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I Verso

Aquele frio na barriga já era familiar, ele sempre sentia antes de subir ao palco. O celular ainda estava na mão. Nas mensagens, o nome de subia toda vez que ela respondia, e seus olhos brilhavam como uma criança.
Harry a amava incondicionalmente desde que a viu naquela pequena casa onde gravavam seu clipe. Ela era linda, conversando com o estilista responsável pelas roupas do clipe.
Desde então, eles construíram um relacionamento sólido, discreto e carinhoso. Fisher tinha um ar que ele não conseguia descrever. Não havia uma música, um acorde, que conseguisse colocar tudo o que ela era.
Seis anos juntos, e seis meses noivos. Seis minutos para girar.
Entretanto, naquele instante uma sensação o tomou por inteiro.
Como se um solavanco tivesse passado por ele, deu dois passos para trás. Talvez o calor, talvez a adrenalina — ele não sabia explicar ao certo. O celular já estava longe. Não era uma nova mensagem. A última era avisando que estaria ali em seis minutos.
O show tinha que esperar.
— Harry, podemos conversar? — Eddie se aproximou.
Ele achou que poderia ser algum problema técnico, até porque o tom de voz parecia natural.
O atraso começou a preocupar. O nome dele, que ecoava no Royal Albert Hall até então, parou. O homem apareceu no palco sob um único foco de luz. As vozes foram diminuindo até o Royal Albert Hall ficar em um completo silêncio.
— Boa noite. — Ele engoliu a seco. — Não era assim que queríamos começar esse momento importante. Peço que vocês compreendam e tenham paciência. O show vai ter que esperar. — Um murmúrio começou a tomar conta do lugar. — Eu sei… eu sei que é difícil. Em breve o Harry vai se pronunciar e explicar tudo.
Desceu do palco após a péssima notícia.
— Que explicação? — uma fã falou para outra.
— Harry não faz isso sem um grande motivo, será que ele passou muito mal?
— Não, impossível — dizia outra enquanto seguiam em direção à saída. — Isso não faz o tipo dele.
— Amiga, olha…
Virou a tela do celular para ela. Já estavam fora do Royal Albert Hall. A matéria era direta e explícita, e as fotos partiam o coração a cada deslize.
— Minha Nossa Senhora! Como isso veio acontecer?
— Eu também quero saber.

Harry só tinha colocado uma blusa e saiu correndo em direção ao hospital para onde ela tinha sido levada. Ele não dirigia, não tinha condições para tal ato. Enxugava os olhos com as mãos. O celular tremia sobre sua perna, com mensagens atrás de mensagens e as fotos do acidente na tela fria.
Como podia ter acontecido o acidente em sua maior onda de felicidade?
Entrou às pressas. Nem precisou dizer quem procurava, e logo foi encaminhado para o quarto onde ela estava. Os senhores Fisher já estavam ali. Sua sogra — Maxine — se debulhava em lágrimas sobre o peito do marido, que segurava o choro por ela.
— Harry… — disse apenas o nome, ao ver o estado emocional do genro.
— Sabem… sabem do estado dela? — Aproximou-se, sua voz estava saindo atropelada pelo choro.
— Não, ainda não. O médico disse que logo viria explicar o quadro dela. Apenas informou que a perda de sangue não foi tão grave quanto imaginaram na entrada.
— Alguma coisa mais?
— Não, infelizmente.
— D-deixe que arcarei com tudo. — Referindo-se às despesas hospitalares.
— Esse não é o momento — disse, olhando para o genro.
— Eu sei… mas isso aconteceu porque insisti que ela fosse. — Referiu-se à gravação.
O senhor apenas concordou com um gesto e voltou a abraçar mais apertado sua esposa. Ela nem conseguia olhar para o cantor.
O peso da culpa caía sobre ele, mesmo não sendo sua.
Minutos se passaram. Horas também. Até que o doutor entrou no quarto. Estavam ali por privacidade, além de namorar uma figura pública, também era.
Nenhuma palavra foi escondida. Ele explicou o estado dela e a possível perda de memória. Harry caiu sentado no sofá. As memórias poderiam ser aleatórias, poderiam ser todas ou apenas as mais recentes.
Poderia ser ele que seria apagado de todas as boas lembranças.

II Verso

Os dias começaram a se prolongar. A notícia rodava Londres inteira. Em plataformas de notícias e até nos jornais. Todos os lugares relataram o acidente e o impacto que deixou Londres nublada naquela tarde.
“A estilista e noiva de Harry Styles, Fisher, sofreu um grave acidente de carro SUV em que estava na noite de 23 de maio. Ela foi levada às pressas ao hospital. Os médicos seguem acompanhando seu estado de perto, e a causa do acidente ainda está sob investigação.”
Em sua rede social, a foto dela — a mais linda que ele tinha no celular — estava no topo. O texto era doloroso, de alguém que também tinha sido atingido, mesmo que indiretamente. Seus fãs deixaram inúmeras mensagens de apoio, carinho e amor. Porém, nada disso parecia amenizar.

