não soube o que responder para as amigas quando disseram que não estava lá, algo que ela mesma comprovou ao encará-las, franzindo o cenho em confusão, para depois dar mais uma olhada na mesa de bebidas.
Como se sequer existisse, o rapaz não estava mais lá, nem mesmo qualquer rastro que comprovasse sua presença.
não conseguiu entender. Como aquilo era possível?
Aquela era a segunda vez que desaparecia feito fumaça e, por mais que parecesse, ela se recusava a acreditar que ele era fruto de sua imaginação.
Não, não podia sequer cogitar aquilo. Havia tocado nele, não havia? Sentiu a mão dele na sua quando a ajudou a se levantar e… Não podia ficar pensando naquilo. O melhor era que não o visse nunca mais.
Ao ouvir mais uma vez o seu nome ser chamado, tentou disfarçar sua tensão e confusão o máximo que pôde ao responder que o rapaz não estava mais lá. As amigas ainda tentaram questionar mais coisas sobre o cara misterioso, no entanto, acabaram concluindo que estava chocada demais para continuar a falar sobre aquilo. Não julgavam a garota, não havia como não se sentirem abaladas com os acontecimentos, e ver os policiais entrarem no local às pressas só tornava aquilo tudo ainda mais terrível.
Depois daquela noite, as coisas ficaram cada vez mais estranhas. Um clima diferente havia se instalado. Um clima de tensão e medo. Não era para menos, embora fosse o completo oposto do que desejavam com aquela viagem.
Ninguém andava sozinho. A polícia havia os orientado a andarem em grupos, e ninguém poderia deixar a cidade até que as investigações terminassem.
Cada pessoa presente na festa foi interrogada, todos eram suspeitos. Por mais louco que soasse, não conseguia deixar de pensar que havia uma pessoa naquele local que ninguém conhecia e não seria confrontada pela polícia. Então precisava se convencer novamente de que não era real.
Anne, a amiga da vítima, estava em choque. Era difícil arrancar dela qualquer coisa além de que devia ter ido ao banheiro com Julie, e se ela havia visto alguma coisa, apenas o tempo diria.
Nesse meio tempo, ninguém podia se aproximar do local do crime, e Anne estava sob proteção da polícia.
A cada minuto que passava, estava mais agoniada. Não conseguia explicar como de repente havia desaparecido das vistas de suas amigas, que haviam procurado por ela sem sucesso. Será que colocaram alguma coisa em sua bebida?
O pior de tudo era que algo dentro dela dizia que sabia muito bem as respostas para os seus questionamentos. E tanto naquela mesma noite, quanto nas seguintes, a jovem se viu tendo o mesmo sonho repetidas vezes.
não saberia dizer se era noite ou dia, tampouco como foi parar ali. A única coisa da qual tinha consciência era que, de repente, caminhava por um extenso corredor. As paredes ao seu redor eram de um vermelho intenso, e a iluminação fraca dava um ar maquiavélico ao ambiente.
Os únicos sons que podia ouvir eram os de seus batimentos cardíacos acelerados e sua respiração ofegante e temerosa. A sensação gélida do piso a fez perceber que estava descalça, e quando o vento frio arrepiou seus braços, ela se deu conta de que um lençol branco cobria seu corpo.
O choque tomou conta de suas feições, parou subitamente para olhar um pouco melhor o que vestia e constatou, em completo horror, que havia manchas vermelhas por todo o lençol. Pelo cheiro metálico intenso, o qual ela provavelmente não se deu conta, porque estava distraída com o ambiente, a substância de um tom rubro escuro era sangue.
Mas será que era dela?
Rapidamente, tateou o próprio corpo, à procura de qualquer dor, por mais que estivesse entorpecida, e de repente uma sensação de constrangimento tomou conta de si, porque debaixo do lençol não havia nada. Ela estava completamente nua.
No entanto, qualquer resquício de vergonha se dissipou quando não encontrou nenhum machucado em si mesma, o que só poderia significar uma coisa.
O sangue não era dela.
Então de quem era?
Com o pânico aflorado a apertar sua garganta em um nó bem firme, voltou a caminhar pelo corredor, apressou seus passos e ansiou que ele a levasse logo a algum lugar.
Desde pequena, sentia uma certa aversão a lugares escuros e estreitos. Era a sua tão odiada claustrofobia, que combatia ao tomar uma medicação, mas ali seus remédios não estavam consigo. E quanto mais andava, mais crescia aquela sensação de que as paredes afunilavam, ansiosas para a engolirem de uma vez por todas.
O corredor não tinha fim. A luz diminuía, e aquela cor vermelha a deixava tonta. Ou seria o enjoo pelo cheiro do sangue que turvava a sua visão, ao mesmo tempo em que a bile subia até sua garganta?
Lágrimas brotaram de seus olhos, molhavam suas bochechas e escorriam até seus lábios.
Então se ouviu soluçar.
— O que diabos eu estou fazendo aqui? — sussurrou aterrorizada, com a voz tão fraca que não soube se realmente havia falado, ou se era apenas um eco de seus pensamentos.
Se pudesse, se ajoelharia ali mesmo para implorar por uma saída, mas sabia que se o fizesse, acabaria se jogando no chão, sem forças para se levantar. Além disso, a quem recorreria? A quem imploraria por socorro? Não havia ninguém ao seu redor, ninguém.
Estava sozinha como nunca esteve.
