Revisada por: Gemini
Última Atualização: 15/01/2026Eu tinha um quarto só para mim, tinha salas disponíveis para treinar, uma adega de bebidas recheada para o término das missões e um tempo de sobra valioso quando não estávamos em missões. Eu não podia reclamar.
No começo havia sido mais difícil. Adaptar-me a ideia de conviver com John Walker diariamente exigiu muito da minha força mental e Alexei conseguia ser um grande pé no saco quando queria, mas num geral eu podia dizer que estava me saindo muito bem.
Afinal, aquela era a segunda vez em que eu tinha uma família de verdade. Um tanto quanto descompensada, mas era uma família de fato.
Yelena gostava de dizer que Bucky e eu éramos os pais de todo mundo. Bucky geralmente torcia o nariz e resmungava alguma coisa, enquanto eu apenas dava de ombros. Eu não me importava. E, no fundo, até gostava do título. Cuidar e zelar por aqueles que eu amava (inclusive John Walker) era uma das minhas tarefas favoritas.
Tanto quanto manipular a água.
Eu havia nascido assim. Brincando com a água. Tipo Moisés quando abriu o Mar Vermelho.
Meu pai costumava dizer que eu carregava um fardo por ter nascido assim. Minha mãe o culpava, dizendo que a carga genética da mutação havia vindo por sua parte da família. Meu irmão gêmeo apenas rolava os olhos e puxava meus cabelos quando nenhum dos dois estavam olhando. Era um tanto quanto difícil para ele lidar com o fato de que sua irmã gêmea tinha superpoderes, enquanto ele era apenas um garoto normal que vivia no interior do país, no meio de uma fazenda cheia de porcos e vacas.
Não demorou muito para que me encontrassem. Doze anos, para ser mais exata.
Uma Land Rover preta estacionou em frente a nossa casa e homens armados adentraram sem nem ao menos bater à porta. Era domingo. Todos tomávamos chá na mesa da sala de jantar quando papai e mamãe foram mortos com um tiro na cabeça. Meu irmão tentou fugir, mas foi igualmente baleado e seu corpo sem vida caiu aos meus pés. O cheiro do chá ainda pairava no ar quando o sangue deles tocou o chão. E eu? Bem, não tive tempo de correr. Fui agarrada pelos cabelos e levada a uma terrível e branca sala de testes.
Foi o meu primeiro contato com a Hydra.
Anos mais tardes e com uma grande carga de traumas e vidas ceifadas, o Soldado Invernal me interceptou e me levou junto a ele.
O que aconteceu após isso era apenas história, uma história de dor, fuga e sobrevivência.
O que importava agora era o que fazíamos com as vidas que restaram pra nós.
Por sorte, Bucky e eu tínhamos a chance de recomeçar.
Eu não era muito mais velha do que Yelena. Na verdade, tínhamos a mesma idade. Ava achava graça de como ela me tinha como uma figura materna, mas eu não podia evitar de chamar Lena de “querida” e acariciar seus cabelos de vez em quando.
— Você é muito mole, — Walker resmungou uma vez, após uma bomba explodir ao nosso lado e eu chorar ao vermos que ainda estávamos vivos.
Mas eu não me importava. Pois eu era assim. Volátil e molenga como a nascente de um rio que desaguava no mar. Uma cachoeira interminável de sentimentos e delicadeza.
Soltei um suspiro pesado quando percebi que minha cabeça tinha ido longe demais, perdida na imensidão dos meus próprios sentimentos.
A torre estava incrivelmente quieta hoje. Todos pareciam ocupados demais em seus próprios afazeres. O que me dava um momento de calma e folga após dias e dias de trabalho incansável para encontrar o nosso novo alvo: Madame Perron.
Madame Perron era uma feiticeira. Ou pelo menos se parecia com uma. Havia enfeitiçado metade de Manhattan, dizendo que seria o cupido do amor, o que acabou virando uma grande onda de frenesi e sexo selvagem ao ar livre. Nova York nunca tinha visto nada igual, e olha que eu já havia visto uns portais abrirem na Times Square.
O mundo estava enlouquecido com a sua presença e, o pior, ninguém parecia capaz de conseguir capturá-la ou detê-la. Por isso, eu tinha certeza de que ela era uma bruxa.
Mas ela era tão volátil quanto eu. Aparecia e desaparecia como fumaça. Lançava seus feitiços e ia embora gargalhando, como em um filme de suspense sem graça.
Estávamos ficando tão loucos quanto o restante do país por sua causa.
E era por isso, que em momentos de folga, eu tentava ao máximo não pensar nisso. E, mais uma vez, eu estava falhando miseravelmente.
Um pequeno diário estava aberto à minha frente enquanto palavras saíam da ponta da minha caneta. Esse havia sido um presente de Bob no meu último aniversário.
— Vai ajudar a organizar seus pensamentos — disse ele, sorrindo. E eu o aceitei de bom agrado.
Era bom ter um lugar para colocar tudo o que eu sentia, mas começava a me irritar o fato de as últimas páginas todas falavam sobre Madame Perron. Eu não aguentava mais caçá-la.
Uma batida na porta interrompeu minha escrita.
— Pode entrar — gritei para que quem tivesse do outro lado pudesse ouvir e não tardou para que a cabeça de Yelena aparecesse pelo vão.
— Tá com fome? — Ela ergueu um saco de batatinhas e meu estômago roncou quase no mesmo instante.
Não precisei dizer para ela entrar, pois no instante seguinte Lena já estava jogada em minha cama como se fosse a sua própria.
— O que eu já disse sobre subir de botas na minha cama? — Resmunguei fechando meu diário e indo para seu lado.
— Tá bom, mãe — sua língua pareceu se enrolar na última palavra e eu sabia que seu tom era mais do que provocativo.
— Eu vou dar pra você limpar da próxima vez — resmunguei de novo e ela riu pelo nariz, me entregando o pacote de batatinhas.
Yelena mastigava alto, olhando para o teto como se pudesse ver o espaço sideral lá de cima.
— Você pensa demais — disse entre uma mordida e outra.
— E você fala demais — retruquei, pegando o pacote de volta.
— Alguém tem que quebrar o silêncio mórbido dessa torre. – Ela balançou as sobrancelhas para cima e para baixo, tentando me convencer de seu ponto.
— É silêncio, não luto — respondi, mas a risada escapou antes que eu pudesse impedir.
Ela me olhou de soslaio, avaliando. Eu sabia que alguma coisa mais séria vinha após isso.
— Bob chamou a gente pra reunião daqui a pouco. Disse que tem novidade sobre a Madame Perron.
O nome dela me fez revirar os olhos.
— Não pode ser outra missão, tipo, sei lá, salvar gatos presos em árvores? – Estalei a língua no céu da boca e fiz uma careta desengonçada.
— Ele pareceu empolgado. — Yelena deu de ombros. — Então, provavelmente, é o tipo de missão que termina com metade de Nova York em chamas.
Suspirei, jogando o pacote de batatas de volta pra ela.
— Ótimo. Mais um dia normal – resmunguei, me levantando e calçando meus chinelos. – Sabe, eu só queria umas férias.
— Fale com Valentina — Yelena respondeu ácida e eu quis jogar um jato de água no seu rosto, mas eu havia bebido toda a água do meu copo antes de ela entrar.
— Eu acho que vou me aposentar, sabe? — Apoiei as mãos na cintura, como uma mãe cansada e foi a vez de Yelena revirar os olhos.
— E Bucky tá sabendo disso? — Perguntou ela, de maneira divertida.
— Bucky não tem que saber nada — torci o nariz. — As mulheres já são livres há muito tempo, sabia? Não devo satisfações a ninguém.
Yelena riu, jogando o pacote vazio de batatas no chão.
— Aham. Me avisa quando o governo aceitar a sua carta de aposentadoria, . Quero ver o rosto da Valentina ao ver que perdeu uma das suas melhores heroínas.
— Ela vai se engasgar com o próprio ego — murmurei, ajeitando o cabelo.
Antes que Yelena respondesse, o comunicador preso à minha mesa apitou.
Suspirei de maneira cansada. Quatro horas de descanso foi o que eu havia conseguido contar.
— Falando em egos inflados… — peguei o aparelho. — Aqui é a .
A voz de Valentina ecoou do outro lado, nítida e impaciente:
— Reunião em dez minutos. Sala principal. E tragam a Yelena, se ela não estiver dormindo ou comendo.
— As duas coisas — respondeu Yelena alto o bastante pra que Valentina ouvisse.
— Ótimo. Tragam energia — e o som cortou.
Nos entreolhamos, e Yelena arqueou a sobrancelha.
— Aposto que é sobre a Madame Perron.
— Aposto que é o fim das nossas férias imaginárias — respondi, sem muita paciência.
Peguei o casaco, e antes de sair, lancei um olhar para o diário sobre a mesa.
A última frase que eu havia escrito ainda ecoava na minha cabeça: “Quero paz.”
Ironia do destino ou não, paz era a única coisa que nunca me escolhia.
