos vendados, mas nunca precisei usar eles de verdade, no entanto, passei em minha mente tudo o que eu sabia, cada golpe, estratégia de luta que já estudei antes. Não que os outros não representassem um perigo para mim, porque claramente cada um de nós ali era um perigo para o outro.
Virei um pouco meu rosto e olhei para trás, vendo o resto dos novatos aguardando sua vez. E me vi presa naqueles tons escuros que vinham ocupando um espaço em minha mente. Seu olhar também estava em mim e suas palavras do dia anterior ecoavam em meus ouvidos novamente, como um lembrete permanente do que ele achava de mim, o que ele via em mim.
Mas voltei minha atenção para a próxima prova, deixando a bagunça que causava em mim para outra hora.
A prova era simples, pelo menos, foi o que Kaelen falou antes de nos escolher como o primeiro grupo a participar do teste. Era um labirinto vivo, cheio de sombras e criaturas criadas delas, com quatro entradas e apenas duas saídas, e assim que alguém passasse por elas, as saídas se fechavam e quem não tivesse passado, ficaria preso dentro do labirinto e cairia.
Além de lutarmos contra as criaturas das sombras, teríamos que lutar um contra o outro, caso quiséssemos atravessar para o outro lado. Espalhado pelos corredores do labirinto tinha armas, facas, lanças e correntes para quem quisesse usar. Eu queria e estava disposta a lutar com eles, meu objetivo era passar por uma daquelas saídas e estava disposta a tudo para isso.
Assim que recebemos a permissão para entrar, nós quatro corremos para dentro daquele labirinto escuro. Quando dobrei a direita, diminuí meus passos e fiquei alerta, tentando ouvir qualquer sinal de uma criatura ou dos meus adversários. Meu coração estava acelerado e minha respiração estava ofegante, mas até soltar meu ar, eu soltava em silêncio para não denunciar minha posição.
Continuei naquele corredor, sentindo a densidade do ar mudar e arrumei minha postura para um ataque, dividindo meu olhar para a minha frente. como para minhas costas, cuidando dos dois lados e quando cheguei no final daquele corredor, precisei escolher entre seguir em frente, ir para a direita ou para a esquerda.
Meu corpo se arrepiou quando dei um passo para a esquerda, e com uma intuição forte de que eu também não deveria seguir reto, então fui pela direita e agora parecia ter um peso extra a cada passo que eu dava. Ouvi um sussurro atrás de mim e me virei rápido, vendo um conjunto de sombras vindo em minha direção. Eu não tinha poder para bloquear eles e drenar uma sombra era algo que eu ainda não dominava muito bem. Isso exigia uma concentração extrema e consumia uma força vital enorme de mim, mesmo que por um tempo eu tivesse a força roubada delas para mim.
Passos do outro lado da parede chamaram minha atenção. Havia alguém próximo, mas eu também precisava lidar com as sombras se aproximando cada vez mais.
Na escuridão que nos cercava, onde o silêncio era quebrado apenas pelo murmúrio do vento entre as paredes de pedra, fechei meus olhos e me concentrei em tudo que eu já havia aprendido sobre drenar a energia das sombras. Respirei fundo, sentindo a escuridão cada vez mais perto, sentindo o pulsar daquelas sombras que queriam me atacar.
Senti o momento exato em que as sombras me cercaram, tentando me sufocar, me engolir e me diminuir a uma existência inexistente. Um calafrio percorreu minha espinha enquanto o fluxo começava. A energia vital das sombras começou a penetrar minha pele em fios tênues, como névoa sendo sugada para dentro de um abismo. Apertei meus olhos, ancorando minha mente naquele fluxo constante. As sombras pareciam não querer se render, ou talvez eu não estivesse conseguindo controlar elas para drenar tudo que eu pudesse.
Mas então comecei a sentir o poder intoxicante. Cada fragmento de energia roubada preenchia minhas células como se fosse meu próprio sangue vagando pelas minhas veias, e quando abri meus olhos, foi apenas para ver aquela fumaça ao meu redor sumindo no ar como uma poeira que se perde ao vento.
Meus joelhos cederam e senti o impacto deles contra o chão, junto de um formigamento que parecia querer dominar meu corpo. Era energia demais, algo que eu nunca havia feito antes, mas que agora também não tinha tempo para processar.
Eu havia cruzado um limite novo e ainda não sabia como lidar com isso.
Me coloquei em pé e voltei a andar, seguindo meus instintos, minhas intuições. Dobrei para a esquerda, indo reto e virando novamente para a direita, seguindo a passos decididos até chegar em uma bifurcação, me fazendo parar para analisar rapidamente qual o melhor seguir.
Meus pés me levaram para a esquerda, mas parei quando ouvi um grito vindo direto da minha lateral direita e me virei para ver Mith cortando a garganta do Charlie. Não tinha mais o que fazer, não havia chances de ter salvado ele e senti uma inquietação em mim por ter visto aquela cena. Eu sabia que coisas assim aconteceriam, mas ver alguém que vinha dividindo o mesmo quarto com você por uma semana toda, era… diferente.
Mith ergueu seus olhos, pronto para continuar, deixando o corpo do Charlie caído no chão, envolto em um poça espessa de sangue, que naquela escuridão que estávamos parecia negro. Quando deu um passo em minha direção, notando minha presença, seus olhos se escureceram e no segundo seguinte, os meus também.
— Só tem mais uma saída, ruiva — falou, e meus ouvidos atentos captaram seus movimentos leves e sutis —, e ela é minha.
Seu tom era frio e confiante. Fiquei parada, fingindo que ele havia conseguido me desestabilizar e que sem minha visão, eu era uma inútil e fraca, me tornando alguém fácil para ser eliminado.
Embora ele tentasse caminhar com leveza, como se praticamente não estivesse se movendo para pegar sua vítima de surpresa, eu ainda conseguia ouvir perfeitamente. Se eu não tivesse treinamento, poderia ponderar que ele conseguisse me atingir ou derrubar, mas além de estar pronta, eu ainda estava carregada das energias das sombras e ele não sabia disso.
Fiquei em silêncio, e pelo jeito que ele começou a respirar, ouvi o medo dele gritar em meus ouvidos. Seus passos mais pertos, como se ele fosse dar um bote a qualquer minuto e eu estava certa. Quando senti o calor do seu corpo, junto com o vento que ele trouxe até mim ao girar seu corpo, sabia que ele iria me chutar. Rapidamente, me esquivei, sentindo seu pé passar por cima da minha cabeça, e ergui minha mão, segurando em sua perna, puxando-o de encontro a mim.
Mith resmungou algo que não me dei ao trabalho de prestar atenção, já que com o puxar de sua perna, eu havia o derrubado e me lancei em cima dele. Minhas mãos seguraram seus pulso e sorri, drenando a energia dele, como se fosse apenas mais uma criatura. Ele gritou e tentou sair debaixo do meu corpo, mas como eu estava com força extra, ele não conseguiu e a cada segundo que passava, ele ficava mais fraco.
Quando minha visão voltou ao normal, vi o homem embaixo de mim quase sem vida, pálido e fraco. Me levantei, deixando o corpo dele caído no chão.
— Você errou, Mith — falei em voz alta, vendo o brilho se esvair dos olhos dele. — A última saída é minha.
E sem olhar para trás, entrei naquele corredor em que fui atrapalhada antes de entrar, seguindo até chegar do outro lado e ver Freya com alguns cortes feitos por feras que ela deveria ter enfrentado.
Me juntei a ela e dividi o silêncio com a outra vencedora, sentindo como meu corpo ainda estava vibrando de toda aquela energia. Eu queria gritar para todos ouvir que eu havia conseguido algo novo, algo grande para mim. Queria gritar para o meu pai que ele estava errado e meu poder não era inútil, que eu não era inútil.
Esse era um passo de muitos que eu poderia dar e estava orgulhosa de mim mesma. Em anos, estava feliz com algo que eu havia conseguido, algo que eu tentava dominar a um bom tempo. Mesmo eu sabendo que ainda precisaria melhorar e treinar muito mais, me permiti sentir a euforia uma única vez.
Tudo que estava sentindo se afastou, dando espaço para , que passava por uma das saídas com um pequeno corte no canto direito do seu lábio. Ele parecia cansado, mas ao mesmo tempo, emanava aquela aura de poder, com suas asas se agitando e ajustando conforme ele caminhava até mim e Freya.
Não podia mais negar, não para mim pelo menos, mas estava mais bonito desde a época do colégio. Irritantemente mais atraente, imponente e sexy.
Uma vontade desconhecida queria saber como ele estava, como havia sido sua prova e como ele havia ganhado aquele pequeno corte no lábio, mas sabia que entre nós não havia esse tipo de conversa e, provavelmente, ele não me responderia também.
Mas minha boca parecia não concordar com minha cabeça, e sim com aquela vontade de saber como ele estava.
— Você está bem? — perguntei, quando ele parou ao meu lado. Minha voz saiu baixa e incerta, porque sabia que ele me daria uma resposta atrevida.
Não me importei se Freya estava nos ouvindo ou se ele seria estúpido ou debochado. Eu só queria saber e também entender de onde vinha essa vontade de ouvir suas palavras. Era, no mínimo, irritante tudo isso e talvez tenha haver com o fato de ter visto Charlie ser morto.
me olhou rapidamente, depois levou seu dedo até o corte em seus lábios. Vi o momento que ele passou a língua ali e deu de ombros.
— Acho que vou sobreviver — respondeu, soprando o ar. — E você? Nenhum corte que precisa de pontos? — Voltou a me encarar e agora seus olhos pareciam me analisar.
Suas palavras pareceram aquietar um pouco aquela vontade estranha de saber como ele estava e concordei com ele falando que iria sobreviver.
— Dessa vez, não. — Sustentei seu olhar, sem desviar. — Mas não vou ficar aqui até todos terminarem — comentei, e nem sabia o porquê de estar falando isso a ele.
Mas a lembrança da última vez que usei meu poder e fiquei esgotada e fraca, ainda estava bem nítido em minha mente e não queria passar por aquilo novamente.
— Você… — Ele diminuiu o tom de voz ao caminhar ao meu lado. — Matou alguém lá dentro? — quis saber, e senti seu olhar em mim.
— Acho que quando saí, o cara do quarto um ainda estava com vida — falei em tom baixo também. — Mas não iria aguentar muito. Por quê?
— É estranho chamarem a gente para uma gangue e fazer com que matássemos um ao outro — comentou, em um tom mais baixo ainda.
— Talvez seja para ver nossa lealdade a eles… não sei. — O que ele falou fazia sentido e eu não havia pensado nisso quando houve essa história de provas e testes. — Você matou alguém?
Ele desviou o olhar do meu e encarou nossa frente.
— Não — sussurrou. — Não matei. — Soltou o ar. — Ser das sombras não me faz um monstro. — Seu tom saiu falho em algumas sílabas, como se ele estivesse sussurrando para si próprio.
— Entendo isso — falei e olhei para a saída do labirinto. — Mas se eu tivesse pensado assim como você, não estaria aqui, e sim o Mith — sussurrei e olhei para Freya, ela conseguiu sair também sem ferir ninguém.
Sabia que ele estava certo e era muito irritante como eu vinha concordando com ele, e também pensava assim. Ser das sombras não deveria nos tornar em monstros, mas talvez eu estivesse andando por esse caminho.
— É, talvez seja isso. Querem ver até onde vamos pela sobrevivência — murmurou, retornando seu olhar até mim. — Ou pelo poder.
Quando me virei para olhar para ele, ouvimos passos e um grito. Mais um rapaz passou pela saída do labirinto, mais ferido do que . Talvez a cada rodada as feras mudavam e os obstáculos fossem diferentes uns dos outros. Quando o rapaz chegou perto, decidi que era melhor eu sair dali antes que meu corpo cedesse na frente de todos.
— Como já passei pelo teste, não tenho mais nada para fazer aqui. — Não precisava dar satisfação a ninguém, mas me pronunciei mesmo assim.
Sem esperar por respostas ou olhar para eles, me virei e saí, sem olhar para trás.
Assim que consegui chegar ao dormitório, não demorou muito para que ouvisse passos entrando também. Quando nossos olhares se cruzaram, vi que ele ia dizer algo, mas duas pessoas com um capuz preto e grande entraram, recolhendo as coisas que pertenciam a Charlie. Não falaram nada, apenas pegaram e saíram.
— Será que a loira também morreu? — perguntou, baixo, voltando a me olhar.
Olhei para a cama dela, pensando no poder que ela carregava e que dificilmente ela cairia. Ela era forte e parecia saber lutar também, coisa que ajudaria ela dependendo quem era do grupo dela.
— Acho que não. — Olhei para ele, me sentando na minha cama e tirando meu calçado. — Ela parece ser bem forte, mas nunca se sabe, né?! Seria uma pena ela morrer sem antes eu lutar com ela. — Sorri, aquele clima parecia pesado demais, e falar bobeiras parecia melhor agora.
— Lutar com ela? Sério? — riu nasalado, negando com a cabeça. — Porra, eu precisava mesmo era de uma bebida. Cadê a diversão desse lugar?
— Mas é claro que é sério. Não vai me dizer que você acha que eu perderia para ela. — Ergui uma sobrancelha para ele, com meu sorriso de canto. — Então somos dois, porque eu também preciso disso. Nora e Charlie saíram esses dias atrás de algo para fazer aqui, mas não pedi se acharam — comentei, me levantando e tirando minha calça, deixando minha camisa como um vestido em meu corpo. — Se a loira tiver viva, pergunte pra ela, aposto que ela te conta.
— Por que tanta certeza assim? — perguntou, usando um tom divertido.
— Ah, por favor, . Vai dizer que não viu ela te comendo com os olhos? — falei o óbvio e soltei meu cabelo, colocando em seguida meus braços para dentro da camisa para tirar meu sutiã. — Você desfilando sem camisa e a garota quase perdendo os olhos de tanto te olhar.
acabou rindo daquilo, e foi até seu armário, pegando algumas coisas lá dentro.
— Não tinha reparado, não. Na verdade, achei que ela e o Charlie já estavam em um lance — comentou, erguendo um ombro. — Bom, ela é bem gata — disse, casualmente, tirando sua camisa e vi que ele tinha ganhado uns hematomas no abdômen.
— Não reparou porque você é um tapado, — debochei e revirei meus olhos, olhando como aquele gesto dele tirando a camisa era mesmo… irritante. — Vai atrás dela e se conseguir um lugar legal, não vai esquecer de me falar — resmunguei, desviando os olhos dele.
Queria ter perguntado a ele o que houve para ele estar com aqueles hematomas, mas sua fala fez uma coisa estranha se revirar em meu interior.
— Não precisa ficar com ciúmes, — provocou, sorrindo de lado ao me olhar. — Você é muito mais gata do que ela. — Piscou um olho para mim.
— Você está muito convencido de achar que eu teria ciúmes de você. — Devolvi um sorriso debochado para aquela piscada de meia tigela dele. — Isso tenho que concordar com você. Primeira vez que você não fala uma bobeira, nossa, que evolução. — Agora foi minha vez de piscar para ele e mantive meu sorriso.
— Não estou convencido. Só estou ditando os fatos, mas não precisa ficar na defensiva. — Também devolveu meu sorriso, tão irritante quanto qualquer outro sorriso dele. — Viu só? Eu também sei alimentar seu ego.
terminou de pegar suas coisas antes de trancar seu armário novamente.
— Não estou na defensiva — falei e joguei meu sutiã nele. — Pode parando, porque não tem ninguém aqui com ciúmes — afirmei novamente. — Pode ficar à vontade para alimentar ele, a isso eu não me oponho. — Me levantei e também fui em meu armário pegar meus itens de higiene e as coisas para um banho.
— Se você tá dizendo… — implicou, sorrindo e pegando o sutiã que joguei nele. — Já tá me dando presentes íntimos? — Mordeu seu lábio inferior. — O que eu tenho que fazer para ganhar a calcinha na próxima? — Ergueu as sobrancelhas, abrindo o sorriso ladino. Meus olhos não deveriam, mas acompanharam seus dentes castigando seu lábio inferior, e em uma necessidade, umedeci os meus, absorvendo as palavras dele.
— Não sei, … — sussurrei, conseguindo voltar a olhar em seus olhos. — Seja criativo…
— Prometo que vou tentar ser — respondeu, descendo seu olhar por mim. — Vai lá tomar banho. Eu espero — agora sussurrou mais sério.
Como se ele tivesse me oferecido uma saída para algo em que me meti sem nem mesmo perceber, eu me agarrei à sua fala e apenas concordei, balançando minha cabeça.
Segurei meus itens, como se fosse um bote de salvação e saí do quarto, sentindo que algo havia mudado, mas sem ao certo saber o que era.
Eu odiava pensar demais. Odiava ter que parar e refletir sobre certas coisas e por isso sempre fui impulsiva, sem medo, sem reservas. Mas agora isso parecia ser a minha nova realidade, um limite que atravessei e não estava totalmente pronta para isso.
. Eu me importei em querer saber como ele estava depois da prova dele. Aceitei suas provocações e insinuações. Me incomodei, sim, em saber que ele achava Nora uma gata. Mas porquê? Não! Eu não tinha tempo para isso e não poderia deixar esses pensamentos me perturbar, como se tivesse algum tipo de prioridade em mim. A única prioridade que sempre tive, era eu mesma.
O silêncio do banheiro era perturbador, como se ele me obrigasse a parar tudo para pensar sobre esse assunto, mas não deixaria ele vencer. Eu era dona dos meus pensamentos e sabia o que deveria ou não pensar e, com certeza, não deveria pensar no . Ele era irritante, abusado, presunçoso e um idiota, sem mais.
