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Revisada por: Lightyear 💫

Última Atualização: 20/07/2025

WOLF

A raiva é uma doença infecciosa, causada por um vírus, que pode ser transmitida para o homem. Mas também pode ser um sentimento fatal, uma emoção negativa, um urro de ódio e muita irritação. E bastava apenas um motivo para essa ira se libertar, um pico de fúria intensa para abrir caminho à agressividade, e tudo isso é apenas um resumo de como era a minha vida.
Uma máquina carregada pela violência. Criado e treinado para matar.
Girei o corpo e, com um controle nato, o impacto veio como o êxtase. O calcanhar acertou o rosto, o corpo grande e parrudo caiu no tatame como um amontoado de lixo, o sangue jorrando da sua boca para todos os lados. Crispei as sobrancelhas e ofeguei, o peito subindo e descendo. Pressionei os lábios encarando o homem tentando se levantar, cuspindo quase os próprios órgãos e o protetor bucal. Era uma luta perdida para ele.
A plateia gritou o meu nome, sendo levada ao delírio. O clube, lotado de pessoas ao redor do ringue, sendo contidas apenas por uma tela que os impedia de atrapalhar a luta. O juiz, trajado com roupas casuais, esguio, arrumou os cabelos grisalhos perfeitamente penteados para trás, agachando-se ao lado do homem e deu-se início à contagem, gritando ao microfone, acompanhado pelo público.
Respirei fundo, olhando ao redor. Homens e mulheres urravam, erguendo notas e maços de dinheiro, torcendo para a chegada do final da luta e poderem finalmente se dirigir ao pub do outro lado da rua para pegarem o valor milionário das suas apostas. Também vi rostos descrentes, atingidos por uma decepção que até poderiam me dar pena se o orgulho não fosse mais inflado que o meu próprio senso de invencibilidade.
Fechei as mãos em punho, a faixa ao redor dos pulsos me apertando. O homem, de quem nem sequer lembrava o nome, tinha as mãos apoiadas no tatame, os ombros tremiam, tentando a todo custo unir forças e se levantar, mas parecia tonto demais para isso. Trinquei a mandíbula com força, o gosto metálico ainda invadindo os meus lábios, era o sangue daquela pilha de ossos que estava atrapalhando a minha vitória.

— 6... 7... 8... — diversas vozes gritaram.

Era o fim.
Virei-me, dando as costas para o lutador, prestes a pular as cordas do ringue e sair do meio da multidão, quando aconteceu. O gemido baixo e sôfrego invadiu meus tímpanos apesar dos barulhos, o som das pernas e braços se arrastando, lutando para ficarem firmes. Passei a língua nos dentes, virando levemente a cabeça para o lado, os punhos cerrados, esperando que ele viesse e me atacasse, como o covarde que era.
No seu lugar, nunca que ousaria me levantar...
Sorri com o canto dos lábios, notando os passos cambaleantes através do colchão. O uivo do golpe interceptou o ar e veio na minha direção, mirando minha nuca. Girei como um raio, bloqueando a perna com o antebraço e acertando um gancho nas costelas, o peso do punho carregado pela fúria que sentia por sua audácia. Em contrapartida, ele acertou um jab, soco rápido no meu maxilar, buscando alguns segundos para se recuperar.
No entanto, eu era o mais rápido. A dor se alastrou pelo rosto, não sendo o suficiente para me parar. Apertei os dedos da mão direita e lancei para frente, golpeando em cheio a face do desgraçado, arrancando-lhe um grunhido alto e o sangue jorrando em meu rosto. Repeti o golpe com a outra mão, alternando os socos, deixando-o cambaleando.
E então, a raiva me possuiu, consumindo cada partícula do meu corpo.
Pesei os punhos, esmurrando contra o rosto e o peito, não o dando chances para reagir. Cerrei os dentes, dando o golpe final, saltei e rodei o corpo no ar, chutando a cabeça dele em cheio, fazendo o protetor bucal voar para longe e rajadas de sangue mancharem o ar. Deixei que as mãos espalmassem o tatame, não precisando de muito esforço para me recompor e apreciar a minha deliciosa vitória.
O corpo caiu para trás em um baque seco, o semblante completamente inconsciente, os braços e pernas abertos, quase sem vida. O juiz entrou na minha frente quando ameacei avançar, empurrando-me para trás com toda a força, querendo que ficasse longe, e foi em direção ao homem, conferindo suas reações e os sinais vitais. Não demorou para que levantasse os braços e fizesse um X no ar, encerrando a luta.
Ergui os braços, os punhos ainda cerrados, comemorando e urrando pela vitória já predestinada, virando-me para o público — que se levantava, gritava e pulava em completo delírio. Elevei a cabeça, o rosto ensanguentado e o semblante compenetrado, mirando o piso superior do clube, onde três cadeiras estavam dispostas. Encarei o homem de cabelos longos e negros, sentado no meio, o mais imponente entre todos, que tinha a mão apoiada no queixo, o polegar esfregando os lábios. Seus anéis vermelhos e azuis brilhavam, típico de Lucius Snow. Os olhos obscuros chamejavam, provavelmente já assistindo todo o dinheiro sendo colocado à sua frente. Ele vestia um smoking muito caro naquela noite e curvou um sorriso satisfeito, encarando-me como a especiaria mais valiosa do seu jogo milionário.
E eu era o mais valioso, o imbatível.
O melhor lutador da El Imperio de Acero.
O mais completo do mundo.





1 ANO DEPOIS


A vida é uma caixa de surpresas que pode explodir a qualquer momento. Vivemos em um mundo onde temos que pensar no que queremos para o futuro e não esperar que alguém nos diga o que temos de fazer. As regras existem para controlar o sistema, mas, às vezes, elas acabam com a nossa essência. Os sonhos funcionam como nossas válvulas de escape, é neles que nos prendemos e conseguimos forças para seguir em frente.
Eu nasci rodeada de pessoas que adoravam me controlar. Regras que diziam o que fazer e não fazer. E tentei ser uma boa garota em obedecê-las, bom... Até agora.
A poeira sacudiu os ares, o barulho das correntes balançando com o impacto se tornou meu combustível favorito. O punho encontrou o saco de pancadas, a areia dura e compactada abraçando minha pele através da lona. A pequena dor se alastrando pelos dedos e concentrei o foco em manter os pulsos firmes, presos pela faixa branca enrolada ao redor deles. Girei o corpo, acertando o calcanhar em um chute baixo, imaginando que havia um oponente à minha frente, alguém alto, forte e mais resistente do que eu.
Arrastei os pés, oscilando o peso de uma perna para a outra, mantendo a guarda, os braços curvados em frente ao rosto em uma posição de ataque, mirando o saco de pancadas com atenção. Fechei os olhos, o suor escorrendo pela testa, deixando-me mergulhar no cenário mais incrível do universo.
Eu disparava golpes contra a oponente e desviava dos ataques da mulher de 1,73m que era uma verdadeira parede de músculos com os cabelos escuros presos em tranças apertadas, as mãos escondidas por luvas brancas, vestindo um conjunto de top e short preto, exibindo os nomes dos patrocinadores do evento. Na minha mente, o octógono se tornou o nosso espaço, rodeado de torcedores que assistiam à luta em meio a gritos e muita euforia.
Abri os olhos e as pupilas dilataram quando ergui os braços, acertando socos contínuos, flexionando os ombros e os cotovelos, treinando os golpes como o gancho e o cruzado, intercalando com os chutes. Girei o corpo quando o saco balançou na minha direção, bloqueando a colisão com o antebraço, sendo rápida em saltar para trás e impulsionar em um pequeno salto, chutando baixo, imaginando que acertava as pernas do oponente.

O que está fazendo, ? — A voz rouca me apunhalou.

Merda!
Engoli em seco, o arrepio dominando minha espinha. Virei o corpo, encontrando a figura imponente do homem me encarando com os olhos estreitos, estudando minuciosamente cada movimento. Os braços musculosos estavam cruzados em frente ao peito, os bíceps e tríceps maiores que o comum. Subi a visão para o rosto, encontrando o semblante carrancudo, fazendo conjunto com as grossas sobrancelhas franzidas e os cabelos escuros penteados para trás, a pele levemente envelhecida, denunciando sua idade.

— Ooi, pai — forcei um sorriso, escondendo as mãos atrás do corpo.
— O que está fazendo com esse saco de pancadas? — questionou, sua voz séria e fria.
— Ah... Eu... — apertei as mãos, pensando em uma resposta convincente. — Só estava tirando o pó — disse, desviando o olhar quando o vi buscar por qualquer sinal de mentira.

Darius sempre foi bom em dizer quando a filha estava mentindo.

— Eu nem irei perder meu tempo perguntando sobre as faixas enroladas nas suas mãos — esfregou o rosto, massageando a têmpora. Um suspiro cansado escapou da sua boca. — Espero você na saída...

Mordi os lábios, acompanhando-o sair da área de treinamento, indo para a parte de musculação, onde ficavam os aparelhos e a entrada. Suspirei, soltando o corpo no tatame macio, ficando sentada em frente à parede de espelhos, encarando meu reflexo; os olhos amendoados de coloração verde com pigmentos em ocre se encontravam cabisbaixos, transparecendo minha frustração.
Os cabelos estavam presos num coque frouxo, os fios soltos desgrenhados como se tivessem levado um choque elétrico, as mechas pardas perdendo-se entre os tons castanho escuro. Desenrolei as faixas velhas dos pulsos e das mãos, notando que havia escolhido um conjunto de roupas brancas com detalhes em preto que moldava o corpo, facilitando a execução dos movimentos.
Joguei as bandagens longe, tombando a cabeça para trás, batendo contra a parede, e nem mesmo a pequena dor foi o suficiente para me distrair. Dobrei os joelhos, deixando os braços apoiados sobre eles, enquanto encarava o teto branco, perdida e dividida entre as minhas obrigações e ambições. Fechei os olhos, molhando a garganta seca com a saliva, podendo ouvir o silêncio que pairava sobre a academia naquele fim de tarde.
Encarei os dois sacos de pancadas pendurados por uma corrente, desejando que um dia conseguisse passar pela porta e treinar sem que meu pai me olhasse daquele jeito. A repreensão e o desapontamento cruzados em seu olhar como se estivesse diante de um experimento que não deu certo. E, talvez, eu fosse mesmo um projeto que fugia completamente à regra, a garota que era apenas conhecida como “a filha do campeão mundial peso-pesado do MMA”.
Suspirei, toda a frustração borbulhando dentro de mim. Cinco anos. Exatamente sessenta meses, desde o evento do UFC em Miami que acendeu a chama que tanto me consumia e deixava meu pai irritado, aplicando suas proibições silenciosas. Tinha sido uma noite épica, duas mulheres disputavam o cinturão, aplicando os golpes com maestria e me encantando em cada movimento, sendo ali que se deu início aos esforços de Darius em controlar a filha rebelde e desobediente que treinava escondida, com a ânsia de sentir o ringue sob os pés.
A vida dentro da academia nunca me fascinou de verdade, tornando-se apenas uma prisão dourada que cravava ainda mais o sobrenome em minha pele. Cuidar dos horários, dos pagamentos, as manutenções dos equipamentos, arrumar as fichas de treino... Tudo era importante e até mesmo divertido, mas, no fundo, sempre soube que existia um espaço vazio no meu mundo, o lugar que era preenchido pela adrenalina que sentia sempre que lutava escondido na área de treinamentos.
Os troféus de Darius reluziam, enfeitando as prateleiras, em um lembrete constante de que deveria apenas observar as lutas de longe.
Meus olhos percorreram o espelho, fixando-se na imagem da mulher em que estava me tornando. Forte, ágil e com o corpo moldado por treinos escondidos e uma determinação crescente a cada repreensão paterna. Estava em conflito, entre o que era esperado de mim e o que desejava desesperadamente.