A sala de reuniões ficava alguns andares mais baixos do que nossos quartos. Ava nos encontrou no elevador e, então, seguimos juntas para o encontro.
— O que será que Valentina quer? — Perguntou Ava assim que apertou o botão do décimo segundo andar.
— Enfiar a gente em mais uma missão, é óbvio — disse Yelena, sem paciência. — Provavelmente sobre a maluca do sexo.
Ava suspirou e eu a acompanhei. Eu já não tinha mais forças para tecer comentários sobre isso.
— Boa tarde — falei cordialmente assim que passamos pelas portas do elevador e encontramos o restante do time sentados em seus respectivos lugares.
— Já não era sem tempo! — Foi o que Valentina disse e pude ver Yelena semicerrar os olhos para ela.
Mas nenhuma de nós respondeu. Não tínhamos tempo para isso.
Assumi meu lugar ao lado de Bucky que, costumeiramente, trincava o maxilar e olhava a tudo como um pai cansado e calejado de tantas decepções. A mão de metal pousava na mesa ao dor de um copo de papel cheio de café preto e sem açúcar.
Puxei o copo para mim e dei um grande gole, sentindo que precisaria de cafeína extra para aguentar tudo o que estava por vir.
Bucky pareceu não se importar quando não devolvi o seu café.
— Bom — começou Valentina e o “toc toc” do seu salto agulha indicavam sua impaciência enquanto ela circundava a mesa e projetava algumas imagens a nossa frente. — Eu preciso que vocês encontrem essa mulher!
— Como se já não estivéssemos na cola dela há mais de um mês! — John rebateu no mesmo instante.
— Preciso que vocês sejam mais efetivos — Valentina continuou, ignorando o comentário de Walker. — A imprensa está em cima de nós! Todos querem respostas. Hoje à tarde, em Chicago, mais um grupo de pessoas foi visto.
Ela não precisou dizer o que o grupo estava fazendo; as imagens de uma das câmeras já eram mais do que suficientes para sabermos: corpos nus e suados roçando uns nos outros à beira de um lago movimentado. Por sorte, nenhuma criança parecia estar por perto.
Não evitei uma careta e Alexei riu da minha reação.
— Eu ainda não consigo entender o problema disso — disse ele, e seu sotaque forte ocupou a sala como gás lacrimogêneo. Nunca sabíamos qual seria a próxima atrocidade que sairia da sua boca. — Deixem as pessoas se amarem! Pelo menos não estão roubando ou matando.
— Só aumentando a taxa de natalidade — Walker falou, ácido, rindo pelo nariz. Vários olhares reviraram na mesa.
— Ainda não consigo ver problema — Alexei repetiu, erguendo as mãos e com um sorriso de orelha a orelha.
— Precisamos de mais informações sobre o paradeiro dessa bruxa — cortei o assunto paralelo.
— Bruxa, hein? — Yelena soltou, rindo baixo; a repreendi com o olhar.
— Por sorte — Valentina disse, caminhando em minha direção —, já que vocês são muitas coisas, mas inteligência parece distante, Bob achou algumas pistas enquanto vocês fracassavam em capturar Madame Perron.
Valentina me entregou uma pasta com documentos; senti Bucky esticar o tronco para ver também. Eram imagens de câmeras e coordenadas abaixo delas: diversos lugares do mundo, aparentemente ao mesmo tempo — Inglaterra, França, Indonésia e Brasil estavam entre os países listados.
— Sem ofensas, Valentina, mas como isso pode nos ajudar? — questionei, passando os documentos para os outros. — Para mim, isso só confunde ainda mais a cabeça de todo mundo.
— Como ela pode estar em mais de um lugar ao mesmo tempo? — Ava perguntou.
— Ela é uma bruxa, como a disse — a voz mansa e tensa de Bucky ressoou, e todos o olharam ao mesmo tempo.
— Não interessa o que ela é! — Valentina cortou, novamente. — O que importa é que vocês vão pegá-la e acabar com essa palhaçada de sexo em público.
— E como sugere que façamos isso? — Yelena se jogou para trás e pôs os pés sobre a mesa. Valentina fez uma careta. — Como vamos prender alguém que está em vários lugares ao mesmo tempo?
— Os heróis aqui são vocês — Valentina apontou para a equipe. — Eu trago informações. Vocês traçam o plano e capturam a… coisa.
Valentina bateu as mãos, como quem finaliza um sermão.
— Quero um plano rápido e certeiro. Nada de dramas, erros ou enrolação. Em doze horas, quero essa mulher fora de circulação. — Ela olhou para cada um de nós, com aquele olhar que conseguia perfurar até metal. — Boa sorte, Novos Vingadores.
E, com o salto ecoando pelo corredor, ela desapareceu da sala, deixando atrás de si o perfume caro e uma nuvem de tensão.
— “Nada de dramas” — imitou Yelena, com a voz carregada de sarcasmo. — Alguém devia avisar pra ela que trabalhar com o Walker já é um drama por si só.
— Ei! — John ergueu as mãos. — Eu sou o equilíbrio desse time.
— Equilíbrio entre o ego e a idiotice, talvez — respondeu Ava, cruzando os braços.
Senti um sorriso surgir, mesmo que contido. Era assim que eles funcionavam, brigando, zombando, e, no fim, salvando o mundo de alguma forma.
— Tá bom, crianças — intervim, num tom calmo, mas firme. — Vamos focar. A Valentina pode ser insuportável, mas, dessa vez, ela não tá errada. Precisamos agir logo.
— A “mãe” falou, hein! — Yelena provocou, fazendo biquinho e piscando pra mim.
— Mãe, não. — Revirei os olhos. — Eu sou mais tipo a tia legal que traz lanches e salva a pele de vocês quando fazem besteira.
Bucky soltou um resmungo que parecia uma risada abafada. Ele ainda olhava fixamente para as imagens projetadas, os olhos percorrendo cada coordenada.
— Ela não se teletransporta — murmurou. — Isso seria fácil demais. Há algo interferindo no campo energético dela. Talvez… duplicação. Ilusão.
Antes que alguém respondesse, a porta se abriu novamente e Bob entrou, carregando uma pilha de papéis e uma xícara de café que quase derramava.
— Boa notícia: acho que encontrei um padrão — anunciou, ofegante. — Má notícia: o padrão é uma bagunça.
— Excelente — ironizou Yelena. — Um padrão caótico. Tudo o que precisávamos.
— Cala a boca, Lena — falei, me aproximando de Bob. — Mostra pra gente.
Ele colocou os papéis sobre a mesa, espalhando mapas, coordenadas e relatórios.
— Cada aparição dela acontece em áreas com alta umidade e concentração de energia residual — explicou, apontando com o dedo e eu sorri para ele, o encorajando a continuar. — Lagos, praias, até saunas públicas.
— Saunas públicas? — Walker ergueu as sobrancelhas. — Acho que encontrei minha missão.
— Walker — adverti, com o olhar de quem ameaça castigar. — Nem pense em transformar isso em turismo sexual.
— Eu só ia investigar… profundamente.
— Investiga mais uma piada dessas e eu te congelo o… ego — rebati, e Yelena explodiu em risadas.
— Certo, voltando — Bucky pigarreou, chamando a atenção. — Se ela está atraída por lugares úmidos, talvez a gente possa prever o próximo ponto.
— Ou atrair ela pra uma armadilha — completou Ava. — Uma área isolada, cheia de energia, mas controlada por nós.
— Tipo um grande spa falso — Bob murmurou. — Com vapor, música sensual e…
— E o que mais? Toalhas e drinks? — Yelena zombou. — Se isso for uma festa, eu topo.
— Não é uma festa — falei, cruzando os braços. — É uma missão. E se der errado, metade da população mundial pode acabar pelada e gritando “meu amor eterno” pro primeiro poste da rua.
— Ok, venceu — Ava disse, rindo. — Proponho que ela lidere o plano.
Suspirei.
— Ótimo. Mais uma noite sem dormir.
Bucky me olhou de canto, com aquele ar calmo e protetor que só ele tinha.
— Eu fico contigo nessa.
— Você sempre fica — respondi, com um meio sorriso.
Enquanto o resto da equipe começava a debater possíveis locais e rotas de ataque, Bob mexia apressadamente no tablet, e eu apenas me permiti respirar fundo.
Madame Perron podia ser uma bruxa, mas nós éramos o que restava de sanidade em meio ao caos, e alguém precisava manter esses malucos de pé.
O relógio marcava pouco mais das dez da noite e a sala de reuniões agora parecia um verdadeiro campo de guerra, só que de ideias. Mapas espalhados, canecas de café abandonadas e Bob digitando freneticamente no tablet, enquanto Yelena equilibrava uma batata frita no nariz de Walker só pra irritá-lo.
— Eu tô tentando me concentrar — ele rosnou, afastando a cadeira. — Alguém aqui leva isso a sério?
— Não — respondeu Yelena, sem hesitar.
— Se vocês terminarem o teatrinho, talvez a gente consiga impedir que o mundo vire um motel a céu aberto. — Disse Ava no meio de um suspiro.
