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Codificada por: Saturno 🪐

Última Atualização: 06/09/2025

A quadra principal da Universidade de Massachusetts fervilhava de vozes e passos apressados. Era o início da temporada universitária, e os olhos de todos estavam voltados para os dois times na quadra. estava no centro, com os cabelos presos em um rabo de cavalo alto e a expressão concentrada, a braçadeira de capitã pesando menos do que o orgulho que carregava. Três anos como titular, dois como capitã, MVP no campeonato estadual, e referência absoluta no ataque do time feminino. Ela respirou fundo, girando a bola entre os dedos com a precisão de quem já havia feito aquilo mil vezes — porque tinha. A torcida do time feminino gritava seu nome nas arquibancadas da quadra principal da universidade. Era só mais um saque, mais um ponto, mais uma vitória, mas ela sabia que ele estava ali.
Do outro lado da quadra, encostado na parede junto dos outros jogadores do time masculino, com os braços cruzados e o olhar crítico, estava . Levantador estrela do time masculino, dono de uma arrogância que dava vontade de acertar uma bolada bem no meio da cara dele — e de um talento que ela odiava admirar. Se conheciam desde o primeiro ano e a rivalidade havia sido imediata. Ele chegou como promessa do time masculino e no primeiro treino conjunto soltou a frase que selaria o tom dos anos seguintes:
— É bom ver que vocês também jogam sério. Achei que fosse só recreação.
Desde então, foi uma guerra fria: provocações afiadas, disputas silenciosas por tempo de quadra, olhares que pareciam saídos de uma final de campeonato, e uma obsessiva necessidade de serem melhores um que o outro. não perdia para ninguém, exceto, às vezes, para . E é claro que ele estaria lá, assistindo. Nunca perderia a chance de torcer para que ela errasse. Mas ela não errava.
Com um salto firme e um giro preciso, o saque cruzou a quadra como uma flecha. Ace. O apito final soou alto, quase abafado pelos gritos da torcida, declarando a vitória da UMass. Rivers ergueu os braços, o coração acelerado mais pela adrenalina da jogada final do que pelo placar em si, e as meninas correram até ela, pulando, gritando, se abraçando como se tivessem acabado de ganhar um campeonato — e, de certa forma, tinham. Era o jogo mais importante da pré-temporada, contra uma equipe temida, e elas tinham atropelado. No canto da quadra, continuava na mesma posição, mas agora havia um meio sorriso nos lábios, discreto, quase imperceptível. Só que sempre notava. E, quando virou para a arquibancada, os olhares se cruzaram por um segundo, até ele erguer uma sobrancelha, meio desafiador, meio provocante.

A festa começou horas depois, no campus, num dos alojamentos dos atletas, com música alta, luzes coloridas, e a mistura clássica de suor, cerveja barata e competição pairando no ar. O time feminino entrou como celebridade e , no centro de tudo, dançava no meio da sala, rindo alto, o cabelo solto e a medalha provisória do “MVP do dia” pendurada no pescoço com uma fita improvisada. E, mesmo em meio à multidão, a viu. De longe, fingindo conversar com os colegas de time, ele a observava — disfarçado, claro —, como sempre fazia. Era quase um esporte à parte: ignorá-la com precisão cirúrgica em público, mas notar cada detalhe — o jeito como ela jogava o cabelo para trás, o riso que escapava fácil demais, a forma como dominava qualquer espaço em que entrava. Ela era boa demais e irritantemente consciente disso.
— Vai continuar encarando ou vai fazer alguma coisa? — Perguntou Lucas, seu melhor amigo e oposto do time.
— Tô só esperando ela tropeçar. Todo mundo tropeça em algum momento. — deu um gole na cerveja. — Ela não pode ser perfeita o tempo todo.
— Sei… e você não tá nem um pouco interessado, né?
bufou, desviando o olhar.
— Me poupe.
A noite seguiu entre músicas, danças e o tradicional jogo de desafios dos estudantes. Copos se empilhavam, risadas aumentavam de volume, e alguém gritou do outro lado da sala:
Beer pong das estrelas, valendo aposta!
Imediatamente, as rodas se abriram para formar a “arena” improvisada, copos vermelhos foram colocados sobre uma mesa e todos se juntaram em volta, como se assistissem a uma final olímpica. Ana se levantou em um pulo e puxou pelo braço.
— Eu e você, você e eu. Agora.
— Você já ta bêbada?
— Só o suficiente pra te fazer perder a vergonha e me ajudar a massacrar esses dois. — Apontou diretamente para Lucas e , que estavam do outro lado da sala, pegando cerveja. — É, isso mesmo. A gente vai destruir vocês.
— Vai sonhando… — respondeu Lucas, se aproximando. — Eu e aceitamos.
ergueu os olhos na direção delas e arqueou uma sobrancelha, aquele mesmo olhar provocador que conhecia bem demais.
— Vai se esconder atrás da Ana agora, ? — Provocou, se aproximando. — Ou vai admitir que precisa de ajuda?
— E você vai se esconder atrás do Lucas? Faz sentido… — ela respondeu, pegando uma bola de pingue-pongue da mesa. — … treino com ele já deve ser o suficiente pra você.
sorriu com uma calma irritante.
— Melhor treinar com alguém que desafia, do que com alguém que joga fofo.
— Você não acabou de me chamar de fofa, né?
— Eu disse que você treina fofo. Tipo, muito polido, muito técnico. Sem graça.
— Engraçado, vindo de alguém que treina como se estivesse filmando um tutorial no YouTube. Tudo ensaiado, nada natural.
— Ok, calma lá, casal. — Lucas levantou as mãos. — Vamos resolver isso no jogo.
— Quer apostar? — lançou, os olhos cravados nos dela.
encarou, sentindo aquele arrepio conhecido que sempre vinha com os desafios dele.
— Apostar o quê? — Arqueou uma sobrancelha.
Lucas foi mais rápido.
— Quem perder entre vocês dois faz o treino do outro por um mês. Nada de plano próprio, nem de adaptar. Mesmos horários, mesmos exercícios e a mesma rotina.
— Sem desculpas, sem faltar… castigo completo. — Ana completou.
— Um mês é sacanagem. — disse de imediato, recuando meio passo.
— Ah, não começa… — a amiga rebateu. — Vai amarelar agora?
— Vamos, . — Alguém do fundo gritou. — Cadê a capitã confiante?
apenas deu um gole na cerveja e a olhou de lado. Não falou mais nada, mas seu olhar dizia tudo: estava esperando, com calma, como se soubesse que ela não aguentaria recusar. E ele estava certo.
— Tá, fechado.
A plateia explodiu em gritos e vaias amistosas, e os copos começaram a ser enchidos. As duplas se posicionaram de cada lado da mesa — Ana e de um, Lucas e de outro. As primeiras rodadas foram equilibradas. A capitã acertava com precisão irritante, enquanto o levantador respondia com a mesma frieza calculada. Mas então começaram as provocações:
— Só lembrando que alongamento não substitui intensidade. — disse, antes de jogar.
— E só lembrando que treinar em câmera lenta não é técnica, é preguiça. — retrucou, acertando um copo com perfeição. — Isso foi falta de mira ou você anda perdendo o foco? — Provocou, depois de ele errar por pouco.
— Só estou me adaptando ao seu nível, gatinha. — Ele devolveu, já enchendo o próximo copo.
— Me admira conseguir se adaptar a alguma coisa além do próprio ego.
— Falou a Miss MVP.
As provocações aumentaram e os erros também.
— Você tá me desconcentrando, para de falar. — Ela resmungou.
— Ah, eu que tô te atrapalhando agora? — fez uma pausa antes de lançar uma indireta mais pessoal: — Deve ser difícil carregar tanta pose de perfeição o tempo inteiro, né?
— Melhor do que viver fingindo que nada importa pra não precisar lidar com expectativa. — respondeu, sem nem pensar.
O silêncio que se seguiu durou meio segundo, o suficiente para ela se distrair, e a próxima bola de acertar direto o último copo. Vitória. Lucas vibrou, Ana fez uma careta, e piscou devagar, percebendo tarde demais o que acabara de acontecer.
— Não… e-eu me distraí.
— Não interessa. — respondeu, com um sorriso calmo demais para quem sabia exatamente o que estava fazendo. — Perdeu.
Ana já ria, mesmo derrotada.
— Foi a aposta, amiga. Você vai amar treinar como ele. Circuito de 7 da manhã, salto com peso, essas coisas.
fechou os olhos e suspirou, enquanto apenas deu um passo mais perto, a voz baixa o suficiente para só ela ouvir:
— Parabéns, MVP. Agora somos colegas de treino.
levantou os olhos e o encarou.
— Vou fazer você se arrepender dessa vitória.
— Vai ter que me acompanhar primeiro.

Sete da manhã. encarava o relógio do celular como se pudesse adiar o inevitável. O sol mal tinha subido por completo e ela já estava na quadra auxiliar, de moletom e cara amarrada, girando a garrafa de água entre os dedos. Pontualidade era uma coisa que ela respeitava, mas odiava admitir que ele também. fazia embaixadinhas com a bola de vôlei como se estivesse aquecendo para um campeonato mundial de arrogância.
— Bom dia, parceira. — Disse assim que a viu, como se aquilo fosse uma piada interna. — Achei que fosse te encontrar fugindo pela porta dos fundos.
— Ainda tô considerando essa opção. — Ela respondeu, jogando a mochila no chão. — Mas não quero te dar o prazer da vitória tão fácil.
— Que bom, porque hoje é dia de ver se você aguenta o meu ritmo.
— O seu ritmo? — riu, sarcástica. — Acordar cedo e fazer circuito de ego não conta como treino.
— Vamos ver quem pede água primeiro, então.
— Se eu pedir água, é pra jogar na sua cara.
Ele riu, sem perder o ritmo da bola nas mãos.
— Você fala como se não gostasse quando alguém assume o controle.
parou por um segundo, depois respondeu, olhando direto nos olhos dele:
— Gosto quando quem tenta controlar sabe o que tá fazendo. O que não é o seu caso.
— Você ia se surpreender. — deu um meio sorriso, lento e perigoso. Ele era um problema. Um daqueles que vinha embrulhado em talento, confiança demais e uma camiseta justa demais para aquela hora da manhã. — O plano é vinte minutos de aquecimento, depois trabalho de recepção, defesa e levantamento. — Instruiu, pegando uma bola e girando nos dedos com a mesma habilidade irritante que ela fazia.
bufou, mas seguiu o ritmo. Começaram com corrida leve ao redor da quadra, em silêncio, os tênis ecoando no chão encerado. Depois vieram os movimentos articulares — rotação de ombros, braços, quadril —, abdução e adução de coxa, extensão do tronco e alongamento posterior. liderava, como se tivesse feito aquele circuito um milhão de vezes — porque provavelmente tinha.
— Troca o lado. — Disse, puxando o corpo para um agachamento profundo. — Respira pelo nariz, solta pela boca. Isso vai ativar o quadríceps e soltar a lombar.
— Tá tentando me impressionar com vocabulário técnico? — Ela perguntou, arqueando uma sobrancelha.
— Só tentando evitar que você trave no meio da sessão. — Retrucou, sem perder o ritmo, até parar atrás dela. — Esse aqui é novo pra você. Rotação escapular com extensão controlada. Ajuda na potência do braço de ataque.
— Eu treino faz dez anos, . Não preciso de tutorial.
— Só faz, confia. — fez a primeira tentativa sozinha, mas o braço travou no meio do caminho. — Tá contraindo o trapézio, deixa eu mostrar. — Ela não respondeu, mas também não se afastou. A mão dele segurou seu antebraço, a outra tocou de leve o ombro, guiando o movimento com calma, e sentiu o calor da pele dele mesmo com o moletom fino. Sentiu o controle, a firmeza e, pior, o corpo dela estava obedecendo. — Relaxa os ombros… — disse, a voz baixa, perto demais do ouvido. — Deixa o movimento vir da escápula, não do pescoço.
— Assim?
— Ainda tá tensa. Talvez seja o meu toque…
— Ou talvez seja a raiva que eu sinto de você. — A capitã respondeu, seca, dando um passo para frente e escapando dele.
sorriu por trás, e odiou que ele tivesse percebido. Porque, sim, o maldito exercício fazia efeito. Ela terminou a série com os braços soltos, os ombros muito mais leves e um incômodo que não era exatamente físico.
— Pronta pra parte que realmente importa? — O levantador perguntou, andando até a rede e pegando uma bola.
— Desde o momento em que cheguei. — Respondeu, ajeitando o elástico no pulso.
lançou a bola para sem aviso, que pegou no ar com um reflexo rápido. O silêncio que se seguiu foi quase tão pesado quanto a bola que ela lançou em seguida, direto para ele, que mergulhou, recebeu, e devolveu no tempo certo. Eles eram bons, e sabiam disso.