De repente, um clarão invadiu seus olhos, tão intenso que ficou momentaneamente cega. E apenas quando conseguiu se adaptar à claridade foi que descobriu de onde vinha aquela luz.
À sua direita, apenas a poucos metros dela, havia uma porta aberta.
poderia estar correndo em direção à própria morte, porém sequer pensou nisso. Sem hesitar, ela simplesmente apressou os passos e cambaleou para dentro do cômodo.
O que viu lá dentro, no entanto, a fez se arrepender com todas as células de seu corpo.
No centro do cômodo tão vermelho quanto o corredor lá fora, havia um rapaz pendurado e acorrentado pelos pulsos. Estava de costas para ela, então inicialmente não soube se o conhecia.
Hesitante, deu alguns passos na direção dele, e seu coração se apertou ao notar arranhões grossos e sem um padrão certo por toda a extensão de suas costas. A maioria deles, no entanto, se concentrava na região do tórax, e o sangue vertia escuro, viscoso. Ao prestar um pouco mais de atenção, ela percebeu que pareciam marcas de açoite, porém eram mais grossas, como se garras o tivessem arranhado sem piedade, a fazendo concluir que só poderia ser uma espécie de punição.
Enquanto prendia a própria respiração, tentou ouvir se algum som vinha dele e percebeu que ele estava extremamente fraco, a ponto de desistir. Levada pelo desejo de fazer algo para ajudá-lo e por uma certa dose de curiosidade, mais alguns passos a aproximaram do rapaz. Não soube dizer por quê, mas algo lhe dizia que sabia muito bem quem ele era.
Assim que se viu perto o bastante, a jovem constatou duas coisas.
A primeira foi que o rapaz estava desacordado. Ela já havia imaginado, mas não diminuiu em nada seu desespero.
A segunda foi que de fato o conhecia.
— ! — Apavorada, ao notar que sangue escorria também pelos cantos da boca dele, um grito ecoou dos lábios dela. Então os cobriu e chorou ainda mais, permitiu que suas lágrimas vertessem sem controle, enquanto seu corpo se sacudia.
Por que haviam feito aquilo com ? Por que ele estava sendo punido?
Como poderia salvá-lo?
Tremendo como nunca em sua vida, mais uma vez as lágrimas tocaram seus lábios, e quando passou a língua por eles para limpá-los, percebeu um outro gosto se misturar ao salgado. Um gosto metálico.
Todo o ar fugiu de seus pulmões, e enquanto sufocava e arregalava seus olhos, olhou para suas mãos, apenas para confirmar o que já previa.
E outro grito ecoou quando ela viu que estavam cheias de sangue.
— ? , acorda, amiga! — Katherine a balançava horrorizada ao ver o quanto gritava. Tanto ela, quanto as outras garotas, haviam sido acordadas por há alguns minutos, e, desde então, tentavam despertá-la.
abriu os olhos, o pavor fazia suas pupilas ficarem extremamente dilatadas, e a jovem suava tanto que os lençois estavam encharcados embaixo dela e o pijama grudou em seu corpo.
— Minha nossa, que susto! Você está bem? — Kate olhou em cada canto de seu rosto e a analisou preocupada.
— Eu… — balbuciou, na tentativa de encontrar as palavras e acalmar seu coração ao mesmo tempo. Ele batia tão rápido que a qualquer momento poderia saltar de sua boca.
— Você? — A amiga insistiu e esperou pacientemente.
— Água — pediu desesperadamente. O pesadelo foi tão vívido que era quase como se o gosto salgado e metálico ainda estivesse presente.
Pearson deu uma olhada na direção de Sophie, que se apressou em trazer um copo bem cheio.
bebeu sedenta, levou segundos para consumir tudo de uma vez, e assentiu quando questionada se queria mais.
Todas esperaram até que estivesse pronta para falar, e talvez isso tivesse tornado sua resposta ainda mais frustrante.
— Gente, não foi nada. Apenas um pesadelo. — Suas bochechas até esquentaram de vergonha, mas uma parte dela a acusou.
Não era um pesadelo qualquer, e sabia disso.
— , você estava gritando como se algo estivesse em você. Isso assustou todas nós! — Katherine continuou com o tom de preocupação. Entendia que ela estava assustada e só queria ajudá-la de alguma forma.
deu uma olhada ao redor e percebeu que todas as amigas a encaravam com as mesmas expressões de Kate. Por um momento, quase contou detalhes, mas não queria soar completamente maluca e acabou guardando para si.
— Me desculpem. Foi um pesadelo bobo, eu…
— Um pesadelo bobo que te fez gritar e suar desse jeito, ? Nunca vi você assustada assim — Cami insistiu, e percebeu que estava desconfiada.
Suspirou e negou com a cabeça.
Não era que não confiasse em suas amigas, mas alguns segredos precisavam se manter escondidos. Elas não haviam visto . nem sabia se ele era mesmo real, o que pensariam dela?
— É sério. Acho que só fiquei impressionada pelo que aconteceu. — Sorriu fraco, enquanto uma parte sua carregava a culpa pela mentira.
Foi a vez de Cami suspirar.
— Tudo bem, amiga. Qualquer coisa, estamos nos quartos ao lado, hein? — Olhou de para Pearson.
— Isso. Nós só estamos preocupadas, . — Lorraine completou.
