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Revisada por: Hydra

Última Atualização: 15.01.2026 ♡
“Esses prazeres violentos têm fins violentos,
E morrem em seu triunfo, como o fogo e a pólvora,
Que, ao se beijarem, se consomem.”
Romeu e Julieta, Ato II, Cena VI
William Shakespeare




Não finja que você alguma vez
Já se esqueceu de mim
Nós não jogamos limpo

“The Take Over, The Breaks Over”
Fall Out Boy



Uma tragédia perfeita e cheia de contradições nem sempre começava quando o caminho de duas pessoas se cruzavam. Nessa, os dois já se conheciam desde pequenos, brincavam juntos, se divertiam, brigavam, faziam as pazes… O tipo de coisa que toda criança fazia. Ela o apoiava quando o irmão dele e os irmãos dela se juntavam para fazer troça dele. E assim, eles foram se descobrindo e acabaram por descobrir um ao outro de um jeito que poucas pessoas seriam capazes. Os dois se uniram, tornando-se melhores amigos, mesmo quando sua grande e confusa família e todos ao redor lhes diziam para fazer o contrário.
Velaryon pertencia aos Pretos, o séquito da princesa, afinal era a filha mais velha de Rhaenyra Targaryen com Sor Laenor Velaryon — ou, ao menos, essa era a história oficial, já que as más línguas discursavam que, apesar dos cabelos louro-prateados típicos dos valirianos, ela era uma bastarda, filha de Sor Harwin Strong. Enquanto Aemond Targaryen… Bem, o príncipe sempre fora o mais afetado pelas tramas da mãe na hora de destilar ódio contra os Pretos. Deste modo, acabara por se tornar o mais obstinado defensor dos Verdes — suas vestes escuras não enganavam a ninguém. Ainda assim, sempre tivera um fraco por sua bela princesinha . Sua melhor amiga. Só sua.
Em Derivamarca, seis anos atrás, a hora do lobo chegara como a troca de estações, mudando todo o cenário. E um frio e aterrador inverno fora lançado sobre a relação dos dois como um terrível feitiço. Lucerys Velaryon, um dos irmãos da princesa, seu favorito, arrancara um dos olhos de Aemond para defender os seus em uma briga que jamais deveria ter acontecido. O coração do príncipe caolho se endurecera como a fortaleza de Rochedo Casterly desde então. Sua princesinha estava com o irmão dele quando a confusão começara. Ela chegara no salão quando todos discutiam sobre o acontecido, com Aegon ao seu encalço, tentando manter-se de pé. O olhar embriagado da princesa se arregalara ao ver o estado de Aemond, contudo dera apenas um passo em sua direção e congelara tanto quanto a Muralha no longínquo Norte. E, assim, a barreira estava posta, o ódio e ressentimento dançando entre os dois.
Agora, seis anos mais tarde, príncipe e princesa dividiam o mesmo cômodo outra vez, juntos de muitos outros príncipes e princesas. A tensão aumentava a cada segundo em uma guerra real que jamais era admitida em voz alta por seus combatentes.
Aemond Targaryen mantinha suas mãos atrás das costas, empertigado, nunca querendo mostrar fraqueza na frente de ninguém desde aquela noite em Derivamarca. Ele perdera um olho e a amiga por quem nutria um sentimento insólito e conflituoso, porém domara a poderosa Vhagar, o maior dragão existente. Seus olhos vagaram por aquele mundaréu de rostos familiares, demorando-se em Rhaenyra e seus filhos. Aquela audiência era coisa de Vaemond Velaryon e dizia respeito à ideia de ele substituir Lucerys como herdeiro de Corlys e de toda Derivamarca. Ele cerrou o punho escondido atrás de suas costas. Seu ódio mortal por Lucerys apenas crescia. O garoto um dia pagará pelo olho que me roubara, Aemond pensou. Ass palavras eram uma promessa para si mesmo. Então seus olhos vagaram um pouco mais além, para trás dos garotos Velaryon, de Daemon e de Rhaenyra. Sua atenção foi capturada pela mais importante figura de seu passado.
Velaryon fora uma menina encantadora que crescera para se transformar em uma bela mulher. Para a infelicidade de Alicent Hightower, nascera com traços valirianos, então a odiosa rainha tivera que esperar o nascimento de Jacaerys para começar a espalhar por aí que Sor Laenor não tinha parte na paternidade dos filhos de Rhaenyra. Mas já era grandinha o suficiente para entender quem de fato fora o seu pai, aquele a quem o Estranho levara em um infeliz incêndio em Harrenhal. Às vezes sentia falta tanto dele quanto de Laenor, seus dois pais. No entanto, agora tinha outro: seu padrasto Daemon, que a ensinara a se defender.
As intrigas políticas continuavam a performar enquanto Aemond sentia-se enfeitiçado pelo sútil rubor das bochechas da princesa e ela fingia não ter percebido aquele olhar. A garota insistia para si mesma que não poderia se deixar ser levada pela força de uma antiga conexão. Ainda assim, as memórias compartilhadas pelos dois retumbavam em seus corações, conflitantes em meio à tempestade de orgulho e exasperação. Ela, enfim, devolveu-lhe o olhar e seu coração quase perdeu o ritmo, como em uma canção performada por um bardo bêbado. Uma parte dos dois os dizia para atravessarem a Sala do Trono e falarem um com o outro, não dando importância a como aquilo era errado.
Após manter um longo e angustiante contato visual, escapuliu do recinto sem tomar a atenção de ninguém; exceto de Aemond, que permanecia capturado por seus movimentos. Ela respirou fundo e seguiu em passos disformes pelos corredores da Fortaleza Vermelha. não se chocou ao ver que seus pés a levaram para o coração do Bosque Sagrado. Não eram os seus deuses, claro que não. Mas seus pensamentos estiveram tão emaranhados com o príncipe Aemond que só podia ter acabado em um lugar de consolo e segredos como este. Sem contar que eles haviam passado grande parte de sua infância ali… juntos. A culpa que o Deus de Sete Faces impõe sobre mim não tem espaço aqui, refletiu ela, observando a estranha árvore-coração.
Aemond tinha um pensamento parecido, mas não era nada relacionado aos deuses, apenas à culpa. No Bosque Sagrado não havia lugar para o culparem por ser juntar por um breve momento à inimiga por quem nutria sentimentos conflituosos. Por isso fora até lá. Ele não havia seguido . Nem precisaria. Era óbvio que a princesa recorreria àquele lugar, ainda mais se quisesse, de fato, falar com ele.
O barulho leve nas folhas caídas fez ela se virar.
— Você veio — ela suspirou baixinho.
— Talvez eu não tenha conseguido resistir à tentação. — Os lábios de Aemond se contraíram em um sorriso quase irônico conforme se aproximava dela. — Parece que ainda temos uma atração magnética. — O violeta de seu olho brilhou, refletindo uma mistura de emoções conflitantes. — Mesmo depois de todos esse tempo.
— Nem me fale! — soltou ela, sem pensar. — Todos esses anos eu tenho rezado para os Sete, implorando para que me fizessem te odiar com mais força.
— Não acho que os deuses apreciem tanto louvor por ódio — comentou ele, divertindo-se um pouco com aquilo.
— Acho que o meu desespero lhes apetece, isso sim! Eu juro que desejava te odiar com cada pedacinho da minha alma, mas eu só não conseguia. Não mais do que o nível normal. Eu só… Até as violetas na janela dos meus aposentos me lembravam você e seus olhos leais… olho, sinto muito — corrigiu rapidamente. Nos tempos em que passara com ele no passado, Luke ainda não havia arrancado um de seus olhos. encolheu os ombros e fez um biquinho. — Se eu dissesse que te odeio tanto quanto gostaria nesse exato momento, seria a maior mentira já contada na história de Westeros. Quando eu te vi lá, olhando para mim no meio de todas aquelas pessoas, todo o ódio se quebrou como ondas distantes.
Apesar do comentário sobre o olho tê-lo feito relembrar de coisas que não gostaria, a expressão do príncipe suavizou-se com as palavras da princesa sobre as flores e todo o resto. Ele entendia essa luta interna muito bem. Lutara contra seus próprios sentimentos, enterrando-os sob camadas de raiva e orgulho. No entanto, parado ali, diante da sensibilidade da garota com quem ele costumava se importar, suas defesas começaram a ruir.
— Eu poderia dizer o mesmo. Eu queria te detestar, deixá-la de lado como se fosse uma parte insignificante do meu passado… mas você não é. — Um lampejo de vulnerabilidade cruzou suas feições. — Vê-la novamente, princesa, me lembrou de tudo o que compartilhamos, tudo aquilo que eu pensava ter perdido.
— De algum jeito, isso só torna a situação ainda mais difícil, certo? Eu… — Ela segurou a mão de Aemond, e ele apertou-a de volta em um movimento instintivo. — Queria que as coisas fossem mais fáceis.
— Então somos dois — sussurrou em uma honestidade crua, fixando um olhar incerto nela. — Mas nada sobre nós jamais foi fácil, não é?
— Não, até mesmo a nossa amizade era meio que proibida, mas existia mesmo assim. Até… — hesitou, mas ambos sabiam que ela se referia àquela noite em Derivamarca. — Eu te odeio por odiar o Lucerys, não se esqueça disso. — O aperto de Aemond em sua mão aumentou muito, só relaxando quando ela completou: — Mas eu queria, do fundo do meu coração, que pudéssemos, de algum jeito, ficar… juntos.
Aquela era uma confissão que até a própria garota Velaryon se surpreendera por revelar. Sempre fora claro como um dia de verão após um longo inverno sombrio que inimigos não deveriam se acumpliciar.
— Como pode falar sobre estarmos juntos quando sabe que eu ainda me apego ao meu ódio aos seus parentes? — questionou-a, sua voz tensa como a corda de uma harpa. — Há emoções conflitantes em sua voz e sua fala, e eu sinto os mesmos desejos conflituosos. Mas os meus são como um fogo furioso aqui dentro. — Apontou para o próprio peito. — Sempre queimando, consumindo.
— E o fogo aquece, mas também acaba com tudo ao redor. Se quer mesmo saber, Aemond, eu não entendo nada, nada mesmo, sobre esses sentimentos conflitantes que queimam dentro de mim. Às vezes eu quero matar você — confidenciou, agarrando o pescoço do príncipe com sua mão delicada. — E ao mesmo tempo, eu quero te beijar. — Sua mão subiu até os lábios dele. — Te tocar… Te sentir.
O calor do toque da princesa enviou um arrepio pela espinha dele.
— É enlouquecedor — murmurou ele, seus olhos fixos nos pequenos lábios dela. — Esse vai e volta, essa guerra dentro de mim… É tudo como uma tempestade na qual eu não consigo encontrar paz.
— Eu posso ser sua paz em meio à tempestade, meu príncipe. — Ela umedeceu os lábios. — Pelo menos por um breve momento.
A respiração do príncipe prendeu-se em seu peito. A oferta da garota era como uma última tábua de salvação na tormenta caótica de suas emoções.
— Se ao menos fosse assim tão simples. — Aemond estendeu a mão e traçou os dedos ao longo do contorno do rosto dela em um gesto carregado de uma gentileza que ele evitava mostrar. — Um breve momento de paz, escondidos do mundo no Bosque Sagrado. Mas o que acontece quando o amanhecer surge e nós devemos retornar para os nossos respectivos lados?
— Sei que está certo, mas ao mesmo tempo eu só quero calar a sua maldita boca. Sete infernos, Aemond, você me deixa louca de um jeito que nem sou capaz de colocar em palavras. — Ela tirou a mão dele de seu rosto e a levou até seu peito, permitindo que ele sentisse seu coração batendo com uma fúria incansável. — Podemos pensar sobre amanhã quando o amanhecer chegar.
Aemond percebeu que o coração da princesa, com sua batida errática, se assemelhava ao seu.
— Você me enlouquece também. E o jeito como sempre exerceu tanto poder sobre mim me enfurece tanto quanto me excita — confessou em um rosnado baixo, o calor da pele dela despertando uma inegável pulsação de desejo. — Talvez esteja certa, princesa, nos preocuparemos com o amanhã quando este chegar. — Inclinou-se mais para perto, seus lábios pairando sobre os dela. — Você é como um veneno em minhas veias, e tudo o que eu posso fazer é me deixar ser consumido.
não aguentou mais e, assim, eles se beijaram, mostrando ao silêncio do Bosque Sagrado e da árvore-coração que as pessoas, de fato, não mudavam — ao menos não muito. A surpresa em seu olho por ela ter tomado a iniciativa logo morreu quando o paixão explodiu e sua pálpebra se fechou. Eles aprofundaram o beijo, ansiando um pelo outro como nunca antes. Ela tocou os cabelos dele com todo o carinho do mundo enquanto mordia seu lábio, entre beijos. As mãos de Aemond serpentearam em volta da cintura da garota, puxando-a mais para perto, moldando seus corpos de modo que se encaixassem perfeitamente, como se os deuses os tivessem criado para aquele momento.
O que obviamente não poderia ser verdade. De outro modo, os Sete não teriam permitido que um arfar alto os interrompesse.
— Não, não, não, não, não! — A voz da rainha Alicent os atingiu como um trovão, fazendo com que se afastassem como se o outro fosse uma praga. — Deuses, Aemond, logo você? Pensei que fosse o último a me trazer esse tipo de problema. — A mãe dele se aproximou, desapontada.
— É bom saber que sou um problema para você, vossa graça. — se curvou, mas o veneno em seu tom continha tudo menos respeito.
O olhar da rainha passou pela princesa conforme seus lábios se curvavam em um sorriso escarnecedor.
— E olhe quem você escolheu para se deliciar em sua depravação — disse, com desgosto na voz. — Este não é um bom presságio para a estabilidade desta família.
— Então o transforme em um — retorquiu o príncipe, seu único olho brilhando com uma ideia que a princesa não entendeu de primeira, mas Alicent sim.
— Ah, deuses, isso é loucura, mas… — A rainha massageou as têmporas, considerando as palavras. Talvez fosse mesmo uma ideia aceitável e, assim, me pouparia um problema maior, pensou ela. — Seu pai quer um jantar com toda a família hoje à noite, enquanto a princesa Rhaenyra ainda está presente — relatou, então virou-se para : — E você, filha, prepare-se para o anúncio.
Ela não pode estar falando sobre casamento, certo?, a princesa refletiu, já sabendo a resposta, temendo-a. De algum modo, tinha certeza que parte de sua querida família não gostaria dessa ideia. Sua mãe, quem sabe, veria pontos positivos, mas seu padrasto… Nem todos os sete infernos seriam capazes de fazer Daemon gostar daquilo. De qualquer modo, se Rhaenyra permitisse, não havia quem mudasse sua opinião.
O olhar de Aemond mantinha-se sobre a princesa e a confusão mental estampada no rosto dela, um apelo silencioso para que entendesse a gravidade da situação, principalmente para ela, que era mulher.
— Não pode estar falando sério — gritou para a rainha, esquecendo-se de toda a sua educação de princesa.
— Vocês dois deveriam ter pensado nisso antes de mergulhar nessa depravação — falou a palavra como se fosse o maior pecado de Westeros e de todo o mundo conhecido. — Deveria me agradecer pela saída que estou lhe oferecendo, princesa, por salvar a sua honra. — cerrou o maxilar, mas não pronunciou uma palavra, sabendo que a rainha tinha certa razão. — Uma donzela não pode ser vista fazendo esse tipo de coisa antes do casamento.
E, com aquelas palavras, a rainha Alicent se afastou, deixando príncipe e princesa — agora prometidos — desfrutando apenas da companhia um do outro.