Trabalhar juntos era perigoso justamente por isso: funcionava.

Passaram a primeira hora em um ritmo intenso, sem muitas palavras, apenas bolas, suor e trocas de olhares entre um movimento e outro. Quando ela corria para uma cortada, ele já estava pronto para levantar. Quando ele puxava um contra-ataque, ela já lia o jogo como se estivesse dentro da cabeça dele.
— Você sabe que se a gente continuar assim, vão querer colocar a gente pra jogar misto no torneio interno. — disse, depois de um rally absurdo que acabou com ela cravando uma diagonal perfeita.
— Ninguém é louco de tentar colocar fogo e gasolina no mesmo time.
— Às vezes é isso que faz o jogo ficar interessante.
Ela bufou, pegando a toalha e limpando o rosto.
— Só estamos aqui por causa daquela aposta ridícula.
— Claro. E também porque você odeia perder, ainda mais pra mim.
— Eu não perco pra você.
— Então foi o quê ontem? Um surto coletivo?
se aproximou, parando a menos de um passo dele.
— Ontem eu estava distraída. Tinha gente demais, música demais… idiotas demais.
— E você dançando no meio de tudo… — ele disse baixo, encarando-a de um jeito que a fazia esquecer como se respirava. — Também era parte da distração? — Ela mordeu o interior da bochecha, sem responder, e sorriu, dando um passo para trás, como quem vencia uma provocação só pelo silêncio do outro. — Mesma hora amanhã?
— Só se você vier disposto a treinar de verdade.
— Sempre estou. Só não garanto que vá manter o foco… com você por perto. — tentou ignorar, mas o jeito como ele falou — baixo, direto, com aquela confiança insolente — deixou um arrepio passar pela espinha. Ela pegou a garrafa e virou de costas, como se encerrar a conversa fosse o suficiente para encerrar o efeito que ele tinha, mas não era. Ele a seguiu até o banco onde as mochilas estavam. — Vai mesmo fingir que não gostou do treino?
— Foi… suportável. — Respondeu, sem encará-lo.
— Suportável? — Ele deu um riso curto. — Você teve os melhores levantamentos da semana.
— Eu tenho bom repertório, então me adapto fácil.
— Ou talvez o problema nunca tenha sido o levantador.
virou o rosto para ele, devagar.
— Você quer dizer que eu sou o problema?
— Tô dizendo que talvez… — se inclinou um pouco, apoiando uma mão no banco atrás dela. — … você funcione melhor quando para de fingir que não quer se conectar.
sentiu a pulsação no pescoço, a respiração um pouco mais curta, o cheiro dele misturado ao suor e à madeira da quadra.
— Sabe o que eu acho? — Disse, baixo.
— O que?
— Que você fala demais.
— E você pensa demais.
Ela soltou uma risada breve, sem humor, mas com algo que ele soube reconhecer: nervosismo.
— Vai me dizer que essa foi uma conexão? — Ela provocou.
— A gente pode testar de novo amanhã. — Ele respondeu, sem recuar nem um centímetro. — Várias vezes, se precisar… e de várias formas diferentes…
desviou o olhar por um segundo, porque encarar direto seria ceder — e isso não fazia parte do plano.
— Só se você trouxer um desodorante mais forte… porque se essa tensão não me matar, o cheiro vai.
riu, finalmente recuando, jogou a garrafa de água no ar e a pegou com facilidade.
— Até amanhã, capitã.
Ela não respondeu, só o observou sair da quadra, o corpo ainda acelerado pelo treino, a mente pior. Era só o primeiro dia.

Mais tarde, se sentou no degrau de concreto em frente ao prédio de Humanas, com um café na mão e a cabeça em outro lugar. Tentava prestar atenção na conversa de Ana, mas seus pensamentos ainda estavam presos na quadra, naquela última troca de olhares, naquele quase que ficou entre ela e .
— Você vai ficar encarando esse café até ele evaporar? — A amiga perguntou, mordendo um pão de queijo e arqueando uma sobrancelha.
— Tô pensando.
— Isso me preocupa.
bufou e deu um gole no café, ainda quente demais.
— Foi só um treino.
— Ah. Então foi alguma coisa. — Ana sorriu, satisfeita.
— Não começa.
— Eu só tô perguntando como foi o primeiro dia de convivência com o seu arqui-inimigo número um, astro do time masculino, bonitão irritante, .
— Foi tranquilo, treinamos, ele é insuportável. Fim da história.
— Tranquilo? Você parece que saiu de uma luta emocional com um fantasma. — Ana deu uma mordida teatral no lanche. — Aposto que teve provocação, olhares tensos e frases com duplo sentido. — ficou em silêncio por dois segundos longos demais, o suficiente para Ana acusar. — Eu sabia! Você tá fodida.
— A gente só treinou, Ana. Como dois atletas universitários profissionais. — Ela falava como se estivesse convencendo a si mesma.
Ana estreitou os olhos.
— Você tá repetindo “treinou” como quem tenta transformar um pesadelo em sonho.
ia responder, mas viu algumas das meninas do time acenando e puxou Ana pelo braço.
— Vem. Hora de socializar com gente que não quer me fazer perder a sanidade.
— Tipo o ? — Ana cutucou, já rindo.
Elas se juntaram ao grupo de meninas próximo ao pátio. Conversas sobre a próxima partida, um professor insuportável e um trabalho em grupo foram se entrelaçando ao som ambiente da universidade. Foi quando sentiu um arrepio leve na nuca, como se alguém a olhasse com foco demais, e virou devagar. estava do outro lado da praça, encostado numa pilastra ao lado de Lucas e outros dois caras do time masculino, que riam de alguma piada, mas ele olhava direto para ela. Sem sorrisos convencidos, nem provocações. desviou rápido e voltou a fingir que ouvia a conversa do grupo, mas o arrepio continuou.

Era quase meia-noite quando ela se jogou na cama, ainda com o cabelo úmido e as pernas cansadas do dia corrido. Rolava o feed do Instagram sem muito interesse, só tentando cansar os olhos o suficiente pra dormir. Passou por um meme repetido, uma foto de cachorro, um vídeo do perfil do time masculino… e parou. tinha postado stories há pouco tempo. O primeiro era uma foto com Lucas e mais dois jogadores do time, em algum bar perto do campus. A legenda era só um emoji de cerveja e um “clássico pós-treino”. O segundo era ele sem camisa. A câmera capturava o abdômen, o tênis, a toalha no ombro. A luz do banheiro dava um ar mais espontâneo, mas ela sabia muito bem quando um story era planejado. E aquele tinha endereço. revirou os olhos.

Patético

Ele provavelmente tinha alguma garota em mente ao postar aquilo. Ela deslizou o dedo pra sair do app, mas antes que conseguisse, o celular vibrou com uma notificação do próprio. ficou olhando a tela por alguns segundos, pensando se realmente precisava responder. Ela podia ignorar e fingir que só viu no dia seguinte. Fingir que não se importava. Mas não conseguiu.

Matthews🤮: Amanhã de manhã não rola. Treino extra com o Marques.

: Que falta de profissionalismo, .

Matthews🤮: Saí cedo hoje, lembra? Cansaço é coisa de atleta.
Matthews🤮: Pode ser depois do treino conjunto?

Ela mordeu o canto da boca, pensativa. O treino conjunto, com os dois times, acontecia só algumas vezes no mês. Todos estariam ali e iriam embora juntos — o que tornaria o treino “deles” mais isolado ainda. Um pós-treino particular. Pensou em responder algo afiado, ou dizer que tinha mais o que fazer, mas, no fundo, algo naquele treino ainda rodava por sua mente, como uma bola de vôlei que ninguém conseguia salvar.

: Tá, mas se você se atrasar, eu vou embora com as meninas.

Matthews🤮: Eu já vou estar te esperando, gata.

bloqueou o celular com mais força do que precisava, largou o aparelho na cabeceira e se jogou de costas na cama. Ele sempre sabia como provocar sem dizer nada demais.

