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Revisada por: Saturno 🪐

Última Atualização: 14/12/2025

Os meses haviam se passado desde a fuga de Grindelwald em Butão e, apesar de Dumbledore alertar o grupo de que haveriam grandes chances do bruxo e de seus seguidores restantes tentarem algo, tudo estava mais calmo, na verdade. Jacob e Queenie se casaram, e a padaria voltou a ter pães criativos, atraindo o público novamente, Lally e Yusuf também haviam voltado para os Estados Unidos, Tina ainda trabalhava no Ministério de lá, Dumbledore foi para Hogwarts, e Newt decidiu sair pelo mundo, junto de Bunty, em busca de novos animais cada vez mais diferentes. Aparentemente, todos haviam seguido suas vidas, menos Theseus. Ser um auror sempre foi seu sonho, claro, mas se casar com Leta também. E agora que tudo havia acabado, toda a adrenalina de quase ser morto por aqueles sádicos havia passado e ele finalmente havia se dado conta de que nem teve tempo para sentir luto pela morte dela. E agora ele não sabia o que fazer e se sentia mal por desejar que a qualquer momento Dumbledore aparecesse na porta do Ministério e falasse que eles precisavam correr para alcançar Grindelwald. Qualquer coisa que o fizesse esquecer que Leta havia o deixado.
— E aí, Theseus, quem você acha que vai ganhar o jogo hoje, os Falcões de Falmouth, ou as Harpias de Holyhead? — um dos seus colegas de trabalho perguntou, enquanto Theseus arrumava suas coisas na maleta. — Você vai ver o jogo hoje, não é?
— Eu não estava planejando…
— Qual é, todos daqui vão! — Outro colega o cutucou, e mais alguns se juntaram à rodinha para o convencer a ir.
— Tudo bem, eu irei.
— Ótimo, vamos todos nos encontrar para irmos juntos. — Theseus escutou as instruções passadas pelos homens e se despediu. Ele nunca mais tinha permitido se divertir daquela forma, então por que não?
E ele o fez. Compareceu na hora marcada e foi ver o jogo com os outros. Ele nem torcia para um dos dois times, seu time favorito era o Vespas de Wimbourne. Era o de Leta também. Mas não, ele não podia pensar nela agora. Não quando só estava fazendo aquilo, não para esquecê-la, mas para conseguir viver sabendo que ela nunca mais iria voltar para ele. E até que havia funcionado naquela noite. E nas noites posteriores. Mais meses se passaram, e ele pôde aceitar que aquela era sua vida agora, teria que conhecer pessoas novas e, quem sabe, se interessar por alguém. Vez ou outra, ele recebia cartas de seu irmão e dos outros, mas nunca alguma notícia de Grindelwald. Talvez, enfim, tudo realmente tivesse acabado. Foi por pensar assim que Theseus se surpreendeu ao ver a inconfundível maleta marrom atravessar pela porta de seu escritório junto de seu dono, que havia dito em sua última carta que planejava ficar mais alguns meses na Mongólia.
— Newt? Que surpresa boa! — Ele se levantou imediatamente da cadeira com um sorriso largo, deixando a papelada de lado, e abraçou o irmão, que não aparentava estar tão animado assim. — Aconteceu alguma coisa para você lembrar que tem um irmão e voltar para a Inglaterra?
— Na verdade, sim… Dumbledore quer nos ver, agora.
— Você acha que…
— Ele não informou na carta, só disse o local que vamos nos encontrar. — Theseus engoliu em seco. Estava certo de que seria sobre a volta de Grindelwald.
— Então vou notificar que tenho que sair mais cedo hoje e vamos direto para lá. — Newt assentiu com a cabeça, e eles saíram da sala a passos largos.
— Não tenho muitas lembranças boas daqui. — Ele notou um sorriso tímido surgir no rosto de seu irmão. Poderia dizer até melancólico. — Por que aceitou voltar?
— Como assim? Eu sempre quis ser auror, Newt.
— Eu sei, mas… podia ter vindo comigo, se quisesse. — Estava claro que ele falava aquilo por causa de Leta, mas Theseus decidiu encarar aquilo com bom humor.
— E arriscar me encontrar com criaturas parecidas com aqueles Explosivins? Não vou me submeter a outra dança ridícula daquelas.
— Você dançou bem. Se não tivesse dançado, provavelmente estaríamos mortos.
— Bom, fico feliz que reconheça minhas habilidades. — Theseus inclinou a cabeça levemente, com um sorriso brincalhão surgindo no rosto.

Eles seguiram até o restaurante indicado por Dumbledore e, enquanto esperavam, decidiram se atualizar das últimas novidades, Theseus contando que finalmente conseguia acompanhar algumas partidas de quadribol dos Vespas.
— Mas e aí, como está sendo essa turnê de bichos estranhos? — ele perguntou, mudando de assunto.
— Eu encontrei animais muito interessantes, na verdade. Consegui trazer algumas amostras para estudar melhor, mas deixei Bunty lá para ficar cuidando de alguns, já que pretendo voltar para continuar minha pesquisa quando tudo isso acabar.
— E o Qilin, ainda está aí?
— Sim, eles acharam melhor eu ficar com ela e procurar por mais algum, para preservar a espécie…
— Newt, Theseus! — Os dois se viraram e se levantaram ao escutar a voz de Dumbledore vinda da porta do local, cumprimentando o mais velho, que se sentou de frente para eles na mesa.
— Quanto tempo, professor.
— Que bom ver vocês. Eu queria que o motivo da nossa reunião fosse outro, mas infelizmente surgiram boatos de que Grindelwald e seus seguidores vão agir logo.
— Mas sabe onde eles estão agora? — Theseus perguntou, e Dumbledore assentiu de leve.
— No Brasil, provavelmente para…
— Tentar um atentado contra a Vicência Santos — Newt completou. — Quando vamos?
— Vocês não vão poder aparatar, é muito longe, então precisam pegar um navio para lá o quanto antes. Eu vou assim que possível, preciso resolver umas coisas antes, mas vou mandar algumas instruções para vocês. Eu mandei uma carta para os outros, então, assim que vocês chegarem, provavelmente eles vão estar esperando no porto. — Os dois assentiram e, depois de um tempo, se despediram de Dumbledore.
E, como ele havia os instruído, partiram no navio, chegando ao Brasil alguns dias depois. Assim que descem da embarcação, avistaram Lally sentada num dos bancos, lendo o que parecia ser o jornal diário.
— Eulalie — Theseus falou, com um sorriso, cumprimentando a mulher com um abraço, seguido de Newt.
— Se não são os irmãos Scamander. Temos tanta coisa para conversar.
— E os outros? — Newt perguntou, olhando ao redor, após perceber que só havia ela lá.
— Eles estão em um lugar seguro, preferi vir sozinha para não levantar suspeitas. Vamos?
Então eles assentiram e a seguiram. Theseus sempre havia visto várias fotos do Brasil, mas nunca imaginava o quão bonito era aquele lugar. O ambiente ensolarado contrastava perfeitamente com o frio de Londres. Eles chegaram até uma região mais isolada e coberta por vegetação, e Lally os guiou até uma casa no meio da floresta.
— Você já conhecia aqui? — Theseus perguntou, e ela assentiu, abrindo a porta e dando de cara com os outros.
— Eu ajudei o dono daqui com um lance e ele ficou me devendo um favor.
— Vocês chegaram! — Jacob correu para abraçar os dois, seguido dos outros, e Theseus percebeu o irmão olhar ao redor discretamente.
— Ela não veio, mas disse que irá nos encontrar em breve. — Queenie apoiou a mão no ombro de Newt e deu um sorriso reconfortante. — E não, eu não posso evitar ler os seus pensamentos. — Ele riu de leve ao perceber o rosto levemente vermelho do outro.
— É realmente muito bom ver vocês. Mas, por acaso, alguém tem alguma ideia do que vamos fazer agora? — Yusuf perguntou, após cumprimentar os dois.
— Hoje, esperamos. E amanhã vamos investigar alguns lugares que Dumbledore pôs nessa lista. — Newt levantou um pergaminho de seu bolso, o mostrando para todos.
Eles decidiram se dividir em turnos para evitar alguma surpresa desagradável, e Theseus e Newt acabaram ficando com o turno da noite. Enquanto o magizoologista cuidava dos animais dentro da maleta, Jacob decidiu fazer companhia para o outro antes de ir dormir.
— E aí, Jacob, como está o casamento?
— Está melhor impossível. Ela se arrepende todos os dias de ter se juntado a Grindelwald, mas eu falo que o importante é termos ficado juntos.
— E… filhos?
— Bom, lá nos Estados Unidos não é permitido ter filhos mestiços, então estamos pensando em nos mudar para a Inglaterra.
— Vão ser muito bem vindos lá. — Newt surgiu da maleta e a fechou rapidamente, se virando para os dois homens. — Terminei, obrigado por ficar aqui, Jake.
— Sem problemas. Qualquer coisa, avisem. Não prometo que vou acordar, mas no que eu ajudaria também? — Ele saiu rindo e os deixou sozinhos.
— Newt, devia limpar esse rosto, tá cheio de…
— Cocô de Bezerros Apaixonados.
— Ah, sim.
— Vou tirar agora. — Theseus assentiu com a cabeça e se levantou para fazer uma ronda pelo lado de fora da casa. — Cuidado, eu já ouvi falar das criaturas daqui, elas não têm a fama de serem amigáveis.
— Pode deixar… Lumos. — Ele deixou a casa e a pouca luz que saía da varinha não era o suficiente para iluminar toda a escuridão da floresta. — Lumus Maxima! — Após rodear toda a área externa da cabana, Theseus voltou no sentido da porta, mas, antes que pudesse entrar, ouviu algo na escuridão e decidiu investigar, se movendo cautelosamente pela floresta, com os sentidos aguçados para qualquer sinal de perigo. O ar estava denso com a umidade tropical e a vegetação ao redor sussurrava com o vento suave. Foi quando ele a viu. Uma figura envolta em um manto escuro, se movendo furtivamente entre as árvores. Com a varinha em punho, ele se aproximou silenciosamente por trás dela.
— Não se mova. — Sua voz era baixa, mas firme, e a pessoa se virou em sua direção, levantando as mãos em sinal de rendição, o fazendo perceber a varinha em sua mão direita. — Quem é você? — ele perguntou, tentando ver seu rosto por baixo do capuz.
— Não sou sua inimiga — a voz feminina respondeu calmamente, apesar de Theseus notar uma ponta de ironia em seu tom.
— Olha só, minha paciência tá acabando e… — Antes que ele pudesse terminar a frase, um grito agudo cortou o ar, vindo de cima das árvores.
— Merda… — Ele a escutou sussurrar.
— Você pode colaborar comigo, ou podemos esperar o dono desse grito aparecer.
— Tá legal, eu vou com você, mas temos que ir agora! — Suas mãos desceram o capuz, revelando uma mulher de cabelos castanhos escuros, que estavam presos em um rabo de cavalo. Theseus havia ficado um pouco impactado com sua beleza exótica, mas outro grito chamou sua atenção novamente. — Eu não me rendi para ser morta. Se quiser ficar aqui, tudo bem. — Ela fez menção de correr, mas Theseus agarrou seu braço e pegou a varinha de sua mão.
— Eu quem dou as ordens aqui!
Os dois correram até a porta da casa e Theseus a fechou rapidamente, apontando a varinha novamente na direção da moça e esperando até que Newt aparecesse na sala.
— O que aconteceu?
— Ela estava nos espiando. É melhor acordar todos, Newt, podem ser eles.
— Eles quem?
— Escuta aqui, nós fazemos as perguntas. — Theseus interrompeu a mulher, enquanto Newt fazia o que ele havia mandado. — Tem mais quantos de vocês lá fora?
— Sou só eu, tá legal? Agora dos Curupiras já não posso falar o mesmo.
— Do quê?
— De quem você achou que eram os gritos? — ela perguntou, cruzando os braços, e revirou os olhos. — Claro que vocês estrangeiros vêm para cá e ao menos estudam para saber quais criaturas perigosas podem encontrar por aqui. Agradeça a Merlim por não ter visto os donos daqueles gritos.
— Ei, quem estuda esses bichos estranhos é ele! — Jacob exclamou, ao chegar à sala junto aos outros.
— Claro, o magizoologista! Newt Scamander, não é? — A mulher se virou para Newt, que apenas assentiu com a cabeça, confuso. — Vicência me falou de você.
— Espera aí? Você quis dizer Vicência Santos?
— Sim, eu trabalho para o Ministério. Eu sou . — Newt apertou a mão que ela havia estendido para cumprimentá-lo. — Bom, eu não esperava encontrar vocês, mas já que isso aconteceu, acho que posso ajudar.
— Você quer dizer ajudar o Grindelwald a matar todos nós?
— Você não escutou nada do que eu disse? Eu estou do lado de vocês. — A garota tentou se explicar, mas Theseus a interrompeu.
— Desculpa, , mas você não pode esperar que a gente acredite em você quando eu te pego nos espionando na floresta no meio da noite.
— Você seria?
— Não importa, eu ainda tô com a sua varinha.
? Eulalie…
— Hicks… eu sou muito sua fâ, professora. — Ela sorriu e, pela primeira vez, Theseus percebeu um tom de vergonha em sua voz.
— Muito obrigada, fico lisonjeada. Então, por que em vez de assustá-la mais nós não conversamos calmamente, como adultos? — Lally pôs a mão no ombro de Theseus, e assentiu com a cabeça. — Tenho certeza de que nossa amiga Queenie pode ajudar. — A loira se aproximou da moça e a guiou até o sofá, se sentando ao seu lado, enquanto Lally e os outros ficavam de frente para elas. Tinha que admitir, estava sendo muito explosivo, mas ele não podia arriscar que sofressem um ataque inesperado. Não novamente.
— Obrigada, o seu amigo aí não me deixa explicar. — Ela lançou um olhar raivoso para Theseus, que apenas deu de ombros, e Lally começou o interrogatório.
— Vamos começar por partes… O que você veio fazer aqui, senhorita ? Não é um lugar muito comum para caminhar à noite.
— Eu vim procurar por pistas… Nós, do Ministério, soubemos que Grindelwald e seus seguidores foram vistos por aqui e, aproveitando que encontrei vocês, precisamos de toda ajuda possível.
— Você trabalha para a Vicência Santos, correto? — assentiu com a cabeça, e Theseus riu sarcasticamente.
— E você quer que a gente acredite nisso? — Assim como os outros, ele olhou para Queenie, aguardando qualquer reação.
— Ela é oclumente, não consigo acessar.
— Eu fui treinada para isso, não podia arriscar ser pega por algum seguidor de Grindelwald.
— Tá, e por que não destrava a mente, ou sei lá o quê? — Jacob perguntou confuso.
— Não é tão simples assim.
— É tão conveniente você estar com a oclumência ativada logo agora.
— Claro que é. Eu não sei se você tá sabendo, mas eles estão se espalhando por aqui. Atentados estão acontecendo por todo o país e está ficando cada vez mais difícil contê-los. Parece que Grindelwald está conseguindo trazer cada vez mais bruxos para o lado dele. Nós precisamos da ajuda de vocês e, querendo ou não, vocês também precisam da gente.
— E o que necessariamente a gente pode fazer para ajudar?
— Newt, você realmente vai acreditar nessa desculpa? Qualquer um pode falar isso. — Theseus chamou a atenção do irmão, e revirou os olhos.
— Por que o amigo de vocês é tão exagerado?
— Fica na sua…
— Theseus tem razão, não podemos acreditar nela totalmente de primeira… — Yusuf o interrompeu, e ele soltou um longo suspiro aliviado.
— Obrigado!
— Mas também não podemos desconsiderar que o nosso trabalho em conjunto seria muito importante.
— É isso que estou tentando falar.
— Na minha opinião, devíamos ficar de olho nela até termos mais informações. Não podemos arriscar nossa segurança.
— Ele tem razão. Senhorita , você parece ser uma pessoa muito amigável, mas não podemos botar tudo a perder. Espero que entenda. — Lally se virou para , que, apesar de relutar um pouco, se levantou e estendeu as mãos, e, com a varinha, ela amarrou os pulsos da mulher. — Muito bem, quem vai fazer companhia para nossa nova convidada?
— Não sei se estou na posição de exigir algo, mas se pudessem deixar esse homem longe de mim…
— Esse homem? Pensei que era mais valente, senhorita . Se não gostou da forma que eu falei, o problema é todo seu. Só estou tentando proteger meus amigos.
— Isso não te dá o direito de ser arrogante!
— Me desculpe, a bruxinha ficou ofendida?
— Seu morcego velho.
— Cabeça de trasgo. — Theseus se aproximou o suficiente para notar umas sardas discretas na garota, que não se moveu um centímetro. Ele ouviu Jacob pigarrear e sentiu seu rosto esquentar automaticamente.
— Sou só eu, ou o clima…
— Jacob! — Queenie o repreendeu, enquanto Theseus voltava para uma distância aceitável de , que, após perceber o que havia acabado de acontecer, também se afastou.
— Bom, seria um prazer ficar de olho nela. — Ele deu um sorriso cínico, e revirou os olhos, mas se sentou no sofá novamente, enquanto os outros saíam do cômodo, os deixando sozinhos.

Theseus tamborilava os dedos contra o braço da poltrona, mantendo os olhos fixos na mulher à sua frente. A maneira como falava com ele, sem o menor indício de respeito ou receio, o irritava mais do que deveria. Poucas pessoas se dirigiam a ele daquela forma, especialmente alguém que estava amarrada e sob suspeita.
— Então você é o Theseus Scamander… — A voz dela carregava um tom casual demais para a situação. Ele ergueu a sobrancelha e assentiu, como se fosse óbvio. — Ah, tá explicado, então.
— Terá que ser mais clara.
— Nada demais, sabe... — Ela deu um sorriso inocente, mas algo na forma como seus olhos brilharam fez Theseus estremecer levemente, e ele agradeceu mentalmente por Queenie não estar ali naquele momento para captar seus pensamentos. — É que dá pra ver claramente a diferença. Pelo que dizem, seu irmão é um homem gentil e mais calmo também. Mas o senhor… — Ela interrompeu a frase de propósito, deixando seu olhar deslizar por ele de cima a baixo, como se o analisasse. — Bem, o rosto bonitinho é a única coisa que salva. — Theseus sentiu a mandíbula travar. Ele não sabia o que o irritava mais, o tom insolente, ou o fato de ter gostado da maneira como ela o olhava.
— Fico feliz que tenha achado alguma qualidade minha, senhorita . Não imagina o quão importante isso é para mim. — Theseus cruzou os braços, fingindo uma expressão reflexiva. — Acho que temos algo em comum, então. — Ele devolveu a provocação, a observando revirar os olhos em resposta.
— Tá vendo que o senhor consegue ser gentil? Fiquei intrigada, vocês ingleses são sempre receptivos assim?
— Ah, como eu sou rude, você aceita um chá? — ele rebateu, a voz carregada de ironia. — Como acha que qualquer um em sã consciência receberia alguém que estava espiando entre as árvores?
— Eu entendo que nosso primeiro encontro não foi muito formidável, mas não vejo motivo para você me tratar com tanta desconfiança e grosseria. — A mulher ergueu as mãos, como se realmente estivesse ofendida.
— Não é como se a senhorita fosse um exemplo a ser seguido.
— Estou apenas devolvendo, querido. — O jeito que a palavra saiu de sua boca, junto ao sorriso desafiador, fez algo no estômago dele se contrair de um jeito estranho. Ele odiava isso. Odiava como ela falava como se soubesse exatamente que o estava provocando.
Então, sem quebrar o contato visual, ele se aproximou devagar, diminuindo ainda mais o espaço entre eles. parou de sorrir, mas não recuou.
— Sabe o que mais me faz desconfiar de você, senhorita ? — Theseus murmurou, a voz mais baixa, arrastada e o olhar se tornando mais frio. — O fato de você dizer que trabalha para a Vicência Santos e não fazer ideia do que passamos para tentar deter Grindelwald. — Ele apoiou uma das mãos na lateral do sofá onde estava sentada, inclinando a cabeça levemente em sua direção. — Porque se você soubesse ao menos um terço do que aconteceu, não questionaria a minha desconfiança. — abriu a boca para responder, mas hesitou, então ele continuou, seus olhos escuros analisando cada expressão dela. — Das duas uma… ou você realmente está mentindo e é uma espiã, ou é tão incompetente que nem consegue fazer o seu trabalho direito. — A provocação foi o suficiente para se levantar em um salto, o obrigando a dar um passo para trás.
— Já chega! Não estou pedindo que acredite em mim, senhor Scamander, mas um pouco de respeito seria bom. — Os olhos da bruxa faiscaram de raiva e seu peito subia e descia com a respiração alterada. Theseus percebeu tarde demais que também estava respirando mais fundo do que deveria.
O clima na sala estava tão tenso que o ar parecia vibrar. Mas antes que qualquer um pudesse dizer mais alguma coisa, a voz de Jacob interrompeu.
— Ei, vocês dois. — Theseus e se viraram ao mesmo tempo, encontrando o homem parado à porta, com os braços cruzados e uma expressão impaciente. — Tá dando pra escutar a ‘conversa’ de vocês lá dentro, então achei melhor ficar no lugar do Theseus.
— Obrigado — Theseus murmurou, lançando um último olhar para , antes de sair da sala, seus passos firmes ecoando pelo chão de madeira.
— Finalmente. Ele é sempre assim tão adorável? — A mulher bufou e cruzou os braços, voltando a se sentar no sofá.
— Ele pegou um pouco pesado com você, né? — Jacob suspirou, coçando a nuca.
— Um pouco? Parecia que o problema dele nem era com Grindelwald, e sim comigo.
— É, sinto muito por isso…, mas você tem que entender que ele passou por muita coisa — ele disse, sentando em uma cadeira próxima, e ergueu uma sobrancelha, ainda irritada.
— Todos passamos por muita coisa.
— Sim, mas… é que Theseus já perdeu gente demais nessa guerra. Ele se culpa por muita coisa, especialmente pelo que aconteceu com Leta.
— Leta Lestrange? — piscou, surpresa pela mudança súbita de assunto, e Jacob assentiu com um semblante triste.
— Eles foram noivos. Ela morreu tentando salvar a gente... e acho que, no fundo, Theseus nunca se perdoou por isso.
O nome Lestrange não era estranho para , mas ela nunca havia ligado a figura de Leta àquele homem rígido e controlador. Pensava que todo aquele comportamento era apenas arrogância, um traço comum em homens como Theseus. E, pela primeira vez naquela noite, ela se perguntou se havia sido injusta com ele.



No outro dia, despertou lentamente, piscando algumas vezes para se ajustar à claridade do cômodo. Seus braços estavam pesados, dormentes pelo tempo que passara presa naquela posição desconfortável. Ela se levantou lentamente e se alongou, um suspiro escapando de seus lábios ao se mover, sentindo o aperto firme das amarras ao redor de seus pulsos. O cheiro forte de café pairava no ar, e vozes baixas vinham da cozinha, entrecortadas pelo arrastar de cadeiras e pelo tilintar ocasional de uma colher contra a porcelana.
se aproximou da porta entreaberta da cozinha, onde Theseus e Newt estavam sentados à mesa. Newt falava em um tom calmo e concentrado, os olhos fixos na superfície de madeira à sua frente, enquanto desenhava algo com a ponta dos dedos, e Theseus segurava uma xícara de café entre as mãos, a postura rígida como sempre, se inclinando ligeiramente sobre a mesa, enquanto escutava o irmão. não conseguia ouvir tudo o que diziam, mas captou fragmentos soltos, palavras desconectadas, menções a um plano que não lhe era familiar.
Foi apenas quando ela se mexeu levemente que ambos perceberam sua presença e o silêncio foi imediato. Newt cortou a própria frase no meio, desviando o olhar para Theseus como se perguntasse se deveriam continuar. O mais velho, por sua vez, girou o rosto em direção a , os olhos escuros encontrando os dela com algo que variava entre irritação e outra coisa.
— Desculpem se atrapalhei alguma coisa — falou, olhando de um para o outro, ainda lembrando da conversa que teve com Jacob na noite anterior. Ela até estava tentando pegar leve com Theseus, mas seus pensamentos foram interrompidos pela risada seca do homem à sua frente, levando a xícara aos lábios antes de responder.
— Ah, tá mais educada agora? O que algumas horas de sono não fazem.
— Bom, você me amarrou — ela respondeu, pendendo a cabeça para o lado e apertando os lábios em um sorriso sem humor. — Não tem muita coisa que eu possa fazer para mudar isso, então não vejo motivo para eu começar a tratar todo mundo mal. Acho que mereço pelo menos um pouco de cortesia em troca. — Theseus arqueou a sobrancelha, repousando a xícara sobre a mesa com um toque suave.
— Cortesia, senhorita , não é algo que se ganha apenas por reclamar. Mas quem sabe? Talvez, se você continuar assim tão dócil, possamos reconsiderar.
— Então é assim que funciona? Gentileza em troca de um pouco de liberdade? — perguntou, estreitando os olhos, sentindo a irritação ferver sobre sua pele.
— Não se engane… — Theseus inclinou-se ligeiramente para frente, apoiando os antebraços na mesa. — Não espero gentileza de você. Apenas clareza. — Seu olhar permaneceu preso ao dela mais tempo do que deveria, mas sustentou o contato visual, desafiadora, apesar de sentir um arrepio percorrer sua espinha. Não de medo, mas algo muito mais perigoso. E ela odiava isso.
Ambos voltaram à realidade ao ouvir Newt pigarrear, se levantando da mesa e indo até .
— Theseus, se puder nos dar um segundo. — Ele se virou para o irmão, que assentiu com um suspiro antes de se levantar e sair da cozinha.
acompanhou Theseus com o olhar até ele desaparecer pela porta, então voltou a atenção para Newt, que, diferente do olhar severo do irmão, carregava nos olhos um tipo de gentileza que a fez relaxar levemente os ombros.
— Ele pode ser um pouco... intenso — Newt comentou, oferecendo um pequeno sorriso, antes de puxar a varinha do bolso do casaco. — Mas espero que entenda o motivo.
arqueou uma sobrancelha, observando enquanto ele apontava a varinha para suas mãos. Em um instante, parte das amarras se afrouxou, aliviando a pressão em seus pulsos sem libertá-la completamente.
— Você também acha que sou uma ameaça? — ela perguntou, testando os dedos dormentes, enquanto sentia o sangue voltar a circular.
— Eu acho que não sei o suficiente sobre você para ter certeza — Newt respondeu com honestidade, indo até a mesa, onde encheu uma caneca de chá fumegante. — Mas suspeito que se fosse realmente perigosa, teria tentado fugir de outra forma e não trocando farpas com Theseus.
soltou um riso anasalado, aceitando a caneca quando ele a entregou. O calor entre seus dedos era bem-vindo depois das horas de desconforto.
— Bom, se eu soubesse que ele era tão cabeça-dura, talvez tivesse reconsiderado minhas estratégias — murmurou antes de levar o chá aos lábios, e Newt sorriu de leve, cortando um pedaço de pão e colocando o prato perto dela. — Obrigada. — Ela sorriu de volta, notando que não havia comido nada desde que fora capturada, e mordeu o pão, sentindo o calor reconfortante do alimento recém-cortado.
Newt puxou uma cadeira e se sentou ao lado dela, os movimentos um pouco contidos, como se não quisesse invadir seu espaço. percebeu que ele era bem diferente do irmão, menos imponente, menos confrontador. Havia algo nele que parecia um pouco deslocado, como se preferisse estar em qualquer outro lugar que não fosse ali. Ele limpou a garganta, desviando o olhar para suas próprias mãos antes de falar.
— Você trabalha para Vicência Santos, certo?
assentiu devagar, mastigando o pão antes de responder.
— Sim. Eu faço parte da equipe dela. Trabalho com informações, movimentações políticas e estratégias de defesa.
Newt inclinou a cabeça levemente, parecendo absorver cada palavra com atenção genuína, sem pressa em reagir. Diferente de Theseus, que confrontava tudo de imediato, ele parecia ponderar antes de julgar. notou como ele evitava contato visual prolongado, como se não estivesse totalmente confortável com interações diretas.
— Então por que estava espionando? Se realmente trabalha para Vicência, poderia simplesmente ter vindo até nós.
— Porque nem todos aqui parecem dispostos a ouvir antes de apontar a varinha. — Ela soltou um suspiro, encostando as costas na cadeira.
— Theseus viu Grindelwald manipular e trair pessoas que diziam estar do nosso lado. Não é simples confiar. — franziu os lábios, desviando o olhar para a porta por onde Theseus havia saído. Mesmo sem vê-lo, ainda sentia a intensidade do olhar dele sobre ela.
— Eu sei. — Sua voz saiu mais baixa, carregada de um peso que ela mesma não esperava. — E eu não o julgo por isso.
Newt ficou em silêncio por alguns segundos, como se escolhesse as palavras certas antes de continuar. percebeu que aquele era o jeito dele, mais quieto, mais tímido, como se preferisse falar através dos gestos em vez das palavras.
— O que estava tentando descobrir naquela floresta?
— Algo não estava certo — disse, por fim, voltando a encará-lo. — Recebemos informações sobre movimentações suspeitas perto desse território. Eu precisava confirmar se Grindelwald estava mesmo aqui, ou se era uma armadilha. Mas antes que eu pudesse descobrir qualquer coisa, fui capturada.
— E você acredita que ele realmente veio para cá?
— Acho que estamos perto de algo grande, mas não sei dizer se é uma pista real, ou mais uma peça no jogo dele.
Newt trocou um olhar pensativo com ela, então se inclinou ligeiramente para a frente, a voz baixa, mas firme.
— Se for verdade… podemos ir com você até o local. — assentiu, mas depois soltou uma risada baixa, balançando a cabeça.
— Duvido muito que seu irmão vá aceitar isso tão fácil.
— Theseus pode ser… teimoso. Mas ele entende o que está em jogo. Se essa pista for real, ele não vai ignorá-la.
— E se eu estiver mentindo? — arqueou uma sobrancelha e observou o homem à sua frente sorrir de leve, o olhar gentil, mas perspicaz.
— Então, eventualmente, vamos descobrir.
Ela segurou o olhar dele por um momento antes de desviar, levando a xícara aos lábios novamente. terminou o chá em silêncio, sentindo o calor do líquido acalmar levemente seus nervos. Newt permaneceu sentado ao seu lado, a observando com aquela expressão analítica e ponderada que parecia ser sua marca registrada. Ele não a tratava com desconfiança, mas também não era ingênuo. Assim que ela pousou a xícara vazia sobre a mesa, eles se levantaram, indo até a sala, onde os outros estavam espalhados com expressões sérias. Theseus, como sempre, foi o primeiro a reagir, cruzando os braços e lançando um olhar de desagrado para .
— Ela já está à vontade demais.
sorriu de lado, arqueando uma sobrancelha.
— Se preferir, posso voltar para a cadeira dura da cozinha. Mas considerando que vou ajudar vocês, acho que um pouco de conforto é permitido.
— Nos ajudar? O que ela quer dizer com isso?
— Theseus… — Newt interveio, sua voz pacífica, mas firme. — pode nos levar até o local onde supostamente Grindelwald passou. Se ela estiver certa, podemos encontrar algo útil.
O auror franziu o cenho, claramente não gostando da ideia. Os outros trocaram olhares entre si, avaliando a proposta em silêncio.
— E desde quando confiamos nela? — Theseus retrucou, voltando a encará-la, e revirou os olhos.
— Eu já disse que não preciso da confiança de ninguém, só quero que descubram logo que não sou uma ameaça.
— Se Grindelwald está por aqui, não podemos ignorar qualquer pista. — Lally olhou para Theseus, que apertou os lábios em uma linha fina, a mandíbula travada em resistência. percebeu que ele olhava para Newt primeiro, como se tentasse encontrar uma justificativa para recusar sem parecer irracional. No fim, ele soltou um suspiro pesado, passando a mão pelos cabelos.
— Isso é uma péssima ideia.
— Mas é a única que temos — Newt retrucou calmamente.
Queenie, que estava sentada perto de Jacob, inclinou a cabeça, observando com curiosidade. Ela não podia ler sua mente, o que apenas tornava a situação mais intrigante.
— Talvez devêssemos dar uma chance…
— Se for uma armadilha, saberemos lidar com isso. — Yusuf, até então calado, assentiu levemente.
— Partimos em algumas horas. — Theseus lançou um último olhar desconfiado para antes de se levantar da poltrona em que estava sentado.
— Ah, então agora confia em mim? — sorriu de lado, inclinando a cabeça, e o homem bufou, desviando o olhar antes de sair do cômodo.
— Nem por um segundo.

observava enquanto os outros checavam seus pertences. Yusuf organizava alguns papéis, enquanto Lally conferia frascos de poções cuidadosamente embalados em um estojo de couro. Ela se aproximou de Theseus, que estava perto da porta, ajustando um coldre onde mantinha a varinha.
— Se vamos viajar juntos, acho que já passou da hora de me soltarem.
— E por que exatamente eu faria isso? — Ele se virou lentamente para encará-la, a expressão carregada de ceticismo.
— Porque, a menos que planeje carregar alguém amarrado pelo meio da floresta, não faz sentido continuar com isso.
— Eu posso carregar você, se for preciso. — Ele cruzou os braços, ponderando por um momento, e sorriu de lado, debochado.
— Ah, claro. E quando Grindelwald aparecer, você vai me segurar com uma mão e duelar com a outra? — arqueou uma sobrancelha, abrindo um sorriso irônico.
— Eu meio que queria ver isso. — Jacob, que amarrava o cadarço do sapato em um canto, ergueu a cabeça, e Queenie riu baixinho, enquanto Theseus soltava um suspiro irritado, claramente sem paciência. Ele olhou para Newt, esperando alguma intervenção sensata, mas o irmão apenas observava em silêncio, o rosto neutro como sempre.
— Se ela quisesse fugir, já teria tentado — Lally comentou, dando de ombros.
— Ótimo. — Theseus apertou a mandíbula, contrariado. — Mas se fizer qualquer coisa suspeita, eu não vou hesitar. — Então, sem aviso, deu um passo à frente e puxou a varinha, murmurando um feitiço que desfez as amarras. nem teve tempo de reagir antes de sentir a pressão nos pulsos desaparecer. — E eu vou continuar com sua varinha, por precaução.
— Uau, quanta confiança. Não imaginava que sabia ser gentil, Scamander. — Ela massageou os pulsos, arqueando uma sobrancelha.
— Não se acostume. — Ele inclinou a cabeça ligeiramente, a voz baixa e carregada de ironia. notou a proximidade entre os dois, a forma como o olhar dele deslizava sobre ela, misturado entre irritação e outra coisa que ela não sabia decifrar. Por um segundo, ninguém disse nada.
— Então, qual é o plano? — Ela quebrou o silêncio, se virando para os outros. — Vamos direto para o local, ou o senhor Scamander vai querer fazer mais uma verificação para garantir que eu não sou uma espiã?
— Eu ainda não descartei essa possibilidade.
— Vamos diretamente para o ponto que você indicou. Se Grindelwald passou por lá, é melhor não perdermos tempo. — Lally se aproximou, já com sua varinha em mãos, e Newt assentiu, verificando sua maleta, a fechando com cuidado. Antes que ela se fechasse completamente, notou um pequeno vulto de pelos pretos se remexendo entre os objetos dentro da mala. Seus olhos se estreitaram por um instante, curiosos, mas Newt rapidamente empurrou a criaturinha para dentro, como se aquilo fosse a coisa mais natural do mundo.
— Todos prontos? — Eles assentiram, e lançou um olhar provocador para Theseus, abaixando o tom de voz.
— E você, Theseus Scamander? Vai conseguir lidar com isso? — Ele não respondeu, apenas lhe lançou um olhar longo, a mandíbula travada, antes de pegar seu casaco e vesti-lo. — Ótimo. — sorriu, sentindo uma pontada de satisfação.
E então, com a tensão pairando no ar, o grupo saiu da cabana, prontos para mergulhar mais fundo na busca.



O sol filtrava-se entre as copas das árvores, enquanto o grupo seguia pela floresta, a trilha estreita tornando os passos cada vez mais atentos. O cheiro de terra úmida se misturava ao canto dos pássaros e ao som ocasional de folhas se mexendo sem um motivo aparente.
— Devemos ficar atentos — avisou, lançando um olhar para os outros. — Essa floresta está longe de ser vazia e muito menos segura.
— Você fala de animais normais ou de algo mais... peculiar? — Jacob perguntou, com uma expressão cautelosa.
— Os dois, talvez. — Ela esboçou um sorriso enigmático. — Modéstia à parte, tanto no mundo bruxo, quanto no trouxa, estamos falando de um dos biomas mais ricos do mundo. Eu não iria querer dar de cara com uma sucuri ou uma onça-pintada.
— Ótimo. Então, além das criaturas mágicas, temos que nos preocupar com cobras gigantes e felinos carnívoros? — Jacob arregalou os olhos, enquanto Newt estava extremamente interessado no assunto.
— Basicamente. Ah, sem falar em algumas cobras venenosas, como a jararaca e a surucucu, que podem ser bem difíceis de lidar se cruzarmos o caminho delas. — Ela olhou para Jacob novamente, que pareceu estremecer. — Mas, sinceramente, eu diria que elas são os menores dos nossos problemas.
— Tem algo específico com que deveríamos nos preocupar? — Theseus perguntou desconfiado, e lançou um olhar divertido para ele antes de responder.
— Bem, você quase teve um encontro com alguns Curupiras noite passada, mas eles não costumam se aproximar se você respeitar a floresta. — Ela levantou o dedo, começando a contar. — Mas, se querem algo para sentir medo, temos os Capelobos, por exemplo. Metade homem, metade fera, se alimentam do sangue de quem invade seu território.
— Ótimo, vampiros tropicais. Isso só melhora — Jacob retrucou, olhando ao redor.
— Tem também os Mapinguaris, gigantes cobertos de pelo. Dizem que são quase imortais.
— Imortais? — Yusuf repetiu, parecendo interessado.
— Eles têm uma pele tão dura que quase nada consegue feri-los. Alguns acreditam que foram bruxos que se transformaram em algo que não conseguiram reverter.
— Eu adoraria ver um. — Newt parecia ainda mais fascinado.
— Sim, claro, vamos convidar um para o jantar também, quem sabe — Theseus resmungou, e soltou uma risada curta, mantendo os olhos na trilha à frente.
— E tem as Caiporas, que não são perigosas, mas adoram pregar peças. Se algo da sua mochila sumir, já sabe quem foi.
— Isso está cada vez melhor. — Jacob suspirou, puxando a alça de sua mochila como se já pudesse sentir alguém tentando roubá-la.
— Mais alguma coisa, ou são ‘apenas’ esses? — Lally questionou com um tom brincalhão na voz.
— Bem, já que perguntou… a Iara é uma sereia de pele morena, que atrai os pescadores com seu canto hipnótico, os levando para as profundezas dos rios.
— Sereias que afogam pessoas?
— Exatamente. — olhou para Queenie, que andava de mãos dadas com Jacob. — E o Boitatá, uma serpente gigante de fogo, com olhos que podem até cegar quem ousar se aproximar dela. E essas são só algumas, claro.
— Desde que não apareça nada que nos faça perder tempo, já estou satisfeito. — Theseus revirou os olhos, ajustando o coldre da varinha, e lançou um olhar discreto para ele, o canto da boca se erguendo ligeiramente.
— Ah, não se preocupe, Scamander. Tenho certeza de que a floresta vai ser muito generosa com você. — E então, com um brilho travesso no olhar, ela voltou a caminhar, o deixando para trás resmungando algo inaudível.
Newt, ao lado do irmão, apenas sacudiu a cabeça, mas Theseus percebeu um sorriso divertido surgindo em seus lábios.
— Nem uma palavra, Newt.
— Eu não disse nada — o mais novo respondeu, ainda sorrindo, enquanto voltavam a seguir o grupo.
Antes que ele pudesse retrucar, Yusuf, que caminhava mais à frente, parou de repente e ergueu a mão em um sinal para que todos ficassem atentos.
— Tem algo aqui.
O grupo imediatamente ficou em alerta, varinhas em punho, observando entre as folhas secas pegadas parcialmente apagadas.
— Podemos estar no caminho certo — Eulalie murmurou, analisando as marcas, e Theseus assentiu, se virando para , sua voz firme.
— Vamos ver se sua pista realmente nos leva a algum lugar, senhorita .
— Se minha pista não levar a nada, vocês podem me deixar amarrada em uma árvore e seguir sem mim. — cruzou os braços ao encarar Theseus. — Mas, até onde sei, sou a única aqui que entende os rastros dessa floresta.
— Até onde eu sei, apenas há algumas horas, você ainda estava com as mãos amarradas. — Theseus estreitou os olhos, mas Lally interveio antes que eles pudessem continuar a discussão.
— As marcas seguem para o leste. Se for um acampamento ou uma base temporária, não devem estar muito longe.
se ajoelhou ao lado de Yusuf para examinar o chão. A terra estava revirada, mas não o suficiente para indicar uma grande movimentação. Alguém estivera ali recentemente, mas sem a intenção de ser descoberto.
— Eles estão se movendo com cautela. — tocou a borda de uma pegada, analisando sua profundidade. — E são poucos. Talvez dois, três no máximo.
— E como sabe disso? — Theseus cruzou os braços, cético, e ela ergueu o olhar, um sorrisinho no canto dos lábios.
— Porque eu sei ler pegadas, Scamander. Diferente de você, que provavelmente chutaria uma pista antes de perceber que ela estava ali.
Antes que ele pudesse responder, um estalo entre as árvores fez todos virarem na direção do som. As varinhas foram erguidas em um instante, os olhos atentos vasculhando a vegetação densa. O silêncio que se seguiu pareceu ainda mais ameaçador do que o próprio barulho.
— Se for um animal, ele já nos sentiu há muito tempo — Queenie murmurou, os olhos varrendo os arredores com preocupação.
— E se não for? — Jacob sussurrou ao lado dela, e se levantou devagar, estreitando os olhos.
— Se não for, talvez seja melhor nos prepararmos para descobrir.
O vento soprou entre as folhas, carregando um cheiro metálico, quase imperceptível. O tipo de cheiro que alertava qualquer um que já havia estado em um combate antes.