Não consigo resistir a você Sei que tenho meus problemas
Alguns eu não vou admitir
Ninguém tem as respostas
“Hate the Way”
G-Eazy feat. blackbear


procurava uma resolução no tapete de folhas escurecidas esparramadas sobre a terra do Bosque Sagrado. Aemond, por outro lado, buscava respostas na princesa A descrença da garota espelhava o alvoroço que serpeava na mente dele.
— Deuses! — exclamou ela de repente, cortando o silêncio da noite como um punhal de aço valiriano. — O que deveríamos fazer agora?
Ela voltou-se a Aemond, que apenas balançou a cabeça devagar.
— Temos pouca escolha, não? — disse ele, sem jamais desviar o olhar. — Devemos fingir que concordamos com esta farsa… ao menos por enquanto.
parou para refletir. Percebera o olhar do príncipe e, por isso, concluiu que ele havia se chateado com sua reação. Ela havia começado a noite dizendo que queria estar com ele e, agora que a rainha a jogara direto para os seus braços, sua vida, sua cama, ela hesitava.
— Não desejo que me entenda mal, Aemond — começou a garota, em tom de desculpas. — Não é que eu não queira me casar com você ou algo assim. Isso tudo é sobre como essa coisa vai me afetar. Minha vida vai virar de cabeça para baixo e… e… — Ela olhou para o príncipe e sua voz se desvaneceu como a névoa em uma manhã ensolarada.
Estou falando demais, pensou ela enquanto Aemond observava de perto a guerra que a garota travava consigo mesma para articular seus sentimentos, a ansiedade temerosa agitando-se em seu olhar. Ele deu um passo na direção dela, forçando-se a afrouxar o punho que cerrara ao ouvir ela se referir ao noivado como “essa coisa”.
— Eu entendo, princesa. — Sua voz saiu suave como as melhores sedas ao passo que gentilmente estendia sua mão para envolver a dela. — Compreendo seus medos e dúvidas. Não é assim que nenhum de nós imaginava que as coisas seriam. No entanto, às vezes a vida nos joga em situações que não podemos controlar.
— É sábio de sua parte dizer isso. — Um sorriso cruzou o rosto triste da princesa. — Está tudo bem. Acho que também posso fingir.
Ao concordar com as palavras anteriores do príncipe, a princesa meditava sobre ser ou não capaz de manter uma “farsa”, como Aemond chamara. Seu interior turbulento se agitava ainda mais cada vez que se dava conta do seu desejo pelo príncipe e por seu toque, e em como esse desejo não a fazia esquecer de toda a turbulência entre ele e seu precioso irmãozinho.
— Temos um jantar para comparecer agora — ele lembrou e soltou a mão da garota.
Eles deixaram o Bosque Sagrado para trás com quereres e preocupações diferentes das que tinham ao entrarem naquele lugar de silêncio e reflexão. Caminharam lado a lado pelos corredores da Fortaleza Vermelha, seus passos síncronos ecoando a batida do coração do príncipe, pesado com o conhecimento da situação que se desenrolaria logo mais.
— Acha que a rainha vai contar à minha mãe e ao Daemon sobre o que viu? — O sussurro da princesa quebrou o silêncio entre eles. — Ou será que vai fingir que foi apenas uma ótima ideia que ela mesma teve para fingir que estamos tentando forjar uma impossível paz em nossa família?
Aemond ponderou por um longo momento.
— Alicent é astuta. Creio que ela vai distorcer tudo da forma que lhe agrade mais… E a nossa situação atual não deve ser uma exceção — respondeu, sua voz baixa. — É tudo parte do jogo, suponho.
— Então sua mãe fingirá que uma luz divina lhe clareou a visão com essa abençoada ideia, vinda diretamente dos deuses. E assim ela sempre me terá nas mãos por causa do nosso segredinho. — Apertou os lábios em uma tentativa falha de controlar sua raiva. — Assim como você, evidentemente, exceto que terá mais do que ela, não é? Você terá tudo de mim, sempre lá, disponível para você fazer o que quiser de sua princesinha particular.
A princesa suspirou. As palavras deixaram um gosto amargo em sua boca. Um amargor que o príncipe percebeu. Ele respirou fundo, uma mistura de culpa com uma pitadinha de um sentimento protetor o dominando ao perceber a resignação dela.
— Não será assim — protestou. Sua raiva o invadiu ao pensar naquele noivado como uma união sem nenhum amor e consumida por manipulação. — Jamais te forçarei a nada. — Ele parou e envolveu a mão dela em um aperto firme, porém terno. — E eu nunca vou te ver como uma mera posse. É mais para mim do que isso, princesa, sempre foi.
— Mas eu serei sua, e sei bem como gosta de suas posses — suspirou. — Não se esqueça que te conheço muito bem, Aemond.
… — A mandíbula do príncipe se contraiu.
Aemond não conseguira encontrar palavras para contrapor, afinal, sabia melhor do que ninguém o quão possessivo poderia ser. Ele facilmente a reivindicaria como dele e nunca a deixaria ir. No entanto, também nutria outros tipos de profundos sentimentos pela princesa e, por isso, se considerava capaz de ir longe para protegê-la, talvez até de si mesmo, se fosse necessário.
— Não deveríamos chegar juntos no jantar, certo? — Ela desvencilhou sua mão da dele com delicadeza. — Se os deuses ainda me reservaram alguma sorte, Alicent não declarará minha depravação para os Sete Reinos ouvirem.
— Está certa, não deveríamos chegar juntos. Isso só colocaria mais lenha na fogueira — admitiu, sua voz tensa. — Vá em frente, eu irei depois.
O príncipe cruzou as mãos atrás das costas e fixou seu olho na princesa Velaryon até que ela dobrasse em outro corredor. Ao fim daquele jantar, ela seria sua noiva. Fora de amiga de infância a inimiga mortal e, em pouco tempo, se tornaria sua esposa.
Quando chegou ao jantar, notou os presentes: os Verdes, os Pretos e o rei Viserys I, ainda em estado deplorável.
— Ah, , querida… Está tão crescida. — Viserys sorriu para ela, sua primeira neta, a primeira filha de Rhaenyra, a única dos primeiros filhos com os cabelos prateados dos Targaryen.
— Crescida e forte — disse o príncipe Aegon, sua zombaria quase disfarçada de elogio.
Nesse caso, o garoto era exatamente como Aemond. Gostava de provocar , Jacaerys, Lucerys e Joffrey, insinuando que eram bastardos — na maioria das vezes de maneira sutil. O cabelo prateado da princesa a protegia ao menos um pouquinho desses insultos; seus três irmãos Velaryon, por outro lado, tinham cabelos negros como a noite.
— Tão forte que eu poderia socar a sua cara agora mesmo como já fiz uma vez, querido tio. — Ela fez uma reverência visivelmente exagerada, fazendo seu irmão Lucerys rir.
— Sempre feroz, sobrinha. — Aegon fez uma garra com a mão. — Eu gosto disso.
— Então o problema é todo seu. — revirou os olhos.
— Deixa ele. — Jacaerys Velaryon a pegou pelo braço e eles passaram a andar lado a lado, afastando-se do príncipe e de seus flertes zombeteiros. — Deu tudo certo na audiência, nosso avô interviu em nosso favor. Luke continua sendo o herdeiro de Lorde Corlys.
— Essas são ótimas notícias, irmão! Sor Vaemond deve ter ficado tão, mas tão chateado. — Aquele pensamento trouxe um sorriso aos lábios da princesa.
— Ah, é mesmo. Esqueci que perdeu o espetáculo — constatou. — Ele enlouqueceu e questionou nossa legitimidade. Nosso avô disse que cortaria a língua dele, mas Daemon foi lá e cortou sua cabeça ao meio.
— Uh! — Ela levou a mão à frente da boca e soltou uma risadinha. — É por isso que eu amo o príncipe Daemon de todo o meu coração.
— Teria mesmo gostado de ver — garantiu Jace. — Mas agora me diga: por onde esteve todo esse tempo, irmã?
— No Bosque Sagrado — respondeu-lhe a verdade.
— Fazendo o quê? — perguntou de novo.
— Hm… — ela hesitou enquanto assistia seu futuro noivo adentrando a sala sem chamar muita atenção. — Estava rezando.
Jacaerys estreitou seus olhos escuros e seguiu o olhar da irmã até o príncipe Aemond.
— Sabe que rezar para os Sete no Bosque Sagrado não faz o mínimo sentido, não é? — Ele sacudiu a cabeça. — Terá de melhorar suas desculpas, irmã.
apenas pressionou os lábios em resposta. Jace a conhecia bem e, além do mais, conhecia a história entre os jovens príncipe Aemond e princesa .
— Estava apenas visitando os lugares que costumava gostar — explicou. — Foi só a nostalgia.
— Sabe que ele é nosso inimigo, — reforçou o que dissera a ela quando embarcaram em Pedra do Dragão para virem até King’s Landing. — Você sabe disso.
— É claro que sei, Jace. Ou acha que sou estúpida? — Ela desvencilhou seu braço do dele e segurou seus ombros. — Sou mais velha que você, irmão, não precisa ser a voz da razão.
Então abriu um sorriso caloroso para o irmão e foi se sentar — longe de Aemond e próxima àqueles que considerava sua verdadeira família. Jace logo se juntou a eles, mas era para Lucerys que ela olhava, o irmão por quem sempre tivera o maior apreço. O garotinho conseguia ser tão precioso mesmo sentado ali, sorrindo para Rhaena. A princesa não pôde evitar se questionar como Luke se sentiria ao descobrir que ela se casaria com Aemond. Logo, quando Alicent fizer o anúncio, terei de fingir que odeio a ideia de me tornar esposa de Aemond, pensou ela, suspirando baixinho.
— Jace te contou as maiores novidades do dia? — Lady Baela Targaryen esticou a mão por cima da mesa para chamar a atenção da princesa .
— Só sobre toda aquela coisa do seu pai com Sor Vaemond — disse , passando o dedo de leve sobre o pescoço, como se estivesse cortando a garganta.
— Ah, é claro que o meu príncipe se empolgou mais com a parte violenta. — Baela sorriu para Jace e revirou os olhos. — Iremos nos casar.
— Jace e você? Deuses, isso é incrível! — fez cara feia para Jace. — Como pode ter se esquecido de contar a melhor parte!?
— E não somos só nós — continuou ela, mas demorou para entender até que Rhaena levantou sua mão, meio acanhada, e sorriu para Lucerys.
— Uau, parece que eu perdi o melhor dia do século por ter sentido falta de visitar o Bosque Sagrado da Fortaleza Vermelha. — ria, realmente feliz por saber daquelas uniões.
Do outro lado do recinto, o príncipe Aemond a assistia. Cercada por sua família, ficava radiante. Cerrou os dentes ao vê-la bagunçar os cabelos de Lucerys Velaryon com um carinho que era raro demonstrar a qualquer outra pessoa. Uma pontada de ciúmes o atingiu. É tudo um fingimento, uma brincadeirinha para fingir que estamos acalmando as relações tumultuadas entre as famílias, pensou ele, esforçando-se para empurrar aquela maldita pontadinha para longe. Sabia que não tinha nenhum sentido, mas tudo com Lucerys o tirava do sério desde que o garoto arrancara o seu olho.
Conforme o jantar continuava, a mente do príncipe acelerava-se com mil e um pensamentos. A todo instante, lançava olhares para , tentando avaliar como ela lidava com a situação que teriam de enfrentar a qualquer momento, quando Alicent decidisse que era hora de agitar a noite. Ansiava por estar ao lado dela para estender a mão e acalmar as preocupações que sabia que ela possuía.
O conflito nos olhos de espelhavam o que se passava em sua cabeça. A garota não conseguia acreditar que havia sido pega no flagra, ainda mais por Alicent Hightower. Detestava a situação principalmente por ter se tornado um plano da rainha. Sabia que, como mulher, não podia ser vista em situações indecentes como aquela e, sim, o casamento com Aemond limparia a mancha em sua honra perante a sociedade. Ela queria tanto sentir o toque dele e, no fim das contas, fora agraciada com um casamento. Agraciada ou amaldiçoada?, ponderava consigo mesma. Tornar-se a esposa do garoto que mais odiava o seu irmão favorito não seria fácil. Ela desejava compreender como equilibraria o amor e o ódio que nutria por Aemond.
Enquanto a tempestade de pensamentos rugia dentro dos futuros noivos, outro tipo de tormenta irrompeu no recinto. Aegon e Jace começaram a se provocar, até Helaena dissera algo que soara como uma provocação indireta para Aegon, seu irmão-esposo. Jacaerys, então, chamara Helaena para dançar, um ato para afrontar Aegon, que não deu a mínima. Aemond encarou seu irmão com uma fúria estampada em seu rosto. A falta de coragem de Aegon fazia a frustração ferver dentro dele. Perceber a expressão do príncipe irritou , mas a princesa logo se deixou levar pela imagem feliz de Helaena e Jacaerys dançando e, por um breve instante, desejou experimentar a mesma calma.
— Se Jace pode dançar, por que não poderíamos? — comentou com Luke, um claro convite.
— É claro, irmã. — Ele se levantou e estendeu a mão graciosamente. — Ficaria honrado em dançar com você.
— Ah, deuses, olha como ele é fofo! — A princesa pegou em sua mão e se levantou. — Não precisa ficar envergonhado, maninho. Você é mesmo fofo. Rhaena, minha querida, você tirou a sorte grande.
, para com isso — murmurou ele, seu rosto ainda corado enquanto a sua noiva sorria.
— Pode me perdoar por roubar o seu futuro marido nesse instante, irmãzinha? — Sorriu para Rhaena. Havia começado a tratar ela e Baela como suas irmãs quando Daemon se casara com Rhaenyra. — Só quero dançar com meu irmão favorito por um momentinho e fingir que serei feliz para sempre.
— Ah, querida irmã! — Lady Rhaena fingiu um suspiro dramático. — E como eu poderia negar a você tal felicidade?
sorriu em agradecimento e puxou Lucerys com ela, juntando-se a Jace e Helaena na pista improvisada. Os olhos de Aemond dardejaram-na, seus pensamentos mais uma vez consumidos pela tentação de fazê-la sua. Seu olho acompanhava cada movimento da dança de e Luke, a inveja e a irritação borbulhando sob a superfície, prontas para entrar em ebulição. A visão da princesa tão despreocupada, aproveitando o momento nos braços de seu irmão, despertava emoções conflitantes dentro do príncipe. Aemond desejava que fosse ele lá, dançando com sua futura noiva sem se importar com o que os outros diriam. Queria que estivesse em seus braços. Sorrindo para ele. Só para ele.




