Codificada por Lua ☾
Última Atualização: 31/10/25
O rastro de sangue brilhava e ofuscava a grama que outrora era tão viçosa, tão verde e bem aparada, o que aumentava a sensação de pânico de quem ainda tentava se salvar.
Com o passar dos segundos, a destruição se fazia presente em cada canto daquele lugar, e, quanto mais o cheiro podre de enxofre se espalhava pelo ar, maior se tornava a quantidade de corpos largados a esmo, tornando a cena mais aterrorizante.
Então, em meio aos cadáveres, surgiu uma garota a caminhar trôpega, enquanto olhava ao redor e segurava a barriga ensanguentada. Um acesso de tosse se misturou aos soluços e à sensação de sufocamento que o nó na garganta lhe trazia. O gosto de sangue se fez presente desde o início daquele tormento e não quis abandoná-la de forma alguma. O instinto de sobrevivência lhe fez tentar gritar, mas aquilo fora em vão.
Sem forças, tudo o que saiu de seus lábios foi um grunhido sofrido, enquanto a dor que sentia parecia triplicar e paralisava seus movimentos, a fazendo travar também uma luta para se arrastar pelo local, iluminado apenas pelo brilho fraco da lua.
Demorou alguns segundos para que ela sentisse a sombra que se aproximava dela sorrateira, mas quando a percebeu, se virou bruscamente e gemeu de dor. O pânico lhe deixou mole ao encarar diante de si o maior de seus pesadelos.
— Você. — Sua boca se moveu e a voz saiu fraquinha. Ela sentia tanta dor que seus olhos brigavam contra a sua vontade de mantê-los abertos. Era um misto do tormento psicológico com o físico e, por fugazes instantes, a garota cogitou desistir de lutar.
— Olá, amor. Você também vai tentar correr? — O sorriso sarcástico fez a raiva borbulhar em meio ao medo, e ali estava sua humanidade, gritando para que fizesse alguma coisa, para que não fraquejasse mesmo que todos os seus músculos implorassem por isso, mesmo que o frio que percorria sua espinha deixasse evidente que seu fim estava ali, diante de seus olhos.
— Por favor... — O riso de deboche ecoou macabramente e apagou completamente a fala ainda fraca da garota.
— Está claro que não vai, mas me diga então: está preparada para a sua condenação?
O brilho diabólico naqueles olhos era o suficiente para que ela tivesse certeza de que, realmente, lutar seria em vão. Aquele era mesmo o seu fim.
Abriu seus braços em sinal de rendição, fechou os olhos e os apertou ao trazer aos seus pensamentos memórias que levassem para bem longe o quanto a morte ria de seu desespero.
Sua boca se entreabriu e a lamúria de pavor foi o último som que ecoou de sua garganta, antes que seu corpo desfalecesse e ela então mergulhasse na mais profunda escuridão.
— Algum problema, Camille? — Ela o encarou com uma expressão de quem se desculpava, mas ao mesmo tempo queria esganar o homem à sua frente por insistir em perguntas como aquela no papel. Só ver a sombra daquele tal ciclo de Krebs fazia seu estômago se revirar de desgosto e seu cérebro dar um nó completo.
Bioquímica realmente não lhe causava nenhuma simpatia, por mais que fosse um mal necessário à sua futura profissão.
— Não, professor — respondeu, abrindo um sorriso amarelo. — Nenhum que você se dará ao trabalho de resolver — resmungou baixinho a última parte e escreveu rapidamente a última resposta que conseguiu. Ainda restavam duas questões para que concluísse a prova, mas sabia bem que aquele era seu limite e por mais que tivesse estudado, no fim das contas, aquela matéria não entrava em sua cabeça.
Levantou-se da carteira, recolheu seus materiais e as benditas três folhas de prova, então lançou um olhar rápido na direção de suas amigas, que se sentaram espalhadas na fileira dela e na do lado. Localizou apenas duas delas ali, o que queria dizer que pelo menos uma já havia acabado e esperava do lado de fora da sala. Entregou as folhas nas mãos do professor, evitando encará-lo porque não queria nem ver se ele espiava suas respostas, então deixou o local rapidamente.
— Nossa! Mal consigo acreditar que finalmente essas provas acabaram! — disse assim que avistou Kate sentada em uma das mesas do corredor com os pés apoiados em cima do banco e a amiga desviou sua atenção do celular para ela.
— Nem me fala. Se eu tiver que assinar meu nome em mais alguma folha, que seja na do meu pagamento. — Empurrou a bolsa para o lado e deu espaço para que Camille se sentasse ali.
— Pagamento de onde, Kate? Ser biscate não é emprego não, amiga — brincou com a cara da outra, que estreitou os olhos em sua direção.
— Você vai ver a biscate quando eu picotar todo esse seu cabelinho. — Apontou na direção dela, que riu.
— Ui, desse jeito eu até fiquei com medo de você. — Ergueu as mãos em sinal de rendição.
— Continua debochando. Logo você terá o que merece, Camille Devonne — resmungou e segurou o riso, mas não conseguiu porque a outra continuava a rir. — Pare, Camille! — Kate a estapeou.
— Pare você de me agredir, sua maluca! — Camille tentou se esquivar.
— Mas o que é que as duas já estão se amando e nem esperaram por mim? — Se surpreenderam ao ouvir a voz de , que se aproximava com Lorraine.
— Não fique com ciúmes não, . Meus beijos sempre serão só seus. — Kate olhou na direção das amigas, bem a tempo de notar a expressão indignada da garota ao lado.
— Então é assim? Você casa comigo e me trai com a Kate? Explique-se, ! — Fez cara emburrada.
— Claro que não! Sei é nada sobre esse negócio de beijos aí. — Já foi se sentando no banco e empurrou os pés de Kate. — Dá licença aí, folgada.
— Você tá muito abusada, garota — Kate resmungou, mas deu um espaço melhor para que e Lorraine se acomodassem por ali.
— Passaglia resolveu tirar o nosso coro hoje, ou foi só impressão minha? Ô provinha do inferno, uh? — Lorraine desviou o assunto, porque estava doida para saber como as amigas haviam se saído na prova.
— E quando é que ele não tira, amiga? Eu quis chorar quando ele entregou aquele monte de folhas. Por que fazer tantas perguntas? Por quê? — Camille já saiu comentando, como se estivesse só esperando a deixa para xingar seu professor menos querido.
— Se ele ao menos conseguisse ensinar alguma coisa direito, até daria para defender. O problema é que se fosse para ficar lendo slides, eu nem iria para a aula. O cara não tem um pingo de didática e isso é triste — se queixou, mas sabia que não adiantaria em nada reclamar. Tendo didática ou não, aquele professor comandava diversas pesquisas, ninguém tiraria suas aulas.
— A única coisa que eu sei é que mal vejo a hora de apresentar logo esse seminário de anatomia comparada na quinta. Férias, sua linda, tô com saudades! — Kate disse, enquanto encarava algum ponto fixo atrás das meninas, que riram do drama dela.
— Você é tão boba, Kate. — negou com a cabeça.
— E você me ama desse jeitinho mesmo. — Piscou para a amiga.
— Sinceramente, essas férias são mesmo muito bem-vindas. Não sei vocês, mas eu fiquei esgotada esse semestre — Lorraine comentou cansada.
— Mas você nunca vem, Lori! Tomei um susto quando te vi na sala hoje! — Camille brincou, fazendo as outras duas rirem.
— Nada a ver, Camille! — E bufou ao ver a expressão cética das três. — Tá bom, eu admito que falto um pouco, mas é que eu fico com preguiça de vir e o limite de faltas existe para ser usado, ué.
— Claro, Lori, nós sabemos. — tocou o ombro dela. — Mas um pouco é apelido, meu amor.
— Vai te catar, . — Tirou a mão da garota de si.
— Mas, mudando de assunto, nós vamos mesmo a essa viagem que o povo está inventando, ou vocês só vão fazer fogo? — Kate interrompeu o que seria mais uma sessão de amor gratuito. — E cadê Sophie e Lucinda que não deram as caras ainda?
— Elas tinham genética agora, não? — Camille respondeu, sem ter muita certeza.
— Era, sim. A Lucy não parava de falar na prova que elas tinham. Aposto que ela ficou por último na sala — Lori completou, e logo avistaram as duas que faltavam para completar o grupo se aproximando.
— Pelas caras de vocês, já estavam nos xingando pela demora. — Sophie parou diante das meninas com um meio sorriso, enquanto Lucy lia alguma coisa no celular.
— Que nada. Já xinguei o bastante quando vocês nos traíram e pegaram genética em vez de bioquímica. — Kate deu de ombros.
— Você sabe que nem foi de propósito, Kate. As vagas acabaram — Sophie se explicou, e a outra apenas moveu os ombros, como se estivesse emburrada de novo.
— Droga! Eu sabia que tinha que ter marcado a c, eu sempre faço isso! — Lucinda exclamou e fez uma careta desapontada, atraindo os olhares de todas.
— Oi para você também, Lucy — chamou atenção da amiga, que acabou rindo sem graça.
— Foi mal, meninas. Eu tô ficando louca porque preciso ir bem nessa prova, ou vou reprovar. Não quero fazer genética de novo — se queixou, deixando confusa.
— Ué, mas você não disse que gosta de genética? — questionou.
— Eu gosto, mas se vocês reclamam do Passaglia, esperem só até terem aula com o Blanchard. — Balançou a cabeça em negação, resolvendo deixar para lá o assunto aulas e provas. — Mas então, do que vocês falavam quando chegamos?
— Ah, sim! A viagem, amiga. Nós vamos ou não? — Kate retomou a pergunta.
— Por mim, não era fogo no rabo, não. Eu to doida para ir — confessou empolgada, e Katherine bateu palminhas, mas Lucinda permaneceu quieta e ficou pensativa.
— Ai, sim! Fiquei sabendo que o pessoal da oceanografia vai também — Sophie comentou e olhou maliciosa para as garotas.
— Jura? Agora que eu quero ir mesmo. — Lori até passou a língua pelos lábios.
— Sua safada! Já tá pensando em qual macho vai agarrar! — Camille disse, mas pensava em algo parecido.
— Como se você também não estivesse, Cami! — Kate soltou e fez rir. — Vai ser o máximo. O pessoal da oceano anima muito as festas.
— Isso é verdade. Fora que vai ser um alívio ter uns rostinhos diferentes dos da bio. Eu amo meu curso, mas variar é sempre bom — Sophie disse, e concordou com um aceno de cabeça.
— E você, dona Lucy? Não falou nada até agora. Você vai, não é? — chamou atenção da menina, que tinha voltado a mexer no celular.
— Ah, não sei, meninas. Eu ainda tenho que ver — falou, sem desgrudar os olhos do aparelho.
— Ah, Lucy — Sophie começou, mas foi interrompida por .
— Não tem essa, amiga. Você vai e pronto! Que graça tem se todas nós formos e você não? — Ela estava decidida a não receber não como resposta.
— Verdade, Lucinda. Nem pense nisso! — Kate reforçou, até estreitando os olhos para Lucy, que levantou seu olhar para as meninas e acabou dando um meio sorriso.
— Tudo bem, eu vou. Mas é só porque as bonitas não vivem sem mim. — Piscou para elas.
— Viver até vivemos, mas quem disse que nós queremos? — Camille retrucou em tom de brincadeira. — Agora precisamos procurar o bonitinho do centro acadêmico então. Parece que tão conseguindo um ônibus saindo daqui.
— Para onde que vai ser essa viagem mesmo? — Lori perguntou, porque não lembrava de ter visto. De início, só tinha bastado saber que o pessoal do curso estava organizando uma viagem e que as amigas iam.
— Rochester, se não me engano. Falaram em acampamento e depois que um pessoal aluga umas cabanas para quem gosta de ficar em contato com a natureza — Sophie respondeu, era quem estava mais bem informada sobre o assunto.
— Nossa, e tinha gente pensando em perder isso — Kate implicou com Lucy.
— Tenho certeza de que essa viagem será inesquecível — disse e sentiu um aperto gostosinho no peito, sabendo que era a ansiedade dando as caras. Tinha tudo para ser perfeito.
— Com certeza será! — Camille concordou. — Gente, vamos comer alguma coisa agora? Estou morrendo de fome e aí podemos passar no C.A. depois — propôs.
— Ótima ideia — Kate aceitou, e as outras concordaram, então pegaram suas coisas e seguiram animadas para uma das lanchonetes do campus.
— , se perdermos esse ônibus, eu juro que esgano você e a Lorraine! — foi o que Camille disse, assim que a amiga atendeu o celular, o que fez tremer de nervoso. Conhecia Cami bem até demais para não levar suas palavras em consideração.
— Eu sei, amiga, eu sei. Nós perdemos o primeiro ônibus, mas já estamos chegando — tratou de se explicar, sem conseguir disfarçar o sono em sua voz.
— Bem a cara das duas mesmo, tá louco — resmungou, encerrou a ligação e revirou os olhos.
— Gente, e a Lucy? — Sophie questionou, já que não havia visto nem sinal da garota também.
— O celular dela está caindo na caixa de mensagens — Camille respondeu e conteve a vontade de revirar os olhos novamente. Ela normalmente era bem humorada quando acordava, mas sua falta de paciência em ficar esperando pelas pessoas conseguia superar qualquer coisa.
— Quer apostar quanto que ela desistiu de ir? Aí depois vai dizer que ficou sem bateria e o despertador não tocou — Katherine disse, em um misto de tédio e uma certa irritação com Lucinda. Odiava quando marcavam alguma coisa com ela e desistiam de última hora. — Podem escrever que essa é a última vez que convido a Lucinda para qualquer coisa. Se quiserem que ela fure mais algo, fiquem por suas contas e riscos — soltou, decidida.
— Até parece, Kate. Já perdi as contas de quantas vezes ouvi você dizer a mesma coisa — Camille disse, então riu e se esquivou de um tapa quando Katherine veio em sua direção. — Mas já está fazendo a agressiva?
— Eu não tomei café. Não exija amor de minha parte — resmungou, mas acabou sorrindo para Cami.
— Pelo amor de Cristo, ligue de novo para a . O ônibus acabou de chegar — Sophie disse agoniada e atrau os olhares das outras duas. — E lá se vão os lugares bons — queixou-se, ao ver vários colegas irem em direção ao veículo.
— Se eu tiver que me sentar no primeiro banco, aquelas duas vão sofrer até dizerem chega — dessa vez foi Katherine que ameaçou.
— Como vocês me amam, hein! Acalmem esses coraçõezinhos trevosos aí. Olhem só quem chegou. — apareceu sorridente até demais para alguém que odiava acordar cedo em pleno sábado e agindo como se não estivesse atrasada.
— Já te disseram o quanto você é péssima, ? — Kate resmungou mal humorada.
— Ainda serei péssima se disser que trouxe café? — Só então a outra notou o pacote nas mãos da garota e seus olhos se iluminaram.
— Abençoada seja. Nunca critiquei. — Aquilo fez com que risse com gosto.
— Lorraine, você veio mesmo. Isso que eu chamo de milagre, viu? Podia jurar que não conseguiria acordar nem por um decreto — Sophie zoou a amiga.
— E você acha que ela foi dormir lá em casa por quê? O atraso é todinho culpa da Lori — se intrometeu, ao aproveitar a situação.
— Ah, cai fora, ! Você se atrasa até pensando na resposta — Lorraine retrucou, fazendo com que até a própria acabasse rindo.
— Não mentiu. — Abriu um sorriso e olhou em volta das meninas. — E a Lucy?
Camille, que estava com o celular no ouvido, provavelmente tentando insistir em ligar para a garota, abriu a boca para responder, mas foi interrompida por um grito.
— Bem aqui! — Lucinda chegou, dando o seu melhor ao correr enquanto carregava a mochila pesada.
— Minha nossa, eu não acredito que ela veio mesmo. Melhor cancelar a viagem, porque ou vai chover, ou o mundo vai acabar mesmo — fingiu surpresa.
— Ha ha, como você é engraçada, . — Lucy deu língua para ela e riu ofegante.
— Vamos embarcar de uma vez nesse ônibus, já que estamos todas aqui? Daqui a pouco sai e ficamos para trás — Camille chamou a atenção das amigas e indicou que até o motor eles já tinham ligado.
— Faz sentido, vamos logo — concordou, e as seis finalmente entraram no veículo.
Exatamente como Sophie havia previsto, os bons lugares já estavam ocupados. Elas odiavam os primeiros bancos por ser um local silencioso demais. Já o fundão, era muito barulhento. O meio era perfeito, mas estava praticamente todo ocupado, e como não queriam viajar separadas, se contentaram com o intermediário entre o meio e o fundão.
Katherine e Camille foram para o lado direito do ônibus, assim como Lorraine e Sophie. Já e Lucinda ficaram do lado esquerdo, o que facilitou as conversas entre o grupo.
Assim que estavam acomodadas, engataram em conversas animadas até o momento em que foram interrompidas por um rapaz, ao mesmo tempo em que sentiam o veículo começar a andar.
— Galera, um minuto de atenção aí e vocês já voltam a fazer bagunça. — Ele soltou uma risadinha. Imediatamente, as garotas pararam de falar para prestar atenção nele e até abriu a boca, embasbacada porque aquele era bem o tipo dela.
— Socorro, de onde saiu essa coisinha linda? — soltou em um tom mais alto do que gostaria, o que acabou atraindo o olhar do rapaz em sua direção. Ele sorriu de canto e ela retribuiu sem jeito, enquanto sentia seu rosto esquentar.
— Quer um babador, ? — Camille riu.
— Acho que um babador não dá conta, Cami. Melhor arrumar logo um balde para ela — Kate ajudou a zoar.
— Eu mandaria as duas irem se foder, mas acho melhor aceitar o balde de uma vez. Eu to chorando com esse homem, não disse por onde — entrou na delas, e as amigas gargalharam.
— Você não presta, . — Lorraine negou com a cabeça.
— Mas será que vocês podem calar a boca? Quero ouvir o que ele tem para falar — Lucinda resmungou, e as garotas fizeram caretas indignadas.
— Ô loco! Calma aí, estressadinha — Kate soltou, como se tivesse sido estapeada na cara.
— Não estou estressada, Kate. Só quero ouvir o que o cara está falando! — ela retrucou.
— Te falar que eu nem me importo com o que ele tem a dizer. Me interessa muito mais com o que ele pode fazer, se é que vocês me entendem. Será que ele tem namorada? — disse maliciosa.
— ! — Lucy resmungou, ao lançar a ela um olhar assassino.
— Quero andar contigo no recreio, — Sophie disse e piscou para a amiga.
— Agora fiquem quietas mesmo. Vamos ouvir o que o moço tem para dizer. — se endireitou e deixou as amigas de lado, as fazendo a olharem indignadas, mas não deu a mínima para isso.
— A previsão de chegada a Rochester ficou por volta das duas da tarde e nós combinamos com o motorista de fazer uma parada para o almoço — o rapaz falava rapidamente, a fim de acabar com aquilo o quanto antes.
— Droga, quero fazer xixi — Lucy resmungou e fez uma careta. Duvidava ser capaz de tirar do transe em que estava naquele momento. Ela realmente tinha gostado do rapaz.
— Como vocês já devem saber, conseguimos alugar umas cabanas bacanas e mais além já vai rolar uma festa de abertura do acampamento. — Algumas pessoas gritaram em comemoração, e ele precisou fazer uma pausa. As meninas acompanharam o coro e, mais uma vez, o rapaz olhou na direção de . Katherine e Camille automaticamente se entreolharam maliciosas e trocaram sorrisos. — Tá todo mundo de férias, então não tem regra nenhuma e, se tiver, eu não faço nem ideia, mas tentem ficar vivos — complementou, por fim, e a maioria riu novamente. — Boa viagem, galera.
se sentiu um tantinho estranha com aquela história de tentar ficar vivo, mas com certeza era a ansiedade pelo acampamento falando mais alto. Fora que aquele homem lindo a desestabilizou inteira.
— Gente, que homem! — Piscou tolamente.
— Investe, amiga. Ele não usa aliança. — Camille arqueou uma sobrancelha sugestiva para , que sorriu de canto.
— Ah, é? Perfeito mesmo.
— Quero ser a madrinha do casamento, hein? — Sophie brincou com a amiga.
— Exagerada mesmo. Cala a boca, Sophie! — deu risada.
— , você pode me dar licença? — Lucy pediu, mas estava tão avoada que mal prestou atenção nas palavras dela.
— Oi? — soltou, com a maior cara de interrogação.
— Licença, amiga. Minha bexiga está gritando — repetiu, se segurando para não rir da cara de perdida que fez. Aquilo era perfeitamente normal quando se tratava da . Muitas vezes ela até entendia cada palavra que lhe diziam, mas ficava tão perdida em seus próprios pensamentos que, quando percebia, já havia respondido o “Oi?” habitual, acabando por fazer a pessoa repetir a pergunta.
— Ah, tá. Claro, Lucy. — se levantou rapidamente e deu passagem para ela.
voltou sua atenção para a tela do celular, ouvindo as conversas das amigas ao fundo, enquanto rolava as postagens no Instagram, então sentiu que alguém se aproximava dela e franziu o cenho ao achar que Lucy havia sido rápida até demais no banheiro.
— Com licença, moça. Tem alguém sentado aí com você? — Se assustou ao ouvir a voz masculina e ergueu seu olhar até o rapaz, sem conseguir conter o sorriso que se formou em seus lábios.
Ele sabia que havia alguém ao lado dela, tinha visto Lucinda com a garota.
— Na verdade... — pelo canto de olho, viu que Kate e Sophie lhe repreendiam com o olhar — não tem, não. Pode se sentar. — Pulou para o assento da janela, dando seu lugar a ele, e encarou o rapaz com interesse. Ainda tinha lugares vagos no ônibus, por que então ele tinha vindo até ela?
Mais um olhar na direção das meninas e ela as notou sorrirem maliciosas em sua direção, enquanto Lorraine batia palminhas animadas. Ignorou, voltando sua atenção completa para o rapaz.
— River Blackwood, mas você já deve saber disso — ele disse, ao estender a mão para a garota, e ela só conseguiu absorver o quanto o nome dele era sexy. Um arrepio passou por sua nuca só com aquilo.
— Pior que não. Minhas amigas não paravam de tagarelar enquanto você estava ali falando e eu não tinha ouvido o seu nome. — Tentou não parecer tão interessada assim. Ele que lutasse um pouco. — . — Segurou a mão do garoto, que a surpreendeu ao se aproximar e dar um beijo no rosto de .
— . Gostei do seu nome, faz jus a você — River elogiou, a fazendo voltar a sorrir.
