Capítulo 09
Ethereal
Apesar da interrupção de Italia Whitman, o restante do espetáculo foi bastante agradável, sem qualquer clima estranho entre os dois, porém sem nenhuma menção ao que quase havia acontecido. pediu mais champanhe para os dois, e soltava alguns comentários animados sobre o que acontecia no palco. Eles se entretinham em pequenas conversas e era cada vez mais difícil não trocarem olhares. Era como se as írises de um fossem ímãs para o outro, e vários segundos passavam antes de desviarem.
temia que a candidata ao senado estivesse os vendo de alguma forma, embora não conseguisse localizar o camarote de Italia. Não sabia dizer bem o porquê, mas algo na forma como a mulher os encarou insinuava aquilo, e ela detestava a ideia de Whitman usar aquilo contra .
Talvez estivesse apenas sendo paranoica, mas não havia gostado das perguntas dela, muito menos de como fazia questão de ficar a medindo o tempo todo. Quem ela pensava que era?
E se Italia usasse algo daquele breve encontro para sabotar , não sabia o que faria. Provavelmente lhe daria o soco que ficou segurando por mera educação.
Mesmo sabendo que dificilmente Whitman estaria em seu caminho outra vez, os dois resolveram ficar naquele camarote até o final do último ato. A adrenalina da “fuga” havia se dissipado, e quem sabe aquilo não era obra do destino, afinal aquela não era a primeira vez que algo os atrapalhava. Por mais que se desejassem e fizessem bem um ao outro, talvez simplesmente não fosse para ser.
Porém aquela ideia incomodava e, coincidentemente, havia pensado o mesmo e se sentido da mesma forma enquanto, em silêncio, os dois seguiram pelo corredor até a saída do teatro.
Ao menos não voltaram a encontrar Italia, e só aquilo já foi o suficiente para que ficassem mais aliviados.
Um pequeno sorriso moldou os lábios de quando o homem abriu a porta do carro para ela e, enquanto se sentava no banco do carona, a mulher tentava esconder a expressão de quem não queria que aquela noite acabasse ainda. Parecia que estava vivendo um sonho e não desejava despertar, porque sentia que não havia aproveitado o suficiente.
deu a volta para ocupar seu lugar no banco do motorista e, ao checar o espelho retrovisor, percebeu que disfarçava uma careta.
— Tudo bem? — Talvez não devesse soar tão preocupado, porém descobria a cada dia que se segurar quando estava com aquela mulher era uma tarefa árdua.
Por alguns segundos, ponderou o que deveria responder e, por fim, soltou uma risada baixa, quase envergonhada, e olhou para o homem em seguida.
— Eu só estava pensando que ainda não quero que essa noite acabe. — Mordeu a boca de maneira inconsciente ao dizer aquilo, e o olhar de oscilou por alguns segundos ali antes de ele processar as palavras dela.
Quando voltou a encarar os olhos de , um sorriso enorme surgiu nos lábios dele e suas íris brilhavam tanto que ela ficou meio tonta.
— Então vamos fazer com que não acabe, senhorita .
Foi inevitável para a mulher não sorrir de volta, totalmente encantada por ele, questionando pela milésima vez se era mesmo real.
Relutante em quebrar o contato visual, o homem se voltou para a direção do carro e o ligou para que saíssem dali de uma vez.
Novamente, um silêncio se fez presente entre eles, e se inclinou para ligar o rádio, sem se preocupar em pedir permissão porque já sabia que a teria. Ao reconhecer One for the Road, do Arctic Monkeys, ela olhou rapidamente para , surpresa e animada ao ver que ele estava ouvindo sua banda favorita.
— Soube que vai ter um concerto deles por aqui. — dividiu sua atenção entre e a direção.
— Esse é o tipo de evento que com certeza deve ser épico. Acho que depois de ver O Fantasma da Ópera, ir a um show do Arctic Monkeys é meu maior sonho. — A mulher ficava cada vez mais empolgada apenas com aquela ideia.
— Se minha companhia não foi tão ruim assim, podemos ir juntos. — Ele sequer hesitou em fazer aquele convite. De certa forma, já estava um tanto ansioso por outro encontro com ela, mesmo sabendo que mais tarde sua consciência o tiraria do sério ao berrar as consequências daquilo tudo.
levou alguns segundos para se dar conta de que estava mesmo a chamando para sair outra vez e prendeu o lábio entre os dentes, o olhou de cima a baixo e percebeu que nem fazia questão de disfarçar que ela o deixaria levá-la para onde quisesse.
— Vou adorar ir com você, . — E, mais uma vez, ele sorriu abertamente.
No entanto, depois de alguns segundos, se deu conta de uma coisa.
— Você não discordou e nem concordou com o que eu disse. — Estava apenas brincando, seu tom leve deixava isso bem claro, e franziu o cenho, sem entender.
— Sobre o quê? — Sentiu vontade de rir antes mesmo de descobrir.
— Sobre minha companhia ser ruim. — Desviou seu olhar dela apenas para prestar atenção em uma curva que fazia.
Em vez de continuar rindo, a mulher sorriu enviesado.
— A noite não acabou ainda, sabe? — E deixou a resposta no ar, embora fosse bem óbvio, ao menos para ela, que a companhia dele de ruim não tinha nada.
ergueu uma sobrancelha e apertou um pouco o volante, descontando ali o quanto o afetava. Ela não fazia ideia, mas cada gesto seu era percebido por ele, e assisti-la morder os lábios ou sorrir daquele jeito o deixava maluco.
E se simplesmente jogasse tudo para o alto, estacionasse aquele carro e puxasse a mulher para si?
Ele então avistou o local para onde a levava e foi diminuindo a velocidade do veículo.
— Outro fast food, uh? — não achava nada ruim. Gostava de manter uma alimentação mais saudável, porém se sentia de volta à adolescência ao escapar assim para comer porcarias.
Pela forma como ficava animado, ele sentia o mesmo.
— Uma vez me falaram que os tacos desse lugar são coisa de outro mundo, e eu sempre quis provar — confessou, ao dar de ombros.
— Ah, então vai me fazer de cobaia junto com você? — ergueu uma sobrancelha, e o fez rir com gosto.
não conseguiu deixar de pensar que até mesmo a risada daquele homem era gostosa.
— Pense na adrenalina, vai — insistiu, ainda rindo.
