part i
— Eu não acredito que você me convenceu a vir nessa festa! — Eu disse, balançando a cabeça. Olhei para o lado, vendo meu irmão sorrir de lado. — Por que eu tenho que vir pra festa idiota da sua fraternidade?
— Porque, minha querida irmã, você perdeu a aposta.
— Porque você e seu amigo roubaram! — Dei um soco em seu ombro. — Você e aquele fedelho do me pegaram desprevenida. Jogaram baixo na hora de colocar os shots de whiskey.
— Não é minha culpa se você não sabe beber, . Não sabe brincar, não desce pro play.
— Christopher, às vezes, eu te odeio.
— Odiando ou não, você vai ter que vir pra essa festa. — Chris deu de ombros, saindo do carro logo em seguida. Bufei alto, saindo do carro também.
Tudo começou com uma bola de futebol. Não uma bola qualquer, mas a que meu pai tinha ganhado especialmente autografada pelo melhor jogador de todos os tempos, o único e magnífico Pelé. Chris, pelo simples motivo que tinha um pinto entre as pernas, ganhou a bola no seu aniversário de 18 anos e em vez de dar pra mim como ele prometeu que faria, decidiu ficar com a bola pra poder exibir pra todos os seus amigos do seu time. Claro que eu gritei, esperneei e até dei um chute no seu saco, mas mesmo assim, ele apenas deu de ombros e disse que eu nunca teria a bola enquanto ele estivesse vivo. Mas a vida, ela era imprevisível, e como um dos clichês mais velhos do mundo, Chris se apaixonou pela minha amiga Holly, então quando os seus pais viajaram e ela pediu pra ficar na minha casa, Chris viu a oportunidade perfeita de cortejá-la e eu vi a oportunidade perfeita de ter a bola dos meus sonhos.
Era um jogo de batalha naval, onde os navios eram shots de whiskey, baseado em estratégias das quais eu era muito familiarizada pelos anos jogando com meus primos, eu estava certa de que meu time iria ganhar, por isso tinha aceitado o castigo de vir pra festa de Halloween da fraternidade do meu irmão vestida de sereia caso nos perdêssemos. Eu tinha o jogo nas minhas mãos, Holly e eu estávamos perto de ganhar, mas por alguma obra do destino eles conseguiram dar a volta por cima, pra falar a verdade, conseguiu dar a volta por cima e não tinha coisa pior do que o sorrisinho de lado malicioso de .
Já deu pra perceber que a minha relação com é baseada em a cada palavra que ele fala, eu reviro os olhos ou cada risinho de lado, eu mando o dedo do medo pra ele e a cada brincadeira sem graça eu dou um peteleco na cabeça dele. Eu e éramos desse jeito desde que nós nos conhecemos quando nos mudamos por causa do emprego do meu pai. e Chris viraram amigos logo de cara e não foi de muita ajuda quando sua melhor amiga desde a infância, Holly, virou minha melhor amiga. Resumindo: tinha entrado na minha vida e tinha entrado pra ficar. E era por isso que eu estava vestida de sereia, pronta pra encarar uma festa da qual eu não podia ver a hora de ir embora porque adorava me ver irritada.
— Olha, lá está a Holly. — Chris acenou para eles, fazendo com que eu voltasse meu olhar para frente. Holly estava conversando com nossa outra amiga, Blake, e alguns dos amigos de Chris.
— Chris! — Holly correu em direção ao meu irmão e o abraçou pelo pescoço. Chris, surpreendentemente, sorriu para ela e deu um beijo no topo da sua cabeça. E pela primeira vez, eu vi os olhos do meu irmão brilharem. Nem quando meu pai lhe deu o carro que ele tanto queria, ele olhou com tanta adoração do jeito que ele olhou pra Holly. Finalmente! Está mais do que na hora desses dois deixarem de ser frouxos, pensei, sorrindo. — não está com vocês?
— Mas é claro que não. — Respondi logo, revirando os olhos.
— Eu pensei que ele já estava aqui. — Chris a olhou confusa. — Você falou com ele?
— Só antes de vir. — Ela respondeu, se afastando dele. — Ele está doente, passou a semana inteira na cama com a virose. Disse que talvez viesse, mas acho muito difícil.
— Que merda, velho! estava louco pra vir pra essa festa, o dia das bruxas é a sua festa favorita.
— Ah, o pequeno não pode vir, nós sentiremos muito a falta dele. — Eu disse, colocando a mão em meu peito. — Karma is a bitch! Bem feito que ele não tenha conseguido vir pra essa festa onde ele apostou que eu usasse essa fantasia ridícula.
— Mas você está tão linda, . — Holly falou, apontando pra mim. — Se eu já não tivesse vindo de Mulan, eu viria de sereia com certeza.
— Nada contra as sereias, até gosto do fato de que elas usam do que os deuses lhe deram pra mostrar que quem vê cara, definitivamente não vê má intenções, mas essa calda está quase me impossibilitando de andar.
— Você poderia ter vindo com a versão de short ou calça. — Olhei pra Holly extremamente ofendida.
— E arruinar a fantasia?
— Não arruinaria a fantasia, ela só ficaria mais simples e confortável.
— Você sabe que se eu vou pra algum canto é pra arrasar, Holly, porque se não for pra tombar eu nem compareço. Aliás, eu não vou ficar muito tempo aqui mesmo, eu já cumpri minha parte.
— Mas a gente acabou de chegar, , vamos ficar mais um pouco.
— E eu tenho que tirar uma foto sua pra mandar pro , ele precisa ver o que ele está perdendo. — Chris puxou o celular.
— Que foto o quê, Christopher! Guarda esse celular agora, senão eu não respondo por meus atos. — Falar com Chris era o mesmo que falar com uma porta quando se tratava de tirar sarro com minha cara, ele fazia questão de me irritar até que algum desastre acontecesse. Da última vez o celular dele caiu dentro da privada e eu tive que pagar um novo com o meu salário. — Christopher, seu cérebro decidiu parar de funcionar de vez? Você não escutou a parte que eu disse que não quero foto? — Tentei desviar dos flashes, mas Chris apenas continuou tirando fotos, uma saindo mais feia e horrorosa que a outra, eu tenho certeza.
— Chris... — Holly disse, tocando no braço de meu irmão, o que fez com que ele olhasse pra ela e parasse.
— Tudo bem, eu paro. — Ele respondeu, levantando os braços.
— Inacreditável! Ela só precisou dizer o seu nome pra você parar.