Harry passava por todas as notícias, sem realmente ler nenhuma delas. Mudava de aplicativo, indo direto às fotos ao lado dela. Foi tudo tão rápido, sem aviso prévio. Ele estava falando com ela e, depois, a notícia chegou sem pedir licença. Harry estava completamente devastado.
O médico entrou. O sorriso gentil e bondoso tentava confortar alguma parte do cantor.
— Bom dia, Harry.
— Bom dia.
Ainda tentava se manter educado diante de toda situação.
— Vim apenas ver como a está.
Harry concordou com a cabeça.
— Os exames já revelaram algo?
— Ainda não. — Examinava os olhos dela. — Porém, pelo impacto, ela pode ficar em coma por um tempo, sem previsão. Eu compreendo, sei que é difícil. Mas com todo o cuidado do hospital e você ao lado dela…
— Obrigado. — Engoliu o choro, por hora. — Vou voltar pra casa e logo retorno.
— Como quiser, bom descanso.
O mesmo que ele vinha fazendo desde ontem — e nos últimos dias.

Chegou em casa, tomou um banho, procurou qualquer coisa para comer. As fotos do pré-wedding estavam sobre a mesa, eles ficaram de ver quais iriam para a decoração do casamento. O tempo estava parado à sua frente.
Harry voltava ao hospital, cuidava dela com carinho, para seus shows para ficar ao lado dela, e assim que acordasse poder saber que a única memória que não voltaria fosse do acidente.
Era um looping. O hospital para casa. Da casa para o hospital. Tudo ali lembrava ela — já tinha o toque de em cada canto.
E conforme os meses iam passando, a saudade de sua noiva aumentava. Os paralelos não eram agradáveis: ela deitada em uma maca, sem dia ou horário para acordar. Em casa, as fotos relembravam memórias alegres dela. E todos os preparativos do casamento mostravam o quanto o tempo passava rápido demais.
Provas do bolo. Buffet, decoração, e o terno.
O terno estava à sua frente. Ela tinha pedido que ele usasse algo simples, porque era assim que sempre o imaginou na frente do altar. Ele estava mais uma vez em lágrimas, sem conseguir olhar para o terno à sua frente.
Se um dia pudesse… que esse dia fosse amanhã.
Aos poucos, Harry — com a ajuda de sua mãe e da sogra — ia desmarcando todos os agendamentos do casamento.
Eram seis meses que faltavam, e ela já não acordava há três.
— Trouxe para você. — Eddie entregou o café.
— Obrigado.
— Estão querendo saber se você pretende voltar. — Eles se entreolharam. — Eu não estou forçando — deixou explícito.
— Eu volto apenas quando ela acordar, não quero estar longe.
— Tudo bem.
Harry não tinha vontade de voltar. A pressão não vinha nem de seus fãs. E Eddie estava falando a verdade, mas a produtora já estava cansada de vê-lo parado. Bom… nem todos conseguem ter um pouco de compaixão.

III Verso

Abriu a cortina do quarto de hospital, deixando o sol entrar. Estava com o violão no sofá, enquanto ajeitava o cabelo dela prendado em um amarradinho. Puxou a poltrona para perto, pegou o violão e começou a dedilhar. Faziam isso em tardes ensolaradas, sentados no jardim da casa deles. Ela comia o doce favorito e admirava a forma que as músicas surgiam. Naquele momento ele se lembrou de uma das tardes.

O sol começava a ficar mais intenso. Ela tirou o robe e se jogou na piscina, molhando ele um pouco. Ela riu e ele nem se importou.
— Harry, amor. — Aproximou-se da borda da piscina. — Quando vou ser sua musa inspiradora?
— Mas você já é. — Colocou o violão de lado. — Você é a minha musa para todos os dias que acordo.
— Você me pegou desprevenida. — Mergulhou e emergiu rapidamente. — Pronto, não estou mais vermelha.
— Está um pouco.
— Eu fico tão feia assim. — Jogou água no rosto. — Nada de falar das minhas bochechas coradas.
— Falar?
— Sim, na música que você vai fazer só para mim.
— Ah sim. — Ele riu. Despiu a bermuda e entrou na piscina. — Eu queria conseguir fazer uma música para você, mas não tem acorde que expresse tudo o que sinto ao te olhar. — Ele a abraçou pela cintura e depositou um beijo nela. — Não fique brava comigo, eu já tentei, inúmeras vezes.
— Tudo bem. — Sorriu docemente. — Não vou ficar, e também nem tem motivo.
— Como assim?
— Algumas coisas vêm sem a gente saber, um dia você consegue. E não fale das minhas bochechas vermelhas.
— Vai ser o refrão. — Ele ria. — Dos mais lindos, com todo mundo cantando no Royal Albert.
Ela riu e afundou o rosto no ombro do cantor. Sentindo os perfumes se misturarem, aquele doce aroma de baunilha e violeta.