— Concordo — falei, levantando os olhos do mapa. — Bob, você conseguiu o padrão temporal?
Ele girou o tablet na minha direção, animado. Eu ficava feliz em vê-lo poder participar das missões mesmo que ainda não pudesse controlar o seu poder muito bem.
— Sim! As aparições seguem um intervalo de exatas vinte e quatro horas, com uma variação mínima de trinta minutos. Se continuar assim, o próximo “show do amor” deve acontecer amanhã à noite, em algum ponto da Costa Leste.
— E adivinha qual região da Costa Leste é a mais úmida e populosa? — perguntou Bucky, em seu tom grave.
— Nova York — respondi, quase ao mesmo tempo que ele. Nossos olhares se cruzaram e um pequeno arrepio percorreu minha nuca.
— Ah, ótimo — disse Walker. — Pelo menos não vamos precisar viajar. Odeio aviões.
— Claro, porque um apocalipse erótico no nosso quintal é tudo que faltava — retruquei, e Yelena soltou um assobio de aprovação.
— Então é isso — Ava começou a dizer, pegando um marcador vermelho. — A gente atrai ela pra um ponto isolado, mas dentro da cidade. Um lugar que tenha tudo o que ela gosta: energia, umidade e espaço pra ela brincar de bruxa.
— Tipo o reservatório do Central Park — sugeri. — Dá pra monitorar o perímetro e cercar rápido se algo der errado.
— Se? — Yelena ergueu as sobrancelhas. — , amor, quando foi que algo não deu errado?
— Justamente por isso vamos planejar direito — respondi, já sem muita paciência.
Bucky apoiou os cotovelos na mesa e olhou pra mim, pensativo.
— Você quer ir na linha de frente, não é?
— Eu posso lidar com ela. Se o poder dela tem alguma conexão com energia úmida, talvez eu consiga neutralizar ou, pelo menos, conter.
Walker bufou e ergueu as mãos, como se pedisse ajuda aos céus.
— Ótimo. A das Águas vai lutar contra a Bruxa do Amor. Parece até uma novela mexicana.
— Se fosse, você seria o figurante número dois que morre no primeiro episódio — Yelena retrucou, mordendo outra batata.
Ele fez menção de responder, mas eu o cortei com um olhar firme. — Chega. Isso é sério.
A sala ficou em silêncio por alguns segundos. Eu suspirei, ajeitando o cabelo preso.
— Bob, quero você monitorando o campo energético. Ava, você a postos com o poder fantasma, pronta pra evacuar se der problema. Bucky, Yelena e Walker comigo no chão.
— A mamãe manda bem — Yelena disse em voz baixa, e eu joguei um pedaço de papel nela.
— E eu? — A voz grossa e carregada de sotaque de Alexei ecoou da porta. Ele apareceu com uma lata de cerveja na mão e o uniforme meio aberto. — Fui deixado de fora de novo?
Revirei os olhos, mas não consegui evitar um meio sorriso. — Ninguém te deixou de fora, Alexei.
— Hm. — Ele se aproximou, dando um gole demorado. — Eu posso ser distração. As mulheres gostam de homens maduros, fortes e com histórias de guerra.
— Não, Alexei — Yelena rebateu, com o olhar cansado. — As mulheres gostam de homens que tomam banho.
— Mentira! — Ele apontou pra ela com indignação. — Eu tenho feromônios soviéticos!
— Ótimo — resmunguei. — Então você vai usar seus “feromônios soviéticos” pra manter os civis afastados, entendido?
— Eu prefiro ser isca.
— Isca humana, talvez.
Yelena explodiu em gargalhadas e Bucky balançou a cabeça, sem conter um sorriso discreto.
— Tá decidido — continuei, ignorando o caos momentâneo. — Alexei cuida do perímetro e afasta curiosos. Bob, você monitora o fluxo de energia. O restante da equipe comigo.
Bob levantou o olhar do tablet e indicava que não era bom.
— Há uma coisa que eu não mencionei antes...
— Lá vem — murmurou Walker.
— O padrão energético da Madame Perron está mudando — Continuou Bob, ignorando Walker. — Ela está acumulando poder de forma exponencial. Se ela continuar nesse ritmo, amanhã pode ser o ponto máximo da carga.
— Então não temos margem pra erro — concluiu Bucky.
Todos assentiram, e pela primeira vez naquela noite, o ar ficou pesado.
Levantei-me, sentindo o cansaço pesar nos ombros, e encarei o reflexo do time no vidro escurecido da janela. Um grupo de desajustados, cansados, meio quebrados, mas era o que tínhamos.
— Certo — disse, firme e me levantando. — Amanhã a gente acaba com isso. E depois… eu quero um fim de semana inteiro sem ouvir a palavra “feitiço”.
— E sem sexo em público — completou Yelena, fingindo fazer o sinal da cruz.
— E sem Walker — retrucou Ava.
— Ei! — ele protestou. — Eu sou essencial pra equipe!
— Claro — murmurei, já saindo da sala. — Principalmente pra garantir o entretenimento.
Bucky riu baixinho atrás de mim, e por um instante, no meio do caos, eu senti aquele calor familiar no peito, o de ainda ter alguém pra dividir o fardo.
— Tá bom, perdedores, hora de dormir – falei por fim. — Amanhã é o dia de pegar a Bruxa do Amor.
Era sempre uma linha tênue entre conforto e costuras que apertavam lugares desnecessários e desconfortáveis. E eu geralmente me sentia um salame ensacado, com medo de parecer com a bunda grande demais.
— Pois eu acho que você fica uma gostosa, se quer realmente saber — foi o que Yelena disse quando me ouviu resmungar pela milésima vez.
Mas eu não tive tempo de respondê-la. Bucky já nos esperava dentro do carro e buzinava pela nossa demora. Porque os homens tinham que ser tão impacientes?
Amarrei a bota e prendi os cabelos num rabo de cavalo alto. Ajustei o colar que servia como receptáculo de água, caso eu ficasse sem. E saí ao lado de Yelena, que andava como se o mundo não estivesse prestes a acabar em depravação e sexo.
— Como consegue estar tão tranquila? — Indaguei assim que entramos no carro.
— É só mais uma missão – deu de ombros. — Não o fim do mundo.
Mas eu não tinha tanta certeza.
Bucky logo enfiou o pé no acelerador e o caminho foi silencioso e desconfortável. Walker, para a surpresa de todos, não havia tecido nenhum comentário desagradável e parecia tão focado quanto todos nós. O dia estava realmente estranho.
O ponto de encontro era o Central Park, nas margens do lago principal. Não havia muitos civis por perto, o que era bom, mas o vento frio cortava o ar e levantava pequenas ondas na superfície da água.
A voz de Bob ecoou pelo comunicador no meu ouvido assim que descemos do carro:
— Testando, testando... vocês estão me ouvindo, equipe?
— Infelizmente — respondeu Yelena, mexendo no fone. — Não dá pra colocar no mudo, não?
— Que engraçada — ele resmungou. — Eu tô aqui na torre acompanhando tudo. A Valentina me deixou de babá de vocês de novo, então tentem não explodir nada dessa vez, ok?
Revirei os olhos e ajeitei o colar com a reserva d’água.
— Relaxa, Bob. A última explosão nem foi culpa nossa.
— Foi exatamente culpa de vocês — ele rebateu, e deu pra ouvir o som de papéis caindo e uma cadeira arrastando. — Ai, droga... ‘peraí. O monitor caiu.
Um estalo alto no fone.
— Bob? — perguntei, meio preocupada, meio exasperada.
— Tô bem! Só... enfim. Tô tentando acompanhar pelo mapa. Tem umas leituras estranhas aí perto do lago. Tipo, energia diferente... ou estática. Não sei. O computador travou.
— Fantástico — disse Walker. — Nosso olho no céu é um homem brigando com o Wi-Fi.
Yelena riu, e até Bucky pareceu conter um sorriso.
— Foco — rosnou ele, assumindo a liderança. — Ava e Walker, coberturas laterais. Alexei, comigo na frente. e Yelena, perímetro
— “ e Yelena no perímetro” — repeti em voz alta. — Parece nome de dupla pop dos anos 2000.
— Só se for e a Viúva Russa no inferno dos hormônios — Yelena completou, arrancando uma risada breve até de Bucky.
O comunicador chiou de novo:
— Eu ouvi isso, viu? — disse Bob, ofendido. — Vocês nunca levam nada a sério.
— A gente leva sim, Bob — respondi, sorrindo de leve. — Só preferimos rir antes que tudo dê errado.
Bob suspirou do outro lado.
— Tá, mas fiquem alertas. O gráfico aqui tá... sei lá, tremendo. Acho que tem alguma coisa grande chegando.
Eu troquei um olhar rápido com Yelena. O vento gelado fez arrepiar até o couro do colete.
— Fiquem atentos — murmurei, mais pra mim do que pra eles. — Se ela estiver mesmo aqui... não vai ser simples.
E, como se o universo tivesse ouvido, o ar pareceu tremer.
O comunicador estalou mais uma vez, e Bob gritou do outro lado:
— Gente?! Gente, o mapa sumiu! A tela ficou rosa!