— O poder do amor, irmãzinha. — Chris disse, enquanto mexia em seu celular, fazendo com que eu e Holly nos entreolhássemos. Eu podia ver os olhos dela brilhando enquanto ela olhava pra ele, e foi ai que eu tive a certeza que esses dois iam longe. — Pronto, mandei. — Chris disse, estendendo o celular pra eu ver a foto. Eu estava com uma cara zangada enquanto levantava minhas mãos pra evitar os flashes, porém todos os esforços pra não mostrar o meu rosto não conseguiram esconder o meu corpo, ou seja, teria uma bela visão da minha fantasia. Que maravilhoso, agora eu vou escutar sobre isso pelo o resto dos meus dias. Ótimo!
— Será que a gente pode ir dançar agora? — Respondi, me dando por vencida.
— Pensei que eu você nunca ia perguntar. — Holly me puxou por uma mão e Chris pela outra.
Tudo bem, talvez essa festa não fosse tão ruim. Claro que os caras da fraternidade do meu irmão eram bem idiotas, mas sabiam como dar uma festa, principalmente quando se tratava de uma festa tão grande como essa. Holly e eu dançamos até nossos pés começarem a doer, Chris ficou ao nosso lado o tempo todo parecendo um cão de guarda, tentando evitar qualquer cara que chegasse perto da gente. Chegava até a ser fofo Chris olhando com cara feia pra todo cara que se atrevesse a olhar de um jeito malicioso pra Holly.
— Eu vou buscar uma bebida. — Eu disse pra Holly, que assentiu com a cabeça.
— Quem sabe você não arruma pirata pra você. — Ela disse, rindo de lado.
— Pra minhas irmãs e eu sugarmos a vida dele e ficarmos eternamente jovens? É pra isso que eu vim, bebê. — Respondi, me afastando deles. Segurei na parte de baixo da minha calda pra que ninguém pisasse na minha obra de arte que demorou 3 horas pra ser feita.
— , oi. — Parei de andar quando um peitoral impediu que eu desse outro passo. Olhei pra cima, dando de cara com um dos amigos irritantes do meu irmão, não o meu arqui-inimigo, , mas sim o pseudo-cult George, que adorava falar dos vários livros que leu, de política, de como música pop não era “música de verdade” e que Beyoncé era superestimada. Já deu pra perceber que ele era um cara que tinha tipo um papo chato pra caralho e eu fugia dele como o Diabo fugia da cruz.
— Oi, George. Tchau, George. — Eu disse, tentando desviar dele, mas ele ficou em minha frente outra vez. — Será que dá pra você me dar licença? Eu tenho que pegar uma bebida.
— Eu posso pegar pra você.
— Muito obrigada, mas eu não aceito bebida de estranhos.
— Não confia em mim, ?
— Claro que não. — Respondi, tentando desviar dele, mas ele ficou em minha frente de novo. — Dá pra sair da minha frente ou tá difícil, hein, querido?!
— Você não precisa se fazer de difícil, , eu sei que você me quer.
— Em que universo você vive? Eu nunca, em um milhão de anos, me interessaria por você e nem dei a entender que queria alguma coisa contigo.
— Eu sei que você ficava de implicância com pra poder ficar perto de mim.
Eu juro que eu tentei, eu me segurei, mas antes que eu me desse conta, eu estava gargalhando e bem alto.
— Oh, George, eu implico com porque eu gosto de implicar com ele, não porque eu queria ficar mais perto de você. Você não faz meu tipo. — Dei um tapa em seu ombro. — Agora eu realmente tenho que ir. Tchauzinho. — Dessa vez eu consegui desviar dele e ir em direção a cozinha, porém, senti um puxão em meu braço, colidindo com o peito de George. Isso vai dar merda!
— Nenhuma garota ri assim na minha cara.
— Mas elas definitivamente riem nas suas costas. — Eu respondi, tentando achar uma saída rápida dessa situação. Bem que Holly disse que esse meu jeito debochada ia me meter em uma confusão.
— Admiti que o que eu disse é verdade.
— Será que homem não entende um não? Mas que porcaria! — Eu rolei os olhos. — Eu não estava, não estou e nunca estarei interessada em você, George. Você não faz meu tipo e o jeito que você usa os seus privilégios pra oprimir os outros não é bonito, só faz de você um bundão inseguro.
— Você é uma vadia.
— Muito original, chamando uma menina de vadia só porque ela não cedeu pra você. Sabe o que vadias fazem de melhor, George? Não levam desaforo pra casa.
Levantei meu joelho, dando uma joelhada no meio das suas pernas, fazendo com que ele me soltasse. Claro que eu não fiquei pra ver a cara de ódio dele e comecei a subir as escadas, segurando minha calda, o mais rápido que eu podia. Quando eu olhei pra trás George estava olhando pra mim com muito ódio. Ops, eu tinha que me esconder o mais rápido possível. O quarto do meu irmão estava fora de questão, não tinha um quarto aqui. Ai, meu Deus, eu estava fodida! Olhei pro lado, dando de cara com uma porta que dizia “Telhado”, não pensei duas vezes antes de abrir a mesma e subir mais um lance de escadas. Empurrei a porta com toda força, chutando uma pedra que estava no meio do caminho a tempo de escutar a porta de baixo sendo aberta.
— Não deixa a porta... — Olhei pra frente, dando de cara com um cara vestido de pirata sentado no parapeito do prédio. — fechar.
A mesma fechou com um estrondo, fazendo com que ele tampasse os seus ouvidos. O pirata pulou do parapeito e andou em direção a porta, tentando abri-la. Ele puxou uma, duas, três vezes, mas a porta não abria.
— Ótimo! — Ele jogou as mãos para o alto. — Era só o que me faltava nesse dia de merda. — Ele andou em direção ao parapeito e sentou ali. — Um resfriado de merda, uma festa de merda e uma vida de merda! — Ele se deitou no parapeito, olhando para o céu. A primeira coisa que eu pude ver do pirata era que ele era um gostoso, não que aparência fosse o principal, mas ficava bem difícil focar em outra coisa quando ele usava apenas uma calça, botas e uma máscara. Sem falar na voz rouca dele que não parecia nada de uma tentativa de ser sexy e sim de um resfriado mal curado.
— ! — Uma batida na porta fez com que eu pulasse para longe da mesma. Andei para trás, encarando a porta, pronta pra enfrentar o meu oponente. Porém, eu era uma sereia e minha calda era traiçoeira e antes mesmo de eu perceber, eu estava tropeçando e caindo no chão. Ou melhor dizendo, quase caindo no chão.
— Você deveria olhar pra onde anda, sereia . — O pirata disse, me colocando de pé outra vez. Virei-me para ele, podendo encará-lo de perto. Por conta da máscara, eu só podia ver seus olhos e alguma coisa me dizia que eu já tinha visto aqueles olhos em algum lugar.
