Revisada/Codificada por: Gemini
Última Atualização: 15/01/2026Eu tinha um quarto só para mim, tinha salas disponíveis para treinar, uma adega de bebidas recheada para o término das missões e um tempo de sobra valioso quando não estávamos em missões. Eu não podia reclamar.
No começo havia sido mais difícil. Adaptar-me a ideia de conviver com John Walker diariamente exigiu muito da minha força mental e Alexei conseguia ser um grande pé no saco quando queria, mas num geral eu podia dizer que estava me saindo muito bem.
Afinal, aquela era a segunda vez em que eu tinha uma família de verdade. Um tanto quanto descompensada, mas era uma família de fato.
Yelena gostava de dizer que Bucky e eu éramos os pais de todo mundo. Bucky geralmente torcia o nariz e resmungava alguma coisa, enquanto eu apenas dava de ombros. Eu não me importava. E, no fundo, até gostava do título. Cuidar e zelar por aqueles que eu amava (inclusive John Walker) era uma das minhas tarefas favoritas.
Tanto quanto manipular a água.
Eu havia nascido assim. Brincando com a água. Tipo Moisés quando abriu o Mar Vermelho.
Meu pai costumava dizer que eu carregava um fardo por ter nascido assim. Minha mãe o culpava, dizendo que a carga genética da mutação havia vindo por sua parte da família. Meu irmão gêmeo apenas rolava os olhos e puxava meus cabelos quando nenhum dos dois estavam olhando. Era um tanto quanto difícil para ele lidar com o fato de que sua irmã gêmea tinha superpoderes, enquanto ele era apenas um garoto normal que vivia no interior do país, no meio de uma fazenda cheia de porcos e vacas.
Não demorou muito para que me encontrassem. Doze anos, para ser mais exata.
Uma Land Rover preta estacionou em frente a nossa casa e homens armados adentraram sem nem ao menos bater à porta. Era domingo. Todos tomávamos chá na mesa da sala de jantar quando papai e mamãe foram mortos com um tiro na cabeça. Meu irmão tentou fugir, mas foi igualmente baleado e seu corpo sem vida caiu aos meus pés. O cheiro do chá ainda pairava no ar quando o sangue deles tocou o chão. E eu? Bem, não tive tempo de correr. Fui agarrada pelos cabelos e levada a uma terrível e branca sala de testes.
Foi o meu primeiro contato com a Hydra.
Anos mais tardes e com uma grande carga de traumas e vidas ceifadas, o Soldado Invernal me interceptou e me levou junto a ele.
O que aconteceu após isso era apenas história, uma história de dor, fuga e sobrevivência.
O que importava agora era o que fazíamos com as vidas que restaram pra nós.
Por sorte, Bucky e eu tínhamos a chance de recomeçar.
Eu não era muito mais velha do que Yelena. Na verdade, tínhamos a mesma idade. Ava achava graça de como ela me tinha como uma figura materna, mas eu não podia evitar de chamar Lena de “querida” e acariciar seus cabelos de vez em quando.
— Você é muito mole, — Walker resmungou uma vez, após uma bomba explodir ao nosso lado e eu chorar ao vermos que ainda estávamos vivos.
Mas eu não me importava. Pois eu era assim. Volátil e molenga como a nascente de um rio que desaguava no mar. Uma cachoeira interminável de sentimentos e delicadeza.
Soltei um suspiro pesado quando percebi que minha cabeça tinha ido longe demais, perdida na imensidão dos meus próprios sentimentos.
A torre estava incrivelmente quieta hoje. Todos pareciam ocupados demais em seus próprios afazeres. O que me dava um momento de calma e folga após dias e dias de trabalho incansável para encontrar o nosso novo alvo: Madame Perron.
Madame Perron era uma feiticeira. Ou pelo menos se parecia com uma. Havia enfeitiçado metade de Manhattan, dizendo que seria o cupido do amor, o que acabou virando uma grande onda de frenesi e sexo selvagem ao ar livre. Nova York nunca tinha visto nada igual, e olha que eu já havia visto uns portais abrirem na Times Square.