Eu nunca mostro exatamente
O que você faz comigo
Acho que eu sempre estive errado
“All Signs Points to Lauderdale”
A Day to Remember


Velaryon girava pela sala com o seu irmãozinho Lucerys em seus braços. O momento a enchera de uma plenitude que beirava a perfeição de tal modo que até permitira se esquecer de que estava no jantar.
— Podemos, por favor, retornar à mesa? — pediu a rainha Alicent, arrancando , Lucerys, Jacaerys e Helaena de uma felicidade paralela a toda aquela família complicada.
— Como desejar, vossa graça — entoou Helaena à sua mãe.
Ela fez uma reverência engraçada que despertou risos baixos nos outros três enquanto eles seguiam para a mesa. Pela primeira vez em muito tempo, Alicent sorriu. Não durou muito, no entanto. Assim que estavam todos de volta à mesa, ela se levantou.
— Sei que já fizemos alguns brindes esta noite, mas tenho algo novo a anunciar. Bem, na verdade, algo a propor — disse a rainha. prendeu a respiração, odiando cada partezinha da sensação que a inundava, principalmente porque grande parte dela era expectativa. — Princesa Rhaenyra, eu tive uma ideia interessante mais cedo após todos os… infortúnios do dia, e acredito que agora, depois de tudo o que já passamos, você concordará comigo. — Ela olhou para Rhaenyra, que já tinha sua atenção capturada. — Eu desejo que a sua filha se case com o meu filho Aemond.
Jacaerys Velaryon irrompeu em um ataque de tosse após quase se engasgar com sua bebida.
— Jace! — Baela o repreendeu baixinho.
Rhaenyra Targaryen alternou seu olhar entre o príncipe Aemond e sua única filha mulher com certo espanto. O príncipe Daemon, por outro lado, encarou a princesa e arqueou as sobrancelhas, não tão surpreso quanto os outros na sala — talvez apenas um tantinho desapontado com as inclinações da enteada.
Preciso reagir, pensou , sou uma Velaryon de Derivamarca, não importa o que o meu sangue diga. Ela respirou fundo, buscando coragem no lema da Casa Velaryon que se repetia em sua mente: O Antigo, o Verdadeiro, o Valente. Ela precisava reagir o mais rápido possível, então apoiou ambas as mãos na mesa com um estrondo e se levantou de ímpeto.
— De jeito nenhum! — gritou ela. — Isso não pode acontecer. Você enlouqueceu?
! — Rhaenyra a repreendeu. — Não pode falar com a rainha Alicent desse jeito. Onde estão seus modos?
— Eu sei, mãe — admitiu e voltou-se à Alicent. — Sinto muito, vossa graça, mas… — hesitou por um instante, mas sabia que deveria continuar com aquela cena. — Deuses, é uma ideia terrível.
, controle-se! — ordenou Rhaenyra, com uma pitadinha de raiva no meio do choque pelas palavras de sua amada filha. — Talvez não seja uma ideia tão terrível quanto pensa.
Um silêncio tenso inundou a sala e todos os olhos se voltaram para a princesa . Aemond travou a mandíbula, seu olho bom procurou por qualquer indício de resposta no rosto da princesa. O príncipe Daemon parecia ser o único a se divertir com o comportamento da enteada.
— Eu… Eu… — suspirou. Sabia bem que sua reação fora exagerada, assim como tinha consciência de que parte daquilo era verdade, afinal, Aemond era de fato um inimigo declarado. — Eu…
A garota não conseguia formular qualquer outra frase. Então fitou Aemond Targaryen pela primeira vez desde o anúncio. O olhar do garoto era intenso, carregado de uma mistura de emoções conflitantes: preocupação, um tantinho de confusão e uma outra coisa remexendo-se nas profundezas; algo que ele não desejava identificar. A contradição dançava entre os dois, que permaneciam em silêncio, se olhando.
só conseguia mergulhar na sensação de que estaria traindo Lucerys, seu irmãozinho favorito, se simplesmente aceitasse o arranjo. Aemond o odiava até a morte, e ela o amava até a morte. Como isso poderia acabar se tornando uma coisa boa?, perguntou-se ao fechar os olhos para esperar que alguém dissesse algo. Qualquer um.
Mas o silêncio opressor continuava, mesclando-se à tensão palpável enquanto todos aguardavam uma resposta dos dois. Os olhos de Rhaenyra dardejaram entre sua querida filha e o futuro prometido dela, sem saber se deveria se sentir preocupada ou apenas confusa.
, minha querida… Acalme-se, por favor. — O rei Viserys quebrou a silêncio. — É só um arranjo de casamento. Encontrarão um jeito de serem felizes.
— Sinto muitíssimo pelos meus maus modos, vossa graça — disse, sua voz suave como uma pluma, e voltou a se sentar. — Farei o que minha mãe desejar.
Os olhos da rainha se estreitaram em um claro alerta. Se Rhaenyra não concordasse com o arranjo, Alicent contaria o que flagrara entre Aemond e mais cedo e, assim, envergonharia a menina, que teria sua honra manchada exposta a todos os presentes. sabia bem disso e também de como sua mãe concordaria com a proposta depois da revelação da rainha. Era um caminho pior, mas agora que começara a cena, não havia muito o que fazer além de ficar calada e aguardar.
Aemond se levantou abruptamente, arrastando sua cadeira para trás em um som cortante. Todos os olhos se voltaram para ele, mas o seu fixava-se apenas na princesa . Uma mistura de frustração e algo mais relampejou em seu olhar penetrante, queimando forte como fogo de dragão.
— Por quê? — perguntou apenas. Duas palavrinhas que implicavam uma infinidade de significados. O príncipe precisava de uma resposta, desejava entender a relutância de , as razões ocultas por trás de sua explosão inicial e o motivo de não ter simplesmente aceitado o que lhes fora imposto.
— O que quer dizer com “por quê”, irmão? — Aegon revirou os olhos, a taça de vinho pendendo em sua mão, quase vazia. — Ela é sua inimiga. Você, entre todos, deveria saber.
Em seguida, bebeu o último gole e serviu de mais vinho pela milésima vez na noite. Sua última frase carregava tanto significado que até fora capaz de captar. Aemond deveria, de fato, entender a situação complicada, afinal, era o defensor mais ferrenho dos Verdes. E , sua futura prometida, era uma princesa dos Pretos, a primogênita da verdadeira herdeira do Trono de Ferro. E eles, os Verdes, eram vistos pela princesa apenas como usurpadores por estarem, possivelmente, planejando coroar Aegon como o novo Rei dos Sete Reinos assim que seu avô Viserys sucumbisse.
— Jamais pensei que diria qualquer coisa desse tipo, mas… — fez uma careta. — Aegon disse tudo.
Aegon ergueu a taça em sinal de brinde para ela. Rhaenyra, por outro lado, arregalou seus belos olhos em descrença.
— Não há inimigos aqui, minha querida filha — insistiu.
As coisas entre eles eram assim. As mães fingiam e fingiam que não existia essa rivalidade mortal entre Pretos e Verdes, mas seus filhos sabiam. Eles lutavam essa guerra não declarada mais do que ninguém. olhou para Aemond, ainda parado ali, de pé, e então encarou Lucerys, que mantinha uma expressão confusa em seu jovem rosto.
— Eu já disse, minha mãe — reforçou . — Se tiver que ser feito, eu o farei.
A frustração de Aemond se alimentou daquelas palavras, crescendo mais e mais. Ele odiara o jeito com que a garota resignara-se como se aquele fosse o maior sacríficio do mundo, sendo que não muito tempo antes buscara por seus lábios com avidez. Cerrou os punhos com tanta força que os nós dos dedos se embranqueceram.
— Não pode estar falando sério — reclamou, entredentes. — Esta proposta não é apenas uma aliança política, é uma zombaria, uma farsa!
Aegon riu das palavras do irmão, divertindo-se com a situação. Rhaenyra, porém, permaneceu em silêncio, observando com seus olhos cautelosos o desenrolar da contenda.
— Uma zombaria? — levantou-se, quase derrubando sua cadeira, tamanha era a raiva que inundava cada parte do seu corpo. — Como pode dizer algo assim? Deuses, eu sabia que você jamais iria querer essa união! — Cerrou os punhos, pressionando-os contra a mesa. Era óbvio que ela desejava estar com ele, mas o conflito se intensificava em seu interior quando lembrava-se de que o ódio do príncipe por seu irmão crescera muito desde que Lucerys cortara o seu olho. — Eu vou me casar com você, seu garoto estúpido.
— Garoto estúpido, você diz? — Aemond estreitou o olho, a raiva da princesa apenas alimentando a sua. — Vai se casar comigo, mas não precisa sequer gostar disso porque você obviamente é apenas uma boa princesinha obediente, não é?
Entre todos, Aegon era o que mais se divertia com aquela troca incomum entre príncipe e princesa. Ele bebericava o seu vinho e soltava risadinhas a todo momento que achava pertinente. Aquele era o melhor espetáculo que assistia em dias.
— Ah, por favor, pare de rir feito um idiota! — gritou para Aegon, então voltou-se a Aemond, do outro lado da mesa: — E se eu for, meu principezinho? Você terá de se contentar em desposar uma porra de uma princesinha obediente, então.
Alicent arfou, em completo choque com o linguajar da princesa, enquanto Aegon escondia sua risada com mais um gole de vinho.
, já chega! — Rhaenyra levantou a voz ao repreender a própria filha por sua falta de modos.
Aemond ainda a fitava, seu rosto endurecido desde o momento que a princesa o chamara de “meu principezinho”. A atitude desafiadora de trazia à tona algo que ele preferiria deixar escondido. Por isso, teve de lutar contra a vontade de dar uma resposta sarcástica.
— Uma princesinha obediente… — repetiu entredentes. — E que par obediente fazemos, não?
— O par mais perfeito de todos! — Ela fingiu um sorriso exagerado e se sentou.
O príncipe Aemond era capaz de mexer com a princesa de modo que ela jamais saberia explicar. E era isso que a incomodava mais. Fechou os olhos por alguns segundos e roçou as coxas uma contra a outra debaixo da mesa, odiando-o pelo que ele causava nela, mesmo de tão longe. só queria ir até ele, socá-lo na cara, estapeá-lo, apertar o seu pescoço… Qualquer coisa para tocá-lo e estar perto dele. Aemond, por outro lado, continuava frustrado com a reação completamente descomedida daquela que seria sua esposa. Seu olhar queimava sobre , seus pensamentos emaranhando-se em uma tormenta de raiva e desejo.
— Está mais para o desastre perfeito — murmurou Aegon em tom jocoso.
— Cale a boca, irmão — Aemond lhe xingou, porém se mantinha fitando , que agora mordia o lábio e lhe devolvia um olhar enigmático.
— Então está decidido — Rhaenyra declarou. — O casamento, de fato, acontecerá.
Daemon retorceu os lábios e fez um som baixinho, ininteligível. Jamais gostara de Aemond e, apesar de não ser sua filha, era parte da família. Ele nunca acharia uma boa ideia jogar sua enteada, a herdeira de Rhaenyra, direto nas mãos dos Verdes, bem na cama de Aemond.
deveria ficar aqui, por perto, enquanto preparamos as coisas — anunciou a rainha Alicent. — E assim os dois têm mais tempo para se acertar e aprenderem a se comportar melhor em situações como esta.
A repreensão da rainha quase passou batido para todos. A parte importante era que, em vez de Velaryon retornar a Pedra do Dragão com sua família, ela permaneceria em Porto Real, na Fortaleza Vermelha. Parecia o mais certo a fazer, por isso todos apenas assentiram. Todos menos a própria e o príncipe Daemon. O silêncio e a expressão cautelosa dele deixavam bem claro que não estava nada satisfeito com o desenrolar dos fatos. No entanto, não questionaria a princesa Rhaenyra — não ali, na frente dos Verdes.
Enquanto isso, Aemond não desviava o olhar da única pessoa que ele se importava em ver alguma reação, qualquer reação. O príncipe cerrou o punho e respirou devagar, uma mistura de raiva e frustração pela princesa se manter estática se remexia dentro dele. Mas o que queimava mais forte era uma necessidade subjacente. Ao menos a princesa estaria ali, perto dele. Isso bastava. Por enquanto.