O ginásio estava cheio. Jogadores dos dois times, treinadores, assistentes e até calouros curiosos preenchiam os espaços com vozes altas e passos apressados. Era o tipo de treino conjunto que acontecia poucas vezes no semestre e exigia colaboração entre jogadores que mal se toleravam fora da quadra. entrou determinada a manter distância. Depois do último treino com , tudo o que ela queria era foco, técnica e precisão. Nada de olhares, provocações e, principalmente, nada de repetir o que quer que tivesse acontecido entre um alongamento e outro no dia anterior. Mas o universo tinha outros planos.
— Vamos formar duplas para essa próxima etapa… — anunciou uma das técnicas. — Levantamento e ataque. Quero ver sincronia.
se virou, já procurando Ana, mas, antes que pudesse chegar perto, a amiga protestou:
— Acho que a aposta também enquadra os treinos conjuntos, amiga…
Ela parou no meio do caminho, vendo o sorriso tendencioso da outra, com aquela cara de “nem vem, que eu não vou te salvar”. E , claro, já estava parado com a bola nas mãos, como se tivesse previsto aquilo.
— Que ótimo.
— Relaxa… — disse ele, girando a bola entre os dedos. — Além disso, ontem a gente teve uma boa sincronia.
— Foi sorte.
deu um meio sorriso.
— Então vamos tentar ter sorte hoje também.
A frase pairou entre os dois como um desafio que nenhum deles ousava aceitar em voz alta. No primeiro rally, trombaram tentando pegar a mesma bola.
— Eu tava na bola! — A capitã reclamou, levantando do chão com o joelho ralado.
— Você tava atrasada. — Ele rebateu, estendendo a mão para ajudá-la, mas ela ignorou e se ergueu sozinha.
No segundo ponto, levantou uma bola perfeita: alta, precisa, no tempo exato. O corpo de reagiu antes da mente: salto, braço armado, pancada seca. A bola explodiu no chão adversário. Ponto. Ela virou para ele tentando esconder o sorriso.
— Um pouco melhor.
— Viu? Não é tão difícil me acompanhar, MVP.
A partir dali, as coisas mudaram. Cada levantamento parecia mais certeiro, cada ataque mais sincronizado. E a cada troca de olhares entre os pontos, havia algo novo — um silêncio carregado, um cuidado desnecessário, um pulso escondido em cada gesto. Na terceira jogada, quase trombaram de novo. Ele caiu para frente, ela tropeçou para trás, sua mão encontrando o ombro dele por instinto, e, por um segundo, estavam perto demais.
— Tá tentando me derrubar? — Perguntou, a respiração descompassada.
— Tô tentando entender por que você tá tremendo. — O levantador devolveu, com a voz baixa demais para qualquer outra pessoa ouvir.
— Eu não tremo.
— Não? — Ele arqueou uma sobrancelha. — Então deve ser só o calor.
A quadra estava gelada. Na última jogada, a professora ordenou que fizessem uma sequência em silêncio absoluto, só leitura corporal, e eles conseguiram. Três passes, um levantamento preciso e um ataque forte, limpo, cravado na linha. Vitória da dupla improvisada, por dois pontos. Quando a bola final caiu, respirou fundo. O peito subia e descia com esforço — parte do cansaço físico, parte de outra coisa. se aproximou para cumprimentá-la com um soquinho de mão e ela retribuiu, mas o toque durou um segundo a mais. Lá no fundo, entre o barulho dos outros times, da treinadora gritando “boa!”, do tênis riscando o chão, havia só aquele olhar, fixo, prolongado e denso demais para o que deveria ser só um cumprimento esportivo. Não podiam se distrair, muito menos dar espaço para possíveis escândalos. A comissão técnica estava sempre atenta, os boatos corriam rápido e qualquer distração em quadra — qualquer aproximação entre os atletas — podia ser interpretada do jeito errado. Mas, naquele momento, o certo e o errado pareciam perder o sentido. afastou a mão da dele e desviou o olhar, voltando para o grupo.
O treino conjunto terminou com palmas e dispersão. Os treinadores faziam algumas anotações enquanto conversavam entre si e os jogadores começaram a se espalhar pelo ginásio, garrafas sendo recolhidas, mochilas nos ombros, comentários sobre o jogo ecoando pelos cantos. Era sempre assim: bagunça organizada antes de tudo voltar ao silêncio. se juntou às meninas do time, mas os olhos, involuntários, escapavam para o outro lado da quadra. estava cercado pelos amigos, rindo de alguma coisa que Lucas dizia. O rosto ainda levemente suado, a camisa colada no corpo. E, em dado momento, uma caloura do primeiro ano se aproximou — loira, sorriso fácil, claramente empolgada por estar ali — e disse alguma coisa para , que sorriu de volta, despreocupado, do tipo que ele sabia usar quando queria. A capitã desviou os olhos, tentando ouvir o que Ana comentava sobre o jogo, mas tudo ao redor estava ficando borrado e as vozes, distantes, como se o ginásio estivesse começando a se esvaziar também dentro dela. Um a um, os jogadores foram indo embora, o som dos tênis riscando o chão ficando cada vez mais espaçado, os treinadores guardaram os últimos equipamentos, as luzes da lateral começaram a apagar no e, quando ela se deu conta, só haviam dois pares de tênis ainda na quadra — os deles. se aproximou devagar, sem pressa, girando a bola entre os dedos, como sempre fazia.
— Pronta pro segundo round? — Perguntou, com um sorriso enviesado.
— Dispensa o aquecimento. Já tô quente o suficiente.
— Eu percebi, desde a hora que você viu a loirinha falando comigo.
— Já tá dando em cima das calouras agora? — cruzou os braços.
— Ciúmes? — arqueou uma sobrancelha, parando a poucos passos dela.
— Preocupação com a reputação do time.
— Ah, claro. A sua preocupação sempre tem esse tom pessoal.
Ela ignorou o comentário, caminhou até o centro da quadra, pegou a bola das mãos dele e lançou contra a parede com força, só pra liberar a tensão que já estava crescendo demais.
— Vai ficar só falando ou vamos jogar?
— Tô só esperando você falar o que achou do story que eu postei ontem. — estava com aquele sorriso perigoso — baixo, preguiçoso. Sabia exatamente o que estava fazendo. — Deu pra sentir o calor do seu olhar atravessando a tela, queimando meu corpo.
— Você devia se achar menos… — ela respondeu, seca.
— Não tô me achando, tô constatando.
se aproximou dele, mais do que o necessário, com o olhar firme, apesar do corpo estar alertando que aquilo tinha um custo.
— Você tem esse talento irritante de achar que tudo gira ao seu redor.
— E você tem o péssimo hábito de fingir que não gira também.
O silêncio caiu entre eles, até quebrá-lo, recuando meio passo e jogando a bola para o alto.
— Levanta. Vamos ver se seu ego consegue acompanhar meu ritmo hoje.
— Eu sempre acompanho. A questão é… até onde você aguenta ir? — se posicionou com um brilho nos olhos.
Começaram o treino com trocas simples: passes curtos, deslocamento lateral, levantamento e finalização. O barulho da bola era o único som firme entre eles e, por alguns minutos, não houveram provocações, apenas movimentos concentrados. Mas concentração era um conceito relativo ali. No meio de uma sequência, sentiu a mão dele corrigir a posição dela de leve, quase educado demais.
— Gira mais o punho… — disse atrás dela, com a voz baixa e a respiração próxima demais.
ficou parada por um segundo a mais do que devia, ainda sentindo a mão dele ali.
— Já entendi. — Respondeu mais seca do que precisava, apesar de não se mexer.
O treino seguiu em silêncio e a intensidade do jogo logo se confundia com a intensidade entre eles. Cada levantamento parecia uma coreografia não combinada, cada ataque um disparo de algo que estava prestes a fugir do controle e, a cada vez que os corpos se aproximavam, se esbarravam, se tocavam por acidente, não parecia tão acidental assim. Os sons ecoavam na quadra quase vazia: o quique da bola, a respiração ofegante, o impacto seco das passadas rápidas e, por trás disso tudo, os dois, que circulavam um ao outro como peças de xadrez, tentando manter a distância que o próprio corpo já não obedecia. Em um levantamento mais curto, teve que correr até a rede, ao mesmo tempo que se aproximou, e os corpos colidiram de leve, a mão dele indo direto para a cintura dela, por reflexo. Ela sentiu os dedos pressionando de leve a lateral do seu corpo e o calor do toque atravessando o tecido da camiseta, uma respiração contra a outra.
— Isso foi parte do exercício? — empurrou o peito dele com uma das mãos, quase sorrindo, e se afastou.
— Não, mas gostei do efeito. — Na jogada seguinte, ela caiu desequilibrada após uma bola mais longa. se abaixou imediatamente, estendendo a mão, e ela aceitou, depois de hesitar por alguns segundos. O toque era quente, forte, e demorou meio segundo a mais para soltar quando ela já estava de pé. — Tá inteira?
— Por enquanto.
— Porque, se machucar agora, não vai poder treinar comigo amanhã… e seria uma pena.
Ela o encarou, franzindo levemente a testa.
— Quer que eu volte?
deu um meio sorriso.
— Você voltou hoje, não voltou?
Eles continuaram o treino, o ritmo mais lento, os movimentos mais cadenciados — como se o jogo já tivesse sido jogado e o que restasse fosse só a dança. A respiração dos dois se misturava entre uma jogada e outra, os toques se repetiam e os olhares também. Na última bola, ela cortou cruzado e ele se abaixou a tempo de salvar. O rally foi longo, rápido, tenso, até cravar mais uma vez no fundo da quadra. Ponto. Ficou parada por um instante, recuperando o fôlego, e caminhou até ela, ficando perto demais, como sempre.
— Você gosta de ganhar, mas odeia admitir que também gosta quando alguém te acompanha no mesmo ritmo.
— E quem disse que você me acompanhou?
— Seu corpo. — Ele respondeu, sem hesitar. — Cada reação sua, cada impulso. Você me leu, assim como eu li você. — sentiu o coração acelerar. A resposta vinha na ponta da língua, mas não saiu, principalmente quando ele deu mais um passo em sua direção, os olhos vidrados em sua boca. — Você sabe que não é só na quadra que a gente tem química, né?
respirou fundo, tentando recuperar o controle do próprio corpo.
— Sabe o que compromete uma carreira promissora? Ego.
— Sabe o que compromete uma carreira brilhante? Fingir que não sente nada. — Ela bufou, virando de costas, indo pegar a bola que tinha caído no fundo da quadra. Queria dizer que ele era insuportável, que aquele comentário era desnecessário, que não estava sentindo nada, mas cada passo que dava parecia confirmar o contrário. ficou no centro da quadra, observando. Quando ela voltou, jogou a bola pra ele, que pegou com uma mão só. — Tem certeza de que isso é só profissional?
— Você tá testando a minha paciência.
— E você a minha. — Ele devolveu, com um tom mais sério.
Se encararam por um tempo que ninguém deveria encarar um colega de treino. A respiração de ainda estava acelerada, o suor colava a camiseta ao corpo. Ela desviou o olhar, enfim.
— Já deu por hoje.
— Fala isso agora, mas amanhã vai querer repetir tudo.
— Amanhã, , eu vou fingir que isso nunca aconteceu.
— Então finge direito, porque seu corpo tá te entregando. — Ele deu as costas e começou a andar com calma na direção da saída, mas então parou, voltando meio passo. — Quer carona?
Ela demorou dois segundos para responder.
— Hoje não, mas… na próxima eu aceito.
sorriu, daquele jeito que só ele conseguia, depois se virou e foi embora. ficou ali, sozinha no meio da quadra, o coração batendo alto demais e a respiração curta.

Sábado à noite era sinônimo de música alta, bebida barata e decisões questionáveis. , no entanto, escolheu outro caminho: a quadra de treinos. Precisava de silêncio, de espaço e, principalmente, de um tempo sozinha — sem equipe, sem treinadores… sem . Desde o último treino ele não saía da cabeça dela, ou melhor, tudo dele: os olhares longos, as provocações, as mãos firmes, a respiração perto demais e a maldita frase:

“Você sabe que não é só na quadra que a gente tem química, né?”

sacudiu a cabeça quando entrou no ginásio, como se pudesse tirar a lembrança da mente. Estava escuro, com as luzes principais apagadas, apenas os refletores laterais iluminando a quadra em tons suaves. Era perfeito, quase íntimo, mas não estava vazio. estava lá, de fones de ouvido, completamente concentrado no próprio treino. Suado, os músculos definidos à mostra, a pele reluzindo sobre a luz branca e fria, a camiseta jogada num banco ao lado. E — contra sua própria vontade — parou por um segundo para observar.

Melhor que por foto… muito melhor.