— Será que não tem outra saída?
— Não. Aquela porta da qual você fechou só abre com uma chave, chave que está no pescoço do presidente da fraternidade.
— Ótimo! Eu estou completamente ferrada.
— Se você está preocupada com o brutamonte que está do outro lado da porta, eu tenho um conselho: não fique.
— Mas se ele achar o presidente, ele pode conseguir a chave e abrir a porta.
— Bem, acho que o presidente está muito ocupado agora. — O pirata andou até o parapeito e eu o segui. Ele apontou para um garoto que estava jogando futebol de salão usando apenas um short de academia e rodeado de mulheres.
— Ele não tem nenhuma chave ao redor do pescoço.
— Isso é porque ele deu para o seu homem de confiança.
— E quem seria esse?
— Algum pirata. — Olhei ao redor da festa, vendo que o que mais tinha eram piratas.
— Mas só o que tem nessa festa é pirata!
— Bem, a loja do centro estava em promoção com fantasias de pirata então pra que complicar a vida e procurar outra fantasia? — Ele se apoiou no parapeito de uma maneira que ficasse de frente pra mim. Claro que eu tomei a liberdade de encarar o seu peitoral e suas tatuagens.
— Ace. — Sussurrei, olhando para sua tatuagem do lado direito do seu peito.
— Você me chamou do quê?
— Ace. — Ele me olhou confuso. — Ace é o nome do personagem favorito da minha mãe, ele era um pirata que se apaixonou por uma princesa.
— Que pena que não era uma sereia.
— Na verdade, ela era a princesa do reino do fundo do mar portanto era uma sereia.
— Sorte a dele então.
— Não só dele. — Eu respondi, sorrindo de lado. — Ele também tinha uma tatuagem, um ás de copas e a frase "one life, one chance " igual a sua.
— Minha avó é apaixonada por baralho, ele sabe todos os jogos que você pode imaginar e toda vez que ela pegava um às ela dizia: a vida é só uma, você só tem uma chance então continue criando primeiras chances e vivendo o máximo que puder.
— Sua avó é uma mulher sábia.
— Diga isso pra enfermeira que tem que cuidar dela. — Ele se sentou no parapeito e estendeu a mão pra mim, me ajudando a sentar de frente pra ele. — Então, sereia , posso saber o motivo de você se esconder aqui nesse terraço?
— Fugindo de um brutamonte que não consegue ouvir um não como resposta. Você acredita que ele disse que eu implicava com só pra ficar perto dele? Tem gente que vive no mundo da imaginação.
— ? E esse brutamonte estava certo?
— é o melhor amigo pentelho do meu irmão. É claro que não, se eu implico com é porque eu gosto e porque ele consegue me irritar como ninguém. — Eu olhei pra ele que tinha um sorriso no rosto. — Mas não estamos aqui pra falar sobre , estamos aqui pra falar de você.
— De mim?
— É sim. Você já sabe meu nome, está na hora de eu saber o seu.
— Ace. — Ele respondeu, fazendo com que eu sorrisse.
— Não é justo, esse foi o nome que eu te disse.
— Isso é tudo que você vai conseguir, sereia . — Ele se aproximou de mim.
— Nem um sobrenome?
— Não.
— Uma ocupação?
— Nem insista. Eu não vou responder nenhuma pergunta sobre a minha identidade.
— Tudo bem então. Que tal, por que você está se escondendo nesse telhado?
— Isso eu posso responder. — Ele se deitou no parapeito, colocando os braços atrás da cabeça. — Minha vida vai de mal a pior. Primeiro eu peguei esse resfriado terrível que me deixou de cama por dias; segundo eu estou prestes a perder minha bolsa de natação porque um professor filho da puta não vai com a minha cara e terceiro, eu não posso aproveitar a festa porque ficar em um lugar lotado, quente e que cheira a bebida me deixa enjoado.
— Então por que você veio?
— Pra ver uma sereia. — Eu abaixei minha cabeça, escondendo meu sorriso. — Eu não estava muito a fim de vir, mas meu melhor amigo insistiu que eu viesse. — Ele se sentou novamente, e eu levantei o olhar pra encará-lo. — Eu passei míseros 10 minutos lá embaixo antes de me esconder aqui, eu não estou em clima de festa.
— Nem me fale. Meu irmão insistiu que eu viesse pra essa festa porque ele e minha melhor amiga estão de namorico, o pior de tudo foi que eu perdi uma aposta pro melhor amigo dele e tive que vir fantasiada de sereia.
— Obrigado, melhor amigo pentelho do seu irmão. — Ele disse, se aproximando mais de mim. — Agora você.
— Eu?
— É, pra responder minha pergunta.
— Isso é alguma espécie de jogo? 20 perguntas?
— Que tal 10 e não se fala mais nisso.
— Fechado.
— Por que você odeia tanto o melhor amigo do seu irmão?
— Eu não odeio o . Eu acho que ódio é uma palavra muito forte que é usada demasiadamente pra expressar um enorme desgosto. Falar que você odeia alguém é tão forte quanto falar que você ama alguém. e eu podemos ter nossas diferenças, mas tudo isso é só implicância, às vezes, quando ele quer, pode ser um cara bem legal. — Dei de ombros, olhando pra ele. — A verdade era que e eu sempre fomos dessa maneira desde que ele e meu irmão viraram melhores amigos. Pra falar a verdade, essa implicância começou porque eles viraram amigos e meu irmão começou a passar mais tempo com do que comigo, de certa forma, eu sentia como se fosse roubar o meu irmão de mim. Então eu comecei a implicar com ele pra ver se ele ia embora, o que ele não fez, porque ele praticamente mora na minha casa.
— Mas você ainda quer que ele vá embora? Você ainda tem ciúmes?
— Agora eu já superei. Eu conversei com meu irmão sobre isso e agora nós temos um trato de que a cada duas semanas a gente passa um final de semana juntos, só nós dois. — O pirata sorriu pra mim e de novo eu tive a sensação de que já tinha visto aquele sorriso em algum lugar. — Agora é sua vez.
— Faça o seu melhor, sereia .
— Por que você está se escondendo aqui?
— Você já perguntou isso.
— Eu sei, mas eu sinto que tem mais alguma coisa te incomodando. — Ace abaixou a cabeça, a balançando.
— Minha avó está no hospital. — Ele respondeu, ainda olhando pra baixo. — Ela pegou uma gripe e mesmo que não seja nada grave, na idade que ela está, eu ainda fico muito preocupado. E o pior é que eu nem pude ir visitá-la porque eu também estou gripando, por isso a minha vontade de ficar em casa e melhorar logo pra poder visitá-la.