Me diga a sua verdade
Vocês são peões em cena?
Onde está sua voz? Você consegue gritar?
“Alive”
I Killed the Symphony


Após todos os arranjos terem sido feitos, o rei Viserys I se sentiu mal e foi carregado para fora do salão. Apesar de aquele grupo de pessoas só estarem reunidos por vontade dele, o jantar continuou mesmo sem a sua presença. O tempo, então, passou rápido como um trovão. Ou ao menos era essa a percepção da princesa Velaryon. Ela se mantinha em silêncio tanto quanto conseguia. O pensamento de que estava se vendendo para os Verdes era como o som do aço sendo martelado pelo ferreiro. A garota só foi acordada de sua torturazinha mental particular quando o príncipe Aemond socou a mesa de ímpeto e se levantou. Algo fora da visão dela havia o irritado. E muito.
— Um tributo final! — Aemond ergueu sua taça. — À saúde dos meus sobrinhos e, agora, futuros cunhados: Jace… Luke… e Joffrey. — Alicent o fitou, preocupada com a provocação que sabia que estava por vir. E ela não era a única. se levantou de seu lugar para dar a volta ao redor da longa mesa. — São rapazes bonitos, inteligentes… e fortes.
A princesa arfou alto, congelando no meio do caminho.
— Aemond — implorou, balançando a cabeça, mas ele não ouviu nem sequer uma palavra, tamanha era sua raiva.
— Vamos beber em homenagem a estes três… — Aemond fez uma pausa dramática e Aegon levantou seu copo bem alto para o acompanhar. — … garotos fortes.
cerrou os punhos. A palavra “forte” pairava no ar como uma assombração, chamando outra vez seus irmãos de bastardos — e a ela própria.
— Repita o que disse — Jacaerys o desafiou.
fechou os olhos. Sabia que tudo aquilo estava fadado ao fracasso, a uma tragédia das grandes. E agora ela jazia bem no meio disso. Mesmo quando as provocações entre eles continuaram e Jace a puxou para fora do caminho, ela ainda se sentia emaranhada nas correntes do que o seu noivado significava. Jamais seria capaz de sair no meio daquelas brigas espinhentas que, assim que seu avô morresse, passariam a envolver fogo e sangue. Foi trazida de volta a si quando seu irmão desferiu um soco na cara de Aemond, e Aegon e Lucerys começaram uma briga paralela.
— Sete infernos, essa família é um caos. — se interpôs entre Jace e Aemond, temendo como aquilo poderia acabar. — Parem com isso!
Aemond, no entanto, usou seu braço esquerdo para envolver a cintura de sua noiva e a tirar do caminho. Então, com o braço livre, empurrou Jacaerys para o chão. Os guardas finalmente conseguiram parar aquela desordem sem tamanho, e Alicent apressou-se em tentar colocar algo na cabeça de Aemond, qualquer coisa. Mas o príncipe não queria saber da mãe, ele estava consumido por ódio e ressentimento. Não queria saber da princesa também, afinal, soltou-a, deixando-a para trás, e andou na direção do sobrinho.
— Aemond, para com isso, por favor — insistiu ela, a ouvidos moucos.
Jace desviou dos guardas para retornar à briga, mas Daemon se interpôs entre eles ao mesmo tempo em que o fizera. Rhaenyra, então, mandou as garotas Targaryen e os garotos Velaryon para seus respectivos aposentos. assistia aos irmãos se retirarem, seu rosto banhado em lágrimas. O príncipe Daemon encarou Aemond em desafio, e ele o fitou de volta. Deuses, esses dois vão acabar se matando algum dia desses, pensou a princesa. Mas nada fizeram naquele momento, graças aos deuses.
— Esses não são modos para quem vai se casar com a minha enteada — rosnou Daemon.
Suas palavras arrancaram um leve sorriso da princesa no meio de todo aquele pandemônio. O olho de Aemond brilhou, furioso, e ele abriu a boca para responder algo insolente, mas balançou a cabeça e seu apelo silencioso abrandou um pouco de sua raiva. Ele cerrou a mandíbula e engoliu o que diria, sabendo que uma discussão com Daemon só pioraria as coisas. agradeceu aos céus por seu noivo ter atendido a sua súplica. Aquele era o príncipe Daemon Targaryen, afinal de contas, Aemond jamais teria chances. E apesar do ódio que o seu príncipe lhe despertara naquele momento, ela ainda nutria os sentimentos conflitantes que a faziam não desejar a sua morte.
Aemond deixou mais um de seus sonos “hmm” escapar antes de sair da sala, de queixo erguido, como sempre. Velaryon respirou fundo, esfregando o rosto ainda úmido. Buscou, então, o olhar de Daemon, da mãe e até o de Alicent… Balançou a cabeça. Não permitiria que ninguém a mandasse para os seus aposentos antes que falasse com o seu agora noivo. Deu as costas a eles e correu atrás de Aemond, encontrando-o no corredor, um pouco distante da entrada do salão. Ele parou ao ouvir os passos e virou-se, erguendo a cabeça para fixar seu olhar na garota. Raiva, frustração e uma pitadinha de vulnerabilidade reviravam-se em seu interior. Era o efeito que todas aquelas coisas tinham quando somadas à Veleryon e os sentimentos caóticos que sustentava por ela.
— Sete infernos, Aemond! Por que fez tudo isso? — Os olhos da princesa se encheram d’água outra vez. — As coisas já não são difíceis o suficiente?
Os ombros do príncipe visivilmente se tensionaram, as emoções à flor da pele. Ele cerrou o maxilar e respirou fundo em uma tentativa falha de controlar a raiva.
— Por que eu fiz isso? — repetiu, seu tom baixo transbordava frustração em cada sílaba pronunciada. — Espera que eu simplesmente aceite o insulto deles, ? Que fique sentado, em silêncio, enquanto Lucerys zomba de mim?
— E você precisa ficar chamando meus irmãos de “fortes”? — retorquiu ela.
— Poderia muito bem ser um elogio — falou, seu olho brilhava em uma fúria incandescente.
— Que os Outros carreguem os seus elogios distorcidos! — Ela cerrou o punho. — Todo mundo sabe que está fazendo alusão à Casa Strong e ao falecido Sor Harwin, que foi uma ótima pessoa, por sinal.
Aemond estreitou o olho. Sabia o que a defesa da garota a Sor Harwin Strong implicava. Todo mundo sabia, mas ele preferia ignorar. Ao menos quando dizia respeito a ela. não era ameaça alguma.
— Eles são bastardos. Sabe disso tão bem quanto eu — cuspiu, sua voz fria. — Realmente espera que eu finja que eles são algo que não são? Que eu ignore a verdade para que todos possamos brincar de faz de conta?
— Deuses, Aemond, você vai se casar comigo: da Casa Velaryon. — Ela envolveu a mão dele e a trouxe até seu peito. — Se meus irmãos são bastardos, o que pensa que eu sou? Eu vim primeiro, meu príncipe, sou a primeira. Meus cabelos louro-prateados não mudam isso.
Sua mão tremeu levemente enquanto descansava sobre o coração da princesa. A batida compassada era um constraste gritante com a turbulência em seu próprio interior. O príncipe cerrou os dentes, a raiva cedendo devagar à confusão.
— Eu… sei disso — sibilou, seu timbre mais suave. — Mas isso não muda o fato de que eles ainda são bastardos, minha princesa. Bastardos cuja própria existência é uma mancha na honra e reputação desta família.
cerrou o punho e respirou para se controlar antes que berrasse a plenos pulmões: “você é uma mancha nessa família”. Não adiantaria nada.
— Então, meu príncipe… — Ela pegou a mão dele que repousava sobre o seu peito e ergueu-a até que abarcasse seu rosto. — Saiba que você vai se casar com uma forte mancha na honra e reputação dessa droga de família
A princesa havia referido-se a ela mesma com a palavra “forte” para enfatizar a ironia da situação do príncipe. Aemond respirou com dificuldade, um senso de resignação o preenchendo. Seu olhar buscou o rosto da garota. A compreensão pesava cada vez mais.
— Você… é diferente, minha princesa — confidenciou. — Não é apenas uma mancha, você é… É minha prometida. — As palavras deixaram a sua boca com relutância, afinal, sabia que aquilo não mudava a origem da garota.
— Eu sou exatamente igual a eles. — Ela fechou os olhos, apreciando o leve toque dos dedos que agora acariciavam sua bochecha. — A única diferença é que você gosta de mim.
A verdade na fala da garota Velaryon o atingiu como um soco no estômago. Sete infernos, está certa, pensou, o conhecimento contorcendo-se em seu coração. Ele engoliu em seco. Uma mistura mais do que complexa de emoções o invadiu junto de um sentimento que esforçou-se para suprimir.
— Maldita seja, princesa — deixou escapar em um suspiro baixo e umedeceu os lábios.
— Nem pensar. — Daemon fez-se ouvir no corredor, acordando príncipe e princesa do transe momentâneo.
— Daemon. — deu um passo apressado para trás, para longe de Aemond.
— Alguém tinha que vir. — Daemon deu de ombros, parando ao lado da enteada. — Nós vamos embora agora e, já que você vai ficar, está na hora de dizer adeus à família.
— Como assim? Nós não…? — Ela parou, dando-se conta de que não estava mais incluída na equação. — Vocês não iriam embora pela manhã?
— Houve uma mudança de planos, ao que parece — disse simplesmente. Seus olhos não deixavam o príncipe Aemond.
— Suponho que começo as minhas despedidas com você, então. — A princesa jogou os braços ao redor do padrasto, pegando os dois príncipes de surpresa.
— É, parece que sim. E eu tenho um presente para você, princesa, já que permanecerá por aqui. — Daemon afastou a garota de si e pegou um lindo punhal. Não pôde evitar dar uma boa encarada no príncipe Aemond antes de colocar o objeto na mão de . — Durma com esta adaga debaixo do travesseiro, só por precaução.
Aemond cerrou o maxilar e estreitou o olhos. Não gostou nem um pouco da maneira como o tio o observava. Esforçou-se para se manter em silêncio, porém empertigou-se ainda mais. riu do alerta de Daemon e abraçou-o novamente, um gesto tão natural que esfregava na cara de Aemond a proximidade que aqueles dois compartilhavam. Isso mexeu com algo dentro do príncipe. Por um momento pensou que fosse ciúmes, mas depois compreendeu que era algo maior e quase indecifrável. Não havia esse tipo de proximidade no seu lado da família. Talvez fosse isso.
— Agora vá, riña. — Daemon usou a palavra alto valiriana para “menina”. — Diga adeus à sua mãe.
— E você? — rebateu quando ele não fez menção de se mover. — Não vou deixar vocês dois sozinhos aqui. — Seu olhar oscilou entre seu noivo e o padrasto. — De jeito nenhum.
A princesa conhecia os dois bem demais, e temia o que podia acontecer com o seu prometido. Apesar de, por vezes, odiar ferozmente a Aemond, não queria que ele morresse antes que enfim se casassem. Daemon já ter percebido que tem algo rolando entre Aemond e eu não é o bastante para fazê-lo mudar de ideia quanto a Aemond, pensou ela e, por isso mesmo, não se moveu.
— Você realmente acha que eu não poderia resistir a cinco minutos sem matar o seu príncipe? — Daemon arqueou uma sobrancelha.
O rosto de Aemond escureceu como um céu tempestuoso, o incômodo relampejando em seu único olho. A mão da princesa envolveu seu braço com firmeza. Sabia que ele se sentiria tentado a responder a provocação. O príncipe ficou tenso com o toque, a raiva fervendo sob a superfície. Lançou um olhar nada amigável ao príncipe Daemon, porém segurou-se à sensação do toque da garota para resistir à vontade que o consumia.
— Sete infernos! — A garota bufou. — Por que vocês, homens, têm que ser todos assim, hein?
Daemon riu da pergunta, mas seus olhos vagaram para a mão da princesa envolvendo o braço do esguio príncipe. notou o olhar, mas não soltou nem sequer afrouxou o aperto.
— Por que somos todos assim? — Um sorriso malicioso brincou nos lábios de Daemon. — A resposta reside na sua pergunta. Porque somos homens, princesa. Somos construídos assim.
— Que grande bobagem. — Sacudiu a cabeça devagar e então olhou para Aemond, reconhecendo concordância em seu olhar. — Você concorda com ele! Que os Sete me ajudem! Não sei por que estou surpresa.
— Vamos, , me obedeça — insistiu Daemon. — Vá até sua mãe. É hora de dizer adeus.
— Ouça o seu padrasto, , podemos conversar amanhã — falou Aemond. — Amanhã e pelo resto das nossas vidas, ao que parece.
— Vocês dois estão loucos se realmente acham que podem mandar em mim — reforçou a princesa. — Agora venha comigo, Daemon. Sou apenas uma jovem e tola mulher que poderia se perder no meu caminho até a porta. — Sua voz transbordava sarcasmo enquanto libertava o braço de Aemond de seu toque para segurar no de Daemon. Era a única maneira de terminar essa possível discussão. Ela olhou por cima do ombro. — Vejo você amanhã, meu príncipe.
Aemond queria mantê-la por perto, protestar a sua partida, mas seria inútil. Portanto, conteve a tormenta de irritação, confusão e aquele algo a mais dentro de si. Seu olho manteve-se fixo na garota enquanto ela se afastava.
— Amanhã, então — murmurou, tenso e frustrado.
E assim, seguiu seu caminho. Esperou que a princesa Rhaenyra se afastasse de Alicent para, então, se despedir dela e do bebê em sua barriga. Era a primeira vez que ficaria longe da mãe, mas era uma menina feita que logo iria se casar. Teria de ser madura e, por isso, segurou o choro. Ao menos até ir aos aposentos das garotas Targaryen e, em seguida, aos de seus irmãos Velaryon.
Lá, após dar um beijo no adormecido Joffrey, chorou até não poder mais enquanto dava aquele doloroso adeus a Jacaerys e Lucerys. Em sua cabeça jovem, era como se aquela fosse a última vez que os veria. Podia ser uma menina verde como a grama do verão, mas não era boba. Passara anos tendo Daemon como seu padrasto para entender suficientemente bem que, assim que o rei Viserys I fosse reivindicado pelo Estranho, uma guerra se sucederia, por mais que sua doce mãe e a maldita rainha fingissem que não.
— Cuide-se bem, caro irmão — disse a Lucerys quando o abraçara forte. — Não se meta em problemas, ouviu bem? Não sei o que faria se te perdesse.
— Também sentirei saudades suas, irmã — falou em meio a um sorriso, a voz abafada pelo aperto de . — Se não pretende apressar o meu fim, seria bom me soltar. Estou ficando sem ar.
— Ah, deuses! Me desculpa, Luke. Eu… — Os olhos dela lacrimejaram outra vez. — Não acredito que ficarei longe de vocês.
— E eu não acredito que se casará com Aemond. — Jacaerys fez uma careta que mesclava tristeza e preocupação. — E que não está desgostando disso tanto quanto deveria.
— E você acha que eu acredito, irmão? — Forçou uma risadinha. — Venham cá! — Puxou os dois para um abraço final. — Cuidem um do outro, está bem? E de Joffrey. Nossa mãe precisa de vocês e, ainda que distante, eu também preciso.
— É por isso mesmo que estou preocupado com essa coisa do casamento — Jace murmurou.
— Deixem a preocupação de lado, meus queridos. Sim, vou permanecer em território inimigo, isso é um fato. Mas também não quer dizer nada. — Ela hesitou por um instante, pensando se deveria ir tão longe em sua fala. No fim, concluiu que Jacaerys e Lucerys mereciam o alerta. — Eu preciso implorar uma coisa a vocês: se, no futuro, os Verdes me usarem como refém para alguma chantagem, não aceitem. Não deixem mamãe aceitar. Jamais.
… — eles disseram juntos, sintonizados na repreensão.
— Não me venham com essa, eu sou a mais velha aqui — reclamou, soando quase infantil. — Se chegarem a me usar para mexer com a cabeça de vocês, não permitam!
— Mas o Aemond… — Ela fez sinal negativo com a mão, fazendo com que Lucerys fechasse a boca, apreensivo.
— Aemond não vai me fazer mal. Os deuses sabem que ele faria mal à minha família inteira se tivesse a chance, sim — admitiu a contragosto. — Mas vocês não o conhecem como eu. O que ele tem comigo é… diferente, não sei. Ele jamais me machucaria fisicamente.
Luke estava incerto quanto àquilo e Jace, um pouco mais velho, não engoliu sequer uma palavra. Nem tinha absoluta certeza daquilo, porém acreditava que era verdade. Tinha que acreditar. Ao menos era isso que o príncipe a fazia pensar.
— Eu não sei, … — Jacaerys suspirou.
— Se ele me fizer mal, eu posso muito bem arrancar o olho que lhe restou — disse a eles de modo divertido, arrancando risadinhas dos dois. — Viu só? Não é tão ruim.
Ela sorriu para os irmãos mais novos. E caso seja, posso muito bem acabar comigo, com ele e com tudo o que for preciso, pensou ferozmente. Eu sou da Casa Velaryon. O Antigo, O Verdadeiro, O Valente. E valentia, de fato, era algo que não faltava à princesa.