O mundo estava enlouquecido com a sua presença e, o pior, ninguém parecia capaz de conseguir capturá-la ou detê-la. Por isso, eu tinha certeza de que ela era uma bruxa.
Mas ela era tão volátil quanto eu. Aparecia e desaparecia como fumaça. Lançava seus feitiços e ia embora gargalhando, como em um filme de suspense sem graça.
Estávamos ficando tão loucos quanto o restante do país por sua causa.
E era por isso, que em momentos de folga, eu tentava ao máximo não pensar nisso. E, mais uma vez, eu estava falhando miseravelmente.
Um pequeno diário estava aberto à minha frente enquanto palavras saíam da ponta da minha caneta. Esse havia sido um presente de Bob no meu último aniversário.
— Vai ajudar a organizar seus pensamentos — disse ele, sorrindo. E eu o aceitei de bom agrado.
Era bom ter um lugar para colocar tudo o que eu sentia, mas começava a me irritar o fato de as últimas páginas todas falavam sobre Madame Perron. Eu não aguentava mais caçá-la.
Uma batida na porta interrompeu minha escrita.
— Pode entrar — gritei para que quem tivesse do outro lado pudesse ouvir e não tardou para que a cabeça de Yelena aparecesse pelo vão.
— Tá com fome? — Ela ergueu um saco de batatinhas e meu estômago roncou quase no mesmo instante.
Não precisei dizer para ela entrar, pois no instante seguinte Lena já estava jogada em minha cama como se fosse a sua própria.
— O que eu já disse sobre subir de botas na minha cama? — Resmunguei fechando meu diário e indo para seu lado.
— Tá bom, mãe — sua língua pareceu se enrolar na última palavra e eu sabia que seu tom era mais do que provocativo.
— Eu vou dar pra você limpar da próxima vez — resmunguei de novo e ela riu pelo nariz, me entregando o pacote de batatinhas.
Yelena mastigava alto, olhando para o teto como se pudesse ver o espaço sideral lá de cima.
— Você pensa demais — disse entre uma mordida e outra.
— E você fala demais — retruquei, pegando o pacote de volta.
— Alguém tem que quebrar o silêncio mórbido dessa torre. – Ela balançou as sobrancelhas para cima e para baixo, tentando me convencer de seu ponto.
— É silêncio, não luto — respondi, mas a risada escapou antes que eu pudesse impedir.
Ela me olhou de soslaio, avaliando. Eu sabia que alguma coisa mais séria vinha após isso.
— Bob chamou a gente pra reunião daqui a pouco. Disse que tem novidade sobre a Madame Perron.
O nome dela me fez revirar os olhos.
— Não pode ser outra missão, tipo, sei lá, salvar gatos presos em árvores? – Estalei a língua no céu da boca e fiz uma careta desengonçada.
— Ele pareceu empolgado. — Yelena deu de ombros. — Então, provavelmente, é o tipo de missão que termina com metade de Nova York em chamas.
Suspirei, jogando o pacote de batatas de volta pra ela.
— Ótimo. Mais um dia normal – resmunguei, me levantando e calçando meus chinelos. – Sabe, eu só queria umas férias.
— Fale com Valentina — Yelena respondeu ácida e eu quis jogar um jato de água no seu rosto, mas eu havia bebido toda a água do meu copo antes de ela entrar.
— Eu acho que vou me aposentar, sabe? — Apoiei as mãos na cintura, como uma mãe cansada e foi a vez de Yelena revirar os olhos.
— E Bucky tá sabendo disso? — Perguntou ela, de maneira divertida.
— Bucky não tem que saber nada — torci o nariz. — As mulheres já são livres há muito tempo, sabia? Não devo satisfações a ninguém.
Yelena riu, jogando o pacote vazio de batatas no chão.
— Aham. Me avisa quando o governo aceitar a sua carta de aposentadoria, . Quero ver o rosto da Valentina ao ver que perdeu uma das suas melhores heroínas.
— Ela vai se engasgar com o próprio ego — murmurei, ajeitando o cabelo.
Antes que Yelena respondesse, o comunicador preso à minha mesa apitou.
Suspirei de maneira cansada. Quatro horas de descanso foi o que eu havia conseguido contar.