Como ela podia ter falado algo em um momento banal que poderia no futuro fazer tanto sentido.
Harry já tinha parado de dedilhar há um bom tempo, mas estranhou quando uma pequena sinfonia começou a surgir. Ele tocou repetidamente, como se fosse um refrão intermitente.
Ficou naquelas notas por dias.

Completando cinco meses que ela estava desacordada, ele conseguiu encontrar mais notas para aqueles acordes únicos.
Voltou ao hospital. Sua sogra estava lá, o sorriso dela era pequeno, mas deixou Harry um pouco mais feliz.
— Como a senhora está? — Segurava a mão dela.
— Bem, só esse sofá que realmente não ajuda em muito.
Riram suavemente.
— Podiam trocar, vou ver se dá para fazer isso.
— Não se preocupe com isso.
— Preciso sim, você é a mãe da minha noiva, não deixaria você dormir aqui em um sofá desconfortável.
— Harry, Harry… — Respirou fundo. — Estou indo. — Se ficasse mais um pouco, ela choraria. — Amanhã vem meu esposo.
— Tá certo, até mais, Maxine.
— Até.
Harry puxou novamente a poltrona e colocou-a perto dela. Deixou um beijo sobre a testa e acariciou a bochecha que sempre corava ao se envergonhar.
— Oi, meu amor, eu cheguei, desculpa a demora — falava baixinho. — Eu acabei dormindo um pouco mais. Aquela cama amanheceu com o seu perfume, e eu não coloquei… achei diferente. Ah — agora falava mais alto e se sentava —, quero que escute uma coisa…
Pegou o violão e tocou. Era curtinha, sem melodia definida, mas suave, calma, doce e florida.
Harry tocava as mesmas notas todos os dias, por mais um mês.
O mês que seria seu casamento.

IV Verso

O lembrete do celular apareceu no visor. Seria aquele dia — a manhã em que ele seria o homem mais feliz ao ver a mulher que escolheu para viver o resto da vida entrando na igreja.
Que lembrete maravilhoso para começar o dia.
Excluiu e seguiu com a sua rotina. Vestiu uma calça qualquer que combinasse com a blusa rosa.
Ajeitou seu cabelo antes de sair de casa.
No caminho, Harry parou em uma floricultura, comprou um pequeno buquê das flores favoritas dela. O jornal que envolvia as flores trazia aquele detalhe que ela gostava — simples e bonito.

Harry se sentou e lia um livro enquanto esperava o tempo passar. Aquela noite ele ficaria com ela — ou melhor, a semana inteira, até que a senhora Fisher melhorasse. Infelizmente ela havia pegado um resfriado e não gostava de frequentar hospitais quando estava um pouco debilitada.
— Harry, bom dia. — Seu sogro entrava no quarto.
— Bom dia! Como o senhor está?
A pergunta sempre caía para o dia a dia, todos sabiam que, dentre os três, Harry e William eram os que mais sofriam com esse momento.
— Bem, apenas cansado. — Sentou ao lado do cantor após cumprimenta-lo.
— E a Maxine?
— Melhorando, ela está tomando os remédios certos, algo que nunca fez. — Eles riram do comentário. — Quer melhorar logo para voltar a ficar com a .
— Ela vai. — Estava com um meio sorriso no rosto. — Logo vai voltar a revezar comigo.
— Era sobre isso que vim conversar. — Ajeitou-se. — Está tudo bem, posso tentar ver um horário no trabalho e depois compensar.
— Não se preocupe, não teria nada que eu não fizesse por ela.
William respirou fundo.
— Certo, se precisar de algo pode entrar em contato.
— Obrigado.
William saiu com o coração aflito. Harry tinha deixado há seis meses os palcos, e, quando cantava para seus fãs, eram apenas pequenos shows em lugares menores.
Ele estava esperando por ela.
Não foi uma semana puxada, porém ele ia com amor. Naquela tarde, ele fechou a janela mais cedo. O outono estava entre eles, o outono estava entre eles, as árvores sem folhas, as flores esperando a primavera para florescerem. Encostado na parede, perto da janela, ele olhava as árvores balançarem, o sol indo embora mais uma vez — e ela, em seu sono profundo.
Harry fechou os olhos, lembrando das primaveras ao lado dela, tentando compreender por que ela tinha escolhido o outono para casar. Ele deixou um sorriso triste escapar pelos lábios.
No ritmo constante do monitor cardíaco, ocupando o quarto com seus bips, ele estranhou quando o som começou a mudar, a alternar. Virou o rosto rápido demais, deixando a janela com a fresta aberta, e se aproximou de , tocando de leve seu rosto enquanto segurava a mão dela. Seus olhos foram de encontro ao dela.
Harry chorava, sem conter as lágrimas, ela tinha acordado em novembro.