Vocês se encontram e nenhum de vocês
Faz ideia do que os atingiu
“Love the Way You Lie” Eminem feat. Rihanna

Sozinha em sua mais nova cama de penas, Velaryon se revirava sem conseguir pregar o olho. Havia desmanchado-se em lágrimas nos braços dos irmãos horas atrás, e então fora trazida aos seus novos aposentos. Nascera em Porto Real e morara na Fortaleza Vermelha por longos anos. Agora, no entanto, o lugar não se parecia com um lar. Parecia tão frio quanto o Norte deveria ser. A princesa tentara várias técnicas para cair no sono, mas nada a ajudava. Sua última tentativa fora chorar até dormir. Ainda assim, continuava acordada.
Não conseguiria afastar de sua cabeça a realidade de que se tornaria esposa de Aemond. Isso tinha seus prós, era verdade; havia algo no príncipe que a fazia desejar sua presença constante. Os contras, no entanto, estavam sempre lá, e o primeiro deles gritava que Aemond Targaryen era seu inimigo, talvez o mais feroz de todos. E agora ela jazia ali, na Fortaleza Vermelha, cercada de inimigos Verdes. Se um golpe acontecesse — como Daemon a alertara diversas vezes que aconteceria —, ela se transformaria em uma refém do rei… de Aegon.
— Deuses! — suspirou para o vazio dos aposentos. Solidão era uma coisa assustadora e indesejada em momentos como aquele. Uma repentina batida leve em sua porta quebrou o silêncio ensurdecedor, e sentou-se abruptamente. — Parece que alguém leu meus pensamentos. — Levantou-se, cobriu-se com um robe grosso, fechando-o com um laço perfeito, e saiu da câmara privada. Andou até a porta e colocou a mão na tranca, mas hesitou. Era sua primeira noite ali e, além do mais, era muito tarde, então murmurou: — Quem é?
Houve um silêncio de expectativa antes que uma voz familiar adentrasse o quarto:
— Sou eu — sussurrou Aemond, a voz dançando entre incerteza e determinação. Seu interior, por outro lado, dançara a noite inteira desse mesmo jeito até ele criar coragem para vir até ali.
— Pelos sete infernos, Aemond! — Ela abriu a porta devagar, mantendo a voz baixa, e o puxou, fazendo-o cambalear aposentos adentro. Deu uma olhada no corredor vazio antes de fechar a porta e descer a tranca. — Está tarde. O que está fazendo aqui?
— Eu não consegui dormir — confidenciou ele, seu olho vagando pelo rosto corado da garota, absorvendo cada detalhe. — Esteve chorando.
— Foram as despedidas. — Ela abaixou o olhar, meio envergonhada por permitir que ele a visse naquele estado. Cruzou os braços, apertando mais o robe contra si. — Eu não tenho uma poção mágica para te fazer dormir — disse sem pensar.
— Se quisesse algo do tipo, teria ido atrás do Grande Mestre — respondeu-lhe. — Eu só… Eu precisava te ver. Conversar com você.
— Também não consegui dormir — admitiu ela, suas defesas derrubadas como um portão de cidade atacado por um aríete. — E tenho de confessar que estava quase fazendo uma prece aos deuses por alguma companhia. — Ela respirou fundo, mordendo o lábio levemente. — Mas eu nunca pensei que de fato te veria entrando nos meus aposentos uma hora dessas. Não antes de nos casarmos.
Os lábios do príncipe se curvaram em um sorriso tão suave que quase não combinava com seu rosto ferido e sua pose inflexível de sempre. Ele se aproximou da princesa, sem nunca deixar de fitá-la. Gostava quando a garota demonstrava vulnerabilidade em sua expressão, mesmo que fosse apenas um resquício.
— Eu não pude ficar longe — reconheceu com uma pitada de frustração. Detestava sentir-se controlado por qualquer tipo de coisa. — Sei que não deveria ter vindo, mas o desejo de estar ao seu lado, de conversar com você, de… — Sua voz desvaneceu-se como o sol no fim do dia. Não era fácil para Aemond colocar aquela mistura de emoções em palavras inteligíveis; logo ele que sempre acreditara ser bom na arte de se comunicar.
— De…? — incentivou ela, erguendo levemente as sobrancelhas.
— De… estar perto de você. Não apenas fisicamente, mas… emocionalmente. — Ele respirou fundo, as emoções guerreando dentro dele. — Eu tenho me contido, , tenho mesmo. No entanto, não consigo mais.
A princesa fechou os olhos, demorando-se em suas palavras, saboreando o modo como lhe soavam. Era bom ouvir isso, saber disso. Talvez esse casamento não seja um completo desperdício, considerou ela, talvez tenha algum brilho, algum fogo.
— Tudo bem, você pode ficar — suspirou ela. — Mas ninguém pode te ver indo embora.
Ele sorveu o ar com mais dificuldade, um pequeno sorriso brotando no canto de seus lábios. O pensamento de ficarem juntos, mesmo que por um breve momento, trouxe um lampejo de esperança ao seu coração escurecido.
— Ninguém me verá — prometeu. Discrição era mesmo uma necessidade, afinal, ainda não estavam casados. — Eu juro.
— Se vai ficar, deveríamos nos sentar.
indicou o sofá com a cabeça e fez a frente. Aemond a seguiu e sentou-se ao seu lado, bem perto. Quase perto demais. Ainda assim, nenhum deles se moveu nem sequer um centímetro. Ele fixou o olho no rosto da garota, estudando suas feições sob a luz fraca e morna do recinto.
— Como se sentiu no jantar? — perguntou de repente. — Meu relacionamento com os meus irmãos, a dança, o anúncio, a briga… tudo. Como se sentiu sobre mim nesses casos? — Ela o fitou por alguns segundos e então desviou o olhar.
— É complicado — admitiu, sua cabeça combatendo contra o ciúmes e a confusão. — Ver você com eles, particularmente com o Daemon, é… Isso mexe com algo em mim. Não consigo explicar.
A princesa arregalou os olhos, surpresa por ele ter mencionado o seu padrasto em vez do irmão ao qual ele odiava. Mas então refletiu sobre o assunto e se lembrou que Aemond tinha testemunhado um pouco de seu vínculo com Daemon, e do abraço que o dera na despedida.
— É, creio que o seu lado da família não seja tão… afetuoso — comentou. — Mas e o Lucerys? Eu vi o olhar no seu rosto enquanto eu dançava com ele.
não podia deixar de proferir aquela pergunta. Sabia que qualquer coisa com ela e seu irmão era difícil para Aemond. Afinal de contas, Lucerys havia cortado fora o olho dele enquanto ela bebia com o Aegon. Sem contar que Luke era e ainda seria o mais precioso irmãozinho dela até o fim dos dias.
— Lucerys… — Sua mandíbula se apertou à mera menção do nome, a memória da dança ainda fresca em sua mente. Respirou fundo. — Foi difícil… ver vocês dois dançarem — confidenciou, sem conseguir esconder o ressentimento e até mesmo um pouco de raiva. — Ele é sua família, e eu sei que se importa com ele, mas…
— Mas…? — o encorajou a continuar.
— É só que… — Sua voz se esvaiu e ele afastou o olhar, batalhando para encontrar as palavras certas. — Quando te vejo com ele, sinto uma mistura de raiva e ciúmes. Não consigo evitar. E, sim, eu sei que é irracional e que eu não tenho o mínimo direito de me sentir assim, mas… — Fechou o olho, não sabendo como prosseguir.
— Ele é apenas o meu irmão, Aemond. Nada mais. Sei que dizer isso na nossa família não significa muita coisa, mas… Luke é muito jovem para eu sequer pensar… — Balançou a cabeça, quase rindo com o absurdo daquele pensamento. — Eu amo o Lucerys até demais, sabia? Se possível, até mais do que amo Jace, Joffrey e os bebês Aegon e Viserys. E nem sei o porquê… Apenas está lá, desde que consigo me lembrar.
Aemond assimilou as palavras ditas pela princesa. Podia captar a sinceridade em sua voz, o amor genuíno que nutria por Lucerys Velaryon. Era um amor que ele não era capaz de entender, porém precisava respeitar. Seu olhar suavizou-se.
— Sei que o ama — reconheceu. — Também sei que é apenas seu irmão, mas… — hesitou outra vez, voltando a fitá-la.
— Mas ele cortou o seu olho — afirmou duramente, fazendo a expressão de Aemond mudar da água para o vinho. A lembrança ainda era uma ferida fresca e pungente em seu coração. — E sei que posso levar um pouquinho da culpa, Aemond, já que eu estava fazendo merda com o Aegon em Derivamarca, bebendo e… Eu…
— Sim, eu me lembro bem — confirmou com amargura. Tudo sobre aquela noite ainda o assombrava. — Você chegou com o Aegon, e estava muito bêbada.
— Às vezes me pergunto se eu teria sido capaz de parar a briga de vocês antes que o pior acontecesse — revelou.
Mas não acho que esse seja o ponto, né? pensou ela. Acho que a pior parte da minha versão para Aemond era o fato de eu estar com o irmão dele no momento em que ele foi ferido pelo meu. O ciúme relampejou no rosto de Aemond. Toda vez que lembrava que a garota não participara daquela contenda porque passara pelo menos metade da noite com Aegon, seus instintos mais possessivos despertavam, famintos. Respirou devagar, tentando colocá-los de lado, e focou em um aspecto diferente da declaração de .
— Se tivesse estado lá, acha que poderia ter impedido? — Sua voz transbordou ceticismo. — Não acha que era para ter acontecido?
— Acredito que nada é feito para acontecer. Se fosse assim, qual seria o sentido de toda a nossa vida? Nossas escolhas não valeriam de nada — suspirou pesadamente. — O que você acha disso?
Aemond permitiu que um silêncio de reflexão o invadisse. Jamais havia acreditado em fado ou destino; não de verdade. A vida era muito caótica e imprevisível para isso. Mais caótica do que ele mesmo.
— Acho que isso é um monte de besteira — falou, enfim. — A ideia de que tudo acontece por uma razão… é apenas uma maneira de dar sentido ao caos e à aleatoriedade da vida.
— Exatamente! Só que isso também significa que não foi o destino que me fez ficar bêbada com o Aegon naquela noite. — A princesa estendeu sua mão para tocar na de Aemond. — E eu estava lá mesmo assim.
Surpreso com o toque, seu olhar disparou até onde a mão macia descansava sobre a dele. Ele engoliu em seco e umedeceu os lábios, a sensação despertando-lhe emoções sôfregas e conflitantes.
— Você estava lá. — Deixou as palavras afundarem entre eles tamanho era o peso daquela afirmação. Fitou o rosto da princesa, seu olho queimando com uma intensidade perturbadora.
— E você me odeia por isso — refletiu ela.
— Eu… — hesitou. Ele queria negar, assegurar a ela que não a odiava, mas a verdade era muito mais complexa. — Eu não… te odeio — soltou, a voz tensa pela emoção reprimida. — Mas não consigo evitar sentir uma… mistura de profundas emoções quando penso naquela noite, desde a perda do olho até… você. Raiva, ciúmes, confusão… Está tudo emaranhado aqui dentro.
A princesa acompanhou o movimento dele levando a mão ao peito para demonstrar.
— Mas foi naquela noite que você clamou a Vhagar para si e se tornou o homem que é hoje. — Ela mordeu o lábio de leve. — Nunca vai me perguntar o que realmente aconteceu entre Aegon e eu em Derivamarca?
Aquela pontadinha familiar de curiosidade e ciúmes se agitou dentro dele. Ele queria perguntar, queria saber o que acontecera entre os dois naquela fatídica noite em Derivamarca — nem que fosse para aumentar o ressentimento que já sentia por ser próprio irmão. No entanto, mordeu a língua e segurou-se para não parecer desesperado.
— Não — murmurou, tenso. — Não perguntarei.
— Ah, Aemond… — abarcou o rosto dele com as mãos e sorriu de lado. — Você é um principezinho ciumento, sabia?
Aemond quis resistir à vontade de derreter-se sob aquele toque terno, mas se viu impotente quando a princesa usou os polegares para acariciar o local.
— Ciumento? Eu? — Ele bufou em uma tentativa de fingimento. Seu olho, porém, o traiu ao brilhar com um lampejo de vulnerabilidade.
— Foi só um beijo, caso queira saber — confessou ela. — Aegon e eu nos beijamos naquela noite quando ambos estávamos muito bêbados para pensar direito. Não que o Aegon pense direito em qualquer momento, claro. — Ela riu um pouco. — Seu irmão queria mais, ele queria… você sabe. Mas eu dei um soco na cara dele e fui embora. Foi quando retornamos e toda aquela confusão tinha acontecido.
— Você deu um soco nele? — Ergueu as sobrancelhas, admirado.
A revelação da garota mexera com ele. Não gostava nem de imaginar que Aegon já havia tocado Velaryon e seus doces lábios. Logo o Aegon. O ciúmes inundara sua maldita mente outra vez, mas a menção do soco lhe trouxe satisfação. Aegon merecia.
— Bem, eu não ia deixar ele esfregar aquelas mãos safadas por todo o meu corpo. — Retorceu os lábios. — Pensando bem, eu poderia ter arrancado um olho dele se eu tivesse com uma adaga em mãos, mas… — parou de repente, dando conta do tipo de zombaria que estava fazendo.
A diversão de Aemond, assim como a dela, murchou tão rápido quanto havia brotado. Seu olho se arregalou. Ele abriu a boca para xingá-la, repreendê-la por ter feito aquilo, mas controlou seus impulsos enfurecidos.
— O que acabou de dizer? — Ele estreitou o olho.