— Falando em egos inflados… — peguei o aparelho. — Aqui é a .
A voz de Valentina ecoou do outro lado, nítida e impaciente:
— Reunião em dez minutos. Sala principal. E tragam a Yelena, se ela não estiver dormindo ou comendo.
— As duas coisas — respondeu Yelena alto o bastante pra que Valentina ouvisse.
— Ótimo. Tragam energia — e o som cortou.
Nos entreolhamos, e Yelena arqueou a sobrancelha.
— Aposto que é sobre a Madame Perron.
— Aposto que é o fim das nossas férias imaginárias — respondi, sem muita paciência.
Peguei o casaco, e antes de sair, lancei um olhar para o diário sobre a mesa.
A última frase que eu havia escrito ainda ecoava na minha cabeça: “Quero paz.”
Ironia do destino ou não, paz era a única coisa que nunca me escolhia.
A sala de reuniões ficava alguns andares mais baixos do que nossos quartos. Ava nos encontrou no elevador e, então, seguimos juntas para o encontro.
— O que será que Valentina quer? — Perguntou Ava assim que apertou o botão do décimo segundo andar.
— Enfiar a gente em mais uma missão, é óbvio — disse Yelena, sem paciência. — Provavelmente sobre a maluca do sexo.
Ava suspirou e eu a acompanhei. Eu já não tinha mais forças para tecer comentários sobre isso.
— Boa tarde — falei cordialmente assim que passamos pelas portas do elevador e encontramos o restante do time sentados em seus respectivos lugares.
— Já não era sem tempo! — Foi o que Valentina disse e pude ver Yelena semicerrar os olhos para ela.
Mas nenhuma de nós respondeu. Não tínhamos tempo para isso.
Assumi meu lugar ao lado de Bucky que, costumeiramente, trincava o maxilar e olhava a tudo como um pai cansado e calejado de tantas decepções. A mão de metal pousava na mesa ao dor de um copo de papel cheio de café preto e sem açúcar.
Puxei o copo para mim e dei um grande gole, sentindo que precisaria de cafeína extra para aguentar tudo o que estava por vir.
Bucky pareceu não se importar quando não devolvi o seu café.
— Bom — começou Valentina e o “toc toc” do seu salto agulha indicavam sua impaciência enquanto ela circundava a mesa e projetava algumas imagens a nossa frente. — Eu preciso que vocês encontrem essa mulher!
— Como se já não estivéssemos na cola dela há mais de um mês! — John rebateu no mesmo instante.
— Preciso que vocês sejam mais efetivos — Valentina continuou, ignorando o comentário de Walker. — A imprensa está em cima de nós! Todos querem respostas. Hoje à tarde, em Chicago, mais um grupo de pessoas foi visto.
Ela não precisou dizer o que o grupo estava fazendo; as imagens de uma das câmeras já eram mais do que suficientes para sabermos: corpos nus e suados roçando uns nos outros à beira de um lago movimentado. Por sorte, nenhuma criança parecia estar por perto.
Não evitei uma careta e Alexei riu da minha reação.
— Eu ainda não consigo entender o problema disso — disse ele, e seu sotaque forte ocupou a sala como gás lacrimogêneo. Nunca sabíamos qual seria a próxima atrocidade que sairia da sua boca. — Deixem as pessoas se amarem! Pelo menos não estão roubando ou matando.
— Só aumentando a taxa de natalidade — Walker falou, ácido, rindo pelo nariz. Vários olhares reviraram na mesa.
— Ainda não consigo ver problema — Alexei repetiu, erguendo as mãos e com um sorriso de orelha a orelha.
— Precisamos de mais informações sobre o paradeiro dessa bruxa — cortei o assunto paralelo.
— Bruxa, hein? — Yelena soltou, rindo baixo; a repreendi com o olhar.
— Por sorte — Valentina disse, caminhando em minha direção —, já que vocês são muitas coisas, mas inteligência parece distante, Bob achou algumas pistas enquanto vocês fracassavam em capturar Madame Perron.