— Eu sei que você não faz mais do que sua obrigação, mas isso é muito fofo.
— Se você diz. — Ele deu de ombros, apoiando-se pra trás com suas mãos. — Minha vez: Qual sua cor favorita?
— Azul. Qual seu filme favorito?
— Moana.
— O meu também!
— Pensei que seria A pequena Sereia.
— Haha! Muito engraçado. Moana me fez chorar como um bebê do começo ao fim. Batata frita ou pizza?
— Batata frita, é claro. — Ele respondeu. — Banda favorita?
— A Day To Remember. A sua?
— Rolling Stones. Qual o seu curso?
— Design de Moda. E o seu?
— Engenharia Mecânica. Você acha que tomou a melhor decisão se escondendo nesse telhado?
— A melhor. — Eu sorri, mordendo meu lábio inferior. — E você, acha que tomou a melhor decisão em não me avisar sobre a porta antes dela fechar?
— A melhor. — Ace, o pirata, se levantou e estendeu a mão pra mim. — Você aceita dançar comigo, sereia ?
— Por que eu faria isso?
— Porque eu quero arrumar uma desculpa pra ficar mais perto de você.
— Então eu aceito. — Eu peguei em sua mão e ele me ajudou a levantar. Ace, o pirata, passou o braço pela minha cintura e logo quando sua mão quente em contato com a minha pele fria fez com que um arrepio passasse pelo meu corpo. Ele me puxou pra perto, aproximando nossos rostos.
— Sereia , você acredita em destino? — Ele perguntou, fazendo com que eu colocasse minha mão em sua nuca.
— Sim. E você, Ace, o pirata? Está esperando o que pra me beijar?
— Você pedir.
— Então me beija.
Ace sorriu antes de colar seus lábios nos meus. Seu beijo era delicado, porém seus braços me apertavam forte pela cintura, como se ele não quisesse que eu fosse embora. E deixa eu falar uma coisa sobre eu ir embora: eu não tinha nenhuma vontade de sair daquela porta que não fosse com ele ao meu lado. Tinha alguma coisa sobre Ace que me atraia para ele, alguma coisa sobre esse pirata misterioso, que tinha um sorriso lindo e tinha como filme favorito Moana, que fazia com que todas as minhas defesas desaparecessem. Pelo jeito que a conversa fluiu e a facilidade que foi conversar com ele, parecia que nós dois já nos conhecíamos. E sem falar pelo jeito que ele me beijava, como se fosse o primeiro e o último, usando todo o seu corpo como se fosse mais que uma conexão de corpo inteiro e sim uma conexão entre almas. Tinha alguma coisa sobre Ace que fazia eu querer, e Deus me ajudasse porque eu queria muito mais com esse pirata desconhecido.
— Você ainda tem uma pergunta. — Eu disse, me separando dele. Ace, acariciou meu rosto, e me deu um selinho.
— Você quer me ver depois de hoje, sereia ?
— Sim. — Eu respondi, dando um beijo de esquimó nele. — E você, Ace, o pirata, quer me ver depois dessa noite?
— Mais do que tudo nessa vida. — Ele aproximou nossos rostos outra vez, fazendo com que eu fechasse os olhos. Ace me beijou outra vez, de uma forma carinhosa e cheia de paixão, acho que nunca ninguém na minha vida tinha me beijado com tanta ternura e delicadeza como ele estava me beijando.
— ! — Escutei a voz de Holly do outro lado da porta. — , você está ai?
— Eu estou aqui, Holly! — Respondi, me afastando um pouco de Ace. — Holly, minha melhor amiga. — Ele assentiu, e eu me afastei dele.
— , abre a porta! — Agora foi a voz do meu irmão fazendo com que eu arregalasse os olhos. Segurei na minha calda e andei até a porta, Ace segurou na minha cintura, me ajudando.
— Me encontre no Carrión Bar, sexta as 19:00 horas. — Ele disse em meu ouvido, fazendo com que eu olhasse pra ele.
— Mas como eu vou saber que você é você? — Perguntei, me virando pra ele. — Você não me disse seu nome.
— Você vai descobrir na sexta. — Ace tirou o colar em forma de navio e colocou em meu pescoço. Ele colocou a mão em meu rosto, o acariciando novamente, e depois me deu um selinho demorado. Ele tirou a chave do bolso e colocou na porta.
— Ei, você tinha a chave o tempo todo! — Ace sorriu com a minha cara de indignada.
— Eu te encontro na sexta. — Ele começou a se afastar de mim.
— Espera! — Eu disse, fazendo com que ele parasse. Tirei uma das minhas pulseiras e coloquei em seu braço. — Pra você não me esquecer.
— Impossível, . Te encontro na sexta.
Ace abriu a porta e eu dei de cara com Holly e Chris, olhando pra mim aflitos.
— , você quer matar a gente de susto! — Chris me puxou pra um abraço.
— Eu estou bem, Chris, não precisa se preocupar. — Eu disse, me afastando dele e vendo a porta atrás de mim fechar com um estrondo.
— Por que você se escondeu no telhado? Por que você não me ligou? Por que eu tenho a impressão que não vou gostar da resposta?
— Hoje você está todo trabalhado nas perguntas, hein, irmãozinho?!
— Sem sarcasmo, .
— George tentou ficar comigo. Claro que eu recusei e como um bom homem hétero e privilegiado, ele não soube escutar um não como resposta então eu dei uma joelhada nele.
— E você estava ai sozinha?
— Não, com meu pirata.
— E esse pirata tem nome?
— Ace.
— ...
— Não se preocupe, irmãozinho, eu tenho um bom pressentimento sobre esse pirata. — Eu disse, apertando suas bochechas. — Agora vamos, essa festa já deu o que tinha que dar. — Segurei minha calda nos braços. — Eu quero ir pra casa e se vocês dois quiserem ficar, eu pego um Uber e largo vocês aqui.
— Nós estávamos te procurando pra ir embora. — Holly respondeu.
— E, , mais uma coisa: — Meu irmão tirou o celular do bolso, o desbloqueou, e mostrou pra mim. — me mandou uma mensagem. — Olhei para a conversa onde tinha uma mensagem de logo debaixo da minha foto. “Que sereia irritada.” E logo embaixo tinha escrito “E linda. Já tenho um novo papel de parede pro meu celular.” Eu apenas rolei os olhos.
— Muito obrigada, Chris, eu nunca vou escutar o fim disso. — Comecei a descer a escada. — Mas no momento, eu não me importo, eu estou em um ótimo humor.
— Pra alguém que não queria vir, parece que você aproveitou bem a festa. — Holly disse, fazendo com que eu olhasse pra ele por cima do meu ombro.