— Confesso que eu não estou nem conseguindo dormir por conta disso tudo, então pode ser bom conversar quando você sentir vontade. — Sophie sorriu fraco.
— Tá certo, gente. Obrigada mesmo. Acho que agora eu só quero tentar dormir mais um pouco.
Então as assistiu concordarem e, uma a uma, se retirarem do cômodo. Lucinda foi a última, e seu olhar se demorou um pouco na amiga antes de sair. Foi a única a não dizer sequer uma palavra, simplesmente porque não sabia o que poderia fazer efeito. Claramente estava abalada e não queria compartilhar o motivo, e ela se perguntava se havia acontecido com algo além do que haviam passado.
Sozinha no quarto com Katherine, assistiu a amiga sentar nos pés de sua cama e tocar uma de suas pernas gentilmente, por cima do lençol branco que a cobria.
— Você sabe que pode confiar em mim pra tudo, não sabe? Eu jamais vou te julgar por qualquer coisa, . Eu não. — Sua voz era macia, e o olhar tão genuíno que quase cedeu ao impulso de contar.
— Kate…
— Eu sei. Tudo o que aconteceu foi muito estranho, e agora nós estamos presas aqui. Se você viu alguma coisa, ou sonhou, pode me contar, amiga. — Por que ela tinha que ser tão compreensiva? Aquilo só dificultava as coisas.
Katherine Pearson era sua melhor amiga. E sua ligação com ela era tão forte que era como se sentisse tudo que sentia.
— Não acho que você vai acreditar em mim, Kate. Está tudo muito confuso na minha cabeça. Nem eu mesma sei se acredito — confessou, com a voz fraca.
Pearson suspirou.
— Então vamos fazer assim: você tenta organizar os pensamentos e se achar que precisa, pode contar comigo. Se for maluquice, seremos loucas juntas. — Piscou, o que fez sorrir de leve.
— Tá bom. Obrigada por isso, amiga.
— Sabe que te amo, . — Retribuiu o sorriso, carinhosa.
— Também te amo, Kate. — sentiu uma emoção estranha com aquilo e precisou conter as lágrimas.
— Agora chega pra lá, não vou deixar você dormir sozinha depois desse pesadelo.
E, ainda emocionada com o gesto, permitiu que a amiga se deitasse com ela.
😈
Três dias se passaram após a fatídica noite do assassinato. Três dias em que qualquer clima de festa havia se dissipado para dar lugar ao medo e ao desejo constante de voltar para casa. Quem diria que aquela viagem seria épica de uma maneira completamente trágica?
Katherine se sentia culpada por insistir tanto. Em seus pensamentos, se não fosse por ela, nenhuma de suas amigas estaria passando por aquilo. Ela mesma não passaria por aquilo. E embora não tivesse exposto para ninguém, seu sentimento era compartilhado por Camille e .
Mas como poderiam prever?
Como poderiam imaginar que um lugar que deveria ser seguro se transformaria no palco de um show de horror?
Era tudo terrível demais, e as coisas pioraram quando os pais de Julie vieram fazer o reconhecimento do corpo.
Devido ao impacto que poderia ser causado pelo estado em que a garota estava, o procedimento foi realizado através de fotos, porém, ainda assim, a mãe de Julie precisou ser socorrida. O horror e o choque ao comprovar que aquela realmente era a sua filha foi demais para a mulher, que teve um ataque de pânico e acabou sedada para que pudesse, enfim, se acalmar. Já o pai de Julie, tentou lidar com aquilo tudo tendo o máximo de controle possível, mesmo que fosse extremamente difícil. A dor de perder sua única filha era demais para que pudesse suportar. E, por mais que quisessem sair daquele lugar, daquele pesadelo, o quanto antes, ainda permaneceram na cidade até a liberação do corpo.
percebeu que as amigas lhe lançavam olhares de cautela desde o dia em que os pesadelos começaram. Também não era para menos. Ela tinha consciência de que toda a vez que fechava os olhos, voltava àquele cenário macabro e, quando tornava a abri-los, era porque gritava tanto a ponto de Kate precisar despertá-la.
A jovem não sabia o que fazer. Talvez buscar ajuda profissional fosse o mais indicado, e jurou para si mesma que o faria assim que saísse daquele lugar de uma vez por todas.
Naquela manhã, uma grande mesa havia sido colocada no mesmo galpão da festa, para que todos compartilhassem o café da manhã. Aquilo era estranho, por mais que a perícia tivesse liberado o local e tudo já estivesse extremamente limpo. No entanto, ninguém reclamaria. Quanto mais unidos permanecessem, melhor seria para suportar tudo aquilo.
— Vocês acham mesmo que vão pegar o assassino? — Lorraine dizia, quando se aproximou e se sentou ao lado de Lucy.
Mais uma vez, precisou ignorar os olhares das amigas sobre si. Como andava acontecendo ultimamente, apenas repetiu mentalmente que elas apenas estavam preocupadas com ela, que faria o mesmo se estivesse no lugar de qualquer uma.
— Sinceramente, estou começando a duvidar, hein? Pelo que ouvi, não conseguiram nenhum material biológico que pudessem ligar a algum suspeito. No corpo da Julie não havia impressões digitais, fios de cabelos, saliva… — Sophie foi enumerando.
— Nem arma do crime, né? Parece que a pessoa sabia muito bem cobrir os próprios rastros. — Kate complementou. — O único sangue que encontraram no local era da própria Julie.