Valentina me entregou uma pasta com documentos; senti Bucky esticar o tronco para ver também. Eram imagens de câmeras e coordenadas abaixo delas: diversos lugares do mundo, aparentemente ao mesmo tempo — Inglaterra, França, Indonésia e Brasil estavam entre os países listados.
— Sem ofensas, Valentina, mas como isso pode nos ajudar? — questionei, passando os documentos para os outros. — Para mim, isso só confunde ainda mais a cabeça de todo mundo.
— Como ela pode estar em mais de um lugar ao mesmo tempo? — Ava perguntou.
— Ela é uma bruxa, como a disse — a voz mansa e tensa de Bucky ressoou, e todos o olharam ao mesmo tempo.
— Não interessa o que ela é! — Valentina cortou, novamente. — O que importa é que vocês vão pegá-la e acabar com essa palhaçada de sexo em público.
— E como sugere que façamos isso? — Yelena se jogou para trás e pôs os pés sobre a mesa. Valentina fez uma careta. — Como vamos prender alguém que está em vários lugares ao mesmo tempo?
— Os heróis aqui são vocês — Valentina apontou para a equipe. — Eu trago informações. Vocês traçam o plano e capturam a… coisa.
Valentina bateu as mãos, como quem finaliza um sermão.
— Quero um plano rápido e certeiro. Nada de dramas, erros ou enrolação. Em doze horas, quero essa mulher fora de circulação. — Ela olhou para cada um de nós, com aquele olhar que conseguia perfurar até metal. — Boa sorte, Novos Vingadores.
E, com o salto ecoando pelo corredor, ela desapareceu da sala, deixando atrás de si o perfume caro e uma nuvem de tensão.
— “Nada de dramas” — imitou Yelena, com a voz carregada de sarcasmo. — Alguém devia avisar pra ela que trabalhar com o Walker já é um drama por si só.
— Ei! — John ergueu as mãos. — Eu sou o equilíbrio desse time.
— Equilíbrio entre o ego e a idiotice, talvez — respondeu Ava, cruzando os braços.
Senti um sorriso surgir, mesmo que contido. Era assim que eles funcionavam, brigando, zombando, e, no fim, salvando o mundo de alguma forma.
— Tá bom, crianças — intervim, num tom calmo, mas firme. — Vamos focar. A Valentina pode ser insuportável, mas, dessa vez, ela não tá errada. Precisamos agir logo.
— A “mãe” falou, hein! — Yelena provocou, fazendo biquinho e piscando pra mim.
— Mãe, não. — Revirei os olhos. — Eu sou mais tipo a tia legal que traz lanches e salva a pele de vocês quando fazem besteira.
Bucky soltou um resmungo que parecia uma risada abafada. Ele ainda olhava fixamente para as imagens projetadas, os olhos percorrendo cada coordenada.
— Ela não se teletransporta — murmurou. — Isso seria fácil demais. Há algo interferindo no campo energético dela. Talvez… duplicação. Ilusão.
Antes que alguém respondesse, a porta se abriu novamente e Bob entrou, carregando uma pilha de papéis e uma xícara de café que quase derramava.
— Boa notícia: acho que encontrei um padrão — anunciou, ofegante. — Má notícia: o padrão é uma bagunça.
— Excelente — ironizou Yelena. — Um padrão caótico. Tudo o que precisávamos.
— Cala a boca, Lena — falei, me aproximando de Bob. — Mostra pra gente.
Ele colocou os papéis sobre a mesa, espalhando mapas, coordenadas e relatórios.
— Cada aparição dela acontece em áreas com alta umidade e concentração de energia residual — explicou, apontando com o dedo e eu sorri para ele, o encorajando a continuar. — Lagos, praias, até saunas públicas.
— Saunas públicas? — Walker ergueu as sobrancelhas. — Acho que encontrei minha missão.
— Walker — adverti, com o olhar de quem ameaça castigar. — Nem pense em transformar isso em turismo sexual.
— Eu só ia investigar… profundamente.
— Investiga mais uma piada dessas e eu te congelo o… ego — rebati, e Yelena explodiu em risadas.
— Certo, voltando — Bucky pigarreou, chamando a atenção. — Se ela está atraída por lugares úmidos, talvez a gente possa prever o próximo ponto.
