Capítulo 1
Os meses haviam se passado desde a fuga de Grindelwald em Butão e, apesar de Dumbledore alertar o grupo de que haveriam grandes chances do bruxo e de seus seguidores restantes tentarem algo, tudo estava mais calmo, na verdade. Jacob e Queenie se casaram, e a padaria voltou a ter pães criativos, atraindo o público novamente, Lally e Yusuf também haviam voltado para os Estados Unidos, Tina ainda trabalhava no Ministério de lá, Dumbledore foi para Hogwarts, e Newt decidiu sair pelo mundo, junto de Bunty, em busca de novos animais cada vez mais diferentes. Aparentemente, todos haviam seguido suas vidas, menos Theseus. Ser um auror sempre foi seu sonho, claro, mas se casar com Leta também. E agora que tudo havia acabado, toda a adrenalina de quase ser morto por aqueles sádicos havia passado e ele finalmente havia se dado conta de que nem teve tempo para sentir luto pela morte dela. E agora ele não sabia o que fazer e se sentia mal por desejar que a qualquer momento Dumbledore aparecesse na porta do Ministério e falasse que eles precisavam correr para alcançar Grindelwald. Qualquer coisa que o fizesse esquecer que Leta havia o deixado.
— E aí, Theseus, quem você acha que vai ganhar o jogo hoje, os Falcões de Falmouth, ou as Harpias de Holyhead? — um dos seus colegas de trabalho perguntou, enquanto Theseus arrumava suas coisas na maleta. — Você vai ver o jogo hoje, não é?
— Eu não estava planejando…
— Qual é, todos daqui vão! — Outro colega o cutucou, e mais alguns se juntaram à rodinha para o convencer a ir.
— Tudo bem, eu irei.
— Ótimo, vamos todos nos encontrar para irmos juntos. — Theseus escutou as instruções passadas pelos homens e se despediu. Ele nunca mais tinha permitido se divertir daquela forma, então por que não?
E ele o fez. Compareceu na hora marcada e foi ver o jogo com os outros. Ele nem torcia para um dos dois times, seu time favorito era o Vespas de Wimbourne. Era o de Leta também. Mas não, ele não podia pensar nela agora. Não quando só estava fazendo aquilo, não para esquecê-la, mas para conseguir viver sabendo que ela nunca mais iria voltar para ele. E até que havia funcionado naquela noite. E nas noites posteriores. Mais meses se passaram, e ele pôde aceitar que aquela era sua vida agora, teria que conhecer pessoas novas e, quem sabe, se interessar por alguém. Vez ou outra, ele recebia cartas de seu irmão e dos outros, mas nunca alguma notícia de Grindelwald. Talvez, enfim, tudo realmente tivesse acabado. Foi por pensar assim que Theseus se surpreendeu ao ver a inconfundível maleta marrom atravessar pela porta de seu escritório junto de seu dono, que havia dito em sua última carta que planejava ficar mais alguns meses na Mongólia.
— Newt? Que surpresa boa! — Ele se levantou imediatamente da cadeira com um sorriso largo, deixando a papelada de lado, e abraçou o irmão, que não aparentava estar tão animado assim. — Aconteceu alguma coisa para você lembrar que tem um irmão e voltar para a Inglaterra?
— Na verdade, sim… Dumbledore quer nos ver, agora.
— Você acha que…
— Ele não informou na carta, só disse o local que vamos nos encontrar. — Theseus engoliu em seco. Estava certo de que seria sobre a volta de Grindelwald.
— Então vou notificar que tenho que sair mais cedo hoje e vamos direto para lá. — Newt assentiu com a cabeça, e eles saíram da sala a passos largos.
— Não tenho muitas lembranças boas daqui. — Ele notou um sorriso tímido surgir no rosto de seu irmão. Poderia dizer até melancólico. — Por que aceitou voltar?
— Como assim? Eu sempre quis ser auror, Newt.