Antes que eu pudesse responder, uma onda de energia atravessou o campo, fazendo as luzes piscarem.
O cabelo de Yelena se levantou com a eletricidade estática.
— Ah, ótimo — murmurou ela. — Lá vem a bruxa do sexo.
Um arrepio percorreu a minha espinha e seus cabelos grisalhos invadiram a minha visão quase no instante seguinte. Eu não sabia o porquê da sua presença me afetar tanto.
Ela simplesmente estava ali, como se o ar tivesse decidido tomar forma. A brisa que antes era leve agora parecia densa, cheia de perfume e perigo. Seu vestido preto se movia como fumaça viva, moldando-se ao corpo à medida que ela caminhava. Meneei a cabeça, tentando me concentrar no que era real e não no que ela tentava nos fazer enxergar.
Madame Perron sorriu, como se soubesse o que eu estava pensando, e aquele sorriso soou como uma terrível ameaça.
— Ah, os Novos Vingadores... — sua voz ecoou melodiosa, mas com algo perverso escondido. — Sempre tão previsíveis.
— Prefiro ser previsível do que uma maluca de vestido cafona — Yelena murmurou, fazendo a energia de seus propulsores de pulso vibrarem em um azul brilhante.
A bruxa deu uma risada cristalina.
— Sempre insolente, Yelena Belova. Vocês lutam contra o amor, e ainda se acham heróis.
— A gente luta contra feitiços depravados e possessões em massa, querida — retruquei, sentindo meu corpo vibrar de raiva. — O amor não tem nada a ver com o que você faz.
— Não, , o amor salva tudo — respondeu-me, com a voz mansa. Mas eu sabia que ela logo atacaria.
Ela ergueu a mão e, de repente, o chão do parque se abriu em rachaduras finas. O ar vibrou, e das sombras começaram a surgir figuras, corpos translúcidos, distorcidos, meio humanos, meio feitos de luz. Pareciam versões corrompidas de amantes abraçados, grunhindo e se contorcendo.
— Fantasmas de desejo — ela murmurou, com orgulho. — Tão frágeis... e tão obedientes.
— Yelena! Ava! Cuidem do perímetro! — gritei, já invocando a água do colar.
O líquido fluiu em espirais pelo meu corpo, envolvendo meus braços como serpentes cristalinas. Um movimento, e jatos precisos atingiram duas das criaturas, que se desintegraram em vapor. Outras, porém, se recompunham, arrastando-se pelo chão como se sentissem prazer em apanhar.
— Mas que porra é essa?! — Walker rugiu, atirando contra uma das formas luminosas. As balas atravessavam os corpos sem efeito. — Elas não morrem!
— Elas não estão vivas! — Bucky respondeu, disparando em outra direção e desviando de um feixe de energia lilás que veio da bruxa. O raio atingiu uma árvore, fazendo-a florescer instantaneamente em cores impossíveis.
Madame Perron girou o pulso e, num piscar de olhos, a água do lago se ergueu, não por minha vontade, mas pela dela. A massa líquida tomou a forma de um colosso translúcido, que rugiu e veio na nossa direção.
— Sério? — reclamei, erguendo os braços. — Mexer com água na minha frente é provocação.
Concentrei-me, sentindo o colar pulsar. A água ao meu redor respondeu ao chamado, se unindo à que a bruxa havia invocado. Forças opostas colidindo. O impacto fez o chão tremer, o ar explodir em gotas afiadas.
Bucky correu até mim, desviando de destroços e me puxando antes que um dos tentáculos líquidos me atingisse.
— Consegue manter o controle?
— Ainda sou eu quem manda na água, Barnes! — respondi, a voz firme e um tanto quanto ofendida, ainda que o esforço me consumisse.
— Boa menina — Walker ironizou, atirando contra o colosso. — Mostra pra essa bruxa quem é a rainha das marés!
— Cala a boca e atira direito! — Yelena rebateu, cortando mais duas criaturas com suas lâminas.
Ava apareceu logo atrás dela, lançando um pulso elétrico que iluminou o parque inteiro e desfez parte das ilusões. Por um instante, achei que tínhamos vantagem. Até ouvir a risada dela.
Madame Perron estalou os dedos.
O colosso desabou, e toda a água que eu controlava se virou contra mim, um redemoinho se formando no ar, me puxando com força.
— ! — ouvi Bucky gritar. Ele correu até mim, tentando me alcançar, mas o chão se partiu entre nós.
Meu corpo flutuou por um segundo, envolto em luz e água, e o olhar da bruxa encontrou o meu.
— Tão poderosa, tão perdida. — Ela sorriu, e sua voz ecoou dentro da minha mente. — Deixe-me te mostrar um mundo onde o amor não precisa de limites.
Um clarão.
A explosão de energia foi tão intensa que arrancou gritos de todos.
Eu senti o ar desaparecer, o chão sumir e o universo se dobrar ao meu redor. Era como se alguém tivesse aberto um espelho e me jogado dentro dele.
O último som que ouvi foi a voz de Yelena, distante, cortada pela estática do comunicador:
— , segura firme!
A última coisa que vi foram os rostos apavorados dos meus amigos, mas que logo sumiram por uma força que se fechou ao redor de suas cabeças. Senti meu umbigo sendo puxado e então, me vi em queda livre.
Nova Iorque despertava em paz.
Os chapéus eram ajustados diante dos espelhos, as portas das garagens se abriam com rangidos preguiçosos, o aroma de pão fresco escapava das padarias para as calçadas ainda mornas de sol. Nada ameaçava o céu. Nada rasgava o horizonte. Era apenas mais uma manhã comum sob a proteção do Quarteto Fantástico.
Um menino de não mais que seis anos caminhava ao lado da mãe, os olhos presos na manchete do jornal que trazia a imagem da Tocha Humana cruzando o céu em chamas. Ele sorria, imaginando o rastro de fogo desenhando espirais invisíveis entre os prédios.
Então a luz mudou.
Não foi um trovão. Não foi uma explosão.
Foi como se o azul do céu fosse puxado por dentro.
Uma distorção se abriu no alto, fina a princípio, depois rasgando o ar como tecido tensionado demais. Uma fenda luminosa, pulsando em tons arroxeados, respirando como algo vivo.
— Mamãe? — o menino chamou, o sorriso evaporando.
Do interior da fissura, um corpo despencava.
O grito da mãe misturou-se ao coro da cidade. Pessoas correram. Portas bateram. O cotidiano se partiu em fragmentos de pânico.
Uma labareda cortou o ar.
O Tocha Humana subiu em velocidade vertiginosa, o rastro de fogo desenhando um arco perfeito até a figura em queda. Abaixo, um campo de força expandia-se como uma cúpula invisível enquanto a Mulher Invisível protegia as ruas. O Coisa afastava carros como se fossem brinquedos. E, no centro do caos, Reed Richards observava o fenômeno no céu com atenção cirúrgica.
— Johnny, alcance-a! — a voz de Ben ecoou.
Ele alcançou. Ou pelo menos tentou.
Seus dedos em chamas tocaram o braço da figura desacordada. E o mundo pareceu reagir no mesmo instante, mas não da maneira como ele esperava.
Não houve estrondo imediato. Primeiro veio o silêncio. Um silêncio espesso, denso, como o segundo antes da tempestade quebrar.
E então, o calor encontrou resistência. E Johnny sentiu o pavor subir pela garganta, por não saber o que fazer a partir dali. Era a primeira vez que isso acontecia.
A umidade do ar começou a condensar ao redor dela. Pequenas gotículas surgiram do nada, cintilando à luz do sol como pó de vidro. Elas giraram, ganharam velocidade, multiplicaram-se.
Johnny piscou confuso.
— O que é isso…?
A água não vinha das nuvens. Nem da cidade. Ela parecia emergir dela.
Do peito da mulher desacordada, uma pulsação invisível vibrou pelo ar, e as partículas responderam. O vapor se comprimiu. O ar tornou-se líquido.
Então explodiu.
Não uma explosão destrutiva. Mas uma expansão violenta e circular de água comprimida, um anel cristalino que empurrou o fogo para trás. As chamas de Johnny chiaram ao contato, vapor subindo em colunas brancas.
Ele foi lançado alguns metros para trás, rodopiando no ar antes de estabilizar.
— Ok, isso foi inesperado – disse mais para si próprio do que para seus colegas de equipe.
A mulher, por sua vez, continuava desacordada. Mas ainda envolta por uma esfera líquida instável, água girando ao redor de seu corpo como se obedecesse a um comando silencioso. Como se seu próprio organismo tivesse decidido sobreviver.
Lá embaixo, Sue arregalou os olhos.
— Ela está se protegendo.
Reed já analisava cada detalhe.
— Não é consciente — murmurou. — É reflexo neurológico. O poder está integrado ao sistema vital.
Johnny pairava diante dela, agora sem tocar, observando a figura suspensa dentro daquele casulo fluido.
O rosto dela estava relaxado. Vulnerável. Nada nela sugeria ataque.
Mas a água pulsava. Defensiva. Instintiva. E muito voraz.