— Você não imagina o quanto. — Eu respondi, soltando uma piscadela pra ela.
— Porque, minha querida irmã, você perdeu a aposta.
— Porque você e seu amigo roubaram! — Dei um soco em seu ombro. — Você e aquele fedelho do me pegaram desprevenida. Jogaram baixo na hora de colocar os shots de whiskey.
— Não é minha culpa se você não sabe beber, . Não sabe brincar, não desce pro play.
— Christopher, às vezes, eu te odeio.
— Odiando ou não, você vai ter que vir pra essa festa. — Chris deu de ombros, saindo do carro logo em seguida. Bufei alto, saindo do carro também.
Tudo começou com uma bola de futebol. Não uma bola qualquer, mas a que meu pai tinha ganhado especialmente autografada pelo melhor jogador de todos os tempos, o único e magnífico Pelé. Chris, pelo simples motivo que tinha um pinto entre as pernas, ganhou a bola no seu aniversário de 18 anos e em vez de dar pra mim como ele prometeu que faria, decidiu ficar com a bola pra poder exibir pra todos os seus amigos do seu time. Claro que eu gritei, esperneei e até dei um chute no seu saco, mas mesmo assim, ele apenas deu de ombros e disse que eu nunca teria a bola enquanto ele estivesse vivo. Mas a vida, ela era imprevisível, e como um dos clichês mais velhos do mundo, Chris se apaixonou pela minha amiga Holly, então quando os seus pais viajaram e ela pediu pra ficar na minha casa, Chris viu a oportunidade perfeita de cortejá-la e eu vi a oportunidade perfeita de ter a bola dos meus sonhos.
Era um jogo de batalha naval, onde os navios eram shots de whiskey, baseado em estratégias das quais eu era muito familiarizada pelos anos jogando com meus primos, eu estava certa de que meu time iria ganhar, por isso tinha aceitado o castigo de vir pra festa de Halloween da fraternidade do meu irmão vestida de sereia caso nos perdêssemos. Eu tinha o jogo nas minhas mãos, Holly e eu estávamos perto de ganhar, mas por alguma obra do destino eles conseguiram dar a volta por cima, pra falar a verdade, conseguiu dar a volta por cima e não tinha coisa pior do que o sorrisinho de lado malicioso de .
Já deu pra perceber que a minha relação com é baseada em a cada palavra que ele fala, eu reviro os olhos ou cada risinho de lado, eu mando o dedo do medo pra ele e a cada brincadeira sem graça eu dou um peteleco na cabeça dele. Eu e éramos desse jeito desde que nós nos conhecemos quando nos mudamos por causa do emprego do meu pai. e Chris viraram amigos logo de cara e não foi de muita ajuda quando sua melhor amiga desde a infância, Holly, virou minha melhor amiga. Resumindo: tinha entrado na minha vida e tinha entrado pra ficar. E era por isso que eu estava vestida de sereia, pronta pra encarar uma festa da qual eu não podia ver a hora de ir embora porque adorava me ver irritada.
— Olha, lá está a Holly. — Chris acenou para eles, fazendo com que eu voltasse meu olhar para frente. Holly estava conversando com nossa outra amiga, Blake, e alguns dos amigos de Chris.
— Chris! — Holly correu em direção ao meu irmão e o abraçou pelo pescoço. Chris, surpreendentemente, sorriu para ela e deu um beijo no topo da sua cabeça. E pela primeira vez, eu vi os olhos do meu irmão brilharem. Nem quando meu pai lhe deu o carro que ele tanto queria, ele olhou com tanta adoração do jeito que ele olhou pra Holly. Finalmente! Está mais do que na hora desses dois deixarem de ser frouxos, pensei, sorrindo. — não está com vocês?
— Mas é claro que não. — Respondi logo, revirando os olhos.
— Eu pensei que ele já estava aqui. — Chris a olhou confusa. — Você falou com ele?
— Só antes de vir. — Ela respondeu, se afastando dele. — Ele está doente, passou a semana inteira na cama com a virose. Disse que talvez viesse, mas acho muito difícil.
— Que merda, velho! estava louco pra vir pra essa festa, o dia das bruxas é a sua festa favorita.
— Ah, o pequeno não pode vir, nós sentiremos muito a falta dele. — Eu disse, colocando a mão em meu peito. — Karma is a bitch! Bem feito que ele não tenha conseguido vir pra essa festa onde ele apostou que eu usasse essa fantasia ridícula.
— Mas você está tão linda, . — Holly falou, apontando pra mim. — Se eu já não tivesse vindo de Mulan, eu viria de sereia com certeza.
— Nada contra as sereias, até gosto do fato de que elas usam do que os deuses lhe deram pra mostrar que quem vê cara, definitivamente não vê má intenções, mas essa calda está quase me impossibilitando de andar.
— Você poderia ter vindo com a versão de short ou calça. — Olhei pra Holly extremamente ofendida.
— E arruinar a fantasia?
— Não arruinaria a fantasia, ela só ficaria mais simples e confortável.
— Você sabe que se eu vou pra algum canto é pra arrasar, Holly, porque se não for pra tombar eu nem compareço. Aliás, eu não vou ficar muito tempo aqui mesmo, eu já cumpri minha parte.
— Mas a gente acabou de chegar, , vamos ficar mais um pouco.
— E eu tenho que tirar uma foto sua pra mandar pro , ele precisa ver o que ele está perdendo. — Chris puxou o celular.
— Que foto o quê, Christopher! Guarda esse celular agora, senão eu não respondo por meus atos. — Falar com Chris era o mesmo que falar com uma porta quando se tratava de tirar sarro com minha cara, ele fazia questão de me irritar até que algum desastre acontecesse. Da última vez o celular dele caiu dentro da privada e eu tive que pagar um novo com o meu salário. — Christopher, seu cérebro decidiu parar de funcionar de vez? Você não escutou a parte que eu disse que não quero foto? — Tentei desviar dos flashes, mas Chris apenas continuou tirando fotos, uma saindo mais feia e horrorosa que a outra, eu tenho certeza.
— Chris... — Holly disse, tocando no braço de meu irmão, o que fez com que ele olhasse pra ela e parasse.
— Tudo bem, eu paro. — Ele respondeu, levantando os braços.
— Inacreditável! Ela só precisou dizer o seu nome pra você parar.