— Eu sei, mas… podia ter vindo comigo, se quisesse. — Estava claro que ele falava aquilo por causa de Leta, mas Theseus decidiu encarar aquilo com bom humor.
— E arriscar me encontrar com criaturas parecidas com aqueles Explosivins? Não vou me submeter a outra dança ridícula daquelas.
— Você dançou bem. Se não tivesse dançado, provavelmente estaríamos mortos.
— Bom, fico feliz que reconheça minhas habilidades. — Theseus inclinou a cabeça levemente, com um sorriso brincalhão surgindo no rosto.
Eles seguiram até o restaurante indicado por Dumbledore e, enquanto esperavam, decidiram se atualizar das últimas novidades, Theseus contando que finalmente conseguia acompanhar algumas partidas de quadribol dos Vespas.
— Mas e aí, como está sendo essa turnê de bichos estranhos? — ele perguntou, mudando de assunto.
— Eu encontrei animais muito interessantes, na verdade. Consegui trazer algumas amostras para estudar melhor, mas deixei Bunty lá para ficar cuidando de alguns, já que pretendo voltar para continuar minha pesquisa quando tudo isso acabar.
— E o Qilin, ainda está aí?
— Sim, eles acharam melhor eu ficar com ela e procurar por mais algum, para preservar a espécie…
— Newt, Theseus! — Os dois se viraram e se levantaram ao escutar a voz de Dumbledore vinda da porta do local, cumprimentando o mais velho, que se sentou de frente para eles na mesa.
— Quanto tempo, professor.
— Que bom ver vocês. Eu queria que o motivo da nossa reunião fosse outro, mas infelizmente surgiram boatos de que Grindelwald e seus seguidores vão agir logo.
— Mas sabe onde eles estão agora? — Theseus perguntou, e Dumbledore assentiu de leve.
— No Brasil, provavelmente para…
— Tentar um atentado contra a Vicência Santos — Newt completou. — Quando vamos?
— Vocês não vão poder aparatar, é muito longe, então precisam pegar um navio para lá o quanto antes. Eu vou assim que possível, preciso resolver umas coisas antes, mas vou mandar algumas instruções para vocês. Eu mandei uma carta para os outros, então, assim que vocês chegarem, provavelmente eles vão estar esperando no porto. — Os dois assentiram e, depois de um tempo, se despediram de Dumbledore.
E, como ele havia os instruído, partiram no navio, chegando ao Brasil alguns dias depois. Assim que descem da embarcação, avistaram Lally sentada num dos bancos, lendo o que parecia ser o jornal diário.
— Eulalie — Theseus falou, com um sorriso, cumprimentando a mulher com um abraço, seguido de Newt.
— Se não são os irmãos Scamander. Temos tanta coisa para conversar.
— E os outros? — Newt perguntou, olhando ao redor, após perceber que só havia ela lá.
— Eles estão em um lugar seguro, preferi vir sozinha para não levantar suspeitas. Vamos?
Então eles assentiram e a seguiram. Theseus sempre havia visto várias fotos do Brasil, mas nunca imaginava o quão bonito era aquele lugar. O ambiente ensolarado contrastava perfeitamente com o frio de Londres. Eles chegaram até uma região mais isolada e coberta por vegetação, e Lally os guiou até uma casa no meio da floresta.
— Você já conhecia aqui? — Theseus perguntou, e ela assentiu, abrindo a porta e dando de cara com os outros.
— Eu ajudei o dono daqui com um lance e ele ficou me devendo um favor.
— Vocês chegaram! — Jacob correu para abraçar os dois, seguido dos outros, e Theseus percebeu o irmão olhar ao redor discretamente.
— Ela não veio, mas disse que irá nos encontrar em breve. — Queenie apoiou a mão no ombro de Newt e deu um sorriso reconfortante. — E não, eu não posso evitar ler os seus pensamentos. — Ele riu de leve ao perceber o rosto levemente vermelho do outro.