— O que o meu diamante está fazendo largado assim no chão? — A voz máscula e grave ecoou pela entrada da sala de treinamentos.

Percorri a silhueta alta que preenchia o vão da porta. Ele estava impecável. O smoking de corte preciso moldava os ombros largos, a gravata cinza combinava com a camiseta social branca, e os sapatos pretos reluziam à luz fraca do ambiente. Os olhos castanhos contrastavam com os cabelos escuros, perfeitamente penteados. Um sorriso brotou em meus lábios e me levantei, correndo em sua direção, envolvendo-o no abraço caloroso e apertado que seus braços ofereciam.
Vladimir Russo era um empresário astuto que orbitava ao redor da minha família há anos. Dedicou longos anos a cuidar da agenda caótica, das reuniões e a confirmar a presença de Darius em eventos e torneios. E agora, comandava dois dos maiores cassinos de Las Vegas. Sempre me divertia quando lembrava da história do gigante desajeitado à minha frente, perdido e desesperado com um bebê recém-nascido, não sabendo nem trocar uma fralda, enquanto o amigo estava repleto de trabalho.
Vladimir era considerado o meu tio postiço. Parte da minha família.
Senti o calor quando ele depositou um beijo no topo da minha cabeça, alargando um sorriso que o fazia estreitar os olhos.

— Tenho algo que vai animar você — anunciou, olhando para os lados, varrendo o espaço ao redor, antes de se inclinar em minha direção. — Mas tem de me prometer que o Darius nunca vai saber disso, nem pelo que é mais sagrado — sussurrou, o tom baixo e quase hesitante.

Assenti com urgência, parecendo uma criança prestes a ganhar o brinquedo mais desejado do mundo, a excitação tomando conta das minhas mãos inquietas. Observei com atenção faminta, enquanto ele deslizava a mão para dentro do paletó, retirando um envelope grande. O tom pardo causou-me uma ruga na testa. A pontada de ansiedade atingindo cada célula do meu corpo.

— Vai acontecer um torneio underground amanhã à noite, aqui na cidade. E consegui duas entradas.

Minhas pupilas dilataram, brilhando como duas esmeraldas, fascinada por cada palavra que ele reverberava. As batidas do meu coração aceleraram em um ritmo frenético e achei que fosse explodir. A perspectiva de assistir a uma luta clandestina atravessava todos os limites impostos por meu pai, sendo a oportunidade perfeita para espiar, quem sabe até adentrar, o mundo que tanto me atraía. E, talvez, daquela vez eu conseguisse ir e voltar sem ser flagrada por Darius, escapando das chuvas de sermões infinitos sobre os perigos que a sua filha — o diamante raro — correria se ousasse pensar em subir no ringue.
Suas palavras já ecoavam na minha mente: “A vida de um lutador do MMA já é curta e brutal, se tornando mais arriscada no meio dos ringues ilegais”.
Peguei o envelope e rasguei o lacre com avidez, a impaciência quase selvagem. Vladimir permaneceu com os olhos fixos em mim, um brilho divertido dançando em suas íris, parecendo ansioso para assistir à minha reação. Puxei o papel branco, as inúmeras linhas impressas borrando-se brevemente pela minha pressa, até que meus olhos focaram no símbolo peculiar cravado ao final da página.
A cabeça do urso estava voltada para frente, a expressão selvagem e intensa, os dentes afiados à mostra fazendo conjunto com os olhos em um tom penetrante, fixos no observador. A pelagem cinza detalhada, mesclada com nuances mais claras e escuras que realçam a musculatura poderosa. Envolvendo a fera, correntes de metal pesado conferiam um ar de poder indomável, enquanto os cantos do escudo eram compostos por uma textura que lembrava a madeira escura e envelhecida, adornada com rachaduras sutis.
E logo acima do escudo se destacava as letras “MMA” em um estilo arrojado, com o escrito logo abaixo, quase parando o meu coração: UNDERGROUND MMA TOURNAMENT.
Não eram apenas ingressos. Era um contrato de lutador.

— Como conseguiu isso, tio Vlad? — A curiosidade dançava em meus olhos.
— Tenho os meus truques, querida. — sorriu enigmático, enquanto sua mão deslizava novamente para dentro do paletó, como um mágico revelando um segredo. Retirou o embrulho prateado vibrante. — E isto é algo que irá precisar na sua estreia.

Peguei o presente e desvencilhei-me do lacre, meus dedos ávidos revelando um par de bandagens de um vermelho intenso. Novas, com o cheiro característico de tecido recém-saído da embalagem, na minha mente, conseguia imaginar perfeitamente o contraste delas com o preto habitual do guarda-roupa. Sorri, um sorriso genuíno, aquecendo o rosto com uma alegria que se espalhou por cada fibra do meu corpo. O calor reconfortante era como um abraço apertado. De todas as pessoas neste mundo, Vladimir era o meu maior apoiador na minha paixão pelas lutas. Ele sempre dizia que eu precisava trilhar o meu próprio caminho, que o sobrenome era apenas uma herança que não deveria me definir.

— Obrigada, tio! Você é o melhor! — puxei-o para meus braços, envolvendo em um abraço afetuoso.
— É só um presente pelo dia da sobrinha.
— Não existe um dia da sobrinha — ri, desprendendo-me dele.

Encarei o envelope e as bandagens, não conseguindo acreditar que tudo realmente fosse real.

— Vamos fingir que existe — brincou, depositando um beijo na minha têmpora. — Agora, precisamos levar o seu pai para o aeroporto e garantir que embarcará para o Texas. — Aproximou-se da saída.
— Eu só vou guardar as coisas nos armários e já encontro vocês — disse, e ele desapareceu, me deixando sozinha com o coração aflorado e os olhos ainda brilhando.

Olhei para as bandagens mais uma vez. As fibras dos tecidos carregavam promessas e receios. A onda avassaladora de ansiedade percorreu cada célula do meu ser, os pelos dos braços enriçando só de imaginar a textura da lona do tatame sob os meus pés, o calor dos holofotes, o som da minha primeira luta.
A minha primeira luta.
E a tranquilidade me dominava. Somente de saber que Darius estaria a quilômetros de distância, rumo ao evento do UFC, era como sentir a liberdade ao meu redor. Mergulhar de cabeça na audácia que seria entrar naquele clube clandestino, longe dos olhos protetores dele. Duas semanas livres das suas desaprovações e corretivos.
Terminei de arrumar os equipamentos de treino e desci para encontrar os dois, que me esperavam na porta de saída da academia. Entramos no carro blindado de tio Vlad e seguimos caminho até o aeroporto, sendo um trajeto um pouco conturbado, já que papai insistia em falar sobre todas as regras que eu deveria seguir enquanto estivesse fora. Ele parecia um ditador, sentado no banco da frente.

— O Vladimir ficará responsável por você, enquanto eu estiver fora — ditou, digitando no celular.
— Eu não preciso de uma babá — revirei os olhos, olhando pela janela do carro.
, eu confio em você. — Às vezes, parecia lidar com uma criança. — E sei que irá cuidar dos negócios da academia, mas também conheço a filha que criei, e ela adora fazer besteiras. — Olhou por cima dos ombros e a seriedade em seus olhos me fez entender sobre qual “besteira” estava se referindo.
— Eu já disse que não ia subir naquele ringue — retruquei.
— Você estava bêbada no meio de um clube clandestino.
— Não era um clube clandestino, pai, era uma boate — corrigi.

A The Red Secret é uma casa noturna com a atmosfera vibrante e intensa, banhada por luzes vermelhas neon que criavam um ambiente misterioso e excitante. No centro dela, ficava localizada uma gaiola de luta que se destacava como a atração principal, onde lutas eletrizantes aconteciam, adicionando uma dose extra de adrenalina todas as noites. Ao redor do ringue, sofás e mesas ficavam à disposição dos clientes, sendo um lugar para relaxarem e assistirem ao espetáculo, desfrutando de bebidas, dançarinas e músicas, além de apostas durante as lutas.
E foi no meio de um dos assentos que Darius me encontrou, bêbada e eufórica, assistindo ao espetáculo dos dois lutadores que se golpeavam violentamente, disputando uma aposta gigantesca. O único problema daquela noite foi ele ter recebido um telefonema da minha melhor amiga que disse precisar de ajuda para me levar para casa, sendo assim que escutei um dos maiores corretivos do universo no dia seguinte, com a puta ressaca explodindo a minha cabeça.

, se não fosse pela ligação da Savannah, eu nem consigo imaginar o que aconteceria com você naquele estado. — papai exaltou um pouco a voz, o timbre nervoso. — Por isso o Vladimir vai ficar responsável por você. Ele vai garantir que não se envolva em confusão.

Um sorriso irônico curvou-se no canto dos meus lábios. Eu sabia que mentir para Darius era errado, mas tinha que admitir que, se não fosse pelo apoio de tio Vlad, eu seria apenas uma garota frustrada que se contentaria em ficar atrás do balcão da academia pelo resto da vida. Mas, graças a ele, passei a observar com atenção os golpes dos lutadores nos eventos e a imitá-los na sala de treinamento quando estava sozinha.
Ele era o meu cúmplice e papai nunca deveria saber disso.