Como se ele realmente precisasse convencê-la de algo.
Honestamente, ela até se sentia um tanto idiota com o quanto estava rendida, porém aquele homem a havia surpreendido de tantas maneiras que conseguia mesmo entender o porquê.
— É, você me ganhou com a adrenalina. Vai ser no mínimo interessante entrar ali com essas roupas também. — deu uma olhada rápida para o próprio vestido, então apontou para o terno dele.
— Bom, sobre isso, pensei em pegarmos algo para viagem.
Pelo jeito, sempre encontrava alguma forma de surpreendê-la ainda mais.
— Pensou, é? — Estreitou os olhos e fingiu desconfiança. — O que você está aprontando, ?
— Só te levar para casa quando o dia nascer. — Nem ele mesmo acreditou que aquelas palavras haviam escapado de seus lábios, no entanto adorou o brilho que viu nos olhos dela quando as ouviu.
— Assim o Todd vai pegar ranço de mim, hein? — brincou e viu que estacionava o carro.
— É mais fácil encontrar alguém de quem ele não tenha — rebateu, o que a fez arregalar os olhos e rir alto, a acompanhando completamente contagiado.
— Sabe, essa história de ser sua assessora tinha até me interessado, mas depois dessa… — Negou com a cabeça.
a encarou por alguns segundos e tentou conter pensamentos totalmente inapropriados ao imaginá-la com ele em seu escritório. Com certeza a ideia seria muito interessante se não fosse enlouquecê-lo de vez.
— Se você quiser, a vaga é sua… — Piscou para ela, que mordeu o lábio pela milésima vez naquela noite.
Droga, por que ele tinha que ser absurdamente gostoso e charmoso daquele jeito? precisava encontrar os defeitos dele, e rápido.
então se virou para abrir a porta do carro, e aquilo fez erguer uma sobrancelha em confusão.
— Nós não íamos pegar para viagem? — Na verdade, ela já queria indagá-lo sobre aquilo quando percebeu que não pegaram a direção do drive-thru.
— Íamos, mas você falou em entrar ali com essas roupas, e eu também adoro uma adrenalina. — Sorriu como se realmente tivesse voltado à sua adolescência.
A expressão de se iluminou e ela sequer esperou que desse a volta e abrisse a porta, fez questão de sair logo do carro e seguir com ele para o estabelecimento.
tentava controlar a vontade de segurar na mão dela toda vez que andavam lado a lado daquele jeito e se concentrou no quanto estava animada. O sorriso não saía de seus lábios e era insano o quanto aquela mulher era bonita.
Estava hipnotizado e na verdade adorava aquilo.
Se adiantando para abrir a porta, logo deu passagem para entrar na sua frente e, assim que os dois adentraram o restaurante, sentiram olhares sobre si.
Não havia muitas pessoas lá, afinal, já passava das onze da noite, porém os que estavam presentes não deixaram de reparar nas duas pessoas vestidas impecavelmente dentro de um lugar que cheirava a frituras.
— Boa noite, cavalheiro. Pode me dar o cardápio? — se aproximou do balcão e viu o atendente assentir e imediatamente estender um papel plastificado a ele e outro a .
— Cavalheiro? Quem é você, o príncipe da Inglaterra? — brincou, e o homem arregalou os olhos e abriu a boca em indignação.
— Não te ouvi reclamando do “senhorita ” — rebateu e a encarou como quem diz “quero ver você sair dessa agora”.
— É porque soa sexy. Mas relaxa, só estou implicando com você. — Ela não o olhava ao dizer aquilo, na verdade, tinha voltado sua atenção para o cardápio e tentava escolher o que desejava comer.
se sentiu pego de surpresa pela naturalidade dela e mais uma vez se imaginou sozinho em outro ambiente com , onde poderia ouvi-la sussurrar aquela primeira frase em seu ouvido.
Porra, ele precisava se controlar.
— Bom saber disso. Posso repetir quantas vezes quiser, senhorita . — talvez não fizesse ideia, mas a mulher estava tão afetada por ele quanto e ficava cada vez mais difícil não jogar qualquer prudência para o alto.
Naquele momento, a única coisa que a impedia de agarrá-lo era o fato de os dois estarem no meio de um restaurante.
Pressionando os lábios, por fim escolheu o que iria comer e esperou para que fizessem os pedidos juntos. O atendente pediu o nome de e avisou que eles o chamariam quando tudo estivesse pronto.
Imaginando que demoraria alguns minutos, caminhou até uma mesa e puxou uma cadeira para se sentar, então viu o homem imitar seu gesto de frente para ela.
— Estou surpresa que ele tenha perguntado o seu nome, não vou negar — confessou, em um tom mais baixo, ao que respondeu com um arquear de sobrancelha.
— Falou aquela que também não sabia quem eu era quando me conheceu. — Então riu baixo ao vê-la abrir a boca em indignação só para depois fechar e bufar.
— Nada a ver. Lá em Ohio você ainda não aparecia direto na televisão. — arqueou ainda mais a sobrancelha, e fez uma careta. — A desculpa não colou, né?
— Nem um pouco. — riu e negou com a cabeça. — Só que pelo menos você sabia quem era , e juro que quando essas coisas acontecem fico um tanto preocupado.
— Eu também fico. Quer dizer, como ele vai votar em alguém se nem sabe quem são os candidatos?
E a partir disso, os dois começaram uma conversa breve sobre as eleições, que estavam cada vez mais próximas. tinha muitos ideais em comum com , e ela imaginou que, mesmo se não tivesse o conhecido, ganharia o seu voto.
No entanto, apenas a ideia de nunca tê-lo conhecido ou de de repente não estar mais presente em sua vida a deixou agoniada.
Àquela altura, já deveria estar acostumada a ver pessoas sumirem de sua vida abruptamente, porém ali estava ela, temendo mais uma vez.
Isso fez com que um alerta vermelho piscasse em sua mente.
era maravilhoso, mas era mesmo seguro se entregar a tudo que o envolvia daquele jeito?
— ? — A voz dele a despertou de seus pensamentos, e só então ela percebeu que fazia uma careta para um ponto fixo qualquer.
— Desculpe, me distraí. O que disse?
— Está tudo bem? — O olhar dele passeou por todo o rosto dela e aquele cuidado que ele tinha a fez sorrir.