— É realmente muito bom ver vocês. Mas, por acaso, alguém tem alguma ideia do que vamos fazer agora? — Yusuf perguntou, após cumprimentar os dois.
— Hoje, esperamos. E amanhã vamos investigar alguns lugares que Dumbledore pôs nessa lista. — Newt levantou um pergaminho de seu bolso, o mostrando para todos.
Eles decidiram se dividir em turnos para evitar alguma surpresa desagradável, e Theseus e Newt acabaram ficando com o turno da noite. Enquanto o magizoologista cuidava dos animais dentro da maleta, Jacob decidiu fazer companhia para o outro antes de ir dormir.
— E aí, Jacob, como está o casamento?
— Está melhor impossível. Ela se arrepende todos os dias de ter se juntado a Grindelwald, mas eu falo que o importante é termos ficado juntos.
— E… filhos?
— Bom, lá nos Estados Unidos não é permitido ter filhos mestiços, então estamos pensando em nos mudar para a Inglaterra.
— Vão ser muito bem vindos lá. — Newt surgiu da maleta e a fechou rapidamente, se virando para os dois homens. — Terminei, obrigado por ficar aqui, Jake.
— Sem problemas. Qualquer coisa, avisem. Não prometo que vou acordar, mas no que eu ajudaria também? — Ele saiu rindo e os deixou sozinhos.
— Newt, devia limpar esse rosto, tá cheio de…
— Cocô de Bezerros Apaixonados.
— Ah, sim.
— Vou tirar agora. — Theseus assentiu com a cabeça e se levantou para fazer uma ronda pelo lado de fora da casa. — Cuidado, eu já ouvi falar das criaturas daqui, elas não têm a fama de serem amigáveis.
— Pode deixar… Lumos. — Ele deixou a casa e a pouca luz que saía da varinha não era o suficiente para iluminar toda a escuridão da floresta. — Lumus Maxima! — Após rodear toda a área externa da cabana, Theseus voltou no sentido da porta, mas, antes que pudesse entrar, ouviu algo na escuridão e decidiu investigar, se movendo cautelosamente pela floresta, com os sentidos aguçados para qualquer sinal de perigo. O ar estava denso com a umidade tropical e a vegetação ao redor sussurrava com o vento suave. Foi quando ele a viu. Uma figura envolta em um manto escuro, se movendo furtivamente entre as árvores. Com a varinha em punho, ele se aproximou silenciosamente por trás dela.
— Não se mova. — Sua voz era baixa, mas firme, e a pessoa se virou em sua direção, levantando as mãos em sinal de rendição, o fazendo perceber a varinha em sua mão direita. — Quem é você? — ele perguntou, tentando ver seu rosto por baixo do capuz.
— Não sou sua inimiga — a voz feminina respondeu calmamente, apesar de Theseus notar uma ponta de ironia em seu tom.
— Olha só, minha paciência tá acabando e… — Antes que ele pudesse terminar a frase, um grito agudo cortou o ar, vindo de cima das árvores.
— Merda… — Ele a escutou sussurrar.
— Você pode colaborar comigo, ou podemos esperar o dono desse grito aparecer.
— Tá legal, eu vou com você, mas temos que ir agora! — Suas mãos desceram o capuz, revelando uma mulher de cabelos castanhos escuros, que estavam presos em um rabo de cavalo. Theseus havia ficado um pouco impactado com sua beleza exótica, mas outro grito chamou sua atenção novamente. — Eu não me rendi para ser morta. Se quiser ficar aqui, tudo bem. — Ela fez menção de correr, mas Theseus agarrou seu braço e pegou a varinha de sua mão.
— Eu quem dou as ordens aqui!
Os dois correram até a porta da casa e Theseus a fechou rapidamente, apontando a varinha novamente na direção da moça e esperando até que Newt aparecesse na sala.