— Ia dizer que eu infelizmente não tinha uma adaga como Lucerys tinha. — Ela engoliu em seco, pronta para ser atingida em cheio pela fúria do príncipe. E aquilo, de fato, acendeu um fogo dentro dele.
— Você… Você ia mesmo dizer isso? — indagou entredentes. — Ia fazer uma piada sobre o meu…? — Sacudiu a cabeça, sem conseguir terminar a frase. A dor da perda do olho sempre seria uma ferida mal cicatrizada em seu coração.
— Foi uma piada terrível e maldosa. Sei disso e sinto muito. Eu não pensei… — balbuciou, então olhou bem para o príncipe. — Ah, por favor! Não aja como se não quisesse ver o Aegon com um olho a menos.
A declaração final o fez hesitar. Ele realmente nutria uma profunda antipatia por seu irmão mais velho, e o pensamento de vê-lo sofrendo um destino semelhante ao seu despertou uma alegria sombria dentro dele.
— Tudo bem — aceitou amargamente, cerrando os punhos. — Você não está totalmente errada. Eu não me importaria mesmo de ver o Aegon com um olho a menos.
— Ou uma cabeça a menos — ela acrescentou sem pensar.
— Uma cabeça a menos? — repetiu, de olho arregalado.
Havia chocado-se com o tom casual de ao dizer uma coisa daquelas. Aemond fitou-a, a raiva sendo ofuscada aos poucos por assombro e fascínio. Seu coração batia tão forte que parecia que ia pular para fora de seu peito. Parte dele ficou espantada por ouvir aquelas palavras saírem dos doces lábios da princesa, mas outra parte — uma mais sombria e primitiva — achou isso estimulante.
— Acha que eu não sei que, lá no fundo, você deseja ser o Aegon? — ela o incitou. — Quero dizer, ter o que ele tem, sabe? O primeiro filho homem que metade dos Setes Reinos apoiará contra a reivindicação de minha mãe quando o vovô Viserys se for.
Aemond vacilou por um momento. havia tocado em uma verdade que ele escondera de todo mundo por muito tempo, até de si mesmo. Sim, uma parte dele queria o que Aegon teria — o trono, o poder, o respeito. Mas a garota jogar isso na sua cara, em voz alta, o fazia se sentir vulnerável, completamente exposto.
— E se for verdade? — desafiou com a voz ligeiramente trêmula. — E se eu, de fato, desejar isso? E então?
— Você e eu no trono resolveria muitos dos problemas que nossas mães criaram, não resolveria? A união de Verdes e Pretos… — Ela soltou um longo suspiro. — Mas, de qualquer modo, minha mãe viria antes, e eu sei que você não quer isso, já que é um homem e defende os Verdes com paixão.
O rosto de Aemond contorceu-se, expondo raiva, frustração e certa admiração de um jeito tão claro e real que a princesa pôde ler seus desejos e medos como se ele fosse um livro aberto.
— Você faz parecer tão simples quando fala assim — respondeu com sarcasmo. — Só você e eu no trono. Como se alguma coisa pudesse ser tão fácil nesse mundo caótico…
— Pois é, Aemond, nada é fácil — retrucou ela. — E é por isso que, quando meu avô morrer e vocês derem o golpe que pretendem, eu me tornarei uma refém aqui em Porto Real e você terá de se contentar com o seu irmão bêbado no trono.
— Não vou simplesmente me contentar. Nem com Rhaenyra, nem com Aegon — confidenciou. Uma faísca de raiva queimava em seu interior ao pensar em como e ele eram apenas outros peões no jogo dos tronos. Seu olhar buscou pelo dela como o cativo busca pela liberdade. — Você não será nossa refém. Não enquanto eu estiver vivo.
— Então serei apenas a sua refém — reconheceu. — Não me importo com o Aegon, sério mesmo. Você poderia queimá-lo e eu ainda não daria a mínima. Mas a princesa Rhaenyra é a minha amada mãe, e eu não ficarei calada enquanto você fala um monte de merda sobre ela. Esteja avisado.
— Não se importa de ser a minha refém, então? Que generoso da sua parte — ironizou. — E quanto a sua mãe, suponho que terei que tomar cuidado com a minha língua em sua presença, então. Que… irritante.
— Bem, não acho que eu tenha uma escolha. Se vocês derem um golpe, terei de ficar aqui e ninguém me deixará ir. Se eu não for refém deles, sempre serei a sua — explicou. — E sim, é melhor ter cuidado com a língua, porque agora eu tenho uma adaga. — Ela piscou para ele, que não pôde deixar de rir.
— Ah, sim, a adaga que o Daemon te deu — disse ele, sua voz transbordava uma apreensão fingida. — Terei de ter cuidado perto de você, né? Vai que você decida enfiá-la no olho que me restou.
— Eu nunca faria isso. — Ela riu. — Você tem que ter pelo menos um olho para poder olhar para mim, Aemond Um-Olho.
O príncipe revirou o olho, mas os cantos de seus lábios se ergueram em um sorriso divertido. A leveza do comentário foi uma mudança refrescante da tensão e conflito habituais que cercavam suas vidas desde que eram crianças.
— Ah, que benevolente de sua parte, princesa — disse em um tom de zombada gratidão. — Poupar o meu olho bom apenas para que possa admirar sua beleza. Como você é generosa!
— Eu tenho algumas prioridades, digamos assim — sorriu, zombeteira. — O que você acabou de dizer? Minha beleza, é?
As bochechas de Aemond coraram de leve ao perceber que havia deixado algumas palavras escaparem sem pensar. Ele se levantou, afastando-se um pouco.
— Eu… — Aemond limpou a garganta, tentando recuperar a compostura. — Bem, sim, sua beleza. Isso não é algo que possa ser negado. — Ele desviou o olhar, fixando-o em um ponto no chão, como se o ato pudesse tornasse sua admissão menos embaraçosa.
— Olhe para mim, Aemond — pediu ela, levantando-se também. — Em breve seremos marido e mulher.
— Marido e mulher — ecoou em um sussurro. A menção ao casamento iminente fez sua boca secar. — Você… está realmente preparada para isso? Para ser minha esposa?
— Você está preparado para ser meu marido? — rebateu.
— Eu… Eu acho que sim — respondeu, transparecendo a dúvida que o tomava enquanto a realidade da união deles tornava-se cada vez mais tangível e avassaladora. — Quer dizer, estou pronto para assumir a responsabilidade. O… o título. — Seu olhar procurou o dela em busca de segurança.
— Sim, a responsabilidade e o título — disse ela. — Para ser sincera, nunca estou preparada para nada na minha vida.
— É mesmo? — Ele riu, entretido com a confissão dela. — Nunca preparada para nada? Nem mesmo para o seu próprio casamento?
— Especialmente não para o meu próprio casamento — respondeu, de mãos trêmulas. — Mais cedo, quando desembarquei em Porto Real, eu nem sabia que seria prometida a alguém e que nunca mais pisaria em Pedra do Dragão. — Seu coração pulou uma batida à menção de seu antigo lar e sua nova união. — Jamais imaginei que me tornaria sua esposa, Aemond, não com toda essa inimizade entre Verdes e Pretos.
— Nem eu. Nunca pensei que me casaria com uma Velaryon, ainda mais com uma bastarda. — Ele pegou as mãos dela, seus dedos firmes envolvendo-as com gentileza. — Mas… aqui estamos.
— Está louco? — Ela desvencilhou suas mãos das dele e deu um forte tapa em seu rosto. — Não me chame de bastarda, me ouviu bem? Sou uma Velaryon de Derivamarca, feita de sal e mar. O que importa é o nome, não o sangue.
— Você… Você acabou de me dar um tapa? — Aemond moveu-se lentamente na direção dela, que deu alguns passos para trás, mantendo uma distância segura, até que suas costas encostaram na parede. — Eu falei sem pensar — disse ele, que não estava com raiva, apenas confuso e, de certa forma, respeitando-a ainda mais pela audácia. — Eu não quis te ofender, .
— Claro que não. Você nunca quer, né? — Revirou os olhos, dando um passo à frente. — Às vezes você simplesmente me faz querer… — Ela agarrou o pescoço dele, sofrendo com a vontade de apertar até o sufocar, de tocá-lo, de senti-lo.
O corpo dele se enrijeceu, a respiração ficou presa na garganta, e o calor do toque enviou-lhe arrepios através da espinha.
— Querer o quê? — balbuciou, sem mover-se para afastá-la. Em vez disso, inclinou-se para apreciar o contato. Seu olho se fechou por um instante no qual ele inalou profundamente. Dividido entre raiva e desejo, a ambivalência de emoções retumbando dentro dele como trovões de uma forte tempestade.
— Reaja! — a princesa implorou. — Por que não reage?
queria que ele brigasse com ela, que a sentisse, que sentisse com ela. A garota desejava machucá-lo, mas também queria cuidar dele, sentir o seu toque. Aemond abriu o olho. A sensação dos macios dedos dela, o som de sua voz clamando por uma reação dele… Era demais para resistir. Com um rosnado baixo, parecido com um gemido, ele tirou a mão dela de seu pescoço. Agarrou, então, seus dois pulsos e prendeu-os contra a parede, pressionando seu corpo contra o dela, imobilizando-a.
— É isso o que você quer? — sibilou com raiva, frustração e, mais do que tudo, lascívia. — Uma reação? Ou quer me sentir reagindo?
— Eu quero sentir você — confessou como se fosse seu segredo mais obscuro.
A respiração do príncipe falhou e ele aproximou seu rosto do dela, deixando seu olhar passar avidamente por suas feições.
— Quer me sentir? — ecoou em um suspiro rouco. — Você não faz ideia de quanto tempo eu desejava te tocar, te segurar assim.
Libertou os pulsos dela e agarrou seus quadris, puxando-a ainda mais para perto. Ela jogou seus braços ao redor dele e cortou a pequena distância entre seus rostos. Seus narizes se tocaram, os lábios quase selados.
— Não deveríamos estar fazendo isso antes do casamento — sussurrou, seus lábios roçando nos dele em um contato leve como uma pena.
— Sei que não. — Fechou o olho, tentando controlar os desejos crescentes que continuavam a surgir. — Mas é tão difícil resistir. — Seus dedos se enterram nos quadris da princesa em um aperto possessivo e firme que fez um leve gemido escapar da boca dela. Ele queria se afastar, manter o respeito, mas simplesmente não conseguia se obrigar a fazer isso.
— Aemond, Aemond… — Cerrou os olhos, demorando-se na sensação do aperto dele, e então acabou com a distância entre seus lábios, implorando para senti-lo mais e mais. — Olha o que você faz comigo, meu principezinho.
A pouca determinação que lhe restava para se conter desmoronou-se ao som do nome dele saindo daqueles lábios deliciosos, o apelido carinhoso fazendo seu coração pular uma batida. Ele a empurrou de volta contra a parede, pressionando ainda mais seus corpos. Suas mãos traçaram o corpo da garota como se fosse um mapa importante no qual ele tinha que deslizar seus dedos de um lugar para o outro ao montar uma estratégia. Ele a beijava com uma fome feroz e ardente, sua boca buscando a dela, suas respirações se misturando em uma troca apaixonada de calor.
— Se não pararmos agora… — disse ela, a relutância explícita em sua voz enquanto seu peito subia e descia com a respiração descompassada. — …acabaremos consumando o casamento antes de ele sequer acontecer.
levou sua mão ao rosto do príncipe, acariciando o local em um gesto terno. Aemond fechou o olho para desfrutar melhor o momento.
— Você está… certa — ofegou, a voz transbordando desejo. — Precisamos… parar.
Mas apesar das palavras, manteve-se no mesmo lugar, suas mãos ainda vagando sobre com uma necessidade quase desesperada demais. A princesa repousou sua cabeça no ombro dele e respirou fundo ao mesmo tempo em que ele suspirou, envolvendo seus braços ao redor dela em um abraço íntimo. Ele enterrou o rosto em seus cabelos louro-prateados, inalando o perfume floral. Queriam ficar daquele jeito até o fim dos tempos, fingindo que nada poderia machucá-los nem atingi-los.
O coração de Aemond apertou com o pensamento de que em breve teria de se afastar e retornar aos seus próprios aposentos. tinha outro plano em mente, afinal, queria ficar com ele pelo resto da noite.
— Não tem que ir embora tão cedo — disse ela enquanto ele acariciava suas costas em um toque terno e reverente. Ele queria saborear aquele pequeno instante e mantê-lo seguro em sua memória para sempre. — A minha cama não é tão grande, mas eu poderia dizer que ela foi feita para dois… ao menos esta noite.
Aemond congelou por um momento. A imagem de dividir uma cama com Velaryon — só os dois, na privacidade silenciosa de seus aposentos — era tão atraente quanto perigosa. Sua mente e seu corpo guerreavam um contra o outro, o bom senso batalhando contra o desejo.
— Você… gostaria que eu ficasse? — soou quase surpreso. — No seu quarto? Na sua cama?
— Veja bem, acho que já fomos longe demais aqui, de pé no chão de pedra, contra a parede. — Ela deu de ombros. — Qual a diferença em ter uma cama abaixo de nós? Nós simplesmente não temos que ir além de onde já fomos.
Aemond refletiu com a razão e o desejo. estava certa. Já tinham cruzado uma linha. Qual seria o mal em ficar um pouco mais e aproveitar a companhia dela?, pensou ele. Era só não cruzar outra linha.
— Você está certa — sussurrou, umedecendo os lábios. — Nós… podemos ficar. Aqui. Juntos.