— Ou atrair ela pra uma armadilha — completou Ava. — Uma área isolada, cheia de energia, mas controlada por nós.
— Tipo um grande spa falso — Bob murmurou. — Com vapor, música sensual e…
— E o que mais? Toalhas e drinks? — Yelena zombou. — Se isso for uma festa, eu topo.
— Não é uma festa — falei, cruzando os braços. — É uma missão. E se der errado, metade da população mundial pode acabar pelada e gritando “meu amor eterno” pro primeiro poste da rua.
— Ok, venceu — Ava disse, rindo. — Proponho que ela lidere o plano.
Suspirei.
— Ótimo. Mais uma noite sem dormir.
Bucky me olhou de canto, com aquele ar calmo e protetor que só ele tinha.
— Eu fico contigo nessa.
— Você sempre fica — respondi, com um meio sorriso.
Enquanto o resto da equipe começava a debater possíveis locais e rotas de ataque, Bob mexia apressadamente no tablet, e eu apenas me permiti respirar fundo.
Madame Perron podia ser uma bruxa, mas nós éramos o que restava de sanidade em meio ao caos, e alguém precisava manter esses malucos de pé.
O relógio marcava pouco mais das dez da noite e a sala de reuniões agora parecia um verdadeiro campo de guerra, só que de ideias. Mapas espalhados, canecas de café abandonadas e Bob digitando freneticamente no tablet, enquanto Yelena equilibrava uma batata frita no nariz de Walker só pra irritá-lo.
— Eu tô tentando me concentrar — ele rosnou, afastando a cadeira. — Alguém aqui leva isso a sério?
— Não — respondeu Yelena, sem hesitar.
— Se vocês terminarem o teatrinho, talvez a gente consiga impedir que o mundo vire um motel a céu aberto. — Disse Ava no meio de um suspiro.
— Concordo — falei, levantando os olhos do mapa. — Bob, você conseguiu o padrão temporal?
Ele girou o tablet na minha direção, animado. Eu ficava feliz em vê-lo poder participar das missões mesmo que ainda não pudesse controlar o seu poder muito bem.
— Sim! As aparições seguem um intervalo de exatas vinte e quatro horas, com uma variação mínima de trinta minutos. Se continuar assim, o próximo “show do amor” deve acontecer amanhã à noite, em algum ponto da Costa Leste.
— E adivinha qual região da Costa Leste é a mais úmida e populosa? — perguntou Bucky, em seu tom grave.
— Nova York — respondi, quase ao mesmo tempo que ele. Nossos olhares se cruzaram e um pequeno arrepio percorreu minha nuca.
— Ah, ótimo — disse Walker. — Pelo menos não vamos precisar viajar. Odeio aviões.
— Claro, porque um apocalipse erótico no nosso quintal é tudo que faltava — retruquei, e Yelena soltou um assobio de aprovação.
— Então é isso — Ava começou a dizer, pegando um marcador vermelho. — A gente atrai ela pra um ponto isolado, mas dentro da cidade. Um lugar que tenha tudo o que ela gosta: energia, umidade e espaço pra ela brincar de bruxa.
— Tipo o reservatório do Central Park — sugeri. — Dá pra monitorar o perímetro e cercar rápido se algo der errado.
— Se? — Yelena ergueu as sobrancelhas. — , amor, quando foi que algo não deu errado?
— Justamente por isso vamos planejar direito — respondi, já sem muita paciência.
Bucky apoiou os cotovelos na mesa e olhou pra mim, pensativo.
— Você quer ir na linha de frente, não é?
— Eu posso lidar com ela. Se o poder dela tem alguma conexão com energia úmida, talvez eu consiga neutralizar ou, pelo menos, conter.
Walker bufou e ergueu as mãos, como se pedisse ajuda aos céus.
— Ótimo. A das Águas vai lutar contra a Bruxa do Amor. Parece até uma novela mexicana.
— Se fosse, você seria o figurante número dois que morre no primeiro episódio — Yelena retrucou, mordendo outra batata.