— O que aconteceu?
— Ela estava nos espiando. É melhor acordar todos, Newt, podem ser eles.
— Eles quem?
— Escuta aqui, nós fazemos as perguntas. — Theseus interrompeu a mulher, enquanto Newt fazia o que ele havia mandado. — Tem mais quantos de vocês lá fora?
— Sou só eu, tá legal? Agora dos Curupiras já não posso falar o mesmo.
— Do quê?
— De quem você achou que eram os gritos? — ela perguntou, cruzando os braços, e revirou os olhos. — Claro que vocês estrangeiros vêm para cá e ao menos estudam para saber quais criaturas perigosas podem encontrar por aqui. Agradeça a Merlim por não ter visto os donos daqueles gritos.
— Ei, quem estuda esses bichos estranhos é ele! — Jacob exclamou, ao chegar à sala junto aos outros.
— Claro, o magizoologista! Newt Scamander, não é? — A mulher se virou para Newt, que apenas assentiu com a cabeça, confuso. — Vicência me falou de você.
— Espera aí? Você quis dizer Vicência Santos?
— Sim, eu trabalho para o Ministério. Eu sou … . — Newt apertou a mão que ela havia estendido para cumprimentá-lo. — Bom, eu não esperava encontrar vocês, mas já que isso aconteceu, acho que posso ajudar.
— Você quer dizer ajudar o Grindelwald a matar todos nós?
— Você não escutou nada do que eu disse? Eu estou do lado de vocês. — A garota tentou se explicar, mas Theseus a interrompeu.
— Desculpa, , mas você não pode esperar que a gente acredite em você quando eu te pego nos espionando na floresta no meio da noite.
— Você seria?
— Não importa, eu ainda tô com a sua varinha.
— ? Eulalie…
— Hicks… eu sou muito sua fâ, professora. — Ela sorriu e, pela primeira vez, Theseus percebeu um tom de vergonha em sua voz.
— Muito obrigada, fico lisonjeada. Então, por que em vez de assustá-la mais nós não conversamos calmamente, como adultos? — Lally pôs a mão no ombro de Theseus, e assentiu com a cabeça. — Tenho certeza de que nossa amiga Queenie pode ajudar. — A loira se aproximou da moça e a guiou até o sofá, se sentando ao seu lado, enquanto Lally e os outros ficavam de frente para elas. Tinha que admitir, estava sendo muito explosivo, mas ele não podia arriscar que sofressem um ataque inesperado. Não novamente.
— Obrigada, o seu amigo aí não me deixa explicar. — Ela lançou um olhar raivoso para Theseus, que apenas deu de ombros, e Lally começou o interrogatório.
— Vamos começar por partes… O que você veio fazer aqui, senhorita ? Não é um lugar muito comum para caminhar à noite.
— Eu vim procurar por pistas… Nós, do Ministério, soubemos que Grindelwald e seus seguidores foram vistos por aqui e, aproveitando que encontrei vocês, precisamos de toda ajuda possível.
— Você trabalha para a Vicência Santos, correto? — assentiu com a cabeça, e Theseus riu sarcasticamente.
— E você quer que a gente acredite nisso? — Assim como os outros, ele olhou para Queenie, aguardando qualquer reação.
— Ela é oclumente, não consigo acessar.
— Eu fui treinada para isso, não podia arriscar ser pega por algum seguidor de Grindelwald.
— Tá, e por que não destrava a mente, ou sei lá o quê? — Jacob perguntou confuso.
— Não é tão simples assim.
— É tão conveniente você estar com a oclumência ativada logo agora.
— Claro que é. Eu não sei se você tá sabendo, mas eles estão se espalhando por aqui. Atentados estão acontecendo por todo o país e está ficando cada vez mais difícil contê-los. Parece que Grindelwald está conseguindo trazer cada vez mais bruxos para o lado dele. Nós precisamos da ajuda de vocês e, querendo ou não, vocês também precisam da gente.