Sangue.

— Fiquem atentos. — Yusuf foi o primeiro a dar um passo à frente, varinha firme na mão, enquanto os outros seguiam atrás dele com cautela, dessa vez em silêncio absoluto. Algo, ou alguém, estava naquela floresta. A questão era: estavam sendo seguidos, ou eram eles os caçadores?
manteve os olhos atentos ao redor, sentindo um arrepio percorrer sua espinha, e a única coisa que ela pensava naquele momento era em pegar sua varinha de Theseus. Newt caminhava ao lado dela, o olhar alternando entre as pegadas e as sombras nas árvores.
— Há um cheiro estranho no ar. — Foi Theseus quem quebrou o silêncio primeiro, e Lally assentiu.
— Sangue.
— Não, mas tem algo a mais… — franziu o cenho. — Algo como enxofre misturado com terra molhada.
— Isso não é um bom sinal. — Newt parou abruptamente, as sobrancelhas franzidas, e Jacob sentiu seu corpo estremecer.
— Ótimo. Como se não bastassem as criaturas da floresta, agora temos um cheiro suspeito.
— Mantenha a calma. — Lally lançou-lhe um olhar de advertência, mas, antes que alguém pudesse dizer algo mais, o silêncio foi rasgado por um grito. Um som seco, desesperado e próximo.
— Ali! — Queenie apontou para uma clareira mais adiante e, sem hesitar, Yusuf avançou primeiro, seguido de perto pelos outros.
Ao chegarem à clareira, se depararam com uma cena desconcertante. No centro, um homem caído no chão, se contorcendo, os olhos arregalados de puro pavor. Seu corpo estava coberto de feridas profundas, como se garras tivessem deslizado por sua pele, e o sangue se espalhava cada vez mais pelo solo. Newt já se ajoelhava ao lado do homem, analisando os ferimentos com precisão clínica. Mas, antes mesmo que eles pudessem fazer qualquer coisa, os olhos do homem ficaram sem vida.
— Isso parece obra de um Mapinguari.
— Tem certeza? — perguntou, sentindo os pelos da nuca se eriçarem, enquanto o cheiro de enxofre e terra molhada ficava mais forte, quase sufocante. — Não se movam — ela murmurou, os olhos varrendo a clareira e, antes que alguém pudesse questionar, as árvores ao redor deles tremeram.
Ninguém ousou respirar. O grupo ficou imóvel, atento a qualquer mudança ao redor.
O silêncio foi quebrado por um som baixo e gutural que ressoou entre as árvores. Galhos estalaram, folhas se agitaram violentamente e então, emergindo da escuridão da mata, uma criatura monstruosa surgiu. Seu corpo era coberto por um pelo espesso e negro, mas o detalhe mais aterrorizante era o único olho vermelho e brilhante no centro de sua testa. Suas garras curvadas eram tão longas quanto lâminas, e a boca, situada verticalmente desde o começo do nariz até o final do abdômen, se abriu em um grunhido ensurdecedor, liberando um hálito pútrido de carne em decomposição que os fez engasgarem.
Mapinguari falou com a voz trêmula, e Newt confirmou com um aceno, fascinado e preocupado ao mesmo tempo.
— Eu nunca vi um pessoalmente.
O Mapinguari avançou um passo, sua silhueta colossal bloqueando a luz do sol filtrada pelas copas das árvores. A pele grossa e escamosa, misturada com pelos desgrenhados, parecia uma fusão de vários animais ao mesmo tempo. Seu olho oscilava entre os membros do grupo, como se analisasse qual deles faria a melhor refeição.
— Isso é sua culpa! Você disse que queria ver um desses bichos pessoalmente! — Jacob apontou um dedo acusador para Newt.
— Tecnicamente, eu disse que adoraria ver um… e isso ainda é verdade. Ainda não consegui estudá-lo apropriadamente. — Newt piscou algumas vezes, claramente dividido entre a fascinação e a urgência do perigo.
— Nós podemos ser devorados a qualquer momento e você quer estudá-lo? — Yusuf exclamou, desviando para trás quando o Mapinguari soltou outro rugido ensurdecedor.
— Podemos discutir isso depois? Preferencialmente quando não estivermos prestes a virar janta de um monstro? — Queenie, com os olhos arregalados, segurava a mão de Jacob.
Newt forçou a mente a funcionar rápido, tentando lembrar-se de qualquer detalhe relevante sobre o Mapinguari. Criatura amazônica, forte, resistente… quase impossível de derrubar com feitiços comuns. O cheiro é uma defesa natural, que desorienta presas e predadores. E a pele? Praticamente impenetrável.
— Se alguém tiver um plano, agora seria uma ótima hora para compartilhá-lo. — tentou manter a calma, os olhos fixos na criatura, que parecia cada vez mais impaciente.
O Mapinguari rosnou, suas garras enormes rasgando a casca de uma árvore próxima como se fosse papel. O som ecoou pela floresta, enviando uma revoada de pássaros assustados para o céu. O grupo deu mais um passo para trás.
— Está bem… — Newt murmurou, os olhos brilhando com uma ideia repentina. — Ele pode ser forte e assustador, mas deve ter um ponto fraco.
— Diga logo antes que ele resolva nos transformar no almoço — Theseus resmungou, ajustando a postura para um possível ataque.
— Eu preciso pensar mais um pouco. — Newt tentou forçar a mente.
— Ah, claro, leve o tempo que precisar, não é como se estivéssemos prestes a morrer. — estreitou os olhos, enquanto ele já estava remexendo nos bolsos do casaco, claramente com um plano em mente.
— Certo, meu primeiro palpite é que precisamos cegá-lo… Theseus, você é bom com feitiços de luz intensa, certo?
— Por quê? — O mais velho estreitou os olhos, desconfiado.
— Porque se conseguirmos desorientá-lo, podemos ganhar tempo para fugir. — Newt finalmente puxou um pequeno frasco de dentro do casaco e jogou para Theseus. — Quando eu disser agora, quebre isso no chão e conjure um Lumus Maxima diretamente no rosto dele. — Theseus pegou o frasco no ar e o encarou por um segundo antes de assentir, e Newt respirou fundo. — Três… dois… um… AGORA!
Theseus arremessou o frasco no solo, e uma explosão de fumaça prateada subiu ao ar. No mesmo instante, ele apontou a varinha e conjurou um poderoso Lumus Maxima. A floresta foi banhada por uma luz intensa, ofuscando tudo ao redor. O Mapinguari soltou um rugido de dor e recuou desorientado, seu único olho lacrimejando.
— CORRAM! — gritou, puxando Theseus pelo braço sem esperar resposta.
O grupo disparou pela trilha, os pés esmagando folhas secas e galhos retorcidos. O barulho de algo enorme se movendo atrás deles, seguido por rugidos furiosos, deixava claro que o Mapinguari estava se recuperando rapidamente.
— Ele ainda tá vindo! — Jacob exclamou, olhando para trás e acelerando o passo. — Isso não devia ter derrubado ele?
— É uma criatura extremamente resistente! — Newt ofegou, desviando de uma raiz exposta. — Mas ele não pode nos perseguir para sempre!
— Ótimo, então só precisamos correr por, sei lá… DUAS HORAS? — Jacob retrucou, desviando por pouco de uma árvore.
— Theseus, me diga que você tem um feitiço na manga que pode resolver isso de vez! — Yusuf perguntou, enquanto saltava sobre um tronco caído.
— Estou aberto a sugestões! Além disso, o magizoologista é ele — Theseus rebateu, se referindo a Newt, a voz cheia de irritação e adrenalina.
— Temos que despistá-lo! Ele pode ser grande e forte, mas não é exatamente ágil! — olhou para o lado e viu Queenie segurando a saia do vestido enquanto corria, tentando manter a velocidade.
— Então precisamos de uma distração — Yusuf concluiu, lançando um olhar rápido para o lado.
Foi então que viu, mais à frente, uma trilha que se dividia em duas. Ela pensou rápido.
— Vamos nos separar! Ele não poderá seguir todos ao mesmo tempo!
— SEPARAR? — Jacob quase tropeçou ao ouvir a ideia. — Que ótima ideia! Vamos dividir o cardápio da criatura!
— Theseus, eu, você e o Newt vamos para a esquerda! — comandou. — Vocês quatro vão para a direita!
— Isso é um péssimo plano. — Theseus resmungou, mas não desacelerou. — Além disso, quem te botou no comando?
— Então pense em um melhor! Enquanto um grupo o distrai, o outro pensa em algo para detê-lo — rebateu, puxando os dois irmãos para a esquerda no momento em que chegaram à bifurcação, enquanto Queenie, Jacob, Yusuf e Lally seguiram para a direita.
O Mapinguari parou por um momento, confuso, e rugiu furioso ao ver seu ‘almoço’ se separando. Depois de hesitar por um segundo, se virou e seguiu na direção de , Newt e Theseus.
— ÓTIMO, ELE ESCOLHEU A GENTE! — gritou, sentindo o chão vibrar sob seus pés com os passos pesados da criatura.
— Talvez ele tenha nos achado mais interessantes — Theseus murmurou, correndo ao lado de .
— Se você se mexesse menos como um alvo fácil, talvez ajudasse — rebateu, sem fôlego, e Theseus lançou um olhar cortante para ela.
— Se você falasse menos e corresse mais, talvez não estivéssemos nessa situação!
— Ah, claro, porque a culpa é minha! Você quer discutir isso agora, Scamander? Enquanto temos uma criatura tentando nos devorar? — rosnou, mas, antes que ela pudesse protestar, Theseus segurou seu pulso por reflexo, a puxando para um lado quando o Mapinguari investiu contra eles. sentiu o corpo colidir contra o dele, a respiração quente de Theseus próxima à sua pele por um breve instante antes de se afastarem rapidamente.
— Se vocês puderem parar por um segundo, seria ótimo! — Newt sussurrou, tentando recuperar o fôlego, enquanto os empurrava para trás de uma grande árvore caída.
piscou algumas vezes, tentando recuperar a compostura. Sentia o olhar de Theseus sobre ela e, quando se virou, encontrou aqueles olhos intensos que faziam um calor irritante subir pelo seu corpo. O Mapinguari soltou outro rugido, girando o corpo massivo e farejando o ar. A boca em seu abdômen se abria e fechava, emitindo um ruído viscoso.
— E então, qual o plano, gênio da sobrevivência? — Theseus limpou o suor da testa, e cerrou os olhos para ele, respirando fundo.
— Bom, auror, se eu estivesse com a minha varinha, tenho certeza de que…
— Nem pensar. — Theseus a interrompeu, e ela revirou os olhos.
— Então alguém tem um plano brilhante, ou vamos continuar esperando-o decidir quem vai jantar primeiro?
— Água! — Newt exclamou, com um sorriso animado até demais.
— Água? — franziu a testa, lançando um olhar confuso para ele. — Tem como ser um pouco mais claro?
Newt, que já havia começado a remexer em sua maleta, levantou a cabeça rapidamente.
— Eles são sensíveis à água! Se jogarmos uma grande quantidade nele, podemos desorientá-lo, ou até afastá-lo.
— Eu poderia lançar um feitiço útil para isso, se estivesse com a minha varinha. — estreitou os olhos para Theseus com um brilho satisfeito.
Ele cerrou a mandíbula, claramente relutante, mas diante da aproximação ameaçadora da criatura, xingou baixinho, antes de pegar a varinha em seu bolso e estender para ela.
— Isso não significa que eu confie em você.
— Claro que não. — sorriu de lado, pegando a varinha.
— Isso é uma essência de feromônio de Fiuum misturada com néctar de Plimpy. Vai desorientá-lo por tempo suficiente para lançarmos o feitiço e fugirmos. — Newt segurou um pequeno frasco com um líquido brilhante e azul, bem no momento em que a criatura os encontrou.
— JOGA LOGO! — Theseus gritou, puxando para que eles se afastassem.
Newt abriu o frasco, atirando o líquido brilhante para trás. No instante em que o cheiro doce se espalhou pelo ar, o Mapinguari parou abruptamente, fungando o ar com desconfiança. Ele balançou a cabeça, confuso, e começou a cambalear para o lado, distraído pelo aroma inebriante.
— Agora! — ergueu a varinha. — Aqua Erupto!
Um forte jato de água disparou da ponta da varinha, acertando a criatura no rosto. Theseus e Newt conjuraram o mesmo feitiço, e o Mapinguari soltou um rugido alto, recuando, enquanto os jatos d’água o atingiam.
— Corram! — Newt exclamou, ainda tentando olhar para trás enquanto corriam.
Os três dispararam pela trilha, aproveitando a hesitação da criatura para colocar uma boa distância entre eles. Quando finalmente pararam para recuperar o fôlego, os sons do Mapinguari tinham sumido na floresta.
— Bom… foi emocionante. — Newt, com um sorriso satisfeito, guardou o frasco, enquanto bufou, as mãos nos joelhos, tentando recuperar o ar.
— Você precisa rever sua definição de emocionante.
— Pelo menos agora posso dizer que vi um Mapinguari pessoalmente.
— Da próxima vez, escolha algo menos mortal para estudar, por favor. — Ela lançou-lhe um olhar cansado, mas acabou rindo.
O silêncio caiu entre eles por um instante, antes de um barulho surgir da trilha à direita. Em poucos segundos, o restante do grupo emergiu da vegetação. Yusuf estava sujo de lama, Lally ajeitava o cabelo esvoaçado, Queenie ofegava e Jacob… bom, Jacob parecia o mais aliviado de todos.
— Então… — Ele arquejou, apoiando as mãos nos joelhos. — Qual é a próxima maravilha mortal da floresta que vamos encontrar?
— Você quer mesmo saber? — deu uma risada curta, e Jacob endireitou-se, erguendo uma mão.
— Na verdade, não. Eu retiro a pergunta. — O grupo trocou olhares cansados, mas satisfeitos por estarem todos inteiros.
— Você está bem? — Theseus perguntou, ao se aproximar de , o olhar a avaliando rapidamente antes de desviar, seu semblante irritado.
Ela ergueu as sobrancelhas, surpresa com a pergunta repentina, mas deu de ombros.
— Bem o suficiente. Nada que um pouco de ar puro e a minha varinha de volta não resolvam.
— Falando nisso… — Theseus pegou a varinha antes mesmo que pudesse reagir, e ela soltou um suspiro exagerado e cruzou os braços.
— Eu acabei de ajudar a salvar todos nós. Se isso não é uma prova de confiança, eu não sei o que é.
— Você nos colocou para correr de uma criatura gigante e fedorenta. Se a gente não tivesse seguido suas ‘pistas’, nada disso teria acontecido.
— Se a gente não tivesse seguido minhas pistas, não teríamos encontrado aquele homem…
— Encontrado e perdido na mesma hora. Agora não fazemos ideia de onde ele está.
— Bom, isso ajuda? — Lally tirou uma varinha e uma carteira da bolsa, e Theseus franziu a testa ao ver os objetos. Ele pegou a varinha primeiro, a girando entre os dedos com uma expressão avaliativa. — Enquanto vocês estavam ocupados com o monstro gigante, eu revistei nosso colega. — Newt se aproximou, os olhos analisando o objeto com fascínio.
— Se conseguirmos identificar o núcleo e a madeira, podemos rastrear o dono.
— Talvez isso não seja necessário — murmurou, pegando a carteira das mãos de Lally e a abrindo. Lá dentro, havia um pequeno maço de notas de bruxos, algumas moedas encantadas e um pedaço de papel dobrado. o desdobrou cuidadosamente, revelando o que parecia ser um bilhete rabiscado às pressas, e o leu em voz alta.

— Se tudo der errado, encontre-me onde a serpente se curva para beber.

Um silêncio tenso pairou entre eles.
— Isso é uma localização? — Jacob questionou, se inclinando para espiar o bilhete.
— Parece um tipo de código. — Yusuf acrescentou. — A serpente se curva para beber… pode ser um rio.
franziu a testa, tentando lembrar de algo.
— No Brasil, há lendas de serpentes gigantes em rios e lagos. Se esse homem é um bruxo brasileiro, ele pode estar se referindo a algo local. — Antes que alguém respondesse, seus dedos encontraram outro documento dentro da carteira. Era um cartão de identificação levemente amassado, com um selo oficial no canto. Ela estreitou os olhos para ler o nome e a ocupação do homem. — Marcos Vasconcelos. Departamento de Execução das Leis da Magia do Ministério da Magia dos Estados Unidos do Brasil.
— Você não o conhece? — Theseus cruzou os braços, a encarando com intensidade, e ergueu o olhar para ele, percebendo a nota de desconfiança em sua voz.
— Deveria? — Ela devolveu, arqueando uma sobrancelha, enquanto Theseus inclinou ligeiramente a cabeça, sem desviar o olhar.
— Se ele trabalha no Ministério, e você também… é estranho nunca ter ouvido falar dele.
— Estranho seria se eu conhecesse pessoalmente todos os funcionários — rebateu, mas sentiu o peso do olhar dele ainda sobre si. Queenie pigarreou, tentando dissipar a tensão crescente.
— Bom, isso confirma que ele estava infiltrado em algo. Talvez ele estivesse monitorando Grindelwald, ou até mesmo trabalhando para ele.
— Seja qual for a verdade, parece que ele sabia de algo importante. — Yusuf assentiu lentamente. — Mas acabou encontrando o Mapinguari no caminho. Será que haviam outros com ele? Podem ter aproveitado enquanto o bicho fazia um lanchinho e fugido.
— Então só há uma coisa a fazer: achar esse tal lugar antes que quem quer que estivesse com aquele homem o encontre e suma. — fechou a carteira e a entregou para Lally, que assentiu.
— Podemos tentar localizar mapas ou registros antigos que mencionem algo assim. Isso pode nos levar ao próximo passo.
— Então é melhor começarmos logo — Theseus disse, guardando a varinha do homem no bolso interno do casaco e pegando o bilhete das mãos de , que cruzou os braços, o encarando.
— Ah, então agora minhas pistas são úteis?
— Não enche, . — Ele revirou os olhos, a observando por mais um instante antes de soltar um suspiro contido. — Mas, só pra lembrar, eu ainda não confio completamente em você.
— Ótimo. Seria muito chato se fosse fácil demais. — deu um pequeno sorriso, se inclinando ligeiramente para ele, que apenas bufou, desviando o olhar, enquanto o grupo voltava à discussão sobre o bilhete. — Mas veja pelo lado positivo… a floresta realmente foi generosa com você.
— Eu não suporto você. — Theseus lançou-lhe um olhar afiado, enquanto apenas riu, voltando a caminhar pela trilha.
A luz do dia começava a se apagar, tingindo a floresta com tons alaranjados e sombras que se estendiam como dedos longos pelo chão coberto de folhas secas. O canto dos pássaros diminuía, dando lugar ao som distante de criaturas noturnas despertando. se afastou um pouco do grupo, observando ao redor com o cenho levemente franzido, como se procurasse algo entre as árvores. Theseus, que a observava de onde estava, notou a rigidez em seus ombros e como seus olhos percorriam a escuridão crescente com uma atenção quase instintiva. Mesmo sem sua varinha, que ainda estava sob posse dele, ela parecia alerta, como se esperasse que algo saltasse das sombras a qualquer momento.
— Vamos precisar acampar aqui — ela anunciou de repente, se voltando para os outros, e Theseus arqueou uma sobrancelha.
— E por que, exatamente?
— Porque quando o sol se põe, a floresta se torna um lugar bem mais… traiçoeiro. — Ela cruzou os braços, olhando diretamente para ele.
— Mais? Já não estava traiçoeiro o suficiente? — Jacob, que ainda tentava recuperar o fôlego da correria de mais cedo, soltou um riso nervoso.
— Ela tem razão. Além dos predadores naturais da floresta, algumas criaturas mágicas ficam mais ativas à noite. E se formos azarados o bastante, podemos acabar cruzando caminho com outro Mapinguari. — Newt, já observando atentamente os arredores, assentiu, e Jacob arregalou os olhos.
— Outro? Espera aí, você tá dizendo que aquele grandalhão nojento pode ter família por perto?
— Os Mapinguaris são caçadores noturnos. De dia, eles podem ser territoriais, mas quando anoitece… bom, é quando eles realmente saem à caça — Newt continuou, ainda olhando ao redor, e Queenie fez uma careta.
— Então talvez seja melhor não ficarmos perambulando por aí.
— É o que eu estou dizendo. — gesticulou com a cabeça para a área ao redor. — Se quisermos evitar nos tornar a janta de alguma coisa, precisamos acampar aqui e lançar proteções.
Theseus pareceu pouco convencido, mas Newt já começava a traçar um perímetro. Eulalie sacou sua varinha, murmurando feitiços de dissuasão ao redor do local escolhido, enquanto Yusuf e Queenie reforçavam a barreira mágica. permaneceu parada, os observando em silêncio, com as mãos presas atrás do corpo. Theseus notou quando o olhar dela desviou brevemente para ele, depois para o bolso do seu casaco, onde ainda mantinha a varinha dela, e, por um instante, um brilho de frustração passou por seus olhos, mas ela não disse nada.
— Isso deve ser o suficiente para passarmos a noite sem surpresas desagradáveis. — Newt soltou um suspiro satisfeito ao ver que a área estava segura, e lançou um último olhar para a floresta já escura entre as copas das árvores.
— Espero que sim.
— Se algo nos atacar no meio da noite, , eu vou jogar a culpa em você. — Theseus se sentou sobre um tronco caído, cruzando os braços, enquanto mantinha os olhos nela, e a moça apenas sorriu de canto.
— Você já joga de qualquer forma. O que é mais uma acusação? — Ele resmungou algo inaudível, desviando o olhar, enquanto o resto do grupo se acomodava para a noite que prometia ser longa.
A fogueira crepitava suavemente, lançando sombras dançantes nas árvores ao redor. O grupo estava espalhado pelo acampamento, aproveitando o raro momento de calmaria depois da perseguição mais cedo. Lally ajeitou os óculos ao folhear um pequeno caderno, enquanto Queenie brincava distraidamente com uma faísca mágica que fazia flutuar entre os dedos. Jacob, por outro lado, estava deitado de costas sobre a terra, as mãos atrás da cabeça e um suspiro cansado escapando de seus lábios.
— Eu só queria dizer que essa foi, oficialmente, a pior corrida da minha vida — ele resmungou, olhando para o céu estrelado.
— Pior que a vez em que você teve que correr daquela Erumpente? — Newt perguntou, com um meio sorriso, e Jacob abriu um olho e apontou um dedo para ele.
— Okay, talvez seja a segunda pior.
— Vamos ver depois que passarmos mais uma noite na floresta. Quem sabe você não ganha mais uma história para adicionar à lista? — perguntou, se sentando em um tronco caído.
— Ah, que ótimo, é exatamente isso que eu queria. — Jacob bufou, fazendo todos rirem.
pegou um pedaço de pão da sacola de mantimentos e o partiu ao meio antes de dar uma mordida, observando enquanto Newt ajeitava algo em sua maleta.
— Será que já temos intimidade o suficiente para eu perguntar o que tem aí? Sempre quis saber. — Ela apontou com a cabeça para o objeto marrom nas mãos do bruxo.
— Bem, tem algumas criaturas que carrego comigo. Quando tudo estiver mais calmo, não me importaria de te mostrar.
— Só tome cuidado para elas não fugirem novamente — Queenie brincou, e Newt deu um sorriso fraco.
— Bom, eu… preciso ir ao banheiro. — Jacob pigarreou, quebrando o momento, e e Queenie se entreolharam antes da loira revirar os olhos com um pequeno sorriso.
— Você sempre escolhe os piores momentos, Jacob.
— O que posso fazer? A natureza chama. — Ele deu de ombros, e, antes que qualquer um pudesse responder, Theseus se adiantou.
— Eu vou com você.
— Eu agradeço a preocupação, grandão, mas acho que dou conta sozinho.
— Não é questão de dar conta ou não. Quero fazer uma ronda pelo perímetro, e você não vai andar por aí sozinho. Nem por um minuto. — Theseus cruzou os braços, olhando ao redor antes de voltar a encará-lo.
— Tá bom, tá bom. Vamos logo, antes que eu mude de ideia.
Os dois se afastaram pela trilha pouco iluminada, deixando o resto do grupo ao redor da fogueira. acompanhou com o olhar até que as silhuetas deles sumissem entre as árvores, levantando a cabeça para observar os pássaros que levantavam voo das copas das árvores, como se tivessem sido perturbados por algo invisível. Pequenos vagalumes começaram a piscar ao redor do acampamento, suas luzes douradas flutuando entre os troncos, e, por um instante, tudo parecia calmo.

Calmo até demais.

— Isso sim é um verdadeiro luxo em meio a uma floresta traiçoeira. — Jacob suspirou, aliviado, enquanto terminava de esvaziar a bexiga atrás de um tronco. A poucos passos dele, Theseus caminhava devagar, os olhos atentos ao chão, como se estivesse avaliando cada detalhe ao redor.
— Se considerar que podemos ser atacados a qualquer momento, talvez não seja tão luxuoso assim.
— Você realmente sabe como acabar com a única parte boa dessa viagem. — Jacob bufou, ajeitando as calças, e Theseus ignorou o comentário, se mantendo em alerta.
Depois de alguns segundos, ele quebrou o silêncio:
— Você confia nela?
— Em quem?
.
— Bom, ela não tentou nos matar ainda, o que já é um bom sinal. — Theseus não riu. Seu olhar permaneceu fixo em algum ponto adiante.
— Não estou brincando.
— Olha, eu não sou um especialista em julgar caráter, mas… algo me diz que ela está do nosso lado. Não sei explicar, só sinto isso — Jacob constatou, mas ele não respondeu, apenas continuou a andar ao redor. — Não julgo você por ser cauteloso, mas eu acho que ela só quer ajudar.
Os dois seguiram de volta para o acampamento, enquanto a floresta ao redor ainda parecia inquieta, com os sons distantes de insetos e o ocasional farfalhar das folhas.
— Então, quais os planos para amanhã? — Jacob perguntou, cruzando os braços.
— Provavelmente teremos que sair da floresta e nos dividir para procurar mais informações sobre aquele bilhete e o dono dele — Theseus respondeu, ainda em tom de análise. — Alguns de nós podem tentar encontrar registros no Ministério, enquanto outros investigam possíveis locais que se encaixem na descrição.
— Você quer dizer que vamos voltar pra civilização? Com ruas, comida de verdade e, principalmente, camas?
— Temporariamente. — Theseus lançou um olhar de canto, mas Jacob parecia esperançoso demais para se importar.
O acampamento já estava à vista. A barreira mágica ao redor oscilava levemente, quase imperceptível, garantindo que nada do lado de fora os enxergasse. Assim que Theseus deu um passo à frente e adentrou o acampamento, se moveu rápido e segurou seu braço. Ele parou, surpreso, e encarou o rosto dela.
— Silêncio — ela sussurrou, os olhos fixos nele, os dedos apertando seu braço mais do que o necessário, e, por um instante, ele não conseguiu desviar o olhar.
Só então percebeu o que realmente estava acontecendo. não estava olhando para ele, mas além dele. Theseus se virou lentamente e viu o que a deixou tão tensa. Um brilho sinuoso cortava a floresta, como se o próprio fogo tivesse ganhado vida e estivesse deslizando entre as árvores. Ele se movia com uma fluidez hipnotizante, um calor espectral que não queimava, mas iluminava tudo ao redor. O Boitatá deslizava entre as árvores, seu corpo iluminado como uma chama viva, desenhando rastros dourados e azulados na vegetação ao redor. Ele não parecia agressivo, mas se movia como se estivesse farejando algo, tentando enxergar além da barreira mágica que protegia o acampamento.
— Não pode ser… — Newt se levantou de imediato, fascinado, mas atento. — Um Boitatá.
Jacob, que estava prestes a perguntar do que se tratava, apenas engoliu em seco ao ver a expressão de Queenie. Lally se inclinou ligeiramente para frente, observando a luz com fascínio, enquanto Yusuf segurava a varinha com mais força.
— Ele protege a floresta contra aqueles que a destroem — murmurou, ainda com os olhos fixos na luz ondulante. — Mas se achar que somos uma ameaça…
— Ah, claro, porque a floresta já não tinha criaturas suficientes tentando nos matar. — Theseus bufou baixinho, e o encarou com um olhar sério.
— Ele sente os invasores pelo cheiro e pelo som. Se ficarmos em silêncio, ele não vai nos ver e vai simplesmente passar.
O brilho intensificou-se por um instante, se espalhando ao redor do acampamento como se analisasse a área. Por um segundo, sentiu a respiração de Theseus prender ao lado dela, e sua própria pulsação acelerou. A chama viva passou perigosamente perto, iluminando os rostos do grupo por um instante antes de deslizar para a escuridão. O silêncio era absoluto, como se ninguém ousasse se mover até ter certeza de que a criatura tinha ido embora. Quando o brilho finalmente sumiu por completo entre as árvores, foi como se um peso invisível fosse retirado de seus peitos. Um por um, todos soltaram longas e silenciosas expirações, percebendo o quanto haviam prendido a respiração.
piscou algumas vezes, ainda sentindo a tensão em seus músculos. Foi só então que percebeu que sua mão ainda estava segurando o braço de Theseus. Seu olhar caiu para os próprios dedos, firmes sobre a manga do casaco dele, e ela rapidamente o soltou, como se tivesse sido queimada. Seu rosto esquentou levemente, e ela desviou o olhar antes que ele pudesse perceber.
— Olha, eu sei que o Brasil é lindo e tudo mais, mas eu vou precisar de umas férias depois disso. — Jacob quebrou o clima, soltando um suspiro exagerado.
Newt sorriu de leve, ainda observando onde o Boitatá havia sumido. Theseus desviou o olhar da escuridão e o pousou sobre , ainda sentindo o fantasma do toque dela em seu braço.
— Parece que suas pistas nos trouxeram para um caminho bem… iluminado — ele comentou, com um tom de provocação.
arqueou a sobrancelha, os lábios curvando-se em um pequeno sorriso.
— Não enche, Scamander. — E então, como se nada tivesse acontecido, ela se afastou, voltando a se sentar. — De nada por salvar sua vida… de novo.