— Está. Eu só me perdi pensando em umas coisas idiotas. — Riu baixinho.
— Coisas idiotas? — manteve o olhar nela, interessado. Sabia que ele mesmo não era diferente, vivia pensando em “coisas idiotas”, e de repente se perguntou se seriam indagações semelhantes às dele.
— Sim, mas não se preocupe. Às vezes as coisas pelas quais eu passei têm esse efeito sobre mim. — Dessa vez ela achou que seria melhor não dizer tudo a ele. Tinha medo de como poderia reagir.
— Entendo. Isso também acontece comigo — suspirou.
— Acontece, é? — Era incrível que, embora existissem diferenças entre eles, em várias coisas eram bem parecidos.
— Mais do que você imagina.
Qualquer resposta que pudesse dar se perdeu quando o nome do homem foi chamado. Eles logo se levantaram para pegar seus pedidos e voltaram rapidamente para o carro, onde repetiu o mesmo gesto de abrir a porta para , deu a volta, entrou em seu lugar e deu partida.
— Então, vai me contar o que está aprontando? — a mulher indagou e olhou curiosa para .
— Você por algum acaso tem medo de altura? — respondeu com outra pergunta, e estreitou um pouco os olhos.
— Não? — Seu tom fez soar como uma pergunta, embora fosse uma afirmação, e aquilo fez sorrir.
— Nesse caso, é surpresa então.
Outra vez, se distraiu em conversas aleatórias com , e com cada vez mais frequência se pegava o observando enquanto ele falava. A forma como fazia questão de olhar para ela ao menos uma vez, as risadas que vez ou outra ele soltava, as brincadeiras que fazia apenas para fazê-la rir também, e como até a forma de falar soava um tanto mais leve.
Não queria se iludir a ponto de achar que aquilo acontecia quando ele estava com ela. Por mais que Carter tivesse lhe dito aquilo, alguma parte sua ainda relutava e insistia em reforçar que não devia criar expectativas sobre nada. Todas as vezes em que havia o feito, as decepções a atingiram em cheio e a jogaram em um vazio profundo.
Tinha que parar aquilo. Parar de desejá-lo tanto porque seus mundos eram diferentes demais. Mas por que era tão difícil?
Aceitar aquele segundo convite para sair com ele não era o caminho, porém voltar atrás não lhe agradava nem um pouco.
A mulher precisou conter um suspiro que quase escapou de seus lábios, voltou a focar sua atenção no que dizia e se sentiu até culpada, porque o homem parecia empolgado ao contar sobre uma vez em que ele e Carter resolveram sair de uma sala de cinema porque o filme ao lado parecia bem mais interessante do que aquele que eles escolheram. Como se não bastasse aquilo, conseguiram trocar de ambiente novamente e assistiram a um terceiro filme.
Os dois realmente gostavam de fazer maratonas.
— Tá aí mais uma vez o seu lado rebelde que eu adoraria conhecer, . — sorriu enviesada e o percebeu imitar seu gesto de um jeito tão charmoso que ela quase suspirou novamente.
— Você me fez entrar de roupa social em um fast food para comprar tacos. Sem falar que, por muito pouco, a gente não fugiu no meio de um espetáculo. Acho que a senhorita está me ajudando a despertar esse lado, viu?
Pela primeira vez, um dos dois mencionou o que quase havia acontecido, e já sabia o que responderia, no entanto, parou o carro mais uma vez e ela se deu conta do lugar para onde ele a havia levado.
— É aqui que pretende me matar, senhor ? — brincou, ao perceber que estavam no alto de um dos pontos mais altos de Baltimore, de onde era possível ver toda a cidade, mesmo dentro do veículo.
— Droga, você descobriu meus planos. — Ele riu baixo, enquanto prestava atenção nas reações dela.
As milhares de luzes provenientes das residências davam a impressão de estarem diante de estrelas que vinham por todos os lados, e a mulher não conseguiu disfarçar a expressão maravilhada que tomou conta de suas feições.
abriu um sorriso com aquilo. Adorava o quanto era genuína em tudo, no quanto sabia que podia confiar nela simplesmente porque ela não conseguiria fingir. Poucas pessoas em sua vida eram daquela forma, ele vivia cercado por falsidade e interesses devido ao seu status, então se sentia em paz ao lado dela.
Sem falar que a forma como os olhos de brilhavam o deixavam até embasbacado.
havia questionado mais de uma vez se ele era mesmo real, porém não fazia ideia de que se sentia da mesma forma. Ela era perfeita demais para ser de verdade.
Era irônico como tudo que lhe soava perfeito era inalcançável ou simplesmente arrancado dele.
— É lindo. — A voz dela soou emocionada.
— Muito — concordou, sem tirar os olhos da mulher.
conseguia sentir aquilo, por isso virou o rosto lentamente na direção dele e abriu um sorriso esperto.
— Você também, senhor . — Deixou claro que havia entendido a quem o homem se referia.
se perdeu nos olhos dela e precisou de toda a sua força de vontade para se manter onde estava.
Queria, sim, beijá-la. Céus, ele desejava sentir os lábios de nos seus desde o dia em que a viu pela primeira vez. No entanto, por algum motivo, sentiu que aquele não era o momento certo. Por mais que toda uma atmosfera sempre surgisse, ainda não era a hora.
Quando finalmente a beijasse, não queria que se arrependesse ou esquecesse no dia seguinte.
Naquela noite, entendeu que não adiantava lutar contra o que sentia e decidiu não fugir mais. Ele se jogaria naquele precipício sem saber o que o aguardava. No entanto, antes disso, queria ter certeza de que estava verdadeiramente disposta a fazer o mesmo. A ideia de perdê-la estava completamente fora de cogitação.
Como ele, também hesitava, com medo de agir e o afastar por algum motivo. Sabia que não era certo se culpar pelo que havia acontecido entre ela e Pietro, porém não conseguia não pensar que, de alguma forma, poderia haver, sim, algo de errado com ela. E tinha a amizade de . O que faria se a perdesse?
Foi a mulher quem quebrou o contato visual, ao encarar os pacotes com a comida que haviam comprado.
— Tenho quase certeza de que isso está gelado. — Entregou a parte dele.
— Com toda essa embalagem nada ecológica, espero que não. — fez uma careta, então acompanhou com o olhar os gestos dela de tirar um dos tacos do pacote e o levar até a boca.