— Eu garanto, pai, não irei me envolver em nenhuma confusão. — E estava disposta a cumprir com a promessa, depois da luta clandestina de amanhã.
— Você é uma e sei que a luta está no nosso sangue, mas não se arrisque entrando nesse mundo.

Ele virou-se para trás e tocou minha mão que estava sobre o banco, acariciando com o polegar. Abaixei o olhar, mirando o carinho que o gesto transparecia, o calor do seu toque aquecendo minha pele em um afeto cuidadoso e protetor. Ergui a cabeça, encontrando os olhos verdes — iguais aos meus — que me encaravam com a faísca da insegurança dançando ao redor dos pigmentos dourados. Papai fazia questão de dizer sempre a mesma coisa quando me deixava sozinha, como um lembrete que deveria cravar na minha alma.
Segundo ele, o mundo da luta nunca deveria fazer parte da vida de um diamante como eu.

— Darius, eu prometo que não irei deixá-la se meter em encrencas. — Vlad estacionou o carro e apertou o ombro do amigo.

Papai meneou com um aceno.

— Estou confiando a segurança do meu diamante a você. — Usou o apelido habitual, que eu particularmente odiava.

Aos olhos dele, eu não passava de uma pedra preciosa, frágil e intocada que deveria ficar longe de qualquer problema que poderia me quebrar.
Descemos do carro e seguimos até a entrada do aeroporto. Encontramos diversas pessoas pelo caminho que se preparavam para embarcar, algumas apressadas e outras aguardando com ansiedade. Atravessamos as enormes portas de vidro, encontrando o ambiente movimentado; os pisos lisos e brilhantes ressoavam o som das malas com rodinhas em direção às cabines de check-in. As luzes abundantes iluminavam o local, os telões informativos exibiam os horários de voos e diversas placas de sinalização orientavam o fluxo de passageiros. Enquanto, ao fundo de um corredor, lojas e restaurantes ofereciam uma variedade de produtos e alimentos para os viajantes.
Darius me envolveu em um abraço tão apertado que o ar escapou dos meus pulmões e o ritmo do coração acelerou, batendo contra as costelas. Senti as pequenas lágrimas se formarem no canto dos olhos, o abraço carregado de saudade que já se instalava como um nó em minha garganta. Desde os meus dezoito anos, sua rotina de viagens solitárias para os eventos era um ciclo natural — ele era o campeão mundial de peso-pesado e sua presença sempre foi requisitada nesse mundo, até mesmo que fosse apenas para entrevistas —, sendo raras as ocasiões em que me levava.
E a vastidão silenciosa pela casa sempre seria um punhal frio em meu peito, uma melodia triste que jamais conseguiria me acostumar.

— Eu te amo, . — Suas mãos grandes envolveram meu rosto, os polegares ásperos roçando a pele. — E por favor, querida... Não se envolva em confusão.

Deslizei os dedos pelos pulsos fortes, marcados por anos de treinos e vitórias, os polegares traçando círculos lentos sobre o dorso das mãos calejadas.

— Eu prometo, pai — assenti, a voz embargada, fechando os olhos quando seu beijo protetor tocou o topo da minha cabeça. — E não se preocupe, o tio Vlad será a minha sombra agora. Não vou nem conseguir pensar em sair da linha — forcei um sorriso, uma tentativa de eliminar o clima denso de melancolia.

Rimos juntos, um som breve e reconfortante, antes de Darius se despedir do amigo com um tapinha nas costas. A voz metálica dos alto-falantes anunciou o embarque para o Texas, não demorando para o aperto mais doloroso agarrar o meu peito quando a figura imponente de papai desapareceu na multidão do terminal, me deixando oficialmente sozinha pelos próximos dias.
O aroma da saudade se misturou com o frescor da liberdade agridoce que eu sabia que logo tentaria preencher de maneiras inesperadas.
Vladimir aproximou-se, enlaçando meus ombros.

— Ele vai me matar quando souber que coloquei a filha dele em uma luta clandestina — murmurou.

Sorri, segurando sua mão sobre meu ombro, começando a caminhar para a saída do aeroporto.

Os punhos podem quebrar ossos, mas é a garra e o coração que vão conquistar o mundo — pronunciei a frase que ouvi a vida inteira.

Vlad fez uma careta.

— Usando as palavras do seu pai, que irônico, .
— Ele me ensinou a ser persistente e é isso que estou fazendo. — Descemos para o estacionamento, as linhas do pôr do sol enfeitando o céu. — Preciso treinar para o grande dia, então me deixe na academia. — Abri a porta do carro.
— Deveria dar um descanso para o saco de pancadas. — Ele cruzou os braços sobre o peito, o sorriso irônico curvando sua boca.
— Se quero parar de ser conhecida somente como a filha do campeão mundial, preciso treinar o dobro. — Entrei no carro, esperando que ele fizesse o mesmo.

Aconcheguei-me contra o banco do carona, encarando os raios de sol que desapareciam lentamente no horizonte. Quando acordei naquela manhã, não imaginei que estava prestes a dar o primeiro passo em direção ao octógono, e que, no meio do caminho, encontraria um empecilho que seria um dos meus maiores aliados.




A pilha de papéis parecia se multiplicar a cada instante. A mesa de tampo branco com laterais e armário auxiliar em preto, era uma verdadeira montanha de folhas com números que prometiam me enlouquecer. Puxei o puxador metálico de uma das gavetas — junto ao nicho de organização —, passeando os dedos pelas pastas azuis da contabilidade, buscando a do mês passado.
Abri a pasta sobre as pernas, comparando com o extrato de gastos do mês atual. Massageei a testa quando os números revelaram um aumento na conta de energia elétrica e manutenção dos aparelhos que não tinha sido relatado, finalmente encontrando a divergência nos cálculos. Suspirei de cansaço, usando a caneta para adicionar a observação em um pedaço de post-it, anotando mentalmente que teria de conversar com meu pai sobre isso.
A mensalidade da academia teria de sofrer reajuste ou, simplesmente, os lucros seriam afetados.
Guardei a pasta na gaveta, decidida que a parte financeira havia sido devidamente revisada e encerrada. Separei as folhas com números, extratos bancários e tabelas de finanças, deixando-as sobre a superfície em cima das gavetas no formato L. Recostei-me na cadeira, encarando a montanha que pareceu diminuir sutilmente, se não fosse a enorme pilha de fichas que ainda tinha que dar atenção.
O relógio marcava 19h00min da noite. Tinha exatas duas horas para dar um jeito naquela bagunça, se quisesse que o dia seguinte tomasse menos do meu tempo. Precisava me dedicar exclusivamente aos treinos de luta e, por isso, não teria lugar na agenda para lidar com toda a burocracia da academia.
Soltei o ar pela boca e comecei a separar as fichas com a familiaridade de quem conhece cada detalhe: hipertrofia, cutting, reabilitação e iniciantes. Meus olhos percorreram a mesa, pairando sobre o monte de ganho de massa muscular e decidi começar por ali — esse exigiria mais atenção e dedicação. Digitei o nome do primeiro aluno no computador, e a tela explodiu em números e gráficos da avaliação física. Minha boca curvou-se em um sorriso satisfeito, agradecendo por Darius ter a mania de guardar os dados biométricos dos alunos, que me poupava metade do esforço na hora de planejar o treino perfeito.
A academia estava quase vazia, alguns alunos percorrendo entre os aparelhos, aproveitando da diversidade de opções e recebendo orientações dos estagiários sempre dispostos a ajudar. Quando voltei do aeroporto, fiquei aliviada por Louis ter conseguido dar conta em um horário de pico, tomando conta dos iniciantes e se dedicando ao seu trabalho de fisioterapeuta. Apesar de ter ficado levemente frustrada por não ter tido tempo de pisar na área de treinamento, já que mergulhei de cabeça na burocracia.
Girei a caneta entre os dedos, o cérebro quase entrando em combustão ao pensar em exercícios que poderiam se enquadrar na hipertrofia. Enquanto esperava o computador carregar mais uma avaliação física, deixei que os olhos caíssem sobre o peso de mesa em formato de octógono que meu pai tinha ganhado da esposa de aniversário. Peguei o objeto, o dedo delineando os detalhes da gaiola do UFC, e a pontada característica no peito se expandido em saudade.
Rayla foi a personificação da generosidade. Ela tinha um jeito único de enxergar o mundo, buscando uma forma de aliviar o fardo alheio. Suas mãos, sempre estendidas para levar conforto aos desamparados, ajudando ONGs e pessoas, sem buscar nada em troca. Sua bondade era como a brisa do verão, uma calmaria sem igual, a prova viva de que poderia ser uma força revolucionária.
Diferente da frieza que cercava o universo das lutas, ela era o calor. Por trás do sorriso gentil, escondia a força do seu espírito indomável — a mesma garra que evidentemente herdei — indo contra todas as probabilidades, lutando por seus próprios sonhos, sem medo do julgamento. E, mesmo quando a leucemia ceifou suas forças, recusava-se a ser definida pela dor, amando a vida e transformando cada dia em um testemunho da sua resiliência.
Mamãe sempre acreditou firmemente que a vida era curta demais para ficar parada apenas olhando o tempo passar, vivendo de acordo com essa filosofia. E a sua presença foi o farol que me impulsionou a trilhar o próprio caminho, apesar de ser dentro da luta e desafios. Sendo por causa dela que, em uma noite, tomei a decisão de ir contra todos os princípios para correr atrás de uma faísca que perseguia há anos.
As lembranças daquela noite de cinco anos atrás me assolaram e deixei o sorriso decorar os lábios — havia sido meu primeiro contato com o submundo. O cérebro reprisando cada instante, enquanto olhava para o peso de papel.
O álbum revelava sobre as lembranças da família, quando retirei a fotografia em que mamãe abraçava a garotinha de apenas sete anos — alguns meses antes da sua partida. O aperto da saudade me consumiu, o sorriso em seu rosto acendendo a dor que achava que um dia ia conseguir controlar. Virei a foto, encontrando a letra discursiva e perfeitamente redonda delineando a filosofia que Rayla sempre lutava para me lembrar. E foi naquelas palavras que encontrei forças para obrigar o corpo a sair da cama, atravessando a casa em silêncio até a garagem. Darius havia acabado de chegar de viagem e tudo que menos precisava era acordá-lo depois de horas preso em um voo.
Agradeci quando vi a moto estacionada na rua, tendo de empurrá-la quase um quarteirão até conseguir ligá-la sem que papai escutasse o ronco do motor. A Yamaha YZF-R6 não era nem um pouco amiga do silêncio. O vento balançou meus cabelos assim que acelerei pelas ruas movimentadas de sábado à noite. Troquei a marcha, diminuindo a velocidade quando as luzes reluzentes invadiram meu campo de visão. Desliguei o motor, descendo do veículo; o asfalto molhado abraçou os tênis pretos de solados brancos.
Coloquei o capacete no banco. Mordi os lábios, a multidão lotando a entrada do clube. Homens e mulheres dançavam ao ritmo da música alta, enquanto esperavam pela liberação dos seguranças. Meus olhos varreram o lugar, buscando por outra alternativa de entrar, pois não tinha tempo de esperar naquela fila. Darius poderia acordar a qualquer momento, notar minha ausência e planejar, para o resto da noite, o grande sermão que ouviria por horas quando voltasse.
O grito de euforia dominou o clube, sobressaindo-se à música. Encarei o enorme segurança, robusto e largo, que deixava duas mulheres entrarem. Franzi o cenho quando uma delas deslizou a mão pelo peito dele. Ela usava roupas tão curtas que a minha até parecia vulgar. O vestido vermelho colado não cobria nem metade das suas coxas, e era um crime perto da jaqueta de couro e calça jogger pretas que eu usava. Mas, meu par de tênis conseguiria ser visivelmente mais confortável que o salto fino.
Retirei a chave da ignição, decidida a explorar o lugar em busca de uma entrada pelos fundos. Virei a esquina, encontrando uma porta escura no beco. O homem trajado com roupas formais fazia a guarda. Observei-o por alguns minutos, meu corpo contra a parede fria e isolada, achando a falta de movimento bastante suspeita. As janelas que decoravam o grande prédio de tijolos envelhecidos tinham os vidros refletindo luzes vermelhas e alguns vultos que não conseguia identificar, mesmo já sabendo o que me esperava do lado de dentro.
Dois homens se aproximaram do segurança, a expressão séria, quando estenderam um maço de dinheiro. Semicerrei os olhos, estudando a situação. Eles assentiram, as bocas curvadas em um sorriso, ganhando o luxo de entrar. Balancei a cabeça, pois, como suspeitei, bastava apenas subornar o grandalhão e, em troca, ganhava o direito de participar do clube. Típico de eventos clandestinos.
E papai me mataria se soubesse que gastaria meu dinheiro suado naquele lugar. Então, que eu encontrasse os anjos em breve, meu instinto implorava por isso, mas antes, tentaria uma abordagem mais... persuasiva.
O zíper da jaqueta deslizou para baixo, revelando a camiseta branca que realçava as curvas dos meus seios avantajados. Joguei os cabelos sobre os ombros e aproximei-me do guarda com os passos firmes. Adotava uma confiança de quem queria causar uma boa impressão apenas com o andar, mesmo que por dentro meu coração estivesse aos tropeços.