O sol mal havia nascido quando despertou, sentindo o corpo levemente dolorido pelo tempo passado no chão duro da floresta. Piscando algumas vezes para ajustar a visão, ela percebeu o leve burburinho ao redor: o farfalhar de tecidos, o som de objetos sendo guardados e passos cuidadosos sobre a terra úmida. Erguendo-se sobre os cotovelos, ela olhou ao redor e viu que parte do grupo já estava de pé, ocupados em recolher os poucos pertences que haviam espalhado pelo acampamento improvisado. Newt verificava sua maleta com uma expressão concentrada, provavelmente conferindo se todas as criaturas estavam seguras. Queenie murmurava algo para Jacob enquanto dobrava um pano, e Theseus, como sempre, parecia atento a tudo ao seu redor, os olhos varrendo a floresta como se esperasse um ataque a qualquer momento.
passou uma das mãos pelo rosto, afastando o sono, e se levantou. Lally, que estava próxima, percebeu o movimento e se virou para ela com um pequeno sorriso.
— Bom dia. Dormiu bem?
— Considerando que a qualquer momento podíamos ser atacados por uma criatura mortal? Maravilhosamente — respondeu com sarcasmo, e Lally soltou um leve riso antes de apontar para um dos mapas abertos sobre uma rocha.
— Bom, se quiser um pouco de conforto e um teto sobre a cabeça, é melhor se apressar. Sei exatamente para onde devemos ir para sair dessa floresta e voltarmos à civilização.
— Tá, mas por que, exatamente, vamos seguir andando? — perguntou, e Newt ergueu os olhos de sua maleta, enquanto os outros também pararam para encará-la. — Podemos aparatar — ela continuou, dando de ombros. — Se fizermos isso em conjunto, eu posso levar a gente direto para o centro da cidade mais próxima.
A ideia parecia sensata, mas enquanto os outros ponderavam sobre a sugestão, Theseus cruzou os braços e lançou um olhar cético em sua direção.
— E se for uma armadilha? — ele questionou, a voz carregada de desconfiança, e soltou um suspiro audível, já esperando que ele fosse ser um problema.
— Certo, Scamander, me diz… qual seria meu grande plano? Te levar para o meio do oceano e te largar lá? Porque, sinceramente, me soa tentador.
— Eu só queria um café da manhã antes de mais uma briga — Jacob, ao fundo, murmurou, mas foi em vão, porque o auror já se aproximava de com um olhar desconfiado.
— Não é possível que vocês vão cair nessa. Yusuf, uma ajudinha aqui? — Theseus falou, sem tirar os olhos da mulher à sua frente, sabendo que o amigo era o mais racional de todos ali.
Yusuf suspirou, cruzando os braços enquanto analisava a situação. Ele não parecia completamente convencido, mas também não parecia descartar a ideia de imediatamente.
— Eu entendo a preocupação, Theseus, mas… a alternativa é andarmos por horas em uma floresta que claramente não quer a nossa presença. — Ele lançou um olhar significativo ao redor, como se esperasse que algo surgisse da mata a qualquer momento.
— Obrigada. — sorriu, satisfeita, mas Theseus não se deu por vencido.
— Isso não prova que ela não pode nos levar para um beco sem saída, ou pior.
revirou os olhos e deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles.
— Olha, eu entendo que você tem essa necessidade constante de controlar tudo, mas talvez, só talvez, seja hora de confiar em alguém que conhece melhor esse lugar. — Ela inclinou levemente a cabeça, o desafiando com o olhar. — Ou prefere arriscar e encontrar outro Mapinguari pelo caminho?
Theseus sustentou o olhar por um momento, a mandíbula travada em frustração. Ele sabia que ela tinha razão, e isso só tornava tudo mais irritante.
— Se alguma coisa der errado…
— Pode me prender pessoalmente. — sorriu de lado, levantando as mãos em rendição. — E, caso te faça sentir mais seguro, pode amarrar minhas mãos.
Theseus exalou pelo nariz, fechando os olhos por um instante antes de finalmente ceder.
— Tudo bem. — Ele observou a mulher estender as mãos em sua direção e as amarrou novamente.
— Ótimo! Agora todo mundo dá as mãos.
Os membros do grupo começaram a se posicionar, formando um círculo. Theseus segurou a mão de Newt com naturalidade, mas hesitou antes de pegar a de . Ela notou e ergueu uma sobrancelha.
— Você quer que eu assine um contrato garantindo que não vou te matar?
— Só nos leve logo para a cidade. — Ele bufou, mas finalmente entrelaçou os dedos aos de , sua mão quente e firme contra a dela.
No instante em que o toque se fechou, sentiu um arrepio subir por sua espinha, uma corrente elétrica que percorreu seu corpo em um segundo. Foi involuntário, inesperado, e completamente irritante. Mas ela não demonstrou. Apenas respirou fundo, mantendo a expressão indiferente, enquanto se preparava para aparatar. E então, com um movimento firme, girou sobre si mesma, levando todos consigo. O impacto da aparatação foi imediato. O mundo girou por um instante antes que o grupo sentisse o chão sólido sob os pés novamente. Jacob, no entanto, não teve tanta sorte.
— Eu odeio isso… — ele gemeu, segurando o estômago, enquanto se curvava levemente, tentando se recompor.
— Respire fundo, Jacob. O enjoo passa logo. — Lally tentou tranquilizá-lo, dando leves tapinhas em suas costas.
Os outros, no entanto, já estavam absorvendo o novo cenário ao redor. O lugar era vibrante, um contraste gritante com a floresta densa e perigosa de onde tinham vindo. As ruas eram movimentadas, repletas de pessoas que pareciam diferentes umas das outras. As roupas eram um espetáculo à parte, cheias de cores vivas, tecidos leves e padrões únicos. Havia magia por toda parte, escondida sutilmente dos olhos trouxas, mas perceptível para aqueles que sabiam onde olhar. observava a cena com familiaridade, mas, ao se virar para os outros, viu os olhares curiosos, e completamente deslocados, que lançavam ao redor. Os Scamander estavam vestidos em seus característicos casacos pesados, Yusuf e Lally usavam roupas formais demais para o clima, e Queenie chamava atenção de um jeito que não deveria.
— Temos que mudar esses trajes. — Ela suspirou, estendendo os braços para que Theseus tirasse as amarras, e assim ele o fez.
— Eu gosto do meu casaco — Jacob comentou, franzindo a testa ao olhar para si mesmo.
— Sim, e eu também gostaria de não ser presa por andar com um monte de espiões estrangeiros vestidos como se saíssem de um jornal britânico — rebateu, estreitando os olhos. — Theseus já quer me matar, então não me deem mais problemas.
— Ele quer matar todo mundo — Jacob murmurou, já um pouco mais recuperado.
— Não é verdade — Theseus protestou, mas o olhar de dizia que ela não estava muito convencida. — E como exatamente você sugere que façamos isso?
Ela os observou da cabeça aos pés. De fato, um grupo de pessoas vestindo roupas gastas de viagem e capas longas chamava bastante atenção, mesmo em meio à agitação do centro.
— Eu conheço um lugar — enfim disse, balançando a cabeça. — Mas vocês vão ter que confiar em mim.
— Começamos bem. — Theseus suspirou pesadamente.
— Bom, então sigam-me. — Ela indicou com a cabeça, já caminhando entre as ruas agitadas.
O grupo hesitou por um momento antes de segui-la, trocando olhares entre si. Theseus ainda mantinha a expressão cautelosa, enquanto Newt parecia absorver cada detalhe ao redor, atento às pequenas peculiaridades do lugar. Diferente do mundo bruxo na Europa, onde a magia era cuidadosamente separada da vida dos não-mágicos, ali tudo parecia se misturar de uma forma mais sutil, quase natural. andava com confiança pelo meio das pessoas, desviando habilmente de feirantes, vendedores ambulantes e até de um garoto que brincava com um pião encantado. O grupo tentou acompanhá-la, mas não era tão fácil. Jacob quase tropeçou em um senhor que carregava uma bandeja com pequenos frascos coloridos, e Queenie teve que puxá-lo pelo braço antes que derrubasse tudo.
— Eu já disse que preciso de um café antes de qualquer coisa? — ele resmungou, tentando recuperar o equilíbrio.
Após alguns minutos de caminhada, parou diante de um prédio grande e rústico, sua fachada de madeira escura e janelas altas se misturando bem com os edifícios ao redor. O letreiro acima da entrada era discreto, quase imperceptível para olhos desatentos. O grupo se reuniu ao redor dela, observando a construção com expressões curiosas.
— É uma hospedaria para bruxos que chegam de outras partes do mundo. Não é muito chamativa, o que é ótimo para nós agora.
— E você tem certeza de que podemos confiar nesse lugar? — Theseus estreitou os olhos, ainda desconfiado, e soltou um suspiro dramático, colocando as mãos na cintura.
— Eu confio mais nesse lugar do que em qualquer um de vocês, para ser bem sincera.
Queenie abafou um riso, enquanto Newt apenas arqueou uma sobrancelha, interessado na hospedaria. Theseus, por sua vez, apenas fechou a cara, soltando um suspiro impaciente.
— Certo. Então vamos logo com isso.
— Sejam bem-vindos à Casa dos Ventos.
As portas da hospedaria se abriram para revelar um ambiente acolhedor, iluminado por candelabros encantados que flutuavam pelo salão principal. O cheiro de café recém passado e pão de queijo quente pairava no ar, e o som de risadas e conversas preenchia o espaço. O lugar era rústico, mas convidativo, com móveis de madeira escura e tapeçarias coloridas pendendo das paredes. Diferentes bruxos ocupavam as mesas espalhadas pelo salão, alguns vestidos como viajantes, outros com trajes típicos de diferentes partes do Brasil.
Antes que a brasileira pudesse dizer qualquer coisa, uma voz animada ecoou pelo espaço, falando uma língua que ninguém do grupo, exceto Lally e , conseguia entender:
— Mas veja só quem resolveu aparecer! — Um homem de cabelos cacheados e sorriso largo surgiu do balcão, limpando as mãos no avental antes de caminhar apressado na direção de . Ele abriu os braços e a puxou para um abraço forte, a erguendo do chão por um instante. — Até que enfim deu as caras, !
— Se soubesse pelo que passamos nas últimas vinte e quatro horas, não estaria me tratando assim. — Ela riu, dando um tapa de leve no ombro dele assim que ele a soltou.
— Ora, mas é claro que estaria. — O homem sorriu, antes de dar um passo para trás e olhar os outros com curiosidade, analisando as vestimentas de cada um. — E quem são seus amigos? Ingleses, eu suponho.
— Exatamente. Esses são Newt, Jacob, Queenie, Yusuf, Lally e Theseus. — indicou o grupo com um gesto casual.
— Sou Caio, atual dono deste lugar. Meu pai e a família da sempre foram muito próximos, então essa garota vive entrando e saindo daqui como se fosse dona do pedaço.
— Ei! — protestou, cruzando os braços. — Exagerado.
— É verdade. — Ele piscou para ela, antes de olhar para os outros. — Mas fiquem tranquilos, vocês são bem-vindos. E tenho certeza de que estão morrendo de fome.
— Finalmente, um homem que entende o que realmente importa! — Jacob exclamou, aliviado, fazendo os outros rirem. Caio riu também e estalou os dedos, chamando um dos funcionários.
— Prepara uma mesa com comida para os nossos hóspedes.
Enquanto o grupo seguia para uma das mesas, Theseus observava a interação entre e Caio com um olhar curioso. Havia algo na forma como o brasileiro falava com ela, na maneira como ele sorria sem qualquer hesitação e a tratava com uma familiaridade descontraída que Theseus não estava acostumado a ver.
A mesa estava repleta de pratos coloridos, exalando aromas que fizeram Jacob suspirar de alívio ao ver que, finalmente, teria uma refeição decente.
— Isso sim é hospitalidade — ele murmurou, antes de dar a primeira mordida em um pão de queijo, fechando os olhos com satisfação.
— Se tem uma coisa que nunca vai faltar aqui, é comida boa. — riu, pegando um pedaço de pão e passando uma generosa camada de manteiga.
Os outros se acomodaram aos poucos, experimentando os pratos que lhes eram servidos. Newt tentava descobrir os ingredientes, enquanto Queenie sorria, divertida com a empolgação dele.
— Theseus, prova esse aqui — Caio sugeriu, empurrando um prato na direção do auror, que até aquele momento não havia tocado em nada. Theseus ergueu uma sobrancelha, hesitante, mas, sob o olhar desafiador de , pegou um pedaço e mastigou lentamente.
— É… muito bom — admitiu, fazendo o amigo dela rir.
— Viu só? Não é só você que sabe das coisas, Scamander. — apoiou o cotovelo na mesa e o rosto na mão, sorrindo.
— E agora? — Yusuf perguntou, voltando a focar no que importava. limpou a boca com um guardanapo antes de responder.
— Temos que nos dividir. Theseus, você trabalha no Ministério, não é? — perguntou, e o bruxo assentiu com a cabeça. — Então eu, você e Newt podemos ir até lá para procurar informações sobre o cara que encontramos na floresta. Queenie, Jacob, Lally e Yusuf podem começar a procurar informações sobre aquele bilhete, e depois nos encontramos aqui.
— E desde quando você dita os planos? — Theseus cruzou os braços, cético.
— Tem algum plano melhor? — ela perguntou, o esperando protestar, mas o bruxo permaneceu calado. — Ótimo, faremos assim então.
— O que nos garante que você não está nos levando para uma armadilha? Quer dizer, quando Grindelwald estava começando a ganhar poder anos atrás, havia apoiadores dele infiltrados no Ministério.
soltou um suspiro, se recostando na cadeira com uma expressão cansada, mas mantendo o olhar fixo em Theseus.
— Se eu quisesse entregar vocês, já teria feito isso há muito tempo — ela disse, cruzando os braços. — Mas entendo sua preocupação. Se você não confia em mim, confie no seu irmão. Você acha que eu levaria Newt para uma armadilha?
Theseus apertou os lábios, sem resposta imediata. Ele queria discordar, queria rebater com alguma acusação, mas sabia que Newt não teria aceitado o plano se tivesse sequer um sinal de perigo vindo dela. Ainda assim, não gostava da ideia de seguir alguém que ele mal conhecia.
— Certo, então partimos para o Ministério — Newt interveio, tentando dissipar a tensão. — Quanto menos tempo perdermos, melhor.
— Tá, mas como vamos arranjar roupas novas e identidades desconhecidas? — Theseus perguntou, se recostando na cadeira, e deu de ombros.
— Bem-vindo ao Brasil, Scamander. Se tem uma coisa que a gente sabe fazer bem, é dar um jeito. — Ele apenas a observou por um instante antes de balançar a cabeça, ainda assimilando aquela nova realidade. — Me sigam.
Ela os guiou até uma parte reservada da hospedaria, onde uma pequena loja de vestimentas mágicas funcionava no andar de cima. O lugar era apertado, mas as araras estavam cheias de roupas vibrantes e confortáveis, bem diferentes dos pesados sobretudos e trajes formais que eles usavam. Lally pegou um vestido leve com detalhes bordados e sorriu.
— Bem melhor do que minha roupa de viagem — ela comentou, já indo até um provador para se trocar.
Queenie correu os dedos por uma blusa de tecido fino e colorido, a analisando com um brilho curioso nos olhos.
— Adorei isso aqui — ela comentou, antes de pegar um par de brincos chamativos e um lenço para o cabelo.
Enquanto isso, Jacob observava Theseus e Yusuf hesitarem diante das opções.
— Vamos lá, pessoal. Não tem nada aí no gosto de vocês?
— Eu só estou escolhendo com cuidado — Theseus respondeu, pegando uma camisa de linho clara e uma calça de tecido leve.
— Que tal essa? Vai combinar com sua personalidade rabugenta. — ergueu uma sobrancelha, segurando uma peça estampada e a erguendo na direção dele.
Theseus revirou os olhos e pegou a própria escolha sem dar atenção a ela, observando Jacob segurando uma camisa parecida com a que sugerira.
— Na verdade, essa daqui parece bem confortável… — o padeiro comentou, e Theseus soltou um suspiro, sem querer prolongar o assunto.
Depois de alguns minutos, todos estavam prontos, vestindo roupas bem mais adequadas ao calor do Brasil. Queenie ajustava o lenço no cabelo, enquanto Lally admirava os detalhes do tecido de seu vestido. também reapareceu com uma nova roupa. Seu vestido era longo e leve, feito de um tecido fresco que se ajustava perfeitamente ao seu corpo, realçando suas curvas brasileiras com naturalidade. As alças finas deixavam seus ombros à mostra, e o movimento do tecido conforme ela andava adicionava um charme despreocupado. Theseus notou a mudança por um segundo a mais do que gostaria, mas logo desviou o olhar, focando em ajustar as mangas da própria camisa. , por sua vez, percebeu o olhar do auror, mas não disse nada, apenas abriu um pequeno sorriso antes de se virar para os outros, os analisando com um olhar crítico, e então assentiu.
— Agora sim, vocês não parecem que acabaram de chegar de um funeral.
— E você não parece alguém confiável — Theseus retrucou, com um sorriso cínico, e apenas devolveu o sorriso, seguindo para o salão principal novamente e se despedindo de Caio.
— Cuidado — ele disse num tom baixo, dando um leve aperto em seu ombro ao passar, e sorriu de canto, acenando com a cabeça.
Theseus observou a troca, sentindo aquela estranheza outra vez. Será que todos os brasileiros se tratavam assim, ou os dois eram mais que apenas amigos? Não que se importasse, é claro. Ele respirou fundo e pegou seu próprio casaco. Ainda não confiava completamente em , mas, por ora, não tinha escolha.

Era hora de conhecer o Ministério da Magia do Brasil.



os guiou pelas ruas movimentadas do centro, se misturando à multidão com a facilidade de quem conhecia aquele lugar como a palma da mão, enquanto os irmãos Scamander seguiam logo atrás, atentos a cada detalhe. Theseus mantinha seu olhar afiado, analisando o caminho que percorriam, enquanto Newt parecia mais interessado nos pássaros coloridos que voavam entre os prédios e nas pequenas manifestações de magia disfarçadas entre os pedestres. Depois de um tempo caminhando, os três deixaram as ruas mais agitadas e entraram em uma área cercada por verde. A trilha de pedras os levou até a entrada de um grande palacete com uma arquitetura europeia imponente, cercado por jardins bem cuidados e um aqueduto de pedras ao fundo.
— Não me diga que o Ministério é aqui? — Theseus ergueu uma sobrancelha quando parou em frente à estrutura.
— Bem-vindos ao Ministério da Magia dos Estados Unidos do Brasil.
Newt olhou ao redor, encantado. O lugar era belíssimo, mas, por fora, parecia apenas um prédio histórico comum, nada que denunciasse a existência de magia. No entanto, ao observarem melhor, perceberam pequenos detalhes sutis: estátuas que se moviam discretamente, fontes que murmuravam em uma língua desconhecida e até mesmo pavões de penas azul-esverdeadas que, ao se agitarem, desapareciam no ar por um breve momento antes de reaparecerem.
— Ele fica escondido sob o Parque Lage — a bruxa explicou. — O prédio que vocês estão vendo é apenas a fachada. O verdadeiro Ministério fica no subterrâneo, se expandindo muito além do que vocês imaginam.
— Como entramos? — Theseus cruzou os braços, ainda desconfiado, e ela se virou em sua direção, estendendo a mão.
— Se não for pedir muito, vou precisar da minha varinha.
Ele a encarou, hesitante. Sabia que aquele momento chegaria, mas isso não significava que gostava da ideia. Ainda não confiava totalmente nela.
— Você já está cercada de magia suficiente. Precisa mesmo dela agora?
— Preciso, sim. Ou quer que eu bata na porta e peça com gentileza para nos deixarem entrar?
Newt observava a troca em silêncio, sabendo que era melhor não se envolver. Até porque, seu irmão era teimoso, mas também não era burro. Com um suspiro pesado, ele finalmente puxou a varinha de dentro do casaco e a colocou na mão dela, com relutância.
— Se tentar algo, eu…
— Eu sei, eu sei… — o cortou, segurando a varinha com familiaridade. — Vou cair morta antes de conseguir terminar um feitiço. — Sorriu de canto, fazendo um gesto despreocupado com a mão. — Agora, venham. — Ela se aproximou do arco da entrada principal, onde havia uma placa de mármore com inscrições antigas. Com um toque suave da varinha, as letras brilharam em dourado e, então, como se o próprio ar se dissolvesse, um portal translúcido se formou à frente deles. — Depois de vocês, senhores.
Newt, sempre curioso, foi o primeiro a atravessar. Theseus hesitou um instante a mais antes de segui-lo, sentindo um leve arrepio ao passar pela barreira mágica. O saguão subterrâneo do Ministério era impressionante. O teto encantado refletia a luz do sol que entrava por aberturas mágicas entre as pedras, criando um efeito dourado pelo ambiente. As paredes eram enfeitadas com murais encantados que mostravam cenas da história mágica do Brasil, desde os primeiros bruxos indígenas até a fundação do próprio Ministério. O local era movimentado, com funcionários vestindo túnicas de cores vibrantes, algumas com detalhes de penas e tecidos típicos. Haviam áreas distintas para diferentes departamentos, conectadas por escadas sinuosas e elevadores mágicos que se deslocavam sem trilhos aparentes.
deu poucos passos antes de ser interceptada por um bruxo alto, de cabelos grisalhos, que a olhou com surpresa.
— Agente , você não estava de férias? — ele perguntou em português, o tom levemente surpreso.
Os outros dois trocaram um olhar rápido, sem entender uma palavra do que estava sendo dito. Theseus franziu a testa, atento ao jeito como conversava com o homem. Sua postura era firme, mas relaxada, como se estivesse acostumada àquele ambiente. Mas o que o incomodou, mais do que ele estava disposto a admitir, foi o som da voz dela falando português. O idioma era rápido, melódico de um jeito quase hipnotizante, e ele percebeu que seus olhos ficaram presos nos lábios dela por tempo demais.
— Sim, só estou mostrando o Ministério onde trabalho para meus primos do exterior. — Ela apontou com a cabeça para os irmãos Scamander, que, sem entenderem nada, apenas sorriram para o homem, que os analisou por um momento, dando de ombros logo em seguida.
— Entendi. Bom, aproveite sua folga. E bem vindos ao Brasil, senhores. — Ele acenou brevemente antes de seguir seu caminho.
— O que você estava falando com ele? — Theseus perguntou, assim que ficaram sozinhos novamente.
— Falei que vocês eram meus primos do exterior e estava mostrando o local onde trabalho para vocês — ela respondeu simples, e o auror estreitou os olhos, a fazendo erguer uma sobrancelha, divertida. — Por quê? Preferia que eu dissesse que vocês são meus tios-avôs? — Newt riu baixo, e Theseus bufou, ajustando a postura.
— Vamos logo com isso.
Depois de andarem mais um pouco, se virou para os dois, apontando para um dos corredores.
— Me esperem aqui. Vou pegar algumas coisas na minha sala e já volto.
— Não demore muito.
— Não aguenta ficar tanto tempo sem mim, Scamander?
— Só não quero que se perca e acabe precisando da minha ajuda. — Theseus soltou um riso curto, inclinando ligeiramente a cabeça enquanto a observava.
— Ah, claro… — cruzou os braços, fingindo consideração. — Porque eu sou a forasteira aqui, não você.
— Exato — ele respondeu com um tom leve, mas ainda assim carregado de sarcasmo, e apenas riu, balançando a cabeça antes de se afastar.
— Até já, senhor “eu sempre sei o que fazer”.
Ele apenas a observou desaparecer pelo corredor, o sorriso permanecendo por mais tempo do que deveria, voltando à realidade ao escutar um suspiro vindo do irmão, que parecia um pouco inquieto.
— O que foi? — perguntou, erguendo uma sobrancelha, e Newt hesitou por um instante antes de responder.
— Dumbledore me mandou um recado. Ele precisa que eu resolva algo em outro setor do Ministério.
— Que tipo de algo?
— Nada preocupante. Pelo menos, eu acho. Mas é algo que só eu posso resolver.
Theseus soltou um suspiro resignado, já prevendo que não adiantaria tentar argumentar.
— Certo. Mas e quanto a mim?
— Você fica aqui e espera ela — o magizoologista respondeu, já estendendo a mão com Pickett, o Tronquilho, que logo escalou a manga do casaco de Theseus e se acomodou em seu ombro. — E toma conta do Teddy para mim.
Ele olhou para o pequeno Pelúcio preto, que espiava de dentro do bolso do irmão com aqueles olhinhos brilhantes e inocentes — até encontrar alguma coisa valiosa para roubar.
— Você só pode estar brincando.
— Ele gosta de você.
— Ele gosta de qualquer coisa que brilhe.
— Mesmo assim, o mantenha por perto.
— Isso não me parece justo. — Theseus suspirou, sentindo o pequeno peso do Pelúcio ser colocado em sua mão, e Newt apenas sorriu de leve.
— Você consegue lidar com a , não é?
— Eu lido coisas piores todos os dias.
— Bem… — Não parecia convencido, mas aceitou. — Nos encontramos assim que eu terminar. — O mais velho assentiu, e Newt deu um último olhar para ele antes de se afastar pelo corredor oposto ao que havia seguido. — Tenha cuidado.
— Você também.
E então Theseus se viu sozinho… ou pelo menos tão sozinho quanto se pode estar quando se tem um Tronquilho se agarrando ao seu colarinho e um Pelúcio tentando abrir seu próprio bolso para se esconder. voltou alguns minutos depois, com um olhar ligeiramente desconfiado ao vê-lo sozinho no mesmo lugar onde deixara os dois irmãos.
— Cadê o Newt?
— Foi resolver algumas coisas e depois nos encontra. — Theseus ajeitou a blusa, respondendo com naturalidade.
— Que coisas? — Ela estreitou os olhos, claramente insatisfeita com a resposta.
— Coisas dele.
— Você poderia ser um pouco menos vago.
— Eu poderia — Theseus admitiu, dando de ombros.
revirou os olhos e decidiu que não valia a pena insistir. Foi então que seus olhos pousaram na pequena criatura aninhada na mão dele.
— O que é isso? — perguntou, encantada, enquanto Theseus erguia a mão um pouco, e Teddy soltou um bocejo preguiçoso, exibindo sua língua rosada.
— Um Pelúcio, o nome dele é Teddy.
— Posso segurá-lo? — O olhar dela se iluminou, e ele deu de ombros.
— À vontade.
pegou o pequeno Pelúcio com cuidado, observando fascinada enquanto ele se acomodava entre suas mãos.
— Ele é adorável!
— Depende do ponto de vista.
— Como assim?
Theseus não respondeu. Apenas observou enquanto ela acariciava a criatura com carinho, o segurando contra o peito, enquanto eles começavam a caminhar. Um sorriso involuntário surgiu em seu rosto ao vê-la quase derretendo pelo bichinho. Apesar de tudo, precisava admitir: Teddy era extremamente fofo. Foi então que ele notou o brilho nos olhinhos atentos do Pelúcio, que esticou uma das patinhas discretamente, indo em direção ao colar que pendia no pescoço de . Theseus reprimiu um riso.
— Eu não faria isso se fosse você.
— O quê? — olhou para ele, sem entender.
— Você confiaria sua bolsa a um ladrão?
— Do que você está falando? — Antes que ele pudesse responder, ela sentiu um puxão no pescoço e olhou para baixo no exato momento em que Teddy tentava arrancar seu colar. — Ei! — Theseus soltou um riso baixo, enquanto afastava o pequeno ladrão com uma expressão indignada. — Você podia ter avisado que ele era cleptomaníaco!
— Ah, mas onde estaria a graça nisso?
— Você me paga, Scamander. — Ela estreitou os olhos, apontando um dedo para ele, que sorriu, inclinando a cabeça de lado.
— Eu vou aguardar ansiosamente.
apenas resmungou algo em português que ele não entendeu, voltando a segurar Teddy com mais firmeza. Os dois (ou quatro) continuaram andando pelo corredor do Ministério, a movimentação de bruxos ao redor tornando-se apenas um ruído de fundo. Ela ainda segurava Teddy contra o peito, lançando olhares de advertência para o pequeno Pelúcio, como se desconfiasse de qualquer movimento repentino dele.
— Você tem sorte de ser fofo — murmurou, e Theseus sorriu de canto.
— Isso vale para o Pelúcio ou para mim?
— Você realmente se acha muito, né? — parou por um segundo, sequer se dando o trabalho de olhá-lo.
— Apenas constatei um fato. — Ele deu de ombros, mantendo a expressão impassível, e ela soltou uma risada seca, balançando a cabeça.
— Seu ego deve ser do tamanho do oceano Atlântico.
— Bom, se for, eu diria que você já está se afogando nele.
revirou os olhos e acelerou o passo, como se preferisse encerrar o assunto antes que perdesse a paciência. Foi então que Theseus franziu o cenho, reparando em algo.
— Trocou de roupa de novo?
— Sim? Tenho que parecer mais apresentável ao adentrar outros departamentos do Ministério.
— Hum.
— Hum o quê?
— Nada, só uma observação — respondeu, como se o assunto nem fosse importante, e ela continuou o encarando por um segundo, desconfiada, antes de bufar.
— Você me irrita.
— Estou apenas devolvendo, querida. — O auror pôs um sorriso cínico no rosto, observando revirar os olhos com impaciência, apesar de, por um instante, perceber um leve brilho de divertimento em seus olhos. Theseus se inclinou levemente para o lado, cruzando os braços, como se estivesse apenas avaliando a reação dela. — Interessante… — murmurou, fingindo refletir. — Tenho a sensação de que já ouvi essa frase antes. Ah, claro… — Bateu os dedos contra o próprio queixo, como se tivesse acabado de se lembrar. — Você disse isso na noite em que eu te capturei.
arqueou a sobrancelha, cruzando os braços também.
— Que memória incrível. Você deveria usá-la para algo útil, como, sei lá… parar de encher a droga do meu saco.
— Mas que graça teria nisso?
lançou um olhar de advertência, mas Theseus parecia inabalável, caminhando ao lado dela como se não tivesse acabado de testar sua paciência. Teddy, ainda nos braços da mulher, tentava outra investida contra o colar, a fazendo soltar um suspiro exasperado.
— O que eu faço pra ele parar de tentar me roubar? — perguntou, desviando o rosto quando o bichinho tentou, mais uma vez, alcançar seu colar, enquanto Theseus a observava com um semblante claramente debochado.
— Você é uma agente experiente, tenho certeza de que pode lidar com um pequeno larápio.
estreitou os olhos para ele, já esperando mais uma provocação, mas, antes mesmo que ele pudesse dizer qualquer coisa, pegou um pequeno enfeite dourado que decorava a parede ao lado e o estendeu para o Pelúcio.
— Vamos fazer um trato — disse, olhando diretamente para Teddy. — Eu te dou uns presentinhos e você deixa minhas joias em paz, certo?
Theseus cruzou os braços, pronto para zombar da cena, mas sua provocação morreu antes mesmo de ser dita. Para sua surpresa, Teddy, por mais que não pudesse falar, pareceu considerar a proposta e, em seguida, pegou o objeto com suas pequenas garras, o guardando no bolso em sua barriga como um verdadeiro tesouro recém-adquirido. Depois disso, simplesmente se acomodou na mão de , satisfeito. Ela sorriu, lançando um olhar vitorioso para o auror.
— O que dizia mesmo?
Theseus observou a cena por um segundo a mais do que deveria. segurava a bolinha preta com facilidade, um sorriso satisfeito no rosto, e o pequeno Pelúcio parecia genuinamente confortável em suas mãos, como se tivesse encontrado uma nova cúmplice para seus pequenos delitos.
— Estou impressionado — admitiu, relutante. — Não sei como você conseguiu isso, mas parabéns.
Se Newt visse aquela cena, certamente ficaria surpreso. Teddy roubava qualquer coisa minimamente brilhante que visse pela frente, mas ali estava ele, sentado confortavelmente nas mãos de sem sequer tentar furtar mais nada.
— Eu sou cheia de truques. — Ergueu o queixo com uma expressão convencida.
— Isso eu já percebi. Melhor agora?
— Quase… — Ela inclinou levemente a cabeça, fingindo pensar.
— O que falta?
— Você desaparecer.
— Você fala isso, mas foi quem sugeriu que eu viesse até aqui.
— E me arrependo a cada minuto.
— Ah, não se faça de difícil, … Acho que na verdade é você quem não aguenta ficar tanto tempo sem mim.
— Você acha que eu sentiria sua falta?
— Estou apenas analisando o que foi dito.
— Então analise melhor.
— Estou analisando perfeitamente.
suspirou, massageando as têmporas, mas Theseus não deixou de notar o pequeno sorriso escondido no canto de sua boca. Era sutil, quase imperceptível, mas estava lá.
O corredor do Ministério da Magia dos Estados Unidos do Brasil era movimentado, mas os dois seguiam em um ritmo firme, ignorando os olhares curiosos lançados a eles. O Departamento de Execução das Leis da Magia estava logo à frente, com suas portas imponentes e um brasão mágico brilhando sutilmente na madeira escura. Porém, antes que chegassem até lá, agarrou Theseus pelo pulso e, sem aviso, o puxou para um espaço estreito entre duas colunas, onde a iluminação era mais fraca e o fluxo de pessoas não chegava. O auror se paralisou por um instante. Eles estavam muito perto. Perto o suficiente para que ele sentisse a respiração dela contra sua pele e notasse o brilho sutil dos olhos castanhos. O perfume que ela usava, um aroma amadeirado com um leve toque cítrico, parecia envolver o pouco espaço entre eles.
— Por que fez isso? — Piscou rapidamente, se recompondo, sua voz saindo mais baixa do que pretendia.
, alheia ao efeito que sua proximidade parecia ter nele, abriu a bolsa e guardou Teddy lá dentro com cuidado. Em seguida, puxou um pequeno objeto de couro surrado e ergueu para que ele visse. A carteira de Marcos Vasconcelos.
— E o que exatamente isso tem a ver com o fato de estarmos apertados nesse espaço minúsculo? — Theseus estreitou os olhos, a analisando antes de voltar a encará-la, e umedeceu os lábios, hesitando por um segundo antes de finalmente dizer.
— Eu não fui totalmente honesta com vocês.
O auror manteve o olhar fixo nela, mas, sem perceber, seus olhos desviaram por um instante para sua boca. Ele soltou um suspiro, um meio sorriso irônico surgindo.
— Não me diga.
— O Ministério daqui está comprometido… — revirou os olhos e continuou quando Theseus franziu a testa em resposta. — A infiltração de Grindelwald vai além do que vocês imaginam. Vicência começou a suspeitar que haviam agentes dentro do próprio Ministério trabalhando para ele. Então, secretamente, ela montou um grupo especial de agentes de confiança para investigá-los. Eu sou uma delas. — Ele não disse nada por um momento. Apenas a observou, tentando encontrar alguma hesitação em seu rosto, algum sinal de mentira ou exagero. Mas não encontrou. — Algumas das pessoas ali dentro… — ela inclinou a cabeça na direção da porta do departamento — são infiltrados. Seguidores de Grindelwald. — O auror finalmente desviou o olhar para a entrada da sala, onde alguns bruxos conversavam casualmente, como se fossem apenas funcionários comuns. Mas agora, com essa nova informação, a situação parecia diferente. — Se entrarmos ali e dermos um passo errado, eles vão nos descobrir — completou, e Theseus apertou os lábios, absorvendo tudo e soltando um suspiro baixo.
— Ótimo. Porque eu realmente estava achando que esse dia estava fácil demais.
— Provavelmente eles já sabem do desaparecimento e, eu não duvido, que até da morte de Marcos. Ou seja, qualquer passo em falso pode levantar suspeitas. O plano é entrarmos no departamento sem chamar atenção, ir até a sala dele e ver o que encontramos.
Theseus assentiu, mas a verdade era que, naquele momento, sua atenção não estava exatamente no que ela dizia. Seus olhos percorriam os detalhes de seu rosto conforme ela falava. O formato dos lábios, a forma como os olhos brilhavam sob a pouca luz, a maneira como seu nariz franzia levemente quando estava focada. Foi só quando estalou os dedos que ele piscou, puxado de volta para a conversa.
— Tá prestando atenção no que eu tô falando?
Theseus limpou a garganta, desviando o olhar.
— Claro — respondeu rapidamente, ajeitando a postura. — Entrar no departamento, sermos discretos, procurar pistas… Alguma outra ordem, chefe?
arqueou a sobrancelha, desconfiada, mas, antes que ele pudesse perguntar o que ela estava fazendo, ergueu a varinha.
— Antes de qualquer coisa… — Com um movimento preciso, sua blusa descontraída se transformou em uma camisa social perfeitamente ajustada, e uma gravata surgiu ao redor de seu pescoço.
— O que diabos…
— Perfeito — murmurou, ignorando sua indignação enquanto estendia as mãos para ajeitar a gravata. Foi um gesto simples, mas Theseus sentiu o corpo enrijecer no mesmo instante. O cheiro dela estava ainda mais próximo, e os dedos roçaram levemente o tecido sobre seu peito enquanto ela alinhava o nó da gravata com precisão. Ele engoliu em seco, sem entender por que, exatamente, aquilo o deixava tão tenso. , por outro lado, parecia completamente à vontade quando deu um passo para trás e avaliou o trabalho com um aceno satisfeito. — Agora vamos logo, antes que você fique distraído de novo. — Theseus soltou um suspiro discreto, passando os dedos pela gola como se pudesse apagar a sensação da proximidade dela.
Eles caminharam pelo corredor do Departamento de Execução das Leis de Magia, tentando parecer o mais naturais possível. As paredes eram forradas com painéis de madeira escura e fileiras de escrivaninhas ocupavam grande parte do salão, onde bruxos e bruxas trabalhavam, analisando relatórios ou conversando em tons baixos. Ainda assim, o ambiente não era tão rígido quanto o Ministério Britânico. Alguns funcionários lançaram olhares curiosos para os dois recém-chegados, mas ninguém os impediu de seguir em frente. manteve o olhar fixo à frente, ignorando qualquer atenção indesejada.
— Estamos chamando um pouco de atenção — o bruxo murmurou ao seu lado.
— É porque você anda como se estivesse prestes a prender alguém — respondeu sem olhar para ele, e Theseus fez uma careta, mas ajustou o semblante para algo mais neutro.
Quando chegaram à porta da sala de Marcos Vasconcelos, puxou a varinha discretamente e murmurou um Alohomora. Nada aconteceu. Ela franziu a testa e tentou de novo. A porta sequer tremia.
— Bloqueio mágico — Theseus constatou, cruzando os braços. — Não é qualquer feitiço que vai abrir isso.
— Ótimo. E agora?
— Bom… — O auror suspirou e enfiou a mão no bolso do casaco, retirando um pequeno Tronquilho verde, que se espreguiçou ao ser revelado.
— Isso é um…
Tronquilho. O nome dele é Pickett — respondeu, segurando a criatura na palma da mão. Pickett olhou para , inclinando a cabecinha para o lado como se estivesse avaliando-a.
— Ele é adorável. — deu um pequeno sorriso.
— Você está dizendo isso porque ele ainda não tentou se esconder na sua roupa. Pickett, seja útil e abra essa porta pra gente, sim?
O Tronquilho soltou um ruído baixinho, como se resmungasse, mas pulou da mão de Theseus para a fechadura, começando a trabalhar. observou, fascinada, mas logo se forçou a se concentrar. Não podia se distrair agora. Depois de alguns segundos, um clique discreto soou, e a porta se entreabriu.
— E você duvidando das minhas habilidades…
Ela ergueu uma sobrancelha e empurrou a porta sem responder, entrando junto dele na sala e a fechando atrás de si. Então, lançou um olhar desconfiado para o auror.
— Mais algum bichinho escondido nas mangas?
— Newt só me deu esses — disse, com um sorriso torto, guardando Pickett de volta no bolso, e apenas revirou os olhos, murmurando algo inaudível, antes de focar sua atenção na sala à frente deles.
O escritório de Marcos Vasconcelos era pequeno e carregava a sensação de que alguém já havia estado ali antes. Papéis estavam fora do lugar, gavetas ligeiramente abertas. Os dois trocaram um olhar.
— Ou ele era um sujeito muito desorganizado, ou alguém já vasculhou isso aqui antes de nós — Theseus murmurou, analisando os detalhes ao redor.
— Exatamente o que eu estava pensando — sussurrou de volta, já começando a revirar uma pilha de documentos sobre a mesa. A maioria parecia relatórios comuns de monitoramento, mas, ao puxar uma pasta mais desgastada no meio da pilha, seus olhos se estreitaram. Ela virou a página e sentiu o estômago revirar ao ver várias anotações detalhadas sobre movimentações suspeitas dentro do próprio Ministério. Alguns nomes estavam riscados, outros destacados com pequenas observações ao lado, como “confirmado” e “em observação”. O problema era que, ao contrário do que imaginava, Marcos Vasconcelos não parecia estar do lado de Grindelwald. — Theseus… — chamou baixinho, deslizando os papéis para que ele visse. O auror se aproximou e franziu a testa ao analisar o conteúdo. Antes que ele pudesse falar algo, murmurou, mais para si mesma do que para ele: — Então… ele estava do nosso lado… — Piscou algumas vezes, tentando processar.
Theseus percebeu o tom estranho na voz dela, algo entre frustração e culpa, e estreitou o olhar.
— Você o conhecia. — Não havia sido uma pergunta.
hesitou por um segundo, mas não adiantava mais esconder. Então, soltou um suspiro curto e assentiu.
— Sim. — Não olhou para ele ao admitir. — Não falei antes porque achei que vocês fossem desconfiar ainda mais de mim. Eu achava que ele estivesse do outro lado.
Theseus sentiu uma pontada de raiva no peito. Mais um segredo. Ele inspirou fundo, tentando manter a calma, mas sua paciência estava se esgotando.
— Ótimo… — Sua voz saiu afiada. — Mais algum segredo que queira compartilhar comigo?
finalmente ergueu um olhar desafiador para ele, apesar de seu rosto permanecer impassível.
— Provavelmente, mas acho que você pode lidar com isso depois… O que importa é que, quem quer que tenha feito isso, está dentro do Ministério e sabe exatamente quem precisa ser silenciado. — respirou fundo, sentindo um peso no peito. Achava que Marcos era um traidor, mas, na realidade, ele estava fazendo o mesmo trabalho que ela. E morreu por isso. — Isso aqui… — Apontou para um nome circulado. — Eu conheço essas pessoas. Um deles trabalha no setor de segurança mágica e, se ele realmente estava sendo monitorado por Marcos, então talvez…
— … talvez ele tenha descoberto algo grande demais para continuarem deixando ele vivo. — Theseus terminou a frase por ela, enquanto se aproximava de uma prateleira com livros, passando os dedos sobre as lombadas até perceber algo estranho. Um deles estava ligeiramente deslocado. Ele puxou o livro com cuidado, e um envelope caiu de dentro dele.
— O que é isso? — percebeu o movimento e se aproximou.
Theseus abriu o envelope, revelando um pedaço de papel com anotações apressadas em português. A caligrafia parecia ser a mesma do bilhete achado com Marcos. Ele entregou o papel nas mãos da brasileira, que começou a traduzir.
Eles sabem. Estão cada vez mais perto. Se algo acontecer comigo, procurem na sala de registros confidenciais. Diga a Vicência que… acaba aqui. Estavam mesmo atrás dele…
Antes que pudessem refletir mais sobre aquilo, o som de passos ecoou pelo corredor. Theseus rapidamente apagou sua varinha, e o puxou para trás de um armário grande. A porta rangeu outra vez quando alguém entrou. O vulto de um homem apareceu, analisando o local. A brasileira prendeu a respiração e ele sentiu seus corpos se encostarem no espaço apertado onde estavam escondidos. O auror ficou atento, os músculos tensos. O homem andou até a mesa, remexeu alguns papéis e pareceu murmurar algo para si mesmo antes de sair, fechando a porta atrás de si, os passos ecoando pelo corredor até sumirem completamente.

Mas nenhum dos dois se moveu.

O espaço apertado os forçava a ficarem colados um no outro, e Theseus percebeu a respiração acelerada de , sentindo o peito dela subir e descer contra ele. Deveria dar um passo para trás, mas ali simplesmente não havia espaço. Ele ouviu a respiração dela vacilar um pouco e sentiu os dedos dela se apertarem levemente contra seu braço. Não sabia se era pelo perigo que tinha acabado de ocorrer ou por algo completamente diferente.
E então a lembrança veio como um soco seco. Ela conhecia Marcos. O tempo todo. A raiva voltou com força, deixando seu maxilar travado. Ele abaixou o rosto até que seus olhos ficassem nivelados com os dela, analisando cada traço de sua expressão, buscando qualquer sinal de hesitação ou arrependimento. Nada. não desviava o olhar.
— Eu sabia que a minha desconfiança não era à toa.
respirou fundo, a paciência nitidamente se esgotando.
— Eu já expliquei o porquê de não ter falado antes.
Ele riu baixo, sem humor.
— Sim, claro. Porque achou que iríamos desconfiar mais ainda de você. O que, convenhamos, não é uma teoria absurda.
Ela estreitou os olhos, pronta para rebater, mas então mais passos foram ouvidos. Pesados, ritmados, bem do lado de fora. Theseus agiu no instinto. Suas mãos se moveram antes mesmo que sua mente processasse o gesto, segurando a cintura de e a puxando um pouco mais para frente, a encaixando contra ele. Um aviso silencioso para que ficasse imóvel. Ela ficou tensa no mesmo instante. Os passos hesitaram do lado de fora da sala, e ambos prenderam a respiração. Mas então, depois de segundos arrastados, o som foi se afastando até sumir completamente. umedeceu os lábios, talvez por reflexo, e Theseus sentiu seu olhar ser atraído para aquele movimento sutil. Odiava admitir, mas havia algo perigosamente magnético nela. O cheiro da pele, a proximidade absurda, a forma como o corpo dela se encaixava no dele sem esforço.
Só então percebeu o que estava fazendo. Seu olhar caiu para as mãos ainda firmes na cintura dela. A consciência do toque veio como um choque elétrico. Mas, antes que ele pudesse se afastar, os olhos dos dois se encontraram. Por um instante, Theseus ficou em silêncio. Sentiu o calor da respiração dela contra seu rosto, viu a forma como suas sobrancelhas arquearam, como se ela estivesse processando a situação ao mesmo tempo que ele. Deveria dizer algo. Mas o quê?
— Se você não parar de me olhar assim, Scamander, vou começar a achar que você gosta de mim. — A provocação o trouxe de volta à realidade, e ele soltou um riso baixo e cínico.
— Não se iluda, . — Sua voz saiu rouca, mas carregada de sarcasmo.
— Então pare de me segurar assim.
Só então ele percebeu que ainda segurava firme na cintura dela e a soltou no mesmo instante, se afastando o máximo que o espaço permitia, mas, antes que pudesse falar qualquer outra coisa, o som de vozes no corredor fez os dois voltarem ao foco.
— Precisamos sair daqui antes que mais alguém apareça.
Theseus concordou com um aceno curto, percebendo que a marca de suas mãos ainda estava quente contra a pele dela. E odiou o fato de reparar nisso.
Assim que saíram da sala, se deparou com um rosto conhecido. Ela parou no meio do corredor ao ver Henrique Almeida, um de seus colegas no Ministério. Ele tinha um olhar afiado e, para qualquer um que não prestasse atenção, parecia apenas um funcionário comum. Mas ela sabia, ou, ao menos, suspeitava, que ele era um dos infiltrados.
… — disse seu sobrenome de forma arrastada, os olhos passando de Theseus para ela, desconfiado. — O que faz por aqui? Não estava de férias?
— Pois é, voltei antes — ela respondeu, mantendo a voz controlada e forçando um sorriso casual, mas Theseus percebeu a tensão em seus ombros.
— Ah, certo. E quem é ele? — Henrique cruzou os braços, os analisando com atenção.
— Um funcionário do Ministério Britânico. Ele está em um tipo de intercâmbio, e eu fiquei encarregada de apresentar o lugar pra ele — ela respondeu sem hesitação.
Theseus não entendia uma palavra sequer do que estava sendo dito, mas seu nome ser ignorado propositalmente não passou despercebido.
— Vem cá… você tem visto o Marcos ultimamente? — Mesmo sem compreender o contexto, o nome dito por Henrique foi o suficiente para deixar Scamander em alerta. Seu instinto falou mais alto, e ele deslizou uma das mãos discretamente até a varinha presa ao casaco, pronto para agir se fosse necessário.
— Não desde que voltei — ela mentiu com naturalidade, e Theseus permaneceu atento, observando a linguagem corporal de Henrique.
— Sei. Bom, se você o vir… avise — Henrique disse, lançando um último olhar suspeito antes de dar um passo para trás. apenas acenou com a cabeça, e ele enfim se afastou. Foi só quando ele desapareceu pelo corredor que Theseus finalmente quebrou o silêncio.
— O que foi isso? O que ele queria? — Ele manteve o olhar fixo nela, a tensão ainda evidente em seus ombros.
— Nada que precise se preocupar.
— Engraçado, porque me pareceu que sim… e sabe o que mais me pareceu? Que você e esse tal de Henrique se conhecem bem. O que me impede de acreditar que você não contou a ele quem eu realmente sou?
— Sério que, nessa altura do campeonato, você ainda vai desconfiar de mim?
— Até agora, só descobri que você gosta de guardar segredos — ele rebateu, cínico, e revirou os olhos, pronta para responder, mas um barulho ecoou pelo corredor.