Isso tudo tinha uma explicação e só poderia ser a adrenalina que eu ainda sentia em meu corpo. A energia das sombras vagando por meu corpo, como se quisessem fazer parte de mim, parecendo até mesmo se negarem a me deixar. Algo novo, algo único estava acontecendo comigo. Embora a sensação estivesse mais fraca, e eu sabia que logo eu me tornaria apenas um corpo fraco e frágil, ainda me sentia bem. Consegui tomar meu banho, fazer minha higiene e voltar para o quarto, sem tonturas ou nada do tipo.
Mais calma e com os pensamentos em uma falsa ordem, abri a porta de metal com aquele número sete pintado nela.
Mas senti meu corpo tenso quando passei pela porta e vi aquela cena diante dos meus olhos, que revirar eles para os dois, foi inevitável. Nora estava só de sutiã e calça, em pé na frente da sua cama, mexendo naqueles cabelos loiros sebosos. estava deitado na dele sem camisa também, com aquele ar despreocupado, como se fosse dono do lugar. Nora ria de algo, que provavelmente foi uma bobeira que havia falado, piscando aqueles olhos verdes ridículos para ele, quase babando, e ele, com aquele sorriso presunçoso que deixava ele… que dava vontade de socar aquela cara todinha.
Bati a porta mais forte do que deveria e senti que chamei a atenção deles e evitei olhar para eles, me lembrando das palavras do sobre eu querer chamar atenção para mim. Ódio, isso que sentia quando me lembrava daquelas palavras que não deveriam significar nada. Guardei minhas coisas e me deitei, já sentindo como a exaustão estava se apossando do meu corpo contra minha vontade.
De olhos fechados, ouvi a porta bater e um movimento em cima da minha cama, mostrando que quem havia saído era a loira. E quis me bater por cogitar puxar conversa com ele. Que porra eu estava fazendo?! Quando foi que algo mudou?
Apertei meus olhos e engoli as palavras que queriam sair e fiquei quieta, apenas esperando a escuridão chegar e dominar meu corpo, como a consequência de ter usado meu poder.
— Mas… que cena, hein? Você entrando assim, parecia até que estava… incomodada — disse ele, e eu pude imaginar o sorriso no rosto dele sem nem precisar olhar. — Aliás, eu sei onde arranjar bebidas agora. Estava pensando, por que não vamos juntos?
— Eu devo parecer cansada, , só isso — falei uma meia verdade e abri meus olhos, olhando para a grade da cama dele. — Sabe é? Achei que tivesse ficado só trocando sorrisos com a loira — resmunguei, revirando meus olhos. — Aonde é esse lugar?
O som do colchão se moveu acima de mim e eu soube que ele estava mudando de posição. Não precisei vê-lo para saber que aquele sorriso irritante estava lá, pronto para me provocar.
— Nora é bonita e tudo mais. — Sua voz veio baixa, preguiçosa, mas com aquela ousadia que ele carregava em cada palavra. — Mas agora, você…
Ele fez uma pausa longa, deixando o resto no ar, como se quisesse que eu completasse. Revirei os olhos, encarando o teto.
— Sobre as bebidas — continuou, mudando de assunto, mas sem perder o tom provocativo —, não precisa se apressar. Você tá exausta. Eu também. Mas, amanhã ou mais tarde, quando tivermos recuperado um pouco dessa energia… vamos. Prometo que vai valer a pena. Além disso, pode ser divertido te ver fora desse seu modo de “sempre pronta pra briga”. Quem sabe você não relaxa um pouco, ?
O silêncio voltou a reinar no quarto, mas as palavras dele ainda ecoavam na minha mente, irritantemente provocativas, como sempre. E, por mais que eu tentasse ignorar, sabia que ele estava sorrindo lá em cima, satisfeito por conseguir ocupar espaço na minha cabeça sem sequer tentar.
— Eu topo em ir mais tarde, . Preciso relaxar um pouco mesmo, porque você me estressa muito — murmurei, provocando ele, e fechei meus olhos de novo, sentindo ser impossível manter eles abertos. — E o que vai fazer quando me ver fora do meu modo “sempre pronta pra briga”? Aposto que não saberá lidar, — provoquei, minha voz soando mais baixa. — Isso vai ser diferente…
Sorri de olhos fechados, imaginando a cena. Eu e , saindo juntos para beber, como se fôssemos… amigos.
— Esse seu convite é uma tentativa de ser meu amigo, ? — perguntei, curiosa e com um pouco de deboche no meu tom. — Queria ter minhas roupas aqui… meu batom… mas talvez mesmo assim eu consiga ficar com alguém — falei meus pensamentos, e o final da minha frase saiu em um sussurro fraco.
O colchão acima de mim rangeu levemente, mas ele não se moveu além disso. Sua voz veio preguiçosa e grave, carregada daquele tom provocativo que ele sempre usava para me irritar.
— Amigos, ? — Ele soltou uma risada baixa, quase inaudível. — Que conceito estranho pra você e pra mim, não acha?
Fiquei em silêncio, mas pude sentir o peso do sorriso presunçoso que ele provavelmente tinha no rosto.
— Mas, quem sabe? Talvez eu só esteja curioso pra ver você fora do seu modo “sempre pronta pra briga”. Pode ser… interessante. Até divertido. — Ele fez uma pausa, e o tom da voz dele pareceu mudar levemente, mais suave, mas ainda carregado de ironia. — Quanto a você ficar com alguém… não me surpreenderia. Você tem um jeito de atrair atenção, . Até demais.
ficou quieto por um momento, e eu achei que ele tinha terminado, mas então ele adicionou, a voz ainda mais baixa, quase como se falasse mais para si mesmo do que para mim:
— Só espero que saiba o que tá fazendo.
Talvez eu soubesse o que estava fazendo, ou procurando com tudo aquilo, mas a possibilidade de tudo estar fora do meu controle era bem grande, então estava só vivendo o momento e não me importando com o amanhã.
Eu só iria relaxar e me permitir um pouco de diversão, seguindo minhas regras de não pensar muito e sem medo.
— Vamos ver mais tarde se realmente conseguirei chamar atenção como você sempre aponta. — Minha voz baixa pareceu sair em desafio, ou sei lá… minha mente estava apagando. — Eu só vou aproveitar, Ash…
Sem ter a certeza se consegui ou não falar o que eu realmente queria, meu subconsciente se apagou e fui engolida pela vasta escuridão.
O lugar para onde estávamos indo ficava em uma área menos frequentada do quartel. Um espaço que, supostamente, não existia para os que seguiam as regras. Mas nós dois não éramos exatamente conhecidos por seguir regras. Eu sabia onde conseguir o que procurávamos, mas o caminho até lá parecia quase mais interessante do que o destino em si.
Enquanto passávamos por um corredor mais estreito, algo chamou minha atenção. Uma luz fraca escapava por uma fresta em uma porta ao lado de um letreiro desgastado que dizia Estúdio de Tatuagem. O nome estava apagado, mas a energia ao redor do lugar era diferente. As sombras pareciam se mover ali de forma mais densa, como se guardassem algo.
notou também, porque parou ao meu lado, os olhos claros fixos na porta. Ela não disse nada, mas o olhar dela foi suficiente para me entender. Empurrei a porta, que rangeu levemente, revelando um espaço pequeno e mal-iluminado.
Era um estúdio de tatuagem, mas o que chamou nossa atenção foi algo além da cadeira de tatuar e dos equipamentos. No fundo, meio escondido por cortinas escuras, havia um canto cheio de roupas e acessórios. Coisas que não tinham nada a ver com o uniforme padrão e monótono que nos davam no quartel. Peças de couro, joias pesadas, botas que pareciam feitas para enfrentar qualquer coisa.
— Interessante — murmurei, mais para mim mesmo, mas ouviu. Ela já estava avançando, passando por mim para explorar o lugar.
As roupas eram diferentes de tudo que eu tinha visto desde que cheguei aqui. Não eram feitas para serem funcionais, mas para destacar quem as usava. Isso era… incomum. Este lugar era sobre sobreviver, não sobre se destacar. Mas talvez fosse exatamente isso que tornava o lugar tão escondido.
pegou uma jaqueta preta com detalhes em prata, estudando-a com um brilho curioso nos olhos. Eu fiquei parado por um momento, observando a maneira como ela parecia tão à vontade ali. Claro, sempre parecia à vontade quando se tratava de algo caótico e inesperado.
— Vai querer alguma coisa? — perguntei, cruzando os braços enquanto a observava.
Ela olhou para mim com um sorriso de lado, típico dela, e voltou a vasculhar as peças. Eu, por outro lado, deixei que meus olhos percorressem o espaço, tentando entender o que mais aquele lugar escondia. As sombras ao redor eram mais densas aqui, como se o estúdio não fosse apenas o que parecia ser.
Minha atenção foi para uma prateleira no canto, onde acessórios de couro e metal estavam organizados. Passei a mão sobre um cinto com fivelas intricadas, mas meu olhar foi atraído por algo mais: uma luva preta, detalhada com pequenos cravos metálicos. Peguei-a, sentindo o peso e a textura. Não era algo que eu precisasse, mas, de alguma forma, parecia… certo.
Enquanto continuava explorando, senti as sombras ao redor pulsarem levemente, como se quisessem chamar minha atenção para algo mais profundo naquele lugar. Algo além das roupas. Mas antes que eu pudesse pensar mais nisso, a voz dela me tirou do transe.
Minha atenção voltou para as roupas penduradas à minha frente. Havia algo provocador no que estava ali — peças que não eram feitas para batalhas ou para se esconder, mas para destacar. Não era o tipo de coisa que eu costumava me preocupar, mas hoje… hoje parecia diferente. Talvez fosse a ideia de sair desse lugar sufocante por algumas horas, ou talvez fosse só a vontade de calar a boca da com algo inesperado.
Passei os dedos por algumas peças antes de puxar uma jaqueta de couro preta, ajustada, com detalhes metálicos que pareciam brilhar à luz fraca do estúdio. Sob ela, havia uma camisa preta de tecido fino, quase translúcida, com um corte que deixava o visual ao mesmo tempo desleixado e perigoso. Peguei também uma calça de couro justa, com detalhes em zíperes e fivelas nas laterais. O conjunto parecia feito sob medida para chamar atenção sem esforço.
, é claro, notou.
— O que foi? — perguntei, sentindo o olhar dela enquanto eu segurava as peças. — Esperava que eu fosse com meu uniforme velho?
Peguei as roupas e fui para um canto do estúdio, onde uma cortina desgastada oferecia alguma privacidade.
Enquanto vestia a camisa, senti as asas reagirem, como sempre faziam. Elas eram parte de mim, mas nunca um problema quando se tratava de roupas. Era como se o tecido simplesmente soubesse como se comportar ao redor delas, atravessando sua forma translúcida sem rasgar ou deformar. As sombras que as formavam eram densas e reais quando queriam, mas em momentos como esse, era como se elas se dissolvessem, deixando o tecido passar por elas com naturalidade. Era algo que eu tinha aprendido a aceitar ao longo dos anos — as asas estavam sempre ali, mas nunca como um obstáculo.
Com a jaqueta no lugar e a camisa ajustada, olhei para o reflexo em um espelho rachado no canto do estúdio. O visual era… diferente. A jaqueta de couro dava uma postura imponente, enquanto a camisa translúcida deixava apenas o suficiente à mostra para manter o mistério. A calça justa completava o conjunto, junto com as botas que pareciam prontas para enfrentar qualquer coisa, festa ou não.
Quando voltei, estava de costas, ainda mexendo em algumas peças. Eu parei, cruzando os braços e esperando que ela notasse.
— E então? — perguntei, a voz carregada de sarcasmo e aquele tom provocador que sempre a irritava. — Vai dizer que não tô melhor assim?
Ela se virou quando ouviu minha voz, e seus olhos desceram por mim, voltando com uma lentidão angustiante. Seus lábios antes afastados, agora estavam pressionados, como se ela estivesse segurando as palavras para não saírem. Quando finalmente seus tons claros se prenderam nos meus, havia um brilho diferente neles, um que era difícil de entender.
— É… bem melhor que aquelas outras roupas — falou, com desinteresse, mas seus olhos diziam outra coisa. — Pelo menos não vai parecer um desleixado do meu lado, — implicou com deboche, mas me olhou por inteiro mais uma vez.
Ficou visível que ela se forçou a olhar para o outro lado, deixando sua atenção naquelas peças. Seus dedos finos passavam pelos tecidos com cuidado, parecendo esperar achar a roupa certa para a noite e depois do que pareceu uma eternidade, ela foi para trás daquela mesma cortina que usei antes.
Não precisei esperar muito para ver ela empurrar aquela cortina com força, se revelando pronta.
estava vestida com um corpete curto e preto, todo trançado na frente e de alças, uma minissaia preta de couro e botas que vinham até o início das suas coxas. Seus cabelos estavam jogados de um lado só e ela usava junto um óculos redondo. Seu sorriso aumentou ao passar por mim, como se estivesse desfilando propositalmente para me provocar. Ela começou a mexer nas coisas que estavam sobre um balcão e quando se virou, seus lábios estavam pintados de um vermelho escarlate e sua língua deslizou entre eles.
— Agora podemos ir, . — Ela ergueu os óculos no topo dos seus cabelos e sorriu me provocando. — Fecha a boca, , vai pingar baba na sua camisa nova, e seria uma pena você estragar ela.
Por um momento, tudo ao meu redor pareceu desaparecer. parou na minha frente, e, sem sequer tentar disfarçar, eu a observei por inteiro. O corpete preto abraçava seu corpo perfeitamente, cada detalhe feito para provocar. A minissaia de couro mostrava mais do que o necessário, e as botas altas deixavam suas pernas ainda mais… chamativas. O toque final foi aquele batom vermelho escarlate, que fazia seus lábios parecerem ainda mais convidativos.
Meu olhar percorreu cada detalhe antes de voltar para o dela, sentindo o calor subir pelo meu rosto antes mesmo de perceber. Minha língua passou pelos meus lábios automaticamente, e revirei os olhos, tentando recuperar minha postura.
— Não se preocupe com a camisa, — comecei, mas minha voz saiu um pouco mais grave do que eu esperava. — Você claramente se esforçou para garantir que ninguém olhe pra mais nada.
Respirei fundo, tentando recuperar a compostura. Dei um passo para frente, o suficiente para diminuir a distância entre nós, meu olhar preso ao dela.
— Mas você vai me culpar se eu olhar? Porque, honestamente, com esse visual, seria quase impossível evitar.
Fiquei ali por mais um segundo, o peso do momento pairando no ar, antes de dar meia-volta em direção à porta. Fiz um gesto para irmos logo.
— Vou fazer por merecer ser o centro das atenções, já que você gosta tanto de falar isso para mim. — Sorriu com deboche e passou por mim novamente, rebolando enquanto caminhava. — Pode olhar, , porque é só isso que você vai poder fazer.
— Esse seu discurso tá sendo repetitivo demais! Tá se repetindo tanto assim para mim ou para convencer a si mesma? — provoquei, seguindo um pouco atrás e não me privei em nada de olhar mesmo.
— Está igual ao seu, de sempre reforçando que quero ser o centro das atenções, o que no caso, eu acho que você me coloca no seu centro de atenção e tenta jogar a culpa em mim — ela sorriu por cima do seu ombro, me olhando antes de baixar seus óculos.
— Não estou jogando a culpa, só estou ditando os fatos e sei que no fundo você concorda comigo. Você gosta que te olhem, gosta de mostrar o que sabe fazer e o quanto é boa. — Dei de ombros, colocando as mãos nos bolsos da jaqueta.
— É, isso é verdade — concordou, dando de ombros, e diminuiu seus passos, ficando do meu lado agora. — Mas eu só gosto de fazer isso quando tem pessoas interessantes me vendo…
— Olha só, que honra a minha! Você está o tempo todo querendo se aparecer quando estou perto, está finalmente assumindo o crush em mim? — brinquei, segurando o riso enquanto a encarava.
— Não… com você é uma questão de caridade, — debochou para me irritar. — Sou uma boa pessoa e você parece aqueles rapazes que não pegam nem resfriado.
— E qual caridade você já me fez? — quis saber, achando graça, mas segurei a risada ainda. — Não sou de pegar qualquer pessoa mesmo, . Nem gosto que saibam, igual esses idiotas que saem falando sobre tudo por aí. Acho que cabe apenas aos envolvidos o que rolou ou deixou de rolar.
— Acabei de falar, tá mesmo prestando atenção na conversa? — Ela me olhou com aquele sorriso de canto odioso. — Você tem um ponto quanto a isso. — Deu de ombros, fazendo um biquinho de lado. — Então se eu perguntar você não me contaria com quem ficou pela última vez? E se falar a loira sebosa que divide o quarto com a gente, eu deixo uma marca no seu braço — ela falou em uma mistura de provocação com irritação ao mencionar Nora.
— Hm, talvez não, seu decote tá tirando minha atenção — provoquei, sorrindo de lado, quase imitando o dela. — Quanto ciúmes, ! Já disse que naquele quarto só tenho olhos para você — brinquei novamente, rolando até os olhos pelo drama. — Não vou falar quem foi, porque não te diz respeito. Mas foi um cara e não uma garota loira. — Aumentei o sorriso e ergui um ombro.
Ela ergueu seus óculos e olhou para o próprio decote, e entortou sua cabeça para o lado, como se analisasse ele, então deu de ombros concordando com a cabeça e colocando os óculos de novo.
— Você tem razão, , estou com muito ciúmes — falou, séria, até um pouco melancólica. — Eu sempre quis que uma loira olhasse para mim como ela olha para você. Acho que você deveria procurar outro quarto e deixar eu tentar minha chance com ela — suspirou teatralmente quando acabou de falar, então ouvi sua risada alta ecoar pelo corredor. — Olha só você, isso é interessante e bem…
Deixou suas palavras no ar, sorrindo de um jeito mais sedutor.
