Capítulo Um
Sakura até poderia achar que aquilo era o que ela queria para a sua vida, há uns três anos talvez, mas agora, enquanto caminha olhando a nuca de Sasuke, em mais uma missão secreta para a Vila da Folha, ela pensava o contrário. O que ela tinha feito durante toda a sua vida valeria jogar fora por meras migalhas que Sasuke oferecia? Não, ela não aceitaria isso. Ela era uma ótima Kunoichi, treinou com uma Sannin e se tornou uma das melhores ninjas médicas de Konoha para isso? Para ver a nuca de um homem em uma missão que ela nem mesmo sabia qual era?
— Está tudo bem, Sakura? — Ela nem viu quando Sasuke parou, fazendo com que ela também parasse, e virou para ela tentando entender sua expressão.
Haruno franzia o cenho fortemente tentando entender a sua estupidez de largar tudo por um homem. Claro, ela amou Sasuke, mais até do que deveria, contudo, o momento de clareza chega em algum ponto para todos, certo? Para ela tinha sido ali, olhando a nuca do Uchiha que ela dedicou tanto tempo e amor na sua infância e adolescência, e continuava dedicando, mas o que diabos ela estava fazendo? E ela? E o que ela queria? O que ela desejava enquanto ninja? Ou melhor, enquanto mulher. Sasuke não supria suas necessidades em nenhum quesito, tudo bem, até que ele era bom de cama, mas poderia melhorar.
— Não, não está tudo bem. — O Uchiha arqueou uma sobrancelha. — Eu vou voltar para Konoha.
— Sabe que eu não posso…
— Sei. — O interrompeu, ríspida. — Por isso que disse, eu. — Sasuke parecia ter entendido o que ela quis dizer quando murmurou algo parecido com uma confirmação. — Eu realmente te amei, Sasuke, mas cheguei à conclusão que não é isso que eu quero. Não quero ficar à sua sombra, não quero te seguir para onde for e muito menos quero ficar esperando a sua boa vontade de voltar para casa.
— Entendo.
— Você não vai falar nada?
— Não tenho o que falar, Sakura. Não posso obrigar você a viver comigo, não fique chateada, eu amo você, mas esse é meu destino como ninja renegado. — A rosada bufou consternada, era sério aquilo? A amava, mas… Existia um “mas” quando se amava alguém? Então se aquele era o destino dele, ela não teria que carregá-lo junto com ele, certo? Virou as costas e respirou fundo. — Me desculpe por não lhe dar o que merece. — Ele estava tão certo quanto a água do rio, em que Sakura pousava a sua visão, era cristalina. — Tem uma aldeia a alguns quilômetros ao sul. Fique lá até o amanhecer, não viaje à noite, pode ser perigoso.
— Obrigada, Sasuke. — Caminhou em direção ao seu futuro, um que ela mesma criaria.
Ao chegar na aldeia que Sasuke tinha mencionado, ela procurou uma pousada e enfim se aninhou para dormir. Toda aquela percepção sobre a sua vida até aquele momento tinha a cansado mentalmente, e a caminhada até ali havia a cansado fisicamente. Contudo, não deixou de pensar no que faria, estava longe de Konoha e levaria semanas para chegar até em casa, e foi como uma luz se acendendo que ela teve uma ideia. Por que ela não poderia ajudar os hospitais necessitados no caminho de volta para casa? No dia seguinte iria procurar uma ave para mandar uma mensagem ao Hokage, pois claro que faria essa missão como Shinobi da Folha. Adormeceu rapidamente após sua decisão ser tomada e foi difícil acordar pela manhã pois parecia que tinha dormido quase nada. Suas noites anteriores não tinham sido fáceis, já havia pensado tanto em sua vida e seu relacionamento nas madrugadas que tinha perdido a conta. Tomou café e saiu em direção à torre de comunicação da pequena aldeia e lá escreveu a sua carta ao Rokudaime e antigo sensei, Hatake Kakashi.
Olá, Hokage-sama,
Sei que normalmente quem envia as cartas para informar de nossa localização ou sobre a missão é o Sasuke, mas infelizmente — ou felizmente — não estamos mais juntos. Estou voltando para casa, no entanto, estou um pouco longe e irei demorar algumas semanas para retornar, pensei então, que poderia ajudar alguns hospitais necessitados pelo caminho ficando dois ou três dias. Claro que esperarei pela sua permissão, pois isso atrasaria ainda mais minha volta, e queria pedir descrição também, não comente nada com ninguém que estou voltando, por favor.
Haruno Sakura
.Kakashi olhava aquelas palavras tão bem escritas pela sua ex-aluna e não entendia o motivo, gostaria de perguntar para saber? Claro, a pulga atrás da orelha o pegou como uma armadilha, mas não seria tão invasivo, afinal, para Sakura, que tanto amou o seu colega de equipe, deveria ter tido um bom motivo para largá-lo. Aquela carta o tinha pego completamente de surpresa, mas realmente, a ideia dela era ótima e não via problema da Folha ajudar aldeias e vilas menores com um shinobi médico, ainda mais se tratando de Sakura que era uma das melhores. Respirou fundo olhando para Shikamaru que o olhava de soslaio esperando alguma resposta ou ação, então o Hatake pegou a caneta e começou a escrever o pedaço de papel em cima da mesa.
Olá, Sakura,
Bom, talvez não tenha algo devidamente apropriado que eu possa dizer em um momento como esse, mas… Sinto muito? Bom, quanto a descrição, pode ficar tranquila, apenas Shikamaru saberá, já que ele é o meu conselheiro e preciso passar essas informações para ele, tudo bem? Acho uma ótima iniciativa a sua ideia e sim, pode executá-la, tem a minha permissão, contudo, me mantenha informado, ok?
Hatake Kakashi
— Envie diretamente para Sakura, ela deve estar em alguma aldeia pequena próximo a Vila da Terra pela última localização que Sasuke me mandou. — Kakashi entregou o pergaminho nas mãos de Shikamaru. — E ah, antes que eu me esqueça. Não comente nada com a Yamanaka, ou com ninguém. Sakura pediu descrição a respeito de sua volta. — O Nara assentiu antes de deixar o escritório. Kakashi virou a cadeira para as grandes janelas que rodeavam o escritório e admirou o céu azul, não demorou muito para ver a ave mensageira deixando Konoha. De alguma forma aquilo tinha aguçado sua curiosidade, o que faria Sakura largar o Uchiha que ela dedicou todo o seu amor durante todos esses anos?
A ave a pegou entre uma aldeia e outra, quando abriu o pergaminho se atentou a ler as palavras do seu ex-sensei. Soltou uma breve risada anasalada revirando os olhos pelo “sinto muito” sem muito entusiasmo, era a cara do seu sensei falar dessa forma e quase pôde ouvir a sua voz desinteressada de tão característico que tinha sido. Pensou que talvez Shikamaru desse com a língua nos dentes para a Yamanaka, mas achava meio improvável, já que ele levava o trabalho bem a sério. Sorriu largo quando viu que a resposta do Hokage tinha sido positiva, sua caminhada para casa era longa, mas pelo menos ajudaria algumas pessoas pelo caminho e isso a deixava feliz. Quando chegou na próxima aldeia viu uma grande fila em frente ao hospital que havia ali, guardou o pergaminho na mochila e foi direto até a recepção perguntando quem era o médico responsável, pois pelo jeito a sua missão já havia começado.