V Verso

Os enfermeiros acompanhados pelos médicos chegaram de imediato. Não com alarde, mas para avaliar como estava, a mulher havia acordado de um coma de seis meses, e tudo tinha que ser assistido.
Harry foi tirado de dentro do quarto pelo doutor. Ele ficou à espera de William e Maxine, no consultório médico. Parecia que o tempo havia parado, o doutor não retornava, os três já estavam ali há mais de quinze minutos. Podia sentir seu coração explodir de ansiedade.
— Perdoem a demora. — Adentrou. — Acabei de voltar com os exames que fizemos na senhorita .
— E como minha filha está, doutor? — Maxine, que estava de máscara, deu um passo à frente.
Ninguém ficou sentado nas cadeiras.
— Os resultados vitais estão todos normais, ela terá que ficar aqui mais um pouco por monitoramento.
— E quando podemos ir vê-la? — William perguntou.
— Então. — Limpou a garganta. — sofreu uma batida muito forte, como conversamos quando ela deu entrada aqui, ela pode sofrer sequelas, dentre elas a perda de memória.
— Temporária? — A voz da mulher soou franca.
— Pode ser temporária… ou não. Ela pode esquecer momentos específicos, ou até períodos inteiros da vida.
Harry não perguntou nada, ele na verdade, não disse nada. Apenas ficou a escutar tudo o que o doutor tinha a dizer sobre o estado de .
— Vocês podem ir até lá, mas quero deixar vocês preparados para saber que ela não pode reconhecê-los.
Maxine virou o rosto para o peito do marido, sem conseguir esconder o desespero de sua pequena não a reconhecer.
— Calma. — O marido tentava tranquilizá-la. — irá lembrar de nós.
— Vocês já querem ir?
Maxine concordou e saiu segundo o doutor. Logo atrás Harry acompanhava a passos rasos, as mãos no bolso escondendo o nervosismo e a apreensão. Ele não quis interromper os pais dela, e também a única dúvida que ele teria — tirando se ela estava bem — era se agora, ao olhar para ele, , sua sunshine, iria se recordar dele.
O senhor e a senhora Fisher entraram primeiro. Parando ao lado direito da filha, Maxine se aproximou primeiro; o olhar confuso, um pouco distante. De início não reconheceu seu pai, mas aos poucos a conversa parecia trazer as lembranças em leves borrões.
olhou à sua volta, seus olhos passaram por cada pessoa que estava dentro do quarto, sem parar nele. Ali no canto, apenas esperando sua vez de entrar em cena.
Entretanto, ele sentiu. Compreendeu sem precisar trocar uma palavra com .
— Filha. — A voz de sua mãe chamou a atenção. — Vamos deixar você um pouco a sós, tem alguém que também estava querendo esse momento.
— Está bem mãe. — Sorriu.
Deixou um beijo na cabeça da filha e saiu segurando a mão de seu marido. William deu um leve aperto no ombro de Harry trazendo um pequeno conforto para aquele momento.
Harry ajeitou o cabelo, arrumou a postura. Aproximou devagar como se sua presença fosse assustá-la. Ficou ao lado esquerdo dela, seus olhos se encontraram e ficaram na troca de olhar por instantes demais; ele só queria abraçá-la, beijá-la, tocá-la. Dizer o quão complicado foi aqueles meses, e ter que desmarcar tudo, mas que a esperou. Só que ele respeitou, como faria em qualquer outro momento.
Sem tentar se conter, ele falou primeiro.
Hey, sunshine. — Sorriu para ela. — Estava com saudade de poder ver o brilho de seus olhos.
Ela parou, olhou. Cada linha desenhada no rosto dele. O frio do outono deixava os lábios deles ressecados, mas nem isso…
— Me desculpa... — ela não precisava terminar — eu… nós nos conhecemos?