— Boa noite — comecei, percorrendo os olhos pelo físico dele.

Minha voz, mais casual do que esperava, soava como uma melodia. Mantive o sorriso discreto, que mal roçava os lábios. Fingi espiar através da porta que continuava aberta, pairando ao lado dele, o corpo contra a parede fria. Queria parecer inabalável.

— A entrada principal está um caos. É sempre assim aos sábados? — Cruzei os braços em frente ao peito, levantando ligeiramente o busto.

Ele apenas me encarou em silêncio, a expressão séria e compenetrada. Os olhos varreram meu corpo de cima a baixo até pairar no rosto, sem esboçar nenhuma reação.

— Soube que por aqui o acesso é um pouco mais... discreto. — As palavras dançaram em minha língua, escolhidas com cautela. — Estou certa?

O guarda crispou as sobrancelhas, analisando-me como uma águia astuta. A ruga em sua testa revelava a suspeita crescendo diante da minha audácia.

— O que uma mulher como você faz em um lugar como este? — disparou, seu timbre firme e enxuto.

Alarguei um sorriso irônico no canto dos lábios, empinando o nariz. Era hora de começar o jogo. Concentrei-me em manter os ombros relaxados diante do seu olhar estreito. Minha postura era crucial para a investida.

— Eu não quero atrapalhar o seu trabalho — gesticulei em direção à porta. — Apenas busco experiências mais autênticas — revelei, a voz misteriosa, quase um sussurro.
— Aqui não é lugar para mulheres como você. — ele deu de ombros.
— Mulheres como eu? — arquei a sobrancelha, o calor característico subindo pela base do meu pescoço.

Ele limpou a garganta, hesitando por um instante. O cenho franziu, enquanto arrumava a postura, sacolejando os ombros. Os braços estendidos em frente ao corpo e as mãos unidas.

— O que realmente está procurando, senhorita? — Foi cauteloso, mas havia uma breve abertura em seu tom.
— Busco algo muito particular — murmurei, desencostando da parede e diminuindo a distância entre nós, sem ser invasiva. — Não sou uma curiosa passageira, daquelas que vêm para passar o tempo e depois somem. — Minha postura permanecia ereta, o olhar firme. — Meus interesses nas lutas são muito mais profundos. — Toquei seu ombro rígido, sussurrando em seguida: — E, para ser sincera, o tempo é um luxo que não posso desperdiçar na espera.

Ele me observou por alguns segundos, avaliando-me. E, por um instante, pensei em retirar o maço de dinheiro do bolso da calça e acabar de vez com o show. No entanto, algo me dizia que não deveria definir a minha entrada como uma simples compra. Tinha que ser mais ardilosa.

— Sinto muito. — Afastou minha mão do seu ombro de maneira sutil. — Terá que esperar na fila como as outras pessoas. — Foi relutante.
— Não estou pedindo um favor. Estou apenas informando que irei entrar. — Usei o tom autoritário, friamente calmo, como se estivesse comunicando um fato inegável. — Estão me esperando lá dentro, pessoas que possuem bastante influência neste lugar. Não seria nada gentil que meu atraso gerasse algum tipo de... desavença — apelei para a persuasão, usando a mentira como aliada.

Observei-o, esperando sua reação.

— Quem, por exemplo? — Quis saber, sendo neutro e ligeiramente investigativo.
— Digamos que alguém que valoriza a discrição e a eficiência — respondi tão assertiva que conseguiria facilmente me ludibriar. — E eu, assim como você, não queremos problemas para essa noite. — Mantive o contato visual.

Ele soltou um suspiro lento, parecendo cansado de lidar com as minhas investidas. A ruga na testa suavizou. E eu, como uma boa observadora, tinha de admitir que lidar com uma pessoa tão insistente era de fato exaustivo, embora estivesse adorando jogar aquele jogo.

— Entre, senhorita. — Fez um gesto com a cabeça para a porta. — Mas saiba que as regras neste lugar são muito mais rigorosas do que pensa.

O canto dos meus lábios se curvou em um sorriso vitorioso.

— Não se preocupe. Sou especialista em seguir todas as regras. — E, sem dizer mais nenhuma palavra, deslizei pela abertura.

A batida eletrizante me engoliu e o arrepio de pura adrenalina percorreu a minha espinha enquanto atravessei o escuro corredor, ouvindo gritos carregados de euforia. Nomes sendo saudados. Meu coração batia com força contra as costelas, explodindo em ansiedade a cada passo. Nada me preparou para o brilho que dominou minhas pupilas assim que entrei no clube, o estômago revirando em êxtase quando a grande gaiola de luta roubou a cena.
Os lutadores trocavam socos violentos, os punhos cerrados e manchados de sangue. Um combate eletrizante entre dois titãs, dividindo o público que salivava. Fiquei impressionada quando o homem mais alto — com faixas vermelhas nas mãos — saltou e, em um reflexo quase imperceptível, acertou os dois pés contra o abdômen do adversário, derrubando-o no chão. O impacto seco e violento animou a torcida, corpos pulando e maços de dinheiro sendo estendidos para cima.
Uma verdadeira anarquia.
Olhei ao redor, estudando o clube com atenção. O ringue ficava no centro do salão, rodeado da plateia que se segurava contra as grades na lateral, sendo essa a única divisão entre os lutadores e o público. As paredes de tons cinzas possuíam manchas brancas e pretas, com pequenas fissuras que realçavam o toque sombrio do lugar. Teias de aranhas minúsculas serpenteavam pela sua extensão, algumas tão finas que eram quase imperceptíveis, outras mais largas e profundas, evidenciando o trabalho incansável do tempo. E ao fundo, tinha uma entrada que levava para a boate, luzes vermelhas e azuis dançando pelo ambiente. Homens e mulheres dançavam, bebiam e fumavam.
Meus olhos foram capturados pela luta. O lutador das bandagens vermelhas foi arremessado no chão após receber um chute no rosto que o fez bater o queixo contra o concreto. O protetor bucal voou, girando no ar antes de cair ensanguentado; o sangue jorrava da sua boca dilacerada. Entreabri os lábios, surpresa com a brutalidade do adversário. O silêncio tenso preencheu a sala, enquanto o locutor começava a contagem, erguendo os dedos conforme pontuava.
Tensionei a mandíbula, o ar quase insuficiente, aguardando por qualquer reação do lutador. Ele tinha as mãos apoiadas no chão, tentando se levantar a todo custo — apesar da confusão explícita em seus olhos — a dor presente no rosto, as feições contraídas expressando o sofrimento, eram evidentes. O queixo possuía um grande corte que pingava no chão, a boca e os dentes tingidos pelo líquido espesso.
A agonia me dominou ao perceber o maxilar fraturado. Engoli em seco, desviando os olhos quando tentou um último e patético esforço para se levantar, apenas para desabar em um baque seco, completamente inconsciente, o gemido se perdendo no rugido da multidão. O alvoroço dominou o clube, o locutor anunciando o campeão em um grito gutural.
Já os próximos minutos tornaram-se apenas borrões, seguido pelo som inconfundível de botas pesadas e ordens abafadas.

— POLÍCIA! — um grito ecoou da entrada.

O caos explodiu. Mesas foram derrubadas, garrafas quebraram e uma onda de pânico se espalhou para todos os lados. Pessoas começaram a correr para a saída, desesperadas, tropeçando umas nas outras na fuga desordenada. Lanternas potentes cortaram a escuridão, varrendo os rostos assustados enquanto a polícia avançava com determinação, recebendo uma denúncia anônima de que o lugar estava cheio de menores embriagados e apostas ilegais.
Não perdi tempo em sair pela mesma porta em que havia entrado, tratando de ser rápida em subir na moto e desaparecer daquele lugar, antes dos policiais me encontrarem. E durante o caminho até em casa, conseguia ainda sentir o cheiro de suor, fumaça e de algo metálico — talvez sangue fresco — em uma mistura inebriante que me puxava ainda mais para o submundo.
O mundo clandestino é o lugar onde as regras da sociedade não se aplicavam, porque a violência e a adrenalina eram a supremacia. E, a cada segundo, queria me entregar cada vez mais a essa atmosfera caótica, como se pertencesse a ela. Uma promessa de algo selvagem e imprevisível me atraindo para dentro.