— Pensei a mesma coisa quando me disse o seu. — Piscou para ele, que retribuiu o sorriso dela. — Mas, me diga, River, você é da oceano? Com certeza eu lembraria de você se fosse da biologia.
— Sim. Estou no último período, graças a Deus. — Ele soltou uma risada.
— Minha nossa, que sonho! Eu ainda estou no quarto período. — Fez uma careta.
— Mas o seu curso parece ser muito maneiro. Acho que, se eu tivesse que escolher de novo qual faculdade faria, seria biologia. — O comentário fez estreitar os olhos.
— Tem certeza de que não está dizendo isso só para ganhar pontos comigo? Porque eu não vou elogiar o seu curso, River Blackwood. Eu prefiro mil vezes o meu — retrucou, e ele soltou um muxoxo.
— Droga! Achei que estivesse funcionando. — acabou rindo. — Fiz você rir, isso já conta.
— Talvez conte. — Ela deu de ombros e desviou o olhar dele por uns segundos, se questionando se Lucy a esganaria naquele dia ou no seguinte por deixar roubarem o lugar dela. No entanto, encontrou a amiga sentada mais à frente, ao lado de uma garota de quem ela não lembrava o nome.
— Mas eu falei sério. Realmente acho biologia um curso maneiro — River voltou a afirmar e chamou a atenção de para si.
— Vou acreditar em você, então. — Encarou-o novamente e se perdeu um pouco no olhar que o garoto a lançava. Parecia que tudo naquele rapaz a puxava em sua direção, e, por alguns segundos, ela até fantasiou em como seriam os beijos dele.
Mal conhecia o cara e já pensava nos beijos. não prestava mesmo.
— Já tem ideia do que vai fazer depois que se formar? — Resolveu continuar puxando assunto, ou ia passar vergonha babando de verdade.
— Mais ou menos. Eu tô com um projeto na microbiologia marinha, mas ainda preciso decidir se vou continuar com essa área ou não. — precisou se segurar para não soltar uma exclamação de aprovação. — Imagino que para você seja mais complicado escolher. Meu curso é amplo, mas o seu é bem mais.
— Sim. Realmente é, mas eu já entrei para a biologia com a ideia formada. Quero a área forense. Sonho em ser investigadora, quem sabe até uma agente do FBI — disse toda sonhadora.
— Temos aqui uma fã de CSI? — River sorriu de canto.
— CSI, Sherlock Holmes e Hannibal. — assentiu, e o sorriso dele se alargou.
— Melhor eu tomar cuidado com você, então — brincou.
— É o que dizem. — não discordou, e os dois riram.
— Tá aí. Gostei de você, — ele disse, assim que o riso foi embora, e ela sentiu novamente seu rosto esquentar. Estava achando até meio engraçado ficar nervosa perto do rapaz.
— Que bom, River, porque eu também gostei de você. — No entanto, seu nervosismo jamais a impediria de flertar de volta.
Continuaram conversando durante toda a viagem e estava achando incrível a afinidade que surgia entre os dois. River escutava com atenção as coisas que ela dizia e ele tinha tantas coisas interessantes para contar que não conseguia se imaginar sentindo tédio ao lado do rapaz.
Durante a pausa para o almoço, os dois permaneceram juntos, e as garotas nem ousaram interromper. Estavam era comemorando a formação do casal.
— Eles são a coisa mais linda juntos! — Sophie disse, enquanto elas os observavam de outra mesa. Tinham parado em uma estação de ônibus com um restaurante meio caro, mas era o que tinha, e a fome falava mais alto em horas como aquela.
— Nossa, sim! Estou orgulhosa da — Lorraine mordeu seu hambúrguer em seguida.
— Nossa neném está crescendo! — Kate abraçou Camille pelos ombros e os olhos das duas brilhavam com certeza.
— Aposto que, se fosse eu, vocês estariam reclamando de eu tê-las abandonado. — Lucy negou com a cabeça.
— Não seja boba, Lucinda. É claro que não! — Camille jogou uma batata frita na garota.
— Ei! Não desperdice batatas! — Lori ralhou com ela.
— Queria ser uma formiguinha só para ouvir a conversa dos dois. — Sophie estava tão vidrada no “novo casal” que mal notou a quase guerra de comida.
— Nem precisa disso, Sophie. Tenho certeza de que vai contar tudo nos mínimos detalhes mais tarde — Kate lhe disse e Sophie acabou rindo, porque era verdade. não pouparia detalhes.
— Homem de Ferro maior e melhor, sem sombra de dúvidas, embora o Capitão seja um gostoso — disse, sem um pingo de vergonha. O rapaz à sua frente, além de ser bonito, inteligente, divertido e gostar de várias coisas que a garota também gostava, trazia uma sensação de familiaridade, como se perto dele as coisas sempre fossem mais leves e poderia falar sobre qualquer coisa.
Por alguns segundos, ela até questionou mentalmente se não estava delirando com alguém como River, porque era surreal demais o quanto parecia perfeito. E se ele era mesmo real, como ela nunca tinha o visto na faculdade antes? Ela via alunos da oceanografia o tempo todo e tinha até mesmo algumas aulas com alguns deles, com certeza o teria notado.
— Você acha? Eu já ouvi algumas pessoas dizerem que até na aparência ele é certinho demais. — sorriu ainda maior ao vê-lo continuar com o assunto, mas logo se deu conta do que River havia dito, então negou com a cabeça, indignada.
— Como assim? Como esse homem não é o tipo de todo mundo? — Seu tom era chocado. — Mas pelo menos sobra mais Steve pra mim. — Sorriu ladina.
River riu baixinho.
— Se eu fosse o seu namorado, ficaria ligado só pela forma como você fala de Steve Rogers. Acho que se ele batesse à sua porta agora e te pedisse em casamento, você aceitaria sem hesitar.
— Isso porque não falamos do Bucky ainda. Na verdade, ele que é o crush supremo. — Sentia as pernas ficarem bambas só de pensar no personagem. — E, vem cá, esse é o seu jeito de perguntar se eu tenho namorado, River Blackwood? — Estreitou seus olhos para o rapaz.
— Talvez. — Foi a vez de ele sorrir divertido. Não era como se estivesse escondendo que flertava com a moça.
— Então talvez eu não tenha namorado. — Piscou na direção dele, que umedeceu os lábios e se aproximou um pouco de .
— E será que eu tenho alguma chance quando o seu crush supremo é o soldado invernal? — sentia-se prestes a agarrá-lo só pelo tom de voz do rapaz. Era sedutor e meio rouco, e aquilo fez com que ela tremesse por dentro mais uma vez.
— Se eu fosse você, tentaria. Quem sabe essa chance já não esteja por aí — retrucou, doida para saber o que ele faria a seguir. — A não ser que você, River, tenha namorada. — Arqueou uma de suas sobrancelhas.
— Não, , eu não tenho namorada — ele respondeu de imediato, e a garota pôde jurar que mais um pouco River a beijaria.
E daí que haviam acabado de se conhecer? estava fazendo aquela viagem justamente para se divertir. Talvez ela mesma tomasse a iniciativa.
— River!
deveria ter previsto que alguém apareceria para atrapalhar aquele momento dos dois.
— Não pense que vai escapar de mim, . — O rapaz lhe lançou mais uma piscadela antes de se inclinar para trás e olhar quem o chamava. — Fala, Whitmore.
— Desculpa, cara, mas o motora ‘tá dizendo que se não sairmos agora, vamos chegar tarde demais pra fazer festa. — Com um certo alívio, reconheceu o rapaz, Tyler, o que significava que Blackwood era mesmo real, ela apenas não havia esbarrado nele mesmo.
— Ele não nos conhece — River soltou e trocou uma risada cúmplice com Whitmore.
— De qualquer forma, é melhor botar o pé na estrada mesmo. E aí, ? — cumprimentou a garota, ao reconhecê-la.
— Bom te ver por aqui, Tyler. Já falou com a Kate? — Ergueu uma sobrancelha, porque sabia bem que os dois tinham alguns lances de vez em quando.
— Acabei de falar com ela. — Sorriu abertamente.
— Espera aí, a é amiga da sua Kate? — River se intrometeu, questionando Whitmore, que coçou a nuca sem graça pela forma como o amigo havia falado.
— Sua Kate? — não deixou aquilo passar e ergueu uma sobrancelha para o rapaz.
— Te agradeceria se não falasse nada pra ela. — Mesmo duvidando que a garota fosse esconder aquilo da melhor amiga, Tyler arriscou pedir mesmo assim.
— Farei o meu melhor, mas tenho certeza de que Katherine adoraria te ouvir a chamando assim. — E provavelmente ela levaria uns tapas de Kate se soubesse que estava a expondo daquele jeito.
— A cada minuto, eu gosto mais dessa viagem. — Blackwood atraiu a atenção de e arrancou um sorriso da garota, então se levantou antes que o motorista do ônibus viesse arrancá-los de lá pelas orelhas, ou algo do tipo.
Enquanto o rapaz chamava a atenção de todos para que voltassem ao ônibus, encontrou as amigas a alguns metros deles, trocou um olhar cúmplice com Katherine e indicou Tyler discretamente.
Ele tinha razão sobre uma coisa: ela não esconderia nada de Kate.
Retornaram ao ônibus e, mais uma vez, River fez questão de se sentar ao lado de , o que a deixou um tanto eufórica, porque quem sabe eles poderiam retomar o assunto interrompido.
No entanto, pelo menos por hora, Blackwood lhe ofereceu um de seus fones apenas para que os dois ouvissem música juntos.
Nenhuma palavra foi trocada entre eles, e ela se sentiu um tanto incomodada, embora o gesto anterior permitisse que ambos ficassem muito próximos, com os ombros colados um ao outro.
— Tenho uma pergunta — ela disse subitamente e o viu se inclinar um pouco para encará-la como quem pedia para que prosseguisse. — Por que Rochester?
River ficou em silêncio por alguns segundos, como se estivesse ponderando se deveria respondê-la ou não, o que a deixou um tanto intrigada.
Então, com um sorriso de canto, o rapaz aproximou seu rosto um pouco mais do dela.
— Ouvi dizer que é lá onde ficam os portões do inferno — segredou, em um tom sério.
arregalou os olhos, um tanto assustada com a informação, mas então a seriedade nas feições de River se desfez e ele caiu na risada.
— Você devia ter visto a sua cara, . — O rapaz ainda ria.
Indignada, ela não hesitou em lhe dar vários tapas nos ombros.
— Isso não teve graça, Blackwood. Você mal me conhece e já está me zoando? Seu ridículo! — Ficou um tanto irritada, mas não conseguiu deixar de rir com a situação toda.
— Outch! Alguém já te falou que você tem a mão pesada? Que tapas ardidos! — Fez careta, e, em vez de a moça parar, os tapas aumentaram.
— E ainda me chama de mão pesada! Você não tem medo de morrer pelo jeito, garoto!
Seguiram com aquilo até que o riso foi cessando e ele suspirou, mantendo um sorriso nos lábios.
— Falando sério agora… Eu já fui passar as férias com meus pais por ali. É um lugar super tranquilo e a vibe é muito gostosa. Acho que vocês vão curtir.
— Eu tenho certeza de que sim. — o retribuiu.
Depois disso, a viagem seguiu sem grandes novidades. Ambos continuaram conversando sobre todo tipo de coisa, e quanto mais descobria sobre o rapaz, mais se sentia atraída por ele.
Mesmo que não conhecesse Rochester, enquanto encarava a paisagem pela janela, notou que mudava de campos verdes e limpos para uma floresta densa e certamente apropriada para um acampamento. Sentiu que a empolgação aumentava, ao mesmo tempo em que um leve arrepio subiu por sua espinha, afinal, nunca se sabe o que podemos encontrar em uma floresta, certo? Era uma sensação de adrenalina gostosa para ela e exatamente o tipo de coisa que estava procurando.
Assim que o ônibus estacionou diante do local do acampamento, River precisou se despedir da garota para começar a organizar todo mundo.
— Nos falamos depois? — A encarou de perto, o que a fez se arrepiar novamente.
— Com certeza. — sorriu em sua direção, então se surpreendeu quando Blackwood se aproximou ainda mais dela e a deu um beijo no canto da boca.
— Então até mais tarde. — Piscou ao se afastar e a deixou completamente embasbacada até mesmo para sair do ônibus.
— Eu vi isso, . — Era Katherine um pouco atrás dela.
— É, eu também vi. — Camille pôs lenha na fogueira e fez com que risse.
— Vocês são muito fofoqueiras. — Riu e viu as duas lhe darem língua.
— Nossa, mas esse lugar é incrível — foi Sophie quem comentou, quando todas já estavam do lado de fora do veículo.
Ela tinha razão. Eles haviam escolhido um local com algumas cabanas de madeira muito bonitas e conservadas, tudo muito simples, porém visivelmente aconchegante. Também tinha um espaço para quem quisesse armar barracas, e já podia imaginar uma fogueira acesa por ali para que todos pudessem se sentar em volta dela e contar histórias ou até dançar mesmo. Ela lembrava de Tyler ter comentado algo sobre uma festa e mal podia esperar.
— Vocês estão de parabéns, hein? — Kate praticamente gritou para os rapazes e recebeu sorrisos como resposta.
— Espera só até ver o que preparamos para mais tarde, Pearson. — Tyler piscou na direção da garota.
— Sabia que ele não perderia tempo quando se trata da Kate dele — não se segurou e comentou em voz baixa.
— Do que você tá falando? — Katherine se virou para a amiga com uma sobrancelha arqueada.
— Eu te conto depois. — A lançou um olhar cúmplice e viu que a outra assentiu, mesmo contrariada.
— Galera, mesmas regras que falei lá no ônibus. Só tentem ficar vivos e, para quem escolheu ficar nas cabanas, tentem manter tudo inteiro, beleza?
achou ainda mais engraçado aquele comentário dele, principalmente depois da brincadeira de o lugar abrigar os portões do inferno.
Como estavam em seis, as meninas tinham optado por se hospedarem em uma das cabanas, e, após pegarem as chaves com os rapazes, elas seguiram para a de número cinco que, coincidentemente ou não, ficava ao lado daquela onde estavam River, Tyler e mais alguns amigos.
Blackwood demorou um tempo maior do que o normal para entregar as chaves a , seus dedos roçaram nos dela e ela mordeu o lábio discretamente, deixando sua imaginação ir bem longe, até ser chamada para a realidade por uma Lucinda impaciente.
— Pelo amor de Deus, andem logo com isso, porque eu preciso de um banho — resmungou, o que fez os dois rirem antes de se afastarem.
Ao adentrarem a cabana, ficaram positivamente surpresas com o quanto o lugar parecia agradável.
Havia uma sala pequena com um sofá azul marinho, duas poltronas grandes da mesma cor e uma mesinha preta de centro. O ambiente era interligado à cozinha, onde havia um balcão de mármore com bancos altos, uma pia com um armário em cima, geladeira e fogão prateados, e uma porta que dava para uma pequena área de serviço. A cabana tinha três suítes, o que significava que as garotas teriam que se dividir em duplas.
— Algo me diz que a não vai passar muito tempo no quarto daqui, então quero dividir com ela — Katherine soltou, antes mesmo que as outras pensassem em dizer algo.
— Como se você não fosse também, garota! Nada disso, eu fico no quarto com ela — Camille interveio e arrancou uma careta engraçada da outra.
— Nada disso digo eu. Só porque eu estou doida pra ficar fofocando com ela enquanto desfaço as malas — resmungou, ao cruzar os braços na altura do peito.
— Você tá parecendo uma criança birrenta, Kate. — Lucy deu risada. — Deixa elas duas, Cami. Se elas forem para outros lugares, a gente rearranja os quartos depois.
Camille revirou os olhos, mas deu de ombros por fim.
— Eu fico com a Lorraine então. — Enroscou o braço no da amiga.
— Boa sorte com a hibernação dela — Sophie zombou, fazendo as duas estreitarem os olhos em sua direção.
— Muito engraçadinha você, dona Sophie. Mas pelo menos não fiquei com a rainha do mau humor — Lorraine alfinetou.
— Rainha do mau humor é a minha mão na sua cara — Lucinda resmungou.
— Tá vendo só? Vai apanhar dela, hein? Se cuida!
— Vocês são tão bobas. — riu quando Lucy ameaçou se aproximar para dar uns tapas em Lorraine.
— Não somos, não. Aliás, você tem muitas coisas para nos contar, . — Katherine estreitou os olhos para a garota, que deu de ombros.
— Tenho, mas vocês só vão saber depois que eu desfazer minhas malas.
E saiu correndo para um dos quartos.
— Eu vou picar aquele cabelinho dela — Camille comentou com as outras, que trocaram olhares em concordância e seguiram atrás de .
— Até parece que você não nos conhece, garota — Sophie disse, assim que entrou no quarto.
— Pode desembuchar. — Kate até bateu o pé no chão com impaciência.
— Não tem nada para desembuchar. A gente só ficou conversando, Pearson. — Tentou se esquivar e colocou a mala em um canto, porque olhar para aquela cama lhe deu até preguiça.
— Só conversando? Eu o vi te beijar, não se faça desentendida.
As outras arregalaram os olhos.
— Vocês já se beijaram? Puta que pariu, , como você não nos conta uma coisa dessas? — Camille estava indignada.
— Eu não beijei ninguém. Parem de ser loucas! — deu risada do afobamento delas.
— Claro que beijou! Pareceu um selinho, o que eu achei um absurdo, mas beijou, sim! — Pearson acusou e até apontou o dedo para ela.
— Não beijei! Não beijei! — Negou, cantarolando sem nem saber o motivo. Talvez ela gostasse de ficar provocando as amigas.
— Se ela tá dizendo que não beijou, é porque não beijou, gente! — Lucy se meteu e encarou como se duvidasse daquilo de qualquer forma.
— Ele me beijou no canto da boca, Katherine. Isso não conta — comentou, por fim.
— Eu disse! — Kate exclamou triunfante, mas então suas feições se desfizeram em uma careta. — No canto da boca? , eu achei que tivesse te ensinado melhor.
— Me ensinado o quê? A ser biscate feito você? — arrancou um olhar indignado da amiga.
— Biscate? Com certeza, mas eu vou dar na sua cara só por essa audácia. — Tentou se aproximar de , que correu para o outro lado do quarto. — Volta aqui, sua atrevida!
Vendo que a outra não facilitaria, Katherine pegou um dos travesseiros da cama e atirou na direção de , acertando seu rosto em cheio.
— Sua vaca, eu vou acabar contigo! — gritou e atirou o travesseiro de volta, porém Pearson foi mais rápida e desviou bem a tempo.
Lorraine, no entanto, não foi tão sortuda, e soltou uma exclamação indignada quando o objeto a atingiu. Ela revidou e acabou acertando em Sophie, que devolveu em Camille e, em poucos segundos, todas se batiam e jogavam travesseiros e almofadas umas nas outras.
ria sem parar e sentia que logo precisaria parar para respirar, porque sua barriga estava doendo.
Ela se apoiou na janela do quarto, para tentar recuperar o fôlego enquanto nenhuma delas parecia estar prestando atenção em si, mas, de repente, algo atraiu seu olhar para o lado de fora. Uma sensação estranha, um comichão no pescoço, como se alguém estivesse a observando.
Imediatamente, ela direcionou seus olhos para a janela e esperou encontrar alguém parado ali do lado de fora, mas não havia nada, o que a fez franzir o cenho, principalmente porque seu corpo inteiro se arrepiou. De repente, se viu paralisada e em estado de alerta completo.
— O que foi, amiga? — Camille percebeu aquela reação da garota.
— Eu...
— O travesseiro deve ter afetado os neurônios que ela não tem — Sophie brincou, mas, de repente, aquilo não tinha mais graça. parecia realmente assustada. — Certo, agora você está me assustando, .
— ? — Lorraine se aproximou e tocou o ombro da jovem , que se virou para ela e sacudiu a cabeça, como se estivesse com os pensamentos distantes.
— Não foi nada. Achei que tinha visto algo, mas deve ser cansaço da viagem. — Sorriu sem graça.
— Acho bom todo mundo descansar um pouco antes dessa festa que vão fazer — Lucy disse, e as outras concordaram.
Elas foram se dispersando para os outros quartos, enquanto permaneceu ali. tratou de ir logo ajeitar o que precisava, porque seus olhos pesavam e dormir seria muito bem vindo, no entanto, vez ou outra, ela ainda lançava olhares para a janela, como se esperasse encontrar a qualquer momento alguém a encarando por ela.
— Tá tudo bem mesmo, ? — Kate ainda estava preocupada.
— Tá, sim. Fica tranquila.
Não queria dizer que, por mais que lutasse e repetisse que não havia ninguém a observando, ou tentasse agir normalmente, focando nas coisas que precisava fazer, a sensação estranha não ia embora.
Depois de arrumarem suas coisas no quarto, e Katherine concordaram que estavam eufóricas demais para dormir, mesmo com todas aquelas horas de viagem, então seguiram até a sala, onde descobriram que as outras meninas tiveram a mesma ideia.
Elas não tardaram a engatar em várias conversas aleatórias até chegarem a um assunto em especial.
— Vai encontrar o River na festa, ? — Lorraine abriu um sorriso malicioso e trocou um olhar rápido com Kate.
conteve a vontade de retribuir e se limitou a estreitar os olhos.
— Vocês duas são terríveis, alguém já disse isso?
— Me conta uma novidade, garota. — Katherine riu. — Mas nem vem tentar desviar do assunto. Aposto que já marcou de encontrar ele, né, sua safada?
— Cala a boca, Kate. Não marquei nada com ninguém. — Negou com a cabeça, sem conseguir evitar rir junto.
— Até parece que você dá ponto sem nó, dona . — Foi a vez de Camille estreitar os olhos.
— É sério! Não marcamos nada. Ele só disse para nos falarmos depois. — Deu de ombros, e aquilo fez Katherine bufar.
— Achei que eu tinha te ensinado melhor, hein? É lógico que ele estava falando da festa, !
— Estava? — A garota arqueou uma sobrancelha.
— Amiga, acorda! — Lorraine riu, e não conseguiu deixar de pensar no quão irônico era ela fazer um comentário como aquele.
até abriu a boca para falar sobre aquilo, porém, de repente, sua mente se iluminou e ela conseguiu enxergar o que as amigas estavam tentando tanto esclarecer.
— Nossa! Ele quer me encontrar na festa! — Arregalou os olhos e ficou ainda mais eufórica do que antes.
— Depois eu que sou lerda. — Sophie negou com a cabeça, fazendo todas as garotas rirem, até mesmo , que logo suspirou e fez um bico para as amigas.