Se movia com uma facilidade irritante. Ele era bom e ela sabia disso. Era o que mais odiava — e o que mais a atraía. percebeu sua presença antes que ela dissesse qualquer coisa, tirou um dos fones e a encarou, sorrindo com o canto da boca.
— Se veio atrás da quadra vazia, chegou tarde. — Disse, pegando a bola com uma mão só. — Mas podemos dividir. Aposta é aposta, né?
cruzou os braços, tentando parecer indiferente.
— Você devia, sei lá, colocar uma camiseta… protocolo mínimo de convivência.
— Esse é o meu treino. — Ele deu de ombros, andando até a rede. — E, bem, meu treino, meu protocolo.
revirou os olhos, mas já estava pegando uma bola do cesto ao lado. Pelo menos se mexendo talvez parasse de pensar no abdômen dele.
Começaram com uma sequência de passes, alternando levantamentos curtos, movimentações laterais, recepções no chão, mas, em vez de aliviar a tensão, aquilo só tornava tudo mais palpável. Em um momento, ele se aproximou por trás para corrigir o movimento dela, como já fizera antes. Mas agora, sem camisa, seu toque parecia mais direto, mais quente. prendeu a respiração por um instante.
— Foco, capitã… — o levantador disse, com um tom carregado de ironia e algo mais. — Ou vai se distrair toda vez que eu estiver assim?
— Assim como? — Rebateu, forçando o olhar para o rosto dele.
— Suado, sem camisa e te encostando por trás…
Ela se afastou um passo, o rosto quente.
— Você se acha tanto que chega a ser patético.
— É só uma observação, porque, honestamente… você tá com o foco de alguém que mal consegue prestar atenção no treino.
— E você com o ego de quem acha que todo mundo quer pular no seu colo.
Ele se aproximou de novo, pegando a bola do chão.
— Todo mundo não… — olhou diretamente pra ela. — Só você já ocupa o espaço perfeito.
bufou e virou de costas, caminhando até a linha de saque, mas a tensão já tinha se instalado, firme, entre os dois. Ela sacou e ele defendeu com facilidade. Mais alguns minutos, e já estavam girando em quadra com a mesma sincronia dos dias anteriores. Até que, em uma pausa curta, ela se curvou para pegar a garrafa de água. E falou, baixo:
— Você sabia que outras atividades também servem como cardio, né?
— Tipo? — Ela ergueu os olhos, desconfiada, e o garoto deu um meio sorriso, cheio de intenção.
— Algumas bem intensas… na cama, por exemplo. Ajuda na resistência. — engasgou levemente com a água e apenas ergueu as sobrancelhas, fingindo inocência. — Só tô preocupado com a sua performance completa, sabe?
— Você é ridículo… — disse, tentando conter o sorriso que ameaçava subir.
— E você não para de olhar.
Ela desviou o olhar, mais uma vez, odiando o fato de que ele estava certo, e se dirigiu para o centro da quadra novamente.
Mais alguns pontos, trocas rápidas e silêncios carregados, até que, em uma bola mais longa, escorregou levemente ao se posicionar, mas foi rápido, segurando o braço dela antes que caísse. A mão dele ficou ali segurando, firme, quente.
— Tá tudo bem? — Perguntou, mais perto do que precisava.
Ela assentiu, mas não se afastou. Talvez não quisesse. Talvez não conseguisse.
— Não foi nada. — Ela respondeu, a voz um pouco mais baixa.
O suor estava escorrendo na testa, os braços tensos, o olhar fixo no dele — não apenas por causa da jogada — e o corpo consciente de cada maldito centímetro entre os dois. também estava ofegante, o cabelo grudado na testa, o abdômen subindo e descendo em ritmo acelerado, e aquela maldita confiança estampada no rosto. Ele a soltou devagar, mas os olhos continuaram grudados nos dela.
— Sabe o que é curioso? Você treina melhor quando tá distraída.
— Distraída é o que você chama isso?
— Chamo de várias coisas. — Ele deu um passo em direção a ela. — Mas o nome que mais combina agora é química. — chegou perto o suficiente para que ela sentisse o cheiro de sua pele: suor, sabonete, algo amadeirado. — Tá fugindo de novo?
— Tô tentando lembrar por que isso seria uma péssima ideia.
— Então deixa eu te dar um bom motivo pra esquecer.
Antes que pudesse responder, a bola escapou das mãos dela e rolou para o canto da quadra. não foi atrás, só a observou. Ela pegou a bola e voltou com passos firmes, determinada a tomar o controle da própria mente. Apesar de, no fundo, desconfiar que já tinha perdido.
— Acabou?
assentiu, os olhos ainda nela.
— O treino, sim. — pegou a toalha e passou pelo pescoço, tentando não pensar em quanto desejava que ele fizesse aquilo no lugar dela. Ele pegou a camiseta do banco, mas não vestiu, apenas pendurou no ombro. — Agora você vai ter que aceitar a carona.
— Por quê? — Ela arqueou uma sobrancelha, tentando manter o tom firme.
— Porque você disse que aceitava na próxima. — Inclinou a cabeça levemente, a voz mais baixa. — E isso aqui… é a “próxima”.
A capitã hesitou por um segundo, depois assentiu, e eles saíram juntos pela porta lateral do ginásio, o ar da noite batendo nos rostos suados. O campus estava silencioso, iluminado apenas por postes altos espalhados pelo caminho. Ele destravou o carro com um clique e abriu a porta para ela como se fosse parte da rotina. hesitou novamente. Sabia que entrar ali significava mais do que uma carona, mas, mesmo assim, fechou a porta, prendeu o cinto e fingiu que estava tudo normal. ligou o motor e deu partida, as mãos segurando forte demais o volante, a mandíbula tensa e o peito subindo e descendo devagar. Por um momento, foi possível ouvir apenas o som do carro deslizando pelas ruas tranquilas do campus, quase vazio àquela hora. A iluminação amarelada dos postes passava pelas janelas como flashes intermitentes e a cidade parecia desacelerada, mas, dentro do carro, tudo acontecia rápido demais.
cruzou as pernas, reposicionou as mãos no colo, olhou para a janela, qualquer coisa que tirasse sua atenção da garoto ao seu lado. Ele, por sua vez, já estava com apenas uma das mãos no volante, enquanto a outra descansava perto da marcha, e, vez ou outra, o polegar batia levemente, como se o nervosismo escapasse nos pequenos gestos, mas o rosto estava calmo, quase tranquilo demais. Chegaram à frente da casa dela em poucos minutos, o motor desligado do carro fazendo o silêncio parecer mais forte, e ela soltou o cinto devagar, sem saber ao certo o que fazer.
Estava prestes a agradecer e sair, quando se inclinou — sem aviso, sem permissão, como se não aguentasse mais esperar — e sua boca encontrou a dela em um beijo urgente, denso, como se estivesse guardado há tempo demais. respondeu no mesmo instante, sentindo as mãos dele subirem para seu rosto, depois para a nuca, puxando com firmeza, e o corpo virando em sua direção, como se não houvesse mais nada do lado de fora. Ela se inclinou também, atravessando o espaço entre os bancos, os dedos cravando nos ombros dele. O beijo era tudo o que eles seguraram por dias, talvez até por mais tempo: tensão, raiva, desejo, provocação e algo a mais que nenhum dos dois queria nomear. deslizou os lábios para o maxilar dela, depois para o pescoço, beijando a pele quente, devagar, como se quisesse decorar cada centímetro, e soltou um suspiro baixo, os olhos fechados, o corpo cedendo por reflexo. A mão dele desceu para sua cintura, puxando-a com mais força, e a dela subiu pela lateral das costas dele, sentindo os músculos contraídos, a respiração acelerada. Quando se afastaram, foi por pura necessidade de respirar. mordeu o lábio inferior devagar, como se estivesse tentando se conter e fechou os olhos por um segundo.
— Isso pode terminar mal. — Sussurrou com a voz rouca, os olhos procurando por algum mísero sinal de arrependimento nele, mas não encontrou. Apenas demorou a responder, como se considerasse todas as versões possíveis de “mal”.
— Eu sei… mas agora já começou.
— Boa noite, . — Ela levou a mão até a maçaneta e abriu a porta devagar, enquanto permanecia parado, a mão voltando a segurar o volante com força, como se estivesse se contendo.
— Boa noite, .
desceu do carro sem olhar para trás e entrou em casa com o coração batendo no ritmo errado e os lábios ainda formigando.

O domingo amanheceu com o sol entrando pela fresta da cortina, direto no rosto de . Ela virou para o outro lado da cama, enfiando o rosto no travesseiro, tentando ignorar a realidade, apesar do gosto do beijo ainda estar em sua boca e o toque dele ainda queimar em sua pele. Suspirou, puxando o celular da mesinha de cabeceira, desbloqueou a tela por puro hábito e rolou o feed do Instagram sem muito interesse, vendo algumas fotos de festas da noite anterior, stories de colegas bêbados, alguém postando fotos de uma campanha de café… e então apareceu: . Eram três fotos em sequência: uma no banco da praça do campus, outra rindo com Lucas e a terceira, claro, sem camisa, com a legenda “Domingo também é dia de treino”. revirou os olhos.

Que previsível.

Ele sabia muito bem o efeito que causava. Mas o pior não havia sido nem a foto e sim o comentário logo abaixo:

@blakelane: Aí complica minha concentração…

A loira da festa que ficava sempre por perto no pós-treino. sentiu o estômago revirar.
— Tem cada uma que se humilha por migalhas…
Ela rolou de volta até a imagem, o olhar preso na curva do ombro dele, na forma como o abdômen se contraía, no sorriso meio torto que só aparecia quando ele estava satisfeito consigo mesmo. O polegar dela pairou sobre o coraçãozinho branco.

Não.

Fechou o aplicativo, respirou fundo… e reabriu. O dedo se moveu antes que o cérebro processasse. O coraçãozinho ficou vermelho. Era tarde demais. soltou o celular com um suspiro, cobrindo o rosto com as mãos.

Ele vai ver… todo mundo vai ver.

E, com certeza, alguém ia comentar. O time masculino, as meninas, até os treinadores — todos sabiam da rivalidade histórica entre os dois. E agora, ali estava ela: curtindo uma foto de sem camisa, como se fosse só mais uma garota se derretendo por ele. Se brincar, isso viraria até manchete no jornal da universidade:

“Os maiores rivais da liga de vôlei da UMass estão finalmente se entendendo, após a capitã do time feminino curtir uma foto do levantador do time masculino.”

bufou, enfiando o rosto no travesseiro de novo.

Idiota.

Mas, de repente, tudo voltou à tona: o beijo no carro, o toque possessivo, a forma como ele a segurou como se ela fosse sua. Aquele like significava que ela não tinha esquecido e, pela notificação que acabara de receber no celular, também não:

Matthews🤮: Gostou da foto, capitã?

: Pretensioso.
: Nem era pra você ter notado.

Matthews🤮: É que é meio difícil não notar…

: Foi acidental.
: Meu dedo escorregou.

Matthews🤮: Ah, claro.
Matthews🤮: O clássico “escorreguei e te beijei” versão digital.

: Quem falou em beijo?

Matthews🤮: Você…
Matthews🤮: Seu silêncio foi mais alto que qualquer palavra ontem.

: Isso não significa nada.
Allice: Foi só um momento.

Matthews🤮: Um momento em que você me puxou de volta quando eu tentei parar?
Matthews🤮: Enfim, sobre o próximo treino…
Matthews🤮: Amanhã, depois do treino conjunto?