VI Verso

Harry respirou fundo. As lágrimas queriam rolar pelo seu rosto. Ele queria dizer tudo de uma vez, soltar: estamos há seis anos juntos.
Conteve.
— Nos conhecemos sim. — Procurava as palavras. — Há seis anos.
— Eu realmente não consigo me recordar. — Parou para tentar lembrar o nome dele.
— Tudo bem. Com o tempo, eu sei que você vai se lembrar.
Harry parou o movimento no meio do caminho. Ia tocar na mão dela, mas hesitou por medo.
— Poderia chamar minha mãe?
Harry concordou com um movimento e saiu do quarto. Procurou os pais enquanto fechava a porta atrás de si. Estavam felizes, o telefone na mão Maxine não parava de conversar com um familiar, enquanto William pegava as fotos ao lado da filha que tinha no celular para poder ajudá-la a recordar.
— Oi.
— Harry, querido. — A senhora parou na frente dele. — E então como foi?
— Ela não se lembra de mim.
Maxine mudou completamente, sabia o quanto amava Harry e o quanto queria viver ao lado dele.
— Não se preocupe. — Viu como ela ficou abalada. — Com o tempo eu sei que ela vai se lembrar.
— Tenha fé — disse o sogro.
Harry concordou com a cabeça.
— Ela pediu para chamar a senhora.
— Eu estou indo, William, passe em casa, pegue as fotografias e traga para cá.
— Desculpa atrapalhar, mas vou retornar para casa, descansar, sei que vocês vão cuidar bem dela.
— Tudo bem, mas volte, viu.
— Pode deixar, Max.
Styles não sabia se retornaria. Ver o olhar perdido de , foi como sentir a pior dor em sua alma. Nem a água que caía sobre ele era capaz de tirar aquela sensação.
Passou três dias sem ir ao hospital. Não era só receio de encontrar aquele mesmo olhar — ele precisava de distância para conseguir voltar.
Precisava dar um respiro para as memórias dela. Ele acreditava nisso.
O outono em sua casa já não tinha beleza alguma. Na verdade, o que deixava todas aquelas árvores secas sem suas folhas bonitas, era a voz de . O sorriso, e suas bochechas coradas.
Sentado à beira da piscina, sem entrar só observando a água. Ele batia os dedos no ritmo da melodia, era boa até nesse momento que se sentia vazio.

Quarto dia. Harry jogou o casaco por cima e ativou o alarme do carro. Passou cumprimentando os funcionários do hospital e caminhou até o quarto de . Um toque e a voz lá dentro autorizou ele entrar. A mulher já estava mais ruborizada, tinha terminado o café da manhã e o doce sorriso nos lábios. Se sentiu animado, como se tudo estivesse no devido lugar.
— Oi, Harry — Maxine foi abraçá-lo — Eu falei que podia voltar.
apenas analisava toda aquela ternura de sua mãe por ele, Harry — aos novos olhos de — era gentil, carinhoso e respeitoso. Um homem encantador, as flores na mão dele, o jeito de falar e tratar tão bem todos a sua volta.
— Eu trouxe para a .
— Violetas — sua mãe comentou.
— Obrigada, elas estão lindas.
— Peguei na floricultura que você sempre vai. — Estava tentando agir com naturalidade, sem forçar nada. — Lá em pleno outono sempre conseguem deixar as flores perfeitas.
— Mas eu gosto de violetas?
Sua mãe riu, realmente não conteve. O olhar de uma criancinha pairando pela matriarca e deixando claro que nem sequer sabia o que gostava.
— Sim, filha. Na casa de sua avó você fez uma parte do jardim dela só de violetas.
— Ah. Se você está afirmando com tanta certeza.
— Vou deixar vocês a sós, é rápido, preciso de um café expresso.
— Eu cuido dela.
Maxine saiu e quando a porta se fechou o silêncio pairou no quarto. Eles não conversavam, só trocavam olhares. não tinha receio de Harry, até porque sua mãe passou confiança nele.
— Meu pai comentou sobre você. — Ela tomou a iniciativa. Harry apenas a olhava. — Falou que iríamos casar, só que eu não me lembro de nada, nem mesmo quando todos nós saíamos juntos.
Não foi só as histórias contadas, foram as fotos também, nem elas ajudaram.
— E se eu tentar? Posso tentar trazer todas as lembranças de nós. — Aproximou-se.
— Mas e se eu não lembrar.
Harry não sabia o que responder, ele nunca tinha pensado nessa probabilidade.
— Talvez você saia machucado nessas tentativas.
— E o que você sugere?
— Também não sei.
. — Estava agora perto dela. Seus olhos foram até sua mão e voltaram, pedindo permissão para segurá-la. O que ela concedeu. — Algumas coisas vêm assim, sem a gente perceber. Podemos tentar, se você quiser.
— Tudo bem se eu pensar?
— Você pode o que quiser.
Ele estava determinado. Retornou a casa, juntou todos os momentos que tanto ele quanto ela, amava. Novembro teria que trazer alguma luz para eles — mesmo com as folhas caindo.