A fenda no céu começou a se fechar com um estalo seco, como um portal sendo costurado à força.
E, por um segundo, apenas um segundo, os olhos dela se moveram sob as pálpebras.
A esfera de água vibrou.
Johnny sentiu o calor diminuir ao redor de si.
— Ei… — ele murmurou, agora sem bravata. — Calma.
Como se, mesmo inconsciente, ela pudesse ouvi-lo.
Por um segundo microscópico, a esfera que a envolvia perdeu ritmo. O giro ficou irregular. As gotas começaram a tremer no ar, como se a força que as sustentava estivesse falhando.
— Reed… — Johnny chamou, agora sério.
Lá embaixo, Reed Richards já ajustava algo no comunicador preso ao pulso.
— O padrão está instável. A fonte de energia caiu abruptamente.
Como se confirmasse a análise, a esfera líquida vibrou violentamente. E então desmoronou.
A água não evaporou. Não explodiu novamente. Simplesmente perdeu coesão.
Caiu.
Uma chuva súbita despencou sobre a cidade, pesada e gelada, como se uma nuvem tivesse sido esvaziada a poucos metros do chão.
E ela caiu junto.
Johnny reagiu antes do pensamento terminar de se formar. As chamas reacenderam com força total, rasgando o ar enquanto ele mergulhava atrás dela.
— Eu pego!
O corpo da mulher girava em queda livre, cabelos castanhos se espalhando ao redor do rosto pálido. As roupas estranhas colavam na pele encharcada. Inerte. Vulnerável.
Johnny a alcançou sem dificuldade. E, dessa vez, o toque foi diferente. Sem explosão. Sem resistência imediata.
Ele a segurou com cuidado, ajustando a intensidade do fogo para não queimá-la, apenas o suficiente para frear a descida. O vapor subiu em espirais suaves ao redor deles enquanto desciam mais devagar.
E então... Os olhos dela se abriram.
Não foi um despertar confuso.
Foi brusco.
Os pulmões puxaram ar como se ela tivesse emergido debaixo d’água. As írises focaram primeiro no brilho laranja ao redor, depois no rosto dele.
Desconhecido. Céu errado. Prédios errados. Tudo errado. A respiração dela falhou. Onde é que estava Bucky?
E o poder respondeu outra vez, instintivamente.
A água não veio do ar dessa vez.
Veio dela.
Uma pressão súbita explodiu do centro do peito, não em forma de esfera, mas como um impacto direcionado. Um jato compacto e violento que atingiu Johnny em cheio.
O fogo chiou alto.
Ele perdeu estabilidade.
— Ei, ei, calma! — ele tentou, mas já estava sendo lançado para trás.
A força os separou.
Ela voltou a cair.
Mas agora estava consciente. E apavorada.
A queda desacelerou de novo, involuntariamente. O ar ao redor dela ficou denso, pesado, saturado de umidade. Pequenas correntes líquidas começaram a se formar sob seus pés, como se a própria atmosfera estivesse tentando sustentá-la.
Lá embaixo, a Mulher Invisível expandiu um campo de força em posição estratégica.
— Eu pego ela!
A barreira invisível se posicionou milímetros antes do impacto.
Ela caiu sobre o campo como se tivesse atingido uma superfície elástica. A energia dissipou o restante da força, e o corpo dela rolou suavemente até parar.
A chuva cessou. O céu estava limpo novamente. Mas nada parecia normal como antes.
Johnny pousou segundos depois, as chamas diminuindo até desaparecerem. O uniforme ainda soltava vapor.
Ele olhou para ela.
Ela estava deitada sobre o campo de Sue, respirando rápido demais, os olhos varrendo o entorno como um animal acuado.
— Isso… não é o meu mundo. – Sua voz saiu fraca e fragilizada.
O silêncio que se seguiu não foi de pânico.
Foi de compreensão.
Reed deu um passo à frente, os olhos brilhando com algo entre fascínio e cálculo.
— Interessante — murmurou. — Muito interessante.
Johnny inclinou a cabeça, ainda encarando ela com uma mistura perigosa de preocupação e curiosidade.
— Então você costuma cair do céu em mundos errados ou hoje é um dia especial?
Ela o encarou. Assustada. Molhada. Sozinha.
E, pela primeira vez desde que abriu os olhos, algo diferente atravessou o medo. Reconhecimento.
Porque, mesmo em outro universo... Heróis ainda pareciam heróis.
O campo de força de Mulher Invisível se dissipou devagar.
Ela se levantou rápido demais.
Os cabelos grudando no rosto, a respiração rápida e os olhos que não paravam em um só lugar por muito tempo. Ela se sentia perdida e desorientada enquanto olhava para o grupo que a encarava com curiosidade.
Quatro deles.
Organizados. Confiantes. Poderosos.
Ela deu um passo para trás.
A água respondeu imediatamente.
Não uma explosão, não ainda. Mas um véu fino começou a girar ao redor do corpo dela, subindo do asfalto como névoa obediente. Defesa automática. Instinto puro.
Johnny, ao perceber a postura de defesa dela, ergueu as mãos, já sem chamas.
— Ei. Sem incêndio, eu prometo. – Forçou um sorriso galanteador para tentar amenizar o clima tenso que pairava no ar.
Mas ela não sorriu.
O olhar passou por ele e pousou em Reed Richards, depois em Coisa. Voltou para Sue.
— Onde eu estou? — a voz saiu firme demais para alguém claramente à beira do colapso.
— Nova Iorque — Reed respondeu.
Ela balançou a cabeça, certa do que pensava, apesar da confusão.
— Não. Não é a minha.
O silêncio pareceu ganhar uma forma esquisita e densa.
A água subiu alguns centímetros, tremendo com a respiração acelerada dela.
— Você caiu do céu — Ben comentou, braços cruzados, mas pronto para qualquer ataque surpresa. — Isso geralmente não é parte do turismo padrão.
Ela não disse nada, apenas encarou o homem de pedra. Se ela já não tivesse visto tanta coisa estranha em seu próprio mundo, poderia até mesmo ter se surpreendido com a aparência do herói.
O conflito estava estampado no rosto: lutar ou confiar. Atacar ou escutar. Fugir ou… ficar.
— Como veio parar aqui? – Sue arriscou a pergunta e ela meneou a cabeça, como se uma lembrança tivesse lhe causado dor.
Os outros três a encararam, esperando a resposta.
— Foi uma bruxa, eu acho – sentiu sua voz falhar e se odiou por isso.
— Bruxa? – Johnny inclinou o pescoço, interessado.
— Madame Perron – respondeu e esperou algum sinal de reconhecimento daquele nome, mas todos permaneciam com a mesma expressão. – Nós estávamos caçando ela a meses e...
— Nós? – Sue a interrompeu e ela percebeu que a postura de todos mudou drasticamente. – Tem mais de vocês por aqui?
— Eu... – Ela sentiu a respiração falhar ao lembrar de sua equipe. – Eu acho que não.
— E por que uma bruxa faria isso com você? – Johnny voltou a questionar e ela quase deu de ombros.
— Ela estava atacando a cidade, criando orgias a céu aberto – ela explicou. – Quando tentamos pará-la, Madame Perron começou uma conversa esquisita sobre amor. Disse que me levaria a um lugar onde eu conheceria o amor de verdade.
fez uma careta instantânea e Johnny riu pelo nariz, achando bonitinho. Sue o repreendeu com o olhar, mas a nova integrante daquele universo pareceu não perceber.
— Então você é de outra realidade? – Reed questionou, ainda assimilando a tudo. assentiu, sem saber o que aquilo significava.
— Acha que podem me ajudar a voltar para o meu mundo? – Ela perguntou esperançosa e os cientistas trocaram olhares entre si.
— Podemos tentar – foi Sue que respondeu. – Mas primeiro precisamos saber se você é confiável.
assentiu.
— Meu nome é – disse. – Mas podem em chamar de .
— Certo, – Reed a olhou com seriedade. – Eu sou Reed Richards, essa é minha esposa Sue, meu cunhado Johnny e nosso amigo Ben.
— Já terminamos as formalidades? – Perguntou Ben, um tanto impaciente. – Precisamos sair daqui logo. Já atraímos atenção demais para uma simples manhã de quarta-feira.
— Já terminamos as formalidades? — Ben resmungou. — Precisamos sair daqui. Já atraímos atenção demais para uma simples manhã de quarta-feira.
A palavra atenção fez a água ao redor de ondular de novo.
Ela olhou em volta.
Pessoas escondidas e olhando às espreitas. Sussurros uma com as outras, tentando compreender o que estava acontecendo. conhecia bem aquela sensação, já havia passado por isso muitas outras vezes, mas não conseguia evitar de sentir a pontada de angústia que se formava na boca do seu estômago.
— Eu não sou uma ameaça — disse, embora o véu líquido ao redor dela contradissesse a frase.
Johnny inclinou a cabeça.
— Você explodiu uma onda no meio do céu.
— Eu estava inconsciente! – Ela rebateu sem pestanejar.