: Tá bom.
: Mas se você vier sem camisa de novo, eu desisto da aposta.

Matthews🤮: Sem promessas.
Matthews🤮: A temperatura sobe quando você tá perto.

: Segunda-feira. Às 18h.

Matthews🤮: Até lá, capitã.

A segunda-feira começou como qualquer outra — ou quase. atravessava o campus com os fones no ouvido e a cabeça abaixada, fingindo que o mundo ao redor não existia. Mas, diferente das outras segundas, agora ela sabia que todos estavam olhando por um motivo.
— Então é oficial agora? — Ana perguntou assim que encontrou a amiga no corredor, andando ao lado dela.
— Oficial o quê?
Ela arqueou uma sobrancelha e puxou o celular, virando a tela na direção de . Era o feed do Instagram, a maldita foto de .
— Você curtiu isso na frente de todo mundo, . Tá esperando que as pessoas não reparem?
— Foi só um like. — Respondeu entre dentes. — Ninguém faz alarde por isso.
— Ninguém faz alarde quando você curte a foto de um cara qualquer da universidade, mas quando você curte a foto do … e ele tá sem camisa… e vocês são arqui-inimigos no vôlei… bom, a “plateia” surtar um pouco é o mínimo.
soltou um suspiro e apertou a alça da mochila com mais força.
— Já tem gente comentando?
— Com certeza, mas nada oficial… ainda.
Passaram por um grupo de veteranos que estavam perto da cantina. Dois rapazes olharam de relance e cochicharam algo um para o outro, os olhos recaindo por tempo demais sobre , que fingiu não perceber. Chegaram na sala de aula e sentaram nas carteiras do fundo. Ela tirou o caderno da mochila e tentou se concentrar, mas a sensação de estar sendo observada não diminuía. Virou o rosto e lá estava , encostado no batente da porta da sala ao lado, conversando com dois amigos. O uniforme do time pendurado na mochila, o cabelo bagunçado, o sorriso fácil. Mas ele não estava olhando para os amigos, e sim para ela. desviou rápido, o coração pulando uma batida.
— Ele tá te observando faz um tempo. — Comentou Ana, fingindo anotar alguma coisa.
— E você tá achando isso bom?
— Não… tô achando quente.
— Me poupe… — bufou, virando uma página em branco do caderno, apesar de, lá no fundo, sentir a mesma coisa.
Depois das aulas, seguiram para o ginásio, onde teriam mais um treino conjunto. A quadra parecia a mesma, com as marcações no chão, o som da bola quicando, o eco abafado das conversas e dos tênis riscando o piso. Mas, desde o momento em que entrou, sentia os olhares dos colegas, das meninas do time e, principalmente, do treinador Marques, que estava com os braços cruzados, encostado na parede do fundo, observando. Não dava pra dizer se já tinha percebido alguma coisa, mas todos sabiam como ele era com foco e disciplina e bastava um deslize para tudo estar perdido. Ela respirou fundo, alongando os braços e chutando leve o chão para soltar as pernas. Precisava manter a cabeça no lugar, ignorar e focar no treino, mas era praticamente impossível, principalmente quando ele apareceu ao seu lado como se fosse coincidência, apesar dela saber que não era.
— Tá nervosa, capitã?
— Tô focada. — Respondeu, sem olhar para ele. — Tenta um dia, talvez funcione.
— Você tá brava porque curtiu minha foto ou porque gostou?
girou o rosto devagar, estreitando os olhos.
— Eu tô tentando treinar, e manter a sua autoestima sob controle já é trabalho pra uma equipe inteira.
Antes que ele pudesse retrucar, o apito soou, como um anúncio de que já estava na hora de formarem as duplas. caminhou até Ana automaticamente.
— Vamos?
Antes que a amiga respondesse, um dos colegas do time masculino gritou do outro lado da quadra:
— Ei, ei, ei! Nada disso! tem que fazer dupla com o . A aposta ainda tá valendo, lembra?
Ana deu um passo pra trás e levantou as mãos com um sorriso malicioso.
— Regras são regras.
— Traíra.
apareceu ao lado dela com aquele sorriso tranquilo que significava tudo menos paz.
— Pronta?
— Pra te enterrar em quadra? Sempre.
Começaram mal, trombando novamente no primeiro rally.
— Você tá sempre no caminho. — Ela rosnou, se levantando com a mão no quadril.
— Ou talvez você esteja se distraindo demais. — Ele murmurou, os olhos presos nela.
No ponto seguinte, fez um levantamento perfeito e cortou com força, marcando o ponto. A quadra vibrou com os gritos dos colegas. A sincronia deles era óbvia. O treinador Marques se aproximou devagar, os olhos estreitos, braços ainda cruzados, assistindo com atenção demais. Nos rallys seguintes, tudo funcionava, o tempo dos dois estava alinhado, como se treinassem juntos há tempos — e, em parte, era verdade. Mas não era só o entrosamento que chamava atenção, e sim o jeito que se olhavam, a forma que se provocavam entre uma jogada e outra, como se o resto do mundo estivesse borrado ao redor. Depois do ponto final, os dois se cumprimentaram com um toque de mão, longo demais.

E Marques continuava observando. desviou rápido, limpando o suor com a toalha e indo até o banco. Ana se aproximou poucos segundos depois.
— Você tem noção do que acabou de acontecer, né?
— Ganhei o ponto?
— Ganhou o ponto… e um par de olhos muito atentos. O treinador tava rastreando vocês como um laser, .
se abaixou, apoiando os cotovelos nos joelhos, o coração ainda acelerado, e não pelo esforço físico.
— Merda…
— Se ele sacar o que tá rolando, isso pode virar um problema real.
— Não tá rolando nada, Ana…
— Você sabe que eu te apoio e também adoro um drama proibido, mas, amiga… se isso explodir, pode não ter volta.
assentiu devagar, sentindo a garganta seca. Porque, no fundo, sabia que tinha cruzado uma linha. E agora, tudo o que restava era ver as consequências disso.
O treino conjunto havia terminado, mas ainda sentia o corpo aquecido e a mente em alerta. Enquanto amarrava o cabelo, ainda molhado de suor, percebeu um movimento no canto da quadra. se aproximava, com o uniforme amassado e o cabelo desgrenhado, os olhos fixos nela como se nada mais ali existisse. Antes que ele dissesse qualquer coisa, notou Blake — a caloura loira — encostada perto da parede, fingindo conversar com as amigas, mas com os olhos cravados nos dois, e desviou o olhar, tentando não parecer afetada. parou na frente dela, com as mãos nos bolsos e aquele sorriso indecifrável.
— Tava pensando… — começou, casual. — A gente podia mudar o treino de hoje.
— Ah é? Vai me poupar da humilhação de mais um rally? — Ela rebateu com sarcasmo.
— Você aguenta mais do que finge. Mas hoje… queria te tirar da quadra. Tentar algo diferente.
— Tipo? — cruzou os braços, arqueando uma sobrancelha.
— Corrida na trilha da floresta. Intensidade, foco, respiração. Achei que fosse o tipo de coisa que você gostasse. — Ela o analisou por um segundo. Não estava provocando como de costume, havia algo mais ali. — Encontro às cinco, na entrada da trilha. — Completou, dando um passo para trás. — Se você não aparecer… vou considerar fuga.
franziu os lábios, lutando contra o impulso de sorrir.
— E se eu for…
— Aí o perigo é seu. — Ele se afastou e, por impulso, o olhar dela voltou para Blake novamente, que ainda os analisava.