— Quem sabe ela não muda o olhar para você. Acho que deveria investir mesmo! — incentivei, dando um pequeno riso. — Posso deixar o quarto para vocês — afirmei, sendo solitário. — Sexy, né? Eu sei — respondi completando sua fala, piscando um olho para ela. concordou e deu de ombros depois.
O caminho até o lugar já dava o tom do que estava por vir. Era escondido, quase impossível de encontrar sem saber exatamente onde procurar. Passamos por corredores estreitos e mal iluminados, descendo por uma escadaria íngreme que parecia nos levar direto para as profundezas. O som distante da música começou a vibrar nas paredes antes mesmo de chegarmos, aumentando a cada passo, até que, finalmente, a porta de metal enferrujada apareceu diante de nós.
Assim que a porta se abriu, fomos recebidos por uma onda de música alta e batidas graves que faziam o chão vibrar. O lugar era pequeno, mas parecia maior do que realmente era por causa da energia. As paredes de pedra expostas e os tetos baixos davam ao ambiente uma sensação quase claustrofóbica, mas a iluminação neon em tons de vermelho, roxo e azul transformava o espaço em algo vibrante e pulsante.
No centro, uma pista de dança compacta estava lotada, corpos se movendo ao ritmo da música, suados, despreocupados. As sombras das pessoas dançando se projetavam nas paredes, distorcidas pelas luzes que piscavam em sincronia com o som. O DJ, posicionado em uma cabine improvisada em um canto elevado, agitava o público com misturas frenéticas, enquanto um sistema de som potente preenchia o ambiente com um grave que parecia martelar no peito.
Um pequeno bar estava escondido em um canto, com garrafas alinhadas em prateleiras iluminadas por uma luz violeta. O bartender trabalhava rápido, jogando copos para cima e servindo bebidas que brilhavam sob a luz negra, atraindo olhares curiosos. As mesas ao redor eram poucas, e as cadeiras estavam constantemente ocupadas ou empurradas de lado por quem preferia ficar em pé e conversar acima do som ensurdecedor.
Apesar do tamanho compacto, o lugar exalava energia. O teto baixo fazia o ar parecer mais denso, cheio de fumaça e calor, enquanto a mistura de perfume, suor e álcool saturava o espaço. Tudo parecia propositalmente escondido, como se só aqueles que realmente pertenciam àquele mundo sombrio e rebelde soubessem da existência do lugar.
Era agitado, pulsante, cheio de vida e caos — o tipo de lugar que parecia perfeito para esquecer o resto do mundo por algumas horas. E, de alguma forma, se encaixava perfeitamente com a ideia de e eu estarmos ali.
— Até que é legal — comentei, quando olhamos em volta.
— Confesso que achei que seria sem graça, mas até parece divertido — comentou, seus olhos passando pelo lugar. — Quero uma bebida. Você vai comigo ou vai ver se acha um gato por aí?
Ela não me olhou, estava com os olhos no bar e seu corpo já balançava com a música que tocava.
— Eu vim só pela bebida mesmo, . — Indiquei o bar para ela.
Então seguimos até o lugar, onde uma mulher simplesmente nos entregou duas canecas de metal, com um líquido dentro. Pelo cheiro, pareceu muito cerveja.
— É a única bebida que conseguimos produzir aqui. Mas é melhor do que nada — a mulher disse e se afastou para servir outras pessoas com a única bebida que tinha.
Dei de ombros e bebi uns bons goles, não reclamando porque pelo menos tinha álcool. E eu já tinha bebido coisa pior.
— Pode ficar com a minha caneca. — simplesmente empurrou sua caneca pelo balcão, deixando ela na minha frente. — Você bebe e eu danço. — Piscou seu olho para mim e olhou em volta, como se procurasse um bom lugar para dançar.
— Quanta frescura! Não gosta de cerveja? — perguntei, bebendo da minha e realmente pegando a dela. — A pista parece ali — comentei, apontando o meio do lugar onde várias pessoas dançavam freneticamente.
— Não é frescura, eu só não consigo tomar cerveja — falou e parecia sincera. — Eu bebo qualquer coisa, até aquelas bebidas duvidosas, das fortes às doces, mas não consigo com a cerveja. — Seus olhos se voltaram para onde mostrei e aquele sorriso que dizia que ela iria causar, apareceu em seus lábios.
— Uma pena, cerveja é bom demais, mas essa aqui não é boa não. Porém… é o que temos para hoje — falei, bebendo agora da caneca que era pra ser dela. — Vai lá dançar. Vou ver se arranjo pelo menos água pra você quando retornar. — Olhei para dentro daquele tipo de bar.
apenas concordou e saiu, deslizando entre as pessoas, como se fizesse parte daquele fluxo e por segundos, não a vi mais no meio das pessoas. Quando passei meus olhos pelo lado direito, a ruiva estava bem embaixo de uma luz negra, balançando seu corpo como se a música estivesse tocando apenas para ela. Ela levou suas mãos em seus cabelos, descendo elas em seguida por seu pescoço, esfregando as palmas em seus seios e descendo pela sua barriga e subindo com suas mãos pela curva marcada da sua bunda naquela saia tão curta. Seus olhos fechados mostravam que ela estava apenas aproveitando de fato.
Seu corpo deslizava de um lado para o outro, seus movimentos lentos e sensuais, dançando com provocação no compasso certo daquela música. Então ela abriu seus olhos, aquele sorriso brincando em seus lábios vermelhos e mesmo de longe, vi as chamas naquelas íris claras.
Por um momento, tudo ao meu redor se dissolveu. O som da música, as luzes piscando, as pessoas passando — tudo desapareceu, como se o mundo tivesse decidido que era a única coisa que importava naquele instante.
Ela sabia exatamente o que estava fazendo. Claro que sabia. Aquela saia curta, o corpete que destacava cada curva, o jeito como o batom vermelho brilhava sob a luz negra. era uma tempestade — perigosa, impossível de ignorar, e completamente intoxicante.
De longe, as írises claras dela pareciam quase incandescentes, carregando um fogo que parecia mirar diretamente em mim. Respirei fundo, tentando recuperar minha postura, mas minhas asas se agitaram levemente às minhas costas, como se respondessem a algo que eu nem entendia.
“Controla essa cara, ,” pensei comigo mesmo, mas era tremendamente inútil. Ela era… um problema. Um problema que eu não sabia se queria resolver ou mergulhar de cabeça.
Tudo o que consegui fazer foi manter meu olhar fixo nela, sem me importar se alguém percebia. Porque, naquele momento, parecia ter o controle de tudo — da música, da luz, e, diabos, até mesmo de mim.
Seu sorriso cresceu ao notar meu olhar fixo nela e para acabar com a minha sanidade, se virou de costas, rebolando sutilmente enquanto me olhava por cima do seu ombro. Ela lambeu seus lábios e seu corpo se dobrou, com suas mãos indo até seu joelho e subindo lentamente por suas coxas, mas esse movimento, deixou sua bunda empinada e ela, descaradamente, a balançou de um lado para o outro, mas sem perder o ritmo e aquela sensualidade que parecia emanar de seus poros.
Eu não conseguia desviar o olhar, e tinha absoluta certeza que ela sabia disso. Era impossível não notar o jeito que ela fazia questão de chamar atenção, mas, porra, era tão natural que parecia que aquele lugar existia apenas para ela.
Senti minha mandíbula apertar, e meu peito subir e descer em uma respiração mais pesada. As asas nas minhas costas se agitaram quase involuntariamente, e o calor subiu pelo meu corpo. Que inferno, .
Que merda você está fazendo comigo?
Ela sabia exatamente o efeito que tinha, e aquele olhar por cima do ombro era a porra de um convite para perder o controle. Meu olhar desceu novamente, acompanhando o movimento do quadril dela, e eu tive que passar a língua pelos meus lábios, tentando disfarçar o aperto que sentia no estômago.
“Caralho..." O pensamento escapou antes mesmo que eu pudesse segurá-lo, mas a palavra ecoou na minha mente como uma confissão. Ela era um problema, um puta problema, e eu estava fodido de tantas maneiras que nem sabia por onde começar.
Tudo o que pude fazer foi manter minha postura, mesmo sabendo que, naquele instante, estava completamente no comando. E, por mais irritante que fosse admitir, parte de mim não queria que fosse diferente.
Seu corpo se ergueu e ela girou, me dando a visão do seu corpo de lado. Suas mãos apertavam seus seios e subiram pelo seu pescoço, seus olhos se fecharam novamente e ela apenas fez seus movimentos mais sutil dessa vez, mas aquele maldito sorriso não deixava seus lábios.
Tudo estava bom demais, ela parecia ser outra pessoa, mas com aquele toque da provocadora que sempre foi, e pelo jeito que ela dançava, ela ficaria ali por horas. Seus olhos se abriram quando um rapaz apareceu na sua frente e sem falar nada, levou sua mão, tocando na pele da sua cintura, mas consegui ver daqui dispensar aquele rapaz.
Quando a contra gosto ele se afastou, ela se voltou para mim, caminhando como se desfilasse apenas para os meus olhos.
Virei para o bar, pegando uma garrafinha de plástico que parecia água, e joguei para ela quando se aproximou mais de mim.
— O carinha não fazia seu tipo? — perguntei, dando um sorriso de lado.
Ela segurou no ar a garrafinha e a abriu em seguida, fazendo um biquinho e bebendo do bico mesmo.
— Não tava afim. — Deu de ombros e se sentou ao meu lado. — Não gosto quando chegam já me tocando — completou depois de beber mais um gole da água.
— E como você gosta que cheguem em você? — Inclinei meu corpo para mais perto dela, a encarando naquele momento.
— Uma boa conversa, eu acho. — Olhou para mim, deixando a garrafa de lado. — Não gosto de enrolação, mas também não gosto que achem que podem chegar e já me tocar e fazer o que tiverem vontade. — Seu olhar passou por meu rosto, então ela desviou, se voltando de costas para o balcão.
— Você gosta de estar no controle… — afirmei, mesmo ela desviando, eu mantive meu olhar nela. — Estou errado? — Mantive o sorriso de lado e peguei mais uma caneca de cerveja quando a mulher passou servindo mais.
— É irritante o tanto que venho concordando com você, . — Sem olhar para mim, confirmou o que eu falei, sem de fato assumir que eu estava certo. — Tem certeza que vai ficar bem bebendo essa coisa aí — apontou para a caneca em minhas mãos, e pegou a água novamente.
— Sempre estou certo — murmurei, rindo soprado. — E qual o problema em beber isso aqui? — perguntei curioso, dando uns bons goles. — É só cerveja, . — Terminei mais aquela caneca.
Ela revirou seus olhos para minha fala e bebeu uns bons goles daquela água.
— Não tem problema, mas sei lá… é uma cerveja duvidosa. — Ela sorriu e negou com a cabeça. — Aproveite então.
— Tá preocupada, é? — Empurrei ela de leve com meu ombro. — Não vou ficar bêbado. Só pra relaxar mesmo, afinal todo dia temos que matar alguma coisa. — Esbocei uma careta.
— Mas você já tá bêbado! Falando coisas sem sentido. — Me olhou, como se estivesse preocupada, mas em puro deboche. — Eu precisava mesmo de uma coisa diferente, estava quase ficando louca em só ver a sua cara, da loira e do falecido.
— Bêbado só por falar a verdade?! — brinquei de volta, rolando os meus olhos. — E, ainda assim, aqui está você perto de mim e continuando olhando a ver minha cara. Você gosta que eu te deixa louca — essa última frase, eu sussurrei perto de seu ouvido.
— Os bêbados sempre acham que falam a verdade, mas todos sabemos como a imaginação flui com álcool. — Ela se virou e voltou a olhar as pessoas que dançavam. Rolei os meus olhos, rindo nasalado. — Só vim com você porque não me contou como chegar aqui e vir com você era melhor do que não vir. Não se ache especial, — desdenhou e revirou seus olhos, ainda assistindo as pessoas na pista de dança. — Você bem que queria que essa fosse a verdade, mas sinto em te desapontar, ou não sinto tanto assim, mas você está longe de surtir um efeito desses em mim — sussurrou de volta, aproximando seu rosto e deixando seus olhos presos nos meus.
— Ok, . Mas agora você já está aqui e já sabe como voltar. Ainda assim, estamos aqui e juntos — comentei, ainda olhando para ela e provocando um pouco mais. — Não estou desapontado. Na verdade, até cogitei te chamar pra dançar comigo, mas… Você já fez muita caridade, não é? — Fiz um bico falso.
— Mas que merda — resmungou por eu estar certo e ela ainda estar aqui do meu lado, mesmo ela podendo ir para qualquer lugar.
Quando ouviu sobre eu chamá-la para dançar e a sua fala sobre caridade, um sorriso malicioso surgiu em seus lábios e ela deixou sua cabeça pender de leve para o lado, passando aqueles olhos claros com chamas pelo meu corpo. Talvez tenha sido uma péssima ideia essa da dança, porque ela estava com aquela cara que ia aprontar.
— Vamos lá, — chamou, ficando de pé e jogando seus cabelos acobreados para trás, falsamente arrumando seu decote, apenas para provocar. — Você nunca ouviu falar que caridade nunca é demais?
— É o que você repete a si mesma para se convencer disso? — rebati, rindo nasalmente. — Vamos lá então. Sendo caridade ou não, eu só quero me divertir. — Fiz um gesto para que fôssemos.
— Cada um usa o que sabe, — desdenhou com um gesto de sua mão e riu em seguida.
Seguimos em silêncio, com ela andando na minha frente e abrindo o caminho para nós.
Quando conseguimos passar pelas pessoas e achar um ponto mais escuro, a música agitada que tocava a segundos atrás, deu lugar para uma mais lenta e envolvente. sorriu e fechou seus olhos, como se precisasse desse ato para sentir a vibração de cada nota ecoada nos autofalantes. Seu corpo balançava com suavidade, parecendo ter nascida para fazer aqueles tipos de movimentos, deixando suas mãos vagarem por seu corpo sem pudor algum, se sentindo, se permitindo sentir a emoção que a música trazia.
Quando seus olhos se abriram, ela veio para mais perto, puxando seu cabelo para um lado só, deixando uma lateral do seu pescoço exposto e se virou de costas para mim. Seu quadril balançou de um lado para o outro e com a nossa aproximação, sua bunda se esfregou contra o meu. Mesmo no escuro, conseguia ver o rosto dela, e não havia mais provocação ou sorrisos maliciosos. Sua feição era de apreciação, de pura satisfação com o que estava fazendo. Olhos fechados, lábios afastados e aqueles movimentos tortuosos e lentos contra meu corpo. Sua cabeça levemente inclinada para o lado, parecendo um convite de livre acesso para a pele branquinha do seu pescoço, ou um pedido silencioso para que eu pudesse me aproximar.
Quando achei que ela fosse se afastar, sua mão tocou a minha e ela a trouxe até sua pele quente, macia e exposta da sua cintura, deixando sua mão em cima da minha enquanto a outra voltava a deslizar apertadamente por seu corpo.
Eu engoli em seco, sentindo o calor subir pelo meu corpo, enquanto meus dedos se ajustavam à curva da cintura dela, quase instintivamente. A outra mão dela deslizou pelo próprio corpo, apertando e provocando, e cada movimento parecia um desafio direto.
Como se ela dissesse: "Vai ficar parado, , ou vai fazer algo a respeito?"
Meu peito subia e descia em um ritmo mais pesado, as sombras ao meu redor se agitando como reflexo do caos dentro de mim. Ela estava tão perto que eu podia sentir o perfume dela misturado ao calor da dança, e cada fibra do meu ser gritava para me mover. Para encurtar ainda mais a distância.
Por um momento, tudo se resumiu àquele toque e ao ritmo que parecia conectar nossos corpos. Minha mão na cintura dela não ficou inerte; meus dedos se ajustaram ao contorno da pele quente e macia, movendo-se lentamente, explorando sem pressa. O calor dela era quase sufocante, mas de uma forma que eu não queria escapar. Meus movimentos começaram a acompanhá-la.
Não precisei pensar; meu corpo reagia naturalmente ao dela, como se tivéssemos ensaiado aquela dança milhões de vezes. Eu me aproximei, deixando o espaço entre nós quase inexistente. Minhas mãos desceram levemente pela curva da cintura dela, enquanto meu quadril começou a seguir o ritmo, oscilando no mesmo compasso, lento e firme, criando uma sincronia que parecia inevitável.
Ela continuava rebolando, os movimentos deliberados, como se soubesse que estava no controle. Mas eu não ia deixar ela comandar tudo.
Não dessa vez. Inclinei meu rosto para perto do pescoço dela, o suficiente para que minha respiração quente se chocasse contra a pele exposta. Não toquei, mas deixei claro que poderia, a qualquer momento. Queria ver até onde ela iria.
Meus quadris pressionaram contra os dela, acompanhando o rebolado sensual dela, e o movimento de nossos corpos agora era tão sincronizado que parecia impossível saber quem estava levando quem. As sombras ao nosso redor pareciam responder à tensão crescente, pulsando e dançando junto conosco, como se fossem parte da energia que nos envolvia.
Minha mão na cintura dela se moveu lentamente para o quadril, os dedos firmes enquanto a guiava levemente, intensificando o ritmo da dança. A cada movimento, nossos corpos se roçavam, e eu podia sentir a energia dela, o calor que se misturava ao meu. Meu rosto permaneceu próximo ao dela, cada respiração minha tocando a curva do pescoço exposto, cada batida da música parecendo ditar a tensão crescente entre nós.
O mundo ao redor parecia desaparecer.
Não havia mais música, mais luzes piscando, mais pessoas. Só nós dois, nossos corpos entrelaçados naquela dança ousada e hipnotizante. Eu sabia que estava provocando, testando seus limites, mas, ao mesmo tempo, ela fazia o mesmo comigo. era fogo, e, pela primeira vez, deixei queimar sem tentar apagar.