— O poder do amor, irmãzinha. — Chris disse, enquanto mexia em seu celular, fazendo com que eu e Holly nos entreolhássemos. Eu podia ver os olhos dela brilhando enquanto ela olhava pra ele, e foi ai que eu tive a certeza que esses dois iam longe. — Pronto, mandei. — Chris disse, estendendo o celular pra eu ver a foto. Eu estava com uma cara zangada enquanto levantava minhas mãos pra evitar os flashes, porém todos os esforços pra não mostrar o meu rosto não conseguiram esconder o meu corpo, ou seja, teria uma bela visão da minha fantasia. Que maravilhoso, agora eu vou escutar sobre isso pelo o resto dos meus dias. Ótimo!
— Será que a gente pode ir dançar agora? — Respondi, me dando por vencida.
— Pensei que eu você nunca ia perguntar. — Holly me puxou por uma mão e Chris pela outra.
Tudo bem, talvez essa festa não fosse tão ruim. Claro que os caras da fraternidade do meu irmão eram bem idiotas, mas sabiam como dar uma festa, principalmente quando se tratava de uma festa tão grande como essa. Holly e eu dançamos até nossos pés começarem a doer, Chris ficou ao nosso lado o tempo todo parecendo um cão de guarda, tentando evitar qualquer cara que chegasse perto da gente. Chegava até a ser fofo Chris olhando com cara feia pra todo cara que se atrevesse a olhar de um jeito malicioso pra Holly.
— Eu vou buscar uma bebida. — Eu disse pra Holly, que assentiu com a cabeça.
— Quem sabe você não arruma pirata pra você. — Ela disse, rindo de lado.
— Pra minhas irmãs e eu sugarmos a vida dele e ficarmos eternamente jovens? É pra isso que eu vim, bebê. — Respondi, me afastando deles. Segurei na parte de baixo da minha calda pra que ninguém pisasse na minha obra de arte que demorou 3 horas pra ser feita.
— , oi. — Parei de andar quando um peitoral impediu que eu desse outro passo. Olhei pra cima, dando de cara com um dos amigos irritantes do meu irmão, não o meu arqui-inimigo, , mas sim o pseudo-cult George, que adorava falar dos vários livros que leu, de política, de como música pop não era “música de verdade” e que Beyoncé era superestimada. Já deu pra perceber que ele era um cara que tinha tipo um papo chato pra caralho e eu fugia dele como o Diabo fugia da cruz.
— Oi, George. Tchau, George. — Eu disse, tentando desviar dele, mas ele ficou em minha frente outra vez. — Será que dá pra você me dar licença? Eu tenho que pegar uma bebida.
— Eu posso pegar pra você.
— Muito obrigada, mas eu não aceito bebida de estranhos.
— Não confia em mim, ?
— Claro que não. — Respondi, tentando desviar dele, mas ele ficou em minha frente de novo. — Dá pra sair da minha frente ou tá difícil, hein, querido?!
— Você não precisa se fazer de difícil, , eu sei que você me quer.
— Em que universo você vive? Eu nunca, em um milhão de anos, me interessaria por você e nem dei a entender que queria alguma coisa contigo.
— Eu sei que você ficava de implicância com pra poder ficar perto de mim.
Eu juro que eu tentei, eu me segurei, mas antes que eu me desse conta, eu estava gargalhando e bem alto.
— Oh, George, eu implico com porque eu gosto de implicar com ele, não porque eu queria ficar mais perto de você. Você não faz meu tipo. — Dei um tapa em seu ombro. — Agora eu realmente tenho que ir. Tchauzinho. — Dessa vez eu consegui desviar dele e ir em direção a cozinha, porém, senti um puxão em meu braço, colidindo com o peito de George. Isso vai dar merda!
— Nenhuma garota ri assim na minha cara.
— Mas elas definitivamente riem nas suas costas. — Eu respondi, tentando achar uma saída rápida dessa situação. Bem que Holly disse que esse meu jeito debochada ia me meter em uma confusão.
— Admiti que o que eu disse é verdade.
— Será que homem não entende um não? Mas que porcaria! — Eu rolei os olhos. — Eu não estava, não estou e nunca estarei interessada em você, George. Você não faz meu tipo e o jeito que você usa os seus privilégios pra oprimir os outros não é bonito, só faz de você um bundão inseguro.
— Você é uma vadia.
— Muito original, chamando uma menina de vadia só porque ela não cedeu pra você. Sabe o que vadias fazem de melhor, George? Não levam desaforo pra casa.
Levantei meu joelho, dando uma joelhada no meio das suas pernas, fazendo com que ele me soltasse. Claro que eu não fiquei pra ver a cara de ódio dele e comecei a subir as escadas, segurando minha calda, o mais rápido que eu podia. Quando eu olhei pra trás George estava olhando pra mim com muito ódio. Ops, eu tinha que me esconder o mais rápido possível. O quarto do meu irmão estava fora de questão, não tinha um quarto aqui. Ai, meu Deus, eu estava fodida! Olhei pro lado, dando de cara com uma porta que dizia “Telhado”, não pensei duas vezes antes de abrir a mesma e subir mais um lance de escadas. Empurrei a porta com toda força, chutando uma pedra que estava no meio do caminho a tempo de escutar a porta de baixo sendo aberta.
— Não deixa a porta... — Olhei pra frente, dando de cara com um cara vestido de pirata sentado no parapeito do prédio. — fechar.
A mesma fechou com um estrondo, fazendo com que ele tampasse os seus ouvidos. O pirata pulou do parapeito e andou em direção a porta, tentando abri-la. Ele puxou uma, duas, três vezes, mas a porta não abria.
— Ótimo! — Ele jogou as mãos para o alto. — Era só o que me faltava nesse dia de merda. — Ele andou em direção ao parapeito e sentou ali. — Um resfriado de merda, uma festa de merda e uma vida de merda! — Ele se deitou no parapeito, olhando para o céu. A primeira coisa que eu pude ver do pirata era que ele era um gostoso, não que aparência fosse o principal, mas ficava bem difícil focar em outra coisa quando ele usava apenas uma calça, botas e uma máscara. Sem falar na voz rouca dele que não parecia nada de uma tentativa de ser sexy e sim de um resfriado mal curado.
— ! — Uma batida na porta fez com que eu pulasse para longe da mesma. Andei para trás, encarando a porta, pronta pra enfrentar o meu oponente. Porém, eu era uma sereia e minha calda era traiçoeira e antes mesmo de eu perceber, eu estava tropeçando e caindo no chão. Ou melhor dizendo, quase caindo no chão.
— Você deveria olhar pra onde anda, sereia . — O pirata disse, me colocando de pé outra vez. Virei-me para ele, podendo encará-lo de perto. Por conta da máscara, eu só podia ver seus olhos e alguma coisa me dizia que eu já tinha visto aqueles olhos em algum lugar.
— Será que não tem outra saída?