O céu já estava pintado em tons de laranja e violeta quando chegou à entrada da trilha da floresta atrás do campus. O ar era mais frio ali, e o som das folhas se movendo contra o vento trazia uma paz que ela não sentia desde antes de tudo começar. Respirou fundo e começou a alongar, tentando manter o foco no treino. chegou logo em seguida, com uma camiseta escura grudada no corpo suado e um sorriso preguiçoso nos lábios.
— Achei que fosse dar pra trás…
— Eu não fujo de treino.
— Isso é o que você chama o que aconteceu no carro? — lançou um olhar fulminante, mas ele apenas riu e começou a alongar ao lado dela, sem tirar os olhos de seus movimentos. Correram em silêncio por um tempo, escutando apenas o barulho dos tênis contra a terra molhada e o som abafado da respiração, apesar da tensão entre eles ser quase audível. A cada centímetro de proximidade, a memória do toque no carro voltava. No quinto quilômetro, quebrou o silêncio: — O treinador tá com a pulga atrás da orelha.
— Eu percebi…
— Não ajudou o fato de você ficar me lançando aqueles olhares no treino. — lançou as palavras ao vento, ainda correndo ao lado dela, mas sabia exatamente o que ele queria dizer.
— Como assim? — As mãos dela cerraram um pouco mais os punhos, e a respiração acelerou não só pelo esforço físico.
— Tava me encarando como se quisesse me arrastar pra uma sala vazia, .
— Você devia ser menos dramático.
— E você devia treinar olhando pra bola, não pra mim.
— Por que sempre tem que falar desse jeito? — Ela parou de correr de repente, arfando, as mãos nos quadris, o suor escorrendo pela nuca.
— Porque é verdade. — parou dois passos à frente e se virou devagar, os olhos intensos, os ombros subindo e descendo com a respiração pesada, a camiseta colada ao peito suado apenas evidenciando mais os movimentos. — Porque… eu te olho da mesma forma.
— E a caloura? — Soltou, o tom mais desesperado do que pretendia. — Blake, ou sei lá… me fuzilou com os olhos hoje.
— Ela olha assim pra qualquer uma que se aproxima. — deu de ombros.
— Ah, então eu sou “qualquer uma”?
— Definitivamente não. — Ele se aproximou devagar, como se desse tempo a ela para fugir. — Mas a gente não tem nada, né? — Perguntou, com um tom malicioso, mas havia algo mais por trás. Uma dúvida real. — Foi só um momento.
desviou o olhar por um segundo, o coração batendo descompassado.
— Tá mesmo jogando isso na minha cara? Quem começou com tudo foi você. As provocações, o beijo… você cruzou a linha, .
parou bem em frente a ela, tão perto que os ombros quase se tocavam. Seus olhos estavam mais escuros, mais sérios.
— E você não recuou… podia ter parado, me empurrado, dito não…
mordeu o lábio inferior, o gosto salgado do suor e o calor da proximidade embaralhando seus pensamentos, e ele seguiu o movimento.
— Mas não disse.
— Não. — Ele chegou perto o suficiente para que o calor de seu corpo anulasse o ar fresco da floresta. — A verdade, , é que a gente tá fodido. Porque você me provoca só pelo fato de existir e eu… não quero mais fingir que não te quero. — Sussurrou, antes de puxá-la com firmeza pela cintura.
A boca dele encontrou a dela como se estivesse faminto, esperado por aquilo em cada treino, em cada farpa trocada, em cada olhar que durava mais do que deveria — talvez estivesse mesmo. As mãos de apertaram sua cintura com firmeza, trazendo-a para mais perto até não haver mais espaço entre os corpos, e agarrou seus ombros sem hesitar. O calor da pele, o suor ainda fresco da corrida, tudo se misturava ao cheiro e ao toque dele. Os lábios traçaram um caminho pelo canto da boca dela, pelo queixo, até o pescoço, onde mordeu de leve, fazendo-a soltar um suspiro baixo, o corpo inteiro vibrando.
… — sussurrou, ofegante, os dedos cravando no tecido da camisa fina dele, que gemeu baixo em resposta, as mãos deslizando pela lateral do corpo dela, pousando com ousadia na curva das costas.
— Cada vez que você me desafiava, eu só pensava em te calar assim.
Ela o puxou de volta pela gola da camisa, e o beijo recomeçou, mais urgente, mais faminto. respondeu no mesmo segundo, afundando os dedos nos cabelos dela, que deixou escapar um suspiro involuntário, as mãos descendo pelos ombros, dedos apertando com força, como se quisesse arrancar aquela tensão de dentro de si. Sem aviso, ele a prensou contra a árvore mais próxima, o tronco gelado contrastando com o calor do corpo dele encostando no dela por inteiro. As mãos de desceram para a cintura dela, por baixo do casaco fino, tocando direto a pele, quente e úmida do esforço da corrida, e a apertou com força, os polegares pressionando os ossos do quadril, puxando-a para si como se quisesse fundi-los. O beijo foi ficando mais descompassado e gemeu baixo quando sentiu o volume dele pressionado contra seu corpo, passando as mãos por suas costas, arranhando com força por baixo da camisa encharcada, sentindo os músculos se contraírem. arfou contra o pescoço dela, os lábios se fixando ali como se aquele fosse o seu lugar preferido do mundo.
— Você vai me matar… — sussurrou, mordendo de leve a pele do ombro dela, fazendo-a arfar de novo.
Ela entrelaçou as pernas pelas dele, sentindo o ritmo das respirações se misturar, o cheiro da floresta molhada, o gosto salgado da pele e o toque firme, possessivo, e completamente descontrolado. A mão dele subiu por suas costas, traçando uma trilha até encontrar a alça do top por debaixo do casaco, e hesitou por um segundo antes de pressionar a testa na dela, ambos ofegantes, corações disparados como em uma final de campeonato. Mas, antes que qualquer um dos dois pudesse raciocinar o que havia acabado de acontecer, um som rasgou o silêncio da trilha. Um barulho de folhas sendo pisadas — talvez alguém treinando tarde como eles, ou indo embora da floresta depois de um encontro escondido. recuou um passo, mas as mãos continuaram na cintura dela, o peito subindo e descendo, tentando recuperar o controle. manteve as costas contra a árvore, os lábios ainda entreabertos e os olhos em chamas.
— Não era pra isso ter acontecido de novo…
— E, mesmo assim… aconteceu.
A corrida de volta para o campus foi silenciosa. ia alguns passos à frente, o rabo de cavalo balançando de um lado para o outro, tentando se concentrar apenas no som dos próprios tênis batendo na terra. Mas a verdade era que cada centímetro do corpo ainda pulsava com o toque dele, com o beijo… com tudo que ela tentou evitar e acabou cedendo, de novo. corria atrás dela, em silêncio. Não por falta de coisa pra dizer, mas porque, por algum motivo, ainda não queria que ela fugisse. Quando chegaram ao ponto de onde haviam partido, ela parou e soltou um suspiro longo, mantendo os olhos na trilha à frente.
— Melhor eu voltar sozinha hoje.
— Sério?
— Preciso pensar melhor… organizar isso tudo.
Ele ficou parado por um segundo, encarando-a como se quisesse argumentar, puxá-la de volta, dizer algo que fizesse sentido, mas apenas assentiu, engolindo a vontade de contrariá-la.
— Tá, mas você sabe que fugir não resolve, né?
— Não tô fugindo. — Ela ergueu o olhar, o rosto ainda quente, mesmo com a brisa fresca da noite. — Só… tentando não me ferrar.
— Tarde demais pra isso. Eu tô completamente ferrado, porque, se você me beijar de novo, eu não vou conseguir parar.
mordeu o lábio, engolindo em seco, e sussurrou:
— Então não beija.
sorriu de leve, um daqueles sorrisos mais brandos, sem ironia.
— Até amanhã, .
Ela não respondeu. Apenas virou de costas e caminhou para o outro lado, deixando o som dos passos dele se perder atrás de si.

Já de banho tomado e com os cabelos soltos, se jogou na cama com o celular em mãos e abriu o Instagram quase sem pensar, tirando uma selfie discreta — rosto meio de lado, cabelo bagunçado, iluminação baixa e a legenda quase despretensiosa “cansada, mas viva”. Menos de dois minutos depois, a notificação apareceu: @ curtiu sua foto, seguida de um comentário.

@: Sobreviveu à corrida comigo, capitã. Merece uma medalha.

bufou, mas não conteve o sorriso. Sabia exatamente o que ele estava fazendo. E o pior? Funcionava. Mais notificações começaram a pipocar: colegas, atletas, veteranos, até gente que ela mal conhecia curtindo e mandando mensagens diretas com emojis suspeitos. A chama acesa na floresta agora estava começando a se espalhar e ela sentia que, se não tomasse cuidado, acabaria se queimando por completo. Dois dias depois, chegou uma mensagem do treinador Marques marcando uma reunião com a coordenação de esportes no dia seguinte.

A sala da coordenação era grande, com uma mesa de reunião no centro, janelas altas e uma estante cheia de troféus. já estava lá quando entrou, sentado com as pernas esticadas e os braços cruzados atrás da cabeça, tentando parecer relaxado. O treinador Marques e a coordenadora do departamento esportivo, Amanda Wells, ocupavam as cadeiras à frente.
— Bom, vamos direto ao ponto… — Amanda começou, folheando um papel qualquer por formalidade. — Tudo começou com uma aposta entre colegas, que no fim virou uma forma de colaboração entre os dois. E, tecnicamente, funcionou.
Ambos assentiram, firmes.
— O entrosamento de vocês em quadra é notável… — disse Marques, estreitando os olhos. — Até demais.
cruzou as pernas, forçando a respiração a manter o ritmo, e mantinha o olhar baixo, pela primeira vez em muito tempo.
— Mas surgiram comentários sobre comportamentos… fora da quadra. — Continuou Amanda, com um tom mais baixo.
sentiu o estômago revirar.
— Comentários? — Perguntou, tentando soar surpresa.
— Stories, curtidas, clima nos treinos, olhares… colegas falando.
finalmente ergueu os olhos.
— A gente tá focado. Tá funcionando. É só isso.
Amanda os observou por alguns segundos, como se pudesse enxergar o que havia além da superfície.
— Que bom, porque qualquer coisa além disso pode causar ruído, escândalos e até problemas com patrocínio. E não preciso lembrar que vocês dois são nomes fortes na liga universitária deste ano.
assentiu devagar.
— Tá tudo sob controle. — Disse, sem conseguir olhar para ele.
Quando saíram da sala, o sol parecia mais forte do que deveria, à medida que ela caminhava apressada até as escadas, tentando fugir o mais rápido possível daquela situação, mas veio logo atrás.
— Vai fingir que não tá surtando?
— Eu não tô surtando. — Ela respondeu, sem parar.
— Você não olhou na minha cara lá dentro.
— E talvez esse seja o segredo pra ninguém desconfiar de nada, né?
O levantador segurou seu braço por um instante, fazendo-a parar no corredor vazio.
— Foi só um beijo, ?
Ela hesitou por um segundo.
— Foi tudo o que não devia ter sido. E agora a gente precisa parar, de verdade. — Se soltou e desceu as escadas, sem olhar pra trás, enquanto ele ficou parado ali, os olhos presos no chão, pela primeira vez, sem resposta.