Alguns segundos se passaram enquanto só se ouvia a música ao fundo, e esperou até terminar de mastigar.
— Então?
— Ah, não. Não vou te dar spoiler, mocinho. Pode comer também!
A forma mandona como ela disse aquilo o fez rir e negar com a cabeça.
— Vai ser malvada assim comigo mesmo? — Ele ergueu uma sobrancelha e a viu fazer o mesmo.
— Posso ser mais.
sorriu novamente, afetado com aquilo, porque sua imaginação mais uma vez foi bem longe e tratou logo de também tirar da embalagem um dos tacos, o mordeu em seguida e tentou ao máximo disfarçar a careta que começou a se formar.
Além de gelado, aquilo era puro sal e pimenta.
— É horrível, não é? — riu da tentativa dele de se controlar, e cedeu, tossiu e imediatamente abriu a garrafinha de suco que havia comprado para beber alguns goles.
— Droga, fui enganado! — resmungou, enquanto a ouvia rir ainda mais. — O pior é que eu realmente estou com fome.
— Isso aí é praga da Julieta. Ela deve ter pressentido que comeríamos porcaria. — Foi a vez de negar com a cabeça.
— Já valeu a experiência de não acreditar em quem falou desses tacos.
— Quem foi que falou deles?
— Todd.
olhou séria para por cerca de três segundos, então os dois caíram na risada novamente.
A parte do jantar havia sido um desastre, porém ainda tinham música boa de fundo, uma vista maravilhosa e a companhia um do outro.
Nos dias que se seguiram, as mensagens de texto acabaram sendo o contato mais próximo que tiveram. Os professores de davam cada vez mais trabalhos, e as provas que marcavam o meio do semestre se aproximavam, então ela dividia seu tempo entre estar na universidade e estudar em casa. Às vezes, os amigos vinham até a mansão, e, em outras, preferiam se reunir em outros lugares.
Carter realmente havia se juntado ao grupo e continuava presente praticamente em todas as ocasiões. desconfiava de que algo estava mesmo rolando entre ela e Madison, porém nenhuma das duas tocou no assunto, então ela preferiu deixar que decidissem quando o fariam.
Quanto a , ele poderia dizer que estava enlouquecendo por conta de seu assessor. Sua campanha eleitoral estava a todo vapor, então sua agenda estava cada vez mais lotada de compromissos, e Todd fazia questão de sempre mostrar quando Italia ganhava mais intenções de voto. entendia as motivações do homem, queria que o candidato reagisse e mantivesse cada vez mais o foco em seu objetivo.
Em alguns momentos, cogitou realmente propor a uma espécie de estágio na assessoria, assim definitivamente as coisas seriam mais leves como sempre eram quando estava com ela, fora que aquilo ajudaria bastante no currículo da mulher. No entanto, logo em seguida, ele acabava deixando aquilo de lado, porque certamente trabalhar ao lado de seria um erro. Por mais que a companhia dela lhe fizesse bem, havia também aquele desejo absurdo que corroía seu corpo inteiro e tornava quase impossível manter o controle.
Não demorou muito para que aceitasse, enfim, que, no final das contas, o que predominava era o fato de estar com saudades de . Trocar mensagens não era o mesmo que falar com ela pessoalmente, sentir o cheiro gostoso de seu perfume, ou o calor de sua pele, mesmo sem tocá-la. Sentia falta de ouvir a risada da mulher e até de se perder encarando a profundidade de seus olhos.
Parecia que quanto mais repetia que não podia ter nada com , mais ficava rendido por ela.
Não havia outra definição, estava rendido, e uma parte sua soube daquilo desde o início.
— Senhor ? — O homem sentiu algo dentro de si se agitar, porém a voz que o chamou não era a de e logo ele suspirou, encarou Julieta e abriu um pequeno sorriso para disfarçar.
— Sim? — Sabia que a mulher perceberia sua postura hesitante, porém, para sua surpresa, ela nada disse a respeito.
— Todd está te esperando no escritório. Disse que o senhor precisa ir até lá agora mesmo. — Lhe lançou um olhar significativo, e entendeu que precisaria se preparar para o que viria.
— Certo. Obrigado, Julieta. — O tom cordial do homem foi recebido com uma careta da mais velha.
— Se precisar de alguma coisa, é só gritar. Saiba que tenho uma frigideira grossa preparada pra derrubar qualquer um. — olhou surpreso para a mulher e, ao notar que realmente ela falava sério, não resistiu e caiu na gargalhada.
— Por favor, não derrube ninguém.
O que tornava tudo ainda mais cômico era a diferença física entre os dois, porém não duvidava da capacidade de Julieta de nocautear alguém.
— Vai logo, meu filho. Com certeza daqui a pouco ele vem atrás de você.
E ela não estava errada. Quando o candidato estava há apenas alguns passos da porta do escritório, essa se abriu e de lá saiu seu assessor impaciente, que deu de cara com logo em seguida.
— Ah, aí está você, . Achei que Julieta tinha esquecido de passar o meu recado.
— Ih, aquela ali não esquece nada. É por isso que preciso tomar cuidado com os álbuns de quando eu era menino. — Acabou soltando uma risadinha, porém Phillips não o acompanhou, apenas continuou sério e deu meia volta até o escritório.
não gostou daquilo, porém nada disse, apenas seguiu o assessor e o esperou fechar a porta para tornar a dizer qualquer coisa.
— E então? — Depois daqueles poucos minutos de silêncio, se sentiu incomodado, principalmente pela forma como Todd o olhava.
— Precisamos conversar sobre a sua estratégia. Seu debate com a Italia será daqui a poucos dias e, não sei se você já a viu argumentando qualquer coisa, mas a mulher é imbatível.
— Sabe, Todd, às vezes tenho a impressão de que você tem uma queda por ela. — não conseguiu deixar o comentário de lado. Sabia que o momento requeria uma seriedade, porém confiava em si mesmo e, mesmo com uma adversária forte, nada temia.
— Não seja idiota, ! — Phillips revirou os olhos, incapaz de se sentar, como o candidato fazia naquele exato momento. Estava agitado demais para ficar parado, então começou a andar de um lado para o outro na sala sem nem perceber.