E somos você e eu
Uma tragédia perfeita

“Vanity”
I Killed the Symphony


Velaryon segurou a mão de Aemond Targaryen e o levou em direção a parte mais privada de seus aposentos. Seus corações batiam forte e suas respirações eram pesadas. Ao se deitarem juntos na cama, ele colocou o braço em volta dela e puxou-a para mais perto.
— Pode ficar o tempo que quiser — disse ela, ansiando por fingir que o mundo exterior não existia. — Apenas lembre-se: ninguém pode te ver saindo.
— Não me esquecerei disso — assegurou-lhe, engolindo a confusão de emoções que ameaçava dominá-lo. Enterrou o rosto nos cabelos louro-prateados, inalando o cheiro da garota. — Ninguém me verá, eu prometo.
— Você ainda me odeia? — ela perguntou de repente.
O peito de Aemond se apertou em um eco dos antigos conflitos responsáveis por mantê-los afastados nos últimos anos. Mas agora, com o corpo da princesa contra o seu, esses sentimentos pareciam distantes e sem importância.
— Não, eu não te odeio — garantiu, a voz baixa e sincera. Afastou-se um pouco para fitá-la, seus olhos se encontrando na penumbra do quarto. — Acho que nunca fui capaz de te odiar.
— É bom ouvir isso. — sorriu. — Acho que também nunca te odiei. Eu só odeio que você odeie Lucerys… e eu com certeza odeio o jeito que você me faz sentir.
— Eu… — hesitou, o coração disparado. A verdade nas palavras da princesa eram reconfortantes e inquietantes. Aemond sabia que os sentimentos dela por ele eram tão complexos e conflitantes quanto os dele. — Eu não quero odiar Lucerys — confessou. — Mas a raiva e o… ciúme… é tudo difícil de controlar. Principalmente a raiva — acrescentou rapidamente. — E o que quer dizer com o jeito que faço você se sentir?
— Acho que sabe do que estou falando. — Ela deslizou a mão dele até seu peito para que sentisse as batidas do seu coração.
— Sim — sussurrou ele. — Eu sei. Sinto o mesmo.
— Isso é bom. — Ela acariciou o rosto dele. — Mas o que quis dizer com “ciúme” quando falou sobre o Luke? Pensei que o ódio fosse todo baseado na perda do seu olho.
— Não é só isso, não tem como ser. — Afastou o olhar por um momento. — É… Eu não sei, , o jeito que você olha para ele, que fala dele. O modo como… como se importa com ele. — Voltou a encará-la. — Isso só me faz pensar no quanto quero você para mim.
— Bem, você me tem agora, não tem? — Mordeu levemente o lábio. — E sim, Lucerys é o meu pequeno e precioso irmãozinho favorito. Deuses, Aemond, você sabe que me importo com você também.
Satisfação e desconforto lutavam um corpo a corpo turbulento dentro da mente dele. Aemond não entendia bem o que sentia. Odiava Lucerys por causa do olho e por tudo aquilo ter afastado e ele. E por mais que ela agora estivesse ali, em seus braços, e que logo se tornaria sua esposa… ainda assim, temia que a afeição da princesa por Lucerys continuasse sendo uma barreira entre eles. E não queria isso.
— Sei que se importa comigo, mas, por vezes, parece que seu amor por ele é… é mais forte. — Respirou fundo, tentando afastar sua possessividade. — Eu só… Eu quero você só para mim, .
— Espera um pouco — disse ela, pensando na escolha de palavras dele. — Então você quer que eu ame você?
A tensão pairou no ar entre eles, a palavra “amor” sendo ao mesmo tempo estimulante e aterrorizante.
— Sim. — Aemond fixou seu olho nela, a expressão intensa e vulnerável. — Eu quero que você me ame. Eu… quero que se importe comigo como se importa com Lucerys. Mais… Ainda mais, se for possível.
— Amor… talvez seja realmente isso o que você me faz sentir — refletiu. — Mas não deveria se preocupar com o meu amor pelo Luke, Aemond. Apesar de todo o histórico da nossa família de irmão com irmã, esse é um tipo diferente de amor. — Tocou seu braço, deixando os dedos deslizarem sobre a pele. — Além disso, se eu tivesse um relacionamento amoroso com qualquer dos meus irmãos, seria com Jace.
O ciúme o envolveu outra vez, junto com genuína confusão. Como o amor dela por Lucerys era o mais forte, não esperava por um comentário daqueles.
— Jacaerys? — repetiu, tentando não demonstrar incômodo. — Por que ele?
— Por que quer saber? Está com ciúmes, meu principezinho? — provocou-lhe. — É porque Jace é um pouco mais velho. Lucerys é jovem demais para o meu gosto. De qualquer forma, nunca tive nenhuma inclinação romântica por nenhum deles. Meu amor pelos meus irmãos é de um tipo diferente. É fraternal. E Lucerys, bem… — ela suspirou. — Luke tem um lugar em meu coração que ninguém jamais tirará. Ele é uma coisinha preciosa que eu protejo desde o dia em que nasceu.
Ele soltou um pequeno suspiro, seu olho estudando o rosto dela enquanto tentava processar aquelas palavras.
— Eu entendo — disse, mesmo sem ter certeza de que era verdade. — Seu amor por seus irmãos é diferente. E eu respeito isso, mas…, Mas… — Esforçou-se para transformar o emaranhado de emoções que sentia em algo inteligível para expressar para a garota, mas não conseguiu.
— Mas você ainda odeia o fato de eu amar Lucerys Velaryon, o garoto que te machucou — completou para ele, que acenou lentamente em concordância.
— Sim! — exclamou, a voz grossa de raiva. — Eu ainda odeio que você ame o Lucerys, ele me… machucou. Ele tirou o meu olho. E, ainda assim, você se importa com ele. — Soltou uma risada amarga. — Eu tento, juro que tento, mas não faz sentido para mim.
— Talvez o meu sentimento pelos meus irmãos lhe seja inconcebível porque você não ama os seus. Deuses, Aemond, você está agindo como uma criança! — explodiu, afastando-se um pouco para fitá-lo e libertando-se de seus braços. Uma pontadinha atingiu seu estômago ao ver o olhar em seu olho. — Meu principezinho ciumento, ciumento, ciumento. — Deixou escapar um longo suspiro. — Lucerys é o meu irmão. Sei que isso não vale muito em uma família Targaryen, mas ele é o meu irmão favorito e somente isso. Além do mais, ele vai se casar com Rhaena e toda aquela coisa que foi decidida mais cedo quando estávamos juntos. E eu, Aemond… Eu vou me casar com você.
— Você vai se casar comigo — ecoou, sentando-se em um movimento tenso e espasmódico. — E ainda assim, o ama mais. Nunca vai me amar como você o ama, .
— Porque ele é meu irmão! Pelo amor dos deuses, Aemond, quando diz respeito a esse tipo de coisa é como se voltasse a ter dez anos, quando tínhamos nossos próprios sonhos do nosso possível futuro juntos apesar das merdas de rivalidades entre o seu lado da família e o meu — resmungou. — Éramos duas crianças sonhando o impossível.
— Se fosse impossível não estaríamos aqui — murmurou.
— Exatamente! E eu amo você, sim — finalmente confessou com todas as palavras. — Meu coração bate mais rápido por você. — Aproximou-se dele o máximo que pôde e fez com que ele pousasse a mão em seu peito outra vez. — Não consegue ver que eu queimo por você, Aemond?
— Você… Você queima por mim? — sussurrou, olhando bem para ela com uma mistura de surpresa e desejo.
— Não consegue ver? — repetiu. — Eu amo tanto o Luke que não consigo colocar em palavras, mas ele é meu irmão, meu amigo. Você, por outro lado… — Mordeu o lábio. — Você, Aemond… Jamais poderia amar o Lucerys do jeito que eu te amo.
— Está dizendo que… me ama mais do que a ele? — perguntou, confuso, mas havia uma pitada de vulnerabilidade em seu olhar. — Diga de novo — implorou, pressionando seus dedos contra a pele da garota como se quisesse agarrá-la e mantê-la ali para todo sempre.
— Isso é uma porra de obsessão com o Lucerys, sabia? — provocou ela, um pouco irritada. — Não ser capaz de amar o Luke do mesmo jeito que eu te amo não significa que eu te ame mais. Só significa que amo vocês dois de maneiras diferentes. Meu amor pelo Luke é apenas fraternal, enquanto o meu amor por você é uma chama ardente que nunca se apaga nem mesmo em uma poderosa tormenta das Terras da Tempestade.
A raiva e o ciúmes incendiados pelas provocações se abrandaram conforme ela explicava. Aemond detestava refletir sobre estar agindo como uma criança, porém havia vezes em que suas reações em relação a Velaryon eram tão primitivas que se tornava difícil até mesmo objetar contra. Ele, enfim, compreendeu que o amor dela por Lucerys era um amor construído em uma história fraterna compartilhada e não romântica. Mas o amor da princesa por ele era diferente. Era feroz, avassalador, uma chama que jamais se extinguiria. Ela, de fato, arde por mim, pensou ele. E eu ardo por ela.
— Nós queimamos juntos — deixou escapar, então respirou fundo. — Eu entendo agora. Seu amor não é menos, é apenas… diferente.
— Era o que estava dizendo o tempo todo! — Ela quase riu de alívio.
O príncipe Aemond suspirou, relaxando o corpo ao mesmo tempo em que lutava contra sua possessividade.