A arquibancada estava cheia, e o ginásio vibrava. girava a bola entre os dedos como sempre fazia. Era quase mecânico, como respirar… como pensar nela. Desde o beijo na floresta, não conseguiu treinar sem lembrar de como eles se encaixaram, do gosto da pele dela, ou de como, mesmo dizendo que aquilo podia terminar mal, não se afastou. Ele tentou fugir disso do jeito mais possível: provocando nos comentários, postando story sem camisa e rindo com os amigos. Mas não funcionava, porque, quando deitava à noite, era o cheiro dela que ainda estava em sua pele. Naquela manhã, havia tentado se concentrar no treino do time masculino, mas sempre entrava fora do tempo, e acabou errando duas bolas seguidas, fazendo até o treinador estranhar e os colegas comentarem coisas como “tá apaixonado agora, ?”, que ele fingia rir, mas não respondia. E, nem naquele momento, faltando poucos minutos para iniciar uma das partidas mais importantes para a liga masculina, ele conseguia evitar que seu olhar buscasse por ela no meio das arquibancadas que começavam a ser ocupadas.
sentou-se no meio da fileira central com o restante do time feminino, pernas cruzadas, braços firmes sobre o colo, como se pudesse conter no corpo a ansiedade que crescia. Fingiu distração, mas seus olhos foram direto para a quadra, mais especificamente onde estava, com aquela expressão séria, a faixa nos pulsos, e o cabelo caindo sobre a testa suada, como se tivesse acabado de sair de um ensaio fotográfico.
— Você vai falar com o jornal depois do jogo? — Perguntou Ana, ao seu lado.
— Jornal? — franziu o cenho.
— Estão querendo fazer uma matéria sobre os destaques da liga… e sobre a “dinâmica entre os rivais que agora jogam juntos”. — Ela respondeu com um risinho maldoso e a amiga revirou os olhos.
— Eles querem um romance universitário, não um artigo esportivo.
— E você vai negar que tem alguma coisa?
— Eu vou negar tudo, até o fim.
O apito soou e o jogo começou, mas, por mais que tentasse focar na análise técnica, não conseguia evitar a forma como o olhar dele varria as arquibancadas entre um ponto e outro, quase como se checasse se ela ainda estava ali. Como se o jogo só fizesse sentido com ela assistindo. estava jogando com precisão, cada levantamento afiado, cada defesa no tempo exato. A sintonia com o time masculino era clara, mas havia algo a mais naquela noite — um fogo. A torcida gritava seu nome a cada ponto e as calouras nas primeiras fileiras pareciam prontas para jogar flores e números de telefone na quadra. Até a tal da Blake não escondia o entusiasmo, nem a forma como sorria, como se fosse dele. Mas, a cada vez que olhava, era quem os olhos dele procuravam. E ela odiava como aquilo fazia o seu coração acelerar.
No final do terceiro set, o placar era definitivo: vitória esmagadora. A torcida explodiu, os jogadores correram uns para os outros em meio a gritos, abraços e comemorações. permaneceu sentada, como se nada tivesse a ver com aquilo, mas ele veio até ela mesmo assim, ofegante, suado, e mais bonito do que devia ter permissão para estar depois de um jogo. Cortou a multidão com passos largos e um sorriso cheio de dentes.
— Aposto que vai negar se eu disser que os treinos com você me deixaram mais preparado, né?
arqueou uma sobrancelha, controlando o sorriso.
— Só se você prometer não usar isso como desculpa para aparecer sem camisa de novo.
soltou uma risada baixa, se aproximando, a mão encostando casualmente na lateral da cintura dela, perigosamente próxima demais. sentiu a espinha arrepiar.
— Não prometo nada. Mas admito que você tá me dando sorte, capitã.
— Isso soa como bajulação barata.
— Ou uma desculpa pra te ver de novo mais tarde. — Os olhos estavam cravados nos dela, como se o mundo ao redor tivesse silenciado. A mão em sua cintura parecia prestes a puxá-la mais perto e, por um segundo, o desejo gritou mais alto do que o medo. Mas então vieram os gritos da torcida, os amigos puxando para selfies, os flashes dos celulares acesos. se afastou um pouco, embora os olhos ainda dissessem tudo. — Vai na festa?
— Talvez.
— Espero que sim. Já teve treino, já teve jogo… agora falta comemorar com você. — Ele piscou, recuou um passo e foi engolido pela multidão.
ficou ali, os dedos ainda formigando no lugar onde havia sido tocada, até Ana surgir e as duas se afastarem da multidão.
— Você vai, né? — Perguntou, equilibrando uma garrafa d’água na mão e com um olhar curioso em cima da amiga.
Elas estavam sentadas na parte lateral da quadra, observando o movimento pós-jogo. A torcida começava a se dispersar, mas o grupo que se reunia mais adiante — o grupo de — não parecia com pressa. Risos altos, abraços exagerados e planos de festa borbulhavam no ar.
— Não sei… — mordeu o lábio, desviando o olhar na direção deles, até parar em , no meio do grupo, camiseta nova colada no corpo ainda suado, rindo de alguma piada que Lucas contava, os braços cruzados de um jeito displicente, mas, vez ou outra, seu olhar se desviava para ela.
— Ele tá te chamando com o olhar, sabia? — Ana sussurrou, com um tom quase divertido. — Parece um golden retriever em versão sensual.
— Você tem problemas. — revirou os olhos, mas não conseguiu evitar um sorriso.
— E você tá apaixonada. Vamos, antes que ele morra de ansiedade.
Antes que pudesse protestar, a amiga já a puxava pelo braço. Outras meninas do time se juntaram, empolgadas com a ideia de irem todas juntas para a festa. O grupo cresceu rápido e, quando elas finalmente se aproximaram de onde o grupo estava, a reação foi imediata. se endireitou, o sorriso surgindo quase instintivamente.
— Achei que vocês fossem fugir da comemoração. — Disse, olhando direto para .
— Só estávamos esperando você sair de cena. — Ana respondeu, jogando lenha na fogueira.
O olhar dele continuava na capitã do time feminino, sequer piscava.
— Eu jamais sairia antes de ter certeza de que você vinha. — A frase foi dita com leveza, mas a intenção estava ali.
Lucas riu, Blake virou os olhos com um suspiro audível e os colegas em volta trocaram olhares cúmplices. cruzou os braços, tentando manter a expressão neutra, mas a temperatura no corpo subiu um pouco.
— Você fala como se eu fosse a atração principal da festa.
— E não é? — arqueou uma sobrancelha. — Porque eu só consigo prestar atenção em você.
Antes que ela pudesse responder, uma voz surgiu ao lado:
! ! Podemos roubar vocês por um minutinho? — Era Clara, a repórter do jornal esportivo da universidade, com o gravador na mão e um sorriso que não inspirava confiança nenhuma.
— Claro. — Ela respondeu, educada.
— Vocês vêm chamando atenção desde o início da temporada, mas agora com essa aposta e os treinos conjuntos, a química entre vocês tá… evidente. Algo mudou? Em quadra, com certeza. — Clara completou, os olhos brilhando de expectativa.
sorriu, mas dessa vez com a expressão polida de quem já sabia o que estavam tentando fazer.
— Quando dois atletas treinam juntos com frequência, o entrosamento melhora, é o básico. — Disse, direto, como se estivesse respondendo um técnico.
— Só treino? — Insistiu a repórter, virando o gravador para , que manteve o olhar firme.
— Somos colegas de equipe. Aposta ou não, estamos fazendo o que é esperado de nós: jogar bem.
Clara sorriu, meio frustrada, meio satisfeita. Sabia que tinha um fio de ouro ali, só não conseguia puxar ainda.
— Obrigada, gente. A matéria sai na edição de amanhã.
Quando ela se afastou, soltou o ar que nem sabia que estava prendendo e se inclinou levemente, sussurrando para que apenas ela ouvisse:
— Quase acreditei na parte do “somos colegas de equipe”.
— Só estou fazendo o que é esperado de mim. — Ela lançou um olhar afiado.
— Espero que me surpreenda, então. — Ele devolveu, sorrindo de canto.
— Vamos no meu carro. — Lucas disse, jogando a chave pro alto e pegando no ar com facilidade. — Mas, se tiver muita gente, alguém vai ter que ir no colo.
estava decidida a não ir com eles. Poderia pedir um carro com as meninas, fingir uma dor de cabeça, inventar qualquer desculpa. Mas virou para ela e disse com aquele sorriso preguiçoso:
— Vem comigo… a gente dá um jeito. Você pode ir no meu colo… — sussurrou perto demais do ouvido dela, a voz baixa, arrastada, e aquele calor imediato subiu do estômago ao rosto.
virou rapidamente para Ana, disfarçando o impacto com um revirar de olhos.
— Prefiro o colo da Ana, sinceramente.
A amiga riu, mas lançou um olhar desconfiado.
— Ah, é? Que honra.
No fim, havia mais gente do que assentos no carro. Blake tentou garantir o seu ao lado de , mas alguém falou que todos os lugares estavam ocupados, então ela acabou ficando para trás com um suspiro irritado, assistindo o grupo se amontoar. foi a última a entrar e sentou no colo de Ana, como prometido, mas, com o carro em movimento, a realidade apertada da situação fez seu corpo pender pro lado — para onde estava . Ele a segurou instintivamente, com a mão firme em sua cintura, como se a protegesse de uma batida inexistente. Mas o gesto não era apenas protetor. Era possessivo até demais para passar despercebido. tentou disfarçar, mas seus olhos se encontraram com os dele por um segundo longo demais.
— Tá confortável aí? — Perguntou baixo, quase sorrindo, a voz rouca de propósito.
— Seria mais confortável se você tirasse a mão. — Ela sussurrou de volta.
— Tô só te segurando. É questão de segurança.
— Você sempre se importa com segurança?
— Só quando o risco é você. — Ele respondeu, os olhos ainda nela.
Ana soltou uma risadinha abafada e cochichou perto do ouvido da amiga:
— Vocês tão péssimos em disfarçar.
não respondeu, porque não tinha como negar. Não com o calor da mão dele ainda firme na sua cintura, os dedos tocando a pele por baixo do tecido do moletom leve. Não com o coração batendo rápido demais. Lá fora, a cidade piscava em luzes, as ruas vazias parecendo observar o grupo apertado, mas, dentro do carro, o espaço era pequeno demais para evitar o que já transbordava.
A música já vibrava pelas paredes quando eles chegaram. A casa estava lotada — luzes coloridas refletindo nas janelas, o som grave sacudindo o chão e gente por todos os cantos. Assim que o time masculino entrou, os gritos começaram:
— É o time campeão!
— Os caras destruíram hoje!
, cara, que partida!
Os jogadores foram engolidos por abraços, palmas e brindes. desapareceu no meio da multidão por alguns minutos, cercado por colegas, fãs, calouras entusiasmadas demais. ficou ao lado de Ana e das meninas, tentando se manter fora da mira dos olhares, mas, conforme o tempo passava e a música subia, era impossível ignorar o que acontecia do outro lado da sala: estava em casa, o sorriso solto, o cabelo bagunçado de propósito, a camisa jogada em algum canto qualquer. Bebia direto da garrafa, ria alto, falava ao ouvido das pessoas. Ainda assim, mesmo rodeado, mesmo desejado, os olhos dele voltavam sempre para ela.
— Ele tá te comendo com os olhos. — Murmurou Ana, bebendo o próprio drink com um sorrisinho irônico.
— Tô fingindo que não vejo.
— Pena que ele não tá fingindo nada.
Então, como se o universo fizesse questão de reforçar, uma garota — alta, morena, óbvia demais — se aproximou de e tentou conversar. Ele riu, simpático, mas não deu muito assunto. Seus olhos estavam ocupados demais atravessando a pista e procurando outra coisa — e ele achou. desviou o olhar, mas não rápido o suficiente, porque, segundos depois, ele já caminhava em sua direção, dois copos nas mãos e aquela expressão confiante como se já soubesse o final da história.
— Pra você. — Disse, oferecendo um dos copos.
— Isso não é um golpe, né?
— Se fosse, eu não teria usado uma bebida tão boa. — Ele sorriu de lado, e a voz era só pra ela. — Ou talvez tivesse, assim você confiava mais. — Ana e as outras riram, já animadas demais para prestar atenção nos detalhes escondidos naquele jogo particular. Então, se virou para elas. — Posso roubar a capitã pra dançar?
— Se ela aceitar. — Respondeu Ana, com um sorrisinho malicioso.
suspirou e aceitou o copo.
— Uma música, no máximo.
— Vai acabar sendo mais de uma. — Retrucou, encostando a mão na dela enquanto puxava sutilmente. — Eu sou convincente.
A pista de dança estava cheia, mas ele a conduziu como se o espaço todo já fosse dele. A música mudou, mais grave, mais lenta, mais perigosa. E então estavam dançando, não colados, mas perto o suficiente para fazer o ar entre eles ferver. não tocava descaradamente, mas o corpo dele falava, e o olhar também. Cada passo, cada movimento, parecia feito para deixá-la fora do eixo. E , mesmo querendo manter o controle, se aproximou um pouco mais, deixando a música conduzir, e, quando ele a encarou por mais de dois segundos, não desviou.
— Isso aqui é treino também? — Ela perguntou com um sorriso cínico.
— Só se você considerar cardio.
riu, mordendo o lábio, o olhar tentando escapar do dele, mas falhando. A música seguinte chegou e ela não saiu — ele sabia que não sairia. A música ainda pulsava, as luzes dançavam pelas paredes e os dois estavam dançando no limite. O cheiro dele era uma mistura de álcool e adrenalina, os olhos continuavam presos nela como se soubessem exatamente o que estavam fazendo. Mas então alguém anunciou do outro lado da sala que a mesa de beer pong estava montada e, como se o universo realmente gostasse de repetir padrões, virou o rosto devagar para , um sorriso torto crescendo nos lábios.
— O que você acha, capitã?
Ela já sabia o que ele queria. Sentiu o arrepio antes mesmo das palavras saírem.
— Mais uma aposta? — Provocou, ainda com o coração acelerado.
deu um passo para o lado, sem tirar os olhos dela. A luz da luminária pendurada acima da mesa piscava, mas nada desviava o foco entre eles.
— Se você ganhar… — começou, encostando o ombro no dela, o tom de voz baixo demais para os outros ouvirem. — … eu te deixo em paz. Nenhuma provocação, nenhuma mensagem fora de hora. A gente volta a ser só colegas de time, como deveria ser. — O olhar dele não era mais só malicioso. Era algo mais, fome.
— E se você ganhar?
inclinou a cabeça, os lábios quase encostando na orelha dela quando respondeu:
— Se eu ganhar, você é minha… eu faço o que quiser com você.
ficou um segundo em silêncio. A cabeça dela girava, parte pelo álcool, parte pelo calor, parte porque, no fundo, algo nela já sentia que pertencia a ele há dias.
— E o que exatamente você quer fazer comigo? — A pergunta saiu afiada, mas também carregada de algo que ela não queria admitir.
— Não posso responder isso aqui no meio de todo mundo. — disse, direto, sem hesitar, os olhos escurecendo. — Não é algo muito… apropriado.
Ela travou a mandíbula, os olhos presos aos dele. Cada palavra era como um fósforo aceso atirado num campo seco. E então, respirou fundo.
— Tudo bem, vamos jogar.
— Ótima escolha.
Eles foram para a mesa comprida, mal iluminada, rodeada por gente demais. Copos vermelhos alinhados em triângulos perfeitos em cada extremidade, preenchidos com cerveja barata e expectativas perigosas. Mas, para , o que realmente importava estava à sua frente: , de braços cruzados, expressão confiante, e um brilho nos olhos que fazia tudo dentro dela oscilar entre adrenalina e rendição.
— Mesmas regras? — Perguntou, jogando a bolinha para o alto e pegando de volta com uma facilidade irritante.
— Mesmas regras — Ela confirmou, firme.
— Joguem limpo. — Disse Lucas, tentando manter alguma ordem.
— Limpo é relativo. — sorriu de canto, lançando um olhar direto para , que ergueu uma sobrancelha.
— Desde que você jogue com a boca fechada, já melhora bastante.
— Engraçado, essa mesma boca que você não resistiu há uns dias. — Ele rebateu em voz baixa, girando a bolinha entre os dedos.
A plateia já se empolgava, fazendo barulho a cada troca de fala, sem nem entender metade do que estava sendo dito. Blake, do canto da sala, observava com os braços cruzados e uma expressão de puro desdém. Ana, do outro lado, assistia tudo como quem já sabia que não ia dar certo e, ainda assim, torcia em silêncio. fez o primeiro arremesso e a bolinha mergulhou direto no copo central do lado de .
— Pontaria afiada. — Disse, sem disfarçar o duplo sentido.
— Vou fingir que isso foi só sobre o jogo. — bebeu o conteúdo do copo e se posicionou, focada. Seu arremesso foi certeiro no copo da esquerda. — Empate. — Limpou as mãos na calça jeans.
riu, esvaziando o primeiro copo em um só segundo.
— Gosto quando você finge que ainda tem controle.
— Gosto mais quando você para de falar.
— Fica tranquila que a última coisa que eu vou fazer depois que eu ganhar é falar. — acertou o segundo copo, dessa vez, bateu na borda, rodou em câmera lenta e afundou. A torcida fez um coro dramático. mordeu o lábio, sentindo o calor subir. Ela mirou, respirou fundo e afundou a bolinha com precisão. Empate. Na última rodada, não disse nada, deu um sorrisinho, fez o arremesso com calma e acertou, como se estivesse escrito nas estrelas. segurou a bolinha. Se acertasse, tudo empataria, ela teria mais uma chance e, se ganhasse, ele teria que aceitar o combinado: cada um seguiria sua vida, apenas colegas de time, como se os beijos, os toques nos treinos e os olhares carregados de intenção nunca tivessem acontecido. Ela respirou fundo, mirou, mas a bolinha quicou na borda e caiu para fora do copo. Por um segundo, ninguém falou nada, até explodirem em gritos, aplausos e assobios. Todos amando o espetáculo sem saber o que realmente estava em jogo.
— Ah, quase! — Alguém gritou.
— Faltou sorte, hein, ?
ergueu o olhar para , que deixou escapar no canto de sua boca um sorriso lento, quente e perigoso… um lembrete silencioso de que, mesmo sem dizer nada, ela já tinha escolhido perder.