— Parem de me julgar e me ajudem a pensar em uma roupa legal.
— Olha que safada! Já quer uma roupa pra seduzir o moço. — Camille deixou um sorriso ladino estampar seus lábios.
— Eu ia retrucar isso daí, mas pior que é verdade. — O comentário fez todas rirem mais uma vez.
— Agora sim estou te reconhecendo. — Kate lhe lançou uma piscadela.
— Ótimo. Me ajuda logo, Katherine. — deixou um tom manhoso escapar.
— Acho que com aquele seu vestido vermelho não tem erro, amiga. — Foi Lorraine quem opinou, e, mais uma vez, a expressão da se iluminou.
— Eu te amo, garota! — A garota sentia vontade de beijá-la, porque aquela era a roupa perfeita.
— Também te amo, mesmo você me trocando pela Kate.
— Aceita que eu sou maravilhosa, meu amor. — Katherine jogou um beijo e fez a maior cara de convencida.
— Todas vocês são, Kate — interviu, sem conseguir parar de sorrir.
Era sempre assim. Estar com as amigas trazia uma sensação de leveza e era impossível não rir pelo menos uma vez quando se reuniam. Por isso mesmo estava tão animada com aquela viagem.
— Mas e o Tyler, meu anjo? Não pense que vai escapar da gente, não. — Camille se voltou para Katherine, e todas as expressões maliciosas se direcionaram a ela.
— O que tem ele? — Pearson se fez de desentendida.
— Nem vem com essa. Ele está praticamente lambendo os seus pés. — logo entregou tudo, e Kate colocou uma mecha de seus cabelos para trás da orelha.
— Tá bom. Ele é uma graça, né? Vou dar uns beijos nele hoje.
— Depois eu que sou a safada, uh? — brincou.
— Nós somos. — Katherine piscou novamente.
— Você tá muito quietinha, Lucy. — O comentário de Lorraine chamou a atenção delas, que imediatamente desviaram seu olhar para a amiga.
De fato, Lucinda estava quieta até demais, e aquilo poderia ser perfeitamente normal se ela estivesse concentrada no próprio celular, mas não era o caso. O olhar de Lucy estava fixo em um ponto qualquer, e, por um instante, franziu o cenho, achando muito estranho aquele comportamento.
Ela sequer respondeu Lorraine.
— Lucy? — Dessa vez foi Sophie quem se pronunciou. — Lucy! — Seu tom de voz foi aumentado e dois segundos depois a garota dirigiu seu olhar para elas, trazendo um semblante um tanto perdido.
— Tá tudo bem, amiga? — Lorraine se aproximou um pouco mais, sem conseguir esconder a preocupação.
Lucinda sacudiu a cabeça rapidamente, então, pela primeira vez, seu olhar pareceu realmente focado nas amigas.
— Claro. Por que não estaria?
— Porque você estava até agora com a maior cara de perdida. Ficamos preocupadas. — Kate, por outro lado, não conseguia disfarçar a expressão de irritação.
— Ai, gente, desculpa. Eu estava completamente distraída aqui pensando numas coisas. — E parecia que ela estava mesmo sendo sincera.
— Umas coisas, é? — Camille estreitou os olhos com malícia. — Que coisas?
— É, Lucy, que coisas? — entrou na onda.
— Não é nada disso, suas bobas. — Lucinda soltou uma risada sem graça.
— O que é então, meu anjo? — Sophie insistiu, mas ainda assim a garota negou com a cabeça.
— Nada que mereça a atenção de vocês, meninas. É sério.
— Ui, a gata é misteriosa — Camille zoou e arrancou mais risadas.
— Bato na sua cara agora ou daqui cinco minutos? — encarou Lucinda como quem realmente faria aquilo a qualquer momento.
— Cuidado, hein? Vai que eu gosto de levar uns tapas. — Piscou para , que também não aguentou, rindo alto.
— Sua cachorra safada. Eu adoro! — Então se levantou e foi na direção de Lucy.
— Aí, antes que vocês comecem com a putaria, acho que devíamos começar a nos arrumar. Com seis mulheres dividindo banheiro, espelhos e estojos de maquiagens, duvido que vamos chegar cedo à festa nesse passo — Katherine implicou, e riu.
— Se você quiser, tomamos banho juntas, Pearson. — Lançou uma piscadela para ela. — Mas tem razão, precisamos começar a nos arrumar mesmo.
Quase três horas depois, a cabana se encontrava em um verdadeiro caos. Peças de roupas se espalharam pelos quartos, diversos tipos de maquiagens estavam dispostos sobre a mesa do dormitório dividido por Lorraine e Camille, e o barulho do secador de cabelo se misturava ao som das risadas das garotas.
Mesmo completamente atrasadas, a animação só aumentava a cada segundo.
— Tá bom, agora eu tenho certeza de que vocês estão querendo matar os bonitinhos do coração. Olha só esse arraso! — Cami elogiou, quando e Kate adentraram o quarto completamente prontas.
Foi inevitável que as outras também virassem para as amigas e suas expressões se transformaram em aprovação e malícia.
— Se eu conheço bem a dona Katherine, ela tá querendo matar o Tyler de tanto foder, isso sim — Sophie soltou, antes mesmo que qualquer uma das duas respondesse, arrancando risadas das demais, enquanto Pearson apenas abriu um sorriso ladino.
— Nem me esperem essa noite. Tyler Whitmont é delicioso. — Lambeu os lábios só de imaginá-lo.
— Caramba, você é muito safada, garota! — lhe deu um tapinha leve e negou com a cabeça. — Mas não nego que adoro.
— Não nega também que quer conhecer a cabana do River que eu sei. — Sophie piscou para a , e a jovem nem protestou porque realmente queria aquilo.
— Me digam que vocês estão prontas. A festa já começou faz uma hora. — Lucy surgiu no quarto, também completamente arrumada.
— Olá pra você também, gostosa. Acho que a nossa festa pode ser aqui mesmo. — a olhou de cima a baixo, e a amiga corou.
— Você é muito boba, . Mas falo sério, a festa já está bombando.
— Se fosse a Lorraine falando, eu ia desconfiar um pouco, mas já que é você — Cami zombou da amiga.
— Ei! Desde quando eu sou mentirosa? — A indignação estava estampada em seu rosto.
— Mentirosa, nunca. Mas exagerada… — Camille tornou a falar, e as outras tentaram disfarçar as expressões de concordância, no que falharam miseravelmente.
— Já salvei muito a pele de vocês sendo assim, tá bom? Ou vocês esqueceram que se não fosse por mim, tínhamos nos perdido na nossa última trilha?
— É verdade, drama queen que eu amo. — se aproximou da amiga e apertou suas bochechas.
— Ai, para com isso, garota! Desse jeito eu vou chegar à festa parecendo o Pennywise! — Afastou a mão de , que soltou uma gargalhada.
— Vamos de uma vez. Vocês estão precisando de álcool! — Katherine se meteu, ao perceber que Sophie havia finalmente terminado de se arrumar.
— Estamos mesmo. Quero beber, dançar e dar uns beijos. — Ela conferiu sua imagem no espelho uma última vez, então assentiu para as amigas.
— Até que enfim! — Lucy soltou, recebeu um sinal nada educado como resposta e mais risadas ecoaram.
Se não fosse pela insistência de Lucinda, as garotas teriam se distraído por no mínimo mais uma hora. Elas realmente se empolgavam nas conversas e aquilo só reforçava o quanto eram amigas.
Sophie não parava de implicar com e Kate, dizendo que River e Tyler tinham até postado nos stories do Instagram que estavam esperando por elas.
E foi no impulso de pegar o próprio aparelho para conferir se aquilo era verdade que a jovem se deu conta de que havia o deixado em cima da cama de Lorraine.
— Droga! — Parou no meio do caminho, mas as amigas não pareceram se dar conta daquilo, porque continuaram andando.
Ficar sem o celular não era o fim do mundo, mas tinha certeza de que acabaria sentindo falta uma hora ou outra, e a cabana era relativamente próxima do local da festa, as meninas nem notariam sua ausência.
Dando de ombros, deu meia volta e andou o mais rápido que pôde.
Agradeceu mentalmente o fato de que Lucinda sempre insistia em deixar uma luz acesa para quando as garotas voltassem. Ela odiaria ter que tatear no escuro.
não havia se dado conta do quanto elas tinham bagunçado o quarto ao se arrumarem e isso a fez rir enquanto seu olhar localizava o celular e se aproximava para pegá-lo.
Assim que a tela se acendeu, a garota viu que havia recebido uma mensagem de River pelo instagram e seu sorriso se alargou antes mesmo de ver seu conteúdo.
Quando ela o fez, no entanto, sua expressão mudou e não conseguiu conter uma mordida no lábio inferior.
O rapaz havia lhe mandado uma foto e não havia como negar o quanto ele estava gostoso.
River: Não me diga que vai me dar um bolo?
: Se eu ia, depois dessa foto, mudei de ideia.
River: Gostou mesmo? Acho que de perto a visão tá melhor, hein.
River: Bom saber que mudou de ideia. ;)
: Acho que vou deixar pra te responder depois que aceitar a sugestão de ver bem de perto. ;)
River: Estou vendo suas amigas aqui e nada de . Não me ilude, .
: Eu jamais faria isso, meu bem. Aguenta só mais um pouco que estou chegando.
: Tive que voltar até a cabana para buscar meu celular. :/
River: Voltou sozinha para a cabana?
: Voltei. Nem é tão longe assim.
River: Não é mesmo, mas tá tudo escuro. Espera que vou até aí.
: Não precisa, River. Eu já estou indo.
River: É sério, . Me espera.
franziu o cenho com toda aquela insistência do rapaz, então negou com a cabeça e se virou para sair do quarto. Quase na porta, a jovem tropeçou em alguma coisa no chão e deu um pequeno pulo que a ajudou a evitar a queda, sem nem se dar ao trabalho de verificar o que tinha causado aquilo, porque provavelmente era alguma peça de roupa atirada.
Rapidamente, chegou até a sala e não sabia se sentava no sofá para esperar por River, ou se ficava em pé mesmo. Dado a rapidez com que as amigas chegaram ao galpão onde seria a festa, imaginou que o rapaz de fato não demoraria muito, mas então ela se lembrou da sensação estranha de mais cedo e decidiu não ficar ali aguardando.
Encontraria River no meio do caminho.
Tendo o mesmo cuidado de deixar uma luz acesa — ou Lucinda a mataria —, seguiu para fora da cabana e assim que seus olhos foram de encontro ao caminho que precisava percorrer, seu corpo se sacudiu em um breve calafrio.
Como tudo podia ter ficado tão escuro?
Mordeu o lábio e ponderou ficar por ali na porta, até que seu olhar foi de encontro ao aparelho em suas mãos.
— A lanterna, — resmungou consigo mesma, então tratou de logo acender a luz que precisava, respirou fundo e saiu em direção ao local da festa.
Enquanto caminhava, a garota se sentia até boba por todo aquele receio. E com certeza a sensação que teve mais cedo era nada além de uma paranoia sem qualquer fundamento. Afinal de contas, quem é que ia perder tempo olhando para a janela de seis garotas?
Um psicopata talvez?
Mas não, aquilo não era um filme de terror. Era a vida real, e em poucos minutos ela aproveitaria uma ótima festa na companhia de suas amigas e do cara gato da Oceanografia.
Aquela viagem seria épica, disso estava certa.
No entanto, antes de chegar de fato ao seu destino, ou até mesmo de encontrar algum sinal de River, mais uma vez, a jovem paralisou.
Em uma proporção ainda maior, aquela sensação de que um arrepio percorria cada centímetro de sua espinha, gelando cada um de seus ossos, foi tomando conta. Um formigamento atrás de sua nuca a fez se virar imediatamente e seus olhos procuraram por alguma coisa, piscaram quando suas pupilas reclamaram da claridade da lanterna, atravessaram o limite onde a luz alcançava e procuraram por algo além dela.
Não havia nada.
respirou fundo. Os batimentos de seu coração aumentaram consideravelmente e por pouco o celular não escapou de seus dedos, subitamente tomados pelo suor frio que escorria de suas palmas.
— Não tem nada aqui, . Não tem nada aqui.
Tentou se convencer daquilo, mas nem assim seus músculos permitiram que suas pernas se movessem.
— Deixe de ser paranoica, . — Apertou o aparelho com mais firmeza, fechou os olhos e tentou regular sua respiração mais uma vez.
Contou um…
Dois…
Três.
Então abriu os olhos novamente.
Mais uma vez, o vazio a esperava.
Riu de si mesma.
E suas pernas finalmente a obedeceram.
Sem perder mais tempo, retomou o caminho até a festa. Deu dois passos… Quatro… E enquanto seu pé se erguia para o quinto, algo atraiu sua atenção em um ponto logo à sua direita. Algo que fez com que a jovem parasse mais uma vez. Algo que trouxe de volta aqueles mesmos arrepios gelando seus ossos. Algo que foi o suficiente para um grito ser sufocado em sua garganta.
A distância não importava muito, a visão seria muito nítida em qualquer ponto.
Ali, em meio à penumbra, brilhava um par de olhos vermelhos.
Olhos perversos, macabros, ansiosos por algo.
Por ela.
De repente, cada centímetro de seu corpo tremia em desespero.
Por um milésimo de segundo, cogitou o quanto aquilo era real.
Não podia ser. No mínimo, estava tendo pesadelos.
Sua nuca formigou mais uma vez e uma baforada quente resolveu seu impasse.
— Com medo? — Era impossível ela estar imaginando aquela voz. Uma voz distorcida e carregada por um tom de quem se saciava com o pavor.
Mas não podia simplesmente continuar parada ali, esperando pelo que lhe aconteceria. Precisava fugir.
Agradeceu mentalmente quando seu corpo não hesitou mais e se pôs a correr. Olhou para trás e tentou se certificar de que não estava sendo seguida.
O impacto de seu corpo esbarrando em outro só foi sentido quando foi lançada para trás e caiu sentada na grama.
Outro grito ficou preso. Era isso. Era assim que morreria.
— Moça, você está bem? — Uma segunda voz pôde ser ouvida.
Ela nem havia notado o momento no qual seus olhos tornaram a se fechar, mas arriscou abri-los e mirou o celular na direção da voz, temendo o que encontraria por mais que aquela tivesse soado completamente diferente da outra.
Assim que a luz o atingiu, os lábios de tremeram. Não era alguém conhecido e a desconfiança gritou um alerta em sua mente.
— Quem é você? — Não soube como foi capaz de encontrar a própria voz, mas esta soou firme e determinada.
O rapaz parado diante da jovem ergueu a sobrancelha levemente, sem conter a surpresa com a reação dela.
— Ei, relaxa. Só estou tentando te ajudar. Você surgiu do nada e está aí caída no chão, e eu…
— Eu perguntei quem é você! — insistiu, ao ignorar o falatório desenfreado.
— . Meu nome é . — Apressou-se em responder. — Sou do acampamento vizinho. Você está bem? — Foi a vez dele insistir na pergunta.
— Como assim acampamento vizinho? Não tem nenhum… — Olhou para a mão de quando ele mexeu seus dedos, indicando que já havia a estendido na direção dela já fazia algum tempo.
ainda assim hesitou e lançou um olhar por todo o rosto do rapaz, avaliando se de fato poderia confiar nele, principalmente depois do que havia acabado de acontecer.
E se ele fosse o psicopata a perseguindo?
— É sério isso? — usou um tom de indignação, o que fez a jovem bufar e por fim aceitar a mão dele, a segurar e permitir que o rapaz a ajudasse a se levantar.
passou a mão pelo vestido para limpar a grama e seu rosto esquentou ao se dar conta de que talvez o rapaz tivesse visto até o útero dela enquanto estava ali caída.
— Está tudo bem? — ele insistiu uma terceira vez.
assentiu, mesmo aquilo sendo uma mentira. percebeu e a careta em suas feições deixou bem claro.
— O que você faz sozinho por aqui a essa hora, ? — Ainda estava desconfiada.
— Ouvi dizer que tem uma festa rolando por aqui. — Deu de ombros.
precisou esconder um suspiro de alívio, então estreitou seus olhos.
— E você achou que seria uma boa ideia entrar de penetra?
Ele sorriu.
— Eu achei mesmo. — A resposta fez com que ela retribuísse.
— . Esse é o meu nome — rapidamente se explicou, ao notar as feições confusas do rapaz.
— É um prazer te conhecer, . Se eu fosse você, não andaria por aqui sozinha a essa hora.
abriu a boca, pronta para o retrucar, porque ele mesmo estava andando sozinho por ali.
— ! — De imediato, ela reconheceu a voz de River.
— River! — gritou para que o rapaz pudesse ir até onde ela estava e se virou de costas para , enquanto procurava à sua volta.
Então River finalmente entrou em seu campo de visão.
sentiu alívio quando o percebeu vir imediatamente em sua direção. Inclinou a cabeça para , prestes a convidá-lo para ir até a festa com ela e River, mas, para sua completa surpresa, não havia mais ninguém ali.
Num piscar de olhos, havia sumido.
Franziu o cenho em confusão, porque não tinha a menor possibilidade de ela ter simplesmente imaginado um cara aleatório, porém não sentiu arrepios dessa vez. Era como se algo dentro dela dissesse que estava tudo bem, mesmo aquilo tudo sendo muito suspeito.
— Tudo bem, ? — Só então percebeu River diante dela, tão próximo que, ao respirar, a jovem sentiu o cheiro gostoso de seu perfume.
Suspirou baixinho e assentiu, mordendo o canto do lábio de forma discreta.
— Sim. Por um segundo, achei que tinha me perdido, só isso. — Sorriu para disfarçar o desconforto que a mentira causava.
— Falei que te encontrava na cabana, mas você realmente é bem teimosa. Tô devendo dez dólares pra Kate.
ergueu uma sobrancelha.
— Vocês dois apostaram às minhas custas. É isso mesmo?
— Em minha defesa, eu jurava que ia ganhar. — Deu de ombros e arrancou uma risada baixa da garota.
— Que fique registrado que eu odeio vocês. — Apontou um dedo pra ele e começou a caminhar, percebendo que se sentia bem mais segura na companhia do rapaz.
Ela ouviu a risada de River antes de finalmente ser acompanhada por ele.
— Odeia nada.
— Até que enfim a donzela apareceu! — O grito de Kate chamou a atenção de algumas pessoas ao redor do grupo de amigas, mas ninguém se importou muito com aquilo.
— Quem vê até parece que fiquei um ano longe de você, Pearson. — riu quando a amiga se aproximou e a abraçou apertado.
— Parece que foi, tá? Você não voltava nunca! — Katherine fez um biquinho adorável.
— Isso porque ela foi teimosa, saiu no escuro e se perdeu no caminho — River se pronunciou.
— Ha-ha, eu disse! — Kate cantarolou, então estendeu uma mão para receber o dinheiro da aposta. — Foi um prazer fazer negócios com você, meu anjo.
— Não posso dizer o mesmo. — Aquela resposta fez gargalhar.
— Que isso, irmão, pra que tanta raiva nesse coração? — Tyler abraçou Katherine pela cintura, e a garota se virou para enlaçar seu pescoço.
— Ih, pode largar. Eu quero dançar com a minha amiga. — Lorraine, que até então só observava a cena, se aproximou e a segurou pelo braço. — Com as duas — completou, ao ver River olhar na direção de .
— Acho que fomos dispensados, cara. — Blackwood se juntou ao amigo e viu as garotas caminharem até um local onde teriam mais espaço para dançar.
— Não foram nada. Podem ir ali para o meio da roda. A gente adora ver homens gostosos dançando. — Kate passou a língua pelos lábios e piscou para Tyler, que retribuiu no mesmo instante.
Enquanto começava a se movimentar, prestou atenção à música do ambiente e percebeu que era Levitating da Dua Lipa.
Ela simplesmente amava aquela música.
Se entregou ao ritmo, cantou e dançou sem se importar com o que as pessoas poderiam estar pensando. Sophie chegou mais perto dela e as duas se movimentaram juntas, rindo apenas por estarem alegres.
River e Tyler realmente se juntaram a elas e notaram que um outro rapaz se aproximava para tentar falar com Camille e que Lucy se afastou minutos depois, apenas apontando que iria para algum lugar.
O ambiente era bem simples e não tinha nenhuma decoração em especial, mas aquilo não interferia em nada na festa, as pessoas estavam se divertindo bastante.
se pegou encarando ao seu redor de vez em quando, à procura de algum sinal do cara misterioso que havia encontrado mais cedo, porém não teve nenhum sucesso.
Talvez ele não tivesse achado o local da festa, mas aquilo era um tanto improvável.
A outra opção ainda não a agradava e parecia absurda até demais.
não podia ser fruto de sua imaginação.
Então lembrou dos olhos vermelhos.
Só podia estar louca.
— Um beijo pelos seus pensamentos. — A voz bem próxima do seu ouvido a fez se arrepiar instantaneamente.
Um sorriso de canto moldou seus lábios.
— Estava pensando quando é que você ia chegar mais perto. — Se manteve na mesma posição, porém continuou dançando e movimentou um pouco mais os quadris quando o corpo dele encostou no seu.
— Tava esperando o momento mais seguro, se é que me entende. — Indicou Lorraine com o olhar. A garota naquele momento dançava com Sophie, Camille e o cara que tinha se juntado a elas.
— Relaxa. As meninas não mordem, não. Pelo menos não sem consentimento. — Mordeu o canto da boca.
— E você, ? — o rapaz provocou, segurou a cintura de com uma mão e a apertou de leve, o que a fez conter um suspiro.
— O que tem eu? — Se fez de desentendida.
— Você morde?
— Quer que eu faça isso contigo, Blackwood? — Ergueu uma sobrancelha.
— Eu adoraria. — Sorriu ladino.
Aquilo foi o suficiente para que , por fim, virasse em sua direção, deixando o rapaz grudar seu corpo ao dela, então colocou uma perna no meio das coxas de River e rebolou lentamente.
— Bem melhor assim, não acha? — Soltou uma risadinha ao ver a expressão afetada dele.
— Muito melhor. Só que as consequências disso são todas sua culpa, . — Blackwood aproximou seu rosto dela, de forma que seus narizes se roçaram.
— Que consequências? — instigou, sem quebrar o contato visual.
— Suas amigas reclamarem que você mal ficou na festa, porque eu quero te arrastar lá pra minha cabana, por exemplo.
Foi inevitável que um arrepio gostoso percorresse cada centímetro do corpo da jovem.
— Ah, tenho certeza de que elas vão sobreviver a uma noite sem mim. — Piscou para ele.