VII Verso

Logo após aquela manhã, aceitou tentar. A partir daquele dia, Harry passou a buscar em cada detalhe algo que pudesse despertar as memórias dela. Esperou que recebesse alta e, durante aqueles dias, organizou tudo em silêncio, como vinha planejando.
Temporariamente, ficou na casa dos pais. Em dias alternados, Harry passava pela casa dos Fisher, sempre levando algo preparado com cuidado — recriando, aos poucos, os momentos que viveram. Desde o dia do clipe até o último em que saíram juntos.
Essa foi a motivação que fez Harry voltar a cantar. Não conseguia fazer viagens longas ou grandes shows, mas tinha sua inspiração de volta.

Em uma das tardes, saíram para caminhar. O frio do outono fazia manter as mãos nos bolsos do casaco, enquanto Harry andava ao seu lado, em silêncio, respeitando o espaço que agora existia entre eles.
Mais à frente, uma casa antiga, mas linda. Harry disse poucas palavras antes de virar em direção ao portão, dando passagem para que ela entrasse.
Deixou-a entrar e olhar o lugar. Era pequena, vazia, sem móveis ou qualquer sinal de que ainda fosse habitada. Andaram pelo lugar enquanto Styles contava sobre tudo — como encontrou aquele espaço, como se conheceram ali. Pararam no pequeno quintal onde uma árvore estava. encostou no tronco, de frente para ele, o sorriso nos lábios pelo o que ele contava.
Podia não se lembrar de nada do que viveram, mas estava gostando de passar o tempo ao lado dele.
Completava um vazio que ela não compreendia.
— E depois a gente sentou ali, a produção trouxe um saquinho de salgadinho e você dividiu sua Coca comigo.
— Eu dividindo Coca? — Ela arqueou a sobrancelha.
— Você, e depois que descobri que você nunca faz isso me senti importante. — Ele fez um gesto que tirou uma gargalhada dela.
— Eu então não estava nos meus melhores dias.
— Ou eu estava muito irresistível.
Ainda riram.
— Harry, você é incrível. — Recuperava o ar. Mudou de lugar, parou na frente dele.
segurou a mão dele, acariciando com cuidado, como se aquilo tornasse mais fácil dizer o que precisava, como se, de alguma forma, aquele toque pudesse suavizar o peso das palavras que estavam prestes a sair. — Eu sei que você está tentando, e eu sei que isso tudo é importante. — Fez uma pequena pausa. — Mas eu não lembro.
O silêncio caiu entre eles. O sorriso que tinha nos lábios dele foi desaparecendo devagar junto do brilho de seus olhos.
— E eu tenho medo de continuar tentando e por fim… — Respirou. — No fim acabar te machucando. — Seus olhos estavam sustentando o olhar. — Acho que devemos parar, para evitar…
— Tudo bem. — Ele forçou um sorriso. — Eu… Obrigado, sunshine. — Os olhos estavam marejados, a sua mão apertava a dela como se não quisesse deixá-la ir. — Você se incomoda de eu te abraçar?
concordou com a cabeça e o envolveu em seus braços. Harry sentiu o perfume dela de perto depois de tanto tempo. Comprimiu os lábios segurando os sons do choro, mas as lágrimas… elas rolaram sem controle. Chorou nos braços dela por longos minutos, guardando todos seus sentimentos dentro de seu coração.
Se afastou, ela enxugou as lágrimas dele e as suas, deixou um beijo na bochecha dele e pediu para que Harry a levasse para casa.
O caminho foi um silêncio por completo, nem mesmo o rádio do carro foi ligado.

Pararam na frente da casa dos pais dela, antes de sair, ela parou. A mão na maçaneta do carro, a voz baixa, seus olhares não se encontraram desta vez.
— Harry. — Buscava as palavras. — Volta a cantar, eu… eu não sei como é isso. — Se referiu a ter que mudar mesmo lembrando de tudo. — Só que você é bom no que faz.
— Não se preocupe. — Não estava sendo grosseiro. — Você sempre pediu para eu continuar.
— Adeus, Harry.
Ela desceu do carro com um meio sorriso.
— Adeus… sunshine.
Era o fim de um amor que apenas ele se lembrava.