— Não. Aquela porta da qual você fechou só abre com uma chave, chave que está no pescoço do presidente da fraternidade.
— Ótimo! Eu estou completamente ferrada.
— Se você está preocupada com o brutamonte que está do outro lado da porta, eu tenho um conselho: não fique.
— Mas se ele achar o presidente, ele pode conseguir a chave e abrir a porta.
— Bem, acho que o presidente está muito ocupado agora. — O pirata andou até o parapeito e eu o segui. Ele apontou para um garoto que estava jogando futebol de salão usando apenas um short de academia e rodeado de mulheres.
— Ele não tem nenhuma chave ao redor do pescoço.
— Isso é porque ele deu para o seu homem de confiança.
— E quem seria esse?
— Algum pirata. — Olhei ao redor da festa, vendo que o que mais tinha eram piratas.
— Mas só o que tem nessa festa é pirata!
— Bem, a loja do centro estava em promoção com fantasias de pirata então pra que complicar a vida e procurar outra fantasia? — Ele se apoiou no parapeito de uma maneira que ficasse de frente pra mim. Claro que eu tomei a liberdade de encarar o seu peitoral e suas tatuagens.
— Ace. — Sussurrei, olhando para sua tatuagem do lado direito do seu peito.
— Você me chamou do quê?
— Ace. — Ele me olhou confuso. — Ace é o nome do personagem favorito da minha mãe, ele era um pirata que se apaixonou por uma princesa.
— Que pena que não era uma sereia.
— Na verdade, ela era a princesa do reino do fundo do mar portanto era uma sereia.
— Sorte a dele então.
— Não só dele. — Eu respondi, sorrindo de lado. — Ele também tinha uma tatuagem, um ás de copas e a frase "one life, one chance " igual a sua.
— Minha avó é apaixonada por baralho, ele sabe todos os jogos que você pode imaginar e toda vez que ela pegava um às ela dizia: a vida é só uma, você só tem uma chance então continue criando primeiras chances e vivendo o máximo que puder.
— Sua avó é uma mulher sábia.
— Diga isso pra enfermeira que tem que cuidar dela. — Ele se sentou no parapeito e estendeu a mão pra mim, me ajudando a sentar de frente pra ele. — Então, sereia , posso saber o motivo de você se esconder aqui nesse terraço?
— Fugindo de um brutamonte que não consegue ouvir um não como resposta. Você acredita que ele disse que eu implicava com só pra ficar perto dele? Tem gente que vive no mundo da imaginação.
— ? E esse brutamonte estava certo?
— é o melhor amigo pentelho do meu irmão. É claro que não, se eu implico com é porque eu gosto e porque ele consegue me irritar como ninguém. — Eu olhei pra ele que tinha um sorriso no rosto. — Mas não estamos aqui pra falar sobre , estamos aqui pra falar de você.
— De mim?
— É sim. Você já sabe meu nome, está na hora de eu saber o seu.
— Ace. — Ele respondeu, fazendo com que eu sorrisse.
— Não é justo, esse foi o nome que eu te disse.
— Isso é tudo que você vai conseguir, sereia . — Ele se aproximou de mim.
— Nem um sobrenome?
— Não.
— Uma ocupação?
— Nem insista. Eu não vou responder nenhuma pergunta sobre a minha identidade.
— Tudo bem então. Que tal, por que você está se escondendo nesse telhado?
— Isso eu posso responder. — Ele se deitou no parapeito, colocando os braços atrás da cabeça. — Minha vida vai de mal a pior. Primeiro eu peguei esse resfriado terrível que me deixou de cama por dias; segundo eu estou prestes a perder minha bolsa de natação porque um professor filho da puta não vai com a minha cara e terceiro, eu não posso aproveitar a festa porque ficar em um lugar lotado, quente e que cheira a bebida me deixa enjoado.
— Então por que você veio?
— Pra ver uma sereia. — Eu abaixei minha cabeça, escondendo meu sorriso. — Eu não estava muito a fim de vir, mas meu melhor amigo insistiu que eu viesse. — Ele se sentou novamente, e eu levantei o olhar pra encará-lo. — Eu passei míseros 10 minutos lá embaixo antes de me esconder aqui, eu não estou em clima de festa.
— Nem me fale. Meu irmão insistiu que eu viesse pra essa festa porque ele e minha melhor amiga estão de namorico, o pior de tudo foi que eu perdi uma aposta pro melhor amigo dele e tive que vir fantasiada de sereia.
— Obrigado, melhor amigo pentelho do seu irmão. — Ele disse, se aproximando mais de mim. — Agora você.
— Eu?
— É, pra responder minha pergunta.
— Isso é alguma espécie de jogo? 20 perguntas?
— Que tal 10 e não se fala mais nisso.
— Fechado.
— Por que você odeia tanto o melhor amigo do seu irmão?
— Eu não odeio o . Eu acho que ódio é uma palavra muito forte que é usada demasiadamente pra expressar um enorme desgosto. Falar que você odeia alguém é tão forte quanto falar que você ama alguém. e eu podemos ter nossas diferenças, mas tudo isso é só implicância, às vezes, quando ele quer, pode ser um cara bem legal. — Dei de ombros, olhando pra ele. — A verdade era que e eu sempre fomos dessa maneira desde que ele e meu irmão viraram melhores amigos. Pra falar a verdade, essa implicância começou porque eles viraram amigos e meu irmão começou a passar mais tempo com do que comigo, de certa forma, eu sentia como se fosse roubar o meu irmão de mim. Então eu comecei a implicar com ele pra ver se ele ia embora, o que ele não fez, porque ele praticamente mora na minha casa.
— Mas você ainda quer que ele vá embora? Você ainda tem ciúmes?
— Agora eu já superei. Eu conversei com meu irmão sobre isso e agora nós temos um trato de que a cada duas semanas a gente passa um final de semana juntos, só nós dois. — O pirata sorriu pra mim e de novo eu tive a sensação de que já tinha visto aquele sorriso em algum lugar. — Agora é sua vez.
— Faça o seu melhor, sereia .
— Por que você está se escondendo aqui?
— Você já perguntou isso.
— Eu sei, mas eu sinto que tem mais alguma coisa te incomodando. — Ace abaixou a cabeça, a balançando.
— Minha avó está no hospital. — Ele respondeu, ainda olhando pra baixo. — Ela pegou uma gripe e mesmo que não seja nada grave, na idade que ela está, eu ainda fico muito preocupado. E o pior é que eu nem pude ir visitá-la porque eu também estou gripando, por isso a minha vontade de ficar em casa e melhorar logo pra poder visitá-la.
— Eu sei que você não faz mais do que sua obrigação, mas isso é muito fofo.