? — A voz grossa me atingiu como um tapa ardido na face.

Meu corpo reagiu em um sobressalto. O impulso lançando o pequeno octógono para o alto. Arregalei os olhos e o coração disparou, estalando na garganta. O terror de imaginá-lo caindo e se partindo em pedaços causou o arrepio gélido dos pés à cabeça. Minhas mãos embolaram-se no ar, desajeitadas, até que finalmente o agarrei, apertando-o contra o peito como se segurasse uma bomba.
E só então encarei a figura masculina à minha frente, o corpo magro de ombros largos. Olhos azuis fixos em mim e uma das sobrancelhas arqueadas em interrogação.

— Está tudo bem?
— Sim... — respondi rápido demais, colocando o peso de papel na mesa antes que acontecesse uma tragédia. — Eu só... Estava pensando — limpei a garganta, voltando a atenção para as fichas.

Engoli em seco, não sabendo nem se era capaz de pensar direito.

— Aconteceu alguma coisa? — Seu tom mudou para preocupação.
— Não. — Percorri os olhos pela mesa, buscando por uma desculpa convincente. — Só estou planejando um treino de hipertrofia. — Forcei o sorriso.

Peguei a pilha de fichas, esbarrando a mão no porta-canetas e o derrubando no chão. O som estridente tremendo pela sala. Mordi a ponta da língua, segurando o xingamento que foi inevitável. Louis deveria estar me vendo como uma mula desastrada.

— Droga! — Cerrei os punhos e respirei fundo.
— Tem certeza de que não precisa de ajuda? — Ele venceu a distância, agachando-se no chão para pegar as canetas.

Suspirei, esfregando o rosto com as mãos, antes de pegar o porta-caneta que foi estendido e o bater com força contra a mesa.

— É só o primeiro dia. Os próximos serão melhores — massageei a têmpora, fuzilando a ficha de treino à minha frente como se ela fosse pegar fogo a qualquer momento.
— É o que diz para si mesma sempre que o Darius viaja? — Seu cabelo loiro apontou na borda da mesa.

Joguei o corpo na cadeira, refletindo que não deveria deixar que as emoções me abalassem tanto desse jeito.

— Ele deixou o seu pai cuidando de mim — revelei, buscando uma forma de distrair sua atenção do meu pequeno surto. — Como se o tio Vlad não tivesse coisas melhores para fazer, além de ser a minha babá. — Rolei os olhos, conseguindo ouvir perfeitamente a voz de papai nos ouvidos.

Louis soltou um riso arrastado. Endireitou a coluna e colocou as canetas dentro do recipiente cilindro.

— O Darius só se preocupa com você. — Sentou-se na cadeira a minha frente.
— Na verdade, ele se preocupa em manter o diamante intacto — corrigi, ocupando a mão com uma caneta.

Louis curvou os lábios em um sorriso de canto, varrendo a mesa em uma análise minuciosa. Os olhos pareciam querer se ocupar com qualquer outra coisa que não fosse o meu rosto. Ele ajeitou os cabelos para trás, e eu o fuzilei, notando um certo nervosismo em seus gestos.

— A Savannah me contou que meu pai a inscreveu em um torneio underground amanhã à noite — disse as palavras, parecendo receoso.

Arquei uma sobrancelha, desviando a atenção para o computador.

— Então é sobre isso que quer falar comigo? — disparei, digitando no teclado o nome do próximo aluno.

Ele cruzou os braços em frente ao peito.

— Eu só queria entender o que se passa na sua mente. — Balançou a cabeça em negação. O cenho franzido em indignação.
— Nunca vai saber. — Dei de ombros. Já imaginando como seria o desenrolar da conversa.
— Não acha que está se arriscando demais? — Ele segurou a borda da mesa. A genuína preocupação em sua voz. — , você não conhece esse mundo.

Tensionei a mandíbula, os músculos começavam a ficar rígidos. Levei a ponta da caneta até os lábios, mordiscando o tubo, ainda sem o encarar. Louis era o completo oposto de tio Vlad. E sempre deixou claro a sua aversão por lutas clandestinas.

— E suponho que você conheça, Louis. — O plástico da caneta estralou com a mordida.
— Esses lugares são sujos. Cheios de pessoas medíocres e mafiosos que adoram multiplicar suas fortunas com apostas altíssimas — falou o óbvio, a parte das lutas que não me importava nem um pouco.

Endireitei o corpo, inclinado para a frente, os cotovelos apoiavam-se contra a mesa. Finalmente, meus olhos o miraram, percorrendo o rosto jovem e com uma barba por fazer.

— Nem todos são assim — rebati com calma.
— E o que o Darius vai achar disso? — A ruga em sua testa expressava claramente seu desconforto.
— Ele nunca vai saber. — Manuseei o mouse, enviando o arquivo para a impressora.

Ele ergueu as mãos no ar, o rosto contraiu-se perante minha revelação.

— Então pretende mentir? — disparou, esfregando a mão nos lábios. — E o que você ganha com isso? Uma fratura de...
— A minha liberdade, Louis. — interrompi.

Virei-me bruscamente. Meus olhos verdes o fuzilaram, não sendo mais capaz de controlar a ira que faiscava nas pupilas. O coração acelerou e tive de cerrar um dos punhos para conter a raiva tempestuosa, apesar de preservar o tom da voz em uma melodia serena, friamente calculada. Odiava quando as pessoas queriam ditar as regras sobre a minha vida como se eu fosse uma marionete manipulada por cordas invisíveis.

— Passei a minha vida inteira fazendo o que os outros queriam — as palavras saíam entre os dentes. — Fui a garotinha perfeita — estreitei os olhos, o tique nervoso na sobrancelha. — Eu segui as entrelinhas das regras. Deixei meu pai orgulhoso, ao ponto de ele me considerar um diamante intocado — desviei o olhar ao notar a decepção no rosto de Louis. Soltei o ar pesado pela boca. — Então por que ninguém consegue aceitar isso? É tão difícil acreditar que eu realmente queira viver nesse mundo?
— As lutas não foram feitas para pessoas como você.
— Louis... — pausei, acalmando a tempestade em meu interior. — É a minha vida, minhas escolhas. E achei que pelo menos você me apoiaria a seguir os meus sonhos.
— Isso não é um sonho, . É caminhar de olhos vendados para a morte! — Notei a veia saltada na lateral do seu pescoço.

Balancei a cabeça, enquanto mordia os lábios. Encarava um ponto fixo no computador, incapaz de olhá-lo depois de demonstrar sua explícita reprovação.

— Eu não vou discutir isso com você — divaguei, a voz baixa, quase um sussurro.
— Eu só não quero que se machuque — expressou sua preocupação.

Segurei o sorriso cínico que insistiu em dominar os meus lábios. Era o que todos diziam. O diamante frágil não deveria correr o risco de quebrar, mas o que poucos imaginavam era que a joia intocada se rachava lentamente, mergulhada na angústia e nas palavras que deveriam me proteger de alguma forma.

— O MMA é um esporte violento, então é impossível pedir isso — murmurei baixo.
— Poderia escolher outro esporte. Futebol, beisebol, natação, esgrima. — E abrir mão dos meus sonhos pelos caprichos dos outros.

Pressionei os lábios, virando a cabeça para encará-lo.

— Você não tem nada melhor para fazer, além de agir como o meu pai? — forcei um meio sorriso.

Ele suspirou, levantando-se da cadeira.

— Preciso encontrar o Vladimir no cassino. Vejo você amanhã? — Seus olhos fixaram em mim, a aflição dominava os glóbulos azulados.
— Ainda estarei inteira ao amanhecer — fui sarcástica, assistindo-o vir em minha direção e depositar um beijo no topo da cabeça.

E então saiu, atravessando a saída da academia sem dizer mais nenhuma palavra.
Soltei o peso invisível que pairava sobre os ombros. O corpo amoleceu na cadeira e passei alguns minutos com os olhos fechados, controlando a inquietação tão familiar que se apossava do meu peito. Peguei a caneta novamente, retornando às fichas de treino. Precisava focar em qualquer coisa antes de cair na autopiedade. E a meu favor ainda tinha uma hora até todos os alunos irem embora, tempo o suficiente para adiantar as tarefas.
Comecei a escrever os exercícios, selecionando os melhores conforme analisava os resultados das avaliações físicas. Encarei o relógio, calculando mentalmente quanto tempo precisava para terminar tudo e ficar livre da burocracia no dia seguinte. Juntei as fichas, decidida a levá-las para casa, terminaria antes de dormir. Mas o que menos esperava era que meu celular acendesse a tela naquele momento, o som da notificação anunciando uma nova mensagem.
Envolvi o aparelho, o nome de Savannah cravado no topo. Apoiei a mão no queixo, lendo as palavras dela.

Savannah
Noite das garotas. Eu, você e muita tequila.


Apertei o canto dos olhos. Meu plano de terminar todos os treinos havia acabado de cair no abismo, quando a tela anunciou a ligação. E, como a conhecia, sabia que ela não aceitava “não” como resposta.

— Tenho muito trabalho, Sava. — Ainda tentei argumentar.
— Vamos comemorar a sua futura primeira luta! — gritou com entusiasmo. Ouvi vozes masculinas ao fundo junto com o som das roletas, provavelmente estava no cassino.
— Acabei de ter uma pequena discussão com o seu irmão por causa disso. — Esfreguei as têmporas e acenei para o último casal da academia que estava indo embora.
— Então vai precisar de uma boa dose de álcool, se quer esquecer o que o idiota disse. — Às vezes, ela sabia perfeitamente como contornar a situação.

Ri, não conseguindo evitar.

— Escuta, esquece ele e vamos comemorar! — declarou com entusiasmo e tive de afastar o telefone da orelha por alguns segundos. — Não vamos deixar ninguém estragar essa noite!