VIII Verso

Como prometido ele continuou, mas não sendo o mesmo Harry de antes. Suas fãs foram uma das maiores forças que teve durante todo aquele tempo, para não expor tanto , ele fez um único vídeo explicando tudo e pedindo que a partir daquele momento, o respeito por ela fosse como se nada tivesse acontecido.
Claro que seria difícil. Para ele… e para todos os fãs. era adorável com as meninas, conseguia coisas que deixavam elas felizes, nunca em nenhum momento podia se ler comentários negativos sobre , apenas de saudades e adeus.
Agora seguia preparando novas canções, com a agenda começando a ficar cheia novamente. A única coisa que ainda evitava eram entrevistas com pessoas sem sensibilidade.
Harry estava voltando para sua casa, um dia longo e cansativo no estúdio. Nada fluiu, nenhuma letra, nenhum acorde.
A casa estava vazia, as fotos tinham sido retiradas, o quanto menos sofrer era melhor. Enquanto aguardava a comida chegar, ele apoiou na bancada da cozinha, aquelas grandes portas de vidro, mostrava a pouca neve que ainda caía no final do inverno. Branco como as folhas que ele tinha na sua frente naquele exato momento.
O jardim, a neve, o vazio.
Styles se pegou batendo o dedo no ritmo daquela melodia que não saía por nada do seu devaneio quando estava longe dela. Procurou a sua volta um papel e caneta; sentou do lado de fora mesmo, sentindo a neve umedecer sua roupa, cair em cima das folhas mas não se importava.

O primeiro dia da primavera, seu show no Royal Albert Hall. O mesmo que era para acontecer a nove meses atrás.
Harry estava mais estável. Já não era o mesmo de antes — mas também não se desmoronava como antes. Aprendeu a seguir, mesmo sem ela ao lado.
Eddie se aproximou, um sorriso largo nos lábios e passando a garrafa d’água para ele.
— Pronto?
— Como todos os dias. Eu passei tempos imaginando como seria esse show.
— E o nome, vai ser mesmo aquele?
Adore you, sunshine? — Fez uma cara de que pergunta. — É claro que vai ser.
— Bom… então o show tem que continuar.
Microfone em suas mãos, os olhos fechados. Seu nome ecoando no salão de espetáculos.
Ele já havia cantado outras. Sucessos, pedidos dos fãs, músicas que marcaram sua carreira.
— Essa… eu escrevi recentemente. Sun… — Quase não podia ouvir a última palavra.
O ritmo era calmo, uma balada de amor profundo. A melodia era a mesma que sempre ficou com ele; realmente não tinha palavras ou acordes que poderiam dizer o quão perfeita era ela. Como seu amor por crescia mesmo longe dela. Os olhos, o sorriso, como se envergonha ao fazer pequenas declarações de amor, aquelas bochechas coradas que seriam o verso mais cantado nos quatro cantos do mundo.
Baunilha, violeta, o sol no corpo dela, deitada sobre o lençol branco em um dia de primavera. Era apenas florescer em uma estação, que tudo poderia voltar como antes, pois seu amor florescia a cada dia que acordava.
Se pudesse, ele gritaria da onde ele estivesse, só para ela saber que ainda era sua Sunshine.
Harry Styles estava de volta ao palco.

IX Verso

Os dias passaram de forma mais comum. Suas rotinas, as que ainda lembrava, já não faziam tanto sentido. Não precisava mais ir às consultas, seguia uma vida banal, quase automática.
Naquela semana, a segunda da primavera, ela acordou com uma decisão diferente: iria voltar para sua casa e mudar tudo. Mudar até mesmo sua profissão. já não conseguia sentir o mesmo amor por croquis e tecidos, não eram só as pessoas que tinham sido apagadas.
— Você pegou tudo? — Maxine perguntou na porta do quarto.
— Acho que sim. Qualquer coisa você e o papai levam até lá.
— Por mim tudo bem.
Saíram do quarto. Um carro estava à espera de na frente de casa.
— Filha. — A voz do homem soou. — Você não quer que a gente vá com você?
— Não. — Sorriu. — Fiquem em paz. Eu estou bem… melhor do que antes. Lembrei de tudo.
Só não se lembrava de Harry Styles.
— Ok, você que escolhe, nos vemos em breve — disse a matriarca.
— Até mais!
— Até, filha — responderam juntos.