— Isso é muito esquisito, vocês não acham? Por que planejariam matá-la logo aqui, no meio do nada? — Lorri não conseguia se conformar.
— Porque é o lugar perfeito, amiga — se pronunciou, rouca, atraindo a atenção delas. — Pensem comigo. Um lugar no meio do nada não tem nem peritos por perto. Tanto que eles só chegaram várias horas depois. Além disso, dá pra jogar a culpa em algum animal.
Por alguns segundos, as meninas permaneceram a encarando e perceberam que aquilo tudo fazia bastante sentido.
— Você parece ter pensado muito nisso, . — Lucy foi a primeira a dizer algo e analisou com atenção.
— Lógico, ela é a louca da forense. Não estou nem um pouco surpresa. — Kate se meteu, e sorriu fraco e concordou.
Lorraine, Sophie e Camille fizeram o mesmo.
— De qualquer forma, vamos pensar positivo. Vamos acreditar que a polícia vai descobrir quem foi, sim. E aí nós voltaremos a dormir em paz — Lucinda emendou.
não gostou muito daquilo. Percebeu uma nota estranha na voz dela, quase como uma acusação, e se sentiu triste e incomodada.
— Acho meio difícil conseguirmos pensar positivo, ainda mais sabendo que não encontraram nada do assassino. Mas só nos resta esperar, não é? — Sophie torceu a boca, então se virou para pegar mais um muffin.
não havia conseguido nem começar a comer. Na verdade, ela nem se lembrava da última vez que se alimentou de fato.
— , você tá bem? — A voz de Cami chamou sua atenção.
— Sim. Tô bem — murmurou, sem jeito.
— Tem certeza? Tô te achando meio pálida — Devonne insistiu, e dessa vez foi Kate quem respondeu.
— Provavelmente é porque ela não tá comendo direito.
— Katherine! — exclamou indignada.
— O quê? Eu te conheço, garota. Pega esse pão aqui e come antes que eu te faça engolir! — Pegou um pão e praticamente o enfiou na boca da amiga, que riu incrédula.
— Por Hades, Kate. Você é muito mandona — bufou, mas acabou aceitando o pão.
Assim que o mordeu, a satisfação foi tanta que até se sentiu tonta.
— Sou mesmo, e é por isso que você não vai morrer de fome.
Aquele tipo de conversa seguiria por outros caminhos se o clima não estivesse mesmo pesado. Mesmo quando riam minimamente, elas se sentiam culpadas e logo o silêncio reinou entre todas.
Então os pensamentos de foram parar em .
Desde o dia da festa, ela não o viu em nenhum outro lugar além daquele mesmo pesadelo bizarro, e por mais que se forçasse a crer que tudo não passava de imaginação, às vezes sentia que não, que tudo era muito real, principalmente o fato de ele estar preso em seu pesadelo.
Mas por que o prenderiam daquela forma?
Se deu conta de que sempre acabava naquele questionamento e, irritada consigo mesma, de repente, se levantou.
— ? — Camille indagou, ao estranhar o ato repentino.
— Podem ficar. Eu só preciso… pensar — murmurou, então seguiu em direção às árvores, sem realmente ter um rumo certo.
Ela só queria arejar a cabeça, pensar em tudo aquilo sem ter a impressão de que estavam a olhando, mas nem quando chegou a uma parte mais densa da floresta a sensação foi embora.
O formigamento em sua nuca fez virar imediatamente para trás, temendo encontrar aqueles olhos vermelhos, no entanto acabou dando de cara com River Blackwood.
— O que está fazendo aqui? — A pergunta escapou de seus lábios antes mesmo que ela pudesse se refrear.
River não falava com ela desde aquela noite e do nada resolveu ir atrás dela?
— Desculpe, . Eu vi que você estava vindo até aqui e… — Ele coçou a nuca e parecia um tanto desconfortável.
— E o que, River? Longe de mim te cobrar alguma coisa, mas não nos falamos desde aquela maldita festa. — De repente, estava irritada com ele. Sabia muito bem que River, sendo um dos responsáveis pela viagem, precisava lidar com muito mais do que previu, mas ao menos uma mensagem de texto ele poderia ter enviado.
E, na verdade, em todas as vezes que o tinha visto, ele parecia bem.
— Eu sei… Na verdade, o meu primeiro instinto em vir até aqui foi não te deixar sozinha. E eu não falei contigo porque você parecia abalada, . Eu não quis forçar a barra. — Blackwood fez uma careta, que imitou.
— Não ia forçar. E sobre me deixar sozinha, eu sei me defender. Aqui é só uma floresta boba, River. — Ela tentou soar indiferente, mas, dentro de si, havia aquela tensão que não ia embora de jeito nenhum.
— Nossa mente nos prega peças, . E você pode acabar descobrindo que a floresta boba, na verdade, pode ser uma floresta perigosa, onde o assassino talvez esteja se escondendo. Assim como os anjos ao nosso redor, na verdade, podem ser demônios disfarçados. — As feições de Blackwood ficaram sérias a cada palavra proferida, e, ao mesmo tempo em que um arrepio cruzou a espinha de , seu cenho se franziu em desconfiança.
— O que quer dizer com isso, Blackwood? Você sabe de alguma coisa? Ou quem sabe foi você quem fez aquilo? — questionou assustada e desconfiada. Ele estava agindo de maneira estranha, ou era apenas impressão sua?
