Capítulo I
Filipa de Lencastre proveio de duas nobres famílias: a casa régia dos Plantagenetas e a dos Lencastre. Seus avós paternos eram o rei Eduardo III e a rainha Filipa de Hainault, enquanto que os maternos eram Henrique de Grosmont e Isabel de Beaumont.[9] Seu pai, João de Gante, ao casar—se com sua mãe, Branca de Lencastre, herdou o ducado do seu sogro, juntamente com domínios e castelos por toda a Inglaterra e o Principado de Gales, conquistando, assim, maior poder e prestígio para a sua família. Filipa foi a primeira filha do casal, nascendo em março do ano posterior ao casamento. Recebeu o nome da sua avó paterna, a rainha, que também foi sua madrinha.
No que se refere ao estudo das línguas, Filipa de Lencastre foi educada à maneira nobre e aristocrática, isto é, aprendeu latim suficientemente para ler livros litúrgicos, além de francês e inglês para ler romances ou livros de instruções. Foi ensinada a agir de acordo com as virtudes mais apreciadas na época, tais como modéstia, humildade e pureza espiritual. Quando tinha aproximadamente nove anos, vivenciou o falecimento da sua madrinha e avó paterna. Logo em seguida, sua mãe foi vítima da peste e também morreu. Filipa, então, passou aos cuidados de Catarina Swynford que viria a se tornar amante de seu pai ainda durante o segundo casamento dele com Constança, filha mais velha e herdeira de Pedro I de Castela.
Os registos de despesas de seu pai mostram que ele era generoso tanto com os seus filhos legítimos como para os membros da sua corte.[13] Essa característica influenciaria a vida de Filipa, que também viveu sob o clima literário da corte de seu pai. Considerado um mecenas, ele foi seu principal exemplo, inspirando—a a criar o seu próprio círculo de poetas através de um grupo cortesão de leitura conhecido como "A flor e a folha". O poeta Eustache Deschamps, membro desse grupo, dedicou a Filipa um poema no qual a comparava a uma flor. Tratava—se de um reconhecimento por seu notável papel no incentivo à literatura inglesa. Mas será que isso foi tudo que aconteceu... Vejamos.
Esta terra de majestade, esta sede de Marte,
Este outro Éden, demi-paraíso,
Esta fortaleza construída pela Natureza para si mesma
Contra a infecção e a mão da guerra,
Esta raça feliz de homens, este pequeno mundo
Esta pedra preciosa colocada no mar de prata,
Que serve isto no escritório de uma parede,
Ou como um fosso defensivo para uma casa,
Contra a inveja de terras menos felizes,
Este terreno abençoado, esta terra, este reino, esta Inglaterra,
Esta enfermeira, este útero cheio de reis reais,
Amedrontados pela sua raça e famosos pelo seu nascimento."
—Ato II, cena i, 42—54
Ali estava ela. Filipa de Lencastre não devia ter mais de dezessete anos. Seus cabelos ruivos, curtos e descuidados. Suas vestes azuis com linho cor de rosa. O ano era 1377. Seu pai, João Gante estava casado com sua última esposa Terina Swinford. Isabel, sua segunda irmã tinha apenas treze anos, enquanto Henrique tinha dez, Catarina cinco, João Beaufort, seu irmão mais novo quatro e Henrique apenas três. Sendo assim, ela tinha cinco irmãos, sendo alguns da primeira esposa e os outros da segunda e terceira esposa. Os irmãos tiveram uma boa educação, principalmente Filipa e Henrique. E essa é sua história. Filipa estava na aula inglesa. Mesmo com dezessete anos, ela era observadora.
— Péricles é peça central do quebra-cabeça cuja a imagem final é a definição da Educação Clássica. Ele foi o estadista responsável pela reconstrução da Antiga Atenas após as batalhas contra a Pérsia. Instituiu grandes reformas que culminaram em um desenvolvimento de diversas esferas como a política e a educacional. Figuras notórias começam a pensar sobre perguntas existenciais e cosmológicas, utilizando as características da matéria – phýsis – para explicar a origem do universo, conciliando ou não, com o legado mitológico de Homero e Hesíodo e suas respectivas respostas para tais perguntas.