— Se você diz. — Ele deu de ombros, apoiando-se pra trás com suas mãos. — Minha vez: Qual sua cor favorita?
— Azul. Qual seu filme favorito?
— Moana.
— O meu também!
— Pensei que seria A pequena Sereia.
— Haha! Muito engraçado. Moana me fez chorar como um bebê do começo ao fim. Batata frita ou pizza?
— Batata frita, é claro. — Ele respondeu. — Banda favorita?
— A Day To Remember. A sua?
— Rolling Stones. Qual o seu curso?
— Design de Moda. E o seu?
— Engenharia Mecânica. Você acha que tomou a melhor decisão se escondendo nesse telhado?
— A melhor. — Eu sorri, mordendo meu lábio inferior. — E você, acha que tomou a melhor decisão em não me avisar sobre a porta antes dela fechar?
— A melhor. — Ace, o pirata, se levantou e estendeu a mão pra mim. — Você aceita dançar comigo, sereia ?
— Por que eu faria isso?
— Porque eu quero arrumar uma desculpa pra ficar mais perto de você.
— Então eu aceito. — Eu peguei em sua mão e ele me ajudou a levantar. Ace, o pirata, passou o braço pela minha cintura e logo quando sua mão quente em contato com a minha pele fria fez com que um arrepio passasse pelo meu corpo. Ele me puxou pra perto, aproximando nossos rostos.
— Sereia , você acredita em destino? — Ele perguntou, fazendo com que eu colocasse minha mão em sua nuca.
— Sim. E você, Ace, o pirata? Está esperando o que pra me beijar?
— Você pedir.
— Então me beija.
Ace sorriu antes de colar seus lábios nos meus. Seu beijo era delicado, porém seus braços me apertavam forte pela cintura, como se ele não quisesse que eu fosse embora. E deixa eu falar uma coisa sobre eu ir embora: eu não tinha nenhuma vontade de sair daquela porta que não fosse com ele ao meu lado. Tinha alguma coisa sobre Ace que me atraia para ele, alguma coisa sobre esse pirata misterioso, que tinha um sorriso lindo e tinha como filme favorito Moana, que fazia com que todas as minhas defesas desaparecessem. Pelo jeito que a conversa fluiu e a facilidade que foi conversar com ele, parecia que nós dois já nos conhecíamos. E sem falar pelo jeito que ele me beijava, como se fosse o primeiro e o último, usando todo o seu corpo como se fosse mais que uma conexão de corpo inteiro e sim uma conexão entre almas. Tinha alguma coisa sobre Ace que fazia eu querer, e Deus me ajudasse porque eu queria muito mais com esse pirata desconhecido.
— Você ainda tem uma pergunta. — Eu disse, me separando dele. Ace, acariciou meu rosto, e me deu um selinho.
— Você quer me ver depois de hoje, sereia ?
— Sim. — Eu respondi, dando um beijo de esquimó nele. — E você, Ace, o pirata, quer me ver depois dessa noite?
— Mais do que tudo nessa vida. — Ele aproximou nossos rostos outra vez, fazendo com que eu fechasse os olhos. Ace me beijou outra vez, de uma forma carinhosa e cheia de paixão, acho que nunca ninguém na minha vida tinha me beijado com tanta ternura e delicadeza como ele estava me beijando.
— ! — Escutei a voz de Holly do outro lado da porta. — , você está ai?
— Eu estou aqui, Holly! — Respondi, me afastando um pouco de Ace. — Holly, minha melhor amiga. — Ele assentiu, e eu me afastei dele.
— , abre a porta! — Agora foi a voz do meu irmão fazendo com que eu arregalasse os olhos. Segurei na minha calda e andei até a porta, Ace segurou na minha cintura, me ajudando.
— Me encontre no Carrión Bar, sexta as 19:00 horas. — Ele disse em meu ouvido, fazendo com que eu olhasse pra ele.
— Mas como eu vou saber que você é você? — Perguntei, me virando pra ele. — Você não me disse seu nome.
— Você vai descobrir na sexta. — Ace tirou o colar em forma de navio e colocou em meu pescoço. Ele colocou a mão em meu rosto, o acariciando novamente, e depois me deu um selinho demorado. Ele tirou a chave do bolso e colocou na porta.
— Ei, você tinha a chave o tempo todo! — Ace sorriu com a minha cara de indignada.
— Eu te encontro na sexta. — Ele começou a se afastar de mim.
— Espera! — Eu disse, fazendo com que ele parasse. Tirei uma das minhas pulseiras e coloquei em seu braço. — Pra você não me esquecer.
— Impossível, . Te encontro na sexta.
Ace abriu a porta e eu dei de cara com Holly e Chris, olhando pra mim aflitos.
— , você quer matar a gente de susto! — Chris me puxou pra um abraço.
— Eu estou bem, Chris, não precisa se preocupar. — Eu disse, me afastando dele e vendo a porta atrás de mim fechar com um estrondo.
— Por que você se escondeu no telhado? Por que você não me ligou? Por que eu tenho a impressão que não vou gostar da resposta?
— Hoje você está todo trabalhado nas perguntas, hein, irmãozinho?!
— Sem sarcasmo, .
— George tentou ficar comigo. Claro que eu recusei e como um bom homem hétero e privilegiado, ele não soube escutar um não como resposta então eu dei uma joelhada nele.
— E você estava ai sozinha?
— Não, com meu pirata.
— E esse pirata tem nome?
— Ace.
— ...
— Não se preocupe, irmãozinho, eu tenho um bom pressentimento sobre esse pirata. — Eu disse, apertando suas bochechas. — Agora vamos, essa festa já deu o que tinha que dar. — Segurei minha calda nos braços. — Eu quero ir pra casa e se vocês dois quiserem ficar, eu pego um Uber e largo vocês aqui.
— Nós estávamos te procurando pra ir embora. — Holly respondeu.
— E, , mais uma coisa: — Meu irmão tirou o celular do bolso, o desbloqueou, e mostrou pra mim. — me mandou uma mensagem. — Olhei para a conversa onde tinha uma mensagem de logo debaixo da minha foto. “Que sereia irritada.” E logo embaixo tinha escrito “E linda. Já tenho um novo papel de parede pro meu celular.” Eu apenas rolei os olhos.
— Muito obrigada, Chris, eu nunca vou escutar o fim disso. — Comecei a descer a escada. — Mas no momento, eu não me importo, eu estou em um ótimo humor.
— Pra alguém que não queria vir, parece que você aproveitou bem a festa. — Holly disse, fazendo com que eu olhasse pra ele por cima do meu ombro.
— Você não imagina o quanto. — Eu respondi, soltando uma piscadela pra ela.