— E mesmo assim quase me afogou — ele disse em seguida, mas o tom não era acusatório. Era curioso.
Sue se aproximou um passo.
— , precisamos sair daqui. Conversar em um lugar seguro.
— Seguro para quem? — ela retrucou.
Reed respondeu antes que a tensão crescesse.
— Para todos nós.
— Vocês sempre tratam desconhecidos assim? – Perguntou ela, com os braços cruzados em uma posição defensiva.
Ben bufou.
— Só os que caem de fendas dimensionais. – Ele disse, impaciente e o silêncio pareceu pesar toneladas entre todos eles...
Ela respirou fundo.
Reed pensou por um segundo, tentando encontrar ligações entre os fatos e uma maneira de convencer a segui-los sem iniciar uma batalha a céu aberto.
— Você disse que essa Madame Perron que mandou você para cá e, se você estiver certa, há muitas chances de ela estar ativa em múltiplas realidades, o que faz com que sua presença aqui possa não ser um caso isolado...
A água ao redor de vibrou, fazendo com que Reed segurasse uma careta por estar surgindo o efeito contrário do que ele esperava.
— Eu não trouxe nada comigo – se justificou outra vez.
— Não sabemos disso ainda — Reed respondeu, calmo.
Ela deu meio passo para trás por puro instinto.
Johnny levantou as mãos novamente, antecipando qualquer movimentação suspeita.
— Ei. Ninguém está dizendo que você é um vírus dimensional.
— Só estamos dizendo que precisamos ter certeza. – Disse Ben por fim.
Ela analisou os quatro.
Organizados. Coordenados. Funcionando como um mecanismo bem ajustado.
Ela conhecia bem aquele tipo de equipe. Confiavam uns nos outros.
Mas não nela.
— Se eu quisesse machucar vocês — ela disse, a voz mais baixa — já teria tentado.
— Justo. – Falou Ben, cruzando os braços e arrumando a postura.
Sue manteve o olhar firme e gentil ao mesmo tempo.
— Então nos dê um voto de confiança. Vamos para o Baxter Building. Lá podemos analisar a energia da fenda, verificar se há risco de instabilidade e… entender como ajudar você.
— Ajudar a voltar — reforçou.
Reed assentiu.
— Esse é o objetivo.
Johnny inclinou o corpo na direção dela, voz mais baixa.
— E, por enquanto, a gente prefere conversar em um laboratório a ficar no meio da rua com meia Nova Iorque de olho em todos os nossos movimentos.
Ela hesitou.
O céu estava limpo agora. Perfeitamente azul. Como se nada tivesse acontecido.
Ela estava em outro universo. Sem equipe. Sem referência. Sem Yelena. Sem sua equipe. Sem Bucky. Sozinha. precisou segurar a vontade de chorar que se instalou na garganta.
A água ao redor dela diminuiu lentamente até virar apenas umidade no ar.
— Certo — disse, por fim. — Eu vou.
Ben soltou um suspiro.
— Ótimo. Porque eu realmente não queria transformar isso numa perseguição aérea.
Johnny sorriu de lado.
— Eu até queria um pouco.
— Johnny — Sue advertiu.
Ele levantou as mãos em rendição.
Reed já observava o horizonte, calculando rotas e possibilidades.
— Vamos manter deslocamento controlado — ele orientou. — Johnny, cobertura superior. Sue, contenção lateral. Ben, solo.
percebeu o padrão imediatamente: formação estratégica e confiança mútua.
Ela caminhou ao lado deles. Não no centro. Não ainda.
O grupo começou a se mover pela cidade, deixando para trás a multidão e o ponto exato onde o céu havia se rasgado. E os seguiu, em silêncio e com apenas uma coisa em mente: o desejo de voltar para casa.
A roupa tática me incomodava mais do que nunca, principalmente por não se encaixar em nada naquele contexto. Meu rádio transmissor atrás da orelha havia se perdido, provavelmente em minha queda, e eu não tinha nada tecnológico comigo, nada que pudesse me ajudar a entrar em contato com a minha equipe para voltar para casa.
E não que eu achasse que funcionaria. Pelo menos não naquele mundo.
A tecnologia deles era diferente e intrigante. Sem contar nas roupas cafonas e na falta de celulares. Minha cabeça ainda tentava distinguir o carro do tal Quarteto Fantástico que voava e a falta de um smartphone com chamada de vídeo.
Eu sabia o que era aquilo.
Era medo.
Misturado com ansiedade.
E temor de não saber o que viria depois.
Os heróis, o Quarteto Fantástico, estavam me tratando bem. Haviam me dado um alojamento para ficar e me ofereceram um banho quente antes de começarmos a pesquisa.
“Pesquisa”.
Aquela palavra soava amarga no fundo da minha língua. Porque eu sabia o que aquilo significava.
Eu seria a cobaia. E o tal de Reed Richards parecia mais do que empolgado e fascinado em colocar suas mãos em mim.
E era isso que mais me assustava.
Eu já tinha vivido aquilo antes. Cair nas mãos da Hydra nunca fora sinônimo de algo bom. E apesar de todos lá serem igualmente loucos, nenhum deles esticava o corpo ou criava barreiras protetoras de energia. Eu só não sabia o que esperar.
E nem se sairia viva.
Senti a garganta fechar instantaneamente com o pensamento.
Não. Eu não podia morrer. Não quando finalmente havia encontrado minha equipe. Minha família.
Eu precisava voltar para casa. Precisava voltar para Bucky. Precisava voltar para Yelena.
Mas enquanto isso ainda não era possível (e eu tentava nem pensar na ideia de isso não ser possível nunca), eu tentava me adaptar a ideia de ficar por aqui junto ao Quarteto Fantástico.
Eu ainda não tinha entendido a estratégia deles. Pois eles não tiraram meu compartimento de água reserva, nem me inspecionaram antes de me empurrarem para dentro de um banheiro onde, pasme, havia muito mais água. Eu poderia usar e abusar do meu poder contra eles para tentar sair dali.
Mas... Era como o Homem de Pedra havia dito. Eu não era prisioneira. E eles não estavam me tratando como uma.
Por isso era tão difícil de entender para que caminho eles estariam seguindo.
Será que me atacariam assim que eu saísse do chuveiro? Ou me prenderiam em grossas correntes depois de me virarem do avesso para descobrir mais sobre mim e meu DNA?
Não tinha como saber. E eu não tinha outra escolha a não ser dar um voto de confiança. Por menor que ele fosse.
As minhas roupas táticas haviam sumido quando eu saí do banho quente e eu não soube dizer se havia ficado feliz em não vê-las mais ou preocupada por não saber o que haviam feito com ela. Será que Reed as inspecionaria como algo que carrega um vírus mortal?
O banheiro ficava dentro de um quarto pequeno e branco demais, mas que seria o lugar onde eu dormiria por tempo indeterminado. Havia uma cama de solteiro encostada na parede. Uma estante ao lado da cabeceira, com um abajur e alguns livros. Um guarda-roupa do lado oposto da cama. E uma janela entreaberta com cortinas que balançavam como se estivessem dançando.
Minhas roupas novas estavam colocadas perfeitamente em cima da cama. Acabei por me surpreender ao não encontrar nada muito espalhafatoso ou prata. Na verdade, pareciam simples e confortáveis. Uma calça clara, uma camiseta azul e sapatilhas da mesma cor da camiseta.
As vesti sentindo o cheiro agradável do amaciante que exalava, num indicativo de que havia sido lavada a pouco tempo.
Retornei ao banheiro onde havia um único e pequeno espelho, ainda embaçado pelo banho quente. Peguei a escova que havia em cima da pia e penteei os cabelos com calma, enxergando meu próprio reflexo.
Olhei para meus próprios olhos como quem procura um sinal de sanidade. E havia. Bob costumava dizer que gostava de como os meus olhos pareciam sempre brilhantes e cheios de esperança mesmo nos momentos mais difíceis. E ainda estava ali. Suspirei aliviada.
Trinquei o maxilar enquanto pensava nos meus companheiros de equipe. Será que estariam procurando por mim? Será que também haviam sido jogados em fendas temporais diferentes e estavam tentando voltar para casa? Será que haviam conseguido derrotar a bruxa? Ou será que só havia aceitado o fato de eu só não existir mais em seu mundo e estavam vivendo a vida normalmente?
Senti os olhos arderem de novo. A ideia de pensar que eles não procuravam por mim ou até mesmo já haviam me esquecido era sufocante e parecia me matar aos poucos.
Balancei a cabeça, como se isso pudesse fazer os pensamentos voarem para longe.
Voltei ao quarto e me sentei na cama, gostando mais do que deveria de como o colchão era macio e confortável. E esperei alguém me chamar para começarmos o que quer que haviam planejado para mim nos próximos instantes
Não demorou muito.
Três batidas suaves ecoaram na porta.
Meu corpo inteiro ficou em alerta no mesmo momento.
As mãos suaram instantaneamente e eu precisei limpá-las na calça antes de responder.
— Pode entrar – por sorte, consegui fazer com que minha voz saísse firme e confiante, embora tudo dentro de mim tremesse como se eu fosse uma garotinha indefesa.