Minhas mãos apertaram a cintura dela com mais força, os dedos firmes contra a pele quente e macia. Não era mais apenas acompanhar os movimentos dela - agora, eu guiava. Puxei-a para trás, colando seu corpo contra o meu, sentindo a curva perfeita das suas costas contra meu peito enquanto nossos quadris se moviam em perfeita sincronia. O rebolado dela se ajustava ao meu ritmo, criando uma tensão tão intensa que parecia carregar o ar ao nosso redor.
Inclinei-me para frente, deixando que meu rosto se aproximasse da curva do pescoço dela. O perfume que emanava dela misturado ao calor da dança era intoxicante, e, antes que pudesse pensar melhor, deslizei o nariz pela pele macia do seu pescoço, sentindo sua respiração vacilar levemente.
Meu corpo reagia ao dela de maneira quase instintiva, e a proximidade era como um fogo que eu não queria apagar. Meus lábios pairaram por um instante na linha do maxilar dela, quase tocando, quase testando. O calor que vinha dela parecia me puxar mais, e quando finalmente deixei meus lábios roçarem contra sua pele, foi como uma explosão de eletricidade entre nós.
Minhas mãos desceram levemente pela cintura dela, apertando os quadris e guiando o movimento dela contra o meu, criando uma sincronia tão perfeita que parecia que o mundo inteiro tinha desaparecido. Cada toque, cada rebolado, cada respiração que escapava de nós era puro caos, carregado de uma tensão que eu não sabia mais controlar — e nem queria.
Ela inclinou a cabeça levemente, expondo mais do pescoço para mim, e eu não resisti. Deslizei os lábios pela linha do maxilar até quase chegar à curva de seu pescoço novamente, sentindo o calor da pele dela contra a minha. Minhas mãos permaneceram firmes, segurando-a contra mim, como se não houvesse espaço para escapar.
Mesmo que eu estivesse no controle agora, ela parecia ceder em partes, ao mesmo tempo que me permitia comandar, ela também queria o controle de volta, como se fosse algo que ela jamais imaginou entregar a alguém.
Seu corpo parecia ter o encaixe perfeito para o meu, a medida certa para me bagunçar daquele jeito atrevido que só ela tinha. Seus olhos ainda permaneciam fechados enquanto ela aproveitava o toque da minha mão em seu corpo, o toque dos meus lábios em sua pele tão cheirosa e convidativa. Ela estava adorando aquela atenção exclusiva que eu dava para ela. Seu corpo mostrava isso, e o rebolar suave contra minha pélvis era irritantemente gostoso, provocativo e inebriante.
Naquele embalo sufocante daquela música, suspirou com o meu ar sendo solto em seu pescoço, com meus lábios provando a maciez que era a sua pele. Então sua mão direita subiu, passando seus dedos finos pelo meio de seu decote trançado, seguindo pelo seu pescoço e rosto, até que seus dedos se enroscaram nos fios da minha nuca, puxando eles e pressionando mais meu rosto contra seu pescoço, em um pedido mudo de que ela queria mais dos meus lábios nela.
— Achei que você não soubesse dançar, , mas até que você é… — sua fala provocativa saiu em um murmúrio falho e sexy, com um misto de prazer e talvez… tesão.
Seus lábios ficaram separados e ela os lambeu lentamente, abrindo seus olhos e me olhando de lado. Suas pupilas estavam tão dilatadas ao ponto de não dar para ver o tom claro que suas írises tinham. Um desejo nunca visto por mim antes, brilhava em seus olhos.
Sua provocação, falha e carregada de um prazer que ela não fazia questão de esconder, acendeu algo ainda mais primal em mim. Minhas mãos apertaram sua cintura com mais firmeza, guiando seus movimentos lentos e hipnóticos contra o meu corpo. Meu peito estava colado às suas costas, e cada oscilação do nosso ritmo era uma tortura deliciosa, me puxando ainda mais para perto.
Deixei meus lábios roçarem o caminho do seu pescoço até o lóbulo da sua orelha, sentindo sua respiração vacilar mais uma vez. Não recuei. Em vez disso, passei minha língua lentamente pelo contorno do lóbulo antes de mordê-lo de leve, o suficiente para arrancar outro arrepio dela.
— E você achava que eu só sabia te irritar, ? — murmurei rouco, a voz carregada de provocação e algo muito mais intenso.
Minhas mãos subiram levemente pela curva da sua cintura, quase alcançando as laterais do corpete, antes de deslizarem para baixo novamente, repousando firme nos seus quadris.
Inclinei meu rosto o suficiente para que meus lábios tocassem de novo a curva do seu pescoço, explorando cada centímetro de pele enquanto nossos movimentos permaneciam em perfeita sincronia.
A música continuava, sufocante e envolvente, mas tudo o que eu conseguia sentir era ela — o calor do seu corpo, o jeito como ela cedia a cada toque, como se tivesse esquecido completamente do mundo ao nosso redor. E, talvez, eu tivesse esquecido também.
Seus olhos se abriram novamente, encontrando os meus com um desejo tão intenso que parecia me consumir. Aquele brilho, aquele olhar que eu nunca tinha visto antes, foi o suficiente para me fazer apertar sua cintura um pouco mais forte, puxando-a ainda mais contra mim.
Ela era encrenca. Sempre foi. Mas, naquele momento, não havia um só pedaço de mim que quisesse se afastar. era uma tempestade, e eu estava disposto a me deixar levar.
Me inclinei ainda mais, colando meu corpo ao dela, deixando que ela sentisse o peso da minha presença. Meu peito pressionado contra suas costas, meus quadris seguindo cada rebolado dela, mas agora com uma intensidade controlada. Era um jogo, e eu sabia que estava no comando, pelo menos por enquanto.
Minhas mãos desceram novamente, mas dessa vez meus dedos apertaram seus quadris com mais ousadia, guiando-a a se mover exatamente no ritmo que eu queria. As sombras ao nosso redor pareciam se envolver em torno de nós, pulsando no mesmo compasso sufocante da música. Era como se o mundo ao nosso redor estivesse conspirando para tornar aquele momento ainda mais eletrizante.
Eu deixei meus lábios subirem da curva do seu pescoço para o maxilar, traçando o caminho com pequenos toques, cada um mais provocador que o último.
Minhas mãos não pararam de explorar o corpo dela, cada curva, cada centímetro que parecia feito para ser descoberto. A música era sufocante, o ritmo hipnótico, mas o calor que emanava dela era o que realmente me consumia. Minha mão esquerda, ainda firme em sua cintura, a mantinha no lugar, guiando cada movimento, enquanto a outra começou a subir, lentamente, pelo caminho que parecia proibido.
Meus dedos passaram pela sua barriga, deslizando de forma provocativa, sentindo o tecido quente que cobria sua pele até onde ele não podia mais esconder a maciez. Continuei subindo, os movimentos calculados, cada toque mais ousado, enquanto a palma da minha mão percorreu o contorno do seu peito, seguindo a linha do decote trançado que parecia feito para chamar minha atenção.
Deixei que meus dedos roçassem levemente na pele exposta ali, descendo e subindo pelo mesmo caminho, apenas para provocá-la, antes de seguir adiante. Quando alcancei seu pescoço, deslizei minha mão pela lateral, o polegar traçando a curva delicada e quente. Então, com a mesma calma controlada, apertei de leve, os dedos firmes, mas não invasivos, como se dissesse que tinha o controle sem precisar de palavras.
Meu rosto estava novamente junto ao dela, meus lábios a milímetros da curva de seu pescoço, mas dessa vez não toquei. Apenas deixei que minha respiração quente marcasse aquele momento enquanto minha mão permanecia ali, segurando seu pescoço com uma firmeza que beirava o possessivo, mas com um toque carregado de sensualidade.
Meu corpo continuava se movendo no ritmo do dela, os quadris ainda sincronizados, mas agora havia algo mais intenso, mais cru. A tensão entre nós era palpável, como se o mundo ao nosso redor tivesse desaparecido completamente, deixando apenas o calor da pele dela sob meus dedos e o som do nosso ritmo na escuridão.
A cada segundo que passava, eu apertava levemente, o suficiente para sentir a pulsação quente sob minha palma, antes de soltar com o mesmo cuidado, deixando meus dedos traçarem novamente o caminho pelo seu pescoço até sua clavícula, explorando, dominando, sem pressa.
Ela estava entregue, e, naquele momento, eu sabia que nenhuma provocação dela era maior do que o que eu podia oferecer de volta.
Seus dedos se soltaram do meu cabelo, e senti sua mão segurar a minha quando ela voltou a pousar em sua cintura e por segundos, achei que ela iria entrelaçar nossos dedos, mas ao invés disso, ela soltou minha mão do seu corpo, mas não a soltou.
Com um riso cheio de provocação, sedução e deboche, afastou seu corpo do meu, girando e ficando de frente para mim. Seus olhos puros chamas, contrastavam com aquele sorriso nos seus lábios grossos. Com um olhar intenso, desceu eles por meu corpo e encarou sua mão que ainda segurava a minha, e seus dedos soltaram os meus com lentidão.
— Acho melhor pararmos por aqui… — Seus dentes morderam seu lábio inferior, e ela deitou levemente sua cabeça para o lado, passando seus dedos pelo seu decote trançado. — Antes que você se apaixone por mim, …
Ela começou tudo e ela mesmo parou, querendo mostrar para mim, que ainda era ela quem estava no controle e que se estive com ele por um tempo, foi porque ela quis, ela deixou.
Dei um passo para trás, afastando-me dela de propósito, rompendo o espaço que antes parecia inexistente. Meu olhar percorreu o dela rapidamente, mas não fiquei preso ali. Em vez disso, ajeitei minha jaqueta com calma, deixando um sorriso lento e malicioso se formar no canto dos meus lábios, carregado de algo entre provocação e puro desdém.
— , você realmente acha que esse joguinho me prende? — murmurei, a voz baixa, mas carregada de ironia. — Eu estava só aproveitando o momento… já que o que eu queria de verdade estava ocupada até agora.
Meu olhar desviou dela, deliberadamente, como se eu já não me importasse mais. Passei por ela, deixando um toque de frieza no ar, e então parei por um momento, olhando por cima do ombro apenas o suficiente para lançar a provocação final.
— Não me espera. Não sou do tipo que fica disponível, . E, pra ser honesto, acho que alguém mais interessante acabou de se liberar.
Deixei as palavras pairarem no ar antes de seguir em frente, sem olhar para trás. O sorriso continuava no meu rosto, mais para mim mesmo do que para ela. Meus olhos logo encontraram o alvo: uma morena alta, de cabelos longos e pele dourada, que estava encostada em uma das paredes, conversando com alguém, mas com um olhar que parecia buscar algo além. Ela era o oposto de , e isso fazia parte do ponto.
Cheguei até a mulher com a mesma confiança que sempre me acompanhava. Me inclinei levemente para falar algo em seu ouvido, e ela riu, jogando o cabelo para o lado. Seu sorriso foi suficiente para me dizer que tinha conseguido exatamente o que queria. Ao lado da morena, minha atenção completamente nela. Mas, no fundo, eu sabia que as sombras atrás de mim carregavam algo a mais: o olhar de . Porque, por mais que eu tivesse me afastado, o fogo que começamos ainda queimava.
Meus olhos olharam para o teto, as luzes começaram a mudar de cores, piscando ao ritmo da nova música que começava a tocar. Era aquele tipo de música que apagava a sua mente, que te fazia se jogar em queda livre sem esperar ter um ponto final. Em ondas, aquela música se misturou com o calor da minha brincadeira com o , e tudo o que eu sentia era aquela mistura gostosa que dominava o meu corpo.
Com aquele ritmo alucinado, eu dancei, dancei como jamais havia dançado em toda minha vida. Eu não precisava de uma companhia, não precisava beber para aproveitar. Eu sabia fazer isso sozinha.
Aquela pista era meu lar, aquela música era meu ar, as luzes eram a energia de que meu corpo precisava e aquelas pessoas à minha volta, eram minha plateia. Nada e nem ninguém importava, apenas eu e aquela sensação gostosa de liberdade, de intensidade e leveza. Eu era livre, dona de mim e… uma verdadeira filha da puta.
A música pulsava em meus ouvidos, meu corpo parecia ser refém daquele embalo, minhas mãos acariciavam meu corpo em uma tentativa de diminuir toda aquela intensidade que irradiava de mim. Meu coração parecia conhecer apenas um ritmo; o da música. Um grupo me cercou, e foi hipnotizante como meu corpo deslizava entre eles, como cada célula existente em mim, parecia tão à vontade dançando entre eles.
Foi a única coisa que fiz, dançar, me envolver com cada música, sorrir para estranhos, rebolar, me tocar e vagar entre a realidade e a imaginação da minha mente, até a hora que me senti exausta o bastante para querer ir embora.
Mesmo meus pés reclamando, meu corpo suado e meus cabelos embaraçados de tanto que os joguei de um lado para o outro, a satisfação corria por meu corpo como choques elétricos.
O caminho de volta ao meu dormitório foi rápido e silencioso, como se todo o quartel estivesse dormindo e somente eu estivesse acordada vagando entre os corredores de pedras e mal-iluminados.
As sombras sempre espalhadas por todos os cantos, nos acompanhando como uma extensão de cada um de nós. Elas não me incomodavam, eu me sentia fazendo parte delas, uma aceitação que havia em mim há muito tempo.
Quando cheguei no quarto, ele estava vazio. deveria estar com a morena ou com qualquer outra pessoa, e Nora… bom, não fazia ideia onde ela poderia estar. Peguei minha toalha e fui para o banho. O bom de sempre tomar banho em horários aleatórios, era que eu sempre pegava o banheiro vazio e estava fazendo isso funcionar para mim.
Minhas mãos passaram pelo meu corpo, tirando toda a espuma que eu havia espalhado nele, e fechei meus olhos quando por segundos lembrei das mãos dele em mim, de como suas mãos eram fortes e sabiam fazer a coisa certa. Foi difícil ceder um pouco de controle a ele, mas não me arrependi, porque ele soube perfeitamente o que fazer.
Suspirei, subindo minhas mãos e esfregando meus seios, lembrando dos seus lábios no meu pescoço, em, como sua boca quente deslizou com precisão por toda a linha do meu maxilar. Aquele mesmo calor, o mesmo tesão que senti naquela hora, voltou para me perturbar e foi fácil descer uma de minhas mãos para o meio das minhas pernas, gemendo baixinho com o quão sensível eu estava.
A água caindo por meu corpo, parecia incendiar mais do que de fato me refrescar, já que ela era gelada. As gotas se perdendo em meio ao meu prazer, tornava tudo muito mais gostoso, e imaginar que fosse ele percorrendo meu corpo com sua boca, foi a perdição da minha mente.
A lembrança de seus olhos vagando por meu corpo, suas mãos subindo pelo meio do meu decote, fez com que meus movimentos ficassem mais rápidos, e meus dedos apertaram o bico do meu seio, intensificando aquele tesão em meu corpo. A memória da minha bunda rebolando contra seu quadril, seus lábios provando a minha pele, seus toques fortes, sua respiração quente, sua mão passando pelo meu peito e aqueles olhos intensos que estavam cravados em minha mente como se fosse parte do meu cérebro, estavam me levando rápido demais para o limite.
Até mesmo as roupas que ele estava usando eram sexys pra caralho, como se elas fossem criadas para se encaixar somente nele, para ele. Suas asas em sua grandiosa exuberância, prontas para arrancar suspiros involuntários meus, se agitando com perfeição.
Ele era gostoso e sabia disso.
Tudo era real demais, intenso e perigoso, mas eu não me importava, não tinha medo e nem mesmo vergonha de fazer o que estava fazendo, pensando em .
O silêncio sendo preenchido apenas pela minha respiração pesada, soava em ecos pelo banheiro. Meu coração desenfreado parecia pulsar mais que as batidas das músicas que dancei nessa noite, tudo parecia ser demais, tudo parecia ser tão pouco.
Podia ver aquele sorriso odioso no rosto bonito dele e as provocações sem fim que eu ouviria, se ele cogitasse o que passava por meus pensamentos. O quão sujos eles eram e quanto o envolvia neles.
Minha pele parecia queimar embaixo daquela corrente de água, sensível ao extremo, como se eu só tivesse uma única saída; gozar todo aquele tesão que me causava.
Com mais alguns movimentos, junto de todas essas memórias tão reais e frescas, foram o bastante para me levar à loucura e gemer, sentindo aqueles espasmos pelo meu corpo, gozando tão gostoso que fez um sorriso pequeno aparecer em meus lábios.
Literalmente, eu era uma filha da puta, mas era a filha da puta mais relaxada que qualquer um fosse encontrar naquele quartel.
Terminei meu banho e voltei para o quarto, deixando meu corpo ser abraçado pela minha coberta, bloqueando qualquer pensamento que fizesse essa sensação de prazer deixar meu corpo.
Eu sabia muito bem o que tinha feito e em quem pensei durante meu ato, mas era isso. As peças de um novo jogo foram lançadas, e cada um era adulto o suficiente para fazer suas escolhas e lidar com elas depois. Qual a graça de se criar regras, se não podemos depois quebrá-las?
O fato de ter me permitido pensar em enquanto me masturbei, não diminuía o fato dele continuar sendo irritante, debochado e um abusado.
O silêncio que nos envolvia, estava carregado de suor e determinação. O lugar amplo para treino, era, como todo o resto do quartel, mal iluminado, mas isso não me impedia de ver o brilho da fúria daqueles olhos verdes.
Era apenas um treino, mas tanto Nora quanto eu estávamos levando ele bem a sério. Quando a loira me chamou para treinar com ela, até pensei que fosse algum tipo de deboche ou até uma emboscada que ela tivesse planejado com outras pessoas para me prejudicar, mas aceitei e vim ver com meus próprios olhos.