— Não estou sendo, pode ter certeza disso. — estava diferente, o assessor vinha percebendo aquilo há algumas semanas, porém o comportamento mais descontraído não era visto há meses, mais especificamente desde a partida de Amélia.
— Seja lá o que esteja te deixando assim, fico feliz por você, mas precisamos de foco agora, . Nós já vimos que Whitman joga sujo, então qualquer deslize seu que ela encontrar será usado contra você.
ia retrucar a primeira fala de Todd, porém acabou franzindo o cenho com a segunda parte.
Por que o assessor estava lhe dizendo aquilo como se soubesse de alguma coisa?
— O que quer dizer com isso? — O candidato resolveu se fazer de bobo.
— Quero dizer que sair para buscar sua irmã de madrugada e carregar as amigas bêbadas dela é exatamente o tipo de coisa que Italia vai usar como argumento contra você.
não soube dizer o que mais ele odiou nas palavras de Todd. Se foi o tom acusatório, se foi aquela ideia ridícula de proibi-lo de ir buscar a própria irmã no momento em que ela precisava dele, ou se foi o assessor ter chamado de bêbada.
— Achei que essa história não tivesse ido à público. — precisou de muita força de vontade para não xingá-lo.
— Graças a mim, não foi. Mas isso não pode acontecer de novo. Já pensou no quanto isso prejudica a sua imagem?
A maior parte de seu ser desejava simplesmente mandar Phillips ir se foder, porém ele acabou respirando fundo e assentiu.
— Se for distorcido, realmente prejudica — concordou, à contragosto.
— E é exatamente o que ela faz. Distorce e passa a imagem de que você é apenas o rosto bonito, que não entende nada sobre nada e não vai conseguir cumprir metade do que promete.
não costumava ficar tão irritado com as coisas, porém não conseguiu se conter. E o pior de tudo era saber que Todd estava certo. O breve contato entre os dois na ópera já havia revelado várias coisas.
— Me preocupa saber que alguém que joga sujo desse jeito tem chances reais de conseguir se eleger.
— É por isso que estamos aqui. Não vamos deixar isso acontecer. — O tom de Phillips era confiante, porém suas expressões estavam neutras. — Agora, me diga, tem mais algo que eu preciso saber?
precisou se conter para não estreitar os olhos em completa desconfiança, não pela indagação, mas pelo tom insinuado da voz dele.
O candidato ponderou por alguns segundos se deveria falar que esbarrou em Italia Whitman justamente quando saiu com “a amiga bêbada de Carter” — e ele odiou mais uma vez aquela maneira de se referir a —, ou se o melhor era não tocar no assunto.
Whitman, pelo que viu até então, usaria, sim, aquilo contra ele, porém não era exatamente o que o incomodava. queria uma campanha limpa e estava cansado daquela obsessão em manter máscaras só para evitar comentários negativos.
Além de seus próprios princípios, o candidato temia o que uma exposição poderia fazer na vida de .
Odiava a ideia de algo fazê-la mal e ele ser o responsável por aquilo.
— Não. Não tem nada. — percebeu que já estava calado por tempo demais, então respondeu rapidamente.
— Tem certeza? — E ali estava a insinuação de novo.
— Até parece que você tá sabendo de alguma coisa, Todd. — Sem conseguir resistir, soltou.
— Eu só estou me certificando de que tudo está certo e não teremos surpresas nesse debate. A última pesquisa apontou um aumento de 5% nas intenções de voto para ela. Entregar sua mensagem e suas propostas nesse debate é crucial.
suspirou e concordou com a cabeça, porque não tinha mais nada a dizer, então se manteve atento a cada ideia de respostas que Todd lhe dava.
Mais uma vez, questionou se estava mesmo no lugar certo, se era aquilo mesmo que queria para os próximos anos de sua vida.
Toda vez que aquilo acontecia, a imagem de Amy vinha aos seus pensamentos, numa espécie de incentivo. A mesma imagem foi tomando uma forma diferente e, numa lembrança bem nítida, se recordou de tudo o que havia dito, mais especificamente em um áudio enviado pelo WhatsApp.
— Se tem alguém capaz de dar tudo de si nesse debate é você, . Não importa o quanto ela tente jogar sujo, sabe? Continue focando nas pessoas que você ama e tudo vai dar certo.
tinha razão. Ele não deixaria nenhuma insegurança vencê-lo. Não aceitaria menos do que o sucesso naquele debate.
O candidato perdeu as contas de quantas entrevistas precisou dar naquela semana. Parecia que quanto mais compromissos cumpria, mais surgiam em sua agenda, o que significava mais tempo com Todd Phillips e suas estratégias de campanha e menos tempo para ficar em casa.
Ele não reclamava, sabia que era necessário, mas, ainda assim, aquilo o incomodava. Não via a hora daquilo tudo acabar para que finalmente conseguisse descansar sem ser acordado na manhã seguinte por ligações de seu assessor.
Continuava mal vendo e trocando mensagens com ela, e sabia que não era o suficiente.
Ao menos teria o show do Arctic Monkeys, onde poderia vê-la e fugir daquilo tudo, e tinha se certificado de que Todd não marcaria nenhum compromisso para ele naquele dia em especial.
estava tão envolvido com os eventos de sua campanha que ao menos viu que teria mais um compromisso na Universidade de Baltimore. Se tratava de um ciclo de palestras sobre carreiras, onde ele aproveitaria para falar um pouco sobre sua candidatura ao senado.
A sensação de nostalgia mais uma vez tomou conta de si ao adentrar o local, porém outro sentimento ganhou espaço: a ansiedade.
E foi com ela que permaneceu até conseguir finalmente avistar de longe.
Mais uma vez, não seria o suficiente, um certo incômodo na boca de seu estômago deixava aquilo bem claro, assim como o desapontamento ao descobrir, momentos depois, que a mulher não estava entre os alunos que assistiam sua palestra.
Esperou que os dois se esbarrassem nos corredores outra vez, porém aquilo também não aconteceu. Na verdade, o destino trouxe outra pessoa ao seu encontro.
— Ótima palestra, meu amigo! — A voz de Vincent Berkshire chamou a atenção de , que imediatamente olhou em sua direção. Não conteve o sorriso que se formou, era bom encontrar alguém que certamente não iria ficar o tempo todo falando em sua campanha.