largou a bolinha e caminhou em direção a , devagar o suficiente para deixar claro que aquele não era um momento de comemoração comum.
— Três em três. Tô numa boa fase, né?
— Tá, você ganhou. Agora me diz, o que, exatamente, você queria fazer comigo? — A pergunta foi direta, mas a voz nem tanto.
O levantador não respondeu de imediato, apenas chegou perto demais. As pessoas ao redor ainda gritavam, mas o som parecia abafado, distante. Ele inclinou o rosto até ficar a poucos centímetros dela.
— Tá com pressa, capitã? — Perguntou com a voz baixa, um sorrisinho malicioso nos lábios. — Achei que você gostasse do jogo.
— Detesto perder. — Ela ergueu o queixo, desafiadora.
— Então devia ter jogado melhor. — Os olhos se prenderam, o ar entre eles parecia mais denso do que antes, mas apenas recuou um passo, ainda sorrindo. — Relaxa. Eu vou esperar o momento certo.
quase respondeu algo, mas ele já tinha se virado, sendo puxado por Lucas no meio da comemoração, enquanto ela tentava ignorar o fato de que seus batimentos estavam fora de controle, de novo.
A festa continuou, mais cheia, barulhenta e embriagada. dançava com as meninas do time, um copo meio vazio numa das mãos, tentando fingir que não sentia o olhar de em cada movimento que fazia – mas sentia, porque ele fazia questão de olhar. Os dois se provocavam com toques rápidos – a mão dele roçando na cintura dela ao passar, os dedos dela segurando um copo que ele “sem querer” também alcançou. Até que Blake surgiu, jogando o cabelo para o lado, rindo de tudo que dizia, encurtando a distância entre eles. O camisa 9 não recuou de imediato, deixou que ela chegasse mais perto, até encostar nele, a mão espalmada em seu peito. E, quando a loira se inclinou para falar algo em seu ouvido, riu baixo, fazendo questão de olhar direto para , que mordeu a língua, fingindo se distrair com Ana, apesar do sangue ferver. Ela revirou os olhos e virou de costas, tentando esconder a raiva, riu alto de algo que nem ouviu direito, bebeu em um copo vazio só para ocupar as mãos. Mas, segundos depois, Blake tentou beijá-lo e ele simplesmente inclinou o rosto para o lado, murmurou algo que a fez bufar e se afastou. Quando percebeu, ele já estava vindo em sua direção, passando por entre os corpos bêbados e distraídos, os olhos fixos nela, até parar atrás dela, tão perto que o calor de seu corpo a fez reagir antes mesmo do toque. estendeu a mão, um convite silencioso, e ela aceitou. Passaram por entre os outros como se ninguém visse – mas talvez todos estivessem bêbados o suficiente para não se importar – e desceram a escada dos fundos em silêncio, escutando apenas o som dos próprios passos e das batidas abafadas da música no andar de cima. abriu a primeira porta que encontrou, puxando-a para dentro e fechando atrás de si. O quarto era pequeno, abafado, sem janelas. Ele não disse nada, só a empurrou devagar, até suas costas tocarem a porta, e a encarou, subindo as mãos lentamente pelas laterais de seu corpo, até pousarem com firmeza na cintura, os polegares se encaixando logo abaixo da barra da blusa dela.
— Esse… é o momento certo.
E tomou a boca dela com fome, como se todos os olhares, farpas, ironias e silêncios tivessem se condensado em desejo bruto. Nada naquele beijo foi contido. A língua dele explorava com domínio, as mãos subiram pelas costas dela, puxando a blusa e expondo a pele quente ao toque, e sentiu as pernas fraquejarem, só não cedendo por completo porque ele segurava firme. desceu os beijos para o maxilar, depois o pescoço, parando bem onde ela mais sentia, fazendo-a gemer baixo, e sussurrou contra a pele dela:
— Eu pensei nesse momento… mais do que devia.
puxou o rosto dele de volta e o beijou como se precisasse daquilo tanto quanto ele. As roupas foram desaparecendo, os toques ficaram mais urgentes, os corpos colaram com um encaixe que já tinha sido treinado em quadra, mas que agora era outro tipo de jogo. Os beijos de traçaram um caminho de fogo pela pele dela, passando pelo colo, onde parou para provocá-la, demorando-se em cada centímetro, e, com um sorriso malicioso, continuou sua descida, beijando a curva do quadril, a coxa, até finalmente chegar em sua intimidade. sentiu um arrepio de expectativa e prazer, e ele começou a explorar com uma habilidade que a deixou sem fôlego, colocando uma das pernas dela sobre seu ombro para ter mais contato. A posição a deixou ainda mais vulnerável, intensificando cada sensação, e ele aproveitou para provocá-la mais, sentindo-a se contorcer de prazer. Depois de alguns minutos torturantes, subiu de novo, beijando e mordendo de leve o lábio inferior dela.
— Você vai ter que se controlar… odiaria ter que parar porque alguém lá em cima resolveu reclamar dos seus gemidos. — estremeceu, tentando conter a respiração acelerada, e sorriu, satisfeito com a reação, pressionou o corpo ainda mais contra o dela. — Só eu tenho o direito de ouvir isso de você… — murmurou, a boca roçando na pele do pescoço dela. — Porque sou eu quem vai arrancar cada um deles.
O olhar dele estava escuro, faminto, enquanto a mão que segurava a cintura dela começou a descer até as coxas, erguendo-a e pressionando-a ainda mais contra a porta. Ele roçou o membro de leve em sua intimidade já encharcada, sentindo-a estremecer, antes de penetrá-la com movimentos lentos. abafou um gemido no ombro dele, sentindo cada centímetro a preenchendo. Seus corpos se encaixaram perfeitamente,como se o tempo todo o treino fosse esse. começou a aumentar o ritmo, movendo-se dentro dela com uma intensidade crescente, enquanto as mãos de se agarravam aos ombros dele, os dedos cravando-se na pele enquanto ela se perdia nas sensações.
… — ela sussurrou, o nome escapando em um gemido.
Ele respondeu com um beijo profundo, engolindo seus sons, enquanto continuava a guiá-la em um ritmo que os levava cada vez mais perto do clímax. Os movimentos dele se tornaram mais rápidos e urgentes, e sentia cada nervo de seu corpo vibrar com uma tensão quase insuportável. Ela arqueou as costas, pressionando-se contra ele, buscando mais, precisando de mais.
, eu… — suas palavras foram interrompidas por um gemido abafado, enquanto o orgasmo a atingia em ondas poderosas e seus músculos se contraíram ao redor dele, puxando-o ainda mais para dentro.
também permitiu que o próprio clímax o consumisse, segurando-a com força enquanto empurrava fundo uma última vez, o corpo todo tremendo com a intensidade do prazer. Permaneceram assim por um momento, corpos entrelaçados, respirações ofegantes e corações batendo em uníssono, e ele a abaixou devagar, sentindo-a deslizar contra seu corpo, até que os pés dela tocassem o chão.
— Se isso for um problema… eu nunca mais vou conseguir fingir que não quero. — encostou a testa na dela.
ainda recuperava o fôlego, os lábios entreabertos, o corpo ainda trêmulo. E, mesmo sem responder em voz alta, seus olhos diziam “eu também”.


FIM


Nota da autora: Eu estou amando escrever pps que provocam um ao outro, é bom demais!! Espero que tenham se divertido tanto quanto eu me diverti escrevendo sobre esses dois. E é claro que eu tinha que finalizar com mais uma aposta kkkkkkkk. Acham que eles merecem uma continuação do que aconteceu depois da última partida de Beer-pong?

🪐

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Para saber quando essa fanfic vai atualizar, acompanhe aqui.


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