Uma risadinha ecoou dos lábios dele, porém o estalo de um galho fez a virar para trás rapidamente e só então se deu conta de que ela havia pisado em um ao dar um passo para trás.
Jamais imaginava que sentiria medo ao estar com River Blackwood, no entanto, o ar fugiu de seus pulmões quando ele se aproximou dela ainda mais.
— Nós dois sabemos que não fui eu, .
Os olhos de se arregalaram de surpresa e confusão.
— Do que você está falando? — Se viu balbuciar e quis sacudi-lo e arrancar o que ele sabia.
— Estou falando para você não confiar em todo mundo, . E, principalmente, para você tomar cuidado com quem anda — alertou, ao tocar os ombros dela, porém recuou e afastou as mãos dele.
— River, pare com esses joguinhos. Se você sabe quem é o assassino, fala de uma vez! — Ela praticamente gritou e quase o esmurrou.
— Eu não sei quem é, . Só tenho minhas suspeitas, e é por isso que estou te dizendo para tomar cuidado. — De repente, o olhar dele era mais ameno, quase cuidadoso.
— Você está incluído? — o encarou nos olhos ao perguntar. Parecia um pouco mais com o River que conheceu dias atrás, mas, ainda assim, estava receosa.
— No quê? — Blackwood indagou, confuso.
— Nas pessoas que não posso confiar.
— Não sei, . Estou? — Ele riu.
— Acho que está — ela murmurou baixo, mas, ainda assim, River a ouviu.
— Bom, se eu fosse, não te diria nada e muito menos estaria disposto a te levar até a cabana em segurança, não é? — Estendeu a mão para ela, que recusou.
— Na verdade, você poderia fazer essas duas coisas apenas para parecer confiável. Seja quem for o assassino, parece pensar muito bem nos passos que dá. — Num impulso, deixou escapar tudo o que pensava, e o rapaz negou com a cabeça e riu mais uma vez.
— Eu jamais te machucaria, . Vamos, me deixa te levar até a sua cabana. — Mais uma vez, ele tentou segurar em sua mão.
— Não precisa. Eu sei o caminho. — E se afastou dele, bufando quando Blackwood a acompanhou mesmo assim.
O caminho foi mais longo do que o normal para , e, por alguns minutos, ela se deixou levar pelos próprios pensamentos. Sua mente estava a mil. Tentava associar as palavras de River e ligar aos acontecimentos recentes.
Pela maneira como ele estava agindo, sentia que ele sabia, sim, de alguma coisa. Mas por que ele não diria a ela, ou até mesmo à polícia?
Será que Blackwood estava envolvido? Era algum cúmplice?
Era ele o culpado?
Ou não dizia nada por medo?
Eram muitas perguntas sem resposta, e tinha certeza de que a qualquer momento sua cabeça explodiria com aquele tormento.
Ela só queria sua vida normal de volta.
Suspirou e, ao ver que finalmente chegaram à sua cabana, ela se virou, pronta para agradecer River, mesmo que de má vontade, porém ele foi mais rápido.
— , olha, eu sinto muito mesmo por ter deixado de falar contigo por esses dias. Senti algo bacana entre nós, mas tudo o que aconteceu mexeu comigo. Acho que mexeu com todo mundo. Eu quis te dar espaço e acabei errando nisso, mas se você me der outra chance, isso não vai se repetir. — Blackwood havia a alcançado e parado em frente a para olhá-la nos olhos.
suspirou.
— Tudo bem. Eu só… — Aquilo a deixou completamente confusa, sem entender como ele oscilava de uma hora pra outra. — Aconteceram coisas demais e, sinceramente, estou começando a questionar no que devo acreditar.
Aquelas palavras foram completamente sinceras, tanto que ela não conseguiu sustentar o olhar dele.
— — River a chamou para que o olhasse novamente, e quando ela o fez, prosseguiu —, quer me contar alguma coisa?
não entendeu o motivo de ele perguntar aquilo, mas percebeu que, na verdade, não conseguia entender nada com relação a Blackwood.
— Eu… — Tentou dizer alguma coisa, mas as palavras simplesmente não saíram.
— Sei que essa pergunta soou meio estranha, mas às vezes algumas coisas nos perturbam tanto que achamos que devemos guardar para nós mesmos, que se dividirmos com alguém, vamos ser taxados de loucos, ou algo do tipo. Só quero que saiba, , que você pode confiar em mim e me contar qualquer coisa. Eu já vi de tudo na vida. E quando digo tudo, é tudo mesmo. — A ênfase naquilo a fez estreitar os olhos.
Será que ele havia visto algo como ? Ou os olhos vermelhos?
Mas não adiantava. Algo ainda a deixava desconfiada com relação a ele.
— Vou lembrar disso, River. Mas agora realmente não tenho nada para contar. Eu estou bem, só impressionada ainda com tudo que aconteceu. Acho que logo deve passar, né? A única coisa que eu queria era sair logo daqui e voltar pra casa. — Acabou sendo sincera ao final de sua fala, e outro suspiro escapou de seus lábios.
— É uma pena que isso não vai acontecer tão cedo, não é? — E, mais uma vez, a feição séria e um tanto misteriosa estava de volta.
— Como assim? — o olhou assustada.
— Estamos presos aqui, . Ao menos até acabarem as investigações.
Então ela soltou o ar que nem se deu conta de ter prendido.