Ele fez menção de responder, mas eu o cortei com um olhar firme. — Chega. Isso é sério.
A sala ficou em silêncio por alguns segundos. Eu suspirei, ajeitando o cabelo preso.
— Bob, quero você monitorando o campo energético. Ava, você a postos com o poder fantasma, pronta pra evacuar se der problema. Bucky, Yelena e Walker comigo no chão.
— A mamãe manda bem — Yelena disse em voz baixa, e eu joguei um pedaço de papel nela.
— E eu? — A voz grossa e carregada de sotaque de Alexei ecoou da porta. Ele apareceu com uma lata de cerveja na mão e o uniforme meio aberto. — Fui deixado de fora de novo?
Revirei os olhos, mas não consegui evitar um meio sorriso. — Ninguém te deixou de fora, Alexei.
— Hm. — Ele se aproximou, dando um gole demorado. — Eu posso ser distração. As mulheres gostam de homens maduros, fortes e com histórias de guerra.
— Não, Alexei — Yelena rebateu, com o olhar cansado. — As mulheres gostam de homens que tomam banho.
— Mentira! — Ele apontou pra ela com indignação. — Eu tenho feromônios soviéticos!
— Ótimo — resmunguei. — Então você vai usar seus “feromônios soviéticos” pra manter os civis afastados, entendido?
— Eu prefiro ser isca.
— Isca humana, talvez.
Yelena explodiu em gargalhadas e Bucky balançou a cabeça, sem conter um sorriso discreto.
— Tá decidido — continuei, ignorando o caos momentâneo. — Alexei cuida do perímetro e afasta curiosos. Bob, você monitora o fluxo de energia. O restante da equipe comigo.
Bob levantou o olhar do tablet e indicava que não era bom.
— Há uma coisa que eu não mencionei antes...
— Lá vem — murmurou Walker.
— O padrão energético da Madame Perron está mudando — Continuou Bob, ignorando Walker. — Ela está acumulando poder de forma exponencial. Se ela continuar nesse ritmo, amanhã pode ser o ponto máximo da carga.
— Então não temos margem pra erro — concluiu Bucky.
Todos assentiram, e pela primeira vez naquela noite, o ar ficou pesado.
Levantei-me, sentindo o cansaço pesar nos ombros, e encarei o reflexo do time no vidro escurecido da janela. Um grupo de desajustados, cansados, meio quebrados, mas era o que tínhamos.
— Certo — disse, firme e me levantando. — Amanhã a gente acaba com isso. E depois… eu quero um fim de semana inteiro sem ouvir a palavra “feitiço”.
— E sem sexo em público — completou Yelena, fingindo fazer o sinal da cruz.
— E sem Walker — retrucou Ava.
— Ei! — ele protestou. — Eu sou essencial pra equipe!
— Claro — murmurei, já saindo da sala. — Principalmente pra garantir o entretenimento.
Bucky riu baixinho atrás de mim, e por um instante, no meio do caos, eu senti aquele calor familiar no peito, o de ainda ter alguém pra dividir o fardo.
— Tá bom, perdedores, hora de dormir – falei por fim. — Amanhã é o dia de pegar a Bruxa do Amor.
Era sempre uma linha tênue entre conforto e costuras que apertavam lugares desnecessários e desconfortáveis. E eu geralmente me sentia um salame ensacado, com medo de parecer com a bunda grande demais.
— Pois eu acho que você fica uma gostosa, se quer realmente saber — foi o que Yelena disse quando me ouviu resmungar pela milésima vez.
Mas eu não tive tempo de respondê-la. Bucky já nos esperava dentro do carro e buzinava pela nossa demora. Porque os homens tinham que ser tão impacientes?
Amarrei a bota e prendi os cabelos num rabo de cavalo alto. Ajustei o colar que servia como receptáculo de água, caso eu ficasse sem. E saí ao lado de Yelena, que andava como se o mundo não estivesse prestes a acabar em depravação e sexo.
— Como consegue estar tão tranquila? — Indaguei assim que entramos no carro.
— É só mais uma missão – deu de ombros. — Não o fim do mundo.
Mas eu não tinha tanta certeza.