— Obrigado, Berkshire. É bom te ver de novo. — Ao mesmo tempo, estava surpreso pelo fato de simplesmente não ter visto o amigo na plateia durante a palestra.
Provavelmente porque estava distraído demais procurando um outro rosto em meio à multidão.
— Digo o mesmo, cara. Como vão as coisas?
— Malucas. — foi sincero, e ambos riram.
— Imagino que sim. Quem diria que um dia você estaria em todo o lugar. — Vincent estava genuinamente feliz por .
— Confesso que se me falassem disso lá naqueles tempos, eu teria dado risada. — E era verdade. O pai de também havia seguido a carreira política, claro, mas ele não se imaginava naquela posição, algo que apenas mudou quando entrou para a universidade.
— Nós íamos formar uma banda, não é? Só faltava sabermos tocar alguma coisa. — E, mais uma vez, eles riram. — Tá ocupado demais para tomar uma cerveja lá no Ruffus? — Vincent emendou e se referia a um bar que ficava a poucas quadras do prédio onde estavam.
— Na verdade, não. — lançou um olhar rápido na direção de Todd, que o aguardava um pouco mais à frente com uma expressão de impaciência. — Phillips, pode ir. Não temos mais nada por hoje, certo? — Se tivesse, o assessor teria que remarcar.
percebeu o homem hesitar, porque provavelmente já estava escalando algum jantar de última hora para o candidato comparecer, porém apenas negou com a cabeça, contrariado.
— Certo. Então podemos ir. — O candidato voltou a prestar atenção no amigo, e logo os dois seguiram até o bar.
Era realmente bom conversar sobre outras coisas com um amigo e, apesar de as lembranças lhe trazerem uma certa tristeza, ao mesmo tempo aqueciam seu coração, principalmente porque naquela época, embora não fosse cercado de pessoas, as que estavam ao seu lado eram verdadeiras.
não se lembrava da última vez que tomou uma cerveja em um bar. Normalmente, preferia um uísque ou algum vinho em casa e nos vários jantares que frequentava, e saber que Vincent ainda costumava beber a mesma marca fez um pequeno sorriso brotar em seu rosto enquanto ouvia o que o amigo dizia.
Berkshire atualizava sobre os últimos acontecimentos de sua vida. Como havia embarcado no mestrado logo depois de se formar e que o mesmo aconteceu no doutorado. Quando Vincent estava prestes a concluir aquela formação, recebeu uma proposta da Universidade de Baltimore para se tornar professor assistente. Atualmente, ele era responsável por três disciplinas e, embora nunca tenha se vangloriado por aquilo, um dos professores mais queridos pelos alunos — a última informação o candidato soube através do coordenador da Escola de Direito da universidade.
estava realmente feliz pelo amigo e um tanto culpado por terem se distanciado tanto ao longo dos anos. Sabia que viviam realidades completamente diferentes, porém Vincent sempre foi seu melhor amigo, e passar aquele tempo com ele só reforçou como sentia falta daquela amizade.
— Fala sério. Você tá mesmo me dizendo que o cara que me fazia inventar desculpas só pra dispensar a mulher da noite anterior realmente tá… Como é que você dizia? “Voando sozinho por aí”? — soltou uma risada e bebeu mais alguns goles de sua cerveja logo em seguida. A sensação do líquido gelado passando por sua garganta era tão boa que ele precisou conter a vontade de fechar os olhos.
— O que eu posso fazer? Não conheci a pessoa certa. — Berkshire deu de ombros. — Mas isso não quer dizer que eu não me divirta mais, cara, só não tenho o mesmo pique dos vinte anos.
O comentário fez os dois rirem, e negou com a cabeça.
Tentou fingir para si mesmo que não sabia o motivo de pensar em ao ouvir aquilo, mas não havia mesmo como mentir.
— E você, ?
O candidato levou a garrafa à boca mais uma vez e olhou para o amigo.
— O que tem eu? — indagou, apenas para ganhar algum tempo.
— Você sabe do que estou falando, . — Berkshire ainda o conhecia bem até demais.
O homem desviou seu olhar, focou na garrafa posta sobre o balcão do bar e soltou um riso sem graça.
— Acho que estou ferrado, Berkshire. — Nunca havia conseguido refrear sua sinceridade quando estava com o amigo. Era fácil justamente por ele conhecê-lo tão bem.
Vincent se aproximou um pouco de e o analisou antes de também beber um pouco de cerveja.
— Estou ouvindo — disse apenas. Já sabia que, depois da deixa, se sentiria mais inclinado a desabafar.
No entanto, o candidato permaneceu em silêncio por alguns minutos, preso pelo dilema da diferença de idade entre ele e e questionando o quanto o amigo o julgaria por aquilo. Por Deus, era aluna de Vince!
— . — Berkshire tornou a chamar sua atenção, e o homem focou suas írises nele. — Seja lá o que for, ainda sou seu amigo e jamais te julgaria.
O tom calmo fez o candidato soltar um suspiro baixo e finalizar a cerveja como se estivesse tomando mais uma dose de coragem.
— Depois que a Amy… — Suspirou mais uma vez e desviou o olhar novamente. — Depois que a Amy se foi, eu me fechei pra tudo. Só saía de casa por conta de meus compromissos, interagia pouco com meus funcionários e até mesmo com minha irmã, e mergulhei de cabeça na minha campanha. Era o que Amy queria, e o trabalho se tornou uma válvula de escape. Acredito que, ao mesmo tempo, o luto acabou me fazendo erguer uma barreira, e eu prometi a mim mesmo que não me envolveria com mais ninguém. Que Amélia sempre seria a única para mim.
Os lábios do homem tremeram conforme a emoção tomava conta de si. A ausência de sua esposa ainda doía, sempre doeria.
Vincent escutou tudo com atenção, respeitou o momento de silêncio e sinalizou ao barman que trouxesse mais duas cervejas.
— Até que um dia eu cheguei em casa e encontrei admirando o piano de uma das salas.
Berkshire conhecia alguém com aquele nome, porém deixou para refletir sobre aquilo depois. Precisava se atentar às palavras de .
— Não sei explicar como, mas, desde o momento em que meus olhos bateram nela, eu soube que com aquela mulher as barreiras não funcionariam. — Negando com a cabeça, o candidato soltou mais uma risada baixa. — Eu tentei mantê-las ali. Tentei me manter são, principalmente porque ela tinha um namorado, porém nós nos aproximamos, recentemente eles terminaram e, por Deus, toda vez que estou com ela, só consigo pensar no quanto eu a quero.