— É, tem isso — murmurou, odiando aquilo. Se pudesse, simplesmente saía correndo daquele lugar para nunca mais voltar.
— Ei — River chamou sua atenção, e, mais uma vez, o olhou. — Se você precisar de alguma coisa, qualquer coisa, me manda mensagem, ou me liga que venho correndo.
Ela apenas afirmou positivamente, sem conseguir formular qualquer palavra.
De repente, se sentiu exausta.
— Até mais, . — E mais um calafrio passou por sua espinha quando Blackwood se aproximou e depositou um beijo em sua bochecha esquerda.
Engolindo em seco, apenas quando ele já estava a uns bons metros dela que conseguiu responder.
— Até mais, River.
O rapaz não se virou para encará-la, apenas se afastou até desaparecer de sua vista. E, mesmo depois disso, continuou parada na frente de sua cabana, encarou o vazio e tentou convencer a si mesma que pior do que aquilo as coisas não poderiam ficar.
😈
Mais uma vez, havia se iludido por completo, e a prova disso se revelou de uma forma um tanto conhecida por ela nos últimos dias, o que não a tornava menos terrível.
Ao sentar-se no mesmo instante em que seus olhos abriram, precisou reprimir o grito que implorava para ecoar de sua garganta. Seu corpo inteiro tremia, o terrível gosto metálico voltou à sua boca, e a jovem não precisou de muito para ter noção de que suava.
A cada pesadelo, os acontecimentos pareciam mais reais, e nesse último, ela havia tocado em . A sensação gélida de sua pele foi o bastante para que quisesse gritar até que suas forças se esvaíssem.
Aparentemente, nem mesmo em um cochilo de fim de tarde ela estaria livre.
Sem conseguir conter a tremedeira, ergueu suas mãos e as encarou como se esperasse ver o sangue um tanto escuro ali. Porém, assim como nas outras vezes, não havia nada. Suas mãos estavam limpas, e ela não sabia o que pensar daquilo, não conseguia raciocinar sobre o que, de fato, seria pior.
Se fosse real, quem sabe ela teria uma chance maior de entender o que estava acontecendo.
Mas como podia pensar em uma coisa daquelas?
— ! — A voz de Kate ecoou distante, mas, pelo seu tom, provavelmente a chamava há algum tempo.
— S-sim? — engoliu em seco e tentou disfarçar o máximo que pôde, mas soube pelo olhar da amiga que não havia adiantado.
— Tudo bem? — Ergueu uma sobrancelha, mesmo ao ver claramente que estava muito longe de bem.
— Uhum — mentiu e encarou qualquer ponto que não fosse Katherine.
— Ah, , conta outra! — Pearson perdeu a paciência e atraiu o olhar assustado de . — Pra começar, você está pálida de novo. Não me diga que a última coisa que comeu foi aquele pãozinho!
suspirou.
— Não consigo nem pensar em comer, Kate — resmungou, mas já sabia onde aquilo ia dar.
— Não interessa. Anda, levanta daí e troca de roupa. Vamos achar algo pra você comer. — Seu tom era decidido e não deixava margem para discussões.
Ainda assim, tentou.
— Kate, olha…
— Te espero lá na sala. — E saiu.
ficou parada por alguns segundos, ainda tentando assimilar tudo o que havia acabado de acontecer. De alguma forma, parecia que ainda sonhava, mas então balançou a cabeça e teve a certeza de que não quando a tontura alertou o quanto precisava comer alguma coisa.
Respirando fundo, a jovem foi até o banheiro e ficou um tanto impressionada ao notar sua aparência no espelho. De fato, estava pálida, e as olheiras profundas a deixavam parecendo um zumbi. No entanto, não havia o que fazer além de seguir as ordens de Katherine. No fundo, entendia que a amiga só estava preocupada, como ela mesma ficaria em uma situação reversa.
Tentando ser o mais rápida possível, resolveu tomar uma ducha rápida e gelada, aguentando os protestos de seu corpo. Precisava ficar bem desperta, e ao mesmo tempo tinha uma esperança de que a água fria levaria consigo os tremores que ainda tomavam conta de si.
Até que funcionou. Quando saiu do banheiro, se sentia um pouco melhor, e sua barriga até roncou de fome. A jovem optou por vestir a primeira roupa mais leve que encontrou em suas malas e penteou os cabelos rapidamente para seguir de encontro a Katherine.
No entanto, ao chegar à sala, encontrou a amiga em um clima nada amistoso com Lucy.
— Katherine, você só pode estar louca! Olha a hora que é! Tá tudo escuro lá fora, não podemos nos arriscar saindo assim — Lucinda quase gritava e olhava para Kate com indignação.
— Que hora, Lucinda? São oito da noite. Dá tempo da comer alguma coisa e nós voltarmos. Eu é que não vou deixar a nossa amiga morrer de inanição! — O protesto de Katherine era um tanto raivoso. Ela já tinha um pavio bem curto quando se tratava de Lucy, o que não surpreendeu .
— Não seja dramática. Tenho certeza de que ela aguenta, Kate. O que não vale é vocês se arriscarem com um assassino à solta.
Pensando por aquele lado, Lucy tinha razão, mas jamais se intrometeria.
— Eu estou sendo dramática? Só estou preocupada com a nossa amiga. Você já parou pra ver o estado dela? — Aquilo deixou um tanto constrangida, e ela baixou seu olhar e encarou as próprias mãos enquanto as entrelaçava.