Passos apressados. Múltiplos passos.

Os dois se entreolharam. Henrique havia os distraído para ganhar tempo. Ele já tinha chamado reforços.
— Vamos… — sussurrou, antes de puxá-lo pelo braço e disparar pelo corredor.
O som de feitiços começando a ser disparados os fez acelerar ainda mais. Theseus já tinha sacado a varinha e se virou para lançar um Protego, bloqueando um dos feitiços que quase os atingiu.
— Isso é o que você chama de “nada que precise se preocupar”?
— CALA A BOCA E CORRE, SCAMANDER!



Newt chegou ao Departamento de Assuntos Mágicos Internacionais e não demorou a perceber que o local era bem diferente do que estava acostumado no Ministério Britânico. A arquitetura carregava detalhes em madeira escura e entalhes sofisticados, e diversos bruxos caminhavam apressados, alguns carregando pergaminhos flutuando ao seu redor. Ele ajustou sua maleta e caminhou pelo corredor indicado, procurando a sala onde encontraria as informações que Dumbledore queria. Ao virar uma esquina, no entanto, parou abruptamente.

Tina Goldstein estava ali.

Ela não o viu de imediato. Estava em frente a uma mesa, conversando com outro bruxo e folheando alguns documentos. Newt sentiu o coração acelerar. Fazia tempo desde a última vez que a vira, no casamento de Jake e Queenie. Então, como se sentisse seu olhar, ela ergueu os olhos, e os dois congelaram por um segundo. O outro bruxo continuava falando, mas Tina já não o ouvia.
— Newt?
Ele abriu a boca para responder, mas levou um instante para conseguir falar.
— Oi, Tina.
A forma como ela piscou algumas vezes e umedeceu os lábios indicava que estava tão surpresa quanto ele. Então, rapidamente, voltou à realidade e agradeceu ao colega, que se afastou, e, em poucos passos, já estava diante dele.
— Suponho que esteja aqui para investigar Grindelwald.
— Dumbledore acredita que ele pode estar tentando infiltrar-se em outros ministérios.
— Também estou aqui por isso, a pedido do trabalho — ela respondeu, ainda o observando, e Newt inclinou a cabeça, interessado.
— Então, conseguiu descobrir algo importante?
— Ainda estou reunindo informações, mas já vi algumas movimentações suspeitas.
Houve um instante de silêncio, em que os dois apenas se encararam. Newt percebeu que ela parecia cansada, mas também notou que estava ainda mais linda do que na última vez que se viram. O cabelo preso em um coque, alguns fios soltos ao redor do rosto. Ele sorriu, percebendo que, apesar do tempo e da distância, Tina ainda parecia a mesma. Os dois haviam trocado cartas ao longo dos anos, ele contando sobre suas expedições e criaturas mágicas, e ela compartilhando as novidades do trabalho no MACUSA. Mas vê-la pessoalmente depois de tanto tempo fazia ele perceber o quanto sentia falta dela.
— Os outros também estão aqui.
— Aqui no Ministério?
— Não exatamente. — Ele ajustou a alça da maleta. — Eles estão investigando alguns locais, mas eu, Theseus e viemos para o Ministério.
?
— Newt explicou. — Ela é uma agente daqui e diz estar trabalhando para Vicência.
… já ouvi falar dela. Ela tem um histórico interessante, para dizer o mínimo. Acompanhei alguns relatórios sobre missões dela. Parece ser uma excelente agente, mas também… tem uma tendência a seguir seus próprios métodos. O MACUSA já trabalhou indiretamente com o Ministério Brasileiro em algumas operações, e o nome dela aparecia bastante.
— Interessante…
— Isso significa que vocês estão trabalhando juntos?
— Mais ou menos. — Newt coçou a nuca. — A gente a pegou perto da nossa cabana na floresta e desde então ela está nos ajudando, mas ainda temos dúvidas quanto à sua lealdade… principalmente Theseus. Eles estavam tendo um pouco de dificuldade para trabalhar juntos, mas espero que já tenham se entendido.
não parece alguém fácil de lidar. — Tina soltou uma risada curta, e Newt a acompanhou.
— Nem Theseus…
— Bom, só sei que se está envolvida, há mais coisa acontecendo do que parece. E se vocês precisam de informações, talvez eu possa ajudar.
— Eu esperava que dissesse isso. — Os dois trocaram um olhar cúmplice, e Tina gesticulou para ele.
— Venha comigo. Podemos conversar melhor em um lugar mais discreto.
Eles seguiram pelos corredores do Ministério, conversando, até perceberem que a movimentação ao redor havia mudado: bruxos circulavam apressados, trocando olhares atentos e cochichando uns com os outros. Não era o típico burburinho de um dia agitado no Ministério. Aquilo parecia uma caça. Tina franziu o cenho e diminuiu o passo.
— Está vendo isso? — murmurou para Newt, sem desviar os olhos dos grupos que se formavam.
Ele assentiu discretamente. Perto de um quadro de avisos, um pequeno grupo conversava em tons baixos. Alguns olhavam ao redor com certa urgência. Outros examinavam documentos, como se buscassem algo específico.
— Alguma coisa aconteceu — Newt comentou, mantendo a voz baixa. — E tenho a leve impressão de que estamos envolvidos.
Tina entreabriu os lábios para responder, mas parou no mesmo instante. Dois bruxos de aparência rígida saíram de uma das salas laterais, conversando entre si.
— Já verificaram os arquivos? — um deles perguntou.
— Ainda não, mas sabemos que eles estavam aqui. Alguém os viu perto do Departamento de Execução das Leis da Magia — o outro respondeu, lançando um olhar rápido pelo corredor. — Se ainda estiverem no prédio, não vão sair tão facilmente.
Newt sentiu um aperto no estômago.
— Você disse que Theseus e também estão aqui… — Tina sussurrou, se aproximando um pouco mais dele. — Onde, exatamente, eles estão investigando?
— No Departamento de Execução das Leis de Magia… — Newt respondeu em voz baixa, ao mesmo tempo que um dos bruxos encarregados da busca notou a presença deles. Ele parou por um instante e depois começou a se aproximar com passos firmes e calculados.
Tina, experiente como era, adotou imediatamente uma expressão neutra, controlada. Newt fez o possível para imitar sua postura, mas seu coração batia acelerado.
— Eu conheço vocês… Newt Scamander e Tina Goldstein, não é? — o homem perguntou, seus olhos analisando-os de cima a baixo, e eles apenas confirmaram com a cabeça. — O que fazem por aqui?
— Apenas trabalho, como sempre. Algo errado? — Tina sorriu, mantendo um tom casual.
O bruxo hesitou por um segundo, como se ponderasse o quanto deveria dizer.
— Apenas verificando algumas informações. Parece que temos... visitantes não autorizados no Ministério.
Newt manteve o rosto inexpressivo, mas sentiu os pelos da nuca se arrepiarem.
— Visitantes? — Tina ergueu uma sobrancelha. — E o que eles fizeram?
O bruxo não respondeu de imediato. Seu olhar analisava cada detalhe da expressão dela, como se procurasse algum sinal de que sabiam mais do que diziam.
— Estamos no meio de uma investigação delicada, senhorita Goldstein. Apenas siga seu trabalho normalmente. — Ele lançou um último olhar para os dois e seguiu adiante, desaparecendo pelo corredor.
Newt soltou um suspiro que nem havia percebido que estava prendendo.
— Precisamos encontrar Theseus e , agora.
Tina concordou com um aceno firme, os olhos ainda atentos ao movimento ao redor. Eles começaram a andar pelo Ministério, tentando parecer o mais naturais possível. No entanto, agora cada olhar direcionado a eles parecia suspeito e, a cada passo, a tensão crescia.
— Se eles ainda estiverem por aqui, para onde teriam ido? — Tina perguntou, mantendo a voz baixa, e Newt franziu a testa, pensando.
— Eles estavam tentando acessar informações sobre Marcos Vasconcelos, que trabalhava aqui no Ministério. O encontramos morto na floresta e suspeitamos que ele fosse um espião de Grindelwald. Se conseguiram algo importante, devem estar tentando sair do prédio sem chamar atenção.
— Ou podem estar presos em algum lugar, cercados.
A ideia fez um arrepio subir pela espinha de Newt. Os dois aurores podiam até se estranhar, mas ele sabia que o irmão era extremamente competente, e parecia ser do tipo que sempre tinha uma carta na manga. Ainda assim, estavam em território inimigo. Eles dobraram um corredor e então, quase ao mesmo tempo, avistaram algo ao longe. e Theseus estavam do outro lado do grande salão, se movendo rapidamente em direção à saída. Mas eles não estavam sozinhos. Atrás deles, três bruxos seguiam em um ritmo acelerado, como predadores espreitando a presa.
— Lá estão eles.
— Como vamos intervir sem chamar atenção? — Tina já puxava a varinha discretamente.
Newt analisou o local rapidamente. Não podiam simplesmente lançar feitiços no meio do Ministério sem causar um caos generalizado e, pelo que parecia, os dois não haviam sido descobertos por completo, pois os bruxos atrás deles estavam apenas os seguindo, e não atacando. Ainda.
— Precisamos distraí-los — Newt disse, pensando rápido, mas, antes que pudessem formular um plano, algo inesperado aconteceu.
Theseus e passaram por um grupo de funcionários e, num movimento súbito, ela o agarrou pelo braço e os dois viraram rapidamente em uma das salas laterais. Os bruxos que os seguiam não hesitaram e entraram logo atrás. Newt e Tina se entreolharam por uma fração de segundos antes de correrem na mesma direção. Chegando à porta da sala, Goldstein lançou um olhar de alerta para ele antes de girar a maçaneta e entrar de supetão, varinha em punho. O que encontraram lá dentro foi caos: os dois estavam cercados e um dos bruxos já tinha a varinha apontada diretamente para , enquanto outro mantinha os olhos fixos em Theseus, como se soubesse que qualquer movimento em falso dele resultaria em um duelo imediato.
— Ah, que bom que chegamos a tempo — Tina disse, com um sorriso forçado, sua varinha apontada para um dos bruxos, e Newt, ao lado dela, fez o mesmo.
Todos no recinto ficaram imóveis por um instante. A tensão cresceu como uma tempestade prestes a explodir. Theseus lançou um olhar rápido para , que mantinha o rosto impassível, mas sua mão já estava perto da varinha.
— Acho que vamos ter que resolver isso da maneira difícil — murmurou, e a moça soltou um pequeno suspiro.
— Infelizmente você está certo.
E então tudo aconteceu ao mesmo tempo. Os outros bruxos atacaram primeiro. Feitiços foram lançados, iluminando a sala em flashes de luz. Newt se abaixou a tempo de evitar um raio vermelho que passou de raspão. Tina revidou rapidamente, lançando um feitiço que desarmou um dos atacantes. e Theseus agiram em perfeita sintonia. Ela derrubou um dos bruxos com um golpe bem colocado, enquanto Theseus duelava com o último. O auror desviou de um ataque, contra-atacando com precisão. Newt viu o momento em que pegou um dos documentos que havia caído no chão e o enfiou dentro do casaco, antes de lançar um feitiço final que fez o último inimigo desmaiar. Mas não foi isso que chamou sua atenção. Ele percebeu Theseus olhando para ela. Havia algo naquele olhar que Newt não soube definir de imediato. Não era exatamente raiva, nem apenas frustração. Era um misto de algo que parecia estar preso, algo que o auror não queria deixar transparecer, mas que ainda assim estava lá, evidente o bastante para alguém que o conhecia bem. Newt franziu a testa, guardando aquela observação para si. Não era o momento de questionar.
— Alguém vai perceber isso em menos de cinco minutos — Tina disse, enquanto abaixava a varinha, olhando para os corpos caídos no chão, e atraiu a atenção dos outros dois.
— Oi, Tina — Theseus disse, o semblante carregado de dúvida, como se quisesse perguntar “o que você está fazendo aqui?”, mas sem tempo para isso.
, por sua vez, não disse nada. Não havia como negar que a aparição da mulher a pegara desprevenida, mas, ao notar a forma como Theseus havia reagido, ficou claro que já se conheciam. E se se conheciam, significava que Tina era alguém confiável. Além disso, já tinha ouvido falar da bruxa, assim como Tina parecia saber quem ela era. Então, sem questionar, ela apenas deu um leve aceno de cabeça, aceitando a presença dela ali.
— Alguém pode me explicar o que exatamente está acontecendo aqui?
— Primeiro, acho que devemos sair daqui antes que mais deles cheguem — Newt mencionou enquanto ajeitava a maleta na mão.
Eles assentiram, e ajeitou o casaco, lançando um olhar provocador para Theseus.
— Eu não disse que conseguiríamos sair sem chamar atenção?
— Se esse é seu conceito de discrição, , então preciso revisar minhas definições — o bruxo respondeu, desviando o olhar dela rapidamente, como se não quisesse que ninguém percebesse.
Sem perder tempo, eles saíram rapidamente da sala, deixando os bruxos inconscientes para trás. A adrenalina pulsava enquanto eles percorriam os corredores do Ministério, os ecos dos passos dos perseguidores nunca muito longe.
— A saída principal está cercada — Tina avisou, ao avistar rapidamente um dos acessos, que, previsivelmente, já estava bloqueado pela presença de vários seguranças.
— Precisamos de outro caminho — disse Theseus, o olhar atento a qualquer possibilidade de fuga.
olhou ao redor, tentando visualizar alguma alternativa. Eles podiam lutar, mas estavam em menor número, e, a cada minuto, a segurança do Ministério estaria ainda mais alerta.
— Eu tenho uma ideia. — Newt, que vinha em silêncio até o momento, ergueu a cabeça de repente, e os outros se viraram para ele.
— Isso é bom ou ruim? — perguntou, ofegante.
— Depende… Fiquei sabendo que eles recentemente apreenderam uma criatura mágica perigosa. Está sendo mantida no Departamento de Controle e Proteção das Criaturas e Plantas Mágicas. Se conseguirmos soltá-la, podemos criar uma distração.
— E que tipo de criatura estamos falando? — arqueou uma sobrancelha, e Newt olhou para ela com um brilho ansioso.
— Um Boitatá.
— Aquele que encontramos na floresta não foi o suficiente? — Theseus questionou.
— Pelo visto, não. — riu de leve, mesmo que o momento não fosse propício. — Mas esse seu plano meio doido pode funcionar, Newt. Vamos, eu sei onde fica. — Ela se pôs na frente dos outros, os guiando pelos corredores, enquanto desviavam dos grupos de funcionários que começavam a se mobilizar, alertados da presença deles. Finalmente, chegaram ao Departamento de Criaturas Mágicas. A bruxa usou um feitiço para destrancar a porta, e entraram apressadamente. A sala era grande, cheia de gaiolas e compartimentos selados magicamente. No fundo, havia uma jaula reforçada com encantamentos de contenção, mas era menor do que eles esperavam.
— É um filhote… — sentiu um aperto no peito ao ver o pequeno Boitatá enrolado em si mesmo e encolhido em um canto. Suas escamas brilhavam fracamente, o corpo se contraindo, claramente assustado.
— Espera aí… nós vamos soltar um filhote? — Theseus franziu a testa.
— Isso complica as coisas? — perguntou, olhando para Newt, que assentiu.
— Muito… — Ele se ajoelhou diante da jaula, estudando os feitiços que o mantinham preso. — Filhotes de Boitatá são mais imprevisíveis que adultos. Eles ainda não controlam suas chamas, então, se ele se assustar…, o Ministério pode acabar pegando fogo.
— Uma baita distração — Theseus constatou.
A troca de olhares entre eles foi rápida, mas ninguém hesitou. Newt respirou fundo e começou a desativar os encantamentos da jaula. Assim que as barreiras mágicas desapareceram, o Boitatá ergueu a cabeça. Seus olhos brilharam intensamente, e chamas começaram a se acender ao longo de seu corpo. O calor na sala aumentou instantaneamente.
— Devagar, garoto… — murmurou Newt, tentando acalmá-lo, mas o filhote, ansioso e aterrorizado, deslizou para fora da jaula em um clarão de fogo.

O caos começou.

O pequeno Boitatá se moveu em disparada pelo corredor, esbarrando nas prateleiras e incendiando pergaminhos e objetos mágicos. Funcionários gritaram, feitiços de contenção foram lançados, mas o filhote se debatia, cuspindo labaredas que explodiam contra as paredes.
— CORRAM! — gritou Theseus.
Eles se misturaram ao tumulto, aproveitando o pânico para se afastarem discretamente. Mas então , que corria ao lado de Newt, parou de repente. O Boitatá estava sendo atacado. Bruxos conjuravam feitiços para contê-lo, laços mágicos se enrolavam ao redor de seu pequeno corpo, e ele soltava guinchos de dor, tentando escapar. Ela sentiu um nó na garganta.
, o que você está fazendo? — Theseus exclamou, mas, antes que pudesse segurá-la, ela ergueu a varinha sem hesitar, apontando para os bruxos que cercavam o filhote.
Fulminare!
Um raio de energia azulado disparou de sua varinha, cortando o ar e atingindo o chão próximo aos bruxos, que se afastaram num salto. O impacto fez o chão vibrar, rachando a pedra onde o feitiço colidira, e uma faísca residual crepitava no ar, deixando um rastro luminoso no ambiente. Theseus olhou para com uma mistura de surpresa e desconfiança. Ele já vira feitiços poderosos antes, mas nunca nada como aquilo. E, pelo olhar dos outros, ninguém ali reconhecia aquele feitiço. As correntes mágicas desapareceram no ar, e o filhote, ainda ofegante, ficou livre. Mas ele não fugiu. Estava assustado demais para se mover. Então Newt abriu sua maleta rapidamente e puxou um frasco pequeno, contendo um líquido que brilhava em um tom âmbar intenso.
— Você tem isca para um Boitatá no bolso? — murmurou Theseus, incrédulo.
— Sempre tenha um plano B — o irmão respondeu, abrindo o frasco e derramando uma gota no chão.
Instantaneamente, uma chama azul se formou, dançando suavemente no ar. O Boitatá parou. Seus olhos brilharam, atraídos pela luz. A chama tremulava, oscilando como se chamasse por ele, e o filhote, ainda ofegante, deslizou hesitante até a chama. Então, em um único movimento, sua forma translúcida se curvou e ele mergulhou para dentro da maleta de Newt, desaparecendo. E, sem olhar para trás, eles fugiram.

Jacob, Queenie, Lally e Yusuf estavam sentados na sala da Casa dos Ventos, revezando entre olhares atentos para a porta e cochichos preocupados. Eles haviam retornado há pouco tempo de suas investigações, mas a tensão no ar era palpável. A porta se abriu com um rangido, e, antes mesmo que qualquer um pudesse reagir, Queenie soltou um gritinho animado.
— Tina! — Ela atravessou a sala quase correndo e abraçou a irmã com força, que riu baixo, correspondendo ao abraço. — Sabia que você estava aqui, mas é tão bom te ver! — Queenie exclamou, os olhos brilhando.
— Eu também senti sua falta, Queen.
— Bom te ver, Tina. — Jacob sorriu e se aproximou.
— Você também, Jacob — ela disse, com um sorriso afetuoso, antes de olhar para os outros.
— Então, quer dizer que os laços familiares andam ajudando nossas missões? — Lally cruzou os braços, sorrindo satisfeita.
— Pode-se dizer que sim.
Yusuf, que até então observava a interação silenciosamente, deu um passo à frente.
— Você veio investigar Grindelwald?
— Sim, pelo MACUSA. Mas, pelo visto, não sou a única aqui atrás dele.
Eles se viraram para os outros três, que estavam com semblantes exaustos, como se tivessem acabado de correr uma maratona.
— Tivemos um probleminha no Ministério — Theseus anunciou, com um tom de cansaço.
— Probleminha? — Lally repetiu, cruzando os braços.
— Digamos que estamos sendo caçados. — suspirou. — Ah, e o Newt ganhou um filhote de Boitatá para a coleção… longa história.
Todos se sentaram em volta da mesa. Queenie, ao lado de Jacob, segurava sua mão, Tina estava entre Newt e Yusuf, e Theseus e pareciam manter uma distância calculada um do outro. Lally foi a primeira a falar:
— Bom, já que estamos aqui, melhor colocar todas as cartas na mesa. Vou começar.
Ela lançou um olhar para Yusuf, que assentiu, e os dois começaram a explicar o que haviam descoberto. Durante sua investigação, perceberam que havia um padrão nos ataques recentes ligados a Grindelwald. Certas áreas mágicas estavam sendo monitoradas e infiltradas, e alguns bruxos de alta patente do Ministério do Brasil pareciam estar envolvidos.
— Alguns locais foram completamente evacuados sem motivo aparente — Yusuf disse. — A justificativa foi que estavam comprometidos…, mas eu acredito que queriam esconder algo…
— … como se estivessem limpando os rastros. — Lally completou.
— E então, o bilhete? — Newt perguntou, voltando sua atenção para o grupo.
Lally trocou um olhar rápido com Yusuf, antes de pegar um pedaço de pergaminho dobrado.
— Acho que conseguimos decifrar. — Ela desdobrou o bilhete e leu em voz alta. — Se tudo der errado, me encontre onde a serpente se curva para beber.
— Isso se refere a um rio — Yusuf comentou, cruzando os braços. — Tem um rio na floresta que os locais chamam de Cobra Grande.
— É um afluente do Amazonas… — confirmou, e Jacob soltou um suspiro pesado, já antecipando o que aquilo significava.
— Em outras palavras, vamos ter que voltar para a floresta. Quem não gosta de quase morrer devorado por criaturas mágicas no meio do nada?
O grupo trocou olhares, cientes de que essa pista poderia ser a mais importante até agora. Então, Newt pigarreou.
— Eu e Tina também descobrimos algumas coisas. Dumbledore suspeita que Grindelwald esteja tentando expandir sua influência para além da Europa, se infiltrando em ministérios ao redor do mundo. O Brasil pode estar sendo um de seus alvos principais.
— E com Vicência ainda no poder, isso se torna mais difícil para ele, porque ela tem agentes fiéis tentando descobrir quem são os infiltrados. — Tina acrescentou.
— O problema é que os infiltrados já estão espalhados por toda parte. — Newt continuou, com uma expressão mais séria. — Ele pode não ter tomado o controle daqui, mas está perto. E se ele conseguir colocar uma pessoa de confiança no comando, ou se algo acontecer com Vicência… — Nem precisou terminar a frase para que todos entendessem.
— Além disso, eu ouvi alguns nomes sendo mencionados em certas conversas no Ministério — Tina falou, cruzando os braços. — Entre eles, um nome que talvez vocês já tenham escutado antes, Anton Vogel.
O silêncio na sala ficou mais pesado.
— O Ministro da Magia da Alemanha? — Lally perguntou, franzindo o cenho.
— Parece que ele anda trocando mensagens com algumas pessoas dentro do governo brasileiro. Não sabemos exatamente do que se trata, mas não é difícil imaginar.
— Ele já ajudou Grindelwald uma vez, não ajudaria de novo? — Yusuf disse, em um tom ácido.
— É o que parece. — Newt assentiu, e Queenie mordeu o lábio inferior, preocupada.
— Isso só prova que Grindelwald ainda tem aliados poderosos.
— E que estamos contra o tempo. — Tina completou.
— O que nos leva a… nós dois — Theseus disse, trocando um olhar com , antes de se virar para o grupo.
A brasileira pegou os documentos de sua bolsa, os entregou aos outros e respirou fundo antes de começar.
— Conseguimos entrar na sala de Marcos e encontramos documentos interessantes. Ele sabia de algo grande. Algo que o fez ser silenciado.
— Sabia que havia infiltrados no Ministério, e que eles estavam cada vez mais perto de descobrir sua identidade. — Theseus complementou, e assentiu.
— Mas tem mais. Marcos não apenas sabia da infiltração. Ele sabia quem estava por trás dela. Nos documentos que encontramos, havia menções a reuniões secretas, pessoas-chave dentro do Ministério que pareciam estar jogando dos dois lados. Mas o mais importante… — Ela hesitou, mordendo o lábio. — Ele escreveu que…
conhecia Marcos. — Theseus lançou a frase como uma acusação, a voz carregada de um tom ácido, cortando a fala de antes que ela pudesse continuar.
Um silêncio se espalhou pela sala.
— Você o conhecia? — Queenie franziu as sobrancelhas, confusa.
— Conhecia. — bufou, lançando um olhar irritado para Theseus.
— E não achou que seria importante nos contar? — Yusuf questionou, estreitando os olhos.
— Eu não sabia de que lado ele estava! — ela retrucou, elevando o tom. — Se ele fosse um seguidor de Grindelwald, eu apenas pareceria mais suspeita para vocês!
— Então ele realmente estava do lado de Vicência. — Lally ponderou.
— E morreu por descobrir algo que não deveria. — Tina concluiu.
— Eu não contei porque não queria que vocês desconfiassem ainda mais de mim. Mas, pelo visto, isso foi inútil. — A brasileira desviou o olhar, tentando controlar a respiração, e Theseus trincou a mandíbula, mas não respondeu.
Jacob, que até então apenas observava, coçou a cabeça.
— Certo, então… se ele sabia de algo grande… como descobrimos o que era?
— Ele deixou uma pista. Na sala de registros confidenciais do Ministério. — respirou fundo e olhou para todos, tirando o bilhete da bolsa, e Tina franziu a testa.
— Isso significa que vamos ter que voltar para lá.
— Exatamente. — Theseus suspirou, cansado, e o olhou de soslaio, ainda ressentida.
— Então acho que temos um novo plano. — Queenie concluiu e se entreolharam, a gravidade da situação pesando sobre eles.

E a única certeza que tinham era de que aquela missão estava longe de acabar.

O jantar na Casa dos Ventos era mais animado do que Theseus esperava. Após todas as descobertas e o perigo que haviam enfrentado no Ministério, aquele momento de descanso parecia quase estranho. Jacob, sempre o mais empolgado com comida, encheu o prato sem hesitar, fazendo Lally rir de sua empolgação. Queenie, ao seu lado, servia os outros com um toque delicado de sua varinha, garantindo que todos tivessem o que comer. Theseus estava sentado em um dos cantos da mesa, observando o grupo interagir. Apesar do clima mais leve, estava mais na dela. Não que estivesse triste ou distante, mas não participava tanto da conversa quanto antes. Ele levou um gole do seu copo e desviou o olhar quando viu Caio dizer algo que a fez soltar uma risada genuína. Theseus notou como o tom dela mudou ao falar com ele, mais descontraído, menos carregado do peso da missão. Não sabia dizer o por quê daquilo ter chamado a sua atenção, mas também sabia que não era de sua conta. Ainda assim, por um momento, ele percebeu que estava apertando os dedos ao redor do copo com mais força do que o necessário. Newt, que estava ao lado dele, pareceu ter notado também.
— A comida está ruim? — perguntou em um tom casual, fazendo Theseus voltar para si.
— O quê? Não, está ótima.
— Então… vocês conseguiram trabalhar bem juntos?
Theseus, que levava o copo aos lábios, parou por um instante antes de beber.
— Nós… nos viramos — respondeu, simples, e Newt assentiu devagar, como se processasse a resposta, e continuou comendo. Mas Theseus sabia reconhecer quando o irmão estava refletindo sobre algo. — O que foi? — perguntou, semicerrando os olhos, mas o magizoologista deu de ombros.
— Nada. Só… curioso.
Theseus revirou os olhos, mas então se lembrou de algo.
— Ah, quase esqueci. — Enfiou a mão no bolso e tirou Pickett, que se agarrava ao seu dedo. — Esse carinha aqui foi bem útil hoje. Nos ajudou a entrar na sala trancada de Marcos.
— Sério? — Newt imediatamente estendeu a mão, e o pequeno galho andante saltou para o seu dono, balançando os bracinhos em um leve protesto.
— Sim… tentou destrancar com magia, mas algum feitiço bloqueava. Então recorremos ao pequeno aqui.
Newt olhou para Pickett, que ergueu um de seus galhos com certo orgulho.
— Viu só? — disse para o Tronquilho, com um pequeno sorriso. — Eu sabia que você podia ser mais do que apenas teimoso. — Pickett balançou o corpo, satisfeito. — E Teddy? — perguntou, agora olhando para o irmão.
Theseus deu de ombros e lançou um olhar para , que ainda conversava com Caio.
— Na bolsa dela, provavelmente roubando tudo de valor que encontrar… ou não. Eles meio que fizeram um trato.
— Um… trato?
— Ela oferece algumas “pequenas recompensas” e, em troca, ele deixa as coisas dela em paz.
— Teddy nunca aceitou esse tipo de acordo antes. — Newt piscou, intrigado, e Theseus riu, balançando a cabeça.
— Bom, ele parece ter gostado dela. Talvez mais do que eu.
Newt ergueu as sobrancelhas, mas Theseus apenas voltou a comer, encerrando o assunto.

Mais tarde, bateu levemente na porta do quarto de Newt, a bolsa pendendo em seu ombro. Quando ele abriu, parecia já saber o motivo da visita.
— Acho que esse aqui pertence a você. — Abriu a bolsa e puxou um pequeno ser peludo e adormecido, que segurava uma moeda de ouro contra o peito como se fosse um travesseiro. Newt sorriu, pegando Teddy cuidadosamente.
— Ele deu muito trabalho?
— Não mais do que eu esperava. Fizemos um acordo: ele não rouba as minhas coisas, e eu dou presentes e o deixo dormir na bolsa. Não sei se vai durar.
Newt riu baixinho, balançando a cabeça. Então fez um gesto para que ela entrasse.
— Quer ver os outros?
hesitou por um momento, mas a curiosidade venceu. Os dois desceram para dentro da maleta de Newt, e ela sentiu o ar mudar ao seu redor. O espaço era vasto, com habitats separados para cada criatura, e uma tranquilidade que parecia não existir no mundo exterior. A primeira criatura que Newt a levou para ver foi um majestoso Zouwu, que repousava preguiçosamente sobre uma pilha de almofadas coloridas. Seus grandes olhos felinos se abriram quando eles se aproximaram, e sua cauda incrivelmente longa se moveu de leve, como se estivesse avaliando a nova visitante.
— Ele foi encontrado em circunstâncias terríveis — Scamander explicou. — Mas agora está bem mais tranquilo.
— Eu já tinha lido sobre eles, mas nunca imaginei que veria um de perto. — observou o animal, fascinada.
— Quer tocá-lo?
Ela hesitou, mas ao ver que o Zouwu não parecia hostil, estendeu a mão devagar. A criatura inclinou a cabeça, a deixando acariciar sua pelagem macia.
— Impressionante…
Newt sorriu e a conduziu para o próximo habitat. Dessa vez, viu criaturas parecidas com gatos pretos, sem pelos e olhos azuis enormes.
— Ah, os Matagots. Não chegue muito perto, eles podem ser temperamentais.
ergueu uma sobrancelha ao ver um deles rosnar baixinho quando ela se moveu.
— Parece que já não gostaram de mim.
— Eles são bem seletivos.
Continuando a caminhada, também pôde ver um pequeno grupo de Bezerros Apaixonados, com seus olhos enormes refletindo a luz como faróis na escuridão. Eles se moviam de maneira desajeitada, mas havia algo adorável na forma como olhavam curiosos para ela.
— Acho que esses são os meus favoritos até agora. — sorriu, enquanto um dos Bezerros a cheirava com cautela, e Newt riu.
— Eles têm esse efeito nas pessoas.
Depois, ele a levou para outra parte, onde um pequeno cercado de palha macia abrigava uma cena curiosa. franziu a testa ao ver um grupo de pequenas criaturinhas de pelo escuro e olhos brilhantes brincando umas com as outras, rolando e se enfiando em montinhos de moedas e pedrinhas brilhantes.
— São... filhotes de Pelúcio? — perguntou, surpresa.
— Sim… muito difíceis de manter longe de problemas, mas, por enquanto, estão distraídos.
observou enquanto um deles mordia de leve a cabeça do irmão antes de sair correndo, como se estivesse rindo da própria travessura. Ela riu baixo. Newt ergueu a mão, mostrando Teddy adormecido, ainda embolado nas moedas que havia dado a ele, e, com cuidado, o colocou entre os filhotes, que logo se aninharam nele, como se Teddy fosse uma almofada aconchegante. Então, ele a levou até um cercado mais afastado, onde um Qilin movia-se com graça, sua pelagem brilhando sob a luz suave.
— Eu lembro dele. Cresceu bastante, hein? — comentou, se aproximando devagar.
— Sim, e está se adaptando bem. Mas tenho outra criatura que talvez interesse mais a você. — Ele a levou para um espaço menor, onde um pequeno Boitatá filhote repousava enrolado sobre si mesmo, suas escamas pulsando fracamente com uma luz azulada. arregalou os olhos. — Ele ainda é muito jovem para ser devolvido à natureza, então vou cuidar dele até que esteja pronto.
se abaixou, observando a criaturinha, que ergueu a cabeça para encará-la, curioso.
— Posso...?
Newt assentiu, e ela estendeu a mão com cautela. O pequeno Boitatá a cheirou antes de se enroscar levemente ao redor do seu braço, sua luz ficando um pouco mais intensa, como se estivesse a agradecendo. sorriu.
— Acho que ele gostou de você, afinal, foi você quem o salvou… Pode ficar de olho nele enquanto pego algo?
— Claro.
Ele saiu, e ficou ali, observando o Boitatá, sentindo seu calor sutil. Então, uma voz soou da entrada:
— Newt, tá aí?
Ela ergueu os olhos e viu Theseus descendo os degraus, parando abruptamente ao vê-la ali.
— Ah. — Os dois se encararam por um instante antes de desviar o olhar, voltando sua atenção para o pequeno Boitatá.
— Está tratando ele como um bichinho de estimação agora? — O auror arqueou uma sobrancelha.
— Diferente de você, ele não tenta provar que eu sou uma traidora o tempo todo — respondeu, sem olhar para ele. Sua voz estava mais séria, sem o tom brincalhão de antes.
Theseus notou a mudança. Sentou-se no degrau mais próximo, a observando com curiosidade.
— Está brava comigo?
— Eu não sei, o que você acha? Expôs algo meu na frente de todo mundo.
— Você não pretendia contar. — Ele cruzou os braços.
— Eu contaria na hora certa.
Os dois ficaram em silêncio por um momento, até Theseus soltar um suspiro.
— Eu queria te perguntar sobre uma coisa.
— O quê?
— O feitiço que você usou no Ministério, Fulminare… nunca ouvi falar.
continuou olhando para o Boitatá, deslizando os dedos pelas escamas dele.
— É porque fui eu quem criei.
Por um momento, Theseus apenas a encarou, processando a informação.
— Você… criou um feitiço? — Sua voz carregava um tom de incredulidade, mas também de admiração relutante.
— Sim, com a ajuda da diretora de Castelobruxo. Ela me ajudou a aperfeiçoá-lo.
— Bem... isso explica muita coisa.
— Explica? — ergueu uma sobrancelha.
Theseus abriu a boca para responder, mas foi interrompido pelo som de passos se aproximando.
— Ah, Theseus. — Newt sorriu, sem perceber o clima no ar. — Você veio ver os animais também?
Ele se levantou, desviando o olhar de .
— Na verdade, estava te procurando, irmãozinho. Mas já que estou aqui, por que não?
lançou um último olhar para Theseus antes de se levantar também.
— Vou deixar vocês dois conversarem. Boa noite.
Ela saiu, deixando o auror parado ali, com uma expressão que Newt reconheceu imediatamente.
— Aconteceu alguma coisa aqui? — ele perguntou, observando o irmão, mas Theseus apenas balançou a cabeça.
Depois de ajeitarem os animais na maleta, os dois saíram, mas o silêncio confortável entre eles durou pouco. Enquanto organizavam algumas coisas, Newt, sem desviar os olhos de algumas roupas que ajeitava dentro de outra mala, soltou:
— Gosta dela.
Theseus, que dobrava uma das mangas da camisa, parou o movimento por um breve instante.
— Eu não confio nela. — Newt assentiu, um som vago de “hum” escapando dos lábios, e o mais velho franziu a testa. — Que foi?
— Nada — respondeu, pegando outra coisa para guardar.
— Não tem nada acontecendo, Newt. — Theseus revirou os olhos, jogando a camisa sobre a cadeira.
— Se você diz.
O auror suspirou, cruzando os braços.
— Boa noite, irmãozinho.
— Boa noite, Theseus.