River sorriu satisfeito e chegou ainda mais perto. Seus lábios estavam quase tocando os de , quando algo chamou a atenção dela.
não soube o motivo, mas seu olhar foi atraído para a mesa de bebidas. E lá, parado ao lado dela, a encarando fixamente, estava , o cara misterioso.
Um outro arrepio tomou conta de si com a forma como ele a encarava, então desviou do quase beijo de River, se afastou um pouco e sorriu sem graça.
— Desculpa, é que eu tô morrendo de sede. — Fez uma careta. Não era bem uma mentira, ela realmente queria beber algo. — Vou lá buscar.
— Não, que isso, . Eu pego pra você. Nem te ofereci nada quando chegamos. Que cabeça a minha! — River soltou um muxoxo, culpado.
— Relaxa. E pode deixar que eu pego. Quer que eu traga algo pra você? — ofereceu e já deu alguns passos na direção da mesa.
De canto de olho, ela tentava se certificar de que permanecia ali e não tinha evaporado novamente.
— Tem certeza? — Ela assentiu. — Tá legal. Uma cerveja seria ótimo.
assentiu e por fim se afastou sem nem olhar para trás. River a observou intrigado, mas logo Tyler chamou sua atenção.
Enquanto seguia até a mesa de bebidas, tentava não olhar para o rapaz parado ali perto. Mesmo ele tendo percebido que ela o notou, a jovem não queria dar o braço a torcer, e assim que estava perto o suficiente, fingiu que a caixa cheia de cervejas e gelo era bem mais interessante do que o tal .
O rapaz acompanhou seus movimentos, fazendo um formigamento tomar conta da lateral do rosto de , porém ela continuou o ignorando. Pegou a cerveja de River e ponderou um pouco antes de se servir com um copo de vodca, gelo e suco de cranberry.
Ao bebericar, a jovem percebeu ter colocado vodca demais, porém não se importou muito com aquilo.
— Aproveitando a festa? — estava prestes a se retirar, quando aquela voz, a qual agora ela sabia a quem pertencia, se pronunciou.
Resolveu tomar mais um gole de sua bebida e só então se virou na direção do rapaz.
— Muito. — Tentou não dar muita conversa, mas acabou não resistindo. — E você?
— Confesso que não tanto quanto gostaria. — Ele foi sincero.
— É mesmo? E por que não? — ergueu uma sobrancelha, intrigada.
— Eu poderia estar ali dançando, por exemplo. — Apontou para o local onde havia alguns grupos, incluindo aquele ao qual pertencia.
— Só não está porque não quer. — Ela deu de ombros e levou o copo aos lábios mais uma vez. Depois do terceiro gole, a quantidade de álcool não a incomodava mais tanto assim.
— E porque não conheço ninguém daqui. — soltou uma risada baixa, e conteve um sorriso por pura birra. O jeito que o homem sorria era um tanto desconcertante, ela não podia negar, mas também não queria que ele soubesse.
— Que eu saiba, essa é uma das consequências ao entrar de penetra nas festas alheias.
Aquele comentário o fez rir ainda mais.
— É, você tem um ponto. — Foi a vez de beber um pouco, e só então percebeu a garrafa de cerveja nas mãos dele.
— Bom, se você quiser se juntar a nós, eu apresento meus amigos pra você. — Ela não soube bem o motivo de fazer aquele convite, mas preferiu não pensar muito no assunto naquele momento.
— Tem certeza? Não sei se o seu namorado vai gostar muito da ideia. — Indicou River com um aceno de cabeça.
acompanhou o movimento rapidamente, então não conseguiu conter um sorriso de canto enquanto tornava a encarar o rapaz à sua frente.
— River não é meu namorado.
ergueu uma sobrancelha ao ouvir aquilo. Os dois pareciam muito próximos antes de avistá-lo.
— Então são amantes?
gargalhou, então seus olhos foram percorrendo o rosto do rapaz e, por Deus, como ela não havia reparado no quanto ele era bonito?
Era quase como se o rosto de fosse esculpido por anjos e, sendo honesta, de repente, ela mal conseguia parar de olhá-lo.
Será que o peitoral daquele homem era perfeito como seu rosto?
Mas o que você está pensando, ?
Era engraçado o fato de sua consciência muitas vezes ter a voz de Katherine.
— Não. Não somos amantes. Ele é apenas um cara gato com quem eu estou flertando. — Deu de ombros e foi completamente sincera.
apreciou a honestidade, isso ficou nítido quando ele voltou a sorrir e deu dois passos na direção de .
— Então ele não vai se importar por você estar aqui comigo e me levar até lá?
— A gente pode combinar algo nós três também se você quiser. — Foi a vez de brincar. Não estava ligando muito para o que pensariam dela. Havia topado fazer aquela viagem porque queria aproveitar tudo até o último segundo.
Afinal de contas, só se vive uma vez.
Se havia gostado daquela proposta ou não, no entanto, nunca soube, pois, no exato momento em que terminou de falar, um grito ecoou pelo galpão da festa.
Mas não era um grito de alegria, de susto, ou de raiva.
Não. Era um grito que imediatamente fez todos os ossos de se arrepiarem.
Era um grito de completo desespero.
A música cessou, todas as pessoas olharam na direção de onde aquele som apavorante havia saído, e a jovem percebeu que vinha de um dos banheiros.
Ninguém moveu um músculo. Todos pareciam paralisados, esperando de repente que o autor daquele grito irrompesse pela porta.
No entanto, aquilo não aconteceu.
Em vez disso, mais uma vez, a voz aguda ecoou, implorando por ajuda.
Então River Blackwood foi o primeiro a recuperar seus movimentos e sair em disparada até o banheiro.
Sem conseguir se refrear, mesmo sentindo que não deveria, fez o mesmo.
E desejou internamente ter ouvido seus instintos.
A primeira coisa que perceberam foram os respingos de sangue manchando as paredes.
A segunda foi a jovem de costas para a porta, enquanto se balançava e chorava convulsivamente.
River reconheceu a moça por conta das mechas acobreadas em seus cabelos.
— Anne, o que aconteceu?
De imediato, ela se virou para Blackwood, e foi aí que a atenção dele se voltou para o que estava no chão, a poucos metros dela.
Era um cadáver.
— A… A Julie — soluçou, enquanto tremia da cabeça aos pés. — Ela me disse que vinha ao banheiro e já voltava, mas demorou demais, então eu vim vê-la e… e… É tudo culpa minha. Eu devia ter vindo com ela.
As palavras da garota foram se perdendo diante do horror daquela cena.
Ambas as mãos de Julie estavam unidas e completamente esmagadas. O corpo de barriga para cima, com as pernas em um ângulo torto e exibindo um corte do tórax até o abdômen, que expunha os órgãos da garota. Seus olhos estavam bem abertos e em completo pavor.
Era como se ela tivesse sido atacada por algum animal, ou algo muito pior.
Mais pessoas foram chegando e exclamações de horror eram ouvidas.
— Tyler, chama a polícia. — A voz de River estava falha ao se direcionar ao amigo, assim que ele chegou ao lugar. — Pessoal, se afastem, por favor. Isso aqui é uma cena de crime.
queria fazer alguma coisa. Queria tentar consolar Anne, queria ajudar River a conter as pessoas, que pareciam ainda mais curiosas depois de ouvir o pedido dele, mas simplesmente não conseguia.
Seus olhos estavam vidrados, horrorizados por aquela cena grotesca. Seu estômago havia revirado tantas vezes que ela estava surpresa por não ter vomitado ali mesmo, e seu corpo inteiro estava mais uma vez dominado pelo pavor.
Quem havia feito aquilo?
Ou melhor, o que havia feito aquilo?
De repente, se lembrou dos olhos vermelhos.
— Por Deus, não… — Por mais que tentasse, sua voz não saía.
Era como se ela tivesse perdido a capacidade de comandar o próprio corpo.
Nem mesmo chorar conseguia.
— ? — uma voz conhecida chamou por , mas, ainda assim, ela não conseguiu se mover, não importava o quanto quisesse.
Era apenas impressão, ou as coisas estavam girando ao seu redor?
— ? — O rosto de Cami entrou em seu campo de visão, e uma parte dela notou uma conversa rápida entre a amiga e River.
Não soube como, mas, de repente, já não estava naquele banheiro e, sim, do lado de fora, rodeada mais uma vez por suas amigas.
Lorraine estendia alguma coisa para ela.
Água.
queria, sua garganta estava seca, então se forçou a erguer a mão para aceitar o copo.
E teria suspirado de alívio quando conseguiu, mas os outros sentimentos eram muito mais fortes e a consumiam naquele momento.
— Graças a Deus você apareceu, . Quando escutamos os gritos, ficamos apavoradas com a ideia de que pudesse ser você naquele banheiro. — Lorraine passou a mão pelos cabelos de , enquanto a observava.
Espera. O quê?
O cenho da jovem se franziu.
— Como assim? — Pigarreou, porque sua voz estava fraquíssima. — Como assim? Eu estava por aqui o tempo todo. D-dançei com River e depois fui buscar umas bebidas.
— Você não estava em lugar algum, amiga. A Lucy foi te procurar, eu fui te procurar, e nem sinal seu na festa — Sophie se pronunciou.
Como assim ela não estava na festa? Que loucura era aquela?
— Mas eu estava na festa, sim! Fiquei ali na mesa de bebidas com… Com ele! — Então seus olhos encontraram ali, como se o rapaz sequer tivesse saído daquele mesmo ponto.
— Ele quem, ? — Camille a indagou e ergueu uma sobrancelha.
— O rapaz ali na mesa de bebidas. — Apontou.
As meninas acompanharam o olhar da jovem, então a confusão se formou em cada uma de suas feições.
Elas se entreolharam, então voltaram a encarar .
Sophie parecia apavorada quando tornou a falar.
— , não tem ninguém ali.
Como se sequer existisse, o rapaz não estava mais lá, nem mesmo qualquer rastro que comprovasse sua presença.
não conseguiu entender. Como aquilo era possível?
Aquela era a segunda vez que desaparecia feito fumaça e, por mais que parecesse, ela se recusava a acreditar que ele era fruto de sua imaginação.
Não, não podia sequer cogitar aquilo. Havia tocado nele, não havia? Sentiu a mão dele na sua quando a ajudou a se levantar e… Não podia ficar pensando naquilo. O melhor era que não o visse nunca mais.
Ao ouvir mais uma vez o seu nome ser chamado, tentou disfarçar sua tensão e confusão o máximo que pôde ao responder que o rapaz não estava mais lá. As amigas ainda tentaram questionar mais coisas sobre o cara misterioso, no entanto, acabaram concluindo que estava chocada demais para continuar a falar sobre aquilo. Não julgavam a garota, não havia como não se sentirem abaladas com os acontecimentos, e ver os policiais entrarem no local às pressas só tornava aquilo tudo ainda mais terrível.
Depois daquela noite, as coisas ficaram cada vez mais estranhas. Um clima diferente havia se instalado. Um clima de tensão e medo. Não era para menos, embora fosse o completo oposto do que desejavam com aquela viagem.
Ninguém andava sozinho. A polícia havia os orientado a andarem em grupos, e ninguém poderia deixar a cidade até que as investigações terminassem.
Cada pessoa presente na festa foi interrogada, todos eram suspeitos. Por mais louco que soasse, não conseguia deixar de pensar que havia uma pessoa naquele local que ninguém conhecia e não seria confrontada pela polícia. Então precisava se convencer novamente de que não era real.
Anne, a amiga da vítima, estava em choque. Era difícil arrancar dela qualquer coisa além de que devia ter ido ao banheiro com Julie, e se ela havia visto alguma coisa, apenas o tempo diria.
Nesse meio tempo, ninguém podia se aproximar do local do crime, e Anne estava sob proteção da polícia.
A cada minuto que passava, estava mais agoniada. Não conseguia explicar como de repente havia desaparecido das vistas de suas amigas, que haviam procurado por ela sem sucesso. Será que colocaram alguma coisa em sua bebida?
O pior de tudo era que algo dentro dela dizia que sabia muito bem as respostas para os seus questionamentos. E tanto naquela mesma noite, quanto nas seguintes, a jovem se viu tendo o mesmo sonho repetidas vezes.
não saberia dizer se era noite ou dia, tampouco como foi parar ali. A única coisa da qual tinha consciência era que, de repente, caminhava por um extenso corredor. As paredes ao seu redor eram de um vermelho intenso, e a iluminação fraca dava um ar maquiavélico ao ambiente.
Os únicos sons que podia ouvir eram os de seus batimentos cardíacos acelerados e sua respiração ofegante e temerosa. A sensação gélida do piso a fez perceber que estava descalça, e quando o vento frio arrepiou seus braços, ela se deu conta de que um lençol branco cobria seu corpo.
O choque tomou conta de suas feições, parou subitamente para olhar um pouco melhor o que vestia e constatou, em completo horror, que havia manchas vermelhas por todo o lençol. Pelo cheiro metálico intenso, o qual ela provavelmente não se deu conta, porque estava distraída com o ambiente, a substância de um tom rubro escuro era sangue.
Mas será que era dela?
Rapidamente, tateou o próprio corpo, à procura de qualquer dor, por mais que estivesse entorpecida, e de repente uma sensação de constrangimento tomou conta de si, porque debaixo do lençol não havia nada. Ela estava completamente nua.
No entanto, qualquer resquício de vergonha se dissipou quando não encontrou nenhum machucado em si mesma, o que só poderia significar uma coisa.
O sangue não era dela.
Então de quem era?
Com o pânico aflorado a apertar sua garganta em um nó bem firme, voltou a caminhar pelo corredor, apressou seus passos e ansiou que ele a levasse logo a algum lugar.
Desde pequena, sentia uma certa aversão a lugares escuros e estreitos. Era a sua tão odiada claustrofobia, que combatia ao tomar uma medicação, mas ali seus remédios não estavam consigo. E quanto mais andava, mais crescia aquela sensação de que as paredes afunilavam, ansiosas para a engolirem de uma vez por todas.
O corredor não tinha fim. A luz diminuía, e aquela cor vermelha a deixava tonta. Ou seria o enjoo pelo cheiro do sangue que turvava a sua visão, ao mesmo tempo em que a bile subia até sua garganta?
Lágrimas brotaram de seus olhos, molhavam suas bochechas e escorriam até seus lábios.
Então se ouviu soluçar.
— O que diabos eu estou fazendo aqui? — sussurrou aterrorizada, com a voz tão fraca que não soube se realmente havia falado, ou se era apenas um eco de seus pensamentos.
Se pudesse, se ajoelharia ali mesmo para implorar por uma saída, mas sabia que se o fizesse, acabaria se jogando no chão, sem forças para se levantar. Além disso, a quem recorreria? A quem imploraria por socorro? Não havia ninguém ao seu redor, ninguém.
Estava sozinha como nunca esteve.
De repente, um clarão invadiu seus olhos, tão intenso que ficou momentaneamente cega. E apenas quando conseguiu se adaptar à claridade foi que descobriu de onde vinha aquela luz.
À sua direita, apenas a poucos metros dela, havia uma porta aberta.
poderia estar correndo em direção à própria morte, porém sequer pensou nisso. Sem hesitar, ela simplesmente apressou os passos e cambaleou para dentro do cômodo.
O que viu lá dentro, no entanto, a fez se arrepender com todas as células de seu corpo.
No centro do cômodo tão vermelho quanto o corredor lá fora, havia um rapaz pendurado e acorrentado pelos pulsos. Estava de costas para ela, então inicialmente não soube se o conhecia.
Hesitante, deu alguns passos na direção dele, e seu coração se apertou ao notar arranhões grossos e sem um padrão certo por toda a extensão de suas costas. A maioria deles, no entanto, se concentrava na região do tórax, e o sangue vertia escuro, viscoso. Ao prestar um pouco mais de atenção, ela percebeu que pareciam marcas de açoite, porém eram mais grossas, como se garras o tivessem arranhado sem piedade, a fazendo concluir que só poderia ser uma espécie de punição.
Enquanto prendia a própria respiração, tentou ouvir se algum som vinha dele e percebeu que ele estava extremamente fraco, a ponto de desistir. Levada pelo desejo de fazer algo para ajudá-lo e por uma certa dose de curiosidade, mais alguns passos a aproximaram do rapaz. Não soube dizer por quê, mas algo lhe dizia que sabia muito bem quem ele era.
Assim que se viu perto o bastante, a jovem constatou duas coisas.
A primeira foi que o rapaz estava desacordado. Ela já havia imaginado, mas não diminuiu em nada seu desespero.
A segunda foi que de fato o conhecia.
— ! — Apavorada, ao notar que sangue escorria também pelos cantos da boca dele, um grito ecoou dos lábios dela. Então os cobriu e chorou ainda mais, permitiu que suas lágrimas vertessem sem controle, enquanto seu corpo se sacudia.
Por que haviam feito aquilo com ? Por que ele estava sendo punido?
Como poderia salvá-lo?
Tremendo como nunca em sua vida, mais uma vez as lágrimas tocaram seus lábios, e quando passou a língua por eles para limpá-los, percebeu um outro gosto se misturar ao salgado. Um gosto metálico.
Todo o ar fugiu de seus pulmões, e enquanto sufocava e arregalava seus olhos, olhou para suas mãos, apenas para confirmar o que já previa.
E outro grito ecoou quando ela viu que estavam cheias de sangue.
— ? , acorda, amiga! — Katherine a balançava horrorizada ao ver o quanto gritava. Tanto ela, quanto as outras garotas, haviam sido acordadas por há alguns minutos, e, desde então, tentavam despertá-la.
abriu os olhos, o pavor fazia suas pupilas ficarem extremamente dilatadas, e a jovem suava tanto que os lençois estavam encharcados embaixo dela e o pijama grudou em seu corpo.
— Minha nossa, que susto! Você está bem? — Kate olhou em cada canto de seu rosto e a analisou preocupada.
— Eu… — balbuciou, na tentativa de encontrar as palavras e acalmar seu coração ao mesmo tempo. Ele batia tão rápido que a qualquer momento poderia saltar de sua boca.
— Você? — A amiga insistiu e esperou pacientemente.
— Água — pediu desesperadamente. O pesadelo foi tão vívido que era quase como se o gosto salgado e metálico ainda estivesse presente.
Pearson deu uma olhada na direção de Sophie, que se apressou em trazer um copo bem cheio.
bebeu sedenta, levou segundos para consumir tudo de uma vez, e assentiu quando questionada se queria mais.
Todas esperaram até que estivesse pronta para falar, e talvez isso tivesse tornado sua resposta ainda mais frustrante.
— Gente, não foi nada. Apenas um pesadelo. — Suas bochechas até esquentaram de vergonha, mas uma parte dela a acusou.
Não era um pesadelo qualquer, e sabia disso.
— , você estava gritando como se algo estivesse em você. Isso assustou todas nós! — Katherine continuou com o tom de preocupação. Entendia que ela estava assustada e só queria ajudá-la de alguma forma.
deu uma olhada ao redor e percebeu que todas as amigas a encaravam com as mesmas expressões de Kate. Por um momento, quase contou detalhes, mas não queria soar completamente maluca e acabou guardando para si.
— Me desculpem. Foi um pesadelo bobo, eu…
— Um pesadelo bobo que te fez gritar e suar desse jeito, ? Nunca vi você assustada assim — Cami insistiu, e percebeu que estava desconfiada.
Suspirou e negou com a cabeça.
Não era que não confiasse em suas amigas, mas alguns segredos precisavam se manter escondidos. Elas não haviam visto . nem sabia se ele era mesmo real, o que pensariam dela?
— É sério. Acho que só fiquei impressionada pelo que aconteceu. — Sorriu fraco, enquanto uma parte sua carregava a culpa pela mentira.
Foi a vez de Cami suspirar.
— Tudo bem, amiga. Qualquer coisa, estamos nos quartos ao lado, hein? — Olhou de para Pearson.
— Isso. Nós só estamos preocupadas, . — Lorraine completou.
— Confesso que eu não estou nem conseguindo dormir por conta disso tudo, então pode ser bom conversar quando você sentir vontade. — Sophie sorriu fraco.
— Tá certo, gente. Obrigada mesmo. Acho que agora eu só quero tentar dormir mais um pouco.
Então as assistiu concordarem e, uma a uma, se retirarem do cômodo. Lucinda foi a última, e seu olhar se demorou um pouco na amiga antes de sair. Foi a única a não dizer sequer uma palavra, simplesmente porque não sabia o que poderia fazer efeito. Claramente estava abalada e não queria compartilhar o motivo, e ela se perguntava se havia acontecido com algo além do que haviam passado.
Sozinha no quarto com Katherine, assistiu a amiga sentar nos pés de sua cama e tocar uma de suas pernas gentilmente, por cima do lençol branco que a cobria.
— Você sabe que pode confiar em mim pra tudo, não sabe? Eu jamais vou te julgar por qualquer coisa, . Eu não. — Sua voz era macia, e o olhar tão genuíno que quase cedeu ao impulso de contar.
— Kate…
— Eu sei. Tudo o que aconteceu foi muito estranho, e agora nós estamos presas aqui. Se você viu alguma coisa, ou sonhou, pode me contar, amiga. — Por que ela tinha que ser tão compreensiva? Aquilo só dificultava as coisas.
Katherine Pearson era sua melhor amiga. E sua ligação com ela era tão forte que era como se sentisse tudo que sentia.
— Não acho que você vai acreditar em mim, Kate. Está tudo muito confuso na minha cabeça. Nem eu mesma sei se acredito — confessou, com a voz fraca.
Pearson suspirou.
— Então vamos fazer assim: você tenta organizar os pensamentos e se achar que precisa, pode contar comigo. Se for maluquice, seremos loucas juntas. — Piscou, o que fez sorrir de leve.
— Tá bom. Obrigada por isso, amiga.
— Sabe que te amo, . — Retribuiu o sorriso, carinhosa.
— Também te amo, Kate. — sentiu uma emoção estranha com aquilo e precisou conter as lágrimas.
— Agora chega pra lá, não vou deixar você dormir sozinha depois desse pesadelo.
E, ainda emocionada com o gesto, permitiu que a amiga se deitasse com ela.
Três dias se passaram após a fatídica noite do assassinato. Três dias em que qualquer clima de festa havia se dissipado para dar lugar ao medo e ao desejo constante de voltar para casa. Quem diria que aquela viagem seria épica de uma maneira completamente trágica?
Katherine se sentia culpada por insistir tanto. Em seus pensamentos, se não fosse por ela, nenhuma de suas amigas estaria passando por aquilo. Ela mesma não passaria por aquilo. E embora não tivesse exposto para ninguém, seu sentimento era compartilhado por Camille e .