— Não acho que você vai ajudar muito tirando ela daqui no escuro. — Pelo jeito, aquela discussão não teria fim, então, após engolir em seco, resolveu se pronunciar.
— Afinal, onde estão as outras se está tão escuro assim? — Caminhou até as amigas e ignorou seus olhares de surpresa por serem pegas em flagrante.
— Elas foram para a cabana do Derek um pouco depois que você dormiu. — Foi Katherine que respondeu.
— Quem é Derek? — Franziu o cenho em confusão.
— O cara que tava com a Camille na festa. Parece que ele trouxe uns filmes, mas sabemos bem o que isso quer dizer. — O olhar malicioso de Pearson dizia tudo, e até os invejou um pouco por conseguirem se distrair depois daquela tragédia.
— E pelo jeito elas vão ficar por lá, não é? A menos que os rapazes venham trazê-las — Lucy se pronunciou, e Katherine bufou.
— Como se ter um pau fosse impedir alguém de ser assassinado.
— Kate! — arregalou os olhos e notou Lucinda fuzilar a amiga com os seus.
— Mas é! E outra, não acho que ele vai atacar grupos. Julie estava sozinha no banheiro — lembrou.
— Isso é verdade. — Lucy se forçou a concordar.
— Enfim, se te deixar mais tranquila, Lucinda, eu mando uma mensagem para o Tyler e peço pra ele e o River encontrarem a gente. — Kate também cedeu.
não sabia como se sentir com aquilo. Blackwood se tornou uma verdadeira incógnita para ela, e não conseguia confiar em pessoas assim.
— Não totalmente, mas já entendi que não vai adiantar continuar discutindo. — Lucinda suspirou, derrotada.
— Por que você não vem com a gente, Lucy? Vai mesmo querer ficar aqui sozinha? — se agarrou a qualquer coisa que pudesse distraí-la de suas desconfianças.
— Algo me diz que eu realmente vou ficar mais segura aqui, amiga. Mesmo sozinha. — Sorriu minimamente para . — Só não demorem muito, ok? E qualquer coisa me mandem mensagem, ou liguem. Vou ficar de olho no celular.
— Você sempre está, né? — Kate resmungou, e ela revirou os olhos.
Pearson havia puxado seu telefone para de fato enviar uma mensagem a Tyler, mas nem se deu o trabalho de esperar uma resposta. Sabia que ele concordaria e pouparia tempo já percorrendo uma parte do caminho até eles.
— Vamos. Eles estão vindo. — Puxou pela mão, sem nem dar tempo para Lucinda questionar qualquer coisa.
Quando saíram, agradeceu mentalmente por não ter vestido sua blusa de mangas compridas. Mesmo com o vento, o clima estava bastante quente.
— Meu Deus, achei que Lucy ia me enlouquecer agora — Kate comentou, sem soltar a mão da amiga enquanto caminhavam.
De fato, apesar do horário, estava mesmo escuro, o que era um tanto estranho, porque no verão o sol sempre ia se pôr um pouco mais tarde, normalmente entre nove e dez da noite. Talvez fosse algo de Rochester.
Ainda assim, não tornava tudo menos agoniante. lutava para não pensar naquilo e na última vez em que esteve naquela escuridão.
— Ela só está preocupada, Kate. Você sabe como a Lucy é. — tentou se distrair e amenizar as coisas.
— Irritante? Sei, sim. — Katherine implicou e parecia uma criança mimada.
— Nunca entendi essa birra toda entre vocês. — sentiu o olhar indignado da amiga em si, mas apenas continuou a andar, mesmo sem saber para onde exatamente elas iam.
— Não é birra. Gosto da Lucinda, mas nossas personalidades às vezes não encaixam, . Não sei explicar o porquê.
assentiu.
— Bom, ainda acredito que um dia vocês vão conseguir se entender.
— Você é otimista demais às vezes, .
Andaram por mais algum tempo, e o silêncio reinou de uma forma incômoda. E mesmo que houvesse alguma iluminação fraca em alguns trechos do caminho, ainda havia um ar sinistro por ali.
Parecia que elas nunca chegariam.
— Aonde estamos indo mesmo? — resolveu perguntar, já que a amiga não havia se dado ao trabalho de lhe dizer.
— Até a cabana do Kevin, onde os rapazes estão agora. Tenho certeza de que o River vai te alimentar muito bem. — A malícia estava presente em cada uma de suas palavras, mas não conseguiu compartilhar daquele sentimento.
De repente, parecia que seu coração havia parado de bater.
— ? — Kate arqueou uma sobrancelha, ao ver que a amiga havia paralisado em seu lugar e se soltado dela. — ? — repetiu.
Então um estouro ecoou por todo o ambiente e toda a iluminação se foi. Uma densa escuridão tomou conta.
— ! — Katherine chamou com urgência.
— Kate? — Os lábios de começaram a tremer, e o pavor foi tomando conta de si.
Podia jurar que ouvia passos ao seu redor, ela até mesmo os sentia, mas não era possível, estava apenas Katherine e ela ali.
— Ah, meu Deus! , cadê você? — Pearson se desesperou, olhou à sua volta e tateou às cegas.
— Aqui, Kate. Aqui! Segue a minha voz, eu…
— Você trouxe o seu celular? Eu não tô enxergando nada e o meu simplesmente apagou!