O cheiro de café fresco e pão quente pairava pelo ar quando entrou na cozinha da Casa dos Ventos. O grupo já estava reunido, espalhado pela longa mesa de madeira, trocando conversas matinais. Os olhos dela passaram rapidamente por Theseus, que a observava com atenção, antes de se voltarem para Queenie.
— Eu consegui desbloquear minha mente… — anunciou, indo direto ao ponto — e estou pronta para que você a leia.
O silêncio que se seguiu foi pesado. O tilintar dos talheres cessou, e sentiu os olhares se voltarem para ela. Queenie piscou algumas vezes, surpresa.
— Querida, tem certeza? Não quer tomar café primeiro?
— Não. — cruzou os braços, mantendo o queixo erguido. — Só quero tirar tudo a limpo e deixar claro que estou do lado de vocês.
A frase foi um golpe direto, e todos sabiam exatamente para quem era. Theseus pegou a xícara de café e levou aos lábios, mas não sem antes soltar um suspiro baixo e pesado.
— E eu achando que hoje ia ser uma manhã tranquila — murmurou, num tom que não era exatamente brincalhão, e fingiu que não ouviu.
Queenie olhou ao redor, buscando a aprovação dos outros. Jacob deu de ombros, Tina assentiu, e Newt pareceu apenas curioso.
— Tudo bem. — Empurrou o prato para o lado e alisou a saia antes de voltar a encarar a brasileira. — Vamos para um lugar mais reservado.
O grupo se moveu para uma sala ao lado, onde as duas se sentaram uma de frente para a outra, mantendo contato visual. Conforme ia falando sobre quem era, para quem trabalhava e seu envolvimento com Vicência, Queenie apenas assentia, confirmando a veracidade de cada palavra, mas Theseus, encostado na parede com os braços cruzados, ainda não parecia satisfeito.
— O que te fez decidir abrir sua mente agora? — perguntou, o tom carregado de ceticismo.
soltou uma risada seca, balançando a cabeça.
— Você quer que eu volte no tempo e faça isso antes?
— Eu só acho conveniente demais que agora, do nada, você esteja disposta a se abrir — o auror rebateu, a voz baixa e afiada.
— Sabe como funciona uma oclumência? O que exatamente você quer que eu faça, comandante? Me ajoelhe e peça perdão por algo que nem sequer fiz?
O olhar dele escureceu, e soube que tinha tocado num ponto sensível à medida que o ar na sala ficava mais pesado.
— Eu quero apenas uma razão para confiar em você — ele retrucou, dando um passo à frente, o rosto a poucos centímetros do dela.
sentiu o coração acelerar e, por um segundo, não soube se era por raiva ou por outra coisa.
— Sério que você ainda tá com essa ladainha? — Estreitou os olhos, o desafiando. — O que mais eu preciso fazer pra você acreditar que estamos do mesmo lado? Quer que eu faça um pacto de sangue?
Theseus não respondeu de imediato, segurando o olhar dela por mais tempo do que deveria, o maxilar travado, os punhos cerrados. A energia entre os dois oscilava entre rivalidade e algo que não queria nomear, e foi nesse instante, nesse silêncio cheio de eletricidade, que ela percebeu algo. Ele estava tão próximo que era possível ver cada detalhe de seu rosto, a forma como os músculos estavam tensos, como o peito subia e descia pesadamente, cada traço afiado, cada curva da mandíbula rígida. E, por um breve momento, sua mente teve o mais traiçoeiro dos pensamentos.

Merda.

Ela percebeu tarde demais.
— Oh… — O som escapou dos lábios de Queenie como uma pequena bomba ressoando na sala, e congelou.
— O que foi? — Theseus franziu o cenho, olhando para a loira, assim como o restante do grupo.
— Nada. — Ela disfarçou rápido, escondendo um sorriso, e o auror hesitou, lançando um olhar desconfiado entre as duas. Enquanto isso, se esforçava para não olhar para Queenie, sabendo que, na primeira oportunidade, ela iria se divertir muito com o que tinha acabado de descobrir. Se ajeitou na cadeira, tentando ignorar o calor que subia para seu rosto, e a legilimente pigarreou, se recompondo. — Certo, continuando… — os olhos voltaram para , agora com um brilho travesso que a morena definitivamente não gostou — eu posso confirmar que tudo o que ela disse é verdade.
O silêncio que seguiu foi pesado, e se virou para Theseus.
— Alguma objeção agora? — perguntou, cruzando os braços, e o auror apertou os lábios, como se quisesse dizer algo, mas acabou soltando um suspiro.
— Nenhuma.
O grupo trocou olhares, antes de Jacob finalmente bater palmas, quebrando a tensão.
— Ótimo! Agora que temos isso resolvido, que tal a gente terminar de comer? — O comentário arrancou um riso baixo de Newt e um olhar de cumplicidade entre Tina e Queenie.
, por sua vez, apenas se levantou, evitando olhar para Theseus ao sair da sala, mas, ao passar por Queenie, sentiu um cutucão discreto em seu braço.
— Depois a gente conversa, querida. — A loira sorriu de canto, a fazendo engolir em seco, sabendo que não tinha como fugir dessa.
O resto do café da manhã seguiu mais tranquilo, mas sentia os olhos de Queenie nela o tempo todo. Theseus, por outro lado, evitava qualquer contato visual, o que era incomum. Quando terminaram e cada um foi cuidar de seus afazeres, tentou escapar para o quarto, mas a loira foi mais rápida, adentrando o cômodo antes que ela fechasse a porta.
— Então… — Começou, se apoiando na parede, os olhos brilhando de curiosidade.
— Não.
— Não o quê? — A mulher sorriu, fingindo inocência.
— O que quer que você tenha visto, finja que não viu.
Queenie soltou uma risada, cruzando os braços.
— Eu não consigo “desver” pensamentos, querida.
revirou os olhos, bufando.
— Não tem nada aí. Foi só um reflexo, um… engano da minha mente.
— Engano, hum? — Ela inclinou a cabeça, claramente se divertindo. — Bom, se você diz… — Sorriu e se virou para sair, mas, antes de desaparecer completamente pela porta, jogou por cima do ombro. — Só fico curiosa, sabe? Porque às vezes, quando duas mentes estão em sintonia, os pensamentos acabam… se misturando um pouquinho.
sentiu um arrepio subir pela nuca e se virou rapidamente para a porta por onde Queenie havia saído, seu coração acelerando com a possibilidade.

Será que… não.

Espantou a ideia da cabeça imediatamente, pegando anotações relacionadas a Grindelwald e rabiscando seu caderno sobre informações importantes. Qualquer coisa que a fizesse esquecer daquilo.

Maldita Queenie.

se pegou distraída, encarando a ponta da pena que segurava, sem conseguir ler uma linha sequer do documento à sua frente.
— Você parece tensa. — A voz grave de Theseus fez seu corpo se resetar.
Ela ergueu os olhos devagar, o encontrando parado ao lado da mesa onde estava sentada. O auror segurava duas xícaras de chá e a observava com a mesma expressão avaliativa de sempre.
— Estou ótima — respondeu, voltando a encarar o pergaminho, fingindo uma naturalidade que não sentia.
— Claro que está, por isso tá encarando esse documento de ponta-cabeça há não sei quantos minutos.
xingou mentalmente e virou o pergaminho na posição certa, sem encará-lo.
— O que você quer, Scamander?
Ele puxou a cadeira à sua frente e se sentou, sem pedir permissão, colocando uma das xícaras em sua frente e permanecendo com a outra na mão.
— Saber se você realmente está bem — disse simplesmente, levando a xícara à boca. — Depois do que aconteceu hoje de manhã…
finalmente olhou para ele, estreitando os olhos.
— Depois do que aconteceu hoje de manhã? Você quer dizer depois de eu ter provado que não sou uma espiã e que estava errado sobre mim?
Theseus sustentou seu olhar por um momento, antes de suspirar e apoiar os cotovelos na mesa.
— Eu não estava errado em ser cauteloso.
— Claro que não, você nunca está errado — rebateu, e ele franziu o cenho, apertando a xícara entre os dedos.
Ficou em silêncio por um instante, como se estivesse debatendo consigo mesmo, até soltar um suspiro pesado.
— Acho que eu te devo um pedido de desculpas.
— Tem certeza? Não quer repensar? Talvez encontre um jeito de culpar minha existência de novo.
— Você está diferente.
— Você não faz ideia.
— O que isso quer dizer? — Ele inclinou a cabeça, estreitando os olhos.
soltou um riso sem humor, desviando o olhar.

Isso quer dizer que, além de lidar com toda essa confusão, agora tenho que lidar com pensamentos inconvenientes sobre você, e Queenie percebeu.

Mas é claro que ela não disse isso.
— Quer saber, deixa pra lá. — Começou a se levantar, mas Theseus segurou seu pulso, a impedindo, um toque breve, mas que fez seu coração saltar. O silêncio que se instalou entre os dois foi espesso, cheio de uma tensão que ela não queria nomear, até Theseus pigarrear e soltar seu braço devagar.
— Só… tente não se perder demais nesses pensamentos. — piscou, mas, antes que pudesse responder, ele se levantou e saiu, a deixando sozinha com suas perguntas.

Será que ele sabe?

Então Theseus parou na porta, sem se virar para encará-la.
— Termine seu chá, vamos ao Ministério de novo em breve.
o observou sair e ficou encarando a porta fechada por um instante antes de soltar um longo suspiro, passando as mãos pelo rosto e tentando ignorar o calor em sua pele.

Ótimo. Mais um dia encarando esses malditos olhos azuis.

O grupo se reuniu na sala principal, sentados em cadeiras improvisadas ao redor da mesa. O café da manhã já havia acabado, mas ainda havia xícaras espalhadas, algumas quase intocadas. estava de pé, com os braços cruzados, enquanto esperava que todos se acomodassem. Theseus, do outro lado da sala, mantinha o olhar atento nela, como se tentasse prever o que ela diria a seguir.
— Antes de seguir para a floresta novamente, precisamos voltar ao Ministério… — Newt foi direto ao ponto. — Marcos Vasconcelos deixou registros lá. Documentos que talvez revelem mais sobre seus passos antes de desaparecer.
— E esses registros ficam na Sala de Arquivos Confidenciais, acessível para pessoas autorizadas, ou… — lançou um olhar significativo para o grupo — para quem souber entrar sem permissão.
— Isso significa que você vai ter que entrar lá — Lally comentou, ajustando os óculos, e trocou um olhar rápido com Theseus antes de responder.
— Sim, mas há um problema. Como sabemos, meu rosto não é muito bem-vindo no Ministério no momento.
Poção Polissuco? — Jacob sugeriu, embora seu tom não fosse tão confiante.
— Demora meses para ficar pronta — Tina lembrou.
— E eu não sou paciente o suficiente para esperar. — completou.
— Então como pretende entrar? — Yusuf perguntou, cruzando os braços, e a bruxa respirou fundo, se preparando para a reação deles.
— Conheço alguém que pode conseguir Tinta Camaleônica. — O nome caiu na sala como uma pequena explosão silenciosa. Newt piscou, confuso, Lally arqueou as sobrancelhas, e Theseus inclinou a cabeça para o lado, desconfiado.
— Tinta… o quê? — Jacob franziu a testa, olhando de um para o outro. — Isso é tipo tinta invisível?
— Não exatamente… — Ela cruzou os braços, lançando um olhar ao grupo. — É uma tinta mágica criada pelos povos indígenas, extremamente rara. Quando aplicada na pele, se adapta ao ambiente e ao rosto de quem a usa. Basicamente, a pessoa assume outra aparência temporariamente.
Newt franziu o cenho, interessado.
— Uma espécie de disfarce mágico, mas sem a complexidade da transfiguração.
— Exato… — A brasileira assentiu. — Não é tão poderosa quanto a Poção Polissuco, mas funciona bem por algumas horas. E o melhor: não precisa de ingredientes difíceis, nem de meses de preparo.
— Isso não existe mais… foi banida pelo Ministério. — Tina balançou a cabeça, com um olhar sério, e Theseus cruzou os braços e concordou.
— … há anos. O Ministério considerou um risco alto demais, já que é uma magia difícil de rastrear e pode ser usada para infiltração ilegal. Além disso, tentaram controlar a fórmula, mas nunca conseguiram reproduzir a original, porque os povos indígenas a protegiam como um segredo ancestral. O que o Ministério conseguiu confiscar eram apenas imitações fracas.
lançou um olhar afiado para Theseus, um sorriso discreto nos lábios.
— Obrigada pela aula de história, Scamander, mas ela ainda existe, só não é tão fácil de conseguir. Por isso, eu conheço alguém que…
— E por que exatamente você conhece alguém que tem acesso a esse tipo de coisa? — Theseus estreitou os olhos para ela, que revirou os olhos, impaciente.
— Você precisa mesmo perguntar isso?
— Sim, preciso.
— Porque eu já precisei me infiltrar em lugares antes, Theseus.
— E esse alguém é confiável?
— Ele vai conseguir a tinta, não uma bomba-relógio. Mas se te conforta, sim, ele é confiável.
Theseus não pareceu convencido, mas não protestou.
— Certo… Supondo que você consiga essa tinta, quem vai entrar no Ministério? — Lally perguntou, voltando ao foco da missão.
— Eu… — respondeu imediatamente. — Sou a única que sabe onde fica a sala de arquivos.
— Eu vou com você — Yusuf disse, e ela assentiu.
— Podemos ser três, para cobrir melhor — sugeriu, já se arrependendo ao ouvir a voz de Theseus cortando o ambiente.
— Eu também vou.
— Não, não vai. — A brasileira virou-se para ele no mesmo instante, estreitando os olhos.
— Vou sim.
— Não tem necessidade.
— Claro que tem. — Seu tom de voz era firme, e sentiu a irritação crescer.
— Você já é um rosto conhecido no Ministério, Theseus. Se alguém desconfiar de você, a tinta não vai ajudar em nada.
— E se algo der errado e vocês precisarem lutar? — Theseus rebateu. — Você e Yusuf podem lidar com quantos aurores de uma vez?
— Estamos indo furtivos. Não queremos luta.
— Não significa que não vá acontecer.
— Ele tem um ponto — Yusuf interveio, antes de retrucar, e ela lançou um olhar irritado para o homem, que apenas ergueu levemente as mãos.
— Então está decidido. , Yusuf e Theseus vão entrar no Ministério — Tina disse, encerrando a discussão.
apertou os lábios, contendo sua frustração, e Theseus a olhou com um ar irritantemente convencido.
— E nós ficamos do lado de fora, monitorando qualquer movimentação estranha. — Newt completou, e Yusuf soltou um suspiro cansado, passando a mão pelo rosto.
— Só aviso uma coisa… — disse, lançando um olhar entre Theseus e . — Eu não tenho paciência para resolver desavenças no meio de uma missão. Então, seja lá o que for isso, deem um jeito antes de entrarmos naquele Ministério. — Então se levantou, ajeitou o casaco e seguiu para fora da sala.
— Eu não estou brigando. — Theseus bufou, cruzando os braços, mas ninguém respondeu.
apenas revirou os olhos, se afastado um pouco do grupo, aproveitando um instante de silêncio antes de saírem para resolver o que precisava ser resolvido. O ar fresco da manhã bateu em seu rosto quando ela se afastou um pouco da hospedaria, sentindo a raiva pulsar sob sua pele. Theseus era insuportável. Não bastava ter duvidado dela inúmeras vezes, agora ele também precisava ser o senhor da razão. A maneira como insistiu para ir junto, como se ela fosse incapaz de fazer isso sozinha. Ela se sentou em um tronco caído perto da entrada e respirou fundo. Precisava esfriar a cabeça antes de ir buscar a tinta. Tina a observou por um momento antes de se aproximar. percebeu sua presença antes que ela falasse qualquer coisa, se voltando para encará-la com uma expressão neutra.
— Então, … — Começou, se sentando ao seu lado. — Você realmente trabalha para Vicência Santos?
soltou uma risada breve pelo nariz, sem parecer surpresa pela pergunta.
— Essa dúvida nunca vai embora, não é?
— Bom, você tem que admitir que sua história tem… camadas.
— E as melhores histórias não têm?
— Justo. — Goldstein arqueou a sobrancelha com um pequeno sorriso. — Você não parece confortável com tudo isso.
— Não é o perigo que me incomoda, caso esteja se perguntando.
— E sim…?
hesitou por um segundo antes de responder.
— Algumas pessoas têm um talento natural para duvidar de mim.
Tina não precisou de muito para entender a quem ela se referia.
— Theseus pode ser teimoso…
— Essa palavra não chega nem perto do que ele é. — bufou, fazendo a outra mulher rir.
— Ele é um auror experiente. Está acostumado a liderar, a proteger os outros. Não significa que não confia em você, mas sim que não sabe como não estar no controle. E ele também é justo, então, se você está aqui, é porque no fundo ele já sabe que pode confiar em você.
— Isso não o torna menos insuportável. — desviou o olhar por um segundo, como se tentasse lembrar exatamente quando ele passou a ser uma presença constante, ou melhor, irritante, na missão.
— Não mesmo. Mas sabe… eu vi como ele olhava para você hoje de manhã.
— E como exatamente ele estava olhando para mim?
— Como se estivesse tentando resolver um enigma particularmente difícil. — Tina deu de ombros, como se não fosse nada demais.
soltou um riso curto, mas não respondeu de imediato. Theseus era um problema, sim. Mas um que ela estava disposta a ignorar, ou ao menos tentar.
— Bom, espero que ele não gaste energia demais com isso. Vamos precisar dele inteiro no Ministério.
— Você se importa muito com o que ele pensa. — Tina inclinou levemente a cabeça, a analisando.
endureceu a expressão por um breve momento, mas logo disfarçou, dando de ombros.
— Não gosto que duvidem de mim quando estou dando o meu melhor.
— Claro… — O silêncio caiu entre as duas por alguns instantes, apenas o som do vento e dos pássaros preenchendo o espaço. desviou o olhar para o chão, sentindo a presença de Tina ao seu lado, e percebeu que havia algo nela que a deixava desconfortavelmente alerta. Como se estivesse sendo estudada.
— O que foi?
— Tem certeza de que o que sente por ele é apenas antipatia?
— Como é? — A brasileira arqueou as sobrancelhas, surpresa, mas Tina apenas sorriu de canto.
— Não precisa responder.
— Eu não gosto dele, se é isso que está insinuando. Ele é só… — mordeu a língua. — Ele me irrita.
— Ah, claro. E você nunca pensou nele de outra forma, nem por um segundo sequer?
apertou os lábios. A lembrança de seus pensamentos mais cedo, quando Queenie estava lendo sua mente, cruzou como um raio. Theseus todo tenso durante a discussão, a forma como seu olhar escuro queimava. Ela pigarreou e desviou o olhar, mudando de assunto.
— Você e sua irmã adoram bancar as enigmáticas, não é?
— Digamos que é um talento de família.
revirou os olhos, mas não pôde evitar um pequeno sorriso. Então Tina deu um passo à frente e estendeu a mão.
— Bom, acho que ainda não fizemos isso oficialmente. Tina Goldstein.
a encarou por um momento antes de segurar sua mão firmemente.
. — Elas trocaram um olhar de respeito mútuo antes de soltarem as mãos. — Acho melhor eu ir buscar a tinta — disse, se levantando, e Tina apenas assentiu, continuando sentada.

saiu da hospedaria sozinha, sentindo o peso dos olhares sobre suas costas, especialmente o de Theseus, que, mesmo sem proferir uma palavra, deixava claro que não gostava nada da ideia de ela sair sem companhia. Mas sabia se cuidar e não estava indo para um lugar desconhecido. Se enfiou pelas ruas estreitas, passando por bruxos que conversavam sob toldos encantados, lojas com poções ilegais e mercadores sussurrando ofertas de artefatos mágicos. Não era um lugar onde um auror pisaria despreocupado. Depois de algumas curvas e um aperto de mão discreto com um vendedor de rua, entrou em um pequeno armazém escuro, onde o cheiro de ervas e pergaminhos velhos tomava o ar.
— Você demorou — murmurou um homem de capuz, encostado no balcão. Ele girava uma pequena garrafa nas mãos, o líquido dentro dela mudando de tom conforme a luz batia.
— Você que vive ocupado demais para responder rápido — rebateu, encostando os cotovelos no balcão, e o homem riu baixo, deslizando o frasco até ela.
— Cuidado com isso. Você já sabe que o efeito não dura muito tempo.
— Eu sei. — Pegou a tinta e, com um aceno discreto, deixou o lugar sem olhar para trás.

chegou à hospedaria sem cerimônia, colocando o frasco de tinta sobre a mesa. Os olhares se voltaram para ela, especialmente o de Theseus, que estava de pé, com os braços cruzados.
— Você está bem? — perguntou Newt, a analisando rapidamente.
— Perfeitamente bem — respondeu, abrindo o recipiente com cuidado, o cheiro metálico se espalhando pelo ar. — Vamos ver se isso ainda funciona.
Com um pincel fino, ela passou um pouco da tinta no antebraço. Aos poucos, a pele começou a mudar de tom, primeiro parecendo manchada, depois assumindo um tom completamente diferente, como se tivesse sido transfigurada. Yusuf assobiou, impressionado.
— Admito que nunca tinha visto isso em ação.
— Certo, eu vou precisar de ajuda para passar isso — ela disse, olhando ao redor, até parar em Caio. — Pode me ajudar?
Caio arqueou uma sobrancelha, mas se aproximou sem hesitar.
— Se você confia em mim com uma coisa dessas, quem sou eu para negar?
Ele pegou um pincel e mergulhou na tinta. Enquanto deslizava o líquido sobre a pele dela, os outros observavam, atentos.
— E funciona só na pele? — Lally perguntou, se inclinando para olhar.
— Roupas também — explicou. — Mas precisa ser um tecido encantado para absorver a tinta sem borrar. Eu trouxe algumas opções.
Ela jogou sobre a mesa alguns tecidos escuros, e Newt pegou um, observando enquanto Caio continuava passando a tinta em .
— E quanto tempo dura? — Theseus questionou, ainda com um olhar cético.
— Varia. Se você suar muito, ou molhar, vai desbotar mais rápido. Mas, se aplicarmos da maneira certa, pode durar algumas horas.
— Ótimo. — Tina assentiu. — Então o plano é: , Theseus e Yusuf entram no Ministério. O restante fica do lado de fora, observando qualquer movimentação.
— E se algo der errado? — Queenie perguntou, e um silêncio momentâneo se instalou, até Theseus respirar fundo.
— Vamos garantir que não dê.
— Por que eu sinto que vai dar? — Jacob olhou de um para o outro e resmungou.
Caio e estavam mais afastados dos outros e, enquanto ele deslizava o líquido sobre a pele dela, conversavam em português, suas vozes um pouco mais baixas do que o normal.
— Isso tudo é perigoso demais, — murmurou, a testa franzida. — Você tem certeza do que está fazendo?
— Sim, Caio. Vai ficar tudo bem.
— Até mesmo a tinta é perigosa. Quer dizer, o Ministério proibiu por um motivo, não é?
— Eu sei. Mas não temos outra escolha agora.
Do outro lado da sala, Theseus observava tudo em silêncio, os braços cruzados, a expressão neutra demais para ser natural. Seus olhos estavam fixos nos movimentos de Caio, cada deslizar do pincel sobre a pele de parecendo se arrastar no tempo. Ele sabia que não tinha motivo para se incomodar, afinal, aquilo fazia parte do plano, nada além disso. E, ainda assim, algo nele se mantinha tenso. O jeito como conversava com Caio, a facilidade com que se entendiam, a forma descontraída como ele segurava o braço dela para passar a tinta… Era irritante. Ele percebeu que sua mandíbula estava travada quando sentiu um leve incômodo nos músculos do rosto e se forçou a relaxar. Estava apenas atento ao plano. Era isso. inclinou ligeiramente a cabeça quando Caio murmurou algo em português, a voz baixa, um tom preocupado que Theseus não conseguiu decifrar. Ela respondeu no mesmo idioma, e os dois trocaram um olhar breve antes de Caio voltar a deslizar a tinta sobre sua pele. Theseus desviou o olhar por um segundo, sentindo um incômodo estranho no peito.
— Você está bem? — Yusuf, ao seu lado, notou o silêncio e lançou um olhar de canto, e o auror soltou um suspiro baixo, relaxando os ombros.
— Ótimo. Apenas garantindo que isso seja feito direito.
O francês ergueu uma sobrancelha, claramente não convencido, mas não insistiu. Caio terminou de pintar e pegou mais tinta para aplicar em Yusuf. Mas antes de começar, lançou um olhar travesso para ela e murmurou algo em português, bem baixo, para ninguém mais ouvir.
— Eu tô percebendo que esse engomadinho aí é o seu favorito.
— Não enche, Caio. — revirou os olhos e deu um empurrão leve em seu ombro, e ele riu baixinho, se inclinando um pouco mais para sussurrar.
— Olha só, fiz questão de escolher o Yusuf pra te deixar com o bonitão aí. Não precisa agradecer.
Ela lançou um olhar de pura ameaça, mas Caio apenas riu mais, claramente se divertindo às suas custas. Theseus, que observava a cena em silêncio, notou o olhar ligeiramente constrangido de e o jeito que ela desviou o olhar rapidamente, e sentiu um calor estranho subir pelo pescoço. O que ele havia dito? E por que reagiu daquele jeito? Caio, satisfeito com a própria provocação, começou a pintar Yusuf, que apenas observava tudo sem entender nada.
— O que ele disse? — Kama perguntou, franzindo as sobrancelhas.
— Nada — a brasileira respondeu rapidamente, pegando o pincel da mão do amigo com um pouco mais de força do que o necessário e o embebendo na tinta. Ela olhou para Theseus, que a observava com uma expressão indecifrável, e ele bufou baixinho, desviando o olhar para qualquer outro ponto da sala. O músculo em sua mandíbula ainda pulsava. — Fica parado — disse, tentando soar neutra, e Theseus ergueu uma sobrancelha, mas não disse nada. Apenas cruzou os braços, como se estivesse desafiando-a de alguma forma. respirou fundo e começou a passar a tinta pelo rosto dele. Sentiu a pele quente sob o pincel e percebeu o quanto ele estava tenso, o maxilar travado e os ombros rígidos. — Relaxa, senão vai ficar estranho.
— Eu estou relaxado — Theseus respondeu, embora estivesse claramente o oposto disso.
revirou os olhos e continuou o trabalho, tentando ignorar o olhar fixo que ele mantinha sobre ela. A proximidade era desconfortável. Ou melhor, desconfortável pelo motivo errado. Enquanto isso, Caio observava tudo com um sorrisinho divertido nos lábios, e Yusuf apenas suspirou, já acostumado com aquela dinâmica.
— Você não precisa me olhar desse jeito — disse, sem pensar muito, e Theseus inclinou ligeiramente a cabeça.
— Que jeito?
— Esse jeito... intenso. — Gesticulou com o pincel, quase encostando na ponta do nariz dele.
— Só estou garantindo que você esteja fazendo um bom trabalho. — Ele deu um sorrisinho de canto, quase imperceptível, mas estreitou os olhos para ele e, como vingança, pressionou o pincel com um pouco mais de força contra sua bochecha. — Ei!
— Foi mal, escorregou — ela disse, sem o menor arrependimento, enquanto Caio ria baixinho.
— Sei… — terminou de aplicar a tinta e recuou um pouco para observar o trabalho. A mágica já estava começando a surtir efeito, e a pele de Theseus começou a mudar, assumindo uma nova aparência. Ele piscou algumas vezes, parecendo surpreso. — Bom... acho que funcionou.
— Ótimo, agora é só não fazer cara de quem quer prender alguém e ninguém vai desconfiar.
— Eu não faço essa cara — o auror protestou, mas ela cruzou os braços e arqueou uma sobrancelha.
— Claro que não.
Theseus suspirou, mas havia um brilho em seus olhos que fingiu não notar.



A Tinta Camaleônica havia feito seu trabalho.

, Theseus e Yusuf estavam irreconhecíveis. Suas feições, cores de cabelo e até mesmo as estruturas de seus corpos haviam se alterado de maneira sutil, os tornando figuras completamente diferentes do que eram. Agora, caminhavam pelo enorme hall do Ministério da Magia do Brasil, se misturando aos funcionários e visitantes que passavam apressados, carregando pilhas de pergaminhos e documentos enfeitiçados que flutuavam ao seu redor. manteve a cabeça erguida, como se estivesse apenas indo resolver algo banal. Ao seu lado, Kama caminhava com naturalidade, enquanto Scamander parecia conter o instinto de analisar cada canto do ambiente como um auror em missão. O barulho das conversas ecoava pelos corredores de pedra, e as vestes de bruxos de diferentes departamentos esvoaçavam enquanto caminhavam apressados, alguns segurando pastas recheadas de documentos, outros discutindo feitiços em tom de urgência. Ela não deveria se preocupar. Estava irreconhecível. Ninguém ali a veria como , apenas como mais uma funcionária do Ministério, sem traços que denunciassem sua verdadeira identidade. Ainda assim, seu coração batia mais rápido do que gostaria de admitir, principalmente depois de captar rostos que conhecia bem demais. Cecília Prado, do Departamento de Segurança Mágica, discutia algo com um colega logo à frente. Atrás dela, um grupo de bruxos saía de um elevador, e reconheceu de imediato um dos seguranças da sessão de registros confidenciais.
— Fique tranquila — murmurou Theseus, mantendo o tom casual.
Só então ela percebeu que havia prendido a respiração até aquele momento.
— Eu estou tranquila — sussurrou de volta, forçando um olhar de tédio para se misturar à multidão.
— Claro… — ele ironizou, os olhos fixos à frente, sem dar qualquer indício de que estavam tendo uma conversa importante, e Yusuf lançou um olhar para os dois, mas não disse nada. — Não sabia que sentiria falta do meu próprio rosto.
— Você está melhor assim — ela provocou, um pequeno sorriso se formando em seu rosto.
— Essa doeu… Se é assim, o que me diz da sua nova aparência? — O auror lançou-lhe um olhar de canto.
— Acho que posso me acostumar.
— Eu não — retrucou, sem pensar. — Prefiro a original.
piscou, se pegando momentaneamente surpresa com a resposta, e ele também pareceu notar tarde demais o que havia dito. Um silêncio curto, porém carregado de algo indefinível, pairou entre os dois antes que Yusuf pigarreasse, chamando a atenção.
— Vocês vão ficar brincando, ou podemos continuar?
— Vamos. — Ela revirou os olhos, retomando o foco.
Os três seguiram pelo corredor principal, passando por uma enorme fonte de água com esculturas de criaturas mágicas entrelaçadas, até se aproximarem dos portões que davam acesso à área restrita do Ministério. Do lado de fora, os outros continuavam atentos, observando qualquer movimento suspeito.

A missão havia começado.

O primeiro obstáculo estava ali: um bruxo de meia-idade, de túnica escura e expressão cansada, estava parado perto da entrada, revisando alguns documentos. Eles tentaram passar direto, mas o homem ergueu os olhos e franziu a testa ao vê-los.
— Ei, vocês três! — praguejou mentalmente antes de se virar para encará-lo, e os dois ao seu lado fizeram o mesmo, mantendo expressões neutras. — Não lembro de já tê-los visto por aqui antes — comentou em português, dando um passo mais próximo. — São novatos?
— Sim, fomos transferidos recentemente. Trabalho na catalogação de registros e eles… — lançou um olhar para os estrangeiros — foram designados para reforçar a segurança do setor.
— Segurança, é? Bem, então devem saber a senha de hoje. — O homem cruzou os braços, analisando os três, e congelou por um segundo.

Senha?

Ela notou o corpo de Theseus enrijecer levemente ao seu lado, provavelmente por também não ter ideia do que fazer – sequer entendia o que estava sendo dito. Pensando rápido, suspirou teatralmente, forçando um sorriso.
— Mas é claro que mudaram de novo, não é? A gente mal se acostuma com uma e já vem outra…
— Nem me fale… só ontem foi “dragão de ferro”, hoje mudaram de novo. — O homem riu de leve e, apesar de não estarem entendendo nada, Theseus e Yusuf perceberam que estava se dando bem. E ela viu sua chance.
— Nem me diga… e hoje qual é?
— “Esfinge dourada”. Não sei quem escolhe essas senhas, mas…
— Bom, pelo menos essa é fácil de lembrar. — soltou uma risada casual, e o homem concordou, dando um passo para trás.
— Certo, podem entrar.
Ela sorriu de leve, tentando não demonstrar alívio, e seguiu adiante, sentindo o olhar de Theseus e Yusuf sobre ela.
— Espertinha — Scamander comentou, assim que passaram pela porta.
— Alguma vez duvidou?
Ele não respondeu, mas o canto da boca se ergueu levemente.
Agora, estavam oficialmente dentro da ala restrita. os liderava com passos firmes, tentando ignorar a crescente tensão em seu peito. O Ministério era um labirinto de corredores e escritórios, mas ela conhecia bem o caminho para a ala dos Registros Confidenciais. O problema era que essa era uma das áreas mais vigiadas. Yusuf andava logo atrás dela, atento a qualquer movimento suspeito, enquanto Theseus, ao seu lado, mantinha um olhar sério, analisando cada detalhe ao redor. Eles viraram em outro corredor, e finalmente viu a porta que procuravam – diferente das demais, tinha apenas uma pesada estrutura de madeira escura com símbolos mágicos gravados, e uma placa discreta ao lado indicava “Acesso restrito – apenas funcionários autorizados”.
— É aqui. — A brasileira parou a alguns passos da entrada.
— Algum tipo de encantamento de proteção? — Theseus perguntou, enquanto analisava a porta.
— Provavelmente vários — ela confirmou, cruzando os braços. — Mas o maior problema é que sempre tem um guarda por aqui.
— Estranho… — Yusuf franziu a testa. — Não há ninguém.
também achou aquilo esquisito. Já havia passado por ali antes e sempre tinha pelo menos um segurança patrulhando a área.
— Pode ser uma armadilha — Scamander disse em tom baixo, e ela soltou um suspiro, avaliando a situação.
— Bom, não temos escolha. Precisamos entrar. — Se aproximou da porta e passou os dedos pelas runas entalhadas ali, sentindo uma leve vibração mágica e confirmando que a barreira ainda estava ativa. — Preciso desativar isso sem ativar nenhum alarme…
— E você consegue? — Theseus perguntou, a observando de perto.
— Se você parar de me distrair, sim. — lançou um olhar em sua direção com um brilho desafiador, e Yusuf reprimiu um riso, enquanto Scamander apenas revirou os olhos. Ela puxou a varinha e começou a murmurar feitiços de neutralização. A magia da porta resistiu por um momento, mas logo as runas começaram a brilhar fracamente antes de se apagarem. — Pronto.
Theseus girou a maçaneta devagar e empurrou a porta, que abriu com um rangido suave, a fechando assim que todos passaram por ela. A sala era vasta, cheia de estantes carregadas de pergaminhos e documentos, e uma iluminação fraca vinha de velas flutuantes espalhadas pelo teto, além do cheiro de papel antigo e tinta pairar no ar.
— Precisamos ser rápidos — Yusuf lembrou. — O que exatamente estamos procurando?
— Um documento deixado por Marcos. Algo que tenha a ver com a serpente e o local onde ele nos mandou encontrar se tudo desse errado.
Se espalharam pela sala, cada um indo para uma seção diferente, apesar de, no fundo, saberem que o tempo estava contra eles. O espaço era mais apertado do que se lembrava, com prateleiras abarrotadas de pergaminhos e pastas, cada uma carregando segredos que poderiam derrubar carreiras inteiras. A luz mágica oscilava fracamente sobre eles, enquanto se moviam apressados, os passos abafados pelo encanto de silêncio que Kama conjurou assim que entraram. Ela passou os olhos pelas etiquetas nas prateleiras, procurando qualquer menção a Marcos Vasconcelos.
— Ele disse que deixaria uma pista aqui, mas não disse onde exatamente…
— Theseus, me ajuda aqui — Yusuf chamou, puxando uma gaveta pesada, e o auror se aproximou, começando a vasculhar papéis selados com o brasão do Ministério.
caminhou para outra seção, os dedos passando por pergaminhos antigos, até algo chamar sua atenção. Uma pasta, aparentemente igual às outras, mas havia um pequeno emblema gravado no canto inferior da capa – um desenho de uma serpente em posição de ataque. Ela estendeu a mão e puxou a pasta.
— Achei alguma coisa. — Abriu a pasta com cautela, revelando vários documentos oficiais, mas um deles se destacou: um pedaço de pergaminho dobrado, com uma caligrafia apressada. — Se tudo der errado, me encontre onde a serpente se curva para beber. — O trio se entreolhou, e Theseus pegou o bilhete, o analisando por um momento antes de soltar um suspiro.
— Pelo visto, Marcos queria ter certeza de que essa mensagem chegaria até outras pessoas.
abriu a boca para responder, mas um som metálico ecoou pela sala – como se a porta tivesse sido trancada pelo lado de fora –, e os três se viraram imediatamente. Não estavam sozinhos.
— Se nos trancaram aqui, significa que sabiam que a gente vinha — Kama disse em um tom grave, ao mesmo tempo em que sacava a varinha, assim como os outros dois, atentos para qualquer movimento.
respirou fundo, a mente trabalhando rápido, pensando se haveria alguma saída. Foi quando ouviram passos rápidos e determinados se aproximando do outro lado da porta e o som metálico de fechos destravando ecoando pela sala, até que… silêncio. A porta se abriu de repente, revelando duas figuras encapuzadas, e, sem hesitação, os feitiços começaram a voar. Os três conseguiram se livrar rapidamente dos bruxos e dispararam pelos corredores do Ministério à medida que mais inimigos se aproximavam, desviando de feitiços que zumbiam ao redor, o barulho ricocheteando nas paredes de pedra misturado ao som de passos pesados dos bruxos que os perseguiam.
… — Yusuf chamou, tentando acompanhar o ritmo frenético. — Por onde?
— À direita! — ela respondeu, desviando antes que um feitiço passasse raspando onde estava um segundo antes.
— Acho que essa é uma boa hora pra você soltar aquele seu feitiço especial de novo! — Theseus sugeriu, a voz carregada de adrenalina.
Viraram outra esquina, dando de cara com mais quatro bruxos bloqueando o caminho. Atrás deles, os outros se aproximavam. Estavam cercados. Yusuf ergueu a varinha, pronto para lutar, mas foi mais rápida.
Fulminare!
A explosão elétrica iluminou o corredor com um clarão azul, atingindo os inimigos de frente e os lançando para trás. O impacto foi o suficiente para derrubar os outros que vinham logo atrás, abrindo caminho para a fuga. Scamander a agarrou pelo pulso e puxou Yusuf, que ainda olhava para os corpos caídos e faíscas dançando no ar, soltando um som baixo de surpresa.
— O que foi isso?
— Depois eu te explico — Theseus respondeu, com um meio sorriso, antes de voltar a correr.
Agora, o objetivo era claro: chegar até os outros e sair dali antes que mais reforços aparecessem.
O som da confusão no Ministério aumentava a cada segundo. Eles continuavam correndo, desviando de feitiços e saltando sobre os corpos caídos dos bruxos atingidos pelo Fulminare. Ao dobrarem um corredor, deram de cara com o restante do grupo.
— AGORA! JUNTA TODO MUNDO! — gritou e, sem questionar, o grupo se agrupou instintivamente ao redor dela.
Theseus puxou Newt pelo braço, Queenie agarrou Jacob, e Lally segurou firme em Yusuf e Tina. No mesmo instante, a brasileira fechou os olhos e se concentrou no único destino que fazia sentido.

O rio. Onde a serpente se curva para beber.

O ar ao redor deles pareceu explodir para dentro, como se estivessem sendo sugados por um vácuo, e tudo se tornou um borrão distorcido de cores e sons abafados. Então, de repente…

BAM!