Mas como poderiam prever?
Como poderiam imaginar que um lugar que deveria ser seguro se transformaria no palco de um show de horror?
Era tudo terrível demais, e as coisas pioraram quando os pais de Julie vieram fazer o reconhecimento do corpo.
Devido ao impacto que poderia ser causado pelo estado em que a garota estava, o procedimento foi realizado através de fotos, porém, ainda assim, a mãe de Julie precisou ser socorrida. O horror e o choque ao comprovar que aquela realmente era a sua filha foi demais para a mulher, que teve um ataque de pânico e acabou sedada para que pudesse, enfim, se acalmar. Já o pai de Julie, tentou lidar com aquilo tudo tendo o máximo de controle possível, mesmo que fosse extremamente difícil. A dor de perder sua única filha era demais para que pudesse suportar. E, por mais que quisessem sair daquele lugar, daquele pesadelo, o quanto antes, ainda permaneceram na cidade até a liberação do corpo.
percebeu que as amigas lhe lançavam olhares de cautela desde o dia em que os pesadelos começaram. Também não era para menos. Ela tinha consciência de que toda a vez que fechava os olhos, voltava àquele cenário macabro e, quando tornava a abri-los, era porque gritava tanto a ponto de Kate precisar despertá-la.
A jovem não sabia o que fazer. Talvez buscar ajuda profissional fosse o mais indicado, e jurou para si mesma que o faria assim que saísse daquele lugar de uma vez por todas.
Naquela manhã, uma grande mesa havia sido colocada no mesmo galpão da festa, para que todos compartilhassem o café da manhã. Aquilo era estranho, por mais que a perícia tivesse liberado o local e tudo já estivesse extremamente limpo. No entanto, ninguém reclamaria. Quanto mais unidos permanecessem, melhor seria para suportar tudo aquilo.
— Vocês acham mesmo que vão pegar o assassino? — Lorraine dizia, quando se aproximou e se sentou ao lado de Lucy.
Mais uma vez, precisou ignorar os olhares das amigas sobre si. Como andava acontecendo ultimamente, apenas repetiu mentalmente que elas apenas estavam preocupadas com ela, que faria o mesmo se estivesse no lugar de qualquer uma.
— Sinceramente, estou começando a duvidar, hein? Pelo que ouvi, não conseguiram nenhum material biológico que pudessem ligar a algum suspeito. No corpo da Julie não havia impressões digitais, fios de cabelos, saliva… — Sophie foi enumerando.
— Nem arma do crime, né? Parece que a pessoa sabia muito bem cobrir os próprios rastros. — Kate complementou. — O único sangue que encontraram no local era da própria Julie.
— Isso é muito esquisito, vocês não acham? Por que planejariam matá-la logo aqui, no meio do nada? — Lorri não conseguia se conformar.
— Porque é o lugar perfeito, amiga — se pronunciou, rouca, atraindo a atenção delas. — Pensem comigo. Um lugar no meio do nada não tem nem peritos por perto. Tanto que eles só chegaram várias horas depois. Além disso, dá pra jogar a culpa em algum animal.
Por alguns segundos, as meninas permaneceram a encarando e perceberam que aquilo tudo fazia bastante sentido.
— Você parece ter pensado muito nisso, . — Lucy foi a primeira a dizer algo e analisou com atenção.
— Lógico, ela é a louca da forense. Não estou nem um pouco surpresa. — Kate se meteu, e sorriu fraco e concordou.
Lorraine, Sophie e Camille fizeram o mesmo.
— De qualquer forma, vamos pensar positivo. Vamos acreditar que a polícia vai descobrir quem foi, sim. E aí nós voltaremos a dormir em paz — Lucinda emendou.
não gostou muito daquilo. Percebeu uma nota estranha na voz dela, quase como uma acusação, e se sentiu triste e incomodada.
— Acho meio difícil conseguirmos pensar positivo, ainda mais sabendo que não encontraram nada do assassino. Mas só nos resta esperar, não é? — Sophie torceu a boca, então se virou para pegar mais um muffin.
não havia conseguido nem começar a comer. Na verdade, ela nem se lembrava da última vez que se alimentou de fato.
— , você tá bem? — A voz de Cami chamou sua atenção.
— Sim. Tô bem — murmurou, sem jeito.
— Tem certeza? Tô te achando meio pálida — Devonne insistiu, e dessa vez foi Kate quem respondeu.
— Provavelmente é porque ela não tá comendo direito.
— Katherine! — exclamou indignada.
— O quê? Eu te conheço, garota. Pega esse pão aqui e come antes que eu te faça engolir! — Pegou um pão e praticamente o enfiou na boca da amiga, que riu incrédula.
— Por Hades, Kate. Você é muito mandona — bufou, mas acabou aceitando o pão.
Assim que o mordeu, a satisfação foi tanta que até se sentiu tonta.
— Sou mesmo, e é por isso que você não vai morrer de fome.
Aquele tipo de conversa seguiria por outros caminhos se o clima não estivesse mesmo pesado. Mesmo quando riam minimamente, elas se sentiam culpadas e logo o silêncio reinou entre todas.
Então os pensamentos de foram parar em .
Desde o dia da festa, ela não o viu em nenhum outro lugar além daquele mesmo pesadelo bizarro, e por mais que se forçasse a crer que tudo não passava de imaginação, às vezes sentia que não, que tudo era muito real, principalmente o fato de ele estar preso em seu pesadelo.
Mas por que o prenderiam daquela forma?
Se deu conta de que sempre acabava naquele questionamento e, irritada consigo mesma, de repente, se levantou.
— ? — Camille indagou, ao estranhar o ato repentino.
— Podem ficar. Eu só preciso… pensar — murmurou, então seguiu em direção às árvores, sem realmente ter um rumo certo.
Ela só queria arejar a cabeça, pensar em tudo aquilo sem ter a impressão de que estavam a olhando, mas nem quando chegou a uma parte mais densa da floresta a sensação foi embora.
O formigamento em sua nuca fez virar imediatamente para trás, temendo encontrar aqueles olhos vermelhos, no entanto acabou dando de cara com River Blackwood.
— O que está fazendo aqui? — A pergunta escapou de seus lábios antes mesmo que ela pudesse se refrear.
River não falava com ela desde aquela noite e do nada resolveu ir atrás dela?
— Desculpe, . Eu vi que você estava vindo até aqui e… — Ele coçou a nuca e parecia um tanto desconfortável.
— E o que, River? Longe de mim te cobrar alguma coisa, mas não nos falamos desde aquela maldita festa. — De repente, estava irritada com ele. Sabia muito bem que River, sendo um dos responsáveis pela viagem, precisava lidar com muito mais do que previu, mas ao menos uma mensagem de texto ele poderia ter enviado.
E, na verdade, em todas as vezes que o tinha visto, ele parecia bem.
— Eu sei… Na verdade, o meu primeiro instinto em vir até aqui foi não te deixar sozinha. E eu não falei contigo porque você parecia abalada, . Eu não quis forçar a barra. — Blackwood fez uma careta, que imitou.
— Não ia forçar. E sobre me deixar sozinha, eu sei me defender. Aqui é só uma floresta boba, River. — Ela tentou soar indiferente, mas, dentro de si, havia aquela tensão que não ia embora de jeito nenhum.
— Nossa mente nos prega peças, . E você pode acabar descobrindo que a floresta boba, na verdade, pode ser uma floresta perigosa, onde o assassino talvez esteja se escondendo. Assim como os anjos ao nosso redor, na verdade, podem ser demônios disfarçados. — As feições de Blackwood ficaram sérias a cada palavra proferida, e, ao mesmo tempo em que um arrepio cruzou a espinha de , seu cenho se franziu em desconfiança.
— O que quer dizer com isso, Blackwood? Você sabe de alguma coisa? Ou quem sabe foi você quem fez aquilo? — questionou assustada e desconfiada. Ele estava agindo de maneira estranha, ou era apenas impressão sua?
Uma risadinha ecoou dos lábios dele, porém o estalo de um galho fez a virar para trás rapidamente e só então se deu conta de que ela havia pisado em um ao dar um passo para trás.
Jamais imaginava que sentiria medo ao estar com River Blackwood, no entanto, o ar fugiu de seus pulmões quando ele se aproximou dela ainda mais.
— Nós dois sabemos que não fui eu, .
Os olhos de se arregalaram de surpresa e confusão.
— Do que você está falando? — Se viu balbuciar e quis sacudi-lo e arrancar o que ele sabia.
— Estou falando para você não confiar em todo mundo, . E, principalmente, para você tomar cuidado com quem anda — alertou, ao tocar os ombros dela, porém recuou e afastou as mãos dele.
— River, pare com esses joguinhos. Se você sabe quem é o assassino, fala de uma vez! — Ela praticamente gritou e quase o esmurrou.
— Eu não sei quem é, . Só tenho minhas suspeitas, e é por isso que estou te dizendo para tomar cuidado. — De repente, o olhar dele era mais ameno, quase cuidadoso.
— Você está incluído? — o encarou nos olhos ao perguntar. Parecia um pouco mais com o River que conheceu dias atrás, mas, ainda assim, estava receosa.
— No quê? — Blackwood indagou, confuso.
— Nas pessoas que não posso confiar.
— Não sei, . Estou? — Ele riu.
— Acho que está — ela murmurou baixo, mas, ainda assim, River a ouviu.
— Bom, se eu fosse, não te diria nada e muito menos estaria disposto a te levar até a cabana em segurança, não é? — Estendeu a mão para ela, que recusou.
— Na verdade, você poderia fazer essas duas coisas apenas para parecer confiável. Seja quem for o assassino, parece pensar muito bem nos passos que dá. — Num impulso, deixou escapar tudo o que pensava, e o rapaz negou com a cabeça e riu mais uma vez.
— Eu jamais te machucaria, . Vamos, me deixa te levar até a sua cabana. — Mais uma vez, ele tentou segurar em sua mão.
— Não precisa. Eu sei o caminho. — E se afastou dele, bufando quando Blackwood a acompanhou mesmo assim.
O caminho foi mais longo do que o normal para , e, por alguns minutos, ela se deixou levar pelos próprios pensamentos. Sua mente estava a mil. Tentava associar as palavras de River e ligar aos acontecimentos recentes.
Pela maneira como ele estava agindo, sentia que ele sabia, sim, de alguma coisa. Mas por que ele não diria a ela, ou até mesmo à polícia?
Será que Blackwood estava envolvido? Era algum cúmplice?
Era ele o culpado?
Ou não dizia nada por medo?
Eram muitas perguntas sem resposta, e tinha certeza de que a qualquer momento sua cabeça explodiria com aquele tormento.
Ela só queria sua vida normal de volta.
Suspirou e, ao ver que finalmente chegaram à sua cabana, ela se virou, pronta para agradecer River, mesmo que de má vontade, porém ele foi mais rápido.
— , olha, eu sinto muito mesmo por ter deixado de falar contigo por esses dias. Senti algo bacana entre nós, mas tudo o que aconteceu mexeu comigo. Acho que mexeu com todo mundo. Eu quis te dar espaço e acabei errando nisso, mas se você me der outra chance, isso não vai se repetir. — Blackwood havia a alcançado e parado em frente a para olhá-la nos olhos.
suspirou.
— Tudo bem. Eu só… — Aquilo a deixou completamente confusa, sem entender como ele oscilava de uma hora pra outra. — Aconteceram coisas demais e, sinceramente, estou começando a questionar no que devo acreditar.
Aquelas palavras foram completamente sinceras, tanto que ela não conseguiu sustentar o olhar dele.
— — River a chamou para que o olhasse novamente, e quando ela o fez, prosseguiu —, quer me contar alguma coisa?
não entendeu o motivo de ele perguntar aquilo, mas percebeu que, na verdade, não conseguia entender nada com relação a Blackwood.
— Eu… — Tentou dizer alguma coisa, mas as palavras simplesmente não saíram.
— Sei que essa pergunta soou meio estranha, mas às vezes algumas coisas nos perturbam tanto que achamos que devemos guardar para nós mesmos, que se dividirmos com alguém, vamos ser taxados de loucos, ou algo do tipo. Só quero que saiba, , que você pode confiar em mim e me contar qualquer coisa. Eu já vi de tudo na vida. E quando digo tudo, é tudo mesmo. — A ênfase naquilo a fez estreitar os olhos.
Será que ele havia visto algo como ? Ou os olhos vermelhos?
Mas não adiantava. Algo ainda a deixava desconfiada com relação a ele.
— Vou lembrar disso, River. Mas agora realmente não tenho nada para contar. Eu estou bem, só impressionada ainda com tudo que aconteceu. Acho que logo deve passar, né? A única coisa que eu queria era sair logo daqui e voltar pra casa. — Acabou sendo sincera ao final de sua fala, e outro suspiro escapou de seus lábios.
— É uma pena que isso não vai acontecer tão cedo, não é? — E, mais uma vez, a feição séria e um tanto misteriosa estava de volta.
— Como assim? — o olhou assustada.
— Estamos presos aqui, . Ao menos até acabarem as investigações.
Então ela soltou o ar que nem se deu conta de ter prendido.
— É, tem isso — murmurou, odiando aquilo. Se pudesse, simplesmente saía correndo daquele lugar para nunca mais voltar.
— Ei — River chamou sua atenção, e, mais uma vez, o olhou. — Se você precisar de alguma coisa, qualquer coisa, me manda mensagem, ou me liga que venho correndo.
Ela apenas afirmou positivamente, sem conseguir formular qualquer palavra.
De repente, se sentiu exausta.
— Até mais, . — E mais um calafrio passou por sua espinha quando Blackwood se aproximou e depositou um beijo em sua bochecha esquerda.
Engolindo em seco, apenas quando ele já estava a uns bons metros dela que conseguiu responder.
— Até mais, River.
O rapaz não se virou para encará-la, apenas se afastou até desaparecer de sua vista. E, mesmo depois disso, continuou parada na frente de sua cabana, encarou o vazio e tentou convencer a si mesma que pior do que aquilo as coisas não poderiam ficar.
Mais uma vez, havia se iludido por completo, e a prova disso se revelou de uma forma um tanto conhecida por ela nos últimos dias, o que não a tornava menos terrível.
Ao sentar-se no mesmo instante em que seus olhos abriram, precisou reprimir o grito que implorava para ecoar de sua garganta. Seu corpo inteiro tremia, o terrível gosto metálico voltou à sua boca, e a jovem não precisou de muito para ter noção de que suava.
A cada pesadelo, os acontecimentos pareciam mais reais, e nesse último, ela havia tocado em . A sensação gélida de sua pele foi o bastante para que quisesse gritar até que suas forças se esvaíssem.
Aparentemente, nem mesmo em um cochilo de fim de tarde ela estaria livre.
Sem conseguir conter a tremedeira, ergueu suas mãos e as encarou como se esperasse ver o sangue um tanto escuro ali. Porém, assim como nas outras vezes, não havia nada. Suas mãos estavam limpas, e ela não sabia o que pensar daquilo, não conseguia raciocinar sobre o que, de fato, seria pior.
Se fosse real, quem sabe ela teria uma chance maior de entender o que estava acontecendo.
Mas como podia pensar em uma coisa daquelas?
— ! — A voz de Kate ecoou distante, mas, pelo seu tom, provavelmente a chamava há algum tempo.
— S-sim? — engoliu em seco e tentou disfarçar o máximo que pôde, mas soube pelo olhar da amiga que não havia adiantado.
— Tudo bem? — Ergueu uma sobrancelha, mesmo ao ver claramente que estava muito longe de bem.
— Uhum — mentiu e encarou qualquer ponto que não fosse Katherine.
— Ah, , conta outra! — Pearson perdeu a paciência e atraiu o olhar assustado de . — Pra começar, você está pálida de novo. Não me diga que a última coisa que comeu foi aquele pãozinho!
suspirou.
— Não consigo nem pensar em comer, Kate — resmungou, mas já sabia onde aquilo ia dar.
— Não interessa. Anda, levanta daí e troca de roupa. Vamos achar algo pra você comer. — Seu tom era decidido e não deixava margem para discussões.
Ainda assim, tentou.
— Kate, olha…
— Te espero lá na sala. — E saiu.
ficou parada por alguns segundos, ainda tentando assimilar tudo o que havia acabado de acontecer. De alguma forma, parecia que ainda sonhava, mas então balançou a cabeça e teve a certeza de que não quando a tontura alertou o quanto precisava comer alguma coisa.
Respirando fundo, a jovem foi até o banheiro e ficou um tanto impressionada ao notar sua aparência no espelho. De fato, estava pálida, e as olheiras profundas a deixavam parecendo um zumbi. No entanto, não havia o que fazer além de seguir as ordens de Katherine. No fundo, entendia que a amiga só estava preocupada, como ela mesma ficaria em uma situação reversa.
Tentando ser o mais rápida possível, resolveu tomar uma ducha rápida e gelada, aguentando os protestos de seu corpo. Precisava ficar bem desperta, e ao mesmo tempo tinha uma esperança de que a água fria levaria consigo os tremores que ainda tomavam conta de si.
Até que funcionou. Quando saiu do banheiro, se sentia um pouco melhor, e sua barriga até roncou de fome. A jovem optou por vestir a primeira roupa mais leve que encontrou em suas malas e penteou os cabelos rapidamente para seguir de encontro a Katherine.
No entanto, ao chegar à sala, encontrou a amiga em um clima nada amistoso com Lucy.
— Katherine, você só pode estar louca! Olha a hora que é! Tá tudo escuro lá fora, não podemos nos arriscar saindo assim — Lucinda quase gritava e olhava para Kate com indignação.
— Que hora, Lucinda? São oito da noite. Dá tempo da comer alguma coisa e nós voltarmos. Eu é que não vou deixar a nossa amiga morrer de inanição! — O protesto de Katherine era um tanto raivoso. Ela já tinha um pavio bem curto quando se tratava de Lucy, o que não surpreendeu .
— Não seja dramática. Tenho certeza de que ela aguenta, Kate. O que não vale é vocês se arriscarem com um assassino à solta.
Pensando por aquele lado, Lucy tinha razão, mas jamais se intrometeria.
— Eu estou sendo dramática? Só estou preocupada com a nossa amiga. Você já parou pra ver o estado dela? — Aquilo deixou um tanto constrangida, e ela baixou seu olhar e encarou as próprias mãos enquanto as entrelaçava.
— Não acho que você vai ajudar muito tirando ela daqui no escuro. — Pelo jeito, aquela discussão não teria fim, então, após engolir em seco, resolveu se pronunciar.
— Afinal, onde estão as outras se está tão escuro assim? — Caminhou até as amigas e ignorou seus olhares de surpresa por serem pegas em flagrante.
— Elas foram para a cabana do Derek um pouco depois que você dormiu. — Foi Katherine que respondeu.
— Quem é Derek? — Franziu o cenho em confusão.
— O cara que tava com a Camille na festa. Parece que ele trouxe uns filmes, mas sabemos bem o que isso quer dizer. — O olhar malicioso de Pearson dizia tudo, e até os invejou um pouco por conseguirem se distrair depois daquela tragédia.
— E pelo jeito elas vão ficar por lá, não é? A menos que os rapazes venham trazê-las — Lucy se pronunciou, e Katherine bufou.
— Como se ter um pau fosse impedir alguém de ser assassinado.
— Kate! — arregalou os olhos e notou Lucinda fuzilar a amiga com os seus.
— Mas é! E outra, não acho que ele vai atacar grupos. Julie estava sozinha no banheiro — lembrou.
— Isso é verdade. — Lucy se forçou a concordar.
— Enfim, se te deixar mais tranquila, Lucinda, eu mando uma mensagem para o Tyler e peço pra ele e o River encontrarem a gente. — Kate também cedeu.
não sabia como se sentir com aquilo. Blackwood se tornou uma verdadeira incógnita para ela, e não conseguia confiar em pessoas assim.
— Não totalmente, mas já entendi que não vai adiantar continuar discutindo. — Lucinda suspirou, derrotada.
— Por que você não vem com a gente, Lucy? Vai mesmo querer ficar aqui sozinha? — se agarrou a qualquer coisa que pudesse distraí-la de suas desconfianças.
— Algo me diz que eu realmente vou ficar mais segura aqui, amiga. Mesmo sozinha. — Sorriu minimamente para . — Só não demorem muito, ok? E qualquer coisa me mandem mensagem, ou liguem. Vou ficar de olho no celular.
— Você sempre está, né? — Kate resmungou, e ela revirou os olhos.
Pearson havia puxado seu telefone para de fato enviar uma mensagem a Tyler, mas nem se deu o trabalho de esperar uma resposta. Sabia que ele concordaria e pouparia tempo já percorrendo uma parte do caminho até eles.
— Vamos. Eles estão vindo. — Puxou pela mão, sem nem dar tempo para Lucinda questionar qualquer coisa.
Quando saíram, agradeceu mentalmente por não ter vestido sua blusa de mangas compridas. Mesmo com o vento, o clima estava bastante quente.
— Meu Deus, achei que Lucy ia me enlouquecer agora — Kate comentou, sem soltar a mão da amiga enquanto caminhavam.
De fato, apesar do horário, estava mesmo escuro, o que era um tanto estranho, porque no verão o sol sempre ia se pôr um pouco mais tarde, normalmente entre nove e dez da noite. Talvez fosse algo de Rochester.
Ainda assim, não tornava tudo menos agoniante. lutava para não pensar naquilo e na última vez em que esteve naquela escuridão.
— Ela só está preocupada, Kate. Você sabe como a Lucy é. — tentou se distrair e amenizar as coisas.
— Irritante? Sei, sim. — Katherine implicou e parecia uma criança mimada.
— Nunca entendi essa birra toda entre vocês. — sentiu o olhar indignado da amiga em si, mas apenas continuou a andar, mesmo sem saber para onde exatamente elas iam.
— Não é birra. Gosto da Lucinda, mas nossas personalidades às vezes não encaixam, . Não sei explicar o porquê.
assentiu.
— Bom, ainda acredito que um dia vocês vão conseguir se entender.
— Você é otimista demais às vezes, .
Andaram por mais algum tempo, e o silêncio reinou de uma forma incômoda. E mesmo que houvesse alguma iluminação fraca em alguns trechos do caminho, ainda havia um ar sinistro por ali.
Parecia que elas nunca chegariam.
— Aonde estamos indo mesmo? — resolveu perguntar, já que a amiga não havia se dado ao trabalho de lhe dizer.