O motorista a ajudou com as malas, colocando-as na calçada. levou todas para dentro deixando em um cantinho que não a atrapalhasse. Tudo estava limpo e ajeitado, sua mãe fez questão que a casa dela estivesse perfeita para aquele dia.
Suspirou, sentindo um novo começo.
Mas tinha se esquecido que sua vizinha gostava de colocar quase que no último volume as músicas para limpar a casa, há meses atrás ela se incomodaria, mas hoje, ela estava gostando.
Subiu as escadas devagar deslizando a mão pelo corrimão, olhou para os lados e um sorriso genuíno nasceu em seus lábios ao chegar na frente da porta branca.
Abriu devagar. Intacta, como deixou no último dia em que saiu, passou a mão pelos móveis, abriu a janela, deixando o perfume das flores entrar, junto da música.
A voz era familiar, das novas memórias, não conseguia esquecer a voz de Harry Styles, mas aquela música era diferente das que já tinha ouvido.
Foi quando parou, na porta do closet. Ali, pendurado e protegido por uma capa, estava o vestido; se aproximou, puxou o zíper e tocou o tecido com cuidado. A respiração falhou, seu coração deu um salto, a música… o verso.
Ela ouviu e sentiu suas bochechas corarem.
A voz dele ecoou em suas memórias, eles na piscina nos braços daquele que ela tanto amava.
Dos mais lindos, com todo mundo cantando no Royal Albert.”
havia lembrado.

Tomava todo cuidado ao dirigir, as lágrimas teimavam em borrar sua visão. Parou o carro torto, desceu sem colocar o alarme.
Parou na frente da porta, a estava mão levantada para bater, mas hesitou, fazia tanto tempo. Quatro meses.
— Será que… ainda tenho uma chance?
Então tocou a campainha, não uma vez, nem duas vezes, mas várias. Desesperadamente. Nem sabia se ele estava em casa.
Do outro lado o som da campainha espalhava pela casa. Harry saiu da piscina, a toalha foi jogada na cadeira; passos rápidos o desespero de quem tocava estava deixando-o louco também.
Abriu a porta, seus olhos foram de encontro ao dela. Vermelhos de tanto chorar. Ali seu peito apertou de preocupação, mas, antes que pudesse falar, tomou a frente.
— Eu pedi para você não falar das minhas bochechas.
Pra que procurar palavras naquele momento? Harry a abraçou, puxando para tão perto de si sem deixar um espaço entre eles.
E, naquele abraço, ele lembrou o que era simplesmente adorá-la.

X Verso

Deitados sobre o lençol branco, Harry via sua música diante dele. Se fosse um sonho, ele não acordaria nunca.
apoiou o queixo no tórax dele, olhando para ele enquanto sentia seu cabelo ser afagado.
— Amor.
— Hmm — respondeu, sorrindo.
— Não sei se você vai concordar… você ainda tem o terno?
— Tenho.
Estranhou.
— Minha mãe falou que você se desfez.
Então ele compreendeu.
— Ah, desculpa, só entendi agora. Esse eu me desfiz.
— Entendi.
— Por quê?
— É… nem sei se daria.
My sunshine… — Colocou o cabelo dela atrás da orelha. — Pode falar.
— Quero me casar com você na primeira semana de abril.
Ele nunca diria não, principalmente para aquele pedido.
decidiu que seria simples, sem muitas coisas. Queria aquilo de imediato.
Passou pela pior experiência e não desejava para ninguém. Sentir um vazio, numa solidão que não sumia, saber que faltava algo mesmo depois de ver sua vida completa, ver alguém puxar todos os dias vividos ao seu lado, para voltar o que nunca deveria ter sumido… ela não queria mais esperar.

Harry conseguiu o terno novamente, o casamento seria como pediu, a única coisa que Styles fez foi pedir a casa do clipe para ser o local da cerimônia.
As flores decorando, as cadeiras pretas dispostas para os convidados. O padre pronto para abençoar a união.
A música começou. A melodia, para Harry, era familiar. A música de entrada era a música dele para ela.

No meio da pista de dança montada no jardim, Harry a tinha entrelaçada em seus braços. Os braços de estavam sobre seu pescoço.
— Era assim que você sonhava?
— Está bem melhor.
— Confesso que não é nem metade do que tínhamos planejado.
— Harry… — desceu uma mão até o tórax dele —, acho que planejamos muito, talvez foi por conta disso que… aconteceu. Para mim, isso aqui é muito, é perfeito. Obrigada meu amor.
Sunshine… — Encostou a testa na dela. — Eu te amo profundamente.
Harry segurou , a girou e a deixou por baixo. Suas mãos ficaram no pescoço dele enquanto o beijava.
A foto em preto e branco ficaria pendurada na parede da casa deles. Como ela sempre quis.
Sua sunshine estava em seus braços, com o perfume dela ainda em seu corpo, trazendo a sutileza da paz em sua vida.
Dia após dia.
Ele a venerava.
Fim
Nota da autora
Oie!
Em minha defesa, quando recebi a instrução da Expedição estava “utilizar os elementos da capa”, eu usei, realmente usei kkkk, mas quando vi “marcas vermelhas” fiz correlação a sangue/acidente kkkk.
Mas enfim, eu espero que vocês tenham gostado, como eu gostei de escrever e fazer para a Expedição.
Beijos!
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