Caíram no chão com um impacto abrupto, a poeira subindo ao redor, enquanto todos tentavam se recompor, e Jacob tossiu, sacudindo a sujeira do paletó.
— Isso foi um pouco mais bruto do que o normal, não foi?
— Onde estamos? — Newt piscou algumas vezes antes de ajustar a postura.
se levantou devagar, os olhos percorrendo o ambiente. Definitivamente, não estavam no rio, e, sim, dentro de uma caverna escura, úmida, com musgo cobrindo as pedras e estalactites pingando lentamente do teto. O cheiro de terra molhada e vegetação abafada indicava que estavam de volta à floresta. Enquanto o grupo se recuperava da aparatação, a caverna onde haviam parado começava a se revelar aos poucos. A luz da varinha de Yusuf tremeluzia nas paredes úmidas, projetando sombras irregulares.
… o que você fez? — Theseus suspirou, passando a mão pelo rosto, e ela girou nos calcanhares, o encarando.
— O que eu fiz? Salvei todo mundo! De nada, aliás.
— Definitivamente não estamos no rio. — Kama olhou ao redor, a expressão cética.
— É quase o rio. — bufou, colocando as mãos na cintura. — Deve ser uma caverna próxima. Eu não tive tempo de pensar exatamente no lugar certo, okay?
— Bom, pelo menos estamos escondidos. Acho que ninguém nos seguiu. — Lally se aproximou, observando o local com curiosidade.
— Eu não sinto ninguém por perto. Pelo menos, não ainda. — Queenie estreitou os olhos, tentando ouvir qualquer pensamento distante.
O silêncio que se seguiu foi pesado. O grupo finalmente parou para respirar, absorvendo tudo o que havia acontecido. Jacob ainda sacudia a poeira da roupa quando olhou ao redor e soltou um riso nervoso.
— Olha, podia ter sido pior. Ela podia ter nos teleportado pro fundo do rio.
— Obrigada pela confiança, Jacob. — lançou um olhar afiado para ele.
— Sabe, considerando que fomos cercados e quase presos, até que eu estou contente de estarmos vivos. — Theseus suspirou, massageando as têmporas, e ela sorriu satisfeita.
— Viu? Pode me agradecer depois.
— Não vou me precipitar. Vai que na próxima você decide nos jogar no meio de um ninho de Acromântulas, ou para dentro de um vulcão. — Ele cruzou os braços, sem esconder a ironia no olhar, mas Jacob imediatamente o interrompeu, erguendo as mãos.
— Okay, chega de falar de lugares onde eu definitivamente não quero estar. Vamos focar no que interessa… tem alguém aqui que sabe onde a gente tá?
— Bem… se tentou nos levar para o rio, essa caverna deve ser parte do sistema subterrâneo que se conecta a ele. — Newt deu um passo à frente, observando a caverna com atenção. — É possível que exista uma saída próxima. Devíamos explorar e descobrir onde exatamente estamos.
— Eu posso dar uma olhada na caverna — disse Lally, já sacando a varinha. — Se for segura, pode ser um bom ponto para nos reagruparmos antes de seguirmos para o rio.
— Eu vou com você. — Queenie se voluntariou. — Melhor termos certeza de que não tem nenhuma surpresa esperando.
— Jacob e eu podemos ajudar a organizar as coisas por aqui — sugeriu Tina, olhando ao redor, e o não-maj assentiu.
— Ótimo. E nós… — Theseus ergueu a pasta que haviam tirado do Ministério — vamos ver o que Marcos Vasconcelos queria nos dizer. — se aproximou, se sentando ao lado dele e pegando o primeiro pergaminho da pilha. As bordas estavam levemente queimadas, e a tinta parecia ter sido escrita às pressas. O auror lançou um olhar discreto para ela, rápido o suficiente para passar despercebido pela maioria, mas longo o bastante para que seus olhos percorressem o rosto dela antes de se fixarem novamente nos documentos. — Certo, vamos ver o que temos aqui… — Yusuf se abaixou próximo a eles, observando por cima do ombro de Theseus, enquanto ele abria outro documento. — Parece um diário de anotações… tem registros sobre encontros, algumas datas e… algo sobre o rio.
virou seu pergaminho, lendo em voz alta:

O guardião não se curva por qualquer um. Somente aqueles que carregam a marca podem passar sem serem arrastados pela correnteza.

O silêncio caiu sobre os três por um instante.
— Marca? — Yusuf repetiu. — Ele está falando de algo específico?
então pegou a moeda que haviam encontrado na pasta e a virou entre os dedos. Era pesada, feita de um material escuro que brilhava levemente sob a luz da caverna.
— Talvez seja isso.
Theseus tomou a moeda das mãos dela e a observou de perto, inclinando a cabeça.
— Parece antiga. E tem algo gravado aqui… é uma serpente enrolada…
trocou um olhar rápido com Yusuf.
— Onde a serpente se curva para beber — citou a pista do bilhete que haviam encontrado.
— Parece que acabamos de descobrir a chave para atravessar esse rio — Kama concluiu.
— Bom trabalho. — Theseus girou a moeda entre os dedos e a estendeu de volta para .
— Você também. — Ela aceitou o objeto sem desviar o olhar dele e, por um momento, a caverna pareceu um pouco menor.
Mas, antes que qualquer coisa fosse dita, Lally e Queenie retornaram.
— A boa notícia é que não tem nada ameaçador por aqui — Eulalie informou. — Só alguns morcegos irritados que não gostaram muito da nossa presença.
— E a má notícia? — Jacob perguntou, e Queen suspirou.
— O rio está mais perto do que imaginávamos…, mas tem algo estranho nele.
Os olhares se voltaram para , Theseus e Yusuf, que ainda seguravam os documentos.
— Nós encontramos uma moeda. — A brasileira começou a explicar, segurando o objeto entre os dedos. — Parece ser um tipo de chave para atravessar.
Os olhares se cruzaram entre o grupo e um entendimento silencioso passou entre eles.
— Então acho que temos nosso próximo passo — Newt murmurou.
Enquanto o grupo se ajeitava pela caverna, tentando se organizar e decidir os próximos passos, um movimento sutil no teto fez Lally franzir o cenho. Ela cutucou Queenie e apontou para cima.
— Está vendo isso?
A loira levantou o olhar e viu pequenas sombras movendo-se rapidamente no alto da caverna. Pareciam apenas morcegos, então deu de ombros.
— Devem ser os morcegos que vimos quando chegamos — comentou, sem dar muita importância.
Mas então sentiu um arrepio na nuca. Havia algo errado com aquelas criaturas.
— Esses morcegos estão meio estranhos, não? — murmurou Yusuf, estreitando os olhos.
Newt, que estava mais afastado analisando os documentos, ergueu a cabeça ao ouvir o comentário. Ele seguiu os olhares dos outros para o alto e, instintivamente, puxou sua varinha. Uma luz iluminou o teto da caverna e então todos puderam ver que os “morcegos” não eram exatamente morcegos. Eram maiores, com olhos brilhantes e uma pele que parecia retorcida, como se estivessem sempre entre sombras. Um rosnado baixo ecoou quando a luz os atingiu e as criaturas começaram a se agitar. Ele franziu a testa, as analisando com um misto de fascínio e preocupação.
— Não são morcegos. São Cãoeras.
O grupo trocou olhares tensos.
— O quê? — Jacob perguntou, engolindo em seco, enquanto Newt ajeitava a postura, assumindo o tom de quem estava prestes a dar uma aula.
Cãoeras são criaturas noturnas extremamente sensíveis à luz. Costumam se esconder em cavernas durante o dia e sair para caçar à noite. — Fez uma pausa, observando os movimentos das criaturas antes de continuar, sua voz levemente mais baixa, como se estivesse apenas relatando um fato natural. — Eles preferem atacar quando suas presas estão dormindo. Primeiro, sugam todo o sangue do corpo e a vítima morre sem sequer perceber… — gesticulou com a mão livre, como se quisesse enfatizar o ponto — depois, se alimentam da carcaça, até sobrarem só os ossos.
Um silêncio pesado preencheu a caverna. Jacob piscou várias vezes, pálido.
— Ah, ótimo. Então, basicamente, se a gente dormir aqui, viramos um lanchinho da meia-noite?
— Sim, exatamente! — respondeu Newt, como se essa fosse a informação mais comum do mundo.
— Que maravilha. — soltou um suspiro longo.
— Mas eles só atacam quando se sentem ameaçados. — E, como se tivessem entendido as palavras de Newt, as sombras no teto se contorceram e um som agudo, quase como um guincho, preencheu a caverna.
— Ok… isso não é um bom sinal — murmurou Theseus, segurando firme sua varinha à medida que as criaturas começaram a descer das paredes da caverna, avançando em direção a eles. — Newt, alguma dica de como lidar com esses bichos?
— Luz forte… — o mais novo alertou rapidamente, sua atenção voltando para o grupo. — Eles não suportam. É a única forma de afastá-los.
— Deixa comigo! — Lally não esperou um segundo a mais.
Com um movimento rápido, conjurou um Lumos Maxima, e um clarão intenso explodiu na caverna. Os Cãoeras soltaram guinchos estridentes, recuando imediatamente para as sombras. Os outros não perderam tempo e reforçaram a iluminação. As criaturas se encolheram contra as paredes e, por fim, desapareceram por fendas mais profundas da caverna, longe do alcance da luz. O silêncio voltou, deixando apenas o som das respirações aceleradas do grupo. Jacob foi o primeiro a falar:
— Eu odeio esse lugar.
— Bem, pelo menos agora sabemos que essa caverna não é exatamente um bom lugar para passar a noite. — abaixou a varinha devagar, ainda de olho no teto.
— É, mas, pelo visto, vamos ter que nos contentar com isso por enquanto. — Theseus exalou devagar, guardando a varinha.
Eles trocaram olhares, cientes de que aquela floresta continuava cheia de surpresas nada agradáveis.

A floresta ao redor do rio parecia segurar a respiração. Nenhuma folha se movia, nenhum som de animal ecoava entre as árvores. O grupo caminhava com cautela pela margem do rio, os passos abafados pela terra úmida e pela vegetação densa ao redor. A luz do dia filtrava-se fracamente pelas copas das árvores, projetando sombras distorcidas sobre a água escura. O ar era pesado, carregado de umidade, e um cheiro forte de vegetação apodrecida se misturava ao aroma característico do rio. sentiu um arrepio subir por sua espinha. Havia algo de errado ali. O rio, que deveria estar correndo livremente, estava parado demais. A água parecia densa, quase pegajosa, como se houvesse algo invisível a prendendo ali.
— Eu disse que tinha algo estranho nele… — murmurou Queenie, estreitando os olhos para a superfície escura.
Newt parou ao lado dela, observando com atenção. Seu olhar estudioso se fixou na água por um momento antes de se virar para os outros.
— O ecossistema parece alterado. Alguma coisa está interferindo aqui.
— Pode ser magia? — Lally perguntou, também observando a água.
— Talvez… — respondeu, ainda pensativo.
Enquanto isso, Jacob, sem captar completamente a tensão do momento, tentou aliviar o clima.
— Ah, gente, pode ser só um rio normal, né? Quero dizer, nem todo rio esquisito precisa ser assombrado…
— Shhh, Jacob! — sibilou, olhando ao redor.
Ele ergueu as mãos, como quem se rendia, e murmurou um “foi mal”, mas ficou quieto depois disso. Foi então que Queenie parou abruptamente, com uma expressão estranha no rosto, e levou a mão à cabeça, como se tentasse afastar algo invisível.
— O que foi? — perguntou Tina, a observando com atenção.
— Tem… alguém aqui… — ela murmurou, fechando os olhos por um instante. — Eu senti uma presença… como se estivesse tentando se infiltrar nos meus pensamentos.
Antes que pudessem responder, um estalo ecoou pela margem — um galho havia se partido sob os pés de Yusuf. Ele soltou um palavrão baixo e olhou para os lados, mas ninguém riu. O clima era sério demais.
— Vamos continuar andando — disse Theseus em um tom mais baixo do que o habitual.
O grupo seguiu em frente, os olhos atentos à água e às árvores ao redor, mas, enquanto avançavam, não perceberam o redemoinho discreto que começava a se formar no meio do rio. A princípio, parecia apenas uma perturbação sutil na superfície, girando devagar. Mas então, por entre as ondas distorcidas, algo emergiu: um par de olhos amarelos brilhantes rompeu a escuridão da água.

E ele estava observando.

Havia uma embarcação mais à frente, parada e parcialmente encoberta pela névoa leve que subia do rio. Parecia vazia, mas algo não estava certo. Conforme se aproximavam, perceberam um movimento sutil ao redor dela, uma sombra sinuosa deslizando sob a água escura, acompanhando cada passo que davam.
— Tem algo se mexendo ali — murmurou Yusuf, estreitando os olhos.
O grupo parou, analisando a cena, mas, antes que pudessem tomar qualquer decisão, Queenie ofegou e levou as mãos às têmporas, como se estivesse sentindo uma dor repentina.
— O que foi? — Jacob perguntou, se virando para a esposa, visivelmente preocupado.
— Tem… alguma coisa tentando entrar na minha mente — ela respondeu com a voz trêmula, como se estivesse lutando contra algo invisível.
arregalou os olhos. Aquilo só podia significar uma coisa.
— Eu acho que sei o que é — disse, começando a vasculhar sua bolsa freneticamente, mas a moeda não estava lá.
— O que quer dizer com “acha que sabe”? — Theseus perguntou, a desconfiança evidente no tom.
— Quero dizer que eu preciso achar a maldita moeda! — a brasileira rebateu, revirando tudo dentro da bolsa, cada vez mais aflita.
— Você perdeu a moeda? — Ele cruzou os braços, os olhos brilhando com irritação.
— Eu não perdi! Ela estava bem aqui! — respondeu frustrada.
— Ótimo! Simplesmente maravilhoso! Agora não temos nem moeda, nem plano.
— Theseus, esse não é o momento! — Yusuf interveio, olhando de relance para Queenie, que apertava os olhos com força, como se tentasse erguer uma barreira mental contra a criatura que tentava invadir sua mente.
— Gente, vamos logo com isso! — Jacob apressou, enquanto segurava Queenie pelo braço.
bufou, pronta para responder Theseus novamente, quando sentiu um pequeno movimento dentro da bolsa. Franziu o cenho e, ao afastar alguns objetos, encontrou um par de olhinhos brilhantes a encarando: Teddy. O Pelúcio estava aninhado entre suas coisas, segurando algo com suas pequenas garras. Newt, que observava a cena ao lado dela, arregalou os olhos, surpreso.
— Teddy?! — Ele se inclinou ligeiramente. — O que você está fazendo aí? Como…?
O Pelúcio respondeu com um som baixinho, se aninhando mais fundo na bolsa.
— Ah, não, não, não, nada disso! — suspirou. — Me dá isso. — Teddy balançou a cabeça em negação, apertando a moeda contra o peito peludo como se fosse o tesouro mais precioso do mundo. — Teddy, você não pode simplesmente pegar as coisas importantes das pessoas!
— É o que eu venho dizendo há anos — Newt murmurou, sem paciência. — Olha, Teddy, eu sei que gosta de objetos brilhantes, mas essa moeda não é só um enfeite. Precisamos dela.
O Pelúcio soltou um ruído baixo, abraçando a moeda como se fosse a coisa mais valiosa do mundo.
… — Theseus chamou, agora com urgência na voz. Ela olhou para ele, depois para Queenie, que estava cada vez mais pálida. O tempo estava se esgotando.
— Teddy, lembra do nosso acordo? — A brasileira tentou mais uma vez, a voz mais gentil. O pequeno Pelúcio hesitou, apertando a moeda entre as patinhas. — Se me entregar, eu te dou um presente depois. Algo brilhante, maior do que essa moeda. — Teddy inclinou a cabecinha, claramente interessado, mas ainda relutante, e estendeu a mão. — Teddy, por favor. — Ele suspirou e finalmente entregou o objeto para ela, que segurou firme. — Obrigada.

Mas já era tarde.

O rio, antes calmo, começou a borbulhar e uma forma monstruosa emergiu das águas escuras: uma figura alta e distorcida, com pele encharcada e olhos amarelados que brilhavam como faróis na escuridão. A boca larga se abriu, revelando presas afiadas, enquanto uma risada gutural e zombeteira ecoava pelo ar.
— Bom, bom… — A voz arrastada saiu da criatura, cheia de diversão cruel. — Eu estava começando a achar que vocês nunca perceberiam minha presença. — Os músculos de todos se contraíram, e Queenie arfou, como se tivesse sido finalmente solta das garras invisíveis que a pressionavam. O Caboclo d’Água ergueu uma mão gotejante, passando a língua grotesca pelos dentes. — Vamos ver se vocês conseguem me entreter… antes de se tornarem meu jantar.



O Caboclo d’Água inclinou a cabeça levemente para o lado, os lábios distorcidos num sorriso que não parecia natural.
— Visitantes… — Sua voz saiu distorcida, ecoando como se viesse das profundezas do rio. — Um pagamento inadequado pode custar caro…
Um arrepio percorreu o corpo de quando a água ao redor da embarcação começou a se mover de maneira sutil, formando um redemoinho cada vez mais nítido. Queenie soltou um gemido baixinho, as mãos indo automaticamente à cabeça.
— Alguém… está sussurrando… — Sua voz saiu fraca, e Jacob imediatamente segurou seus ombros, preocupado.
— Ei, Queen, fica comigo, tá bom? — Tentou acalmá-la, lançando um olhar apreensivo para os outros.
engoliu seco e segurou firme a moeda que havia conseguido recuperar de Teddy, sentindo o metal frio contra a palma da mão.
— Tudo bem… nós temos o pagamento. — Sem hesitar, jogou a moeda na água.
O som do metal atingindo a superfície deveria ter sido discreto, mas ressoou de forma estranha, como se tivesse sido engolido pelo rio em vez de simplesmente afundar. O Caboclo d’Água acompanhou o movimento com os olhos afiados, mas não fez menção de recuar. Ao contrário, um riso baixo e gutural vibrou de sua garganta.
— Acha que basta um pedaço de ouro para cruzar meu território?
A água girou mais rápido. Do centro do redemoinho, mãos esqueléticas emergiram, dedos longos e finos se debatendo como se quisessem puxá-los para o fundo, provavelmente vítimas passadas, que tentaram atravessar sem o pagamento adequado.
— Por Merlin… — murmurou Yusuf, sacando sua varinha no mesmo instante.
— Espera! — segurou seu braço antes que ele conjurasse qualquer feitiço. Theseus, por outro lado, já estava de varinha em punhos, os olhos fixos na criatura.
— Ele está nos enganando — disse, firme. — Só quer nos assustar.
— E se não estiver? — Lally questionou, a expressão séria.
Newt, que até então apenas observava, deu um passo à frente, analisando o Cabloco com atenção, sua mente trabalhando rapidamente para conectar as peças.
— Talvez ele queira algo mais do que ouro — sugeriu, em um tom ponderado. — Algumas criaturas não aceitam apenas moedas… às vezes, há um símbolo, um gesto específico…
franziu a testa, tentando se lembrar de algo.
— Marcos… — Virou-se para Theseus e Yusuf. — Havia algo além da moeda no pergaminho que pegamos no Ministério? Alguma anotação que pudesse indicar o que ele deixou para trás?
Kama olhou para o outro, que rapidamente começou a remexer dentro do casaco, retirando o pergaminho dobrado, e, em um aceno com a varinha, fez o papel se desenrolar no ar. No meio das anotações, havia um desenho sutil ao lado de onde antes estava a moeda: um círculo, cortado por um traço curvado.
— Eu já vi isso antes… — Newt estreitou os olhos.
O Caboclo d’Água soltou um ruído impaciente e as mãos esqueléticas que saíam do redemoinho se agitaram mais violentamente.
— O tempo está acabando, forasteiros… — Seu riso ecoava pelo rio, se misturando ao vento e ao barulho das águas revoltas. A criatura se movia ao redor da embarcação, como um predador brincando com sua presa antes do ataque final.
Queenie arfou ao lado de Jacob, apertando a cabeça com as mãos. Seu rosto estava pálido e seus olhos, arregalados, fitavam o nada.
— Ele está... tentando me puxar para dentro — murmurou, a voz trêmula.
— A gente precisa fazer alguma coisa agora! — Jacob exclamou, a preocupação evidente em seu tom.
— Precisamos entender o que esse símbolo significa! — Lally lembrou, segurando o pergaminho.
Os olhos de e Newt encontraram o desenho uma última vez.

Um círculo e uma linha curva. Algo que se move, algo que flui…

Ao mesmo tempo, ambos falaram:
— Sangue.
— Ele quer uma oferenda. É um espírito do rio, um guardião. Deve exigir algo em troca para nos deixar atravessar. — continuou, seu raciocínio acelerado.
— O círculo pode representar a água e a linha sangue… o fluxo da vida. — Newt concordou. — Um tributo.
Antes que alguém pudesse reagir, já estava abrindo sua bolsa e puxando um canivete, mas Theseus foi mais rápido, segurando o pulso dela com firmeza.
— Você não vai fazer isso.
— Me solta, Scamander. — Os olhos da brasileira se estreitaram.
— Eu faço. — O tom dele não deixava espaço para discussão.
— Theseus, não temos tempo para o seu heroísmo agora.
— E eu não vou deixar você se machucar sem necessidade.
O riso do Caboclo se intensificou. A madeira da embarcação rangeu com força. viu os olhos azuis queimando de determinação e soube, naquele instante, que não venceria a disputa no diálogo. Então, fez o que sabia fazer de melhor. Com um movimento ágil e inesperado, fingiu ceder e relaxou o pulso, apenas para girar levemente a lâmina e fazer um corte rápido na própria mão antes que Theseus pudesse reagir.
!
Mas já era tarde. Ela ergueu a mão ferida sobre o rio e deixou o sangue escorrer, pingando na água escura. O efeito foi instantâneo: o riso cessou, o redemoinho desapareceu, o rio ficou calmo, Queenie soltou um suspiro de alívio ao lado de Jacob… e Theseus a olhava como se quisesse esganá-la e a proteger ao mesmo tempo. Antes que pudessem respirar aliviados, o Caboclo d’Água se aproximou dela, a pele escamosa refletindo um brilho esverdeado sob a luz difusa da floresta, os olhos amarelos ardendo como brasas vivas e os dentes finos e afiados aparecendo entre os lábios repuxados em um sorriso que aumentava à medida que chegava mais perto. O instinto de gritou para recuar, mas suas pernas permaneceram imóveis e o ar ao seu redor pareceu pesar. A criatura parou diante dela, envolvendo seu pulso com dedos longos e esqueléticos. A pele não era exatamente áspera nem completamente viscosa. Era algo no meio-termo, uma textura desconfortável e gelada, como a pele de um peixe recém-pescado, ainda úmida e pulsante de vida.
… — A voz de Theseus ecoou fraca, como se temesse chamar atenção para si.
Mas o Cabloco não olhava para mais ninguém enquanto levava a mão da mulher até os lábios, raspando os dentes contra a pele dela e despertando um choque por todo o seu corpo, como uma corrente elétrica. Todos observavam paralisados, sem poder intervir, quando ele começou a sugar o sangue de , que, apesar de sentir os olhos arderem, não os desviou. Só conseguiu dar uma olhada rápida para Theseus, que a encarava de volta com o maxilar travado, os punhos cerrados e o olhar carregado de uma tensão que ela não soube decifrar. Finalmente, o Caboclo ergueu o rosto novamente, lambendo os lábios tingidos de vermelho, e sorriu, satisfeito.
— Agora, podem atravessar.
sentiu um peso repentino tomar conta de seu corpo, uma vertigem súbita, como se algo dentro dela estivesse sendo drenado junto com o sangue, e cambaleou um passo para trás, mas, antes que pudesse cair, mãos firmes seguraram seus braços.

Theseus.

Piscou algumas vezes, tentando recuperar o equilíbrio, enquanto ele a segurava com força, os olhos azuis fixos nos dela, e, por um breve instante, parecia realmente preocupado, até sua expressão endurecer.
— Você me enganou. — O tom de voz era baixo, mas carregado de irritação contida.
abriu a boca para responder, mas ele já estava puxando-a para longe da margem, a afastando do Caboclo.
— Eu resolvi o problema — retrucou, a voz um pouco fraca.
— Resolveu? — ele praticamente sussurrou, ainda segurando seu braço. — Você se cortou na minha frente, depois de eu ter dito que não te deixaria fazer isso!
— Eu não tinha tempo para discutir, Theseus!
Ele respirou fundo, claramente tentando manter a calma.
— Não se trata de discutir, e sim de você achar que pode tomar decisões sozinha sem pensar nas consequências.
estreitou os olhos, se soltando dele com um puxão.
— E se eu não tivesse feito nada? Você queria esperar até ele devorar a Queenie inteira?
Os músculos da mandíbula de Theseus se contraíram, mas ele não respondeu. tentou se manter firme, mas o corpo não acompanhava sua determinação. Suas pernas pareciam feitas de chumbo e seu campo de visão escureceu por um instante.
— Você está bem? — Lally perguntou, segurando seu outro braço, enquanto ela se inclinava levemente para a frente.
— Estou… só um pouco zonza.
Theseus soltou um suspiro impaciente e passou um dos braços ao redor de sua cintura para apoiá-la melhor.
— A gente precisa sair daqui logo. — Yusuf disse, observando ao redor com cautela.
A embarcação estava logo à frente. Se moveram o mais rápido possível, ainda sentindo o olhar intenso do Caboclo sobre eles. Ele não fez mais nenhum movimento, apenas permaneceu na margem, com aquele sorriso fixo e perturbador, os olhos brilhando na penumbra. Ao chegarem ao barco, Theseus e Lally ajudaram a se sentar em um dos bancos.
— Fica quieta e recupera suas forças — Scamander murmurou, antes de se afastar, e a brasileira ergueu os olhos para ele, mas não respondeu.
— Theseus — Tina chamou, acenando para que o auror se juntasse a ela e Yusuf na parte da frente do barco.
Ele hesitou por um segundo, lançando um último olhar para antes de ir. Ela soltou um suspiro cansado e deixou a cabeça pender contra a lateral do barco.
— Aqui. — A voz suave de Newt chamou sua atenção e, quando abriu os olhos, viu um pedaço de chocolate estendido. piscou, sem entender de imediato. — Para a fraqueza. Ajuda a repor um pouco a energia.
Ela pegou o chocolate e mordeu um pedaço pequeno, sentindo o gosto adocicado aliviar levemente a tontura. Antes que pudesse agradecer, Queenie se ajoelhou na frente dela e segurou suas mãos.
— Obrigada, . — A voz da loira saiu sincera, quase emocionada.
A morena apenas assentiu, sem forças para discutir que havia feito o que precisava ser feito. O barco começou a se mover, deslizando suavemente pela água escura. O silêncio entre eles era tenso, como se todos ainda sentissem a presença do Caboclo os observando. E então, quando estavam quase no meio do rio, a voz dele ressoou, se espalhando pelo ar úmido como um sussurro fantasmagórico:
— Até logo… cumprimentem os outros por mim.
apertou os dedos ao redor do chocolate que ainda segurava, sentindo um arrepio subir por sua espinha. Sabia que aquele rio ainda não tinha terminado com eles. O silêncio na embarcação se manteve por um tempo, apenas o som da água cortada pelo casco e dos animais noturnos quebrando a tensão que pairava sobre o grupo. Jacob, determinado a melhorar o clima, pigarreou e lançou um comentário:
— Olha, eu sei que ele era assustador e tudo mais, mas tenho que admitir que aquele sorriso era de dar inveja. Quer dizer, se eu tentasse sorrir daquele jeito, com certeza quebraria a cara. — Um riso curto escapou de Queenie, e ele aproveitou para continuar. — Sem contar que ele era estiloso, né? Se tivesse um cabeleireiro nesse fim de mundo, eu até perguntaria onde ele arrumou aquele penteado.
Dessa vez, até Lally e Yusuf riram. O clima começava a aliviar um pouco e a conversa se desenrolou por alguns minutos. Newt falou sobre as criaturas que poderiam habitar aquela parte do rio, enquanto Hicks e Kana mencionaram histórias sobre uma vila de bruxos que ficava perto dali, onde talvez pudessem passar a noite. apenas ouvia, apoiada na lateral da embarcação. Sua cabeça ainda estava um pouco pesada depois do que aconteceu com o Caboclo, mas ela tentava ignorar. Foi então que algo pequeno e ágil se agarrou em suas pernas e começou a subir, a fazendo congelar.
? — Tina notou sua expressão tensa.
olhou para baixo, já se preparando para lançar um feitiço se fosse algum bicho do rio, mas viu uma bolinha peluda e escura escalando sua perna com uma agilidade impressionante, os olhinhos brilhantes fixos nela.
— Teddy? — exclamou, irritada e aliviada ao mesmo tempo.
O Pelúcio se aninhou entre suas roupas, emitindo um ruído satisfeito, como se estivesse no lugar mais confortável do mundo.
— Teddy! Como foi que você… — Newt se virou rapidamente.
Ele não deu a mínima. Apenas se aconchegou mais contra a brasileira e fechou os olhos. Ela suspirou, mas não o tirou dali. Talvez porque ainda estivesse fraca, ou talvez porque a presença dele fosse reconfortante.
— Esse bichinho vai me matar do coração um dia…
Enquanto o barco seguia seu curso pelo rio escuro, o magizoologista se aproximou discretamente de , que ainda estava sentada no banco com Teddy aninhado em seu colo.
— Deixe-me ver sua mão — disse suavemente, e ela hesitou, mas acabou estendendo a palma cortada. A pele ao redor do ferimento estava pálida e um leve tremor percorria seus dedos. Newt puxou do bolso um pequeno frasco de vidro com um líquido dourado dentro. — Vai ajudar a cicatrizar mais rápido.
— O que é isso?
— Um bálsamo restaurador. Uso quando alguma criatura me arranha ou morde. — arqueou a sobrancelha, mas não protestou quando ele derramou algumas gotas da substância sobre o ferimento. Imediatamente, uma sensação morna percorreu sua pele e a dor latejante diminuiu. — Melhor?
— Sim… — Ela flexionou os dedos. — Obrigada, Newt.
Ele apenas assentiu com um pequeno sorriso nos lábios, antes de guardar o frasco de volta na bolsa. O clima voltou a ficar mais leve, pelo menos por alguns minutos, até Lally parar de rir, franzindo o cenho ao olhar para a água.
— O que foi? — Yusuf perguntou.
Ela não respondeu de imediato, apenas apontou para algo mais à frente, enquanto o barco se aproximava lentamente. Primeiro, era apenas uma silhueta boiando na água, mas, conforme a lua iluminava melhor a superfície escura do rio, eles conseguiram ver um corpo. Estava inchado pela água, a pele pálida refletia a luz prateada, mas o mais perturbador era o rosto irreconhecível. Onde antes deveriam estar seus olhos e nariz, agora restavam apenas buracos vazios e carne dilacerada.
— Isso não foi feito por um peixe — Yusuf disse, a expressão sombria.
— Não… foi o Ipupiara. — fechou os punhos, sentindo um frio diferente na barriga.
— Será que ele ainda está por perto? — Queenie perguntou em um sussurro.
— Não sei… — A brasileira olhava fixamente para o corpo. — Mas não foi há muito tempo.
Um arrepio percorreu o grupo ao perceberem que estavam no território de outro predador. O barco desviou do cadáver para seguir com o trajeto, e o silêncio se instalou novamente, até Jacob soltar um suspiro pesado e murmurar:
— Eu não quero parecer ingrato, mas… a gente mal escapou de um monstro aquático e já tem outro?
— Bem-vindo ao Brasil, Jake. — Tina deu um pequeno sorriso.
A tensão já começava a se dissolver quando viram outra embarcação à frente. Dessa vez, não estava abandonada. Uma figura estava na ponta do barco, segurando um remo e olhando para a água, aparentemente distraída.
— Devemos avisar sobre o tal Ipupiara? — Kowalski perguntou, mas, antes que alguém pudesse responder, a água explodiu.
A criatura emergiu com um rugido baixo e ameaçador. Parecia uma mistura de homem e besta, a pele refletia a luz da lua e os olhos eram de um vermelho profundo. Suas garras se estenderam, rápidas como um raio, e o homem gritou, mas não teve tempo de reagir. O Ipupiara o puxou para dentro do rio com força e o silêncio voltou como se nada tivesse acontecido, apenas a água ainda ondulante marcando o local onde ele havia desaparecido. Por um momento, ninguém conseguiu respirar.
— Vamos sair daqui — Theseus ordenou, a voz firme.
Newt assumiu a direção do barco, acelerando o movimento. O grupo permaneceu em silêncio, atentos a qualquer som, qualquer ondulação suspeita na água. Minutos depois, avistaram algo na margem.
— O que é aquilo? — Queenie apontou.
Era um pequeno conjunto de casas e estruturas de madeira, escondido entre as árvores. A arquitetura rústica indicava que havia bruxos ali, e a iluminação discreta, com lanternas encantadas, mostrava que o lugar estava ativo.
— Uma das vilas bruxas que falamos… parece um bom lugar para passar a noite — Yusuf disse, e Theseus olhou para de relance, percebendo que ela ainda parecia um pouco fraca.
— Vamos.
O barco encostou na margem, rangendo suavemente contra a madeira do pequeno cais improvisado, onde um grupo de bruxos os observava em silêncio, suas expressões cautelosas. Eram quatro pessoas, vestindo roupas simples, mas claramente encantadas para resistir ao clima úmido da floresta. Um deles, um homem alto com barba trançada e olhos afiados como lâminas, deu um passo à frente.
— Vocês não são daqui, são? — perguntou, olhando diretamente para Theseus, que tinha se posto à frente do grupo, e ele negou com a cabeça. — Vieram do rio? — Sua voz era grave, carregada de desconfiança.
— Viemos, mas estamos só de passagem — Scamander respondeu, mantendo a postura firme, mas sem parecer ameaçador.
Os olhos do homem passaram por cada um deles, avaliando.
— Bem, se o rio os deixou passar, é porque ainda não era a hora de levá-los.
O grupo se entreolhou antes de seguirem para a vila. Ao cruzarem o pequeno portão de madeira, perceberam que a comunidade era maior do que parecia à primeira vista. Pequenos becos de pedra se entrelaçavam entre as casas, e algumas barracas vendiam ervas e poções. Uma mulher de idade avançada remexia uma panela fumegante, o cheiro de especiarias preenchendo o ar. Crianças corriam por entre as construções, algumas delas levitando pequenas pedras no ar como parte de algum jogo mágico. A atmosfera da vila era pacífica, mas havia um peso no ar, uma sensação de que algo espreitava na escuridão da floresta. Pequenos detalhes revelavam que aquela comunidade vivia em estado de alerta – portas reforçadas com feitiços de proteção, velas acesas nas janelas, e os olhares desconfiados que os moradores lançavam para a margem do rio. Enquanto seguiam pelo vilarejo, Theseus notou vacilando ao dar um passo e, sem pensar, segurou seu braço, impedindo que ela tropeçasse.
— Você precisa descansar — disse num tom mais baixo, apenas para ela ouvir, mas revirou os olhos, afastando o braço da mão dele.
— Eu estou bem.
— Parece… acolhedor — Jacob murmurou, observando o local com curiosidade.
— Desde que não tentem arrancar nosso sangue como aquela coisa no rio, já tá ótimo pra mim — Queenie respondeu baixinho, ainda estremecendo ao lembrar do que sentiu na mente.
— Falando nisso… tem algum tipo de enfermaria aqui? — o não-maj perguntou, olhando de relance para Queenie e .
— Sim, temos uma curandeira — respondeu um dos moradores, um senhor de cabelos grisalhos e pele marcada pelo sol. — Dona Lúcia pode ajudar vocês.
— Não precisa, eu estou bem — resmungou, tentando soar firme, mas Jacob cruzou os braços e lançou um olhar incrédulo em sua direção.
— Se você está bem, então por que mal consegue ficar em pé sozinha? — Theseus rebateu, a voz carregada de irritação. — Será que dá para, por um segundo, parar de agir como se fosse indestrutível?
Os outros trocaram olhares desconfortáveis. A brasileira o encarou por um instante, os olhos brilhando com indignação, antes de bufar e cruzar os braços.
— Só pra você calar a boca.
Mateus, o bruxo mais velho, pigarreou, tentando aliviar a tensão no ar.
— Essa é a taverna da vila. Vocês podem ficar aqui… vou acomodar todos primeiro e depois levá-las para a curandeira.
Com um último olhar atravessado para Theseus, seguiu o grupo, ignorando a maneira como ele a observava de canto de olho. O interior da taverna era modesto, mas aconchegante. Havia mesas de madeira espalhadas pelo salão e uma lareira acesa no canto, proporcionando um calor bem-vindo após a umidade da floresta. Alguns moradores da vila olhavam curiosos para o grupo, mas ninguém fez perguntas. Mateus os guiou até uma escada no fundo da taverna, que levava ao andar superior.
— Temos alguns quartos disponíveis. Não são luxuosos, mas são seguros.
Eles se entreolharam rapidamente, tentando decidir a melhor forma de se acomodarem.
— Dividimos entre homens e mulheres? — Tina sugeriu.
— Acho melhor — Newt concordou. — Assim ninguém precisa dormir no chão.
— Espero que tenham travesseiros extras. Esses dois roncam. — Jacob apontou para Yusuf e Theseus.
— Eu não ronco — o Scamander mais velho rebateu de imediato.
— Ronca, sim — Kama retrucou.
Mateus aguardou pacientemente enquanto todos se acomodavam, então olhou para e Queenie.
— Quando estiverem prontas, levarei vocês até Dona Lúcia, a curandeira da vila.
— Acho que podemos ir agora. — A loira sorriu, agradecida.
Mateus assentiu e começou a guiá-las para fora da taverna. A enfermaria ficava um pouco afastada, no final de uma ruela iluminada por velas flutuantes. O lugar tinha um cheiro forte de ervas e um som suave de água correndo, vindo de uma fonte encantada no centro do cômodo principal. Dona Lúcia era uma mulher idosa, de olhos afiados e um sorriso gentil. Assim que elas entraram, a curandeira ergueu as mãos.
— Vocês chegaram até mim antes que os espíritos da floresta as arrastassem. Isso já é um bom sinal. — Ela examinou Queenie primeiro, segurando seu rosto suavemente antes de encostar a ponta do dedo em sua testa. — Ah… um ataque mental. Você enfrentou algo forte… uma criatura ancestral.
— É… foi intenso — a mulher admitiu, sua voz mais baixa que o normal.
— Isso vai te ajudar. Beba tudo. — Dona Lúcia preparou uma infusão, entregou a ela e, quase ao mesmo tempo, olhou para , pegando sua mão machucada sem pedir permissão. — Sangue como oferenda. Sempre um preço alto a pagar. — A brasileira abriu a boca para retrucar, mas a senhora já estava passando uma pasta esverdeada na ferida. — Você foi tola em se ferir desse jeito… por que ele ficou tão brabo com você?
— O quê?
— O homem de olhos tempestuosos.
percebeu Queenie lançando um olhar sugestivo em sua direção, o canto dos lábios curvado em um sorrisinho malandro, e desviou o olhar, como se a conversa não lhe dissesse respeito.
— Esses curandeiros falam muito.
— A experiência nos faz perceber certas coisas, mas, se quiser se enganar, fique à vontade. — Ela não respondeu, focando em observar sua mão agora enfaixada. Dona Lúcia terminou o tratamento e se afastou. — Descansem. Amanhã, a jornada continua.