— Até a cabana do Kevin, onde os rapazes estão agora. Tenho certeza de que o River vai te alimentar muito bem. — A malícia estava presente em cada uma de suas palavras, mas não conseguiu compartilhar daquele sentimento.
De repente, parecia que seu coração havia parado de bater.
— ? — Kate arqueou uma sobrancelha, ao ver que a amiga havia paralisado em seu lugar e se soltado dela. — ? — repetiu.
Então um estouro ecoou por todo o ambiente e toda a iluminação se foi. Uma densa escuridão tomou conta.
— ! — Katherine chamou com urgência.
— Kate? — Os lábios de começaram a tremer, e o pavor foi tomando conta de si.
Podia jurar que ouvia passos ao seu redor, ela até mesmo os sentia, mas não era possível, estava apenas Katherine e ela ali.
— Ah, meu Deus! , cadê você? — Pearson se desesperou, olhou à sua volta e tateou às cegas.
— Aqui, Kate. Aqui! Segue a minha voz, eu…
— Você trouxe o seu celular? Eu não tô enxergando nada e o meu simplesmente apagou!
— Não, eu não trouxe, eu…
Então um grito cortou a noite, tão desesperado quanto o daquela fatídica festa.
arregalou seus olhos, seu corpo inteiro tremia e sua respiração ficava mais ofegante conforme o medo a dominava.
— Kate, corre! — gritou apavorada.
— Para onde? — Ouviu a amiga responder.
— Corre, amiga! — apenas insistiu e forçou suas pernas a se moverem. Torceu para que Katherine estivesse seguindo na mesma direção que ela.
A cada passo que dava, seu corpo pesava mais, o ar ficava mais escasso, e seus olhos ardiam, na tentativa de enxergar alguma coisa, qualquer coisa, em meio à penumbra.
Sentindo uma espécie de déjà vu, de repente esbarrou em alguém e, segundos depois, uma voz desesperada pôde ser ouvida.
— Quem está aí? — não fazia a mínima ideia de quem era, mas Kate sabia.
— Chloe? — ficou aliviada por constatar que não havia seguido um lado oposto ao da amiga.
— Kate, por favor, me ajuda! — Chloe implorou e começou a soluçar.
Mais uma vez, estava ali. A sensação horrível de que alguém observava.
tentou olhar ao seu redor e temia o que poderia encontrar.
— O que aconteceu, Chloe? Me diz! — Katherine praticamente gritou, agoniada por não saber onde a garota estava e porque o medo a consumia mais a cada segundo.
— Richard… Ele… Ele foi atacado! Foi na hora que as luzes se apagaram. Só consegui ouvir os gritos e o som horrível dos ossos se partindo, e… — Ela voltou a soluçar.
O estômago de Kate se revirou com aquilo, suas mãos até suaram, mas, mesmo assim, a garota tentou tatear para encontrar Chloe ou .
— Chloe, você viu mais algo? Viu alguém se aproximando? — questionou ansiosa e ignorou a sensação horrível que não a abandonava.
— Eu só senti que tinha alguém nos observando e, pra falar a verdade — pausou quando seus lábios tremerem —, eu ainda sinto.
— … — Kate balbuciou, alarmada.
Dessa vez não houveram gritos, apenas o som da carne sendo rasgada e Chloe engasgando em seu próprio sangue.
— Corre, por favor! — gritou esganiçada e voltou a correr por mais que seu coração insistisse que precisava ajudar Chloe.
A garota não podia morrer daquela forma, não tão jovem, mas não havia nada que ou Pearson pudessem fazer além de tentarem escapar com vida.
E, enquanto fugia, aquela sensação não ia embora. Era como se o que a observava a seguisse, não importava o quão rápidos fossem seus passos.
Os pulmões de protestavam. Depois da primeira corrida, ela não estava pronta para outra, e o ardor em seu peito era um alarme ao qual não poderia ceder.
Preferia morrer de ataque cardíaco, enquanto tentava se salvar, do que morrer nas mãos de um assassino, ou o que quer que fosse aquilo.
Como não haviam escutado passos? Uma respiração? Um farfalhar das folhas?
O cansaço falou mais alto, amoleceu as pernas de e, antes que se desse conta, ela desabou.
Que grande ironia. Nunca mais diria que gostava de clichês.
— ? , cadê você? — Kate gritou, sem saber ao certo para onde corria e sem se dar conta de que as duas acabaram se separando.
ainda conseguia ouvir a amiga, porém sua voz se distanciava, e, de repente, todo o ar de seus pulmões havia ido embora, sua garganta se fechou em um nó doloroso e lágrimas brotaram em seus olhos.
Ali, caída, completamente vulnerável e com aquela sensação de formigamento, não conseguia nem mesmo falar.
Ia morrer, tinha certeza. A mesma coisa que matou Chloe, Julie e Richard viria pegá-la e a rasgar daquela mesma forma brutal.
Queria que não doesse, mas sabia que ia doer, e muito.
Não saber por qual lado o assassino viria era agoniante.
— ? — Uma voz conhecida se fez ouvir, e ela não sabia se suspirava aliviada, ou se chorava ainda mais.
— River? — balbuciou, com a voz tão trêmula quanto cada célula de seu corpo, enquanto um ponto de luz se aproximava.
— Sim, sou eu. — Então, de repente, a lanterna do celular dele a iluminou. — Não se preocupe. Você está segura agora.
Ainda não sabia se podia confiar nele, mas ela estava tão desesperada que o deixou entrelaçar a mão na sua e a ajudar a se levantar.
— River, eu estou com tanto medo! — E, num impulso, se agarrou a ele e o abraçou com força.
— Calma, vai ficar tudo bem. Só precisamos voltar para as cabanas. — Blackwood retribuiu, a amparou e passou uma mão por seus cabelos, na tentativa de acalmá-la.
Por alguns segundos, funcionou, qualquer sentimento de desconfiança se dissipava pelo gesto dele e, fungando, afundou seu rosto na curva do pescoço de River e inspirou profundamente.
Foi aí que ela sentiu, mais uma vez, aquele cheiro e aquele gosto metálico.
Ao arregalar os olhos, o soltou imediatamente, apavorada.
A lanterna do celular dele ainda os iluminava, e foi aí que ela percebeu.
— River, por que tem sangue em você? — sussurrou, e se sentiu extremamente estúpida. Como podia ter baixado a guarda daquele jeito? Suas suspeitas então não estavam erradas e…
— O sangue não veio de mim, . Veio de você.
Sem tirar o braço do rapaz de si, rapidamente a moça pegou o aparelho e não hesitou em atender ao ler o nome no visor.
— Lucy? — indagou, ansiosa. Não podia negar que estava agoniada por notícias das amigas que não as acompanharam, especialmente por conta do que aconteceu.
— Cami, vocês estão seguras? — A voz de Lucinda era urgente.
— Estamos aqui na cabana do Derek ainda, amiga. Não sei se estamos seguros em qualquer lugar desse acampamento, mas enfim. — Uma careta se formou em seu rosto e apenas piorou quando ouviu a resposta da amiga.
— Kate e saíram daqui um pouco antes do apagão, dizendo que iam encontrar River e Tyler. Agora eu não consigo falar com nenhum deles. Tentei ligar e todos eles estão sem área.
— Tem certeza de que está ligando para os números certos, Lucy? — Sabia que aquela era uma pergunta idiota, porém a fez como uma forma de ganhar tempo antes de se desesperar.
Por que diabos aquelas duas tinham saído da cabana naquele horário?
No entanto, não poderia julgá-las, principalmente porque, naquele exato momento, Camille desejou sair em busca das amigas.
— Tenho. Claro que tenho. Liguei mais de uma vez e nada, Cami. Não sei o que fazer. — O medo estava evidente em sua voz.
— Você tá sozinha aí, amiga? — Outra pergunta idiota, mas necessária.
— Sim, estou sozinha. Mas não se preocupem comigo, eu estou bem.
— Nada disso, Lucinda. Ninguém pode ficar sozinho, lembra? — Suspirou, num misto de resignação e medo. — Nós vamos até aí.
Imediatamente, Devonne sentiu vários olhares sobre si, porém ignorou.
— Camille, é muito perigoso. Fiquem onde estão! — Lucinda protestou e negou com a cabeça como se a amiga pudesse vê-la.
— Amiga, de jeito nenhum você vai ficar aí sozinha. — Nada a desencorajaria.
— Por favor, bancar a corajosa não é nada esperto nessas horas, Cami.
— E você está fazendo o que, Lucy? Sossega aí. Daqui a pouco chegamos.
— Camille… — Sem deixar Lucinda protestar mais uma vez, Devonne encerrou a ligação.
— O que tá acontecendo? — Lorraine se pronunciou. A garota estava sentada no chão, entre Sophie e um rapaz que Camille tinha quase certeza de que se chamava Joshua. Ela não tinha uma memória tão boa com nomes, só não trocou o de Derek porque já havia errado umas cinco vezes no dia da festa.
— Lucy está sozinha na cabana. — Se desvencilhou do rapaz para poder olhar melhor para as amigas.
— E onde estão e Kate? — Sophie franziu cenho e saiu da posição um tanto relaxada em que estava para se sentar mais ereta.
— Saíram para encontrar Tyler e River. Lucinda tentou ligar para eles, mas todos estavam sem sinal. — Cami tentava não ficar ainda mais em alerta ao pensar nos quatro lá fora, mas suas palavras tiveram exatamente o mesmo efeito em Lorraine.
— Meu Deus, onde foi que eles se meteram? E se aconteceu alguma coisa? Essa queda de luz foi muito estranha, Camille.
— É por isso que nós vamos até a Lucy. No caminho, podemos passar pela cabana do River e ver se as duas estão lá. — Devonne parecia determinada.
— Vocês estão malucas? — Derek se meteu na conversa. — E se aquela coisa que matou a Julie estiver lá fora?
— Pode estar mesmo. Ou talvez a ideia seja fazer todo mundo pensar que a coisa está lá fora para atacar dentro das cabanas — Joshua, ou qualquer que fosse seu nome, se pronunciou e fez as atenções se voltarem para ele.
— Ou seja, podemos morrer de qualquer jeito. — Um terceiro rapaz apareceu, e Camille levou um susto. Tinha até esquecido que ele estava no banheiro.
— Cale a boca, Paul! Você e o Josh são muito otários — Derek ralhou com eles, por mais que, no fundo, concordasse.
As três mulheres se entreolharam, então Sophie bufou.
— Já chega. Vamos logo atrás delas. — E se levantou, vendo as amigas fazerem o mesmo.
— Vocês vão mesmo se arriscar? — Paul ergueu uma sobrancelha, surpreso.
— Ué, você mesmo disse que corremos risco de qualquer jeito. Antes a gente se arriscar tentando fazer alguma coisa, do que ficarmos paradas e encolhidas num canto. — Lorraine deu de ombros e seguiu até a porta, que Camille já segurava aberta.
— Esperem! — Derek suspirou, sabendo que aquela era uma péssima ideia. — Nós vamos com vocês.
Nenhuma das três admitiria, mas quando saíram e a porta se fechou atrás do grupo, desejaram dar meia volta e retornar ao conforto da sala da cabana. Ao menos ali as coisas estavam mais visíveis do que do lado de fora.
— Alguém liga a lanterna do celular, por favor? — Sophie pediu, ao perceber que seu aparelho simplesmente não acendia. Jurava que a bateria estava quase inteira.
— Não dá, meu celular tá morto. — Paul pensava exatamente a mesma coisa que ela sem nem se dar conta.
— O mesmo aqui — Derek concordou, seguido pelos outros três.
Era bizarro demais que de repente seis celulares estivessem apagados. Como se fosse algo proposital.
Enquanto caminhavam, havia um silêncio sepulcral que arrepiava até os ossos. Os passos eram mais curtos, numa tentativa de impedir que acabassem se separando, e seus corpos tremiam num misto de frio e pavor.
Lorraine conseguia sentir as lufadas de ar que ela mesma soltava baterem contra seu rosto, e o fato de serem quentes era a garantia de que tudo aquilo era real e não parte de um pesadelo. Se não estava enganada, Sophie estava na frente dela, e Joshua logo atrás, então a jovem tateou em busca da mão da amiga. Não podiam mesmo se separar, algo dizia a ela que se manterem em grupos era sua melhor chance.
Os dedos frios de Sophie haviam acabado de se entrelaçar aos dela quando gritos cortaram o silêncio e, uma vez iniciados, não pararam mais. Imediatamente, os batimentos de Lorraine aceleraram, suas mãos suaram e escorregaram do toque da amiga e ela ofegou, prestes a ignorar tudo para sair correndo.
Mas para onde iria? E se acabasse seguindo justamente para os braços da morte?
Ninguém ousou dizer uma palavra sequer, mas Lorri sentia as presenças ao seu redor e continuou a caminhar, convencida de que, mesmo não tendo certeza se seguia na direção correta, ao menos não estava sozinha. Ainda assim, por mais que o sentimento devesse acalmá-la de alguma forma, não era o caso. Talvez porque, quanto mais andava, mais a escuridão parecia aumentar.
Tendo a certeza de que, a qualquer momento, seu coração saltaria pela boca, Lorraine prendeu a respiração quando avistou, em um ponto não muito distante, o brilho pertencente a uma lanterna.
— Gente, olha! — Agitada, apontou, e já seguiu em direção à luz. Com certeza os outros também iriam descobrir o que era.
A jovem havia dado alguns passos, quando percebeu que ninguém a respondeu, então parou de caminhar e franziu o cenho.
— Gente? — chamou, com a voz trêmula.
Como era possível? Seus amigos estavam ali com ela há segundos, não poderia ter se afastado tanto assim.
Então, de repente, lhe ocorreu que mesmo que os sentisse ao seu redor, Lorri não havia escutado as respirações e muito menos os passos de nenhum deles. Além de os dedos de Sophie estarem frios até demais.
De repente, seu peito congelou, um bolo se formou em sua garganta e, se tivesse forças, certamente seus gritos se juntariam a tantos outros a cortarem a noite.
Olhando em volta, como se de repente fosse dar de cara com o assassino, Lorraine ofegava conforme o desespero tomava conta de si, e, ao recuperar o movimento das pernas, se pôs a correr em direção à luz.
Não sabia se aquilo era burrice, mas precisava fazer alguma coisa, seguir para algum lugar. De uma forma completamente bizarra, de repente estava sozinha, e o quanto antes saísse daquela escuridão para poder se situar, melhor.
O brilho se tornou mais intenso, indicando que ela estava cada vez mais perto, e logo Lorri imaginou que, pela altura da luz, quem a segurava provavelmente havia se agachado.
Apressou ainda mais seus passos e, em dado momento, pôde jurar que sentiu a presença de alguém ao seu lado. Seu corpo quis paralisar outra vez, mas Lorraine tentou ser o mais forte possível e, quando deu por si, havia chegado ao local de onde vinha a luz.
Um lado seu dizia a todo momento que correr até ali era burrice, e Lorri descobriu da pior forma que esse lado estava certo.
O brilho vinha mesmo de uma lanterna, porém seu dono não estava agachado, como a jovem supôs. Ele estava sentado, e o aparelho frouxo em uma das mãos caída ao lado do corpo. Lorraine o reconheceu de imediato, era um dos seus colegas de turma mais queridos.
— Richard! — Sua voz ecoou fraca e esganiçada, e Lorri se aproximou, enquanto encarava a cena em completo horror. Uma cena que para sempre ficaria marcada em suas lembranças.
Richard estava com seus olhos abertos, expressando pavor e surpresa ao mesmo tempo. O sangue a escorrer por seu pescoço denunciava que o ataque poderia ter acabado de acontecer e, ao engolir a seco, trêmula, a jovem chegou ainda mais perto, se agachou ao lado do rapaz e pegou sua mão livre para checar a pulsação.
Tentou não olhar para os cortes grosseiros no pescoço de Richard. Era como se tivessem falhado uma tentativa de decepar sua cabeça, e aquilo a fez tremer ainda mais, o que dificultou sua tarefa de encontrar algum pulso, mas no fundo ela sabia que não era necessário. Richard já estava morto.
Despencou ao lado dele, escondeu o rosto nas mãos e chorou copiosamente, sem conseguir acreditar que fariam mal a alguém como Richard, ao mesmo tempo em que temia pela própria vida.
Será que Paul estava certo? Todos morreriam de qualquer jeito?
— Não! Não! — Sua voz escapou em um fio, tomada pelo desespero, pelo pavor e um pedido de socorro. Não acreditava que teria forças para se levantar dali, não depois do que havia visto.
Então, pela terceira vez, ela sentiu uma presença bem ao seu lado.
Engoliu em seco e reuniu uma coragem que nem sabia que tinha para erguer o olhar em sua direção.
Mais um grito desesperado ecoou de seus lábios e uma pancada forte atingiu sua bochecha direita.
piscou os olhos demoradamente e custou a processar o que havia acabado de ouvir, enquanto um desconforto se formava em seu estômago. Não conseguia e nem queria acreditar naquilo. Como o sangue veio dela? Aquilo não fazia sentido nenhum.
— Você está mentindo, River! — Queria ter mais firmeza na voz ao dizer aquilo, mas a verdade era que o medo a deixava cada vez mais trêmula.
— Não estou, . Aqui, olhe. — Então apontou a lanterna para as mãos dela, depois foi subindo por sua roupa até quase mirar o rosto de .
Um grito ecoou dos lábios dela. De fato, Blackwood não mentia. Suas mãos estavam mesmo cheias de sangue e havia respingos por toda a sua roupa.
ergueu uma das mãos e quis tocar seu rosto para ver se também estava sujo, mas lembrou que não tinha como.
— Sim, tem no seu rosto também — River confirmou, em um tom cuidadoso, porém notou um certo receio ali.
De repente, tudo ao redor dela parecia girar, e a escuridão ao seu redor diminuiu até formar um círculo que a sufocava. Como aquilo havia acontecido? Ela sequer havia encostado em Chloe.
A garota foi morta em sua frente, jamais conseguiria esquecer a cena, e isso poderia explicar os respingos em sua roupa e rosto. Mas e suas mãos?
Então se lembrou dos pesadelos, e o desespero cresceu ainda mais dentro de si.
— Não, não, não! — Balançou a cabeça em negação várias vezes, seus olhos transbordaram lágrimas e ela agarrou os cabelos com as mãos, sem se importar mais se os sujava, porque provavelmente também já estavam assim.
— … — River tentou se aproximar ao ignorar tudo aquilo para tentar acalmá-la.
Por que ele não estava correndo dela? O sangue em suas mãos era incontestável, não era?
— Não, não… — ela continuou a repetir, com uma esperança ridícula de que assim acabaria descobrindo que tudo não passava de mais um daqueles pesadelos horríveis.
— , me escuta! Eu posso te ajudar, mas você precisa se acalmar.
o encarou por alguns segundos, então negou com a cabeça mais uma vez.
— Ninguém pode me ajudar.
Sem deixá-lo responder, se afastou e correu para longe dele o mais rápido que pôde. A escuridão mais uma vez não a deixava enxergar, porém não se importou, apenas apertou seus passos.
Não soube dizer exatamente por que fugiu dele. O desespero dentro de si aumentava a cada segundo, e pensamentos estranhos surgiam em sua mente.
Seria ela a assassina? Será que tinha uma personalidade psicótica responsável por aquelas mortes?
Não, aquilo não podia ser verdade.
Talvez estivesse tentando ajudar alguém. Mas por que não se lembrava?
Seus pensamentos foram cortados por um grito apavorado e, correu na direção dele sem hesitar ou se importar com mais nada.
De repente, já não tinha mais certeza de onde havia saído o som, e o desespero voltou a falar mais forte, a fazendo correr a esmo até suas pernas protestarem e, ainda assim, a garota prosseguiu, até cambaleando.
Então, mais uma vez, sentiu aquele calafrio denunciando que alguém a observava. Tentou ignorá-lo, mas, a cada segundo, o vulto parecia mais próximo, a ponto de uma baforada quente atingir sua nuca, exatamente como havia acontecido naquela noite.
só se deu conta de ter corrido para a floresta quando seu corpo bateu contra o tronco de uma árvore.
Deixando o som muito parecido com um ganido escapar de sua boca, ela agarrou a planta com força e se apoiou ali, sem forças para continuar a correr. Seus pulmões protestavam tanto que até ardiam, e a jovem sabia que, se insistisse, acabaria desmaiando.
Ergueu uma das mãos na altura dos olhos. Não conseguia mais enxergá-la com clareza devido à escuridão, mas o cheiro do sangue deixava claro que tudo aquilo era real.
Reprimiu um grito, seus lábios tremeram e foram seguidos pelo seu corpo, enquanto um choro mudo escapava. Que droga acontecia? Por que aquela maldita sensação de que alguém estava ali com ela não ia embora?
— Por que tão desesperada, amor? — A voz estava diferente de quando a ouviu pela primeira vez, mas podia sentir que era a mesma. Havia um tom aveludado e distorcido ao mesmo tempo, e como não tinha como tapar a boca com as mãos, prendeu a respiração e reprimiu o grito que queria soltar.
Muito mais nítida do que antes, agora sentia muito mais do que uma baforada quente. Havia mesmo alguém ali com ela. Alguém que parecia cheirar seus cabelos profundamente e depois fazer o mesmo com seu pescoço, soltando outra lufada de ar em seguida.
A jovem pressionou os lábios com mais força, os mordeu e deixou lágrimas escorrerem por suas bochechas.
Então seria assim que morreria? Sem entender o que acontecia? Sem ver o que acontecia?
No entanto, ao mesmo tempo, ela não queria ver. Temia o que encontraria diante de seus olhos. Temia a morte mais do que qualquer coisa.
Uma risada maldosa ecoou em seus ouvidos.
— Não seja tola. Tenho certeza de que, se olhar à sua volta com a devida atenção, encontrará todas as respostas. Mesmo essa sobre a sua morte.
franziu o cenho. Aquilo ouvia seus pensamentos?
— Não apenas seus pensamentos. — Outra risada ecoou, e trincou os dentes, subitamente irritada com aquilo, então esticou as mãos para tentar tocar quem a atormentava daquele jeito.
O riso se prolongou ainda mais, e o coração de de repente subiu até a garganta, porque seus dedos apenas tocaram o ar, mas a presença ainda estava ali.
Atordoada, a jovem se desencostou da árvore e voltou a cambalear pela floresta o mais rápido que podia, enquanto implorava que estivesse conseguindo deixar aquilo para trás a cada passo dado. Só esperava que aquela fosse a direção que a levaria de volta às cabanas. Uma vez lá, sabia muito bem o que faria.