— Ela te dá algum sinal de que quer o mesmo?
— De certa forma, ela chegou a me dizer isso, porém foi em uma noite em que ela estava bêbada e eu fui buscá-la em uma festa.
Vincent franziu levemente o cenho, curioso em saber mais sobre aquilo também, porém seu foco era outro no momento.
— Meu amigo, se vocês dois querem, o que está te impedindo? Você não precisa passar o resto da vida sozinho. — A expressão amigável de Berkshire encorajou a responder, mesmo que esperasse a pior das reações.
— Porque é a filha do Charles, Vincent.
Ele demorou alguns segundos para ligar as coisas.
— Espera… ? — Sua expressão de surpresa foi interpretada erroneamente por .
— Sim. Acredito que ela seja sua aluna também.
Vincent piscou os olhos lentamente enquanto observava o amigo, intrigado com o tom derrotado em sua voz.
Sim, como desconfiou de início, falava de . Era uma aluna muito esforçada e, embora não pudesse dizer que estava entre as melhores da turma, tinha boas notas.
— Sim, ela é minha aluna. Mas por que esse tom de quem realmente está ferrado?
ergueu uma sobrancelha, surpreso.
— E não estou?
— , eu realmente não vejo problema algum. É porque ela é filha do Charles? — Vincent estava realmente confuso e ficou ainda mais quando o amigo soltou mais uma risada fraca.
— Isso, e o fato de ela ser quase onze anos mais nova do que eu, além de uma das melhores amigas da Carter.
Mais uma vez, Berkshire precisou de alguns segundos para processar as palavras de , e seu silêncio foi interpretado erroneamente pelo candidato.
— Eu sei. Com certeza estou ficando maluco, mas ela… Não sei explicar, Vince. Eu preciso dar um jeito de tirar essa mulher da minha cabeça.
desviou seu olhar para qualquer ponto que não fosse seu melhor amigo e pegou a garrafa de cerveja esquecida ao contar todo o seu dilema. Bebeu longos goles, ignorando o fato de a bebida estar quente, quase esvaziou todo o conteúdo e, enquanto largava o objeto de volta ao balcão, ouviu a risada de Vincent ecoar.
Sem acreditar naquilo, tornou a encarar Berkshire e franziu o cenho, num gesto mudo que pedia uma explicação.
— Você não mudou nada mesmo, . — Vince negou com a cabeça e bebeu da própria cerveja logo em seguida.
— Como assim, Berkshire? — O candidato sentiu uma pontada de irritação. Ele estava totalmente ferrado, e o amigo simplesmente ria da sua cara.
— Você pensa demais, . Sempre foi assim e, pelo jeito, sempre vai ser.
Droga, obviamente não era a primeira vez que Vincent lhe dizia aquilo, porém outra pessoa havia falado a mesma coisa dias atrás, o que fez uma careta se formar no rosto de .
— Eu não…
— Não me vem com essa de dizer que não pensa, porque você sabe que é assim! — Berkshire o interrompeu, antes mesmo que o candidato continuasse sua frase.
soltou uma risada rouca.
— Não era isso que eu ia dizer. — Encarou o amigo, que apenas lhe fez sinal para que prosseguisse. — Eu não sei o que fazer, Vince. Estou ficando realmente louco.
Berkshire suspirou baixo, então levou uma mão até o ombro de .
— Vou te dar duas opções: a primeira é deixá-la ir e cortar tudo que te impeça de esquecê-la. — sentiu um aperto em seu peito ao ouvir aquilo e mal pôde disfarçar uma careta. — E a segunda é fazer o que você quer. Qual é o problema de ela ser mais nova? Vocês dois são adultos, cara. Não é como se você estivesse cometendo algum crime.
se sentiu idiota. Era a segunda pessoa que lhe falava aquilo, e, por algum motivo, ele ainda estava cismando com a mesma coisa.
Talvez sua maior preocupação fosse se dar conta de como ele era mais velho e aquilo afastá-la de alguma forma.
— Para de pensar demais, caralho! — O candidato se assustou ao ouvir o amigo quase gritar, o despertando. — Tá muito óbvio a opção que mais te agrada, . Você está de quatro por essa mulher. Aproveite antes que você acabe a perdendo.
— Perdendo?
— Ninguém consegue esperar pra sempre. E se você já ouviu isso de alguém, com certeza essa pessoa estava mentindo.
não havia pensado naquilo. Imaginou, sim, se afastar por conta da diferença de idade, mas não lhe ocorreu que também poderia desistir de esperar por alguma atitude dele. Ou, quem sabe, poderia conhecer outra pessoa, enquanto ele estava ali, sempre pensando demais.
— Porra, por que você sempre está certo? — resmungou, e Vincent riu.
— Não sei, mas é bom saber que ainda consigo te fazer parar de surtar com as coisas.
— É, consegue mesmo. Obrigado por isso.
— Agora me fala mais sobre essa história toda. Era por isso que você tava todo inquieto durante a palestra? Tava procurando por ela?
— Se eu disser que não, você vai acreditar? — ergueu uma sobrancelha.
— Não.
— Eu fiquei frustrado quando vi que ela não estava na plateia, confesso. — Aquilo arrancou um sorrisinho de Berkshire.
— Imagino que não estejam se vendo tanto por causa da campanha, não é?
— Quando eu estou em casa, ela não está, e vice-versa. Nós trocamos mensagens, mas não é a mesma coisa… — A expressão um tanto torturada de deixava ainda mais claro o que era óbvio.
— Não imaginava que te veria assim de novo. Por isso que tô insistindo, para de ficar…
— Surtando, eu sei. Vou tentar.
— Talvez te alegre saber que ela costuma vir aqui com os amigos. — A expressão de rapidamente se iluminou ao ouvir aquilo, e Vincent quase riu da reação do amigo, era como ver a versão adolescente do candidato mais uma vez.
— Ela vem?
— Eu já os vi algumas vezes e a sua irmã também, inclusive.
— Carter? — O homem ergueu uma sobrancelha, em dúvida. A irmã não havia demonstrado nenhum interesse em fazer faculdade, ao menos ele não se lembrava disso.