Depois que achou aquele estúdio abandonado, não usei mais aquelas roupas que eles nos davam e por isso que eu estava usando um top preto e um short curtinho, preto também.
Nora estava com seus cabelos loiros presos no alto da sua cabeça e seus olhos fixos em mim, enquanto eu estava com meu cabelo trançado desde a raiz até as pontas, em duas tranças boxeadoras. Meus punhos fechados e apertados com pura intensidade e determinação.
Ambas exaustas, mas querendo provar que não existiam limites para nós. A tensão que nos cercava, se misturava com os sussurros das sombras, deixando aquela cena beirando a um belo espetáculo.
Cada movimento era feito com certeza e agilidade, cada golpe era preciso, com o intuito de derrubar. Ela sabia lutar e era muito boa, mas eu também não ficava para trás, e estávamos presas em um treino cheio de orgulho e provocação.
Meus olhos capturaram um leve vacilo do seu pé esquerdo e sabia que ela estava se preparando para vir para cima novamente. Minha mente havia decorado seu padrão de golpes, como uma sequência que talvez ela nem percebesse que sempre fazia.
O suor escorria pelo meu pescoço e se perdia em meio aos meus seios, combinando com o resto da minha pele que já estava húmida e quente. Quando Nora avançou, eu girei meu corpo, acertando um chute em seu peito e fazendo ela perder o equilíbrio. Me ajeitei rapidamente e ataquei ela de novo, dando outro chute em suas costelas.
Nora caiu no chão e me sentei sobre seu quadril, à prendendo no chão. Iria começar uma sequência de socos no seu rosto, quando senti a ardência em minhas costas com a joelhada que ela me deu. Grunhi com a força que ela me acertou, e com isso, a loira conseguiu me virar e ficar por cima de mim. Nora foi rápida em começar a socar meu rosto, mas não antes que eu pudesse o proteger com meus antebraços, como um escudo para ela não me acertar de fato. O impacto dos seus socos ressoou no silêncio da sala, ecoando como um trovão cortando o céu em noites de tempestades.
Podia ouvir pela sua respiração como estava cansada e aguentei mais um pouco com aquele bloqueio, até ter a chance perfeita de pegar ela desprevenida e acertar seu maxilar debaixo para cima, tirando ela de cima de mim. Nós duas estávamos determinadas a provar seu ponto, a mostrar que não cederia.
Estava tão ofegante quanto ela, e sorri de lado quando vi ela cuspir sangue ao lado do seu corpo. Endireitei minha coluna e estendi minha mão para ela, mostrando que não era sério e sim apenas um treino.
— Não foi nada pessoal, loira — falei, minha voz baixa e ofegante. — Você é muito boa.
— Tem certeza que não tem nada pessoal mesmo? — falou, ao segurar minha mão e se levantando com minha ajuda. — Você também é boa, ruiva. Quando quiser treinar de novo, eu topo.
Acabei rindo com sua fala e neguei com a cabeça. Eu não gostava dela perto do , mas não tinha nada contra ela. Acabei rindo com meus pensamentos, mas não iria dividir isso com ela.
— Também topo — falei, sorrindo de lado e soltando sua mão.
Me virei e fui até minha garfada de água, bebendo quase ela toda. Ouvi os passos de Nora se afastando e sua voz ao longe.
— Tô indo. Preciso de um banho — falou alto, para que eu ouvisse e saiu pela porta.
Respirei fundo tentando fazer o ar entrar normalmente em meu corpo, fechando meus olhos e estalando o pescoço para dar uma relaxada. Quando abri meus olhos, eu o vi.
Sua postura imponente naquela escuridão parecia até um pecado, daqueles que só de olhar, nos tornava uma pecadora. Suas asas se abriram sutilmente enquanto ele caminhava a passos lentos para mais perto e juro, eu queria socar aquela cara bonita dele, só para desmanchar aquele sorriso pretensioso que ele carregava nos lábios.
Eu queria muito desviar, virar as costas e deixar ele ali. Mas meus pés pareciam ter criado raízes naquele chão e tudo que pude fazer foi assistir ele chegar.
— Há quanto tempo estava aí, ? — perguntei quando ele parou na minha frente. — Estava assistindo a loira, é? — provoquei e sorri, olhando em seus olhos.
— Estava treinando também, mas a luta de vocês foi bem mais interessante — confessou, sorrindo de lado e parou na minha frente. — Mas se tivesse alguém para apostar, eu sempre apostaria em você, ruiva. — Piscou o olho para mim.
— Cuidado, você pode perder se realmente apostar. — Dei de ombros, mas estava me fazendo. Eu daria tudo para não perder uma luta. — Tava treinando sozinho?
— Não ia perder, porque eu sei que você odeia perder — rebateu, sorrindo de lado. Revirei meus olhos para ele. — No começo, sim, depois o Umbros apareceu de novo e… Bem, ele é esquisito. Mas ele me ajudou com algumas coisas — comentou baixo e com um pouco de desconfiança na sua voz.
— Se soubesse, teria ido treinar com você. Iria ser muito prazeroso dar uns socos na sua cara. — Sorri para ele, piscando um olho. — Você deve ser o preferido dele, então aproveite o que ele tiver para te ensinar.
— Podemos treinar quando você quiser, ruiva. Não ligo de levar uns socos seus — provocou, com segundas intenções em seu tom. — Não acho isso. Eu penso que ele deve ter planos para cada um de nós. E já sei que comigo ele é bem interessado nas minhas asas, já que os conselhos são sempre em relação a elas. Mas vamos ver quais são os planos sombrios e meticulosos do Kaelan Umbros para nós. Só espero que não seja nossos corpos encontrados em uma vala.
— Fetiche em apanhar, ? — provoquei, e ergui minhas sobrancelhas com meu sorriso de canto. — Bom… seu poder é um dos melhores e você é um puta sortudo por poder sair voando por aí como as borboletas, mas não acho grande coisa no meu, então se ele tiver algo para mim que funcione, tanto faz em que lugar vou aparecer depois. — Ao mesmo tempo que minha voz soava provocativa, estava séria também.
— De mulher bonita e gostosa? Talvez — respondeu, erguendo um ombro e riu nasalado. — Em parte é sorte e em outras nem tanto. — Seu tom saiu mais baixo. — Apesar de te achar irritante, eu não queria achar seu corpo numa vala, . — Seu olhar estava mais sério em mim.
— Bom, então talvez devêssemos realizar seu fetiche. — Sorri, convencida, mas meu tom era de brincadeira. — Por que só em partes? — Uni minhas sobrancelhas para a mudança que ele teve. — E você não vai. Eu posso falar merda como uma louca, mas me amo e me importo comigo mesma. — Ergui um ombro e lhe dei um sorriso pequeno.
— Eu topo — respondeu sobre o fetiche e mordeu seu lábio inferior. — É um papo meio depressivo. Você não vai gostar de ouvir como eu não gosto muito de falar — disse e soltou o ar como um suspiro. — Que bom que se importa com si própria. Devemos mesmo, porque não tem ninguém aqui que se importe conosco. Bom, nem aqui e nem em lugar nenhum, no meu caso. — Riu em um tom amargo.
Meus olhos acompanharam o movimento dos seus dentes prendendo seu lábio e cheguei até suspirar, mas me forcei a olhar em seus olhos, decidindo não falar mais sobre fetiches, ou eu acabaria tendo um logo logo.
— Se você não quiser falar, tudo bem, mas eu não me importaria de ouvir — falei, sincera, dando de ombros. — Vai que sua história é pior que a minha, daí posso jogar na sua cara que você é mais fodido que eu — brinquei para não ficar um clima pesado, sorrindo divertida. — Não se ache exclusivo com isso, , porque comigo é a mesma coisa.
— Não sei se sou, e nem quero competir — brincou e riu nasalado novamente. — Mas apesar das minhas asas serem minha força, elas já foram minha fraqueza. Elas realmente nasceram de dentro de mim, rasgando minha carne e minha pele inúmeras vezes, por anos. A dor era insuportável, eu vivia sempre numa poça de sangue e pedaços das minhas costas. E eu era uma criança, não entedia porra nenhuma do que estava acontecendo comigo. Meus pais me chamaram de demônio, e foi aí que aprendi a viver somente com as asas e a dor que elas já me causaram — contou, sem olhar para mim, seus olhos estavam baixos apesar da sua voz sair casualmente.
Sabia que para ele era desconfortável contar aquilo só pelo fato que não havia provocações, deboches, sorrisos presunçosos e nada do tipo. Apenas em um tom baixo, o olhar para baixo e os ombros mais encolhidos.
— Vamos montar um clube então — falou, em tom de brincadeira sobre ele não ser exclusivo, mas o tom ainda era amargo.
— Vamos em partes, primeiro; seus pais são tão filhos da puta quanto os meus e se um dia eu encontrar eles, me lembre de dizer que você pode até ser um demônio irritante, mas é um demônio irritante gostoso — falei, quase indignada com aquela história. — Sabe aquelas pessoas otimistas que tentam animar os outros? Bom, eu não sou assim, mas, vamos ver o lado bom disso, que agora você não passa mais por isso, certo?! Agora olha para mim, sempre que uso meu poder, minutos depois parece que fui nocauteada e drogada, simplesmente apago desse planeta. Sempre foi assim e sempre vai ser. — Bufei, me fazendo de dramática para tentar fazer ele sorrir, embora essa parte sobre mim fosse verdade. — E se houver clube, exijo ser a presidente. — Pisquei o olho para ele, sorrindo divertida.
Então respirei fundo e me aproximei, tocando em seu braço com delicadeza, fazendo um carinho suave.
— Sinto muito mesmo por toda dor e merda que você ouviu de pessoas que deveriam ter te ajudado — falei, sem brincadeiras, sem deboche, sem nada, apenas minha voz sincera e baixa.
Nenhuma dor era menor que outra, nenhuma ferida era mais funda que a outra, ninguém sentia mais que ninguém. Dor era dor, feridas eram feridas e todo mundo sentia elas.
Deixei meus olhos presos em seu rosto bonito e esperei ele me olhar, porque queria que ele visse em meus tons claros que havia sinceridade em minhas palavras, até mesmo nas brincadeiras. Eu vivia em um jogo constante de escolhas, e a da vez foi essa, ser alguém que ouvia a dor de outra pessoa, sem julgar, sem provocar, sem debochar.
Ele ficou em silêncio por um momento, os olhos fixos em mim como se tentasse decifrar cada palavra que eu disse. Não era o olhar duro de sempre, mas algo mais… vulnerável. A sinceridade que carreguei parecia ter atravessado as barreiras dele de um jeito que nada mais conseguira antes.
Quando ele finalmente respirou fundo, vi sua postura relaxar, como se algo pesado tivesse sido deixado para trás, ainda que por um instante.
— Você… — começou, mas parou, passando uma das mãos pelos cabelos bagunçados. — Não sei como você consegue ser tão… — Ele suspirou, soltando uma risada curta, quase descrente. — Tão você.
Ele desviou o olhar por um momento, mas logo voltou a me encarar, e dessa vez havia algo diferente nos olhos dele. Algo que parecia genuinamente agradecido.
— Obrigado, . De verdade. Por isso. — Sua voz saiu baixa, mas carregada de algo sincero, quase raro para ele.
Antes que eu pudesse responder, ele inclinou a cabeça de leve, soltando um suspiro pesado.
— Nunca achei que você fosse capaz de deixar as implicâncias de lado. Mas você fez. E… isso importa. Mais do que eu posso admitir.
Ele ergueu uma das mãos, hesitante, e apertou meu ombro de leve, num gesto que parecia mais íntimo do que qualquer provocação que já tínhamos trocado. Então, um sorriso quase imperceptível apareceu no canto dos lábios dele.
— Só tenta não usar isso contra mim depois, ok? — Abriu um pouco o sorriso fechado.
Sorri com tudo que ouvi, um sorriso sincero e compreensivo.
— Eu sei… sou tão única. — Pisquei para ele em brincadeira, mas sem provocação e sem deboche.
Olhei para ele, vendo o quão difícil estava sendo ele se abrir e me deixar saber sua história. Um sentimento novo fez meu coração bater mais rápido, algo diferente em mim, quase como um desejo de querer fazer ele se sentir melhor.
— Achou que eu era uma filha da puta sem coração? — falei em tom baixo, com um pequeno sorriso. — Embora todos pensem que eu sou uma pessoa sem coração, eu tenho e jamais usaria algo assim contra você. — Ele precisava saber disso e falei com sinceridade.
Minha mão que ainda estava em seu braço, desceu até a sua e a segurei, apertando de leve meus dedos nos dele.
— Obrigada por dividir isso comigo — sussurrei, deixando ele ver que realmente estava falando a verdade.
Seus olhos escuros se fixaram nos meus, e, pela primeira vez, eles pareciam desarmados, como se eu tivesse conseguido atravessar aquela barreira que ele sempre mantinha. Ele apertou minha mão de volta, um gesto simples, mas cheio de significado vindo dele.
— Você me surpreende, … — murmurou, a voz rouca e baixa, carregada de algo quase indecifrável.
O canto de seus lábios se curvou em um sorriso pequeno, mas verdadeiro, diferente de qualquer sorriso sarcástico que ele já tinha me dado antes. Era um sorriso raro, e eu soube naquele instante que tinha conseguido algo que poucos, ou ninguém, havia conseguido antes: a confiança dele, mesmo que por um momento.
abaixou o olhar para nossas mãos, ainda unidas, e, com um movimento quase hesitante, passou o polegar sobre minha pele, como se quisesse gravar o momento. Então, soltou um suspiro pesado, e seus olhos voltaram a encontrar os meus.
— E eu… — ele começou, mas parou, balançando a cabeça como se as palavras fossem difíceis de sair. — Eu agradeço por isso, . Por não ser… o que todo mundo acha que você é.
Sua mão soltou a minha com lentidão, e ele deu um passo para trás, a barreira entre nós voltando aos poucos, mas não completamente. Ele me olhou mais uma vez, e havia algo diferente nele, algo mais leve, como se aquele peso que ele carregava tivesse diminuído um pouco.
— Você tem um coração, afinal… — murmurou, quase como uma conclusão para si mesmo. — Bom, o papo ficou pesado. Mas amanhã eu te chamo para treinar comigo. Quero ver mesmo como são seus socos — brincou, piscando o olho para mim.
Momentos confortáveis e sem caos, eram tão raros quanto ver aquele sorriso verdadeiro em seus lábios, e me permitir aproveitar, era algo tão novo quanto ele dividir sua história comigo.
Embora eu sempre demonstrasse coragem, não conseguiria ter falado tão abertamente como ele fez. A verdadeira era uma pessoa que ninguém conhecia.
— Sim, eu tenho, mas não conte a ninguém, é melhor todos continuarem achando que não tenho um. — Como ele recuou um passo, fiz o mesmo, voltando para minha postura de sempre. — Só não vai chorar se você apanhar — provoquei, e me abaixei para pegar minha garrafa de água.
soltou um riso baixo, cruzando os braços enquanto me observava.
— Não vou chorar, , mas se for desmaiar de novo, pelo menos tenta cair com estilo — disse, o sorriso provocador dançando no canto dos lábios.
Ele deu um passo para trás, balançando a cabeça com aquela expressão típica de desafio.
— E no treino amanhã, não se ilude. Não quero ter que carregar você depois.
Com isso, ele virou as costas, deixando no ar o rastro de sua provocação, mas sem o peso de antes. Um mais leve, quase… tranquilo.
— Seu merda! — gritei pela provocação. — Sabia que ele iria usar a minha fraqueza para debochar de mim — resmunguei para mim mesma, revirando meus olhos para o quão irritante era.
Mesmo eu voltando a minha postura “pronta para uma briga” como ele sempre falava, ele era o único que já teve um pouco da verdadeira , e isso era um pouco perturbador, pois quando guardei ela no meu interior, foi com a intenção de ninguém nunca a conhecer, porque quando ela existiu, ela foi maltratada e desprezada por aqueles que deveriam amá-la.
Juntei minhas coisas, ainda sentindo o peso que ele dividiu comigo, eu me afastei, andando para fora daquela sala, ainda ouvindo suas provocações irritantes em minha cabeça.
iria sentir o peso da minha mão e carregaria as marcas dela em seu corpo, como uma bela lembrança minha.
Ela. .
A imagem dela na festa não saía da minha cabeça. O jeito como ela dançava, como se fosse dona de todo o maldito lugar. Seus movimentos eram lentos, provocativos, mas carregados de algo que ia além da sensualidade. Cada rebolado parecia um convite, cada toque dela era uma tortura que eu não sabia se queria ou conseguia resistir.
Eu podia sentir o calor do corpo dela contra o meu, como se ainda estivesse lá. Minha mão ainda lembrava da maciez da sua pele, dos contornos da sua cintura e da forma como ela parecia se encaixar perfeitamente nos meus braços, como se tivesse sido feita para aquilo. O cheiro dela, um misto de algo doce e perigoso, ainda parecia impregnado em mim, como uma marca invisível que não saía por mais que eu tentasse ignorar.
A dança. A música. A maneira como ela inclinou o pescoço, expondo aquela curva perfeita como se quisesse me testar. Eu tinha tocado, provado, e, porra, aquilo estava me consumindo agora. Cada movimento dela, cada provocação que ela fazia, estava gravado na minha mente, e eu não conseguia escapar.
Suspirei pesado, fechando os olhos por um momento, tentando me concentrar em qualquer outra coisa, mas era inútil.
O jeito como ela me olhou por cima do ombro, os lábios dela ligeiramente separados, as pupilas dilatadas de puro desejo... Droga, . Por que você tinha que ser tão impossível de ignorar?