— E o que necessariamente a gente pode fazer para ajudar?
— Newt, você realmente vai acreditar nessa desculpa? Qualquer um pode falar isso. — Theseus chamou a atenção do irmão, e revirou os olhos.
— Por que o amigo de vocês é tão exagerado?
— Fica na sua…
— Theseus tem razão, não podemos acreditar nela totalmente de primeira… — Yusuf o interrompeu, e ele soltou um longo suspiro aliviado.
— Obrigado!
— Mas também não podemos desconsiderar que o nosso trabalho em conjunto seria muito importante.
— É isso que estou tentando falar.
— Na minha opinião, devíamos ficar de olho nela até termos mais informações. Não podemos arriscar nossa segurança.
— Ele tem razão. Senhorita , você parece ser uma pessoa muito amigável, mas não podemos botar tudo a perder. Espero que entenda. — Lally se virou para , que, apesar de relutar um pouco, se levantou e estendeu as mãos, e, com a varinha, ela amarrou os pulsos da mulher. — Muito bem, quem vai fazer companhia para nossa nova convidada?
— Não sei se estou na posição de exigir algo, mas se pudessem deixar esse homem longe de mim…
— Esse homem? Pensei que era mais valente, senhorita . Se não gostou da forma que eu falei, o problema é todo seu. Só estou tentando proteger meus amigos.
— Isso não te dá o direito de ser arrogante!
— Me desculpe, a bruxinha ficou ofendida?
— Seu morcego velho.
— Cabeça de trasgo. — Theseus se aproximou o suficiente para notar umas sardas discretas na garota, que não se moveu um centímetro. Ele ouviu Jacob pigarrear e sentiu seu rosto esquentar automaticamente.
— Sou só eu, ou o clima…
— Jacob! — Queenie o repreendeu, enquanto Theseus voltava para uma distância aceitável de , que, após perceber o que havia acabado de acontecer, também se afastou.
— Bom, seria um prazer ficar de olho nela. — Ele deu um sorriso cínico, e revirou os olhos, mas se sentou no sofá novamente, enquanto os outros saíam do cômodo, os deixando sozinhos.
Theseus tamborilava os dedos contra o braço da poltrona, mantendo os olhos fixos na mulher à sua frente. A maneira como falava com ele, sem o menor indício de respeito ou receio, o irritava mais do que deveria. Poucas pessoas se dirigiam a ele daquela forma, especialmente alguém que estava amarrada e sob suspeita.
— Então você é o Theseus Scamander… — A voz dela carregava um tom casual demais para a situação. Ele ergueu a sobrancelha e assentiu, como se fosse óbvio. — Ah, tá explicado, então.
— Terá que ser mais clara.
— Nada demais, sabe... — Ela deu um sorriso inocente, mas algo na forma como seus olhos brilharam fez Theseus estremecer levemente, e ele agradeceu mentalmente por Queenie não estar ali naquele momento para captar seus pensamentos. — É que dá pra ver claramente a diferença. Pelo que dizem, seu irmão é um homem gentil e mais calmo também. Mas o senhor… — Ela interrompeu a frase de propósito, deixando seu olhar deslizar por ele de cima a baixo, como se o analisasse. — Bem, o rosto bonitinho é a única coisa que salva. — Theseus sentiu a mandíbula travar. Ele não sabia o que o irritava mais, o tom insolente, ou o fato de ter gostado da maneira como ela o olhava.
— Fico feliz que tenha achado alguma qualidade minha, senhorita . Não imagina o quão importante isso é para mim. — Theseus cruzou os braços, fingindo uma expressão reflexiva. — Acho que temos algo em comum, então. — Ele devolveu a provocação, a observando revirar os olhos em resposta.
— Tá vendo que o senhor consegue ser gentil? Fiquei intrigada, vocês ingleses são sempre receptivos assim?