A porta se abriu devagar, como se quem estivesse do outro lado também não quisesse assustar ninguém.
Era ela. A mulher loira. Sue.
Ela entrou primeiro, de postura calma e com o olhar atento. Não havia pressa em seus movimentos, nem ameaça. Mas havia controle. Muito controle.
Atrás dela, o homem de pedra ocupou quase todo o batente da porta, braços cruzados, expressão neutra. Vigilância pura.
E, por último… ele.
Johnny.
Encostado no batente como se estivesse visitando alguém conhecido, e não observando uma possível ameaça interdimensional. O olhar dele passou por mim com curiosidade descarada antes de parar no meu rosto.
— Vejo que sobreviveu ao banho — comentou com um sorriso tentando se disfarçar no rosto bonito.
Revirei os olhos, mas não consegui evitar a resposta:
— Milagrosamente.
O canto da boca dele subiu ainda mais. Ignorei a sensação esquisita que se alojou na boca do meu estômago.
Sue ignorou completamente a troca.
— Como está se sentindo?
A pergunta parecia simples. Mas não era.
— Viva — respondi, depois de um segundo.
Ben soltou um som baixo, quase um riso pelo nariz.
— Já é um bom começo.
Sue deu mais alguns passos para dentro do quarto.
— Queremos conversar um pouco antes de irmos para o laboratório.
Lá estava.
Laboratório.
Meu estômago revirou.
— Conversar… ou interrogar? — Perguntei cruzando os braços lentamente, tentando parecer mais firme do que realmente estava.
Johnny inclinou a cabeça, divertido.
— Depende do quanto você responder.
— Johnny — Sue advertiu, sem olhar para ele.
Ele levantou as mãos em rendição, mas não parecia nem um pouco arrependido.
Reed não estava ali. Notei isso assim que a porta se fechou e ninguém mais entrou no quarto.
— Cadê o doutor? — Perguntei.
— Preparando o laboratório — Sue respondeu com naturalidade.
Respirei fundo, não gostando da resposta.
— Ótimo. Então ele vai me dissecar só depois da entrevista — tentei maneirar no tom, mas eu estava na defensiva e não conseguia mudar isso.
Ben descruzou os braços.
— Ninguém vai te dissecar.
— Você não pode garantir isso.
Ele abriu a boca para responder, mas Sue foi mais rápida.
— Eu posso.
O silêncio que se seguiu foi curto, mas pesado.
Ela sustentou meu olhar.
E, pela primeira vez desde que cheguei ali, eu acreditei.
Não completamente.
Mas o suficiente.
— Só precisamos entender com quem estamos lidando — ela continuou. — E como podemos ajudar você.
Ajudar.
A palavra bateu estranho.
— Eu disse o que aconteceu — respondi, mais baixo dessa vez. — Estávamos rastreando a Madame Perron. A fenda abriu. Eu caí. Fim da história.
Johnny descruzou o corpo da parede e deu dois passos para dentro.
— Você fala como se fosse rotina.
Dei de ombros.
— Não exatamente rotina. Mas também não é a coisa mais estranha que já aconteceu comigo.
— Eu acredito — ele murmurou, analisando meu rosto como se tentasse montar um quebra-cabeça.
Desviei o olhar, me sentindo despida pelo olhar que ele me dava.
— E agora? — Perguntei. — Qual é o plano de vocês?
Sue trocou um olhar rápido com Ben antes de responder.
— Vamos até o laboratório. Reed quer analisar a energia envolvida na sua chegada… e entender se existe risco de outra ruptura.
— E eu entro onde nisso?
— No centro — Ben respondeu direto. — Você é a variável.
Suspirei, sentindo o peso daquilo.
Johnny inclinou levemente o corpo na minha direção.
— Ei… pelo lado positivo, você já chegou fazendo uma entrada memorável — tive vontade de socar o seu rosto para mandar embora o sorriso petulante e lindo que estampava o seu rosto.
Olhei pra ele.
— Eu quase te afoguei.
— Quase — ele corrigiu, com um meio sorriso. — Já tive dias piores.
O silêncio voltou, mas dessa vez menos sufocante.
Menos hostil.
Ainda assim… incerto.
Sue se aproximou um pouco mais da porta.
— Pronta?
Não. Claro que não. Nem de longe. Mas fiquei de pé mesmo assim.
— Vamos logo antes que eu mude de ideia.
Johnny se afastou para dar passagem.
— Agora sim isso parece uma ameaça.
Passei por ele sem responder, mas senti o olhar dele me acompanhando. Atento. Curioso. Interessado demais. Fingi que não percebi e continuei olhando para frente.
Ben saiu primeiro pelo corredor, abrindo caminho.
Sue veio ao meu lado.
Johnny ficou logo atrás.
Eu conhecia aquela formação, era posição estratégica. Já havia perdido as contas de quantas vezes Bucky, John e eu já havíamos formado em nossas missões.
Enquanto caminhávamos, percebi o quanto aquele lugar era silencioso. Organizado. Controlado.
Nada como a Torre.
Nada como minha casa.
Engoli seco.
— Ei — a voz de Johnny veio mais baixa dessa vez, só para mim. — Se a gente quisesse te prender, já teria feito isso.
— Eu sei — respondi sem olhar para ele.
— Então relaxa um pouco.
Soltei um suspiro curto.
— Eu não sei fazer isso.
Ele não respondeu de imediato.
— Tudo bem — disse por fim. — A gente te ajuda.
Levantei o olhar.
À frente, as portas do elevador se abriram com um som suave.
Ao fundo, o espelho refletiu a gente como um espelho estranho.
Três deles.
E eu. Deslocada. Fora de lugar. Talvez no começo de alguma coisa. Ou no meio de um erro muito bem arquitetado.
Entrei no elevador sem dizer mais nada.
E, quando as portas começaram a se fechar, uma única certeza se formou, silenciosa e inquietante: eu não fazia ideia do que me esperava naquele laboratório.
E acho que eles também não.
O tempo do elevador foi curto e extremamente silencioso, embora eu sentisse Johnny borbulhar um pouco mais atrás de mim, como se tivesse muita curiosidade em questionar o que quer lhe causasse curiosidade sobre mim.
E então, logo estávamos dentro do laboratório com um Reed Richards que andava de um lado para o outro enquanto escrevia equações em seu quadro de giz. Arqueei uma das sobrancelhas, sem esperar por aquilo.
— Surpresa? — Perguntou Johnny que não havia deixado de me olhar em nenhum momento, avaliando minhas reações.
— Eu esperava que o laboratório fosse diferente — admiti, surpresa por toda aquela tecnologia que era tão diferente do meu mundo.
— Como são os laboratórios do seu mundo, ? — Foi Reed quem perguntou dessa vez. Observei suas costas enquanto pensava em como responder aquilo.
— Bem, com mais telas de computador e muito mais claras.
Reed parou de escrever por um instante.
Virou-se lentamente na minha direção, o giz ainda entre os dedos, como se minha resposta tivesse aberto uma nova linha de pensamento.
— Interessante… — Murmurou, mais para si mesmo do que para mim. — Mais telas, mais luz… mais dependência digital, suponho.
Dei de ombros.
— É mais imediato, na verdade. Informação em tempo real. Comunicação constante.
— Hm. — Ele assentiu, já voltando ao quadro. — Aqui ainda preferimos entender antes de acelerar.
Johnny soltou um riso baixo atrás de mim.
— Tradução: ele gosta de complicar tudo primeiro.
— Tradução imprecisa — Reed respondeu sem nem se virar. Pude ver Sue abrir um sorriso orgulhoso.
Semicerrei os olhos enquanto me questionava se os dois se envolviam de alguma maneira.
Ben se encostou em uma das bancadas, cruzando os braços.
— Então, muito assustador o nosso laboratório? — Questionou com curiosidade.
Olhei ao redor outra vez.
Não. Não se parecia nenhum pouco com os laboratórios da Hydra ou qualquer outro que já havíamos invadido para destruir em missões.
— Já vi piores — admiti, encolhendo os ombros com as lembranças do meu mundo.
Johnny se aproximou um pouco mais, parando ao meu lado dessa vez.
— Isso vindo de alguém que quase criou uma tempestade no céu… eu fico até curioso pra saber o que você considera ruim.
Lancei um olhar rápido pra ele.
— Você não ficaria.
Ele sustentou o olhar por um segundo a mais do que o necessário.
Depois sorriu de canto.
— Agora eu definitivamente fiquei.
Revirei os olhos, mas senti minha atenção fugir por um instante.
Reed bateu o giz contra o quadro, chamando o foco de volta.
— Vamos começar com algo simples — anunciou caminhando até uma das mesas do local, pegando um pequeno dispositivo metálico, discreto, mas claramente avançado.
Prendi a respiração quase que instantaneamente.
— Não vou encostar em você sem avisar — disse, direto.
Ponto para ele.
Assenti, ainda tensa.
— Agradeço.
Sue se posicionou um pouco mais próxima, não invadindo meu espaço, mas presente o suficiente para intervir se fosse necessário.