Bastou apenas mais alguns minutos para ela, enfim, me convencer. Finalizei a ligação, combinando de nos encontrar na The Red Secret assim que tomasse um banho e escolhesse o vestido mais sexy do guarda-roupa. Savannah era o completo oposto de Louis, sendo também uma cópia descarada do glorioso Vladimir Russo. E ela sabia como ser obstinada quando queria.
Com o suspiro que carregava tanto o cansaço quanto a excitação latente, terminei de organizar a mesa e desliguei o computador. A mochila e o capacete já estavam em minhas mãos quando apaguei as luzes; o grande rádio silenciou, mergulhando o ambiente na completa escuridão. O clique da fechadura das enormes portas da entrada foi um prelúdio.
Subi na moto e, ao virar a chave, girei a mão no acelerador. O ronco do motor, saindo pelo escapamento, soou como um tambor batendo no peito. O som reverberava um presságio. A certeza de que a minha vida estava prestes a tomar um rumo inesperado em direção ao desconhecido.



WOLF


A confiança é a crença de que algo não irá falhar. É uma certeza que nos sustenta. No entanto, é um elo frágil, inestimável, que não pode ser comprado e, uma vez rompido, pode ser extremamente difícil de reconstruir. Sua conquista acontece dia após dia, através da integridade e da honestidade. Ela é a ponte que nos conecta às pessoas e, sem isso, as relações desmoronam como montanhas de gelo em contato com o fogo.
Espalmei a mão no chão, sustentando o peso, enquanto o braço livre estava posicionado atrás do corpo. Tensionei os músculos, flexionando o tronco para frente, quase o encostando no concreto. O pingente religioso cinza, quadrado, preso ao cordão de prata, balançava com os movimentos, emitindo pequenos sons que se mesclavam à minha respiração ruidosa. Levantei a cabeça, mirando a televisão pendurada na parede, onde um filme policial estourava em uma onda de tiros com os criminosos.
A academia da Mansão El Imperio de Acero era enorme e bastante funcional, com cada canto otimizado para os treinos intensivos dos lutadores. Os equipamentos de ponta cintilavam sob a iluminação fria, aguardando para serem usados. As paredes eram cobertas por espelhos gigantes, enquanto um ringue de treinamento, robusto e imponente, dominava o canto direito, como um altar pronto para ser usado.
O lugar era um santuário de força bruta. Uma arena particular onde todos poderiam se desafiar antes dos torneios underground.
Troquei os braços, desta vez flexionando a mão esquerda, contando o número de flexões que conseguia fazer, continuando a ser sustentado pelas pontas dos pés que se encarregavam de manter as pernas esticadas, sustentando meu equilíbrio. Soltei o ar pela boca quando terminei, sentando-me no banco mais próximo, as gotas de suor escorrendo pelo rosto e a respiração parecendo queimar a cada rajada de ar até os pulmões.
O protetor começava a incomodar, como sempre fazia em todos os treinos de alta intensidade. Mordi os lábios, puxando o velcro e liberando o joelho esquerdo — que já pulsava, liberando a dor incômoda —, exibindo a cicatriz grossa e robusta, a minha companheira para a vida inteira, fazendo questão de sempre me lembrar daquela fatídica noite. O dia em que estive cara a cara com a morte, pronto para jogar um jogo de tabuleiro. O calor se apossou do meu peito e franzi o cenho, lembrando-me perfeitamente de ter me tornado um perdedor, um lutador reserva que vivia sob a sombra de um novo campeão.
Pressionei o joelho e grunhi, mordiscando o lábio inferior ao segurar o gemido que a pressão dos dedos causou. Obriguei-me a levantar, ficando com o corpo curvado, enquanto segurava a perna como se isso fosse minimizar a dor de alguma forma. Forcei o corpo até a mochila, jogada em algum canto da academia. Peguei a faixa branca e retornei ao banco, já a enrolando ao redor da cicatriz, cobrindo o presente que, há um ano, a vida me presenteou.
Joguei a cabeça para trás, fechando os olhos e engolindo em seco quando as chamas começaram a consumir meu interior, fazendo questão de me jogar de volta naquele ringue dos horrores. A porta da academia se abriu, batendo contra a parede em um baque seco, deixando que o ser mais repugnante e desprezível do mundo a atravessasse, com o seu habitual tablet em mãos.

— Boa noite, lobinho! — Sua voz carregada de sarcasmo invadiu o espaço. — Como está o seu joelho hoje? Ainda sente muita dor? — ele riu em seguida.

A diversão do desgraçado — além de perturbar a minha paz —, era todos os dias acompanhar a minha lesão.

— Cai fora, Uriah. — Não fiz questão de um contato visual.

Ainda com as pálpebras fechadas, suspirei, desejando que isso pudesse ter a força necessária para transformar o infeliz em um amontoado de cinzas.
Ele riu com escárnio.

— Preciso saber se vai voltar nos dando prejuízos ou finalmente vai fazer a El Imperio de Acero voltar a faturar — revelou seu interesse.

Trinquei a mandíbula, o tique nervoso denunciando o começo da minha euforia. Mirei-o, os olhos escuros, atentos e mais obscuros do que o habitual, calculando o tempo exato que demoraria para estrangulá-lo e esconder o corpo sem que ninguém sentisse a sua falta.
Uriah era tão inconveniente quando queria ser.

— Lucius anda preocupado, Wolf. — Deslizou o dedo pelo tablete, virando-o em minha direção, exibindo um gráfico de barras. — Desde que você caiu, tivemos uma queda de 45% no lucro das apostas. — A caneta branca apontava os números e tudo que conseguia pensar era em enfiar a ponta do objeto na sua jugular.
— Não teste a minha paciência hoje. — Era a vigésima vez que ele me mostrava aquele maldito tablete nos últimos três dias.
— Deixa o Wolf em paz, Uriah.

Rowan adentrou a academia. Uma parede de músculos ambulante que conseguia ter os ombros mais largos entre todos os lutadores, seus meros 1,83 m de altura era o que alimentava sua forma intimidadora. Vestia apenas uma bermuda e tênis pretos, a toalha branca estava sobre o ombro, indicando que pretendia passar o resto da tarde focado nas anilhas em um treino intensivo.
Conhecido como o único lutador que suportava a minha arrogância, era também o salvador da pátria. Apaziguador de todos os meus conflitos com Uriah, sempre dizendo que eu não deveria afogar o comparsa de Lucius em um balde de ácido somente porque passou o dia inteiro me irritando com suas estatísticas.
Uriah se virou, arqueando uma sobrancelha.

— É só o meu dever garantir que ele estará apto para a luta de amanhã à noite — falou o óbvio, com a naturalidade de quem pedia um copo d’agua.

Mirei o homem magro à minha frente, a fúria me impulsando por seu atrevimento. Levantei-me do banco e avancei em sua direção tão rápido que nem mesmo a perna vacilando e a fisgada na patela do joelho foram o suficiente para me parar. Ergui a mão e, sem hesitação, golpeei o tablet, fazendo-o espatifar contra o concreto, o vidro da tela transformando-se em incontáveis fragmentos — exatamente do jeito que desejava fazer com a cabeça daquele infeliz.

— Subestime o meu potencial mais uma vez, Uriah, e garanto que não sentirá mais as pernas — ameacei, os olhos franzidos como de um predador.

Rowan nos analisava de longe, pronto para intervir a qualquer momento.

— Não estou o subestimando. Lucius quer o campeão dele de volta e não podemos arriscar se o seu joelho não estiver recuperado — ele disse, a voz beirando a hesitação.
— Então diga ao Lucius, que o campeão invicto dele está melhor do que nunca. — Quebrei a distância que nos separava, notando que o covarde engoliu em seco.

Cerrei os punhos, estando por um fio de arrancar a sua língua com as próprias mãos, depois compactá-lo junto ao corpo minúsculo e enviar dentro de uma caixa para Lucius.

— Uriah! — Rowan se intrometeu, empurrando o homem para trás e o enlaçando pelos ombros com o braço. — Eu adoraria que providenciasse toalhas novas nos banheiros; e a comida do almoço de hoje estava péssima... — continuou a conversa, levando-o para fora da academia.

Revirei os olhos, prendendo a atenção no saco de pancadas mais próximo, disparando socos com os punhos cerrados e sem as faixas. A pele começou a latejar, abrindo pequenas fissuras devido ao material grosso da lona e à areia compactada. Fechei os olhos por um momento, mantendo a guarda, os braços curvados em frente ao corpo, enquanto mexia a perna esquerda com a ponta do pé, buscando uma resposta do joelho.
Encarei o saco, girando o corpo com rapidez, o uivo cortando o ar, quando acertei um chute médio. As correntes balançaram reagindo ao impacto, sendo o único som da academia, depois da televisão. Cambaleei alguns passos para trás quando retornei ao chão, a fisgada se fazendo presente mais uma vez por causa do impacto. Suspirei, curvando o corpo e apertando a patela, massageando-a suavemente em busca de um alívio, entendendo perfeitamente como o corpo responderia no ringue.
Cerrei os dentes, a raiva tomando conta do meu peito como uma poça de lava queimando cada pedacinho pelo caminho. Apertei os punhos com força, disparando socos agressivos, crus, completamente brutos, pouco me importando com a ardência que começava a surgir nos dedos pela falta da proteção. Eu precisava disso, sentir que ainda restava uma fagulha de esperança, mesmo que, no fundo, algo me dizia que deveria aceitar a derrota.
As chamas se acenderam ao meu redor e o suor surgiu na testa, aumentando mais a minha fúria, o combustível que precisava para disparar mais golpes violentos. Os flashes me atingiram em cheio e, de repente, estava no meio daquele ringue, o fogo engolindo o clube aos poucos, os estalos altos das madeiras se partindo e o cheiro de cinzas, a pele queimada das vítimas. Os gritos de agonia da plateia que corria pela fumaça, buscando a saída.
Os tiros cortando o ar causavam mais alvoroço. A dor agoniante dominando meu corpo e tudo que conseguia ver era o mundo girando, as lembranças se fundindo como uma última recordação da vida. Apoiava-me nos braços, tentando me mover, mas o calor e as feridas sufocavam os pulmões. Todo o sangue formando um mar vermelho, manchando a lona do ringue conforme me arrastava. Mordia os lábios, cerrava os dentes e grunhia, demonstrando a agonia, fazendo pressão no peito onde uma das balas tinha acertado.

— Se continuar socando desse jeito, vai acabar com o saco de pancadas. — Rowan retornou, trazendo-me de volta para a realidade.

Percorri os olhos por ele, deduzindo que havia conseguido se livrar de Uriah.

— Odeio quando duvidam de mim — confessei, acertando um gancho de direta.
— Ele não vale o seu tempo. — Aproximou-se, estabilizando o saco com as mãos. — É só mais um dos empregados do chefe.