A taverna estava mais animada do que o esperado para um vilarejo isolado, iluminada por velas e lanternas encantadas, criando um ambiente quente e acolhedor. O som das conversas se misturava ao tilintar de canecas e ao dedilhar de um violão encantado no canto do salão. O grupo finalmente parecia respirar um pouco depois de tantos dias de tensão. estava sentada entre Lally e Yusuf, e, pela primeira vez desde que saíram do rio, parecia mais disposta. A cor havia voltado ao seu rosto e ela até ria de algo que Jacob dissera. Theseus observava a cena de onde estava, encostado na parede com os braços cruzados e um copo em mãos.
— É um alívio vê-la bem, não é? — A voz suave o fez desviar o olhar. Queenie estava ao seu lado, segurando a própria caneca de chá, um pequeno sorriso no rosto.
— O que você quer, Queenie? — Theseus suspirou, já prevendo onde aquela conversa iria parar.
— Sabe, eu não costumo me intrometer… — Começou, ignorando o olhar cético do homem em sua direção. — Mas, quando uma curandeira sábia fala algo interessante, eu costumo escutar.
— Goldstein…
— Ela perguntou por que você ficou tão brabo com .
Theseus apertou o maxilar e olhou de relance para a brasileira, que agora conversava animadamente com Lally, enquanto Teddy equilibrava-se em seu ombro.
— Fiquei brabo porque ela foi imprudente.
— Ah, sim. — Queenie inclinou a cabeça, o avaliando. — Mas sabe o que é engraçado? Você não ficou assim quando Jacob foi impulsivo em Paris. Nem quando Yusuf tentou bancar o herói algumas horas atrás.
— Isso porque eu sei lidar com as decisões ruins deles — Theseus retrucou, e ela soltou uma risada baixa.
— E por que com ela é diferente?
Ele não respondeu de imediato. Virou o copo, bebendo um longo gole antes de encará-la de volta.
— Porque não quero perder mais ninguém por descuido meu.
Dessa vez, a loira não sorriu. O peso daquelas palavras era profundo.
— Você se culpa pela Leta. — Não havia sido uma pergunta.
— Eu deveria ter feito algo. — O auror desviou o olhar.
— E agora está tentando carregar o peso do mundo nas costas? — Queenie apoiou o rosto na mão, suspirando. — Querido… talvez o que tenha acontecido com Leta não tenha sido sua culpa. E talvez o que sente por não seja só preocupação.
Theseus travou a mandíbula, mas, antes que pudesse rebater, Mateus se aproximou deles, uma expressão pensativa no rosto.
— Faz tempo que não recebemos visitantes como vocês. A maioria das pessoas anda evitando essa área.
— Por quê? — Scamander se voltou para ele, que hesitou por um momento antes de continuar, a voz mais baixa.
— Ultimamente, temos perdido pessoas… e não tem sido culpa das criaturas da floresta.
— Então, de quem é a culpa?
Mateus apertou os lábios, como se estivesse decidindo até onde poderia falar.
— Não sei…, mas alguns dizem que há bruxos trabalhando com Grindelwald por aqui. — Theseus ficou rígido ao ouvir o nome. — E agora, vocês chegam até nós… procurando algo importante. Me parece uma coincidência grande demais.
Queenie sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Havia algo de muito errado ali.
— Acha que estão observando a gente?
— Não posso afirmar com certeza, mas… coisas estranhas acontecem quando estranhos aparecem.
— Você pode nos contar mais sobre esses desaparecimentos?
O velho bruxo hesitou, olhando ao redor, como se temesse ser ouvido.
— Não aqui. — Ele então acenou para que o seguissem.
Os dois trocaram um olhar breve antes de acompanhá-lo. O grupo estava distraído com a conversa animada e as músicas que os locais tocavam em um canto da taverna. Mateus os levou até uma porta lateral, saindo para um pequeno pátio escuro, iluminado apenas pela luz fraca de algumas velas flutuantes. O som da floresta ao redor preenchia o espaço e, por um instante, tudo pareceu mais denso, como se a própria noite estivesse escutando.
— Tem sido sempre à noite. — Começou, a voz baixa. — Bruxos desaparecem, sem sinais de luta, sem rastros de aparatação… simplesmente somem. Alguns que moram mais próximos da floresta dizem que viram vultos, mas nada que possam descrever com certeza.
— Quantos desapareceram? — Theseus perguntou.
— Oito, nos últimos dois meses.
Queenie franziu a testa, sentindo um arrepio percorrer sua espinha. Isso era muito mais do que um simples acaso.
— E você acha que isso tem ligação com Grindelwald?
— Houve rumores de que alguns seguidores dele têm se escondido em lugares assim, pequenos e fora do radar. É o lugar perfeito para se mover sem chamar atenção. Sempre que alguém desaparece, os rastros que sobram são perturbadores.
Ele apontou para um canto do pátio. Havia uma parede de pedra desgastada, com musgo crescendo entre as rachaduras, mas o que chamou a atenção deles foram os símbolos gravados nela – marcas profundas, queimadas na pedra, formando padrões desconhecidos. Queenie engoliu em seco.
— Isso não parece magia comum.
— Porque não é — Mateus confirmou, com uma expressão sombria. — E não sabemos o que significa.
Theseus estreitou os olhos, analisando os símbolos. Já havia visto algo parecido antes, mas não conseguia lembrar onde.
— Precisamos contar isso ao grupo — Queenie disse, sua voz um pouco mais apressada.
Ele assentiu, mas, antes de saírem, lançou um último olhar à parede marcada. Algo sobre aquilo o incomodava. Sem perder mais tempo, voltaram à taverna. Dessa vez, percebeu, estreitando o olhar de leve ao vê-los se aproximando.
— Precisamos conversar — o auror falou assim que se aproximou do grupo, o tom sério sendo o suficiente para cortar qualquer resposta afiada que a brasileira poderia ter dado.
O grupo se reuniu em um dos quartos do andar superior da taverna, as paredes de madeira abafando os sons da música e das conversas que ainda ecoavam lá embaixo. A iluminação era suave, vinda de algumas velas encantadas que flutuavam no ar. Theseus se posicionou perto da porta, com braços cruzados, enquanto Queenie se sentou na cama mais próxima. O restante do grupo estava espalhado pelo cômodo, atento às expressões sérias dos dois.
— O que aconteceu? — Tina perguntou, franzindo a testa, e a irmã respirou fundo antes de falar.
— Mateus nos contou sobre os desaparecimentos… Oito bruxos sumiram nos últimos dois meses. Ninguém sabe para onde foram e os poucos rastros que deixaram são símbolos estranhos gravados em pedras.
— Símbolos? — Lally inclinou-se para frente para ver melhor.
— Eu já vi algo parecido antes — Theseus murmurou, a expressão fechada. — Mas não lembro exatamente onde.
— Se for magia antiga, talvez possamos compará-los a algo que já conhecemos. — Newt parecia pensativo.
— Eu posso desenhá-los — Queenie ofereceu, pegando um pedaço de pergaminho e uma pena.
Enquanto ela desenhava os símbolos que viu, observava em silêncio, o olhar levemente desconfiado.
— Tem mais alguma coisa? — Yusuf perguntou.
Queenie hesitou por um instante, mordendo o lábio inferior antes de erguer os olhos para o grupo.
— Eu li algo na mente de Mateus enquanto conversávamos. — Essas palavras foram o suficiente para atrair a atenção de todos. — Ele não nos contou tudo. Enquanto falava dos desaparecimentos, pensou em algo que não quis dizer em voz alta. Ele tem medo… de que, se falar demais, isso volte para ele. E não é só medo do que pode estar acontecendo aqui. Ele teme que alguém descubra que ele contou para nós.
— Isso significa que tem alguém observando a vila — Tina disse, os olhos se estreitando.
— Ou alguém infiltrado nela — Kama completou.
— Precisamos confrontá-lo — declarou, cruzando os braços. — Ele sabe de alguma coisa e está com medo de falar. Se pressionarmos, talvez diga a verdade.
Theseus soltou uma risada seca, descrente.
— Brilhante ideia. Porque nada pode dar errado quando se pressiona um homem que claramente está escondendo algo, não é?
— Se você tem outra solução, adoraria ouvir.
— Podemos observar. Esperar por mais alguma pista antes de sair atacando suspeitas — o auror respondeu com firmeza.
— Esperar? Scamander, pessoas estão desaparecendo! Você mesmo ouviu o que Queenie disse. Esse problema está ligado a Grindelwald e cada minuto que perdemos pode ser crucial…
— E agir sem pensar só vai nos colocar em perigo antes da hora! — Theseus rebateu, elevando o tom de voz, e bufou, cruzando os braços.
— E quem te colocou no comando, afinal? Você acha que sabe o que é melhor para todo mundo o tempo todo, mas talvez não seja o único capaz de tomar decisões!
— E talvez você devesse parar de agir como se a sua imprudência nunca tivesse consequências. — Ele a encarou por um momento, os olhos brilhando de irritação, e sentiu o rosto esquentar.
— Imprudência? Ah, me desculpe, eu esqueci que preciso da sua permissão para fazer qualquer coisa. Afinal, Theseus Scamander sempre tem que ter a última palavra, não é?
Ele respirou fundo, como se estivesse tentando manter a calma, apesar de sentir sua paciência se esgotando.
— Faça o que quiser — disse, por fim, a voz tensa e controlada. — Você sempre faz, de qualquer forma.
— Eu fiz o que precisava ser feito.
— Ah, claro. — Theseus riu sem humor. — Porque se jogar em perigo sem pensar nas consequências é tão responsável.
A fúria de cresceu e, antes que pudesse se segurar, as palavras escaparam de sua boca.
— Se você tivesse feito isso antes, talvez sua noiva ainda… — Ela se calou imediatamente, percebendo tarde demais o limite que havia atingido.
A expressão de Theseus mudou instantaneamente e, por um momento, ele não disse nada, apenas ficou ali, imóvel, a encarando como se não acreditasse no que acabara de ouvir.
— Termina a frase — desafiou, a voz baixa, mas carregada de raiva, e engoliu em seco, o arrependimento batendo com força.
— Theseus, eu não quis dizer…
— Não… — Ele a cortou bruscamente. Seu olhar, antes irritado, agora brilhava com algo mais profundo, um ressentimento que ele tentava enterrar há muito tempo. — Já disse o suficiente. — Sem esperar mais nada, saiu do quarto, deixando com um peso sufocante no peito.
Antes que o silêncio pudesse se arrastar por muito tempo, Newt se levantou e, sem dizer nada, seguiu atrás do irmão, enquanto os outros permaneceram ali, ainda absorvendo a cena. Queenie, tentando aliviar um pouco a tensão, entregou o desenho dos símbolos para Lally e Tina analisarem.
— Se há alguém aqui que pode estar trabalhando para Grindelwald, precisamos ter cuidado. — A Goldstein mais velha quebrou o silêncio.
— E descobrir o que esses símbolos significam pode ser o primeiro passo para entender o que está acontecendo. — Hicks assentiu.
Yusuf suspirou, observando de canto de olho.
— Acho que devemos descansar um pouco, acalmar os ânimos e investigar isso amanhã.
Os outros concordaram e, um a um, começaram a se dispersar. Mas, do lado de fora da taverna, oculto pela escuridão da floresta, um vulto se moveu silenciosamente entre as sombras.



O céu ainda estava pintado de tons azulados e rosados quando Theseus saiu da taverna. A brisa da manhã era fresca, mas não o suficiente para dissipar o peso que carregava nos ombros. Precisava de ar… precisava de distância. Seus passos o levaram até a beira do rio – o mesmo onde, na noite anterior, um homem havia sido puxado para a morte pelo Ipupiara. O som suave da correnteza preenchia o silêncio. Ele se sentou em um tronco caído, apoiando os cotovelos nos joelhos e passando as mãos pelo rosto. O gosto amargo da discussão ainda estava preso em sua garganta.
— Se escondendo? — Theseus fechou os olhos por um instante antes de virar a cabeça e ver o irmão parado, o observando com seu olhar tranquilo e atento de sempre, enquanto segurava duas xícaras fumegantes.
— E falhando miseravelmente.
Sem dizer nada, o mais novo estendeu uma das xícaras para ele, que aceitou sem discutir e deu um longo gole, sentindo o calor do café espalhar-se por seu corpo, mas não alcançar a dor que carregava consigo. Newt sentou ao lado dele, deixando o silêncio se estender por alguns segundos antes de finalmente pontuar:
— Você não dormiu.
— Muito observador. — Theseus soltou uma risada baixa e sem humor.
— Não foi difícil perceber. — Girou a xícara entre os dedos. — Além disso, depois do que aconteceu ontem à noite…
— Veio aqui para me dizer que eu deveria ser mais compreensivo?
— Vim porque é meu irmão. — O auror apertou a mandíbula e desviou o olhar para a água. — pegou pesado, mas, se você ficou tão irritado… foi porque tocou em algo que já estava te machucando antes, não foi?
Theseus permaneceu em silêncio por um tempo, até soltar um longo suspiro.
— Eu sou um auror, Newt. Passei anos tomando decisões difíceis, lidando com ameaças que ninguém mais queria enfrentar… devia ser bom nisso.
— Mas com Leta… você sente que falhou.
— Ela morreu diante dos meus olhos, e eu não fiz nada para impedir. — Theseus baixou os olhos para a xícara em suas mãos. — Eu era responsável por ela. Eu deveria ter protegido minha própria noiva, mas falhei… eu a perdi. — Balançou a cabeça, a voz quase um sussurro. — E não vou perder mais ninguém.
— Sabe que a culpa não foi sua, não sabe? — Newt finalmente se virou para encará-lo, seu olhar calmo, mas firme.
— Fácil falar quando não é você que tem que viver com isso.
O magizoologista hesitou por um momento e colocou uma mão em seu ombro.
— Talvez não seja algo com que você tenha que viver sozinho.
Theseus ergueu os olhos para o irmão e, pela primeira vez naquela manhã, algo dentro dele pareceu se acalmar.

desceu para o salão principal da taverna sentindo o peso da noite anterior ainda sobre si. Sabia que tinha errado e sido cruel, mas encarar aquilo era outra história. Avistou Yusuf sentado sozinho em uma mesa, segurando um pequeno pingente entre os dedos e com o olhar distante. Por um momento, pensou em apenas voltar para o quarto, mas algo a fez sentar de frente para ele.
— Bom dia.
Kama levantou os olhos para ela e inclinou levemente a cabeça.
— Dormiu bem?
— Claro… — mentiu, se servindo de um pouco de café, mas Yusuf arqueou uma sobrancelha, claramente não acreditando. — Talvez não tenha sido a minha melhor noite… tá, eu fui uma idiota ontem.
— Eu não ia dizer isso, mas já que mencionou… — Um pequeno sorriso brincou nos lábios do homem.
— O que é isso? — Ela apontou para o pingente que ele girava entre os dedos.
Yusuf ficou em silêncio por um momento antes de responder.
— Pertencia à minha irmã.
A bruxa franziu o cenho.
— Eu… não sabia que você tinha uma irmã.
— Nunca tivemos contato. Só fui conhecê-la de verdade recentemente… — Girou o pingente nos dedos novamente. — E, quando isso finalmente aconteceu, Grindelwald a tirou de mim e apagou as poucas lembranças que eu tinha dela.
— Merlin…
— Eu tentei lembrar, mas o que ficou de Leta não passa de uma sombra, algo vago demais para ser real.
— Espera… Leta era sua irmã? — perguntou, surpresa, e ele apenas assentiu. — Eu sinto muito.
— Eu não. — A brasileira franziu a testa, confusa, e Yusuf continuou: — Queria sentir algo, dor, raiva… qualquer coisa. Mas não consegui. — Pousou o pingente sobre a mesa, a olhando nos olhos. — Mas Theseus sente… lembra de cada detalhe e tem que carregar isso todos os dias. Eu sei que Scamander pode ser um homem difícil, mas ele perdeu alguém que amava profundamente. Ele, sim, merece um pedido de desculpas.
sentiu um aperto no peito. Já havia se arrependido do que dissera na noite anterior, mas ouvir aquilo de Yusuf tornou tudo ainda mais real.
— Eu sei. Vou falar com ele.
— Ótimo, porque eu não quero ficar no meio de mais nenhuma briga entre vocês. — Kama assentiu, satisfeito, e soltou um riso baixo, apesar de, no fundo, saber que ele estava certo.
Os irmãos Scamander entraram de volta na taverna, agora com um ar mais centrado, quando e Yusuf encerraram a conversa. Theseus não olhou diretamente para a brasileira, mas foi ele quem falou primeiro:
— Precisamos nos reunir. Lembrei de onde vi aqueles símbolos.
A seriedade na sua voz atraiu a atenção de todos. Queenie e Jacob pararam o que estavam fazendo, Tina e Lally se aproximaram, e logo o grupo inteiro se reuniu ao redor de uma das mesas. O desenho dos símbolos foi colocado no centro, iluminado pela fraca luz das velas.
— Eu vi isso nos arquivos do Ministério da Magia Britânico — Theseus disse, os olhos fixos no papel. — Não lembro de tudo, mas sei que eram registros antigos, vinculados a sociedades secretas de bruxos. Algumas delas… extremistas.
A palavra pairou no ar como uma ameaça invisível.
— Extremistas em que sentido? — Lally perguntou, cruzando os braços.
— Grupos que defendiam uma supremacia bruxa absoluta, semelhantes às ideias de Grindelwald, mas que existiam muito antes dele… Se Grindelwald está usando esses símbolos, pode estar se conectando a alguma dessas antigas sociedades… ou tentando recriar algo delas.
— Se esses símbolos têm relação com grupos antigos, talvez possamos encontrar registros sobre eles nos arquivos do Ministério daqui do Brasil. — Newt franziu a testa.
— Isso se tivermos acesso a eles. — Yusuf apontou.
— E tem mais… durante as operações contra Grindelwald, esses símbolos apareceram em algumas missões. Os aurores interceptaram mensagens codificadas e relataram que os seguidores dele as usavam para marcar locais seguros… esconderijos.
observava Theseus enquanto ele falava. Parecia diferente agora, não mais apenas irritado, mas focado, voltado completamente para a missão.
— Então tem um esconderijo de Grindelwald aqui? — Ela apoiou os cotovelos na mesa, se inclinando levemente para frente.
O auror percebeu o movimento pelo canto do olho e assentiu lentamente.
— Não posso garantir, mas… também os vi pessoalmente, uma vez.
— Quando? — arqueou uma sobrancelha, e Theseus suspirou devagar, passando a mão pelos cabelos.
— Em um esconderijo na Europa. O Ministério recebeu uma pista e fomos enviados para investigá-lo. O local foi evacuado às pressas, mas aqueles símbolos estavam gravados nas paredes e em alguns pergaminhos que encontramos.
— Eu também já vi esses símbolos — Queenie murmurou, sua voz mais contida do que o normal. Seus dedos brincavam com a barra da manga, um sinal claro de nervosismo. — Quando… estive ao lado dele. — O grupo ficou em silêncio por um instante. Ela raramente falava sobre aquela época e, sempre que o fazia, havia uma sombra de culpa em sua expressão. — Os seguidores usavam para se comunicar. Haviam lugares marcados com esses símbolos, mensagens escondidas… eram códigos que só eles entendiam. — Jacob, sentado ao seu lado, segurou sua mão, lhe dando um aperto encorajador, e ela retribuiu com um sorriso pequeno, apesar de ainda haver algo pesado no olhar.
— Eu também vi… — Yusuf assentiu, o semblante sério. — Quando fingi estar do lado de Grindelwald. Eles não confiavam totalmente em mim e não me deixavam ver muita coisa, mas lembro de alguns documentos e paredes marcadas com esses símbolos. Na época, não sabia o que significavam, mas agora está claro.
Os outros trocaram olhares, absorvendo a informação.
— Seja como for, isso confirma o que suspeitávamos… — Tina começou. — Grindelwald está deixando rastros e essa vila pode ser um ponto importante para ele.
— Ou um dos alvos. — Queenie completou, com o olhar preocupado.
A conversa foi encerrada com o plano de investigar a vila ainda naquele dia. Tina e Yusuf decidiram sair discretamente para conversar com Mateus e ver se conseguiam mais informações. Queenie e Jacob se juntaram a Lally para observar a movimentação dos locais. Newt foi atrás de alguém que pudesse dar pistas sobre os desaparecimentos, enquanto Theseus permaneceu na taverna, ainda estudando os símbolos no papel. o observou por um instante, tomando coragem antes de se aproximar. Ele percebeu sua presença, mas não levantou os olhos imediatamente.
— Se veio discutir de novo, pode poupar seu fôlego — disse, a voz carregada de irritação.
suspirou, puxando uma cadeira e sentando ao lado dele.
— Não vim discutir. — Hesitou por um instante antes de continuar. — Sinto muito pelo que eu disse.
Theseus parou de fitar o papel e, pela primeira vez desde a noite passada, olhou diretamente para ela. sentiu um frio no estômago ao ver a intensidade daquele olhar.
— Não deveria ter falado aquilo — ele disse, a voz mais baixa, mas ainda carregada de mágoa.
— Eu sei… não quis te machucar. — Sem pensar muito, encostou a mão de leve sobre a dele, um toque hesitante, quase como um pedido silencioso para que acreditasse nela.
Scamander permaneceu imóvel. Os olhos foram para a mão dela sobre a sua e, por um breve momento, ele não recuou. O calor do toque era quase reconfortante, mas também perigoso. Ficou em silêncio por um momento, como se estivesse decidindo se aceitava ou não as desculpas.
— Eu entendo que você queira se provar o tempo todo… — Então, com uma relutância evidente, o auror afastou a mão da dela, rompendo o contato. A brasileira percebeu o movimento e, por um instante, teve a impressão de que ele também não queria quebrar aquele momento. — Mas há uma diferença entre coragem e imprudência. Precisa entender isso antes que seja tarde demais.
— Eu sei me cuidar, Scamander. — abaixou um pouco a cabeça, e ele deu uma risada seca, mas sem humor.
— Se soubesse, não teria acabado fraca e sangrando na minha frente. Aceito suas desculpas…, mas não significa que vou esquecer o que aconteceu.
Ela apertou os lábios, sentindo um misto de frustração e culpa.
— Justo. — Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos. Theseus voltou a fitar os símbolos no papel, e ficou observando-o, percebendo que, apesar da raiva, havia algo mais ali, uma preocupação genuína que ele tentava esconder. Não queria discutir depois de tudo, mas era meio impossível se segurar. — Só queria entender uma coisa… se fosse você no meu lugar, teria sido diferente? — Desafiou, cruzando os braços. — Qual é exatamente a diferença entre você se sacrificar e eu?
O auror ergueu o olhar para ela, surpreso pela provocação, hesitou por um instante, e então um pequeno sorriso se formou em seus lábios.
— Você não consegue se segurar, né? — comentou, quase divertido, mas sem perder completamente a seriedade.
percebeu aquele breve momento de descontração nele e sentiu o coração acelerar, mas não deixou transparecer.
— Não quando me dizem que estou errada por fazer exatamente o que qualquer um de nós faria — rebateu, firme, e o sorriso de Theseus desapareceu, apesar de ele não parecer irritado. Pelo contrário, apenas soltou um suspiro e desviou o olhar por um momento, como se estivesse escolhendo bem suas palavras. Mas ela decidiu continuar antes que ele pudesse retrucar. — Além disso, não sabíamos como seria esse sacrifício de sangue, mas eu sabia que todos ali tinham para quem voltar… você tem Newt, Queenie tem alguém que não suportaria perdê-la… — Ele franziu a testa ao perceber o tom de voz dela mudar, ficando mais carregado de algo que não conseguiu identificar de imediato. — Eu vi a cena da Queenie quase sendo levada pelo Caboclo d'Água e não consegui parar pra pensar qual seria a melhor solução. — Desviou o olhar para as próprias mãos, como se estivesse admitindo algo pela primeira vez.
Quando Scamander finalmente falou, sua voz saiu mais baixa do que antes:
— E você? Não tem ninguém para quem voltar?
Ela hesitou por um instante, depois balançou a cabeça lentamente.
— Não.
— Nem o Caio? Vocês pareciam muito próximos.
— Talvez, mas não é como se ele precisasse de mim para viver. O Caio já tem uma família para quem voltar.
Theseus a observou por um momento, absorvendo aquela resposta.
— Espera. Então… ele não é seu namorado?
soltou um riso anasalado, como se a pergunta tivesse a pegado desprevenida.
— Claro que não. Eu sou madrinha da filha dele.
O silêncio que se seguiu foi quase cômico. Theseus piscou algumas vezes, processando a informação.
— Você é o quê? — apenas sorriu de canto, e o auror cruzou os braços e inclinou a cabeça para o lado. — E, mesmo assim, acha que sua vida vale menos do que a dos outros?
— Não foi isso que eu disse. — Ela piscou, surpresa pela pergunta direta.
— Mas é o que parece — ele rebateu, sem rodeios, a observando desviar o olhar por um instante, enquanto brincava distraidamente com um pedaço da manga de sua roupa.
— Não é como se eu fosse indispensável para alguém — disse, tentando soar indiferente, mas Theseus percebeu a hesitação em sua voz.
Ele abriu a boca para dizer algo, mas mudou de ideia. Por mais que quisesse pressioná-la e entender o porquê de ela pensar assim, sabia que aquele não era o momento. Em vez disso, se recostou um pouco na cadeira e a observou.
— Então… Caio não é seu namorado?
— O quê? — ergueu os olhos para ele, confusa. — De tudo que eu falei, foi nisso que prestou atenção?
— Não, é que… você disse que é madrinha da filha dele. — Theseus apontou, estreitando os olhos. — Eu achei que… bom, vocês pareciam próximos.
— Somos, mas não dessa forma que você pensou. Caio é casado, Scamander. — A expressão dele suavizou um pouco, como se estivesse processando a informação, e arqueou uma sobrancelha. — O quê? Não me diga que achou que eu era incapaz de ter amigos.
— Não sei…, mas você não parece o tipo que sabe lidar com crianças.
— E o que isso quer dizer? — O auror apenas balançou a cabeça, com um sorriso divertido. Um silêncio confortável se instalou entre eles, e o peso da discussão anterior parecia ter diminuído, ainda que não tivesse sumido completamente. apoiou os cotovelos na mesa e o observou por um instante antes de perguntar. — Então… ainda vai ficar me tratando como se eu não existisse?
Theseus soltou um longo suspiro, desviando o olhar por um momento. Quando voltou a encará-la, havia um brilho diferente em seus olhos. Ainda havia certa resistência, mas ele parecia finalmente relaxar um pouco ao redor dela.
— Eu disse que não ia esquecer… — começou, se inclinando levemente para frente. — Mas também não preciso ser um idiota por causa disso.
— Bom saber — respondeu, sentindo o canto dos lábios se curvar em um sorriso involuntário.
Os olhos de Theseus desceram involuntariamente até a boca dela antes dele os desviar, limpando a garganta e se recostando na cadeira novamente. O clima entre eles ainda estava carregado, mas, dessa vez, não era raiva.

Era algo muito mais perigoso.

saiu da taverna ao lado do auror, que ainda segurava o papel com os símbolos rabiscados. O sol começava a descer no horizonte, tingindo o céu de tons alaranjados, e a vila parecia mais movimentada agora, com bruxos indo e vindo, alguns carregando cestos, outros reunidos em pequenos grupos, conversando em tons baixos. Eles seguiram pelas ruas de terra batida, desviando de algumas crianças que corriam brincando entre as casas. Encontraram Newt mais à frente, agachado perto de uma espécie de galinheiro mágico, onde aves de penas brilhantes bicavam o chão, conversando com um senhor de aparência cansada, que gesticulava enquanto falava.
— Newt! — Theseus chamou.
O magizoologista levantou a cabeça e acenou para os dois, indicando que se aproximassem.
— Este é o senhor Augusto. Ele perdeu o irmão há algumas semanas e estava contando sobre algumas pegadas estranhas perto do rio.
Theseus trocou um olhar com antes de se voltar para o homem.
— Pegadas? Como eram?
Augusto franziu a testa, coçando a barba.
— Eram grandes, muito maiores que um pé humano. E profundas… como se a criatura fosse muito pesada.
— Isso não soa muito animador.
— Se for o que estou pensando, não estamos lidando apenas com um bruxo sequestrando pessoas. — Newt olhou para os dois com seriedade.
A conversa foi interrompida por gritos vindos da outra ponta da vila. Eles se viraram rapidamente, vendo Tina e Yusuf correndo para os fundos de uma casa.
— Acho que deveríamos ver o que está acontecendo — disse, já começando a correr, e os outros dois a seguiram.
Enquanto isso, em outra parte da vila, Queenie, Jacob e Lally estavam observando os locais em uma das pequenas praças do vilarejo. Jacob bebia um suco de frutas estranhamente borbulhante, enquanto Queenie fingia estar distraída, mas na verdade tentava captar fragmentos de pensamentos.
— Sente alguma coisa? — Hicks perguntou baixinho.
— Não sei… algumas pessoas estão preocupadas, não exatamente com o que estamos investigando. Mas teve um homem que, assim que viu Mateus falando com Tina e Yusuf, ficou tenso. Ele tentou esconder, mas senti que está com medo de algo.
— Acha que ele sabe mais do que diz? — Jacob se inclinou para frente.
— Com certeza.
Antes que pudessem decidir o que fazer, o som de passos apressados fez os três se virarem na direção da casa de Mateus.
— Hora de agir — Lally disse, puxando a varinha de leve.
Quando todos chegaram ao local, encontraram Tina e Yusuf do lado de fora, varinhas em punho. A porta estava entreaberta, e um silêncio inquietante tomava o ambiente.
— O que aconteceu? — Theseus perguntou, já sacando a própria varinha.
— Mateus sumiu — Yusuf respondeu, a expressão carregada de frustração. — Estávamos conversando com ele, tentando arrancar mais informações, quando ouvimos um barulho nos fundos da casa e fomos checar… ele simplesmente desapareceu.
— Algum sinal de luta? — olhou ao redor, atenta, e Tina balançou a cabeça.
— Nada. Ele só… se foi.
— Tem um homem que estava observando vocês… — Queenie informou, com a voz alerta. — Ele estava preocupado quando viu vocês falando com Mateus e agora… está com medo.
— Medo de quê? — Newt franziu a testa, e Queenie respirou fundo, fechando os olhos por um momento.
— De que sejamos os próximos.
— Então estamos no caminho certo — concluiu, tentando aliviar a tensão.
— Isso não é algo para se comemorar. — Theseus lançou um olhar irritado para ela.
— E eu sou a imprudente?
— Você é… — retrucou sem hesitar, apesar do canto da boca se erguer minimamente, como se não pudesse evitar.
Antes que respondesse, um estalo seco veio na direção da floresta, seguido de um farfalhar inquietante entre as árvores, e todos se viraram imediatamente para lá.
— Tem alguém nos observando — Lally sussurrou, estreitando os olhos.
— Acho que está na hora de fazermos uma visita à floresta… de novo. — Theseus segurou a varinha com mais firmeza.
O grupo se entreolhou e, como se tivessem chegado à mesma conclusão ao mesmo tempo, seguiram pela trilha estreita que levava ao rio, os sentidos aguçados para qualquer movimento ao redor. A floresta parecia mais densa naquela região, e as sombras das árvores se misturavam ao breu do fim de tarde, tornando difícil distinguir o que era apenas vegetação e o que poderia estar os observando.
— Não gosto disso… — Jacob murmurou, ajeitando o cachecol ao redor do pescoço. — Não gosto nem um pouco disso.
— Bem-vindo ao clube. — Tina concordou, mantendo a varinha levantada.
Newt caminhava ligeiramente à frente, os olhos atentos ao chão, até se abaixar brevemente, analisando algo.
— Pegadas… alguém passou por aqui recentemente, indo na direção do rio.
— Mateus? — sugeriu, tentando enxergar além das sombras.
— Ou quem quer que tenha levado ele — Yusuf disse, em um tom sério.
Queenie franziu a testa, parecendo concentrada em algo.
— Tem alguma coisa aqui… uma presença. Mas não é humana.
Continuaram caminhando, até que enfim alcançaram a margem. A névoa pairava sobre o rio, densa e pesada, como se algo a mantivesse ali de propósito. Nenhuma folha se mexia, nenhum som de pássaro quebrava o silêncio sufocante. A água estava estranhamente parada, como se aguardasse silenciosamente por algo. Lally se abaixou, observando o reflexo na superfície.
— Tem algo errado. Essa água… parece morta.
— Não é só impressão… tem magia envolvida nisso. — Newt ajoelhou-se ao lado dela, passando a ponta dos dedos na superfície do rio. Seu olhar se desviou até um pedaço de tecido, meio enterrado na lama, ainda úmido. Ele o ergueu cuidadosamente, o analisando com olhos atentos. — Isso deve pertencer a um dos desaparecidos.
Antes que alguém pudesse responder, um estalo alto ecoou atrás deles, e todos se viraram ao mesmo tempo com as varinhas erguidas. Dentre as árvores, uma silhueta surgiu.
— Mateus? — deu um passo à frente, mas os olhos do homem estavam vidrados, como se não os enxergasse de verdade, e seu corpo se movia de maneira rígida, como se fosse puxado por fios invisíveis.
, não… — Queenie segurou seu braço, a expressão alarmada.
Mateus inclinou a cabeça de maneira estranha. Atrás dele, outras figuras começaram a surgir das sombras: os moradores desaparecidos. Seus olhares igualmente vazios e movimentos rígidos deixavam claro que algo estava terrivelmente errado. Até que a água do rio se agitou e algo emergiu do fundo escuro. Alto, esguio, com uma pele brilhando em um tom azulado espectral e olhos negros como a noite, que pareciam sugar a própria luz ao redor: um Encantado.
— Então vocês vieram… — Sua voz ecoou como um sussurro distorcido. — Tolos. — Com um aceno da mão alongada, os moradores avançaram, como se fossem meros fantoches sob seu controle.
— Não podemos machucá-los! — Lally exclamou, desviando de um feitiço lançado por um deles, e Tina analisou a situação.
— Mas também não podemos deixar que nos ataquem.
O caos se instaurou. Feitiços voaram, não para ferir, mas para afastar. O Encantado observava com um sorriso sinistro, como se estivesse se divertindo com o desespero deles. O grupo tentava se defender enquanto recuava para uma posição mais segura, mas os inimigos continuavam avançando. Os moradores da vila, sob a influência sombria do Encantado, se moviam com expressões vazias, atacando com violência e sem hesitação, enquanto algumas criaturas humanoides surgiam da água, avançando sobre eles. Queenie, de olhos fechados e feições tensas, tentava usar sua legilimência para alcançar as mentes deles e entender o que estava acontecendo, mas a presença do Encantado era opressora, obscurecendo qualquer traço de consciência dentro deles.
— É como tentar atravessar um nevoeiro denso… — murmurou, apertando as têmporas.
— Então vamos dissipar esse nevoeiro — Theseus disse, sua postura firme enquanto liderava a defesa. Ele organizou rapidamente feitiços de proteção para conter os ataques, lançando um Protego Maxima ao redor do grupo para ganhar tempo. — Newt, alguma ideia do que estamos enfrentando aqui?
Newt, agachado atrás de uma rocha para se proteger, analisava as criaturas que se moviam no meio do combate. Eram espíritos de água corrompidos, que deveriam ser pacíficos, mas agora atacavam como sombras líquidas, manipuladas pela vontade do Encantado.
— São Curupiras da Água — disse, quase maravilhado, apesar da situação. — Normalmente eles protegem as fontes naturais, mas algo os tornou agressivos.
— Algo? — Tina rebateu, desviando de um feitiço lançado por um dos moradores. — Você quer dizer o monstro dentro do rio? — Ela e lutavam juntas por um instante, bloqueando ataques e lançando feitiços atordoantes, mas, quando a brasileira viu um dos moradores quase acertando Jacob com um golpe violento, agiu sem pensar.
— Jacob, abaixa! — gritou, lançando um Expelliarmus contra o agressor.
O feitiço fez o morador soltar a arma improvisada que segurava, mas não foi o suficiente para detê-lo completamente. Antes que pudesse reagir, uma criatura a atacou por trás.
! — Theseus percebeu o perigo antes dela e, em um movimento rápido, conjurou um Depulso contra o Curupira, o afastando no último segundo. — Presta atenção!
— Eu estava prestando!
— É mesmo? Porque não parece! — ele rebateu, desviando de um ataque enquanto bloqueava outro com um Protego, mas, antes que pudesse responder, um rugido gutural ecoou pelo campo de batalha.
A água do rio começou a se agitar violentamente, e o Encantado emergiu das sombras líquidas, deixando a segurança do rio para enfrentá-los diretamente. Sua forma era ainda mais ameaçadora à luz do fim do dia.
— Vocês são patéticos. — Sua voz ecoou, carregada de desprezo. — Forasteiros intrometidos… Grindelwald já me alertou sobre tipos como vocês.
Essas palavras fizeram o ar pesar. trocou um olhar com Theseus, e Newt franziu o cenho.
— Então ele esteve aqui.
O Encantado ergueu o queixo, os observando com um misto de desprezo e superioridade.
— Vocês são fracos. Se vendem facilmente por promessas vazias… se dobram sem nem perceber. São fáceis de manipular. Mas não se preocupem… logo, não serão um problema.
Seu olhar varreu o grupo com desprezo, até parar sobre Lally. Ela sentiu uma pressão em sua mente, uma força tentando invadir seus pensamentos e a dobrar à sua vontade. Seus olhos brilharam por um breve instante, o suficiente para o Encantado esboçar um sorriso satisfeito, mas, com um suspiro profundo, voltaram ao normal, e Hicks endireitou os ombros e encarou a criatura.
— Você escolheu a bruxa errada, grandão.
O sorriso do Encantado desapareceu. Ele soltou um rugido de frustração e ergueu a mão para lançar um ataque direto contra Lally, mas, antes que o golpe a atingisse, Theseus a puxou para trás e um jato de água negra estourou contra o chão onde ela estava um segundo antes.
— Fica esperta! — ele advertiu, enquanto a ajudava a se equilibrar.
— Eu estava me divertindo! — Lally rebateu, com um meio sorriso, enquanto levantava a varinha novamente.
O Encantado agora avançava sobre o grupo. Queenie e Yusuf conjuraram feitiços de contenção, tentando segurá-lo, mas ele desviava com agilidade inumana. Newt conjurou um feitiço de luz intensa para cegá-lo momentaneamente, enquanto Jacob arremessava um tijolo que encontrara no chão contra o monstro.
— Isso não vai funcionar, Jacob! — Tina gritou.
— Eu sei, mas é satisfatório.
aproveitou a distração e lançou um Bombarda Maxima, fazendo o Encantado tropeçar para trás com a explosão. Theseus, que ainda estava próximo dela após salvar Lally, agiu instintivamente e a puxou para longe no último segundo, evitando que uma rajada de água negra a atingisse em cheio. O impacto os fez cair no chão, e acabou aterrissando sobre ele, os corpos colados, os rostos tão próximos que conseguia sentir a respiração contra sua pele. Os olhos do bruxo estavam fixos nos dela, intensos, carregados de algo que a fez prender a respiração. A mão dele, ainda segurando sua cintura, estava quente contra sua pele, mesmo através das roupas. Por um momento, o barulho da batalha pareceu desaparecer, até Queenie os trazer de volta à realidade.
— Eu odeio interromper e tudo mais, mas temos um monstro para derrotar!
Os dois se afastaram rapidamente, ambos sentindo os corpos esquentarem.
— Eu disse para prestar atenção — ele murmurou, enquanto a ajudava a se levantar, e deu um meio sorriso.
— E eu disse que estou prestando.
O Encantado rugiu, espalhando uma onda de energia escura pelo campo de batalha. O grupo se dividiu para evitar o ataque, enquanto Lally conjurava uma barreira protetora para conter a investida.
— Ele está ficando mais agressivo! — Yusuf alertou, desviando de uma criatura corrompida que tentava atacá-lo.
— Precisamos imobilizá-lo antes que ele nos mate! — Theseus gritou, lançando um Impedimenta, que atingiu o Encantado, mas apenas o atrasou por alguns segundos antes dele avançar novamente.
estava ao seu lado, lançando feitiços com precisão. Ela percebeu que, assim como da outra vez, apesar da tensão, lutar ao lado de Theseus parecia natural. Eles se moviam com sintonia, como se já tivessem praticado juntos diversas vezes. Enquanto isso, Yusuf e Queenie tentavam lançar feitiços para imobilizar a criatura, mas ele continuava resistindo e avançando com fúria, cada passo fazendo o chão tremer e a água ao redor se agitar violentamente. Newt, que observava atentamente o Encantado, estreitou os olhos. Havia algo estranho. Os traços humanoides pareciam distorcidos, como se estivesse sob influência de magia das trevas
— Tem algo na marca do peito dele… a fonte de poder parece estar vindo dali.
— Ele não está no controle de si mesmo. É como se… — Queenie, que tentava acessar a mente da criatura, arregalou os olhos. — Como se alguém estivesse o guiando.
— Grindelwald — Theseus concluiu com seriedade. Então, com o olhar determinado, ergueu a varinha e lançou um Bombarda Maxima diretamente no torso da criatura com uma onda de energia, a fazendo cambalear para trás. Mas, assim que o feitiço a atingiu, os moradores da vila pareceram reagir, como se estivessem sentindo o mesmo impacto.
— Scamander, não! — gritou, percebendo o que ele estava tentando fazer. — Se você o matar, pode condenar essas pessoas e até toda a vila!
— Então o que sugere? Isso não vai parar! — Ele manteve a varinha erguida, ainda pronto para atacar, mas Newt se apressou para se colocar ao lado do irmão.
— Eles estão conectados ao Encantado. Ele não deveria estar assim, está sendo controlado por algum feitiço inacabado do Grindelwald. Se o matarmos, podemos acabar com eles também! — O magizoologista olhou rapidamente para os moradores que ainda estavam imóveis ao redor. Theseus rangeu os dentes, a frustração evidente em seu rosto. Não gostava de ficar de mãos atadas no meio de um combate. Mas então, seus olhos encontraram os do mais novo, e ele viu a seriedade em sua expressão. — Precisamos quebrar a influência dele primeiro — Newt explicou, mantendo o tom firme. — Se conseguirmos libertá-lo, talvez possamos salvar todos.
Antes que pudessem elaborar um plano, o Encantado rugiu mais uma vez, lançando uma nova onda na direção do grupo, que acabou se separando para evitar o ataque, e logo se viram cercados. Criaturas corrompidas emergiram das sombras, se movendo com uma agressividade assustadora, ao mesmo tempo em que os moradores enfeitiçados começaram a avançar, os olhos vazios, sem controle sobre suas ações. olhou ao redor, sentindo o pânico crescer. Precisavam ganhar tempo. Seu coração bateu mais forte ao tomar uma decisão impulsiva.
Fulminare!
Uma explosão de eletricidade azulada se espalhou pelo campo de batalha. O raio cortou o ar com um estrondo ensurdecedor, atingindo o solo ao redor do Encantado e afastando momentaneamente as criaturas corrompidas. O poder do feitiço fez com que algumas das árvores ao redor se curvassem, como se o próprio ambiente estivesse reagindo à magia instável. O Encantado recuou por um instante, e os moradores enfeitiçados vacilaram, como se algo dentro deles estivesse resistindo à influência do feitiço.
, você… — Theseus a fitou, os olhos arregalados.
— Eu sei o que estou fazendo! — O interrompeu, mesmo sem ter tanta certeza disso, sentindo os músculos tensos pelo uso intenso de magia, enquanto a eletricidade ainda crepitava ao seu redor.
— Agora! Precisamos quebrar a marca antes que ele recupere a força total! — Newt apertou a varinha. — Um feitiço de purificação. Se conseguirmos cortar a conexão da marca com a magia do Encantado, podemos libertá-lo sem matá-lo!
— Eu sei um feitiço que pode funcionar! — Lally disse, correndo para perto deles.
O Encantado rugiu novamente e investiu contra o grupo, mas Yusuf e Queenie ergueram barreiras para contê-lo. Jacob, que se mantinha perto de Queenie, olhou ao redor e percebeu que os moradores da vila ainda estavam caídos, mas se mexiam levemente, como se estivessem despertando.
— Acho que o feitiço da fez alguma coisa! — Ele apontou.
Lally ergueu a varinha, conjurando um Finite Incantatem, mas a marca brilhou ainda mais forte.
— Não é suficiente! — ela exclamou.
— E se amplificarmos? Se jogarmos toda a nossa magia ao mesmo tempo? — se juntou a ela e estendeu a varinha, enquanto os Scamander assentiram, ficando lado a lado.
— Na minha contagem — Theseus disse, levantando a varinha. — Um… dois… três!
Finite Incantatem Maxima! — O grupo conjurou o feitiço ao mesmo tempo e uma onda de luz dourada se espalhou, atingindo a marca no peito do Encantado.
A criatura urrou de dor, o brilho escuro ao seu redor tremulando, enfraquecendo. As sombras foram se dissipando e então… um estouro de luz. O Encantado cambaleou para trás, arfando. A marca negra em seu peito se desfez como fumaça e o brilho de seus olhos mudou, deixando de ser algo maléfico e voltando a ser selvagem, mas consciente. Os moradores caídos começaram a despertar, piscando e olhando ao redor, confusos. sentiu o coração batendo forte enquanto observava o Encantado se recompor. Então, ele ergueu a cabeça e os encarou.
— Eu… — sua voz era profunda e reverberava pelo ar — vocês quebraram o controle dele sobre mim.
— O que Grindelwald fez com você? — Theseus manteve a varinha em punho, cauteloso, e o Encantado olhou para o céu, como se revivesse tudo o que havia sofrido.
— Eles vieram até mim há meses. Disseram que queriam minha ajuda para limpar o mundo… queriam que eu usasse minha influência sobre os rios para afogar aqueles que eles julgavam indignos.
— E você recusou. — Newt apertou os punhos.
— Eu sou um guardião, não um carrasco… — sentiu um arrepio. Grindelwald realmente tentava corromper tudo o que tocava. — Então, lançaram um feitiço sobre mim, me forçaram a atacar minha própria vila e a tomar suas pessoas como parte de mim. — O Encantado abaixou a cabeça, sua expressão sombria. — Eu não queria, mas não pude resistir.
— E o que eles queriam, no fim das contas?
— Um sacrifício… sangue para selar a conexão — a criatura explicou. — Queriam garantir que minha influência se espalhasse além deste rio, que eu fosse seu instrumento. Mas eles precisavam de algo mais… um catalisador.
— E o que era esse catalisador? — engoliu em seco, observando o Encantado os encarar por um momento antes de responder.
— Um mago ou bruxa de grande poder. Alguém cujo sacrifício amplificaria a conexão entre mim e ele.
— Dumbledore. — Theseus foi o primeiro a quebrar o silêncio. — Grindelwald achou que ele estaria aqui.
Os outros trocaram olhares, assimilando a conclusão.
— Se Dumbledore tivesse aparecido, Grindelwald teria usado o Encantado para enfrentá-lo. — Yusuf completou.
— Dumbledore sabia que isso aconteceria? — Queenie olhou para Newt, que hesitou, incomodado com a atenção repentina.
— Ele não me contou nada sobre isso.
— E onde ele está agora? — Theseus cruzou os braços, observando o irmão.
— Eu não sei.
O grupo ficou em silêncio por um instante, mas deu um passo à frente, focada no que realmente importava agora.
— Podemos especular tudo isso depois. Primeiro, precisamos ajudar essas pessoas.
Os moradores despertavam lentamente, olhares confusos e corpos fracos após tanto tempo sob controle. Jacob passou a mão pelos cabelos, preocupado.
— Eles não parecem em condições de voltar sozinhos.
— Onde vocês estavam antes… disso tudo acontecer? — olhou para um dos moradores mais lúcidos.
O homem piscou algumas vezes, parecendo recuperar a consciência aos poucos.
— Numa caverna… — Sua voz estava fraca. — Eles nos mantinham lá…
— Eles quem? — Ela franziu o cenho, e o homem hesitou, como se a resposta estivesse embaralhada em sua mente.
— Não sei… havia algo… alguém… — Ele massageou as têmporas, frustrado. — É difícil lembrar.
Theseus trocou um olhar rápido com antes de perguntar, firme.
— Acha que pode ter sido Grindelwald ou algum de seus seguidores?
— Eu… acho que sim. Mas não estávamos sozinhos.
— O que quer dizer? — Lally se adiantou.
— Tinha mais gente lá, mas não sei se estavam presos, ou se eram cúmplices.
— Sabe dizer onde fica a caverna? — Theseus perguntou, e o homem apontou para um local no meio das árvores, sua mão tremendo.
— Vou investigar. — endireitou a postura.
— Sozinha? Nem pensar — o auror retrucou imediatamente. — Eu vou com você.
— Eu também. — Hicks se adiantou.
Os outros assentiram, se voltando para os moradores. Queenie, Jacob, Tina e Yusuf ficaram para ajudá-los, enquanto Newt se juntou aos outros três para irem até a caverna. No caminho, o silêncio pairava entre e Theseus, até que ele finalmente falou.
— Eu notei.
— Notou o quê?
— O feitiço que você lançou antes, o Fulminare… — Olhou-a de relance. — Ficou fraca depois.
— Estou bem. — Ela manteve a expressão neutra, mas o homem não pareceu convencido.
— Deveria voltar e descansar.
— Você sempre tem que se preocupar tanto? — A brasileira ergueu uma sobrancelha, desafiadora.
— Isso se chama ser responsável. — Ele cruzou os braços, estreitando os olhos.
— Ah, claro. — Ela sorriu de lado. — E eu sou completamente irresponsável, não é?
Theseus abriu a boca para rebater, mas soltou um suspiro frustrado e a fechou, não percebendo o olhar rápido trocado entre Newt e Lally, que caminhavam logo atrás deles. O grupo continuou avançando, até finalmente alcançar a entrada da caverna, uma fenda estreita entre rochas cobertas de musgo. Theseus conjurou um Lumos e entrou primeiro, com logo atrás, sua varinha em mãos. Lá dentro, os símbolos estavam espalhados pelas paredes, gravados em um padrão que parecia mais antigo do que qualquer coisa que ela já havia visto. Alguns estavam desbotados, outros pareciam ter sido reforçados recentemente.
— São os mesmos que encontramos antes — Theseus murmurou, passando os dedos sobre um dos símbolos gravados. — Mas alguns desses foram desenhados há pouco tempo.
— Isso significa que alguém esteve aqui. — Lally observou, analisando o chão da caverna. — E não faz muito tempo.
Newt se aproximou, os olhos atentos a um detalhe no chão.
— Pegadas.
— Então, quem quer que seja, pode estar por perto. — franziu a testa, mas, antes que qualquer um deles pudesse continuar o raciocínio, um barulho de passos apressados ecoou do começo da caverna.
Os quatro se entreolharam e, em um movimento sincronizado, saíram correndo na direção do som. O vulto passou como uma sombra entre as árvores, veloz e ágil. Theseus foi o primeiro a aumentar o ritmo, saltando sobre raízes expostas no chão, e o seguiu de perto, o coração acelerado.
— PARE! — o auror ordenou, mas a figura continuou fugindo.
Eles correram por vários metros, a floresta se tornando um borrão ao redor, com raios coloridos que saíam das varinhas na direção de onde o vulto corria. O desconhecido era rápido, mas não o suficiente. estava quase alcançando quando ele sacou a varinha e atingiu o solo próximo a seus pés, a fazendo tropeçar por um segundo. Foi o suficiente para que eles o perdessem de vista, desaparecendo entre as sombras da mata.
— Droga! — Theseus praguejou, parando abruptamente.
Newt e Lally chegaram logo depois, respirando fundo.
— Ele sumiu — Hicks constatou, varrendo a área com o olhar.
— Como ele foi tão rápido? — perguntou, apoiando as mãos nos joelhos para recuperar o fôlego, e Newt franziu a testa, pensativo.
— Talvez tenha usado alguma poção…
Antes que pudessem discutir mais sobre isso, sentiu sua visão ficar levemente turva e o mundo pareceu girar por um instante. Ela tentou ignorar, mas, sem aviso, sentiu as pernas fraquejarem e o corpo ceder.
? — Theseus percebeu no mesmo instante e, antes que ela pudesse cair, a segurou com facilidade. — Eu sabia — resmungou, os olhos analisando seu rosto pálido. — Você forçou demais.
— Estou bem. — tentou retrucar, mas sua voz saiu mais fraca do que queria, e o auror revirou os olhos.
— Ah, claro. Você mal consegue ficar de pé. Vamos voltar para a vila.
Ela bufou, tentando se afastar dele, mas o corpo ainda estava leve demais, como se não estivesse totalmente sob seu controle.
— Eu consigo voltar… — Antes que terminasse a frase, Theseus passou um braço ao redor de suas costas e outro sob suas pernas, a erguendo do chão com facilidade. — Scamander, me solta!
— Não.
— Eu consigo andar!
— E eu consigo carregar você, então não reclame.
— Theseus Scamander…