— — ela chamou com suavidade. — Você mencionou que seu poder pode reagir de forma involuntária. Se colocarmos você em observação de perigo, acha que aconteceria?
Concordei com um movimento contido de cabeça.
— Entendido.
Reed se aproximou um passo.
— Vou apenas medir a atividade energética ao seu redor. Sem contato direto.
Ele ativou o dispositivo estranho que segurava. Peguei-me prendendo a respiração quando vi seu polegar apertar o botão de ligar.
Um leve zumbido preencheu o ar, me deixando ainda mais tensa.
Instantaneamente, senti.
Não dor.
Mas… resposta.
Como se algo em mim acordasse.
A umidade do ambiente pareceu mudar sutilmente, mas ainda assim era possível sentir.
Minha respiração vacilou.
— Eu não estou fazendo isso — avisei, colocando meus sentidos em alerta para qualquer situação que viesse a sair do controle.
— Eu sei — Reed respondeu, os olhos atentos aos dados que começavam a aparecer na tela do computador. — É reativo. Extremamente integrado ao seu sistema nervoso.
A água no ar começou a se formar em partículas quase invisíveis.
Johnny percebeu primeiro.
— Lá vamos nós de novo…
Sue ergueu a mão, pronta para agir, mas não ativou nada.
Ela estava esperando.
Confiando. Em mim.
Engoli seco mais uma vez.
— Eu consigo segurar — disse segura de mim mesma e concentrei toda a minha atenção na água ao meu redor.
Puxei uma quantidade considerável de ar para dentro dos meus pulmões e, por alguns segundos, nada pareceu acontecer.
Até que as partículas de água começaram a tremer e então se dissiparam. Fazendo o ar voltar ao normal.
O silêncio que veio depois disso foi um tanto quanto diferente. Não era tensão. Era avaliação.
Reed desligou o aparelho lentamente, ainda olhando para o ar ao nosso redor, como se procurasse algum resquício das gotículas de água.
— Fascinante — disse com os olhos brilhando em surpresa.
— Eu não sou um experimento — respondi na hora, mais ríspida do que pretendia.
Ele me olhou por cima dos óculos.
— Não, não é. Você é uma variável desconhecida com potencial significativo.
Pausei, estranhando como aquela frase havia soado em meus ouvidos.
— Isso não ajudou — respondi, séria.
Johnny riu pelo nariz.
— Pra ele, isso foi um elogio.
Ben concordou com um aceno.
— Um grande elogio.
Sue cruzou os braços, pensativa.
— E, também, uma responsabilidade.
Respirei fundo.
— E então… qual é o veredito?
Reed apoiou o dispositivo na bancada e voltou sua atenção para mim.
— Ainda não temos um — respondeu com uma despreocupação que quase me irritou.
Johnny deu um passo à frente, encostando de leve na bancada ao meu lado e se aproximando com o tronco inclinado para frente.
— Mas sabemos uma coisa — falou sorrindo. — Você não está tentando destruir a cidade.
Assenti e quase revirei os olhos, pois pensei que isso já era algo óbvio a essa altura do campeonato.
Ele sorriu pela minha reação, como se estivesse se divertindo com tudo aquilo.
— E você não parece querer fugir — concluiu.
Olhei ao redor, avaliando todas as saídas, distâncias e possibilidades. Depois voltei a olhar para ele.
— Eu não disse isso — falei, tentando conter um sorriso convencido.
O sorriso dele cresceu um pouco.
Sue trocou um olhar rápido com Reed.
Uma decisão silenciosa passando entre eles. Como Bucky e eu sempre fazíamos. Fiquei tensa no mesmo instante.
— Vamos fazer assim — ela disse. — Você fica aqui conosco, sob observação, até entendermos melhor o que aconteceu.
— Observação… — repeti esperando que eles continuassem a sentença com todas as condições.
Ben levantou um ombro.
— Sem correntes.
Johnny completou:
— Sem interrogatório estilo filme ruim.
Inclinei a cabeça.
— E qual é a pegadinha?
Sue respondeu, firme:
— Confiança mútua.
Engoli o seco, sentindo todas as possíveis respostas ácidas e engraçadinhas que eu poderia dar para ela sumindo da minha cabeça. Eu não estava esperando por isso.
Reed voltou ao quadro, já escrevendo novamente como se o mundo inteiro tivesse virado uma equação.
— Temos muito trabalho pela frente — falou para ninguém específico, mas todos os seus companheiros de equipe soltaram suspiros pesados e cansados.
— Então quer dizer que não sou a primeira ameaça de outro mundo por aqui — falei, tentando tatear pelo novo território em que eu estava pisando.
Ben soltou uma risada sem humor.
— Quem nos dera — admitiu.
— Mas é a mais bonita até agora — Johnny foi rápido em responder e eu ruborizei no mesmo instante.
— Johnny! — Sue o repreendeu sem demora, mas o sorriso petulante parecia não querer deixar o seu rosto.
Revirei os olhos, ainda sentindo o calor subir pelo meu rosto.
— Você fala isso pra todas as ameaças interdimensionais?
Johnny não perdeu um segundo.
— Só para as que quase me afogam e que ficam melhores ainda depois de um banho – lançou-me uma piscadela.
— Johnny — Sue repetiu, agora com um suspiro mais cansado do que irritado.
Ben bufou, cruzando os braços.
— Ele vai continuar falando até alguém jogar ele pela janela.
— Já tentaram — Johnny respondeu com naturalidade. — Não funciona.
Balancei a cabeça, um pouco incrédula.
— Isso aqui é sempre assim?
— Pior — Ben respondeu.
— Muito pior — Sue completou.
Por algum motivo… aquilo me fez relaxar um pouco.
Afinal, aquele caos não era muito diferente do que eu já vivia junto com a minha própria equipe diariamente.
— Então… “observação” — voltei ao assunto, tentando manter o foco. — O que exatamente isso significa?
Reed respondeu sem se virar.
— Significa que você permanece no edifício, sob supervisão, enquanto analisamos a natureza da ruptura dimensional que a trouxe até aqui.
— Tradução — Johnny murmurou ao meu lado, quase encostando nossos ombros — você fica com a gente.
Olhei de lado pra ele.
— Isso deveria ser reconfortante? – Arqueei uma das sobrancelhas e ele sorriu ainda mais.
— Depende — ele deu de ombros. — Você gosta de companhia interessante?
Ignorei a pergunta.
— E se eu quiser ir embora? – Perguntei tentando manter a postura séria.
O giz parou de riscar o quadro.
Reed virou o rosto só o suficiente para me encarar por cima do ombro.
— Você não conhece este mundo.
A resposta veio simples.
Direta.
Sem ameaça.
Soltei um suspiro, me sentindo contrariada.
Sue deu um passo à frente.
— Ninguém está te prendendo, . Mas lá fora… você seria um alvo. Para o governo, para a imprensa… talvez para coisas piores.
Meu estômago apertou.
Eu conhecia bem esse tipo de “coisas piores”.
— Já passei por isso antes — murmurei olhando para meus próprios pés e estranhando as sapatilhas.
Johnny me olhou de lado, o tom dele mudando só um pouco.
— Então você sabe que ficar aqui é a melhor opção.
Suspirei.
Olhando ao redor outra vez.
Laboratório. Equipe. Estranhos.
Mas não hostis.
— Certo — cedi, por fim. — Eu fico.
Ben assentiu, como se aquilo resolvesse metade dos problemas do mundo.
— Boa escolha.
— A melhor que você tinha — Johnny completou.
Olhei pra ele.
— Você adora comentar tudo, né?
— Eu tenho opiniões valiosas.
— Você tem opiniões.
Ele sorriu.
E, dessa vez… eu quase sorri de volta.
Sue cruzou os braços, observando a troca com um olhar que misturava curiosidade e uma leve desconfiança.
— Vou providenciar um quarto mais adequado — disse ela. — E roupas, caso precise de mais.
Reed voltou ao quadro como se o resto de nós tivesse deixado de existir.
— Precisamos mapear a frequência da ruptura, entender o gatilho, identificar padrões… — ele murmurava, já perdido em sua própria mente.
Ben olhou pra mim ao ver a careta que eu fazia, tentando entender o que o doutor falava.
— Pode ir se acostumando. Quando ele começa assim, só para quando alguém obriga – gesticulou com a mão de pedra.
— Ou quando explode alguma coisa — Johnny acrescentou. — Principalmente quando explode alguma coisa.
Dei uma pequena risada pelo nariz.
E foi estranho.
Porque não doeu.
Apoiei as mãos na bancada, sentindo a superfície fria sob os dedos.
A água não reagiu. Não dessa vez. Eu não estava me sentindo ameaçada para que meu instinto usasse a água contra todo mundo.
Respirei fundo, me acostumando com a sensação.
Eu ainda estava longe de casa. E ainda não sabia como voltar. Ainda não confiava totalmente neles.
Mas, pela primeira vez desde que caí naquele céu errado…
Eu não estava me preparando para fugir.
E isso era o que mais me aterrorizava naquele momento.