Parei por um momento, a respiração ofegante. Abrindo as mãos que estavam fechadas, analisando os nós dos dedos rasgados e sujos de sangue. Estava tão acostumado aos ferimentos que nem incomodavam mais.

— Você fala isso porque não sabe como é ser atormentado, dia após dia, por uma dívida que não era sua — tencionei a mandíbula, levantando o braço direito e o lançando para frente com força.

Rowan deu um solavanco para trás.

— Sabe do que você precisa? — indicou a gaiola de luta com o queixo.

Balancei a cabeça, deixando finalmente o pobre do saco de boxe em paz.

— Não ouse, Rowan.
— Por quê? O campeão acha que não consegue me derrotar? — já enrolava as faixas ao redor das mãos, subindo no ringue. — Vamos, Wolf. Sabe que, no fundo, quer isso mais do que eu — provocou, com um sorriso travesso.

Mordi o interior da bochecha, sendo convencido pela ousadia dele. Talvez, lutar com um lutador de verdade pudesse ajudar a acalmar a pressão angustiante em meu peito.
Atravessei as cordas do ringue, não me importando com as proteções das mãos, ficando na frente de Rowan. Franzi o cenho e curvei os braços em frente ao corpo, preparando a guarda para a luta. Estendi o punho cerrado, cumprimentando-o, sem necessidade de palavras como sempre fazia antes de começar o combate. Ele sorriu com o canto dos lábios, imitando meus movimentos e tocando minha mão, para no instante seguinte seu punho rapidamente cortar o ar, surpreendendo-me.
Minhas pupilas dilataram e abaixei o tronco em um reflexo, sentindo o calor do seu braço passar a milímetros de distância sob minha cabeça. Ele girou o corpo, golpeando-me no abdômen, a força do impacto me jogando para trás, mas bastou apoiar-me sobre as mãos e impulsionar o corpo para ficar em pé novamente, a perna ameaçou falhar e tencionei a mandíbula. Encarei Rowan, dessa vez mais atento às suas ações.
Meu amigo era só o terceiro melhor lutador da El Imperio de Acero, e eu... Costumava ser o primeiro. O campeão.
Soltei o ar pela boca, decidindo afastar todos os pensamentos que estavam atrapalhando. Venci a distância até ele e, com a perna direita, mirei em sua cabeça, o corpo se movimentando em um ritmo rápido, quase imperceptível. Roman desviou, acertando um gancho contra minhas costelas e completando com um soco contra o queixo, o gosto metálico invadindo minha boca.
Reagi de imediato, a irritação começando a se fazer presente, o calor da fúria subindo pelas veias, dominando cada golpe seguinte. Lancei o corpo para o lado, girando no ar e o golpeando com um chute firme e violento contra o tronco, fazendo-o cair no chão. Rowan riu, diabolicamente se divertindo. Revirei os olhos, caminhando em sua direção, estendendo a mão em uma gentileza e o desgraçado me retribuiu agarrando minha nuca, disparando socos controlados nas costas e no abdômen.
Remexi o corpo, tentando me desvencilhar do aperto, sendo inútil. Grunhi com a força dos seus golpes e foi naquele instante em que parei de vê-lo como meu amigo, para passar a considerá-lo um oponente forte demais. Cerrei os dentes, firmando a perna esquerda no chão e usando a outra para acertar uma joelhada contra seu abdômen, friamente calculada para fazê-lo arfar.
Rowan se afastou, buscando por ar, e aproveitei a oportunidade para chutar atrás do seu joelho e rapidamente usar a perna direita para equilibrar o corpo e girar, golpeando o rosto dele com força, derrubando-o no chão como um saco de batatas parrudo. Ele balançou a cabeça, cuspindo um pouco de sangue, enquanto eu cambaleei para trás, percebendo que tinha sido uma péssima ideia usar o membro lesionado para o golpe.
Fiz uma careta, segurando a patela que pulsava, alastrando a dor por toda a musculatura até a cintura. Equilibrei-me, jogando o peso na outra perna, Rowan assistia em silêncio, o semblante apreensivo, levantando-se do chão e indo em minha direção, aproveitando para limpar os lábios ensanguentados pelo caminho.

— Você não deveria lutar amanhã à noite — Quebrou o silêncio, encarando minha mão.
— Eu estou bem. — Franzi o rosto sendo atingido por outra fisgada. — Eu vou lutar e não será o joelho que vai me impedir.
— Wolf, o médico disse que...
— O que o médico disse não importa. — Encarei seu rosto, encontrando olhos perturbados e com fagulhas de pena. E eu odiava tanto isso. — Eu sou o melhor lutador que Las Vegas já viu, não será uma lesão que vai dizer o contrário. — As palavras soaram com tanta garra, que notei o quanto precisava ouvi-las depois de tanto tempo.

Endireitei o corpo, não deixando que a dor me definisse, tinha que aprender a conviver com ela e com as lutas marcadas para amanhã à noite, precisava fazer isso rápido. Franzi levemente as sobrancelhas, os olhos focados em Rowan, decifrando as feições de seu rosto e internamente o agradecia pela preocupação, mas não deveria me rebaixar ao ponto de sentir pena. Eu já tinha sido o campeão, e era meu o dever recuperar o título. Lucius e a máfia dependiam disso.

— Wolf, se tirarem as suas pernas, não existe mais nada. — Em um movimento cauteloso, chutou atrás da coxa direita.

E a reação foi imediata, meu corpo desequilibrou por causa da falta de apoio para sustentar o peso, caindo em cima do joelho bom, evitando que o outro se chocasse no chão. Suspirei, aceitando quando Rowan estendeu a mão e me ajudou a levantar. Esse sentimento de impotência era insuportável.

— Se quer mesmo entrar naquele ringue, não se curve, segure ou fraqueje. Eles vão notar isso — aconselhou, retirando as faixas pretas das mãos.

Cerrei os dentes ao soltar o ar pela boca.

— Nunca mostrei minhas fraquezas, não será agora que o farei.

Rowan suspirou.

— A Selene disse que deveria voltar para as sessões de fisioterapia, mesmo que Lucius seja contra. Irá ajudar.
— Eu estou bem, Rowan — repeti, decidindo sair do ringue e controlando para não mancar.
— O Lucius só se importa com o dinheiro dele, se subir naquele ringue e falhar, pode nunca mais andar. — Sua voz soou como uma repreensão.

Cessei os passos, segurando as cordas ao redor do ringue. A possibilidade arrepiava todos os meus sentidos, mas ainda assim tinha que arriscar. Tinha uma reputação inteira para zelar.

— É isso que você quer? — ele disparou. — Viver uma vida fadada a uma cadeira de rodas?
— Não haverá mais falhas, Rowan — falei por sobre o ombro.
— Wolf, se importe com você, pelo menos uma vez na sua vida! — Se fosse em outra época, até poderia repensar sobre o assunto, mas agora...
— Não há mais nada que me prenda a esse mundo — encerrei a conversa, saindo de uma vez do tablado.

Peguei a mochila que tinha largado no canto da academia e saí, cada passo arrastado, revelando a fraqueza que recusava a aceitar. A confiança era agora a única âncora que me prendia àquele mundo. Não importavam as palavras de Uriah, a preocupação de Rowan ou a dor incessante do joelho. Nasci para lutar, para ser o melhor, e era essa convicção, a teimosia em provar isso, que me impulsionava para as lutas de amanhã, mesmo que o preço fosse a minha própria vida.
Eu não tinha mais pelo que lutar, a não ser pelo meu ego e a lealdade a El Imperio de Acero.

∆∆∆∆∆

Há muito tempo decidi que, para ser o melhor, era preciso se entregar de corpo e alma, não importando o quanto isso levaria da sua essência. Passei longos anos aprimorando técnicas, treinando sozinho, tendo apenas um saco de pancadas velho como minha única companhia, junto com a persistência. Fortaleci o corpo com treinos intensivos e construí músculos rígidos e grandes com o suor de cada segundo que passava na academia.
E agora era como se todos os esforços tivessem sido em vão.
A água quente do chuveiro escorria pela pele, levando consigo a fúria do treino de mais cedo. Fechei os olhos, a respiração profunda, ansiando pela calmaria que demorava a chegar, sendo assombrada pelo eco de um barulho estrondoso perfurando a quietude da minha mente. A bala rasgando minha pele, o impacto perfeito para derrubar a muralha de músculos que havia construído e, de repente, o corpo, tão acostumado à força, se tornou um pedaço insignificante.
Abaixei os olhos, deslizando o polegar pela cicatriz acima do peito esquerdo, sobre a tatuagem de coroa que Lucius havia transformado no símbolo da máfia, tornando-se agora a lembrança fria do dia em que senti a pressão sufocante contra o pescoço, conseguindo ainda sentir a textura das botas, o peso delas.
As imagens eram como fragmentos flamejantes: o calor me envolvendo, um gosto amargo na boca, a sensação de estar completamente sozinho enquanto o mundo parecia se consumir. Eu me via tentando me arrastar como naquela noite; a cada movimento, uma tortura silenciosa, a dor se alastrando por todo o corpo. As cicatrizes se tornando as marcas da derrota, do momento em que a vida me apresentou a um jogo cruel e impiedoso.
Pressionei a testa contra o azulejo frio e engoli em seco, a água deslizando pela pele, sendo um consolo para minha mente atormentada. Ouvi quando a porta do banheiro comunitário da mansão foi aberta e passos ecoaram pelo ambiente, não fazendo questão de me virar para ver quem era o dono da mão que abriu o chuveiro ao meu lado, criando cada vez mais vapor, embaçando os vidros das janelas.

— Eu também sou atormentado pelo fogo... — A voz familiar de Rowan murmurou, mergulhando a cabeça sob o jato d’água.

Tencionei o maxilar, o tique nervoso completamente incomodado por ter deixado que ele testemunhasse meus demônios.

— A Selene até hoje tem pesadelos, presa naquele lugar — confessou, esfregando o rosto com as mãos.
— Não tenho pesadelos. — Tentei ser firme, embora soubesse que ele notaria minha resistência.

Fechei os olhos, a testa ainda contra a parede.

— Se não tivesse pesadelos, não passaria horas debaixo desse chuveiro todos os dias, tentando fugir da realidade que é impossível — retrucou. Odiava o quanto ele era observador.
— O desgraçado deveria ter me matado naquela noite — confessei, a voz baixa e rouca, quase um sussurro.

Ele soltou um riso zombeteiro.

— E com quem eu falaria sobre os meus problemas? — inclinou-se, buscando meu rosto. — Os outros lutadores nem sequer me escutam. — Voltou ao banho, roubando meu sabonete de capim-limão.