— ? , cadê você, garota? Isso não tem graça nenhuma! — Katherine ralhava, com seus olhos inundados pelas lágrimas. Já havia chamado o nome da amiga tantas vezes que sabia muito bem que não era uma brincadeira, mas, ainda assim, tinha esperanças.
Não fazia ideia de quanto tempo passou desde que as duas acabaram se separando. Na verdade, ela ao menos tinha visto quando aquilo aconteceu. Em um minuto, as duas estavam juntas, socorrendo Chloe, e, no seguinte, Kate corria e chamava por .
Evitava pensar no pior. Evitava imaginar que teve o mesmo destino e poderia estar morta, enquanto ela vagava pelo acampamento e chamava seu nome. era forte demais para morrer daquele jeito, não era?
Sim. Um dos motivos por Katherine admirá-la tanto era justamente a força que a mulher tinha. A persistência, a teimosia em não se deixar abater nem mesmo se já estivesse atirada ao chão. a inspirava de maneiras que nem se dava conta, e Pearson costumava dizer que nunca saberia ou ficaria convencida demais, porém, naquele momento, ela daria qualquer coisa para poder dizer aquilo à amiga.
— Kate? — A voz que a chamou era diferente da que esperava, mas, ainda assim, a jovem se sentiu aliviada por ouvi-la.
— Tyler! — Odiou não poder enxergá-lo, mas, de repente, uma luz fez seus olhos arderem e ela piscou, incomodada.
Whitmont a abraçou com força e, por um momento, Katherine sentiu que poderia morar nos braços dele, mas então franziu o cenho ao perceber que a luz vinha da lanterna de River, parado logo atrás dos dois.
— Por que tem sangue nas suas roupas? — Não fez nem questão de disfarçar o tom de desconfiança.
— …
Os olhos de Kate se arregalaram, a cor sumiu de seu rosto, e ela quase desfaleceu nos braços de Tyler.
— O quê?
— Eu a encontrei, Kate. Ela estava cheia de sangue nas mãos e na roupa. Tentei ajudá-la, mas ela simplesmente saiu correndo — Blackwood explicou e se sentiu culpado por assustar a garota daquele jeito, ao mesmo tempo em que não sabia como fazer para que as coisas não parecessem tão incriminadoras para .
— Não. Não pode ser. Eu estava com ela, River. A não fez nada! — Katherine protestou imediatamente e ignorou os momentos em que se perderam uma da outra. Ela confiava demais na amiga, sabia que era incapaz de qualquer crueldade.
— Talvez estivesse tentando ajudar alguém, não sei. Mas precisamos encontrá-la logo.
Pearson apenas assentiu e deixou Tyler entrelaçar os dedos nos seus para que seguissem de mãos dadas.
— Acham que ela pode ter voltado para a cabana? — Whitmont pensou alto.
— Pode ser que sim. Mas do jeito que está escuro, não sei. — River estava certo, é claro. O que levou Katherine à segunda pergunta.
— Como o seu celular tá funcionando?
— O quê?
— Meu celular simplesmente morreu quando o apagão começou, e tenho quase certeza de que o da Chloe também. Por que o seu tá funcionando, River?
Blackwood a olhou como se fosse louca.
— Não é um celular, Kate. É uma lanterna, olha. O meu também parou de funcionar. — Ele esticou o objeto e abriu a palma da mão virada para cima.
Katherine sentiu o rosto esquentar na hora.
— Desculpa. Acho que esse lugar tá me enlouquecendo.
River soltou uma risada baixa.
— Você não é a única.
— Silêncio, vocês dois! — Tyler disse, de repente, e arrancou olhares indagadores dos dois.
Whitmont podia jurar ter ouvido vozes e acabou descobrindo não estar errado segundos depois.
— Lorraine! Pelo amor de Deus, Lorraine! — A voz de Sophie ecoava chorosa.
— Lorri! Lorri, onde você está? — Cami gritava em seguida, e mais três vozes masculinas também chamavam pela garota.
Sem pensar duas vezes, Katherine seguiu na direção de onde achava vir os sons, com os dois rapazes em seu encalço.
Mal acreditou quando, de fato, encontrou as amigas.
— Kate? KATE! — Camille pulou em Pearson, a abraçou com força, e logo Sophie se juntou às duas.
— Pelos deuses, ao menos vocês estão bem — Katherine suspirou, parcialmente aliviada.
— Como assim, pelo menos a gente? — Sophie franziu o cenho e se afastou do abraço.
— Não encontro de jeito nenhum. River foi o último a vê-la.
— Também não encontramos a Lorri. Do nada, ela se separou do grupo — Cami contou, e todos se entreolharam ao sentirem arrepios os alertarem para sair dali o mais rápido possível.
— Vamos dar um jeito de encontrá-las, mas precisamos ficar juntos, ou iremos nos separar mais ainda. — River estava sério, e todos concordaram.
O desejo de voltarem correndo para as cabanas gritava, mas o de encontrar Lorraine e com vida era muito maior.
As pernas da jovem protestavam a cada passo dado. A sensação era a de estar correndo por quilômetros e mais quilômetros sem estar sequer perto de uma saída.
Não fazia ideia de para onde ia, não tinha noção alguma de direção, e sua única certeza era de que não importava para qual lado seguisse, a escuridão ficava ainda mais densa, os sons ao seu redor mais abafados, e a sensação constante de ser observada a perseguia.
não aguentava mais. Precisa colocar um fim naquilo, e se tudo não passasse de um pesadelo, precisava acordar. Simplesmente não era possível correr tanto e não chegar a lugar algum.
— Será que estou enlouquecendo? — Sua voz ecoou tão fraca que mais parecia um sussurro, e sua garganta reclamou daquele pequeno esforço. Apenas naquele momento a mulher se deu conta do quanto precisava de água.
De repente, pensou em desistir. Em simplesmente se permitir despencar em meio às folhas e morrer ali mesmo, desamparada, fraca e sozinha.
No entanto, aquela não era . Ela jamais desistia de nada, e suas amigas viviam reclamando do quanto era teimosa.
Pensar nas amigas, de alguma forma, renovou suas forças. O que estaria acontecendo com elas? Será que Katherine estava tão sozinha quanto ela?
Precisava encontrá-las, precisava…
Mais uma vez, sentiu uma presença muito próxima a ela. No entanto, não era igual àquela a espreitando, e, mesmo sem conseguir enxergar direito, de alguma forma soube que precisava olhar para frente.
Como se o brilho da lua de repente surgisse e se voltasse na direção dele, o identificou, e aquilo a fez franzir o cenho, tendo a certeza de que de fato estava enlouquecendo.
— ? — chamou e mal acreditou em seu tom de voz um pouco mais nítido, embora ainda rouco.
Sem pensar direito, correu mais uma vez. Sem ligar para os protestos de suas pernas, sem ligar para o ar quente ainda baforando em seu pescoço, sem sequer olhar por onde corria. De qualquer forma, ela não conseguiria enxergar o chão sob seus pés mesmo.
Um grunhido escapou de seus lábios devido ao esforço. Seus pulmões reclamaram e começaram a arder mais intensamente do que antes, era como se as chamas os tomassem. Não demorou muito para que ela se desse conta de que a sensação se espalhava por todo o seu corpo, enquanto suas narinas eram tomadas por um cheiro que lhe causava mais náuseas que o do sangue agora seco em suas mãos. não conseguiu identificar ao que pertencia, mas não importava. Seu único propósito era alcançar . Como se estar perto dele fosse de fato resolver toda aquela loucura.
Ela estava cada vez mais perto, podia sentir. O brilho da lua se aproximava dela, levava embora os resquícios daquela escuridão perturbadora, e, em resposta, seu corpo todo parecia arder mais.
pôde jurar ter ouvido aquela mesma risada horripilante quando, de repente, o chão cedeu abaixo de seus pés, então a garota despencou com violência. Sua garganta queimou quando um grito de surpresa e pavor ecoou de seus lábios. Grito que se calou subitamente e foi substituído pelo baque alto de seu corpo atingindo o chão de um buraco tão profundo que lhe exigiria muito esforço para escapar.
A náusea pareceu triplicar com a dor lancinante que irrompeu em sua cabeça, e o mundo girou tanto que simplesmente não conseguiu suportar. Segundos depois, foi tomada pela inconsciência, certa de que lutar seria inútil.
No entanto, tão subitamente quanto sua queda, abriu seus olhos, e estes protestaram mesmo com a iluminação fraca ao seu redor. A dor continuava a deixar tudo embaçado e, quando tentou se sentar, sentiu a bile subir com tanta intensidade que só teve tempo de se curvar para o lado e colocar tudo para fora. Não quis olhar exatamente o que havia vomitado, se conhecia o suficiente para saber que aquilo a enjoaria mais.
Puxou o ar com força, e seu peito se sacudiu em soluços que doeram tanto quanto a queimação em sua garganta, porém precisava se levantar. Precisava arrumar forças para escapar daquele maldito buraco, ou para gritar por ajuda. estava ali perto, não estava?
conseguiu se sentar, foi erguendo seu corpo devagar, já previu a tontura quando finalmente seu tronco ficou ereto, e usou uma mão para buscar algo onde pudesse se apoiar. Seus olhos se arregalaram quando a jovem sentiu uma superfície plana e, com uma maldita sensação de déjà vu, de repente prestou atenção ao seu redor e se viu de volta àquele mesmo corredor.
— Não, não, não! De novo, não! — Não sabia se eram sons a ecoarem de sua boca, ou seus pensamentos sussurrando desesperados. Ignorando a tontura, abraçou o próprio corpo, apenas para descobrir a textura daqueles mesmos trajes estranhos. — Não! — O grito ecoou esganiçado e se perdeu pela extensão do lugar.
Queria ficar ali, se jogar no chão e continuar chorando até finalmente morrer. Sabia que, pela pancada em sua cabeça, aquilo poderia não demorar muito, mas então ouviu uma segunda voz.
— Socorro!
Uma voz que ela conhecia muito bem e não precisava ouvi-la novamente para saber a quem pertencia, mas, ainda assim, esta ecoou como uma confirmação.
— Por favor, alguém me ajude!
— Lorraine! — Sem hesitar mais, cambaleou pelo corredor.
Tudo parecia girar com mais intensidade, sua visão estava cada vez mais embaçada, e sua cabeça doía tanto que acabaria vomitando novamente, mas nada daquilo importava.
De repente, havia várias portas naquele corredor, e o desespero a fez testar cada uma delas, grunhir por não abrirem e sentir seu coração apertar mais a cada segundo.
Aquele mesmo cheiro nojento aumentava ainda mais sua náusea, e sua boca foi tomada pelo gosto metálico, algo que ignorou e colocou o máximo de força em suas pernas para que conseguisse correr.
— Consigo sentir o gosto do seu medo, amor. É viciante. — A voz ecoou tão próxima que a jovem sentiu as palavras contra seu ombro esquerdo.
— Não! Lorraine! — Negou com a cabeça, tentou ser forte pela amiga e testou mais portas, até que, assim como em todos os pesadelos, avistou uma delas já aberta.
Seu coração acelerou, dando a ela a certeza de que ali estaria Lorri e, mesmo temendo o que encontraria, seguiu adiante.
Ao contrário do que imaginava, o grito simplesmente ficou preso em sua garganta. Desejando no mais profundo do seu ser que aquilo tudo realmente não passasse de mais um pesadelo, seus passos vacilaram, e sentiu que desfaleceria a qualquer momento.
Lorraine estava exatamente como em suas visões, pendurada com correntes a segurando pelos braços. O corpo nu estava coberto de sangue e uma outra substância mais escura, e sua cabeça pendia para frente, quase como se a mulher estivesse desmaiada.
— Lorri? Lorri, acorda, por favor! — Suplicante, se aproximou, e pediu mentalmente qualquer sinal de que a amiga ainda respirava.
Ergueu uma mão trêmula ara tocá-la enquanto pensava numa maneira de tirar a amiga dali, porém foi interrompida quando Lorraine ergueu a cabeça de repente e começou a gritar.
Por um momento, jurou que a amiga gritava olhando para ela, até perceber que Lorri encarava algo atrás de si.
Um arrepio percorreu sua espinha, o medo a paralisou e seu cérebro começou a protestar para correr dali o quanto antes, mas ela não deixaria Lorraine para trás, mesmo sem coragem de encarar o que a apavorava tanto.
— , corra! Por favor, corra e saia desse lugar agora! — Parecia que Moore conseguia ouvir seus pensamentos, e simplesmente negou com a cabeça.
— Não vou deixar você!
— , por favor!
Ao suspirar fundo, se virou, num ímpeto de coragem, pronta para enfrentar o que fosse.
Mas não havia nada lá.
Não havia nada, e Lorraine continuava olhando como se houvesse.
Talvez apenas não conseguisse ver, ou…
— Ele está vindo, . Por favor! Você precisa sair daqui. Precisa ir embora desse lugar e buscar ajuda antes que seja tarde demais!
— Lorri…
— Vá, ! — Não havia nada que a fizesse negar algo aos olhos brilhantes de Lorraine.
nunca imaginou que fosse capaz de deixar uma de suas melhores amigas para trás daquela forma, mas o aviso foi tão urgente que, de repente, ela corria outra vez por aquele corredor, completamente despedaçada e se agarrando aos seus últimos fios de esperança.
Sem saber onde daria, apenas seguiu em frente até sentir uma luz forte praticamente cegá-la.
De um jeito completamente perturbador, de repente, a jovem estava em outra área de cabanas e, ao olhar para uma delas, onde havia claramente um carro estacionado, ela também avistou mais uma vez.
Por que ele sempre aparecia daquela forma para ela?
E como, mais uma vez, estava com suas roupas comuns e ensanguentadas?
Não importava. Precisava ajudar Lorraine. Precisava fazer o que a amiga havia pedido.
Sem pensar duas vezes e ignorando completamente seu estado, correu até e o viu vencer a distância entre os dois quando a notou ali.
— ? O que…
— Esse carro é seu? — Ela o cortou e deixou de lado aquela lembrança de tê-lo visto na floresta. Não conseguia entender metade das coisas que aconteciam, mas faria o que estava ao seu alcance.
— Sim.
— Então me tira daqui. Agora! — arregalou os olhos.
— …
— Agora! — gritou e correu até o banco do carona, abriu a porta e ocupou o lugar, ao ouvir o clique anunciar que o rapaz havia destravado o veículo.
simplesmente deu a volta e se sentou no lugar do motorista, deu partida e seguiu para fora do acampamento.
Percebeu a forma como tremia e o quanto estava apavorada. O melhor a fazer era apenas seguir o que a jovem pedia e deixar explicações para depois.
— Para onde você quer ir? — questionou somente aquilo, a olhou com preocupação e procurou qualquer resquício de que ela estivesse ferida, algo um tanto difícil, já que estava com sangue por toda parte.
— Para a primeira cidade longe de Rochester, . Eu sinto que preciso buscar ajuda em qualquer outro lugar que não seja esse.
Quando ela se virou para olhá-lo, percebeu as lágrimas que a jovem continha e suspirou para tentar dizer o que já devia saber, mas não se dava conta.
— … — Tentou, mas ela o interrompeu mais uma vez.
— Por favor, — insistiu, chorosa. — Preciso ajudar Lorraine. Preciso salvar meus amigos…
O rapaz assentiu e pisou o acelerador ao pegar a estrada.
Havia algo um tanto aliviador em ver as árvores passarem rapidamente pela janela. quase conseguia ver a si mesma correndo desesperada entre elas momentos antes, e saber que estava prestes a deixar aquilo para trás quase a fazia poder respirar novamente.
Antes mesmo de ver a placa de limite entre as cidades, sentiu que a esperança se aproximava e acabou deixando as lágrimas escorrerem pelo seu rosto assim que avistou a sinalização.
— Finalmente… — Suspirou. Estava apenas há alguns dias naquele lugar, mas parecia uma eternidade, tamanho o tormento que passavam.
Ela enfim estava prestes a se libertar e conseguir ajudar suas amigas.
Prendeu a respiração e sua mão de repente procurou a de quando finalmente cruzaram a fronteira. Ele não recusou, entrelaçou os dedos nos dela, ignorou o sangue ali presente e engoliu a seco. A jovem não percebeu, mas sabia muito bem o que estava por vir, e por isso tentou avisá-la várias vezes.
O rosto de se iluminou ao ver uma segunda placa surgir e quando finalmente ela conseguiu ler o que dizia, a expressão se desfez e seu coração simplesmente pareceu parar de bater.
Sejam bem-vindos à Rochester.
fechou os olhos, em uma esperança tola de que seria o suficiente para espantar toda aquela loucura. Com toda a certeza, ao abri-los veria que o pânico a fez ler errado e naquele momento os dois adentravam qualquer cidade vizinha.
No entanto, pensando bem, conhecia alguma cidade ao redor de Rochester?
Por que de repente não conseguia nem ao menos lembrar o nome de alguma?
— Não! — continuou a murmurar e tornou a abrir os olhos, só para descobrir que, de fato, nada daquilo era uma ilusão, o que também não fazia sentido algum. — Não! — Os sussurros foram substituídos por um grito desesperado, e não importava o quanto tentasse se acalmar, a mulher simplesmente não conseguia.
— … — Talvez aquela fosse a milésima vez que a chamava, porém não saberia dizer. Sequer havia o ouvido antes.
— Para o carro! — soltou, de súbito, e fez franzir o cenho, levemente confuso.
— — repetiu o nome dela, tentando usar o tom mais tranquilizador possível, porém sabia que aquela era uma batalha perdida.
— Para o carro, ! Agora! — Mais uma vez, gritou, e a obedeceu com uma freada brusca que até lançou o corpo da mulher um pouco para frente.
Sem conseguir controlar o tremor em suas mãos, se atrapalhou enquanto tirava o cinto e acabou se embolando de tal forma que precisou da ajuda de para se soltar.
— , espera. — Talvez ele não devesse destravar o cinto, porque sabia o que aconteceria, porém não se viu capaz de negar qualquer coisa que fosse à .
não disse nada, sequer agradeceu.
Assim que se viu livre do cinto, a mulher abriu a porta do carona e saiu disparada.
— O que está fazendo, ? — Aquela era uma pergunta tola, já que ele sabia a resposta, mas tinha a esperança de conseguir a atenção de , assim poderia tentar acalmá-la de alguma forma.
— O que você acha? — se virou rapidamente para encará-lo e gesticulou como se estivesse dizendo algo óbvio. — Se não posso sair desse lugar dirigindo, eu irei andando!
suspirou sonoramente. De certa forma, sabia que não adiantaria argumentar com ela. precisava obter todas as constatações sozinha.
— Você não pode… — ele murmurou, mais para si mesmo.
Ainda assim, o ouviu, e aquelas palavras tiveram um efeito totalmente contrário. Em vez de paralisar, a mulher apurou ainda mais seus passos, determinada a alcançar uma barreira que estava apavorada demais para perceber que os dois já haviam cruzado antes.
Sabia bem o que estava acontecendo, não era idiota, mas era teimosa e não desistiria sem tentar de todas as maneiras.
Prendendo a respiração, não hesitou assim que avistou mais uma vez a placa de limite entre cidades.
Aquela maldita placa.
Então atravessou.
E para seu completo pavor, percebeu que, de repente, estava a alguns metros da barreira novamente.
— Não! — Mal sentiu as lágrimas molharem suas bochechas e dessa vez correu para tentar cruzar os limites mais uma vez.
E, novamente, se viu afastada da placa. Afastada da saída.
— Não! Por favor, não! — Correu mais uma vez, e quando sua quarta tentativa foi frustrada, simplesmente perdeu as forças e desabou no meio da rua, caiu de joelhos e se sentou no asfalto.
Cobrindo o rosto com as mãos, sentia o gosto salgado das próprias lágrimas e estava tão difícil de respirar naquele momento!
Não podia negar, no entanto, que seria muito mais fácil se ela simplesmente deixasse de tentar.
— Ei, não diga isso! — se aproximou rapidamente, se abaixou ao lado dela e tocou seu ombro.
se assustou com aquilo. Tinha certeza de que não havia dito aquele pensamento em voz alta, então como ele sabia?
Seu primeiro instinto foi se encolher e se lançar para longe de .
— Não encosta em mim. — Lutando contra o nó que se formou em sua garganta, murmurou entredentes.
Como não havia pensado naquilo? sempre estava por perto quando aquela coisa sussurrava em seus ouvidos.
E se a coisa fosse ele brincando com sua sanidade?
fez uma careta que era um misto de surpresa e uma certa indignação.
— O quê? — A pergunta escapou em um tom tão incrédulo quanto sua expressão.
No entanto, não hesitou. Estava certa de que o causador daquilo tudo era ele.
— Você me ouviu. Não encosta em mim e fique longe da minha cabeça! Não sei como faz isso, mas chega! — Por mais trêmula que se sentisse, aquilo não transpareceu na voz da mulher, que ecoou firme e exigente.
não sabia o que o chocava mais. Se era aquela acusação, que ele captou muito bem, se era coragem da mulher em enfrentá-lo mesmo desconfiando dele, ou se era a resiliência de .
— Tudo bem. Se não quer que eu te toque, tá tranquilo. Mas você está enganada, . — usou o tom mais gentil que pôde, e aquilo fez a mulher estreitar os olhos.
— Não me tire para idiota, . Se é que esse é o seu nome mesmo.
Ele precisou de alguns segundos para digerir o fato de que ela tinha passado de uma garota assustada para alguém que exigia respostas em uma fração de segundos.
— , me escuta. Não estou te enganando e nem mexendo com sua cabeça. Eu estou…
— Está o quê? — o interrompeu, com os nervos à flor da pele.
Enquanto o ouvia, ela tentava se lembrar de como os sussurros soavam e comparava com a voz de .
De repente, elas não pareciam em nada, e não sabia o que era pior.
— Estou tentando te proteger.
— Me proteger do quê? O que é isso? Que lugar é esse? Por que não conseguimos sair daqui? O que é você?
Outra vez, em um piscar de olhos, a mulher desabou e disparou perguntas desesperadas.
A cada segundo, sua voz ficava mais esganiçada, e sentiu uma vontade gritante de correr até e abraçá-lo, da mesma forma que sentiu na floresta. No entanto, não o faria. Não sabia se podia confiar nele e, por hora, não queria dar o braço a torcer.
reprimiu um pequeno sorriso de canto, porém percebeu, e a vontade de abraçá-lo mais uma vez foi intercalada pelo medo.
— Você não vai acreditar em mim se eu responder todas essas perguntas — disse, simplesmente.
— Isso não importa. Só me responde e me diz como, diabos, você consegue ouvir os meus pensamentos! — Aquilo era loucura demais para se assimilar. estava tonta e enjoada.