— Não, eu não trouxe, eu…
Então um grito cortou a noite, tão desesperado quanto o daquela fatídica festa.
arregalou seus olhos, seu corpo inteiro tremia e sua respiração ficava mais ofegante conforme o medo a dominava.
— Kate, corre! — gritou apavorada.
— Para onde? — Ouviu a amiga responder.
— Corre, amiga! — apenas insistiu e forçou suas pernas a se moverem. Torceu para que Katherine estivesse seguindo na mesma direção que ela.
A cada passo que dava, seu corpo pesava mais, o ar ficava mais escasso, e seus olhos ardiam, na tentativa de enxergar alguma coisa, qualquer coisa, em meio à penumbra.
Sentindo uma espécie de déjà vu, de repente esbarrou em alguém e, segundos depois, uma voz desesperada pôde ser ouvida.
— Quem está aí? — não fazia a mínima ideia de quem era, mas Kate sabia.
— Chloe? — ficou aliviada por constatar que não havia seguido um lado oposto ao da amiga.
— Kate, por favor, me ajuda! — Chloe implorou e começou a soluçar.
Mais uma vez, estava ali. A sensação horrível de que alguém observava.
tentou olhar ao seu redor e temia o que poderia encontrar.
— O que aconteceu, Chloe? Me diz! — Katherine praticamente gritou, agoniada por não saber onde a garota estava e porque o medo a consumia mais a cada segundo.
— Richard… Ele… Ele foi atacado! Foi na hora que as luzes se apagaram. Só consegui ouvir os gritos e o som horrível dos ossos se partindo, e… — Ela voltou a soluçar.
O estômago de Kate se revirou com aquilo, suas mãos até suaram, mas, mesmo assim, a garota tentou tatear para encontrar Chloe ou .
— Chloe, você viu mais algo? Viu alguém se aproximando? — questionou ansiosa e ignorou a sensação horrível que não a abandonava.
— Eu só senti que tinha alguém nos observando e, pra falar a verdade — pausou quando seus lábios tremerem —, eu ainda sinto.
— … — Kate balbuciou, alarmada.
Dessa vez não houveram gritos, apenas o som da carne sendo rasgada e Chloe engasgando em seu próprio sangue.
— Corre, por favor! — gritou esganiçada e voltou a correr por mais que seu coração insistisse que precisava ajudar Chloe.
A garota não podia morrer daquela forma, não tão jovem, mas não havia nada que ou Pearson pudessem fazer além de tentarem escapar com vida.
E, enquanto fugia, aquela sensação não ia embora. Era como se o que a observava a seguisse, não importava o quão rápidos fossem seus passos.
Os pulmões de protestavam. Depois da primeira corrida, ela não estava pronta para outra, e o ardor em seu peito era um alarme ao qual não poderia ceder.
Preferia morrer de ataque cardíaco, enquanto tentava se salvar, do que morrer nas mãos de um assassino, ou o que quer que fosse aquilo.
Como não haviam escutado passos? Uma respiração? Um farfalhar das folhas?
O cansaço falou mais alto, amoleceu as pernas de e, antes que se desse conta, ela desabou.
Que grande ironia. Nunca mais diria que gostava de clichês.
— ? , cadê você? — Kate gritou, sem saber ao certo para onde corria e sem se dar conta de que as duas acabaram se separando.
ainda conseguia ouvir a amiga, porém sua voz se distanciava, e, de repente, todo o ar de seus pulmões havia ido embora, sua garganta se fechou em um nó doloroso e lágrimas brotaram em seus olhos.
Ali, caída, completamente vulnerável e com aquela sensação de formigamento, não conseguia nem mesmo falar.
Ia morrer, tinha certeza. A mesma coisa que matou Chloe, Julie e Richard viria pegá-la e a rasgar daquela mesma forma brutal.
Queria que não doesse, mas sabia que ia doer, e muito.
Não saber por qual lado o assassino viria era agoniante.
— ? — Uma voz conhecida se fez ouvir, e ela não sabia se suspirava aliviada, ou se chorava ainda mais.
— River? — balbuciou, com a voz tão trêmula quanto cada célula de seu corpo, enquanto um ponto de luz se aproximava.
— Sim, sou eu. — Então, de repente, a lanterna do celular dele a iluminou. — Não se preocupe. Você está segura agora.
Ainda não sabia se podia confiar nele, mas ela estava tão desesperada que o deixou entrelaçar a mão na sua e a ajudar a se levantar.
— River, eu estou com tanto medo! — E, num impulso, se agarrou a ele e o abraçou com força.
— Calma, vai ficar tudo bem. Só precisamos voltar para as cabanas. — Blackwood retribuiu, a amparou e passou uma mão por seus cabelos, na tentativa de acalmá-la.
Por alguns segundos, funcionou, qualquer sentimento de desconfiança se dissipava pelo gesto dele e, fungando, afundou seu rosto na curva do pescoço de River e inspirou profundamente.
Foi aí que ela sentiu, mais uma vez, aquele cheiro e aquele gosto metálico.
Ao arregalar os olhos, o soltou imediatamente, apavorada.
A lanterna do celular dele ainda os iluminava, e foi aí que ela percebeu.
— River, por que tem sangue em você? — sussurrou, e se sentiu extremamente estúpida. Como podia ter baixado a guarda daquele jeito? Suas suspeitas então não estavam erradas e…
— O sangue não veio de mim, . Veio de você.