Bucky logo enfiou o pé no acelerador e o caminho foi silencioso e desconfortável. Walker, para a surpresa de todos, não havia tecido nenhum comentário desagradável e parecia tão focado quanto todos nós. O dia estava realmente estranho.
O ponto de encontro era o Central Park, nas margens do lago principal. Não havia muitos civis por perto, o que era bom, mas o vento frio cortava o ar e levantava pequenas ondas na superfície da água.
A voz de Bob ecoou pelo comunicador no meu ouvido assim que descemos do carro:
— Testando, testando... vocês estão me ouvindo, equipe?
— Infelizmente — respondeu Yelena, mexendo no fone. — Não dá pra colocar no mudo, não?
— Que engraçada — ele resmungou. — Eu tô aqui na torre acompanhando tudo. A Valentina me deixou de babá de vocês de novo, então tentem não explodir nada dessa vez, ok?
Revirei os olhos e ajeitei o colar com a reserva d’água.
— Relaxa, Bob. A última explosão nem foi culpa nossa.
— Foi exatamente culpa de vocês — ele rebateu, e deu pra ouvir o som de papéis caindo e uma cadeira arrastando. — Ai, droga... ‘peraí. O monitor caiu.
Um estalo alto no fone.
— Bob? — perguntei, meio preocupada, meio exasperada.
— Tô bem! Só... enfim. Tô tentando acompanhar pelo mapa. Tem umas leituras estranhas aí perto do lago. Tipo, energia diferente... ou estática. Não sei. O computador travou.
— Fantástico — disse Walker. — Nosso olho no céu é um homem brigando com o Wi-Fi.
Yelena riu, e até Bucky pareceu conter um sorriso.
— Foco — rosnou ele, assumindo a liderança. — Ava e Walker, coberturas laterais. Alexei, comigo na frente. e Yelena, perímetro
— “ e Yelena no perímetro” — repeti em voz alta. — Parece nome de dupla pop dos anos 2000.
— Só se for e a Viúva Russa no inferno dos hormônios — Yelena completou, arrancando uma risada breve até de Bucky.
O comunicador chiou de novo:
— Eu ouvi isso, viu? — disse Bob, ofendido. — Vocês nunca levam nada a sério.
— A gente leva sim, Bob — respondi, sorrindo de leve. — Só preferimos rir antes que tudo dê errado.
Bob suspirou do outro lado.
— Tá, mas fiquem alertas. O gráfico aqui tá... sei lá, tremendo. Acho que tem alguma coisa grande chegando.
Eu troquei um olhar rápido com Yelena. O vento gelado fez arrepiar até o couro do colete.
— Fiquem atentos — murmurei, mais pra mim do que pra eles. — Se ela estiver mesmo aqui... não vai ser simples.
E, como se o universo tivesse ouvido, o ar pareceu tremer.
O comunicador estalou mais uma vez, e Bob gritou do outro lado:
— Gente?! Gente, o mapa sumiu! A tela ficou rosa!
Antes que eu pudesse responder, uma onda de energia atravessou o campo, fazendo as luzes piscarem.
O cabelo de Yelena se levantou com a eletricidade estática.
— Ah, ótimo — murmurou ela. — Lá vem a bruxa do sexo.
Um arrepio percorreu a minha espinha e seus cabelos grisalhos invadiram a minha visão quase no instante seguinte. Eu não sabia o porquê da sua presença me afetar tanto.
Ela simplesmente estava ali, como se o ar tivesse decidido tomar forma. A brisa que antes era leve agora parecia densa, cheia de perfume e perigo. Seu vestido preto se movia como fumaça viva, moldando-se ao corpo à medida que ela caminhava. Meneei a cabeça, tentando me concentrar no que era real e não no que ela tentava nos fazer enxergar.
Madame Perron sorriu, como se soubesse o que eu estava pensando, e aquele sorriso soou como uma terrível ameaça.
— Ah, os Novos Vingadores... — sua voz ecoou melodiosa, mas com algo perverso escondido. — Sempre tão previsíveis.
— Prefiro ser previsível do que uma maluca de vestido cafona — Yelena murmurou, fazendo a energia de seus propulsores de pulso vibrarem em um azul brilhante.