Eu sabia que isso era perigoso. Ela era encrenca, sempre foi. Mas, naquela noite, ela não parecia só encrenca. Parecia algo que eu queria, mesmo sabendo que não deveria. Meu peito apertou com a lembrança do toque dela, dos seus dedos puxando meus cabelos, me guiando, como se ela soubesse exatamente o que estava fazendo comigo. Eu me mexi na cama, impaciente, tentando afastar as memórias. Mas tudo o que consegui foi me afundar ainda mais nelas. era fogo, e, por mais que eu tentasse, estava claro que eu já tinha sido queimado.
Virei o rosto para o lado, encarando o escuro do quarto. O som da respiração lenta e ritmada dela vinha debaixo de mim, no beliche de baixo. Cada vez que eu ouvia, era como se a tensão no meu corpo aumentasse, me puxando para um lugar que eu sabia que deveria evitar.
estava logo ali, a poucos passos de distância, e, por mais que eu tentasse me convencer de que precisava me controlar, tudo o que conseguia pensar era em como seria descer até ela. Minha mente continuava reproduzindo cada detalhe da festa — o calor do corpo dela, o jeito como ela se movia contra mim, os dedos dela puxando meu cabelo, o cheiro doce que parecia me intoxicar. E agora, ela estava aqui, tão perto, tão acessível...
Eu podia imaginá-la deitada, provavelmente usando aquela expressão relaxada e vulnerável que ela jamais mostraria acordada. Meu peito apertou com o pensamento e, por um instante, eu quase senti o impulso tomar conta. Tudo em mim gritava para ignorar a razão e descer daquela cama.
Sentir de novo o calor da sua pele, o toque dela, o som da respiração dela tão perto que se misturaria com a minha. Fechei os olhos com força, tentando me forçar a afastar a ideia, mas era impossível. O cheiro dela ainda estava lá, como se tivesse ficado impregnado em mim. Minhas mãos ainda lembravam a sensação da sua cintura, da curva do seu corpo contra o meu. E tudo isso só tornava a distância entre nós mais insuportável.
Minhas asas se agitaram levemente às minhas costas, como se respondessem ao turbilhão dentro de mim. Eu me mexi na cama, inquieto, os lençóis parecendo sufocar em vez de me acalmar. Meu olhar voltou para o teto, mas minha mente estava presa naquela imagem dela, naquele momento na festa, e na proximidade dela agora. Tudo o que eu queria era descer. Só descer e...
Soltei um suspiro pesado, esfregando o rosto com as mãos. Droga, .
Por que você tinha que estar logo aqui, me deixando nesse estado? Ela era um problema, e eu sabia disso melhor do que ninguém. Mas, naquele instante, o problema era exatamente o que eu mais queria.
O quarto estava ficando pequeno demais, sufocante. Cada respiração parecia mais pesada, cada segundo de silêncio era um tormento que eu não sabia como aguentar. estava logo abaixo de mim e a distância curta entre nós parecia tão grande quanto insuportável. Eu sabia que não podia descer. Sabia que precisava me controlar. Mas o controle era a última coisa que eu tinha agora.
Eu me sentei, respirando fundo, tentando acalmar o tumulto dentro de mim. As sombras ao meu redor pareciam se mover com inquietação, respondendo ao que eu sentia. Era demais. Tudo isso era demais. Eu precisava sair dali antes que fizesse algo que não poderia desfazer.
Com movimentos rápidos, desci da cama, já decidido a deixar o quarto e me afastar dela. Mas, quando meus pés tocaram o chão, olhei para frente e meu corpo congelou. estava acordada. Ela estava deitada, mas seus olhos claros estavam fixos em mim, brilhando na penumbra do quarto. Seu olhar não era provocativo como sempre, mas carregado de algo que me prendeu. O ar ficou mais pesado, a tensão entre nós quase palpável. Minha respiração, já pesada, tornou-se audível, enquanto meu olhar permaneceu no dela, incapaz de desviar.
Por um instante, o mundo pareceu parar. O ar entre nós ficou pesado, denso, carregado de algo que não precisava de palavras para ser entendido. O jeito como ela me olhava, com os olhos claros presos nos meus, era diferente de qualquer outra vez. Não havia deboche, nem provocação. Apenas aquele olhar intenso, como se ela estivesse enxergando mais do que eu queria mostrar.
Eu me senti preso ali, incapaz de desviar. Cada detalhe dela parecia amplificado na penumbra do quarto — os lábios ligeiramente separados, o movimento sutil da sua respiração, a forma como a luz fraca desenhava as curvas de seu rosto. Eu podia ouvir minha própria respiração ecoando no silêncio, pesada, descompassada, enquanto o calor no meu peito crescia, alimentado pela proximidade dela.
Minha mente gritava para me mover, para quebrar o momento, mas meu corpo parecia enraizado no lugar. Eu podia sentir o magnetismo entre nós, como se algo invisível estivesse me puxando para mais perto. Era quase impossível ignorar. A ideia de me inclinar, de diminuir o espaço entre nós, de sentir o gosto dela… Era tudo o que eu queria naquele instante.
As sombras no quarto pareciam se dobrar ao nosso redor, como se refletissem a tensão que nos envolvia. O silêncio entre nós não era vazio, mas carregado de algo pulsante, algo que me fazia esquecer completamente de onde estávamos, de quem éramos. Só existia ela, olhando para mim com uma intensidade que fazia meu coração disparar como nunca antes.
Os olhos dela baixaram por um segundo, passando pelo meu rosto, pelos meus lábios, antes de voltarem para os meus. Foi um gesto pequeno, quase imperceptível, mas que me fez apertar os punhos ao lado do corpo, tentando segurar o desejo insuportável de me inclinar e acabar com aquela distância.
Tudo parecia nos levar para aquele momento. A tensão era quase tangível, como se o próximo movimento fosse inevitável, como se tudo tivesse nos levado até ali. E, por um instante, eu quase cedi. Mas então, a realidade me atingiu. O que isso significaria? O que viria depois? O fogo que estava queimando entre nós poderia consumir tudo, e, por mais que eu quisesse, sabia que precisava parar.
Eu podia ver o reflexo da luz tênue nos seus lábios, ainda entreabertos, como se ela também estivesse tentando respirar naquele momento sufocante. Meu peito subia e descia com força, e tudo o que eu queria era me inclinar, atravessar o pequeno espaço entre nós, e beijá-la com toda a força, com toda a vontade que eu vinha segurando desde a maldita festa.
Mas não fiz.
Apertei os punhos ao lado do corpo, desviando o olhar com dificuldade, como se isso fosse o suficiente para me tirar daquele transe. Não era. Cada fibra do meu ser queria voltar para ela, queria ceder, mas, em vez disso, virei as costas e saí do quarto, quase tropeçando na própria pressa.
Quando cheguei ao banheiro, o silêncio do corredor foi substituído pelo som da água fria batendo contra o piso. Eu entrei direto no chuveiro, ainda vestido, e deixei a água gelada escorrer pelo meu corpo, na tentativa desesperada de apagar o calor que tinha deixado em mim. Meu coração ainda martelava no peito, e cada imagem dela, cada olhar, cada respiração ofegante, ainda estava gravada na minha mente.
Era impossível fugir dela. estava em todo lugar, como um fogo que queimava mesmo quando eu tentava apagá-lo. E, por mais que a água gelada tentasse me acalmar, eu sabia que ela já tinha deixado uma marca em mim que não ia desaparecer tão cedo.
No banheiro, a água gelada caía com força sobre mim, deslizando pela minha pele, como se pudesse apagar o calor que ainda queimava em meu corpo. Apoiei as mãos na parede fria, deixando a testa encostar no azulejo, enquanto minha respiração pesada ecoava no espaço vazio. Mas fechar os olhos só me puxou de volta para ela.
A imagem de veio com força. Não era só dela dançando, ou do toque provocativo dos seus quadris contra os meus. Não. Era dela no treinamento, com aquele olhar sincero e aquela voz sem nenhuma malícia. Eu podia sentir de novo o calor da sua mão sobre a minha, apertando de leve, num gesto que dizia mais do que qualquer palavra.
Ela me ouviu. Ela viu algo em mim que ninguém mais parecia enxergar. E, por algum motivo, aquilo tinha ficado comigo de um jeito que eu não esperava. A forma como ela baixou as defesas, deixando de lado o sarcasmo e as provocações para me oferecer algo tão simples, mas tão raro: empatia.
Um sorriso discreto surgiu nos meus lábios enquanto a água continuava caindo. Era irônico. , a mulher que passava a maior parte do tempo me irritando, sendo a única que realmente parecia… entender. E, por mais que isso fosse um alívio, também era aterrorizante. Porque, droga, se ela conseguia atravessar minhas barreiras, o que mais ela seria capaz de fazer?
Passei as mãos pelo rosto, ainda sorrindo enquanto deixava a lembrança daquele momento comigo. A ruiva podia ser caos, fogo, encrenca. Mas naquele dia, ela tinha mostrado que também era algo mais. Algo que eu não sabia como lidar, mas que, por algum motivo, não conseguia afastar.
A água continuava caindo, mas, mesmo ali, sozinho, ela ainda estava presente. E eu sabia que ela não sairia da minha mente tão cedo.
Quando finalmente voltei para o quarto naquela noite, a tensão ainda pairava no ar, mas a exaustão parecia finalmente me consumir. Entrei com cuidado, sem olhar para o beliche de baixo, sem tentar descobrir se ainda estava acordada. Não queria saber. Ou, talvez, tivesse medo de saber.
Me joguei na cama, o corpo pesado e o coração ainda um pouco acelerado, mas, ao menos, o cansaço me venceu. O sono veio rápido, me arrastando para longe de tudo — dela, da tensão, das sombras que pareciam estar cada vez mais presentes.
Na manhã seguinte, acordei antes de qualquer movimento no quarto. O som tranquilo das respirações de e Nora preenchia o espaço, mas eu não me permiti pensar em nada. Levantei rápido, vestindo uma roupa simples e saindo antes que alguma delas abrisse os olhos.
O ar fresco do corredor foi uma bem-vinda mudança depois do sufoco da noite anterior. Caminhei até o refeitório quase vazio, tomei um café rápido, sem dizer nada a ninguém, e segui direto para o ringue de treino.
O espaço estava deserto, as luzes frias ainda parecendo recém-acesas, o cheiro de couro e metal preenchendo o ambiente. Era perfeito. Eu precisava de movimento, precisava descarregar a energia acumulada da noite passada e clarear a mente antes que ela se enchesse novamente das lembranças que insistiam em voltar.
Tirei a jaqueta e comecei o aquecimento, as sombras ao meu redor se movendo de leve, quase como uma extensão dos meus próprios pensamentos. O ringue era o único lugar onde eu sentia que podia controlar tudo, onde o caos dentro de mim finalmente encontrava um propósito.
Com os punhos erguidos, avancei contra o saco de pancadas com força, cada golpe reverberando pelo espaço vazio. Cada soco parecia uma tentativa de afastar o que estava preso em minha mente: o toque dela, o olhar, o cheiro. estava em todos os lugares, e eu precisava encontrar uma maneira de deixá-la para trás.
Mas, com cada golpe, eu sabia que não seria tão fácil. Porque, por mais que eu tentasse lutar contra, parte de mim não queria esquecê-la. Parte de mim queria mais.
Enquanto acertava incansáveis vezes o saco de pancadas, senti uma presença atrás de mim. Não precisei olhar para saber quem era. Havia algo na energia dela, na forma como sua presença preenchia o ambiente, que era inconfundível.
— Achei que você tinha esquecido — murmurei, sem interromper os movimentos. Meu tom era mais para mim mesmo do que para ela, mas, no fundo, eu sabia que ela ouviria.
Ela não respondeu de imediato. O som de seus passos leves se aproximando era o suficiente para me avisar que ela estava ali, mas ainda mantinha a distância. Continuei socando, tentando ignorar o jeito que o ambiente parecia mudar sempre que ela estava por perto.
Finalmente, parei e me virei para encará-la. Lá estava ela, parada na entrada do ringue, com aquele olhar firme e seguro que sempre carregava. Mas, dessa vez, havia algo mais em seus olhos — algo que eu não sabia se era a lembrança da noite anterior ou apenas o jeito dela de sempre me desafiar.
Dei um passo para o lado, ainda a observando enquanto ela se aproximava mais. Cada movimento dela parecia carregado de intenção, como se estivesse planejando algo, mas, ao mesmo tempo, completamente natural. Era esse maldito equilíbrio que me irritava e me atraía ao mesmo tempo.
— Tá pronta, ? — perguntei, cruzando os braços e inclinando a cabeça, deixando que o pequeno sorriso de canto surgisse nos meus lábios.
Assisti seu sorriso provocador se formar naqueles lábios vermelhos, que desde que encontrei aquele estúdio, ela havia pegado o batom para ela. Seu olhar desceu por ela toda, como se estivesse vendo se estava pronta e não pude deixar de notar em como ela ficava provocativa usando aquele top preto com shortinho curto, revelando tanto das suas coxas.
Então seu olhar se ergueu e vi chamas em suas írises claras, aquele jeito desafiador dela estampado em seu rosto. Ela parou a centímetros de mim, e seu cheiro me alcançou.
— Estou mais que pronta, — sussurrou, erguendo seu nariz arrebitado. — Espero que não esteja imaginando meu rosto enquanto estava socando o saco. — Fez um biquinho triste, mas seu tom era puro deboche.
Seus olhos ficaram presos aos meus, até ela quebrar o contato, jogando seus cabelos longos e ruivos, para então prendê-los em um rabo de cavalo.
— Acho que será a primeira vez que vamos fazer algo do tipo, né? — perguntou, andando de costas para mim, indo até a garrafa de água que ela trouxe. — Bom, fizemos outras coisas pela primeira vez também, desde que chegamos aqui. — Ela bebeu um gole de água e deu de ombros, indo para o meio do ringue e me esperando.
Soltei uma risada baixa, deixando meu olhar correr por ela, demorando nos detalhes provocativos que fazia questão de exibir.
— Entrar na minha cabeça? Você nem precisa se esforçar tanto, — murmurei, minha voz baixa e carregada de ironia, enquanto dava passos lentos em direção a ela.
Parei perto, tão perto que podia sentir seu cheiro doce e o calor do seu corpo. Inclinei-me levemente, minha respiração quase se misturando com a dela, enquanto o sorriso no canto dos meus lábios crescia.
— Espero que toda essa confiança que você exibe tenha fundamento — sussurrei, o tom desafiador e cheio de provocação.
Dei um passo para trás, ajustando as luvas, sem tirar os olhos dela.
— Vamos lá, . Mostra que você é mais do que só boca.
O sorriso no meu rosto era puro deboche, mas a tensão no ar era inconfundível. Isso seria mais do que um treino, e nós dois sabíamos disso.
— Você não acreditando em mim, me magoa. — Ela fingiu uma mágoa que não combinava com sua cara de deboche. — Pode ter certeza que sou bem mais…
ajustou suas luvas também, tensionando sua cabeça para um lado e para o outro, mexendo seus ombros, como se estivesse se preparando para uma grande luta. Ela lambeu seus lábios, passando sua língua com lentidão por aquele tom vermelho que deixava sua boca mais convidativa.
A ruiva deu dois pequenos passos para a direita, seus olhos atentos em mim. Aquela postura que ela tinha quando estava pronta para atacar, dominava ela inteira, como se fizesse parte dela. avançou em minha direção, girando seu corpo magro e chutando na altura do meu tórax, mas fui rápido e consegui bloquear com meu braço direito. Ela se arrumou rápido, voltando para sua pose de ataque, sorrindo abertamente para mim, enquanto me olhava nos olhos.
— Bom bloqueio, … — sussurrou baixo, seus olhos intensos presos nos meus.
Eu sorri de canto, ajustando minha postura, com os olhos fixos nela.
sempre foi imprevisível, mas era isso que tornava tudo mais interessante. Seu sorriso provocador apenas alimentava o fogo que já queimava entre nós, transformando o treino em um jogo perigoso e intenso.
— Achei que fosse ser mais difícil, — provoquei, levantando os punhos, meus movimentos calculados, esperando o próximo ataque dela.
E ela não demorou. A ruiva avançou novamente, os movimentos rápidos e precisos, mas eu estava pronto. Ela tentou um soco direto no meu rosto, e eu desviei para o lado, sentindo o vento passar perto. Aproveitei a abertura para avançar, fechando a distância entre nós.
Segurei seu pulso no ar, impedindo o próximo golpe, e usei meu peso para empurrá-la um pouco para trás, mas girou o corpo, soltando-se com uma rapidez impressionante. Antes que eu pudesse reagir, senti seu pé chutando baixo, mirando minha perna.
Fui forçado a dar um passo para trás, mas não perdi a postura. Meu sorriso se alargou enquanto nossas respirações já começavam a acelerar.
— Não tá nada mal... — murmurei, meu tom provocador enquanto girava meu corpo, lançando um chute lateral que ela desviou com agilidade.
voltou para a posição de ataque, a determinação estampada no rosto. Ela avançou novamente, e dessa vez nossos movimentos ficaram mais rápidos, os golpes sendo trocados como se fosse uma dança sincronizada.
Ela tentou me acertar com uma joelhada rápida, mas consegui segurar sua perna antes que o golpe se completasse. Por um segundo, ficamos ali, nossos corpos próximos, a respiração pesada se misturando, e nossos olhares fixos um no outro.
Eu segurei seu olhar, deixando um sorriso lento e desafiador surgir.
— Vai ter que fazer melhor do que isso, .
Seu sorriso debochado brilhou em seu rosto, e meus olhos acompanharam quando ela recuou um passo, parecendo analisar seu próximo golpe. Seu olhar desceu por meu corpo, ao mesmo tempo que ela trocou seu peso no pé de apoio, como se fosse uma distração para que eu não notasse. suspirou, se fingindo de cansada, mas seus olhos estavam tão atentos que me diziam o oposto do que ela queria que eu acreditasse.