— Ela está sempre com , as Vandervoot e Kyle Beltane.
se lembrava de cada um deles, até porque já haviam ido até sua casa algumas vezes.
Berkshire tornou a questionar sobre a história toda entre e , e, enquanto bebiam mais algumas garrafas de cerveja, o candidato foi contando tudo. As cenas passavam em sua cabeça como num filme, e aquilo só o fez perceber o quanto realmente estava sendo idiota por pensar demais.
Tinha esperanças de encontrar ali naquele bar, quem sabe poderia aproveitar o impulso de coragem que sentia naquele momento, porém nem ela e nem seus amigos apareceram, mas não importava.
Ele tomaria, sim, uma atitude.
O debate com Italia Whitman enfim havia chegado. não via a hora de acontecer, assim poderia finalmente descansar um pouco sua mente.
Embora apenas fizesse seu trabalho, Todd Phillips o enlouquecia, e se sentiu na obrigação de ter uma conversa com o assessor assim que aquilo passasse. Talvez Todd estivesse sobrecarregado demais, e a ideia de alguém ajudá-lo realmente não poderia ser descartada. Aquela seria a oportunidade perfeita para ter mais perto dele, caso a mulher aceitasse.
Ele não havia conseguido parar de pensar em nos dias que se seguiram e realmente estava determinado a fazer alguma coisa em relação ao que sentia. No entanto, de repente a mulher parecia um tanto distante, respondia as mensagens com uma frequência menor, e sempre que adentrava algum cômodo em que estava, dava logo um jeito de sair dele.
Será que ele a havia magoado de alguma forma? Ou quem sabe era tarde demais, como Vincent alertou que poderia acontecer?
De qualquer forma, não podia pensar naquilo, não naquele momento. O debate começaria dali a alguns minutos, e sua concentração não podia estar abalada.
— Lembre-se do que praticamos, . Ela vai soltar alfinetadas, principalmente com o lance do rosto bonito e as coisas que já noticiaram sobre a sua irmã. Mas se mantenha firme, você consegue. — Todd não estava tão insuportável quanto costumava ser, e apenas foi assentindo para cada palavra.
Sentiu que alguém os encarava e notou que era Whitman.
A mulher ergueu uma mão, acenou para e passeou com o olhar ao redor do candidato, como se procurasse por algo.
Não demorou muito para que Italia se aproximasse e lançasse aquele típico sorrisinho.
— E aqui está meu rival. Como vai, ? — O excesso de cordialidade estava explícito em sua voz, porém assentiu educado e retribuiu o sorriso.
— Muito bem, Whitman. Espero que também esteja. — Então estendeu uma mão e apertou a dela assim que a mulher a segurou.
— Ah, eu estou ótima. Confesso pra você que os debates me deixam animada. Sempre gostei, desde menina. — Algo nos olhos dela deixou intrigado.
— Eu corria deles na escola porque odiava falar em público, mas aqui estamos nós. E é um prazer dividir esse momento com alguém como você. — Não era mentira, ele realmente pensava aquilo. Havia pesquisado a respeito de sua trajetória e era de fato admirável. Whitman lutava com unhas e dentes pelo que acreditava. Seu grande problema era tentar puxar o tapete das outras pessoas fazendo jogo sujo.
— Com certeza é um prazer. — Ela sorriu ainda mais. — E, falando nisso, onde está a sua belíssima assessora? — Mais uma vez, olhou em volta, como se esperasse brotar do chão.
No mesmo instante, se sentiu congelar, e o olhar de Todd se voltou para o candidato.
Droga, devia imaginar que a mulher usaria aquilo contra ele.
— Eu já estou enlouquecendo o suficiente tendo um aqui, Whitman. Imagine dois! — Tentando soar o mais descontraído possível, soltou uma risada, e Italia retribuiu de uma forma tão falsa que o melhor era não o ter feito.
— Daí optou pelo que menos conseguiria te distrair. Muito inteligente. — Piscou para o candidato e ali, mais uma vez, estava a expressão de quem adoraria usar aquilo para destruí-lo. — Mas vou parar de atrapalhar sua preparação. Nos vemos ali no palco, querido.
— Nos vemos no palco, Italia. — Usando novamente o tom cordial, voltou seu olhar para Todd, que com certeza tinha milhares de perguntas prestes a serem feitas.
— Apenas me diga o que ela pode usar contra você a respeito disso. — Phillips foi direto, eles não tinham muito tempo.
— Whitman me viu acompanhado na Ópera. Para evitar especulações, eu disse a ela que era minha assessora. — resolveu também ser direto para evitar muitas explicações.
— ? — Todd tinha a impressão de ter ouvido aquele nome, porém não se lembrava onde. apenas assentiu, e Phillips logo pensou que a melhor estratégia era manter aquela história da assessora.
Precisava saber mais sobre a tal e deixaria para investigar mais tarde.
agradeceu mentalmente por não precisar ficar se justificando, e quando o debate começou, embora ele estivesse confiante, a ideia da mulher falar de ou de sua própria irmã para atingi-lo o deixou um tanto nervoso.
Ao respirar fundo, procurou se concentrar, e foi naquele momento que se lembrou mais uma vez das palavras de .
Se tem alguém capaz de dar tudo de si nesse debate é você, . Não importa o quanto ela tente jogar sujo, sabe? Continue focando nas pessoas que você ama, e tudo vai dar certo.
Quando a primeira pergunta foi direcionada a ele, respondeu da mesma forma tranquila de sempre, sem se importar com os comentários irônicos de Whitman em sua réplica.
A mulher era de fato implacável, cada uma de suas respostas era extremamente eloquente, e provavelmente ele mesmo votaria nela se não jogasse sujo e fosse sua maior rival.
Italia ao menos não citou e tampouco insinuou algo a respeito do encontro deles na Ópera de Baltimore, porém não foi tão agradável quanto a Carter e até mesmo à morte de Amy.
Infelizmente, para ela, não se deixou abalar e rebateu tudo à altura, o que tornou ainda mais acirrada a disputa entre os dois.
No fim das contas, saiu satisfeito daquele palco e percebeu no olhar de seu assessor que, de fato, havia feito um excelente trabalho.
Pensar em quem amava realmente funcionava.
talvez não fazia ideia, no entanto, de que, durante todo aquele debate, pensava nela.
pensava nela.
Era loucura demais dizer que a amava?