A bruxa deu uma risada cristalina.
— Sempre insolente, Yelena Belova. Vocês lutam contra o amor, e ainda se acham heróis.
— A gente luta contra feitiços depravados e possessões em massa, querida — retruquei, sentindo meu corpo vibrar de raiva. — O amor não tem nada a ver com o que você faz.
— Não, , o amor salva tudo — respondeu-me, com a voz mansa. Mas eu sabia que ela logo atacaria.
Ela ergueu a mão e, de repente, o chão do parque se abriu em rachaduras finas. O ar vibrou, e das sombras começaram a surgir figuras, corpos translúcidos, distorcidos, meio humanos, meio feitos de luz. Pareciam versões corrompidas de amantes abraçados, grunhindo e se contorcendo.
— Fantasmas de desejo — ela murmurou, com orgulho. — Tão frágeis... e tão obedientes.
— Yelena! Ava! Cuidem do perímetro! — gritei, já invocando a água do colar.
O líquido fluiu em espirais pelo meu corpo, envolvendo meus braços como serpentes cristalinas. Um movimento, e jatos precisos atingiram duas das criaturas, que se desintegraram em vapor. Outras, porém, se recompunham, arrastando-se pelo chão como se sentissem prazer em apanhar.
— Mas que porra é essa?! — Walker rugiu, atirando contra uma das formas luminosas. As balas atravessavam os corpos sem efeito. — Elas não morrem!
— Elas não estão vivas! — Bucky respondeu, disparando em outra direção e desviando de um feixe de energia lilás que veio da bruxa. O raio atingiu uma árvore, fazendo-a florescer instantaneamente em cores impossíveis.
Madame Perron girou o pulso e, num piscar de olhos, a água do lago se ergueu, não por minha vontade, mas pela dela. A massa líquida tomou a forma de um colosso translúcido, que rugiu e veio na nossa direção.
— Sério? — reclamei, erguendo os braços. — Mexer com água na minha frente é provocação.
Concentrei-me, sentindo o colar pulsar. A água ao meu redor respondeu ao chamado, se unindo à que a bruxa havia invocado. Forças opostas colidindo. O impacto fez o chão tremer, o ar explodir em gotas afiadas.
Bucky correu até mim, desviando de destroços e me puxando antes que um dos tentáculos líquidos me atingisse.
— Consegue manter o controle?
— Ainda sou eu quem manda na água, Barnes! — respondi, a voz firme e um tanto quanto ofendida, ainda que o esforço me consumisse.
— Boa menina — Walker ironizou, atirando contra o colosso. — Mostra pra essa bruxa quem é a rainha das marés!
— Cala a boca e atira direito! — Yelena rebateu, cortando mais duas criaturas com suas lâminas.
Ava apareceu logo atrás dela, lançando um pulso elétrico que iluminou o parque inteiro e desfez parte das ilusões. Por um instante, achei que tínhamos vantagem. Até ouvir a risada dela.
Madame Perron estalou os dedos.
O colosso desabou, e toda a água que eu controlava se virou contra mim, um redemoinho se formando no ar, me puxando com força.
— ! — ouvi Bucky gritar. Ele correu até mim, tentando me alcançar, mas o chão se partiu entre nós.
Meu corpo flutuou por um segundo, envolto em luz e água, e o olhar da bruxa encontrou o meu.
— Tão poderosa, tão perdida. — Ela sorriu, e sua voz ecoou dentro da minha mente. — Deixe-me te mostrar um mundo onde o amor não precisa de limites.
Um clarão.
A explosão de energia foi tão intensa que arrancou gritos de todos.
Eu senti o ar desaparecer, o chão sumir e o universo se dobrar ao meu redor. Era como se alguém tivesse aberto um espelho e me jogado dentro dele.
O último som que ouvi foi a voz de Yelena, distante, cortada pela estática do comunicador:
— , segura firme!
A última coisa que vi foram os rostos apavorados dos meus amigos, mas que logo sumiram por uma força que se fechou ao redor de suas cabeças. Senti meu umbigo sendo puxado e então, me vi em queda livre.