— Ninguém pode sair dessa cidade depois que entra nela, . Nunca mais.
Ele estava certo, não devia ter respondido nada, e não era porque não acreditava, mas porque, de repente, tudo ao redor da garota pareceu escurecer, ao passo que sua garganta se fechou ainda mais.
abriu a boca, tentando respirar, tentando dizer algo, mas simplesmente não conseguiu. Seus olhos transbordaram em lágrimas mais uma vez e ela quis espernear, porém, de repente, não encontrava forças.
— ? — Parte de sua consciência captou que havia se aproximado e a segurava pelos ombros, olhava nos olhos dela e tentava atrair sua atenção.
Em qualquer outra situação, talvez registrasse o fato de que o tom dos olhos dele podia facilmente se tornar sua cor favorita. No entanto, o medo era tudo que importava naquele momento.
— Não, . Não dê ouvidos ao medo! Escuta a minha voz e só ela, tá bom? — O tom gentil estava ali outra vez.
— Como você faz isso? Como? — murmurou, sentiu seu corpo pesado e tomou consciência de que sua cabeça não havia parado de doer um minuto sequer.
— Eu sou especial. É tudo o que você precisa saber agora. E não vou machucá-la, jamais faria isso. Você precisa confiar em mim.
— Eu nem sei quem você é… — Outra lágrima escorreu dos olhos dela.
— Confie em mim, — repetiu e a segurou com firmeza porque a cada segundo o corpo de ficava mais mole.
Provavelmente o efeito da adrenalina estava passando e a exaustão tomava seu lugar.
— Por que só eu consigo ver você?
— Porque você também é especial, .
— O quê? — A mulher riu, incrédula. — Não sou especial, . Eu não sou ninguém. Absolutamente ninguém.
— Sei que é como se sente, mas isso não quer dizer que seja verdade.
— Como pode dizer isso? Você nem me conhece. Eu com certeza me lembraria de alguém com esses olhos bonitos.
Certo, talvez ela tivesse, sim, registrado a cor dos olhos de .
E, mais uma vez, ele se viu surpreendido por ela.
— Você bateu a cabeça? — perguntou, subitamente. Não por conta do comentário, mas porque via a consciência de se esvair.
— O que você acha? — Ela soluçou baixinho e mais uma lágrima escorreu em sua bochecha.
— Não feche os olhos, . Nós precisamos sair daqui. — se alarmou.
— Mas se só eu consigo te ver, talvez você nem esteja aqui pra começo de conversa, né? — devaneou e seu corpo pesou tanto que estremecer não era uma opção.
— Quem disse que não estou? — Ainda pôde ouvi-lo responder, porém, de repente, aquilo não importava mais.
Lutar contra suas pálpebras não era fácil, e em noventa e nove por cento das vezes era vencida.
Daquela vez não foi diferente, e a última coisa que escutou antes de apagar foi alguém gritar o seu nome.
— Lorraine! — A voz de Cami ecoava de um lado, desesperada.
— ! — Kate gritava em seguida e cada passo era intercalado com uma encarada ao redor. Não importava quantas vezes tivessem olhado antes, aquele gesto sempre se repetia. Se fosse para qualquer uma das duas simplesmente brotar do chão, que assim fosse.
Sophie já não tinha mais forças para gritar. Sua garganta doía em protesto e o único som que vinha dela eram os soluços baixos que deixava escapar enquanto o grupo continuava a vagar à procura das duas mulheres, mesmo com a consciência de que, diante daquela loucura toda, o melhor seria se abrigarem e ficarem todos juntos.
O medo de que de repente mais alguém se afastasse do grupo era grande e, por esse motivo, eles se entreolhavam constantemente e até mesmo murmuravam os nomes uns dos outros.
— Por que você deixou ela ir? — Katherine indagou, subitamente, e se dirigiu a River com um olhar que misturava acusação com uma preocupação tão intensa que quase a sufocava.
— Kate… — Tyler tentou intervir, segurou a mão da mulher e entrelaçou seus dedos aos dela, num gesto que ele esperava que fosse capaz de acalmá-la, ou apenas distraí-la pelo menos.
— Não, eu estou falando sério! Por que você deixou aquela maluca se afastar, River? — Pearson soltou a mão de Whitmont e deu alguns passos em direção a Blackwood, que a encarava surpreso por aquela reação repentina.
— Não era como se eu pudesse amarrá-la comigo, ou algo do tipo, Katherine. Você conhece a melhor do que eu e com certeza sabe o quanto ela é teimosa — River respondeu com cuidado para não parecer grosseiro, apesar de a mulher não fazer o mesmo com ele.
— Pois que amarrasse! Justamente por ser teimosa que eu passaria o maior pano pra você. Tudo menos saber que aquela maluca se embrenhou sozinha nessa floresta infernal. — Os lábios de Kate tremeram e quando mais um olhar foi trocado com Sophie e Cami, foi praticamente impossível conter as lágrimas. — Droga, ! Quando eu te encontrar, vou te encher de porrada.
Em qualquer outra situação, aquele último comentário seria recebido com risadas. No entanto, o medo e o desespero eram tantos que se sorrisos fracos tivessem surgido, era muito.
Tyler conteve a vontade de puxar a mulher para seus braços e a abraçar até que toda aquela agonia fosse embora. Odiava vê-la passar por aquilo.
Whitmont e Pearson nunca tiveram nada sério, porém não era por falta de vontade dele. O rapaz já havia pedido Katherine em namoro quatro vezes e recebido não em todas elas. Kate gostava demais de ser um espírito livre para “se amarrar” a alguém.
Parar para abraçá-la naquele momento estava fora de cogitação, então Tyler se manteve o mais próximo dela possível. Parecia que Pearson estava prestes a desfalecer a qualquer momento, e o homem estaria ali para segurá-la se acontecesse.
— Lorri, por favor! — Camille suplicou, enquanto forçava seus pés a continuarem a caminhar em direção a um lugar onde, aparentemente, não desejavam ir.
— Por favor, estejam vivas — Sophie se pronunciou com um sussurro mais para si mesma, porém acabou atraindo as atenções de todos, e Cami estremeceu ao ouvir aquilo.
No fundo, era o que todos estavam desejando, e a ideia de encontrar as amigas mortas a apavorava a cada grito sem resposta.
Ao menos aquela sensação horrível de que algo os espreitava parecia ter ido embora. Ou quem sabe estavam distraídos demais em sua busca para se darem conta de qualquer outra coisa.
Perderam as contas de quanto tempo caminharam, e era difícil saber exatamente para onde estavam indo. Era quase certo que se distanciavam das cabanas cada vez mais, porém voltar sem e Lorraine não era uma opção.
— Talvez a gente devesse, sim, voltar para as cabanas — Paul disse, de repente, e todos o encararam como se estivesse louco. — Pensem bem, lá pode ser que os celulares voltem a funcionar. E não vai adiantar nada continuarmos aqui correndo perigo. Isso não vai ajudar nenhuma das duas.
— Não foi você quem disse que ficar dentro das cabanas pode ser exatamente o que o assassino quer? — Sophie acusou fracamente e fez Katherine erguer uma sobrancelha com aquela informação.
— Eu só tô dizendo que continuarmos vagando assim não vai resolver nada.
— Então a gente deixa as duas por aí para morrerem? — Kate estava abalada demais para medir se era grosseira ou não.
— Não. Nós tentamos nos manter vivos até que elas apareçam, ou até que alguém tipo a polícia as encontrem.
— Bom, ninguém tá te obrigando a ficar junto conosco — Pearson rebateu com teimosia, mesmo sabendo que ele até tinha razão.
— Não tô acreditando que vocês vão começar uma discussão — Cami resmungou, odiando aquilo.
Katherine e Paul abriram as bocas para rebater aquele comentário, porém foram interrompidos antes mesmo que tentassem.
— Espera, River. O que é aquilo? — Foi Tyler quem pensou ter visto algo quando Blackwood passou a iluminação da lanterna por um certo ponto em especial. Um ponto onde as árvores diminuíam e davam lugar ao asfalto.
O rapaz encarou o amigo por alguns segundos e franziu o cenho em confusão, mas acabou voltando a mirar na direção indicada por Whitmont.
Olhando rapidamente, parecia um pequeno monte, porém, com o foco naquele ponto, todos imediatamente se deram conta do que se tratava.
— — River murmurou e, sem pensar duas vezes, correu em direção à mulher, que estava caída no meio da rua. Atrás dela, havia um carro com as portas do carona e do motorista abertas.
Blackwood olhou em volta, à procura de qualquer sinal de uma outra pessoa, mas não havia ninguém lá além de .
— Por favor, não esteja morta. Por favor, não esteja morta. — Sophie não sabia se dizia aquilo em voz alta ou apenas pensava, porém não teve coragem de se aproximar da amiga para descobrir.
Não houve tempo para refletir se aquela atitude era errada ou não. Quando Blackwood percebeu que estava desacordada, imediatamente jogou a lanterna para Tyler, se abaixou e pegou em seus braços.
— , por favor, acorde! — Tentou, mas não recebeu nenhum resquício de resposta. A garota estava inerte. Se não fosse por sua respiração, poderiam dizer que estava morta.
— Vamos tirá-la daqui. Precisamos levá-la para as cabanas. — Whitmont foi ao auxílio do amigo.
— Mas e a Lorri? — Foi Camille quem indagou, sem saber o que fazer.
— Nós voltamos para procurar por ela. Não dá pra ficar carregando a de um lado ao outro nesse estado.
Mesmo à contragosto, não existiam alternativas, então o grupo se voltou para o carro. Todos se espremeram dentro do veículo, porque ninguém ficaria para trás, então seguiram para o lugar onde acreditavam estarem as cabanas.
Os olhares ao redor eram constantes, porém não havia nenhum sinal de Lorraine.
Dessa vez, parecia que a escuridão não queria deixar partir de jeito nenhum. Alguma parte de si tinha consciência de que estava desacordada e caída em um local qualquer, porém, não importava quantas vezes tentasse acordar, simplesmente não conseguia.
Os gritos desesperados de Lorraine ecoavam em sua mente, e a imagem da amiga pendurada daquela forma brutal, implorando para que se afastasse, não iria embora tão cedo.
Precisava acordar, alertar os outros, ou até mesmo ir atrás da amiga se ninguém quisesse acompanhá-la.
sentiu seu corpo ser erguido do chão, porém, mais uma vez, não conseguiu se mover.
Ela odiava aquela sensação. Já havia passado por aquilo diversas vezes em seus sonhos, porém ter experienciado antes não tornava as coisas menos apavorantes.
Tinha consciência da própria voz gritando desesperada em sua mente, insistindo que precisava despertar e a agonia estava entalada em sua garganta ao mesmo tempo em que fervia como ácido.
Algo pesado e insistente pressionava seu peito, como se alguém invisível estivesse deitado em cima dela, tornando até mesmo difícil de respirar.
Maldita paralisia do sono.
Aquele era mesmo o momento para ter um episódio daqueles?
No entanto, sabia que era totalmente possível aquilo acontecer. Normalmente, em suas piores crises de ansiedade, suas noites eram marcadas por mais elefantes sufocando seu peito.
E como se não bastasse todo aquele sufoco, não importava quantas vezes abrisse a boca e tentasse, sua voz simplesmente não saía. Ela queria gritar, queria chorar, porém não conseguia.
Os minutos pareciam se arrastar, e ainda assim, não conseguia se livrar daquilo. Não sabia o que fazer, era como se aquela vez fosse muito pior do que as outras.
Será que estava morta?
Não. Não podia ser. Aquela não podia ser a sensação de morrer.
Em sua cabeça, a morte era escura, indolor e… libertadora. Não havia a menor possibilidade de ser aquela agonia sem fim.
Não, definitivamente ela ainda estava viva.
Mais uma vez, ouviu aquela risada. E mais uma vez era como se cada um de seus ossos congelasse naquele exato momento.
Se não estava morta, estava prestes a ser assassinada.
Tentou gritar em vão mais uma vez, e nem mesmo as lágrimas que desejava derramar verteram pelo seu rosto.
— Por favor, me tira daqui. — Já que não podia falar, deixou as palavras ecoarem como uma súplica em seus pensamentos.
Segundos passaram.
Nenhuma resposta, nem mesmo a maldita risada.
Ainda assim, conseguiu sentir.
De repente, ela tinha o controle sobre as próprias pálpebras e suas duas mãos se fecharam em punho.
Respirando fundo, abriu seus olhos novamente, sem se dar conta do cheiro que tomava conta de suas narinas.
No instante em que percebeu onde estava, no entanto, desejou que não tivesse recuperado seus movimentos.
Ela jamais seria capaz de esquecer aquela imagem.
estava de volta àquela mesma sala onde havia deixado Lorraine e nada tinha mudado ali, exceto por um detalhe.
Um detalhe que fazia toda diferença.
Lorraine Moore ainda estava pendurada da mesma forma que naquele sonho. Se é que era possível, seus ferimentos eram ainda mais profundos, e o corpo da garota estava ensopado de sangue.
O horror tomou as feições de ao notar o estado da amiga e o fato de que ela não respirava.
— Lorraine? Ah, meu Deus. Lorri?
Como da outra vez, não conseguiu se segurar e se aproximou rapidamente do corpo, a fim de analisar qualquer traço que provasse que ela estava enganada.
Os segundos foram passando, e, no fundo, sabia que a amiga estava morta, mas não podia aceitar. Não queria aceitar.
Ousou tocar a amiga, a sacudir e chamar pelo seu nome mais vezes, porém a verdade no fim lhe desceu goela abaixo.
— Não, não! Lorraine, não! Eu fui buscar ajuda, eu… — As lágrimas desceram com intensidade e o peito de parecia se rasgar por dentro.
Aquilo não podia estar acontecendo, se recusava a acreditar.
Por que havia dado ouvidos a ela? Por que a deixou sozinha daquela forma?
Como teve coragem de fazer aquilo? Que tipo de pessoa era?
Lorri era uma de suas melhores amigas. Se fechasse seus olhos e se concentrasse, ainda conseguiria ouvir a voz da mulher lhe respondendo sonolenta ou soltando qualquer desculpa para faltar mais uma aula.
Como conseguiria conviver consigo mesma sabendo que podia ter salvado Lorraine e não o fez?
— Não, Lorri… Por favor. — Suas palavras passaram a ecoar num sussurro, enquanto continuava a chorar copiosamente, segurava o corpo da amiga com as duas mãos e odiava sentir como estava frio.
Então, debochando dela, aquela risada ecoou, e sua crueldade era tanta que não só espalhou mais uma onda terrível de arrepios pelo corpo de , como aumentou ainda mais a dor que a mulher sentia em seu peito.
jamais conseguiria respirar bem novamente, assim como não conseguiria se mover daquele lugar tão cedo.
Ou ao menos foi o que pensou até sentir a baforada quente contra a pele de seu pescoço.
O pânico cresceu de uma maneira que ela não imaginava ser possível. subitamente tirou suas mãos da amiga e fez menção de dar um passo.
Então teve certeza de que algo tocou seu ombro esquerdo e o apertou sem nenhuma gentileza.
Temia olhar para trás e descobrir quem estava ali, mas sabia que precisava. No entanto, quando o fez, viu que, de uma maneira profundamente perturbadora, ela continuava sozinha naquele lugar, com o corpo sem vida de Lorraine.
Abriu a boca para gritar, sua garganta doeu, e antes que pudesse processar se o som desejado havia ecoado ou não, recuperou o movimento das pernas e se pôs a correr.
Apurou os passos o máximo que pôde, ignorou os protestos dos músculos de suas pernas e a súplica constante de seus pulmões por oxigênio.
Não sabia para onde ir, afinal, não fazia ideia de onde estava, porém descobriu que tudo aquilo era em vão quando, mais uma vez, algo apertou seu ombro.
Um gemido choroso escapou de sua boca, em um pedido silencioso de que aquele tormento tivesse um fim, de que aquela coisa a soltasse, porém a dor intensificou e de repente seu corpo sacudiu com violência.
!
Alguém tinha chamado seu nome, ou ela estava louca?
Porém a voz não tinha o mesmo tom daquela risada maldosa. Era diferente, porém conhecido também.
— ?
Conhecido até demais.
Seu corpo se sacudiu mais e, quando se deu conta, pressionava os olhos, voltava a abri-los e sentia uma terrível onda de náuseas quando se deu conta de que não estava mais naquele lugar confuso e infernal.
Ela estava de volta à cabana, com o corpo encharcado de suor, os batimentos a mil, e uma Katherine que lhe encarava preocupada.
Após terem carregado para dentro da cabana, as garotas ficaram cuidando da mulher, enquanto os rapazes tornaram a sair em busca de Lorraine.
Havia sangue em toda a roupa de , porém uma quantidade preocupante havia ensopado seus cabelos e o socorro nunca vinha.
Mesmo sabendo que era loucura, Kate estava a ponto de segurar a amiga nas costas e procurar um hospital, ou qualquer outro lugar que pudesse ajudá-la.
Isso até o momento em que começou a gritar e se debater.
Primeiro sua voz ecoou aguda e repentina, exprimindo um pavor tão grande que fez o corpo inteiro de Katherine se arrepiar.
— Amiga, calma, eu estou aqui. — Pearson não se deixou intimidar pelo quanto a amiga se movia e a tocou com o maior cuidado, tentando atrair sua atenção. — Por favor — murmurou, num tom mais baixo, e seu coração apertou por ver naquele estado.
Porém, em vez de melhorar as coisas, aquilo fez gritar mais. Suas palavras eram desconexas até um nome sair em alto e bom som.
— Lorraine, não! Por favor, não! Lorraine! — O tom era tão suplicante que, de repente, o coração de Katherine pareceu parar, e a mulher só se deu conta do volume dos gritos de quando Lucy, Sophie e Camille adentraram o quarto, apavoradas.
— Ela começou a gritar dormindo. Não sei o que fazer! — declarou, antes que qualquer uma delas dissesse sequer uma palavra.
— Será que devemos acordá-la? — sugeriu Sophie, sem conseguir olhar direito para . A forma como se debatia aumentava ainda mais o medo que sentia.
— E se ela tiver uma parada cardíaca, ou algo assim, porque a acordamos dessa forma? — Cami franziu o cenho e odiou a ideia de fazer qualquer mal à amiga.
— Não acho que isso vai acontecer, ela não é sonâmbula. — Foi Lucinda quem respondeu e lançou um olhar de dúvida breve para as amigas.
Pearson não estava cem por cento certa daquilo, mas sabia que não tinha opção.
Mais uma vez tentando ser o mais gentil possível, Kate tocou o ombro de , porém a amiga passou a gritar ainda mais.
Aquilo a fez perder um pouco a paciência e, por fim, segurar pelos ombros com mais força, a sacudindo até ver seus olhos se abrirem e então se arregalarem.
— Lorraine… — murmurou, com seu olhar fixo em Katherine.
— Não, amiga. Aqui é a Kate.
— Kate? Não. Eu preciso da Lorri. — Os olhos de se inundaram de lágrimas, e todas se assustaram com aquilo.
— …
— Cadê a Lorraine? — tornou a gritar. Então, num salto, pulou da cama e saiu porta afora.
Suas amigas não tiveram tempo de segurá-la. Quando se deram conta, já havia passado por elas, sem se dar ao trabalho de fechar a porta da frente.
Era como se estivesse em uma espécie de transe.
Seu corpo não respondia da forma que esperava. Cada um de seus músculos doíam mais que o normal, e cada passo era acompanhado de um grunhido baixo de dor. No entanto, ainda assim, se pôs a correr.
Nunca havia cambaleado tanto, olhava constantemente ao redor e estava odiando aquelas malditas copas de árvores. Podia jurar que elas reverberavam constantemente aquela risada horrível, e sua distração foi tanta que, mais uma vez, tropeçou em algo e sentiu seu corpo voar em direção ao chão.
Uma dor excruciante irrompeu de seu cotovelo, porém o estalo de um galho chamou sua atenção, e ela ergueu seu tronco subitamente, sentindo sua coluna protestar com o ato.
Procurou a origem do som e percebeu ali mais uma vez. No entanto, assim como ela, agora tinha suas roupas manchadas de sangue.
— ? — indagou o óbvio, ainda tentando entender em vão como ele ia e vinha e somente conseguia vê-lo.
A voz de havia ecoado bastante nítida. No entanto, o homem pareceu não ouvir, já que estava muito concentrado encarando um ponto logo atrás dela.
sentiu seu estômago dar voltas, o pavor trancou sua garganta novamente, e algo dentro dela repetiu várias vezes que não deveria se virar para olhar, mas ela era teimosa e o fez mesmo assim.
O grito de desespero ficou preso e logo em seguida deu lugar a soluços, enquanto seu peito começava a sacudir em terríveis espasmos.
Não, aquilo não podia estar acontecendo de novo.
Tinha que ser outro pesadelo.
Porém algo lhe dizia que era muito real. O cheiro, que subitamente se fez muito nítido em suas narinas, não se comparava com nada que havia sentido antes.
Seu pesadelo estava a poucos metros, diante de seus olhos.
O corpo de Lorraine jazia sem vida, como uma boneca atirada no meio da mata. O sangue escorria de seu nariz e sua boca, e os braços da mulher estavam erguidos, como se ela tivesse sido arrastada até ali.
Os olhos de Moore estavam abertos, arregalados de pavor e, se não tivesse visto a cena do banheiro, diria que nunca viu tanto sangue.
Assim como a primeira vítima, Lorri tinha seu peito aberto, suas roupas estavam rasgadas e a diferença era que onde deveria haver um coração, já não havia mais nada.
O assassino havia o levado consigo.
Por quê?
Por quê?
Mais uma vez a risada ecoou, parecendo debochar dela, e quando ergueu a cabeça na direção de , sentindo o coração apertar ainda mais pela ideia de o assassino ser ele, percebeu algo se mexer logo atrás do homem.
— ! — gritou, na tentativa de alertá-lo, e apontou, o que o fez olhar para trás e encontrar o nada.
A risada soou de novo, e ela não sabia o que era mais desesperador naquele momento.
— Me mata logo! Vamos lá. Acabe com isso de uma vez! — Não soube de onde tirou forças, porque tudo que sentia era dor, náuseas e pavor.
— !
Antes que obtivesse qualquer resposta, no entanto, mais uma vez a voz de Katherine gritou por ela.
Continua...
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Nota da autora: Deu pra perceber que daqui pra frente é só ladeira abaixo, né? Tadinha da Lorri.
Me diga se gostou e Feliz Halloween. 😈
Beijos e até a próxima.
Ste a.k.a. Saturno. ♥
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