Quando eu menos esperei, ela veio para cima, rápida e ágil, pronta para me mostrar o que tanto se passavam em sua mente. Ela se preparou para o mesmo movimento que fez no início da luta, girando seu corpo, e meu braço se preparou para o bloqueio, mas então ela se abaixou e me passou uma rasteira, me pegando desprevenido com esse golpe e com isso me desequilibrei. aproveitou isso e veio com tudo, tentando chutar meu peito, mas segurei sua perna e a puxei para mim, levando nós dois ao chão.
Caímos no chão com um impacto pesado, ela embaixo de mim, e por um momento, o mundo pareceu parar. Minha mão ainda segurava sua perna, mas o calor do corpo dela contra o meu era o que realmente me fazia perder o foco. Sua respiração estava pesada, quase sincronizada com a minha, e nossos rostos estavam tão próximos que eu pude sentir o calor da sua pele.
Eu ri baixo, o som reverberando entre nós enquanto ela me olhava com aquele brilho de desafio nos olhos, mesmo na posição de desvantagem.
— Nada mal, .
Minha voz saiu rouca, e, por um segundo, deixei meu olhar correr pelo rosto dela, pelos lábios vermelhos que ainda carregavam aquele sorriso provocador, antes de descer pela curva da sua mandíbula.
Sem dar chance para ela reagir, soltei sua perna e prendi seus pulsos acima da cabeça com uma mão, enquanto a outra se apoiava ao lado do corpo dela para estabilizar meu peso.
— Tá pronta pra admitir que perdeu? — murmurei, minha respiração se misturando com a dela, enquanto meu sorriso aumentava, sabendo que a provocação só a deixaria mais determinada a tentar virar o jogo.
Mas, no fundo, eu sabia que essa luta não era só no ringue. Cada toque, cada movimento, cada olhar carregava algo mais profundo, algo que nenhum de nós parecia disposto a nomear. Ainda assim, naquele momento, com ela sob mim, era impossível ignorar o fogo que queimava entre nós.
deixou seus olhos passarem pelo meu rosto, erguendo um pouco o seu, deixando nossas respirações se misturarem. Ela não se mexeu, como se quisesse que eu acreditasse que ela estava mesmo se rendendo e admitindo que eu havia ganhado.
— Sim… estou pronta… — sussurrou, seus lábios grossos tão perto dos meus, seu corpo tão quente colado ao meu.
Com um movimento suave e lento, ela abriu suas pernas, deixando que meu corpo se encaixasse no dela. Suas pernas enlaçaram minha cintura, e a cada movimento, seus olhos brilhavam mais. Quando senti suas pernas se prenderem com firmeza em minha cintura, ela puxou meu corpo com suas pernas para mais perto, e ao mesmo tempo impulsionou seu corpo para cima, conseguindo nos virar e ficando por cima de mim, sentada em meu quadril.
As palmas de suas mãos se apoiaram em meu peito e ela abaixou seu rosto novamente, com aquele sorriso convencido nos lábios.
— Mas não será dessa vez, — seu sussurro carregado de provocação, ecoou naquele silêncio intenso que era quebrado apenas pelo som desregulado das nossas respirações.
Minha respiração estava pesada enquanto olhava para ela, agora sentada no meu quadril, aquele maldito sorriso convencido nos lábios. sempre soube como provocar, mas dessa vez, ela realmente havia se superado. Meu peito subia e descia sob suas mãos, mas não era cansaço. Era pura tensão, o tipo que ela parecia adorar despertar em mim.
Eu não perdi tempo. Minhas mãos subiram rápido, agarrando sua cintura com firmeza, sentindo a pele quente sob o tecido. Com um movimento rápido e calculado, girei meu corpo, usando o peso e a força para nos virar novamente. Dessa vez, eu estava por cima, prendendo-a contra o chão com minhas mãos firmes em sua cintura.
— Boa tentativa, — sussurrei, minha voz rouca enquanto abaixava meu rosto até ficar próximo ao dela. — Mas você deveria saber que eu não sou fácil de derrubar.
Meus olhos desceram para os dela, as írises claras dela ainda brilhando com aquele desafio que parecia não desaparecer nunca. Nossas respirações se misturavam, e a proximidade era quase insuportável. Eu podia sentir o calor dela contra mim, cada curva do seu corpo alinhada ao meu.
Minhas mãos deslizaram lentamente pela sua cintura, pressionando levemente os quadris dela contra o chão, apenas para reforçar o controle que eu sabia que ela odiava perder. Meu rosto estava perto o suficiente para que ela sentisse minha respiração, e por um segundo, deixei meu olhar cair para os lábios dela.
— Você adora brincar com fogo, não é? — murmurei, sem desviar o olhar.
— Não só de brincar, mas de me queimar também — sussurrou, e sua língua deslizou entre seus lábios. — Você tem medo do fogo, Ash…? — O jeito que falou meu nome, com um tom arrastado e cheio daquela intensidade que parecia ser a única coisa ao nosso redor.
Suas mãos livres seguraram em minha nuca e ela fez um carinho suave ali, deixando seus olhos presos em meus lábios. Seu quadril se mexeu embaixo do meu, buscando por mais contato dos nossos corpos, e seu peito subia e descia com rapidez. parecia estar tão entregue naquele momento, seus olhos ainda presos em meus lábios, aquele olhar que parecia carregar um desejo desumano.
Mas então, ela puxou minha cabeça para baixo e arrastou seu corpo debaixo do meu, empurrando meu quadril com seus pés, deixando uma distância entre nós. Ela rolou no chão e se levantou, com lentidão, empinando sua bunda em provocação.
— Você precisa ficar mais atento, . A distração deixa a gente em desvantagem. — Piscou o olho e estendeu sua mão para mim. — Não seja um mau perdedor. — Sorriu provocativa.
Soltei uma risada curta e avancei rápido, pegando-a de surpresa. Antes que pudesse reagir, girei meu corpo e a derrubei com um golpe preciso, usando seu próprio equilíbrio contra ela. Seu corpo caiu no chão com um impacto surdo, mas antes que ela pudesse se recuperar, eu já estava por cima novamente, prendendo-a contra o chão com uma mão firme em sua cintura e a outra apoiada ao lado de sua cabeça.
— Tá vendo, ? — murmurei, minha voz baixa e carregada de provocação enquanto meus olhos encontravam os dela. — Distração é exatamente o que te deixa em desvantagem.
Me inclinei levemente, o suficiente para sentir sua respiração quente contra a minha pele, mas sem quebrar o espaço tenso entre nós. Meu olhar desceu por seu rosto, capturando o brilho teimoso em seus olhos e aquele maldito sorriso que nunca desaparecia.
— Só que, diferente de você, eu não preciso apelar — continuei, o tom provocador enquanto um sorriso lento e satisfeito se formava no canto dos meus lábios.
Mas, antes que ela pudesse responder ou tentar algo, me afastei de repente, deixando-a no chão e me levantando. Passei a mão pelos cabelos enquanto a olhava de cima, ainda sorrindo, sabendo que isso só iria irritá-la mais.
Nada parecia abalar a ruiva. riu e deitou seu corpo de lado, apoiando sua cabeça em sua mão, enquanto a outra brincava de subir e descer pela lateral do seu corpo.
— Tem distrações que valem a pena, — disse, encarando meus olhos e mordeu seu lábio inferior. — Eu gosto de apelar… parece deixar tudo mais… interessante.
Ela se virou de bruços e se ergueu lentamente do chão, como se fosse parte de uma coreografia de dança, tendo total controle do que fazia. Ela se virou de frente, e ajeitou seus seios naquele top.
— Foi… divertido, . — Ela parou a centímetros de mim, tão perto que sentia o calor do seu corpo. — Quando quiser repetir a brincadeira, ou fazer mais que só provocações — seu rosto chegou mais perto, ela ficando na ponta dos pés para se aproximar mais — sabe onde me encontrar… Mas só se estiver disposto a se queimar.
E assim como ela se aproximou, ela se afastou, indo até sua garrafa de água e bebendo bons goles.
— Mais do que só provocações? Tipo o que, ? — quis saber, cruzando meus braços e rindo baixo, descendo meu olhar por ela toda. — Nós dois sabemos que nós dois temos disposições, mas… há coisas que precisam mais do que só disposição.
Desci do ringue, respirando fundo, tirando minha regata e a usando para secar meu suor.
— Use sua imaginação, seria decepcionante se você não conseguisse imaginar além das provocações. — Seu tom estava mais perto. Ela também tinha descido do ringue. — Faça uma lista, e veremos se concordo ou não com você. — Seu tom saiu com sinceridade e ela passou por mim, indo em direção a porta. — Mas não faça dramas, . Algo mudou, e eu sei perfeitamente quando mudou e o que mudou, mas acho que você não está conseguindo acompanhar. — Ela se virou e jogou um beijo no ar para mim, voltando em seguida a ficar de costas e saindo da sala.
Fiquei parado, observando-a enquanto ela saía, a última provocação dela ainda pairando no ar como uma chama que eu não conseguia apagar. Ela sabia o que estava fazendo, sempre soube. era como uma tempestade, deixando caos e perguntas por onde passava. E agora, ela tinha me deixado sozinho no ringue, com o eco de suas palavras reverberando na minha mente.
Soltei uma risada baixa, mas havia algo nela que não era exatamente humor. Passei a mão pelos cabelos, tentando organizar os pensamentos que ela havia bagunçado com tanta facilidade. Algo tinha mudado, sim, e, droga, ela estava certa. Eu sabia exatamente quando isso aconteceu. Mas admitir isso, para mim ou para ela, era outra história.
Respirei fundo, ainda olhando para a porta por onde ela tinha saído, como se esperasse que ela voltasse para dizer algo mais. Mas o silêncio na sala apenas confirmou que eu estava sozinho. Ajustei minhas luvas, deixando minhas mãos se fecharem em punhos firmes.
— Acompanhar você, ? — sussurrei para mim mesmo, com um sorriso no canto dos lábios. — Pode apostar que eu vou.
Com um último olhar para o ringue, saí da sala, sentindo que a luta entre nós estava longe de terminar. Se ela achava que tinha ganho o jogo, estava muito enganada. Porque, quando se trata de , a única certeza é que eu nunca vou facilitar para ela.
Sempre foi perigoso, mas não quando se joga com a pessoa certa, pelo contrário, o perigo parece ser fundamental e deixa tudo com um toque de quero mais.
A voz do instrutor parecia tão distante, como se ele estivesse a uma distância impossível de ouvi-lo e, não, parado na minha frente. Eu deveria estar prestando atenção, me concentrando nas instruções daquele novo desafio, mas meus olhos estavam nele. .
Ele estava parado a uns bons passos de distância, irritantemente bonito em sua posse tão imponente, olhando para o instrutor com tanta atenção, que tive inveja daquele homem ter os olhos escuros dele para si. Tudo que envolvia era insuportável, desagradável, irritante e muito, muito gostoso.
Ele era a porra de um irritante presunçoso e gostoso, que parecia ter se prendido em minha mente, igual a tinta de tatuagens na pele. Não dava para remover e nem queria, porque igual uma tatuagem, a gente deixava ser permanente porque queria, ah, e eu queria ter em minha mente. A imaginação era deliberante e intrigante, ao mesmo tempo, suja. Mas eu queria que fosse assim.
Meus olhos foram para suas asas, que pareciam estar mais atentas que ele naquela missão, coisa que eu também deveria estar, mas elas eram graciosas e não pude deixar de pensar nelas cobrindo meu corpo, sem nenhuma peça de roupa entre nós. Como deveria ser o toque suave que só as penas tinham ao tocar minha pele…
A nossa conversa após aquele treino, parecia ter sido a séculos, quase que em outra vida. Agora era um novo jogo e não era esse que tínhamos que sobreviver, era algo mais intenso, desejoso, provocativo, delirante e sufocante.
— Vou separar os grupos — o homem na minha frente falou do meu lado, tocando em meu ombro.
Meus olhos foram para onde estava a sua mão, e sem esperar ele tirar ela dali, eu mesma tirei, olhando com irritação para ele. Com um ar de superioridade, ele se afastou e começou a chamar as pessoas para formarem o tal grupo.
De propósito, ele deixou meu nome por último, e fui colocada no grupo do , o que me fez revirar os olhos quando vi o sorriso dele. Aquela vontade de socar a cara dele parecia crescer cada vez mais.
Como não tinha prestado atenção, apenas segui meu grupo por uma porta, entrando em um lugar que parecia estar cheio de contêineres, em um tipo de armazém abandonado. As paredes pareciam mais altas que o normal e a escuridão como sempre, fazia parte do cenário.
As sombras tremeluziam ao nosso redor, como se estivesse apenas esperando qualquer passo nosso para então se manifestarem de fato. A tensão estava no ar, se misturando com o peso de um novo teste, onde sabíamos que alguns não voltariam para suas camas mais tarde.
Era confuso, mas ao mesmo tempo parecia ser tão certo, como se tivéssemos nascidos para estar ali, fazer os testes e conseguir um lugar nos Filhos do Crepúsculo.
Todos pareciam saber o que fazer, e quando eles começaram a arrumar armas, encarei aquela cena confusa.
Por que precisaríamos de armas, se tínhamos poderes?
Me posicionei ao lado da maioria e comecei a preparar uma arma para mim, ouvindo os comentários do meu grupo. Era um desafio de estratégia. Quatro grupos iriam participar por vez, com um tempo limitado para o desafio e ao final do tempo, os grupos que tivessem vivos saiam vitoriosos e assim, começaria outra rodada para novos grupos.
estava mais afastado dos outros quatro, concentrado em arrumar suas armas e vi como ele estava mais sério que o normal, e até podia imaginar o que se passava pela cabeça dele. deveria estar odiando essa ideia de termos que, involuntariamente, matarmos uns aos outros. Mas agora eu precisava me concentrar em mim e deixar todo meu tesão que sentia por aquele homem de asas negras de lado, focar minha mente no que eu precisava fazer. Eu era uma mulher com um tesão fodido no rapaz mais irritante que já conheci, mas também, continuava sendo a mesma mulher que veio para mostrar que era capaz de estar fazendo parte de algo maior.
A escuridão à nossa volta parecia um mistério, esse armazém abandonado se tornava o cenário de um intenso desafio. A escuridão era quase palpável, com apenas algumas luzes fracas piscando quase inexistente, criando sombras que dançavam entre os contêineres empilhados. O cheiro de metal e umidade permeava o ar, enquanto os quatro grupos de seis pessoas se preparavam para a batalha.
Cada grupo, com suas próprias táticas e estilos, se posicionava estrategicamente entre os contêineres. De onde eu estava conseguia ver todos os grupos. Troquei um olhar rápido com , sentindo a tensão que nos envolvia, mas voltei a analisar os grupos.
O primeiro grupo parecia ser ágil e furtivo, movendo-se como sombras, utilizando a escuridão a seu favor. O segundo, mais robusto e determinado, estavam se organizando em uma formação defensiva, prontos para enfrentar qualquer ataque. O terceiro grupo estava mais focado em suas armas, verificava seus equipamentos, prontos para disparar a qualquer momento. E o quarto, o nosso grupo, parecia sermos um time de estrategistas, observava atentamente, planejando cada movimento. Bom, eu estava planejando o meu ataque e tenho certeza que meus colegas também estavam, pois seus olhos pareciam tão atentos quanto os meus.
Enquanto nosso grupo começava a se mover pelos contêineres, , mais afastado, ergueu a mão de forma discreta, sinalizando para que parássemos. Ele olhou ao redor, avaliando o ambiente com aquela expressão séria que raramente abandonava seu rosto quando estava focado. Então, ele se virou levemente, o suficiente para que todos pudessem ouvi-lo, e falou com firmeza, mas sem elevar o tom.
— Precisamos dividir e isolar. Dois avançam pelo flanco esquerdo, dois pelo direito, e os outros dois seguram o centro. A ideia é cercar os inimigos, limitar os movimentos deles. E fiquem atentos — ele pausou, os olhos escuros passando por cada um de nós —, sem chamar atenção desnecessária.
O grupo murmurou em concordância, já começando a se posicionar, mas senti uma irritação crescer dentro de mim. Ele estava se colocando como líder, como se tivesse o controle de tudo. Era irritante, mas, droga, a estratégia fazia sentido.
Eu cerrei os dentes, ajustando minha arma e me posicionando sem questionar, mesmo que cada fibra do meu corpo quisesse retrucar. Ele era presunçoso, achava que todo mundo devia seguir suas ideias, mas, no fundo, sabia o que estava fazendo.
deu uma última olhada ao redor antes de sinalizar para avançarmos. Sua confiança era irritante, mas, enquanto o seguíamos para o meio daquele caos, eu sabia que o plano dele era a melhor chance que tínhamos. Mesmo que ele adorasse bancar o dono da razão.
Um som de buzina ecoou cortando o silêncio, indicando que o desafio havia começado, e a tensão no ar era palpável. Os primeiros tiros ecoaram, iluminando brevemente a escuridão com flashes de luz. Os participantes se moviam rapidamente, utilizando os contêineres como cobertura, enquanto gritos e ordens se misturavam ao som dos disparos. A estratégia era crucial; cada grupo tentava desestabilizar os outros, buscando alianças temporárias e traições inesperadas.
Meus passos foram rápidos quando me esgueirei pela lateral de um contêiner, mirando e atirando em meus adversários. Meu coração parecia querer sair do meu peito e sons de disparos pareciam ser o motivo único de toda a minha agitação.
Os contêineres, que antes eram meras estruturas de metal, tornaram-se labirintos de estratégia e sobrevivência. Meus olhos acompanharam quando um grupo se escondeu atrás de um contêiner, esperando o momento certo para atacar, esperando qualquer um aparecer para então eles descarregarem seus pentes. Rolei no chão, desviando de uma bala e fui abaixada por trás de outro contêiner, tendo a visão lateral de onde aquele grupo estava. Todos éramos seis pessoas em cada grupo, mas aquele só estava em quatro, indicando que dois já haviam sido derrubados. Eu sabia onde meu grupo estava, e iria voltar até eles quando eliminasse esses quatro. A adrenalina pulsava em minhas veias, e a escuridão parecia se intensificar com cada movimento meu.