Ela cruzou os braços, emburrada, enquanto Newt e Lally se entreolharam, mas decidiram não comentar nada. O grupo seguiu pela floresta, Theseus segurando-a firme nos braços.
— Você está bravo comigo.
— Eu estou furioso com você.
— Me mandaria de volta de qualquer forma.
— Sim, porque precisa descansar.
— E você? Vai descansar quando?
Ele finalmente a fitou, os olhos azuis intensos, carregados de cansaço e irritação.
, eu não sou o problema aqui.
Ela desviou o olhar, mordendo o lábio. No fundo, sabia que Theseus estava certo. A verdade era que ela não queria descansar. Não queria parar. Queria continuar provando que podia ajudar, que não era um peso para ninguém, mas, naquele momento, Scamander não parecia vê-la assim. Ela suspirou, se acomodando melhor nos braços dele, sem mais discutir, enquanto o auror não dizia nada, apesar da sua expressão suavizar um pouco. Eles seguiram em silêncio pelo resto do caminho.



O céu já estava escurecendo quando o grupo chegou e se deparou com os outros reunidos na enfermaria da vila. Mateus estava sentado em uma das camas, ainda visivelmente exausto, mas já consciente, conversando com Tina e Yusuf. Theseus não perdeu tempo.
— Dona Lúcia está aqui?
Uma das curandeiras da vila apontou para o fundo da sala e ele seguiu para lá com ainda em seus braços. Dona Lúcia estava de costas para eles, organizando alguns frascos em uma mesa improvisada. Scamander a chamou, mas sua voz saiu mais tensa do que ele pretendia. Quando ela se virou e encontrou a brasileira nos braços dele, seu olhar foi diretamente para o rosto da mulher, a avaliando com um arquejo sutil de sobrancelha.
— O que foi que eu disse sobre descansar, menina? — Ela abriu a boca para se justificar, mas Theseus se abaixou para colocá-la sentada na cama. Ele se manteve próximo, uma mão ainda em sua cintura, como se estivesse garantindo que ela não fosse cair, o que causou um arrepio involuntário percorrendo sua espinha. Ele estava prestes a se afastar, quando Dona Lúcia desviou sua atenção. — Então é você.
— Eu?
A curandeira sorriu de canto, um brilho astuto no olhar ao alterná-lo entre os dois.
— O homem de olhos tempestuosos que não sai da cabeça dela.
prendeu a respiração, sentindo o rosto esquentar de imediato.
— Dona Lúcia!
Theseus ficou paralisado. Piscou algumas vezes, tentando assimilar o que havia acabado de ouvir.
— O quê?
Dona Lúcia apenas sorriu mais, com a tranquilidade de quem já havia visto aquele tipo de situação muitas vezes antes.
— A menina pensa em você mais do que percebe.
arregalou os olhos, escandalizada, e olhou para Theseus em desespero, como se tentasse negar. Ele, por sua vez, piscou novamente, desviando o olhar. Parecia nervoso, incerto – o que era raro.
— Ah, bom… — Limpou a garganta, soltou sua mão e se afastou de vez.
— Vai, rapaz, deixa eu cuidar dela antes que desmaie de novo. — A senhora riu e pegou uma poção, a balançando levemente na frente da mulher.
Theseus nem precisou ouvir duas vezes. Virou as costas e saiu do cômodo apressadamente, os ombros tensos, como se quisesse fugir dali o mais rápido possível.
— Eu juro que ela não sabe o que está dizendo. — cobriu o rosto com as mãos, querendo se enfiar debaixo das cobertas e nunca mais sair.
— Sei, sei… — Dona Lúcia apenas sorriu de lado, divertida.

O homem de olhos tempestuosos que não sai da cabeça dela.

Essas palavras pareciam ecoar na mente de Theseus contra sua vontade. Respirou fundo, afastando qualquer pensamento que não fosse a missão e seguiu para onde o restante do grupo estava reunido. Em outro cômodo da enfermaria, Mateus, visivelmente abalado e com o rosto pálido, como se a influência do Encantado não tivesse saído completamente de seu corpo, contava o que se lembrava:
— Eu não lembro de tudo… — começou, esfregando o rosto — mas lembro da floresta. Lembro de uma voz… não dele, mas de outra pessoa. Me dizendo para obedecer, que aquilo era necessário.
— Que tipo de voz? — Tina franziu o cenho, e o homem hesitou, como se estivesse tentando puxar algo da memória.
— Fria, calculista, mas… sedutora, de um jeito estranho. Fazia tudo parecer certo, fazia a gente querer seguir sem questionar.
— Ele está falando de Grindelwald. — Queenie estremeceu.
O silêncio no grupo foi pesado. Theseus cruzou os braços, sua expressão endurecendo.
— Ele esteve aqui mesmo, então.
— Não sei o que ele queria exatamente, mas sei que não era só sobre a vila. Nós éramos um experimento. Algo maior estava por vir.
— Ele queria Dumbledore aqui — Newt, que estava calado até então, finalmente se pronunciou, e todos olharam para ele. — O Encantado estava sob controle, certo? E Grindelwald sabia que iríamos atrás dele. Se ele realmente achava que Dumbledore estaria com a gente…
— Ele estava preparando uma armadilha. — Lally completou.
— Mas Dumbledore nunca nos disse nada. — Theseus apertou os punhos.
— Ele nunca diz. — O mais novo balançou a cabeça.
— Encontraram algo na caverna? — Tina perguntou, voltando seu olhar para Lally.
— Apenas alguns símbolos gravados nas paredes, mas não deu tempo de procurar mais. Alguém apareceu, corremos atrás pela floresta, mas não conseguimos alcançar.
— Tinha alguém lá, além de nós… — As palavras de Mateus fizeram o grupo trocar olhares atentos. Então ele continuou. — Me lembro de passos e vozes baixas. Quando achei que alguém ia me soltar… fui puxado de volta.
— Então precisamos voltar para essa caverna — Theseus concluiu, respirando fundo.
— Mas e ? — Lally perguntou, desviando seu olhar para o auror. — Se ela acordar e souber para onde fomos, vai tentar vir atrás.
Theseus apertou o maxilar, claramente incomodado com a teimosia dela, mas tinha algo mais. Aquela sensação claramente se estendia à expressão que Dona Lúcia fez ao olhá-lo e ao comentário dela, carregado de um significado que ele não queria analisar.

O homem de olhos tempestuosos que não sai da cabeça dela.

Engoliu em seco e desviou o olhar, preferindo não entrar na discussão.
— E ela ainda não está completamente recuperada — Yusuf murmurou, cruzando os braços.
— Podemos deixar alguém para trás. — Tina cruzou os braços, ponderando, e Jacob se ofereceu imediatamente.
— Eu fico.
— Tudo bem… você vem? — A mais velha virou para Queenie, que hesitou por um momento, olhando de relance para o marido.
— Se essa pessoa ainda estiver por perto, posso captar os pensamentos dela.
— Isso pode ser útil — Lally concordou.
— Então melhor irmos logo — Theseus decidiu, ajeitando a postura. — Quanto mais tempo perdermos, maior a chance de perdermos essa pessoa também.
vai odiar isso. — Newt olhou de relance para o cômodo em que a brasileira estava, e Theseus bufou, se forçando a afastar qualquer outro pensamento.
— Ela que me odeie, então.
Começaram a se preparar, deixando apenas Jacob e para trás, e o auror lançou um último olhar para a enfermaria antes de partir, ainda sentindo o incômodo estranho no peito.

Mas ignorou. Ele sempre ignorava.

A noite estava silenciosa quando o grupo deixou a vila. O céu estrelado mal iluminava o caminho e apenas as varinhas erguidas forneciam alguma claridade. O ar ainda carregava umidade do rio e o farfalhar das folhas ao redor deixava evidente que eles não estavam sozinhos. Queenie fechou os olhos por um momento, tentando captar algum pensamento próximo.
— Tem alguém — murmurou, franzindo a testa. — Mas… não está claro. Como se a mente dessa pessoa estivesse protegida de alguma forma.
— Protegida como? — Tina lançou um olhar atento à irmã, que olhou ao redor, inquieta.
— Não sei. É como um rádio mal sintonizado. Posso sentir que há alguém, mas não consigo entender o que está pensando.
— Isso significa que essa pessoa sabe como bloquear uma legilimente, que nem fez — Newt observou, franzindo a testa.
O grupo se entreolhou, sentindo a tensão aumentar. Se aquela pessoa era capaz de se proteger de Queenie, não era alguém comum. De repente, um estalo soou entre as árvores, fazendo Tina e Lally se virarem com as varinhas erguidas.
— Ali! — Queenie apontou para uma sombra se movendo rapidamente entre as árvores.
— Não vamos perder de novo! — Tina disparou na frente, e o resto do grupo seguiu.
A perseguição começou. Eles se moviam rápido pela floresta, desviando de galhos e raízes enquanto tentavam alcançar a figura encapuzada que se esgueirava entre as sombras. A pessoa era ágil, sempre mantendo uma distância segura, mas não escapando completamente da vista deles.
Estupefaça! — Theseus lançou um feitiço, mas a figura desviou no último segundo, saltando sobre um tronco caído. — Essa pessoa sabe o que está fazendo.
— E está nos levando mais para dentro da floresta — Lally alertou.
O grupo continuou correndo, até que, de repente, a figura aparatou alguns metros à frente, girou no lugar e lançou um feitiço na direção deles.
Protego! — Tina bloqueou a investida no último segundo.
O impacto fez as folhas secas ao redor voarem. A figura misteriosa aproveitou a distração e correu para a escuridão da floresta.
— Droga! — Theseus rosnou, correndo ainda mais rápido.
Continuaram a perseguição, mas a escuridão dificultava a visão. Foi quando Queenie franziu o cenho e murmurou:
— Espera… acho que tem mais alguém aqui.
E então, sem aviso, algo se moveu nas sombras, e um feitiço veio direto na direção deles, rápido demais.
Protego! — Theseus bloqueou, sentindo o impacto vibrar em seu braço.
— Não estamos lidando com qualquer um! — Lally avisou, se abaixando quando um segundo ataque passou de raspão.
As sombras ao redor pareciam ganhar vida. Além da figura encapuzada, outras silhuetas surgiam entre as árvores, se movendo com uma precisão assustadora. Eles não eram apenas bruxos comuns, estavam bem treinados e sabiam como se esconder. Tina lançou um feitiço contra um deles, que desviou com facilidade e contra-atacou.
Estupefaça! — Yusuf conjurou, forçando um dos atacantes a se esquivar. Mas eles não estavam apenas revidando. Estavam tentando cercá-los.
— Eles estão nos empurrando para um lado específico. — Queenie percebeu, estreitando os olhos.
— Querem nos levar para algum lugar. — Newt olhou ao redor, sentindo um arrepio percorrer sua espinha.
— Pois eu não estou nem um pouco interessada em descobrir onde! — Lally rebateu, girando a varinha e lançando um Depulso contra um dos atacantes, que foi jogado para trás.
Theseus avançou rapidamente e conjurou uma sequência de feitiços rápidos e precisos, acertando um dos inimigos, que caiu desacordado, mas logo outro tomou seu lugar.
— Tem mais deles do que imaginávamos! — Tina alertou, bloqueando um feitiço com um movimento rápido da varinha.
O auror apontou a varinha para o chão e murmurou algo em um tom baixo, porém intenso. Um segundo depois, uma onda de energia se espalhou, derrubando folhas, galhos e criando uma pressão ao redor. Os atacantes recuaram por um instante, pegos de surpresa.
— Agora! — Tina comandou.
O grupo aproveitou a brecha e contra-atacou, derrubando os que ainda estavam de pé. Um dos inimigos tentou aparatar, mas Queenie foi mais rápida e lançou um feitiço não-verbal, o impedindo. E então, o silêncio caiu sobre a floresta.
— Quem são eles? — Yusuf perguntou, respirando pesadamente.
— Boa pergunta. — Theseus chutou levemente um dos corpos no chão, o revirando para ver seu rosto.
— São organizados demais para serem só mercenários… — Lally se abaixou ao lado de um dos atacantes desacordados, o analisando. — E treinados demais para serem apenas capangas.
Foi então que Queenie se aproximou de um dos bruxos, que ainda estava consciente, embora atordoado, e se abaixou na frente dele.
— Vamos ver o que você está escondendo. — Antes que o homem pudesse reagir, os olhos dela se tornaram penetrantes enquanto mergulhava em sua mente. Piscou algumas vezes antes de continuar, a expressão ficando séria. — Não são enviados diretos de Grindelwald, mas trabalham para alguém que está do lado dele.
— Quem? — Newt estreitou os olhos.
Ela hesitou, como se tentando organizar as informações que acabara de captar.
— Eles chamam essa pessoa de Sombra.
— Nunca ouvi esse nome antes — Tina disse, tensa, e todos concordaram.
— E não é só isso… — Queenie continuou. — Eles estavam nos vigiando há algum tempo.
Essa revelação fez o grupo inteiro se enrijecer.
— Desde quando? — Lally perguntou, e a loira olhou para ela antes de responder.
— Desde que chegamos ao Brasil.
Essas palavras foram como um soco no estômago deles. Alguém estava os observando desde o início e sabia de cada passo deles.
— Mas quem diabos é esse Sombra? — Yusuf perguntou, cruzando os braços.
— Eu não sei… — Queenie respondeu, um pouco frustrada. — Ele sabe muito pouco, só que esse bruxo trabalha para Grindelwald, mas não responde diretamente a ele.
— Um intermediário? — Newt sugeriu.
— Parece que sim.
— Vamos levar todos. Não podemos dar chance para fugirem e alertarem Grindelwald. — Lally olhou para os outros bruxos desacordados ao redor, e Tina concordou.
— Precisamos de um lugar seguro para mantê-los presos.
— Vicência. — Theseus, que permanecia calado, apertou os punhos e todos olharam para ele. — Precisamos falar com Vicência Santos. Ela tem autoridade no Ministério da Magia do Brasil e pode garantir que esses bruxos sejam contidos de verdade.
— Isso faz sentido, mas é quem tem mais contato com ela. — Tina assentiu.
O nome fez Theseus trincar a mandíbula.
— Acham que ela já sabia da existência dessa Sombra? — Yusuf perguntou, pensativo e ele desviou o olhar, o incômodo estranho voltando no peito.

escondia mais alguma coisa?

A conhecia o suficiente para saber que não estava do lado de Grindelwald. Ainda assim, o pensamento ficou em sua mente.
— Vamos voltar para a vila — Lally concluiu, quebrando o silêncio. — Precisamos nos organizar antes de falar com Vicência.
Tina e Queenie começaram a conjurar feitiços para levitar os prisioneiros. Theseus, ainda perdido em seus pensamentos, apenas virou-se para acompanhar o grupo.

piscou algumas vezes, se acostumando com a claridade. Sentia o corpo pesado, mas sua mente já estava funcionando rápido. O cheiro de ervas preenchia o ar e, quando olhou para o lado, viu Jacob sentado em uma cadeira, mexendo distraidamente nos botões da camisa.
— Finalmente acordou — ele comentou, sorrindo aliviado, e a bruxa franziu o cenho.
— O que aconteceu?
— Você capotou depois que cheirou uma poção que aquela senhorinha te deu.
— E os outros? — Ela se endireitou na cama imediatamente.
— Depois que falamos com Mateus, eles resolveram… voltar para a caverna — Jacob respondeu, coçando a nuca.
— Eles o quê?
Antes que ele pudesse reagir, já tentava sair da cama, mas o peso em seus músculos a fez tropeçar um pouco. Jacob se levantou rapidamente, segurando seus ombros.
— Calma aí, mocinha. Você ainda não tá 100%.
— Jacob, eu preciso ir até lá!
— Você precisa descansar.
revirou os olhos e tentou pegar sua varinha, mas não a encontrou. Ela lançou um olhar suspeito para o não-maj, que desviou o olhar casualmente.
— Jacob… onde está a minha varinha? — perguntou, estreitando os olhos, e ele deu um passo para trás, como se tentasse parecer inocente. — Você pegou a minha varinha?
— Tecnicamente, a Queenie pegou e me mandou segurar pra você não fazer nenhuma loucura.
— Jacob Kowalski, me deixa passar agora.

— Agora!
Ele suspirou, mas não se moveu. deu um passo para trás, fingindo recuar, e, assim que Jacob relaxou por um segundo, passou por ele, pegando a varinha de sua mão com um movimento rápido e abrindo a porta do quarto. Mas ela mal teve tempo de saborear sua pequena vitória sobre Jacob, dando de cara com Theseus, Queenie e Tina, que chegavam exatamente naquele momento. O olhar do auror pousou imediatamente nela e sua expressão fechou na mesma hora. Ele olhou para a varinha em sua mão, depois para Jacob, que tentava parecer inocente, e então de volta para .
— É sério, ? — Cruzou os braços e ergueu uma sobrancelha, falando como se estivesse lidando com uma criança fazendo alguma besteira, e engoliu em seco.
— O quê? Eu só… estava tentando pegar um ar.
— Claro que estava… — ele respondeu, com ironia, lançando um olhar de repreensão para Jacob, que apenas levantou as mãos, como se dissesse “eu tentei”. Queenie, ao seu lado, escondia um sorriso divertido, enquanto Tina apenas suspirou, já acostumada com aquele tipo de cena. — Precisamos conversar — disse, enfim, mais sério agora.
percebeu que não havia saída e deu um passo para trás, permitindo que eles entrassem no quarto. Seu estômago revirou com a intensidade do olhar de Theseus.
— Isso não parece nada bom… — murmurou, fechando a porta atrás deles. — Então, o que exatamente aconteceu enquanto eu estava apagada? — Ela cruzou os braços, olhando de um para o outro, e Scamander foi o primeiro a responder, seu tom ainda carregado de irritação.
— Voltamos para a floresta e encontramos os bruxos que estavam manipulando o Encantado e os moradores. Capturamos alguns deles e Newt e os outros estão garantindo que fiquem sob custódia até conseguirmos uma solução definitiva.
assentiu, absorvendo as informações. Então, Queenie pigarreou, chamando sua atenção.
— Eu li a mente de um deles… e descobri algo que me preocupou bastante. Ele estava pensando sobre alguém. Ou melhor, sobre alguém a quem eles respondiam.
— Grindelwald? — franziu o cenho, achando que a resposta era óbvia, mas Queenie negou com a cabeça.
— Sombra.
O estômago da brasileira revirou, seu corpo ficou tenso no mesmo instante e a surpresa em seu rosto foi impossível de esconder.
— Não é possível… — disse, sentindo o coração acelerar, e Queenie apenas assentiu, mordendo o lábio, como se não quisesse trazer más notícias.
— Por quê? Você o conhece? — Theseus quebrou o silêncio pesado que se instalou, com a voz exalando desconfiança.
— Então vamos voltar para a parte em que você desconfia que eu sou uma traidora… — soltou um suspiro exasperado e lançou um olhar afiado para ele.
— Bem, eu só estou querendo entender por que você aparentemente conhece esse tal Sombra e não achou importante mencioná-lo pra gente. — Theseus ergueu uma sobrancelha, mas manteve a postura firme, e apertou os lábios, desviando o olhar por um instante.
— Porque ele morreu há muitos anos.
Um silêncio pairou sobre o quarto, mas Scamander não tirou os olhos dela.
— Você tem certeza disso?
sentiu um arrepio percorrer sua espinha.
— Eu achava que sim, mas agora… não tenho tanta certeza. — Ela respirou fundo antes de começar. — Sombra, ou melhor, Elias Montserrat, era um bruxo extremista, de família rica e puro sangue, que pensava exatamente como Grindelwald. Mas ele não só pregava a superioridade bruxa… queria provar isso através do terror. Começou cometendo assassinatos contra trouxas, mestiços e nascidos-trouxas pelo país, sempre deixando mensagens de ódio escritas com sangue nos locais do crime.
— Então ele era um tipo de serial killer bruxo? — Jacob perguntou, arregalando os olhos.
— Bom, é isso que um serial killer faz, não é? Com o tempo, atraiu seguidores. Pessoas tão sádicas quanto ele, que acreditavam que estavam “purificando” o mundo bruxo ao erradicar qualquer ligação com não-mágicos.
— Como ele foi detido? — Tina perguntou, séria.
— Foi uma operação massiva. O Ministério do Brasil trabalhou por anos para identificá-lo e capturar seus seguidores. Vicência Santos foi uma das líderes dessa missão. Eu ainda estava no começo da minha carreira quando fui chamada para auxiliar… — Ela hesitou. Aquelas memórias nunca foram fáceis de acessar. Theseus notou a pausa e a observou atentamente.
— Você o conhecia, não conhecia? — perguntou, em um tom mais cuidadoso, e ergueu os olhos em sua direção.
— Não pessoalmente, mas ele me afetou diretamente. — A sala ficou em silêncio, esperando que ela continuasse, então respirou fundo antes de dizer. — Meu pai era trouxa. Ele foi uma das vítimas de Sombra. — A frase caiu como uma bomba no quarto. — Ele morreu quando eu ainda estava na Castelo Bruxo e só descobri quem o matou anos depois, quando entrei para o Ministério. Quando a operação contra Sombra começou a se intensificar, eu fiz questão de participar. — O olhar dela ficou mais afiado. — E nós o pegamos, ele foi capturado e executado. — Aquelas palavras eram uma certeza, uma convicção. Afinal, havia feito questão de presenciar aquele momento. Mas então, por que estavam ouvindo o nome dele agora? Ela respirou fundo, tentando manter a compostura depois daquela revelação. Seu tom era firme, controlado, como sempre, mas percebeu os olhares cautelosos ao seu redor. As irmãs Goldstein pareciam ponderar tudo o que haviam ouvido, enquanto Jacob mantinha uma expressão carregada. Theseus, por sua vez, apenas a observava com uma intensidade desconfortável. Ela franziu o cenho. — O que foi?
, querida… — Queenie começou, mas ela apenas balançou a cabeça, como se não quisesse mais falar sobre aquilo.
— Ah, pelo amor de Merlin. — revirou os olhos, impaciente. — Vocês acham que eu não consigo pensar racionalmente por causa disso? — O silêncio respondeu por ela, e bufou, cruzando os braços. — Olha, eu entendo a preocupação de vocês, mas eu sou uma auror. Eu lido com esse tipo de coisa o tempo inteiro.
— Sim, mas não é sempre que você descobre que um assassino que matou alguém importante para você pode estar vivo — Tina argumentou.
— E se ele realmente estiver? — Jacob interveio, parecendo escolher as palavras com cuidado. — Digo, a gente já viu esse Grindelwald fazer um monte de coisas impossíveis. Vai que ele trouxe o cara de volta?
— Ele não trouxe ninguém de volta. — expirou pelo nariz, tentando não perder a paciência.
— Mas se trouxe…
— Então eu mesma vou garantir que ele morra dessa vez.
— É exatamente isso que me preocupa — Theseus disse de repente, sua voz grave, e virou a cabeça para encará-lo.
— O que isso quer dizer?
— Quer dizer que você precisa agir racionalmente. Esses bruxos foram capturados há pouco tempo e ainda precisam ser interrogados. Se você for para lá agora, movida por raiva ou desejo de vingança, pode não se controlar e acabar agindo por impulso.
riu sem humor, descrente.
— Me controlar? Quem é você para me dizer isso?
Theseus manteve a postura firme, mas seu maxilar se contraiu.

— Se eu não tivesse me controlado anos atrás, quando capturamos Sombra, acha que eu estaria nessa posição agora? Se eu cheguei até aqui foi por saber exatamente o que fazer em momentos como esse e não tomar decisões impulsivamente. — Os olhos dela brilharam com determinação e uma fúria controlada. — Então não, Scamander, eu não vou ficar sentada esperando vocês resolverem tudo, quando eu sou quem mais conhece o modus operandi do Sombra!
Um silêncio pesado tomou conta do quarto. encarava Theseus com intensidade e, por um momento, ele pareceu procurar algo nos olhos dela. Por fim, suspirou, passando uma mão pelo cabelo.
— Vai mesmo insistir nisso?
— É claro que vou.
Os dois trocaram olhares desafiadores, uma tensão no ar que parecia quase palpável. Queenie e Jacob apenas se entreolharam, e Tina suspirou baixinho. mantinha o olhar fixo em Theseus, claramente pronta para uma discussão maior, mas ele respirou fundo e disse com firmeza.
— Está bem, mas, antes de qualquer coisa, tem que entrar em contato com Vicência.
— O quê?
— Precisamos que ela traga pessoas confiáveis para levar esses bruxos sob custódia. Se eles realmente seguem esse Sombra, são mais perigosos do que imaginamos.
— Nós temos aurores aqui. Podemos interrogá-los e conseguir informações antes de entregá-los para o Ministério. — cruzou os braços, impaciente.
— E vamos fazer isso, mas Vicência precisa estar ciente antes. Ou você acha uma boa ideia esconder dela que capturamos seguidores de um bruxo que supostamente está morto?
respirou fundo, claramente contrariada.
— Eu só… — Parou, pressionando os lábios. Sabia que Theseus estava certo, mas a ideia de esperar em vez de agir imediatamente a deixava inquieta.
Ele percebeu sua hesitação e suavizou o tom.
— Olha, eu sei que você quer respostas, mas agir com pressa pode colocar tudo a perder. Assim que Vicência estiver envolvida, podemos ir direto ao ponto.
fechou os olhos por um momento e soltou um suspiro longo.
— Tá, tudo bem. Eu falo com ela.
— Ótimo. Quanto mais cedo, melhor. — Theseus assentiu, satisfeito, e apenas lançou um olhar de canto para ele antes de se virar e sair do quarto para mandar uma mensagem para a Ministra.
O auror a observou sair do quarto e, sem pensar direito, a seguiu, caminhando ao lado dela com uma expressão séria.
— Vai me vigiar agora?
— Vou garantir que não faça nada impulsivo — respondeu secamente, e riu de leve.
— Engraçado, Scamander. Muito engraçado.
Dessa vez, ele não respondeu. Apenas manteve o olhar firme à frente, ignorando a forma como o som da risada dela ficou ecoando na sua cabeça por tempo demais. Ainda estava intrigado com o que Dona Lúcia havia dito mais cedo:

O homem de olhos tempestuosos que não sai da cabeça dela.

A frase se repetia em sua mente, por mais que tentasse ignorá-la. Ele se recusava a pensar sobre aquilo. O que quer que aquela mulher tivesse insinuado, não fazia sentido. não era mais do que uma colega temporária, alguém com quem ele precisava trabalhar. E, ainda assim, não conseguia deixá-la sozinha. Podia justificar aquilo de várias formas: ainda estava preocupado por ela estar fraca, queria garantir que ela realmente chamaria Vicência, ou talvez quisesse apenas monitorar a reação dela sobre tudo que acabara de descobrir em relação a seu passado com Sombra. Mas, no fundo, sabia que nenhuma dessas razões era convincente o suficiente. A verdade era que algo nele se recusava a deixá-la sozinha.

E isso o incomodava.

Theseus sempre foi um homem racional, guiado por lógica e dever. Ele sentia que essa proximidade entre os dois era perigosa. Não no sentido literal, não era uma ameaça. Mas o efeito que ela tinha sobre ele era. Ela tinha uma habilidade irritante de bagunçar seu senso de razão. Era o jeito como o desafiava sem medo, como não recuava diante de sua autoridade, como conseguia levá-lo à beira da irritação e, ao mesmo tempo, o deixar intrigado. E o que o incomodava mais ainda era o fato de que, quando ela sorria para provocá-lo, ou quando abria a boca para dizer algo que certamente o tiraria do sério, seus olhos teimavam em se desviar para os lábios dela.

Talvez Theseus Scamander estivesse desejando .

E ele não gostava nem um pouco daquilo.


Continua...


Nota da autora: Quero agradecer mais uma vez por todo o apoio e, como forma de agradecimento, finalmente os mimos do slow burn estão começando a chegar!!
Não deixem de falar o que acharam desse cap e o que esperam dos próximos!!
Deem uma conferida na página do Pinterest, para ficar mais por dentro dos personagens e das criaturas mágicas que aparecem ao longo da história!

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Se você encontrou algum erro de revisão ou codificação, entre em contato por aqui.
Para saber quando essa fanfic vai atualizar, acompanhe aqui.


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