Estes notórios ficaram conhecidos como os ‘pré-socráticos’. Deste seleto grupo, nos importa a figura de Parmênides, que em sua obra Sobre a Natureza, fixou os pontos essenciais do estudo do Ser; estudos que mais adiante serviriam de plataforma para a investigação metafísica de Aristóteles, uma das pontas do diadema do currículo clássico. Neste período ainda situa—se o surgimento de dois grandes grupos intelectuais, a princípio antagônicos, na Antiga Grécia: os sofistas e os amigos da sabedoria; os filósofos. — a preceptora dos príncipes e princesas da Inglaterra começaram a explicar. O sol ainda estava presente lá fora, mas agora brilhava mais. Filipa prestava atenção em tudo que a professora dizia, anotando meticulosamente. Conforme ela anotava, a preceptora explicava mais.
Henrique, seu segundo irmão parecia entediado, mas ela não estava. Sempre gostara de história. O sol agora brilhava mais fracamente, já beirava as quatro da tarde. Pelo castelo, a corte murmurava sobre a princesa inteligente. Muitos eram os que a percebiam. Isso dava certa timidez a Filipa. Mesmo tendo cinco irmãos, ela se sentia só. À tarde, desceu para o salão de desjejum, possivelmente sala do trono, para jantar com seu avô, Eduardo III que ainda era vivo. Seu avô era doente e se especulava que o primo de Filipa, Ricardo é quem herdaria o trono inglês. O pai de Filipa, João Gante não gosta disso, para ele seus filhos é quem deveriam herdar o trono. Mas Filipa gostava do primo.
E assim, todos começavam a comer. À noite, Filipa aproveitou para sonhar com um mundo melhor, um onde ela pudesse ser quem era. Esperava que as histórias antigas que sua mãe lhe contava enquanto estava viva pudessem ser reais... Um véu tinge a tela.
.1377, INGLATERRA,
Ana Vera acordou de sobressalto. A menina de quatorze anos conhecida por seu humor debutante, havia tido um sonho difícil. Um pesadelo possivelmente. Sonhou que possivelmente estava em cima de um bicho estranho o domando e depois ria presunçosamente. Acordou assustada, o que quer que o sonho quisesse dizer. A cabana em que vivia era simples, apenas pelo crepitar de sua mãe fazendo o café da manhã. Seu pai estava lavrando terras. Seus irmãos possivelmente estavam na lavoura, mas então viu a mãe levantada:
—..Mãe — ela chamou.
— Oi, Ana Vera, é hora de acordar — disse a mãe — Te levarei hoje comigo para o trabalho. O rei Eduardo III disse que procura uma serva para ser dama de companhia da princesa Filipa. — diz Dona Raudice.
— Mãe, eu vou ser serva da princesa — perguntou Ana Vera impressionada. Sempre sonhava em trabalhar no palácio e agora serviria a princesa da Inglaterra, mas então se deteve — Mas é o pai, quem vai ajudar na carroça.
— Seus irmãos obviamente — diz a mãe — Agora vá se preparar.
Ana Vera assentiu, começando a caminhar para seu pequeno quarto de madeira se preparar. Ainda era de madrugada quando ela chegou no castelo. Filipa ainda dormia profundamente. Estava com os olhos inchados, provavelmente alguma gripe que pegara, já que ela também espirrara. Quando acordou, viu que Dona Raudice estava parada na porta de seu quarto com uma garotinha de quatorze anos. Era Ana Vera.
— Vossa Graça — chamou Raudice — Essa vai ser sua dama pessoal, minha filha Ana Vera.
— Ana Vera — diz Filipa olhando Ana Vera com interesse predatório — Uma escrava morena como serva. Fascinante. O que ela sabe fazer — pergunta a Raudice.
— Muita coisa senhora — diz Ana Vera timidamente — Sei ler, escrever, cozinhar, me portar.
—Sabe ser discreta — perguntou Filipa em tom baixo.
— Sim, senhora! — respondeu Ana Vera animada por estar interagindo com uma princesa.
— Acho que vamos nos dar bem, ensine ela a preparar o café da manhã — pede Filipa a Raudice.
— Sim senhora — Raudice assente, se preparando para sair dali com a filha.
—...Ela pensa que é rainha. Essa menina se acha demais.
— Ela é esquisita, mas não podemos falar nada, ela é princesa da Inglaterra. Vamos ter que aguentar ela.
— Ninguém gosta de princesas que se acham.