Eu mirei e atirei, pegando eles de surpresa e matando um, mas meu disparo chamou atenção deles e precisei me esconder para então, atacar novamente, conseguindo acertar mais um.
Como estava sozinha, decidi voltar para meu grupo, mas ele não estava todo ali. e um rapaz loiro também haviam saído e estavam atacando entre os contêineres.
À medida que o desafio avançava, a tensão só aumentava. Cada grupo lutava pela sobrevivência em um ambiente onde a escuridão e a incerteza reinavam. O som das armas e os gritos de determinação ecoavam, criando uma sinfonia caótica que ressoava nas paredes do armazém.
O tempo parecia ter parado e a cada vez que recarregamos nossa arma, parecia ser mais horas sem fim de algo que nos marcaria para sempre.
No final, apenas um grupo sairia vitorioso, mas todos sairiam marcados pela experiência intensa e pela luta pela sobrevivência forjada na batalha. A escuridão, que inicialmente parecia opressora, agora era um testemunho da bravura e determinação de cada um dos participantes.
Quando eu estava carregando minha arma com um pente novo, agachada com as costas apoiadas naquele contêiner que servia como nosso escudo, enquanto meus colegas de time trocavam tiros nas laterais com outros participantes, senti o impacto do meu corpo contra aquele metal, seguida de uma queimação excruciante embaixo da minha clavícula direita.
Ouvi o grito de uma garota e disparos rápidos, assistindo com a visão um pouco embaçada ela matar quem havia conseguido chegar até nós. Uma mão pressionava meu ombro, e aquele som do disparo que me acertou, ecoava em minha cabeça como sendo o único som que ela conseguia registrar. Novos pares de mãos seguraram meu rosto e consegui focar meus olhos em um par de olhos de um azul tão intenso que achei que estava vendo o céu.
— Ei, ruiva. — Sua voz se misturou com o som do disparo em minha cabeça. — Você vai ficar bem, a bala acertou seu ombro, mas ela saiu — me avisou.
Embora estivesse queimando como o inferno, a adrenalina que ainda corria em meu corpo me entorpeceu em partes e concordei com ele. Fechei meus olhos brevemente, forçando meu corpo a voltar ao normal e quando os abri, estava de volta.
— Eu estou bem — falei a ele, e com sua ajuda, me levantei.
Estava me preparando para voltar a atirar quando o mesmo som que iniciou aquele desafio, tocou mais alto que os disparos das armas, anunciando o fim.
Senti uma corrente de vento, e olhei para cima, vendo descer e pousar bem na minha frente. A movimentação ao meu redor não impediu que meus olhos ficassem preso nele.
Eu deveria me mexer e sair dali, como meu time havia acabado de fazer. Sentia o sangue quente molhar cada vez mais o tecido da minha camiseta, mas naquele momento meus olhos percorriam cada detalhe de em busca de algum ferimento e suspirei aliviada quando constatei que ele estava ileso.
Deixei minha arma cair no chão e o som pareceu gigantesco naquele silêncio que nos cercava.
— Seria uma péssima hora para te falar que você está sexy pra caralho agora? — As palavras saíram por vontade própria da minha boca, mas também não era como se eu tivesse falando alguma mentira. — Você chegando assim, com suas asas abertas, essa roupa preta e arma nas mãos, parece a porra de um anjo vingador. Puta que pariu, .
Minhas palavras saíram como um murmúrio baixo e intenso, mas então me virei para onde todos haviam ido, e comecei a caminhar para sair logo daquele lugar.
— Você me acompanha? Preciso ir até a enfermaria. — Dei de ombros, ignorando que um deles estava ferido, novamente.
Mal havia se recuperado da ferida que o híbrido fez, agora estava com outro buraco, mas esse teria uma cicatriz frente e costas na minha pele.
— O tesão em mim anda tão forte assim para você dizer em voz alta que eu estou sexy? — provocou, rindo nasalado, mas sorriu de lado. Acabei rindo também, mas não neguei e só dei de ombros. — Anjo vingador?! Gostei — admitiu, balançando a cabeça positivamente.
Ele se posicionou ao meu lado, e vi que ele encarava o meu ombro. Então parou e me fez parar de andar também.
— Vamos chegar mais rápido na enfermaria se formos voando — comentou quase num sussurro. — Deixa eu te levar.
— Sabe aquelas cenas clichês que o cara manda a garota subir na garupa da moto? Tá parecendo isso, — brinquei, ainda sorrindo um pouco. — Quantas garotas você já levou para voar? — provoquei, mas então encarei seus olhos escuros e deixei a brincadeira de lado, por instantes. — Não precisa, estou bem e nem foi nada grave.
— Nossa, mas voar é mil vezes mais legal do que andar de moto. Aliás, ter uma moto é fácil, já ter asas… — Estalou a língua no céu da boca. — E eu não levei nenhuma, tá? — Rolou os olhos de zoeira. — , tá escorrendo muito sangue. Deixa o orgulho de lado por alguns minutos.
— Bom, não posso comparar porque nunca me levaram para voar — debochei e revirei meus olhos para sua outra fala. — Não é orgulho, baby, só realmente não precisa — falei séria, afirmando que estava bem. — Mas… se você quer mesmo, tanto faz.
ergueu uma sobrancelha, o canto dos lábios puxando para aquele sorriso típico dele, meio debochado, meio perigoso.
— "Baby", hein? — murmurou, a voz rouca carregada de provocação. — Se é assim, baby, acho que vou te mostrar o que realmente é melhor que uma moto.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, ele simplesmente me pegou nos braços, como se eu não pesasse nada. A proximidade inesperada me fez sentir o calor do corpo dele e o cheiro característico que parecia sempre tão... .
Sem esperar minha reação, suas asas negras se abriram com força, criando uma corrente de ar que me arrepiou. Em um movimento fluido, ele nos ergueu do chão, os grandes batimentos das asas nos elevando com uma facilidade quase arrogante.
O mundo ao nosso redor desapareceu rapidamente enquanto ele ganhava altura, e o vento frio da noite batia contra meu rosto. A força dele era inegável, o jeito como controlava cada movimento das asas com precisão. E mesmo que eu odiasse admitir, havia algo intensamente impressionante naquele momento.
— E aí, ? — ele perguntou, a voz carregada de diversão enquanto olhava para mim. — Melhor que uma moto, não acha?
— Você é um idiota, — resmunguei, e ele sabia que eu jamais admitiria o que realmente estava achando disso tudo. — Só vê se não vai me deixar cair… de propósito.
A sensação era libertadora, como se nada pudesse nos alcançar, tudo fosse insignificante e totalmente sem graça. Realmente era melhor do que andar na garupa de uma moto, ou até mesmo pilotar ela. Perfeição parecia ser pouco para descrever o que eu sentia, o que meus olhos viam e até mesmo para descrever ele. O movimento de suas asas parecia hipnotizante, tão donas do ar, tão grandiosas e seguras de si, que cheguei, por segundos, a cogitar que meu tesão era nas asas dele.
Mas então olhei para ele, seus olhos fixos em nossa frente, tendo o controle do que fazia, sem vacilar, sem hesitar. Seus cabelos voando com o ar gelado, aquele pequeno sorriso de presunção, que parecia ter total ideia do que se passava pela minha cabeça. Ele também fazia parte do meu tesão. Era o conjunto de .
Lambi meus lábios e forcei meus olhos a olhar para a frente. Aquele tiro havia queimado e a dor estava lá, mas agora ela parecia ser algo secundário na minha vida, porque o idiota do era o que importava nesse momento.
soltou uma risada baixa, como se pudesse sentir exatamente o que eu estava pensando, mesmo sem dizer uma palavra. Seu sorriso cresceu de canto, e eu sabia que ele estava se divertindo. Sempre presunçoso, sempre tão seguro de si, como se o mundo inteiro estivesse ao alcance das suas asas.
— Relaxa, . Se fosse pra te deixar cair, eu já teria feito isso — murmurou, sem nem olhar para mim, mas com aquele tom carregado de provocação que me fazia querer socá-lo e beijá-lo ao mesmo tempo.
O som rítmico das asas cortando o ar, o calor do corpo dele tão perto do meu, o jeito como ele parecia tão completamente no controle... Era como se cada movimento dele tivesse sido feito para me lembrar de que, por mais que eu tentasse resistir, era um problema que eu não conseguia resolver.
Ele olhou para mim de relance, pegando-me desprevenida enquanto eu ainda tentava disfarçar meus pensamentos. Seus olhos escuros brilhavam com aquele misto de desafio e algo mais profundo, algo que parecia me puxar ainda mais para ele.
— Tá gostando, né? — disse, um sorriso malicioso brincando em seus lábios.
— Se você não ficar quieto, eu mesma me jogo daqui de cima. — Bufei e revirei meus olhos, mas segurei mais firme em volta do seu pescoço. — Isso não era para ser mais rápido do que andar, ? — provoquei, olhando para nosso caminho a frente, não fazendo ideia se estamos longe.
riu baixo, o som vibrando no peito e reverberando até onde minhas mãos estavam em volta do seu pescoço. Ele olhou para mim de lado, o sorriso presunçoso no canto dos lábios ficando ainda mais evidente.
Ele inclinou o corpo ligeiramente para a frente, e o ritmo das asas mudou, tornando o voo mais rápido e levemente instável de propósito. O vento forte agora fazia meus cabelos voarem ao redor do meu rosto, e eu senti meu aperto no pescoço dele ficar mais firme instintivamente.
— Melhor segurar firme — avisou, o tom carregado de diversão, mas com uma pitada de desafio. — Não quero que você diga que eu não avisei.
voltou a olhar para frente, a confiança exalando de cada movimento. Era como se ele estivesse no auge da sua arrogância e, ao mesmo tempo, no controle absoluto. Aquele jeito despreocupado e irritantemente seguro era exatamente o que fazia meu sangue ferver — e o que tornava impossível ignorá-lo.
Ele acelerou o voo, deixando o mundo lá embaixo passar como um borrão. A risada baixa que ele soltou foi a última coisa que ouvi antes de me obrigar a focar no horizonte à frente, tentando ignorar o fato de que, por mais que ele fosse um idiota, eu me sentia estranhamente segura ali.
— Você é um cretino, sabia disso? — esbravejei, e escondi meu rosto em seu peito, tentando me proteger da pressão do vento.
Com ele mudando a nossa velocidade, meu coração pareceu sincronizar com aquele ritmo em que ele batia suas asas e tudo ajudou para ele quase sair do meu peito, quando a cada vez que eu respirava, o ar entrava em mim carregado do cheiro dele e pelo jeito meu corpo parecia estar adorando isso. Sempre estive certa quando afirmei que ele era como uma praga!
Aos poucos fui sentindo o vento mais fraco e seus movimentos mais lentos, então me afastei de seu peito, abrindo meus olhos e vendo que estávamos descendo.
O movimento das asas dele tornou-se mais controlado, e senti o impacto suave de seus pés tocando o chão. A descida foi fluida, como tudo o que fazia, sempre com aquele ar arrogante e a confiança que parecia inabalável. Ele me colocou no chão com cuidado, mas não antes de segurar minha cintura por um segundo a mais do que o necessário, como se quisesse prolongar o contato só para me provocar.
— Chegada perfeita, né? Pode admitir, , você gostou mais do que tá disposta a dizer — ele disse, aquele sorriso presunçoso de canto surgindo no rosto enquanto as asas se fechavam atrás dele de forma quase teatral.
Ele deu um passo para trás, ainda sorrindo, enquanto olhava ao redor, avaliando o local em que havíamos pousado. Mesmo em terra, ele exalava aquela energia de superioridade, como se o mundo inteiro estivesse ali apenas para assistir aos seus movimentos.
— Não precisa agradecer pela carona, ruiva. — Ele ergueu uma sobrancelha, o tom carregado de deboche, mas com aquele brilho nos olhos que sempre o entregava. — Mas, se quiser, posso te levar de novo qualquer hora.
— Claro, você pode me levar de novo… quando eu bater com a cabeça na parede e não conseguir mais pensar direito, porque só assim eu vou voar com você de novo. — Sorri cínica para ele, ajeitando minha postura. — E, não foi nada mal, mas isso é o máximo que você ouvirá de mim.
Era estranho como aquela vontade brigava dentro de mim. A vontade de irritar ele com a vontade de querer ele, puta que pariu, aquela merda de sorriso que não saía do rosto dele, me deixava maluca.
— Tem certeza que não preciso agradecer? — Meu tom mudou para provocativo e um sorriso se formou no canto dos meus lábios e me aproximei dele. — Você foi tão… prestativo, acho que talvez eu devesse…
sorriu de lado, aquele sorriso presunçoso que parecia sempre saber exatamente como me desestabilizar. Ele deu um passo à frente, reduzindo ainda mais a distância entre nós, os olhos escuros presos nos meus.
— Vai mesmo? — murmurou, a voz baixa e provocadora. — Se eu soubesse que você era tão grata assim, teria te levado pra voar antes.
Ele se inclinou levemente, sua respiração quente roçando minha pele. A tensão entre nós parecia palpável, enquanto seu olhar descia brevemente para os meus lábios.
— Então, … — continuou, o tom desafiador. — Como pretende me agradecer?
O sorriso dele cresceu, carregado de provocação, deixando claro que ele estava no comando do jogo. E que ele adorava cada segundo disso.
Passei meus olhos por ele todo, como se tivesse pensando em muitas maneiras de agradecer ele, o que de fato, não era mentira, mas voltei a olhar seus olhos por instantes para depois ficar naquele maldito sorriso.
— Eu sou bem criativa, baby… — provoquei, sem desviar meus olhos dos seus lábios. — Posso agradecer com palavras, ou com… atos — sussurrei, deixando minha língua passar entre meus lábios e mordi o inferior.
Eu já sentia a onda do calor passar por meu corpo, em um desespero para ter mais do que já havíamos tido até agora. As provocações e insinuações eram boas, mas não mais. Não quando eu queria o ‘mais’, quando deixei claro que queria e que não tinha intenção alguma de recuar.
ergueu uma sobrancelha, o sorriso em seus lábios se ampliando lentamente, agora carregado de algo mais intenso, quase perigoso. Seus olhos escuros estavam fixos nos meus, como se ele estivesse absorvendo cada palavra, cada gesto meu, e catalogando tudo com precisão cruel.
— Eu sempre soube que você gostava de testar limites, .
Ele deu mais um passo à frente, reduzindo a distância entre nós até que o calor do seu corpo parecia se misturar com o meu. O movimento foi lento, deliberado, como se quisesse prolongar a tensão a cada segundo.
Suas mãos ficaram ao lado do corpo, mas o jeito como ele me olhava, como se pudesse me consumir sem nem precisar me tocar, era mais intenso do que qualquer toque poderia ser.
— Escolhe bem, ruiva — sussurrou, o tom baixo, carregado de promessa. — Porque, se for por atos... você não vai querer voltar atrás.
— Qual a graça da vida se não for para viver testando os limites? — perguntei, minha voz quase inaudível. — Você precisa saber de uma coisa, . — Me aproximei mais, sentindo como meu corpo reagia tão bem ao calor dele. — Eu nunca volto atrás, eu não me arrependo e se eu faço alguma coisa, é porque eu quero fazer.
Meus olhos subiram para os seus uma última vez e acabei com aquele espaço entre nós, levando minha mão até sua nuca e o puxando até os meus lábios. Eu queria e iria beijar !
não recuou quando minhas mãos tocaram sua nuca, e, por um instante, senti como se o mundo inteiro tivesse parado. Nossos lábios estavam tão perto que minha respiração se misturava com a dele, e o calor entre nós era quase insuportável. Mas, em vez de ceder, ele inclinou o rosto apenas o suficiente para que nossos lábios roçassem levemente, enviando uma onda de eletricidade pelo meu corpo.
Ele deixou sua boca pairar sobre a minha, os lábios se movendo em uma provocação deliberada, como se estivesse prolongando a tensão de propósito. Então, sua língua passou lentamente pelo meu lábio inferior, arrancando um suspiro que eu não consegui controlar.
Mas, em vez de continuar, ele parou, puxando o rosto apenas o suficiente para que nossos olhos se encontrassem. O sorriso presunçoso no canto dos lábios dele voltou, e havia um brilho de diversão misturado com algo mais sombrio em seu olhar.
— Mas não assim — disse, o tom firme, mas ainda provocador. — Não com você sangrando desse jeito, .
Antes que eu pudesse reagir, ele se afastou de mim, deixando o calor e a proximidade desaparecerem como se tivesse arrancado algo de mim. Suas asas se abriram levemente, criando uma distância que parecia quase insuportável.
— Vai logo pra enfermaria — acrescentou com aquele tom irritantemente casual, como se nada tivesse acabado de acontecer.
Foi inevitável não revirar meus olhos. Ele era um insuportável, irritante, a porra de um presunçoso e agora estava adicionando babaca a lista.
— Vai à merda, — esbravejei e me virei — Você é um idiota — quase gritei para que ele pudesse ouvir, já que eu estava indo para a entrada do subterrâneo. — Uma praga mesmo — falei antes de passar pela porta secreta.
Meus passos pesados pareciam que iriam atravessar cada degrau daquela escada de metal. Ele me irritava em um nível que… ódio, era isso que eu sentia por ele. Ódio puro!
Continua...
Nota da autora: Espero que vocês curtam tanto quanto amamos criar essa fic! Comentem, compartilhem e embarquem conosco nessa jornada. Bem-vindos ao mundo das sombras!
Com carinho,
Bruna & Sereia 💖
Com carinho,
Bruna & Sereia 💖
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