— Sinto muito — pediu, massageando suavemente a parte descoberta do peito dela. — Deveria confiar mais em você. Eu só… fico com tanto ciúmes às vezes. E você é minha.
— Agora eu sou… toda sua — falou, mas riu um pouco ao absorver tudo o que ele havia dito. — Você falou “às vezes”, não foi? Está mais para o tempo todo.
— Sim, o tempo todo. — Apesar de rir em concordância, uma pitadinha de timidez transpareceu em sua voz. — Não consigo evitar, minha princesinha. Você desperta a fera possessiva em mim.
— Eu sei. E eu meio que gosto disso — confessou, enfim sentindo-se sonolenta.
Aemond prendeu a respiração, orgulho e desejo revirando-se dentro dele pela admissão dela. acariciou seu braço e deitou a cabeça em seu peito. Ele envolveu os braços em volta dela, segurando-a perto.
— Você gosta, é? — Beijou o topo da cabeça dela em um gesto de ternura. — Ótimo, porque você nunca mais vai se livrar de mim.
— Que tragediazinha nós somos, hein? — disse ela, um tom divertido na voz. — Suas palavras parecem uma ameaça… Uma das boas.
— Hmm… É uma promessa, na verdade — corrigiu com uma leve risadinha. — Você é minha, . — Sua mão vagou pelas costas da princesa, que se arrepiou com o toque. — E eu faria qualquer coisa para mantê-la ao meu lado. Lutarei por você, te protegerei, terei você só para mim.
— Então vamos torcer para que esse casamento aconteça o mais rápido possível — desejou ao fechar os olhos para dar boas-vindas a um possível sono.
— Sim — concordou ele, ainda acariciando suas costas. — Quanto mais cedo, melhor. Mal posso esperar para te fazer minha de todas as maneiras possíveis.
sorriu, sonolenta, mas não disse nada. Aemond, então, pressionou os lábios no topo da cabeça dela em um beijo gentil de boa noite e manteve os seus braços apertados ao seu redor até os dois adormecerem.



Acho que é melhor eu ir
Antes que tente algo
Do qual eu possa me arrepender

“Honey Whiskey”
Nothing But Thieves


Velaryon acordou aos poucos, ainda envolta na languidez do sono e no calor familiar do corpo de Aemond Targaryen contra as suas costas. O braço dele repousava frouxo em sua cintura, pesado e seguro, e a respiração tranquila do príncipe roçava-lhe a nuca em um ritmo quase hipnótico. A princesa sorriu, sonolenta, virando-se para olhá-lo. Deuses, ele dorme como a coisa mais preciosa vinda dos sete céus, pensou.
E por um breve momento, se permitiu fingir que aquele era um despertar comum — como se o mundo lá fora não existisse, como se não houvesse muros, criados, títulos ou consequências, como se jamais tivesse existido a disputa de sucessão entre Pretos e Verdes. E então ela despertou de seu sonho de canção.
— Sete infernos! — praguejou baixinho e sacudiu o príncipe. — Aemond, acorde!
— Hmm? — perguntou ao abrir o olho, dando de cara com ela; uma visão perfeita. Ele sorriu. — Bom dia, , minha princesa.
Deuses, como ele podia ser tão… fofo em um momento desses? O coração de batia rápido demais, como se quisesse escapar-lhe do peito. Bastava um criado curioso, um passo fora de hora no corredor, um sussurro mal interpretado — e tudo o que haviam construído com tanto cuidado sob circunstâncias complicadas poderia ruir antes mesmo de começar de verdade.
— Está brincando comigo? Você tem que ir. Agora. — O nervosismo transpareceu em sua voz. — Somos prometidos, não casados. Ainda que não tenhamos feito nada além de dormir, ninguém pode te ver na minha cama.
Aemond gemeu, ainda sonolento. Ele levou um momento para registrar o motivo do pânico nos lindos olhos de sua princesa. Quando a névoa do sono finalmente se dissipou de sua mente, falou devagar:
— Certo. — Sentou-se na cama, passando a mão pelo cabelo desgrenhado, e olhou para ela. — Preciso mesmo ir? — Um beicinho se formou em seus lábios. — Eu preferiria passar a manhã aqui com você, minha princesinha.
Aemond sabia exatamente por que precisava sair. Sabia desde o instante em que abrira o olho e a encontrara ali, tão próxima dele que chegava a doer. Ainda assim, havia algo quase rebelde em fingir que aquela manhã poderia ser roubada do destino, nem que fosse por mais alguns minutos. Desde que se reencontraram, ficar com em seus braços até o fim parecia ser tudo o que importava.
— Ah, meu príncipe… — reclamou em meio a um suspiro. — Às vezes é tão difícil resistir a você.
umedeceu os lábios devagar e Aemond quase deixou um gemido estranho escapar quando uma onda de desejo quebrou sobre ele. O príncipe sabia que ela estava certa, que precisava mesmo ir embora antes que qualquer pessoa pudesse vê-lo saindo de seus aposentos. Mas então ele a olhava e tudo caía por terra. A visão da garota com a cara amassada pelo sono, o fitando com aquele olhar brilhante em seus olhos, tornava incrivelmente difícil de se mover.
, … — Ele engoliu em seco. — Como posso ir embora ao te ver assim? Você está tornando isso quase impossível.
— Se eu te beijasse de novo, você partiria? — propôs, e o olho do príncipe se arregalou com a oferta.
No entanto, ambos sabiam que aquilo não ajudaria, afinal não chegava não era uma boa solução — nem perto disso. Se o beijasse, ela mesma não iria desejar sua partida. Iria sempre querer que ele ficasse um pouco mais, a beijasse um pouco mais, a tocasse um pouco mais.
Aemond, por outro lado, já desejava ficar por mais tempo antes mesmo da mera sugestão do beijo fazer sua mente girar, entontecida com a perspectiva. E agora não parecia possível parar de pensar naquilo. A simples ideia fazia algo se retesar dentro dele, despertando seu corpo por inteiro. E o mínimo espaço entre seus rostos não ajudava em nada, só o inflamava ainda mais. O cheiro dela, a proximidade da boca que ele já conhecia tão bem — tudo conspirava contra sua força de vontade.
— Eu… Eu… — Lutou para encontrar as palavras enquanto era consumido pela lembrança de como a apertara e a beijara contra a parede na noite anterior, antes de se deitarem juntos, e de como ela desejava seu toque tanto quanto ele desejava o dela. — Ah, … — Limpou a garganta. — Se me beijar, posso não ser capaz de te deixar nunca mais.
— Uma oferta tentadora que infelizmente não podemos aceitar por enquanto. — Assentiu devagar, quase hesitante demais. — Então terá que esperar até nos casarmos para passar a manhã e o resto de nossas vidas comigo, meu principezinho.
Aemond deixou escapar um resmungo de frustração. Reconhecer que a princesa estava certa não tornava as coisas mais fáceis. Ele queria, mais do que tudo, permanecer na cama dela, envolto em seus braços, mas precisava ser paciente; de outro modo, estragaria tudo.
— Você está testando a minha força de vontade — confessou em um sussurro, contemplando o rosto encantador da princesa. — Acho que vou esperar, então, por mais que eu não queira. — Fez um leve biquinho, contrariado. — Contanto que não demore muito para nos casarmos, é claro.
envolveu o rosto dele em suas mãos e o trouxe até ela para lhe roubar um pequeno beijo. Aemond fechou o olho, saboreando por inteiro aquele breve instante. Sua mão se estendeu para puxá-la mais para perto, seu corpo implorando para que o momento se prolongasse. Mas ele sabia que não podia, que não deveria. Com tremenda relutância, afastou seus lábios dos dela.
— Agora vá! — disse ela. — E não seja visto.
— Você, … Você será a minha morte. — Envolveu a mão dela em uma carícia gentil de despedida, uma promessa do que tentaria oferecer a ela. — Até mais tarde, meu amor.
— Eu serei? — Encarou-o com um leve sorrisinho em seu rosto corado enquanto ele saía da cama. — Não, Aemond. Você será a minha morte — declarou como se fosse um precioso voto.
Ele soltou uma risadinha, seu olho remanescente cintilando.
— Suponho que seremos a ruína um do outro, então. — As palavras ecoaram dentro dele com uma estranha solenidade. Não soavam como brincadeira; soavam como destino. Um sorrisinho dançou em seus lábios com a sensação de que avançava para algo maior do que apenas amor. — E que morte gloriosa será a nossa!
— Gloriosa ou terrível, não importa — declarou ela. — Se for com você, eu aguento.
Aemond umedeceu os lábios quando sorriu para ele. Observou cada pequeno detalhe do rosto, do cabelo e do corpo da garota. Queria guardar cada detalhe na memória antes de dar-lhe as costas relutantemente e sair dos aposentos, cuidando para não ser visto por olhos curiosos.
Não via a hora do casamento acontecer para tê-la só para ele.






Continua...


Nota da autora: Demorou, mas veio aí a cotninuação da noite deles. Em quanto tempo (ou melhor, daqui a quantos capítulos) você acham que esse casamento vai sair?

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Tia Fran ama vcs <3

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