— Ah, como eu sou rude, você aceita um chá? — ele rebateu, a voz carregada de ironia. — Como acha que qualquer um em sã consciência receberia alguém que estava espiando entre as árvores?
— Eu entendo que nosso primeiro encontro não foi muito formidável, mas não vejo motivo para você me tratar com tanta desconfiança e grosseria. — A mulher ergueu as mãos, como se realmente estivesse ofendida.
— Não é como se a senhorita fosse um exemplo a ser seguido.
— Estou apenas devolvendo, querido. — O jeito que a palavra saiu de sua boca, junto ao sorriso desafiador, fez algo no estômago dele se contrair de um jeito estranho. Ele odiava isso. Odiava como ela falava como se soubesse exatamente que o estava provocando.
Então, sem quebrar o contato visual, ele se aproximou devagar, diminuindo ainda mais o espaço entre eles. parou de sorrir, mas não recuou.
— Sabe o que mais me faz desconfiar de você, senhorita ? — Theseus murmurou, a voz mais baixa, arrastada e o olhar se tornando mais frio. — O fato de você dizer que trabalha para a Vicência Santos e não fazer ideia do que passamos para tentar deter Grindelwald. — Ele apoiou uma das mãos na lateral do sofá onde estava sentada, inclinando a cabeça levemente em sua direção. — Porque se você soubesse ao menos um terço do que aconteceu, não questionaria a minha desconfiança. — abriu a boca para responder, mas hesitou, então ele continuou, seus olhos escuros analisando cada expressão dela. — Das duas uma… ou você realmente está mentindo e é uma espiã, ou é tão incompetente que nem consegue fazer o seu trabalho direito. — A provocação foi o suficiente para se levantar em um salto, o obrigando a dar um passo para trás.
— Já chega! Não estou pedindo que acredite em mim, senhor Scamander, mas um pouco de respeito seria bom. — Os olhos da bruxa faiscaram de raiva e seu peito subia e descia com a respiração alterada. Theseus percebeu tarde demais que também estava respirando mais fundo do que deveria.
O clima na sala estava tão tenso que o ar parecia vibrar. Mas antes que qualquer um pudesse dizer mais alguma coisa, a voz de Jacob interrompeu.
— Ei, vocês dois. — Theseus e se viraram ao mesmo tempo, encontrando o homem parado à porta, com os braços cruzados e uma expressão impaciente. — Tá dando pra escutar a ‘conversa’ de vocês lá dentro, então achei melhor ficar no lugar do Theseus.
— Obrigado — Theseus murmurou, lançando um último olhar para , antes de sair da sala, seus passos firmes ecoando pelo chão de madeira.
— Finalmente. Ele é sempre assim tão adorável? — A mulher bufou e cruzou os braços, voltando a se sentar no sofá.
— Ele pegou um pouco pesado com você, né? — Jacob suspirou, coçando a nuca.
— Um pouco? Parecia que o problema dele nem era com Grindelwald, e sim comigo.
— É, sinto muito por isso…, mas você tem que entender que ele passou por muita coisa — ele disse, sentando em uma cadeira próxima, e ergueu uma sobrancelha, ainda irritada.
— Todos passamos por muita coisa.
— Sim, mas… é que Theseus já perdeu gente demais nessa guerra. Ele se culpa por muita coisa, especialmente pelo que aconteceu com Leta.
— Leta Lestrange? — piscou, surpresa pela mudança súbita de assunto, e Jacob assentiu com um semblante triste.
— Eles foram noivos. Ela morreu tentando salvar a gente... e acho que, no fundo, Theseus nunca se perdoou por isso.
O nome Lestrange não era estranho para , mas ela nunca havia ligado a figura de Leta àquele homem rígido e controlador. Pensava que todo aquele comportamento era apenas arrogância, um traço comum em homens como Theseus. E, pela primeira vez naquela noite, ela se perguntou se havia sido injusta com ele.