Um leve sorriso surgiu no canto dos lábios e afastei-me o suficiente da parede para o jato cair sobre minha cabeça.
— É porque você fala demais, Rowan.

Ele fechou o chuveiro, pegando a toalha branca dentro da mochila.

— É uma suposição bastante válida — riu, secando o corpo. — Wolf, temos a noite livre. Vamos beber naquela boate que sempre gostamos de ir — sugeriu, realmente animado.
— O álcool não vai me ajudar neste momento — respondi, relutante.
— Não seja tão melancólico. — Enrolou a toalha na cintura, e segurou meu ombro tenso. — Acabe o banho e em meia hora me encontre no estacionamento. — Deu um soco nas minhas costas, saindo antes que eu pudesse ter a chance de rejeitar o convite.

Um suspiro escapou, misturando-se ao vapor. A água do chuveiro acariciou meu rosto enquanto levantava a cabeça, os olhos buscando o céu escuro pela janela alta do banheiro. A lua minguante se exibia com uma timidez peculiar, cercada por estrelas que irradiavam um brilho diferente do usual. E algo nesse espetáculo fez com que a escuridão ao redor do meu coração não parecesse tão absoluta.
Uma faísca diminuta se acendeu. Uma força inexplicável, acompanhada da promessa silenciosa de que, talvez, apenas talvez, pudesse existir algo — ou alguém — que me fizesse querer estar vivo.



WOLF


Existe uma teoria insana de que o universo tem o poder de tecer a nossa história, de alinhar os astros para que a vida aconteça. Acredita-se que nascemos com o destino predestinado, que não podemos fugir. E naquela noite fresca, com a brisa quente na medida certa, um peso incomum pairava sobre meus ombros, como se o ar vibrasse com a promessa de uma mudança iminente. Um pressentimento de que algo grande estava prestes a quebrar e mudar tudo para sempre.
Só não imaginei que seria naquela boate infernal que o destino me levaria direito para a minha perdição.
A fachada moderna e escura contrastava com curvas predominantes delineadas em neon vermelho brilhante. O letreiro branco iluminado com fundo de marquise carregava o peso do nome da boate: The Red Secret. As portas de entrada continuavam sendo de vidros opacos e escuros, mantendo em segredo o interior do lugar; ao lado esquerdo, um segurança montava guarda. Através da janela do carro, era possível notar as paredes escuras, avermelhadas, criando um efeito visual dinâmico.
Bati a porta do passageiro, arrumando a gola da camiseta sarja preta, as mangas dobradas até o cotovelo, sendo a primeira opção que encontrei no guarda-roupa — assim como a calça jeans cinza chumbo e os tênis brancos. O tecido moldava-se ao corpo, deixando a tatuagem do lobo e dos arames farpados à mostra no bíceps direito. Passei a mão pelos cabelos, soltando um suspiro, enquanto esperava Rowan descer do veículo e entregar a chave para o manobrista.
Atravessamos a multidão na entrada e mergulhamos no coração da boate, encontrando a atmosfera vibrante com pouca luz, dominada pela iluminação vermelha e feixes de laser. Ao centro, existia uma espaçosa pista de dança, lotada de pessoas bêbadas e eufóricas que tentavam acompanhar o ritmo da música eletrônica — a gaiola de luta desfocada essa noite, no canto isolado e sem shows violentos. Mesas redondas e assentos luxuosos estavam dispostos ao redor, próximos ao palco onde três dançarinas se apresentavam, usando lingeries extremamente curtas e extravagantes.
Rowan parou ao meu lado, um sorriso malicioso curvando seus lábios, enquanto apontava com a cabeça para a dançarina ruiva. Segui seu olhar, sabendo que ia me arrepender disso. Ela pegava o maço de dinheiro de um dos homens da plateia, já começando a mover o corpo em rebolados sensuais, subindo e descendo pela barra de pole dance. Revirei os olhos com desdém, aquele tipo de apresentação barata me dava nojo. Virei as costas e segui para o bar, o riso alto de Rowan ecoando atrás de mim e, em seguida, gritando alguma coisa sobre me “divertir mais” com uma das mulheres, algo que recusei a escutar.
Escolhi um canto vazio, fazendo sinal para o barman e pedindo uma dose de whisky. Acompanhei quando Rowan surgiu no meio da multidão, vencendo a distância até o balcão e pairando ao meu lado, o cotovelo apoiado na madeira, enquanto os olhos analíticos passeavam pela pista de dança, procurando por alguém. Batuquei os dedos, observando quando um casal começou a se engolir próximo ao banheiro, causando-me repulsa.
Eu ainda deceparia Rowan e exibiria sua cabeça na praça pública por me levar a um lugar tão insosso como aquele.
Agradeci quando a bebida chegou, dando um gole no líquido âmbar, percebendo que meu amigo ainda varria o salão, mas dessa vez os olhos presos em alguma coisa. Segui seu olhar, encontrando a mulher de cabelos escuros e lisos, quase azulados sob as luzes vermelhas, se aproximando a passos lentos com elegância. Usava um vestido simples de cor azul-marinho que realçava seu tom de pele.
Selene Dubois, também conhecida como a mulher implacável que conseguia colocar Rowan no lugar.

— Prometeu que nunca mais arrastaria o Wolf para um lugar como este, amor — ela disse, a voz carregada de autoridade e uma quase repreensão, mesmo com um sorriso sutil nos lábios.
— Alguém precisava tirá-lo da mansão antes que começasse a arrancar cabeças — Rowan sorriu, enlaçando a cintura dela. — E ele estava prestes a arrancar a minha — sussurrou, acariciando a lateral do braço dela.

Terminei a bebida em um único gole, continuando com os braços apoiados sobre o balcão, ignorando-os enquanto os dois trocavam carícias melosas, a voz irritante de casais apaixonados me enjoando e uma saudade que parecia não terem se visto há anos. Bati o copo contra o balcão, fazendo sinal para o barman, que rapidamente encheu com mais uma dose do líquido amadeirado; pelo menos o álcool ajudaria a lidar com o estresse.

— E você, Wolf, como está? — Selene disparou, as mãos do homem em seu quadril. Ela finalmente notou minha presença. — O Rowan anda enchendo muito a sua cabeça com as preocupações dele? — Apertou a bochecha do namorado, selando os lábios rapidamente.

Torci o nariz, engolindo mais um pouco do whisky, pensando seriamente em beber algo mais forte, talvez, ácido sulfúrico. Aqueles dois conseguiriam facilmente me fazer vomitar se continuasse sóbrio.

— Estou ótimo, Selene. Ou tão bem quanto se pode estar em um inferno como este — respondi, sem me importar de esconder o desdém.

Ela sorriu, pedindo uma garrafa de cerveja artesanal, a sua favorita.

— E a sua perna? — Quis saber, como a fisioterapeuta intrometida que era.

Selene passou meses tentando me convencer a ir ao seu consultório e seguir uma reabilitação intensiva. Segundo ela, uma lesão da gravidade da que sofri, mesmo depois da cirurgia, seria obrigatório receber cuidados médicos especializados por longos anos, uma série de exercícios selecionados com cuidado para manter os ligamentos e garantir que os músculos não sofressem com a atrofia futura, além de dizer que eu não precisaria conviver com a dor como uma companheira constante se não fosse tão teimoso.
O problema era que agora não tinha tempo para perder com pesos pequenos e superficiais. As lutas lotavam a minha agenda, impedindo quaisquer falhas; com o joelho bom ou ruim, subiria nos ringues e recuperaria o dinheiro da El Imperio de Acero.

— Ótima. — Oscilei o peso do corpo, sentindo que o joelho começava a reclamar.
— Desista, amor. — Rowan apoiou a cabeça sobre o ombro esquerdo dela. — Ele não vai falar nada que não seja sobre como quer matar a gente.

Ignorei sua provocação, o tique nervoso de uma das sobrancelhas denunciando a indiferença.

— Deixe-o em paz, Rowan. — Selene se virou para o namorado, a voz suave, agarrando o colarinho da blusa branca. — Vamos dançar. Eu adoro essa música. — Puxou-o pela mão, insistentemente.

Rowan, que tinha os olhos brilhantes como um verdadeiro apaixonado, deixou-se ser guiado pela mulher de 1,65 m de altura, mas antes inclinou-se para frente e sussurrou algo no ouvido dela que a fez rir, e em seguida balançar a cabeça em concordância. Ele lançou um olhar rápido em minha direção, os lábios curvados em um sorriso travesso.

— Tente não arrumar nenhuma briga, Wolf. Pegue uma garrafa de vodka para ele! — gritou para o barman, e se perdeu na multidão que serpenteava pela pista.

Rolei os olhos, o cheiro de cigarro e dos corpos suados começando a me incomodar, estando ao ponto de ir embora e largar Rowan à deriva, sem o carro. O rapaz magro deixou a garrafa e, junto, uma dose de gin. Franzi o cenho e ele apontou para a mulher loira que estava perto da pista de dança, os dentes mastigando o canudo da sua bebida, ao lado de mais duas que riram quando notaram que as observava. Ela acenou, sorrindo de uma maneira que deveria julgar como sedutora, e, em resposta, apenas empurrei o copo de volta para o barman, recusando o presente, pouco me importando se a decepcionaria.
Virei os últimos resquícios do whisky, a garganta queimando por engolir rápido demais. Olhei ao redor, a porta de saída e depois a pista de dança, o palco, o grupo de mulheres que ainda sorriam para mim. Batuquei os dedos na borda do copo, impaciente e lutando contra a própria mente que clamava em um pedido de súplica para avaliar a boate e dar uma chance para a noite, antes de literalmente desaparecer. Talvez, pudesse seguir o conselho de Rowan, ficar bêbado e aceitar o Gin da loira com quadris largos e seios fartos que não comportavam no vestido vermelho.
Balancei a cabeça, abrindo a garrafa de vodka e servindo uma dose generosa. Delírio era a palavra que definia perfeitamente a minha angústia, porque, apesar daquela mulher ter as coxas grossas e uma boca carnuda que adoraria cobrir com a mão quando começasse a berrar pelo quarto, ainda assim a vulgaridade das roupas, o modo como se insinuava para os homens como se fosse um objeto de prazer temporário, quebrava todos os meus princípios. Nunca me interessei por esse tipo de diversão.
Suspirei, enquanto virava as costas para o balcão, o álcool aquecendo o corpo, junto àquele pressentimento estranho que voltava a me assolar. Coloquei a mão no bolso da calça, apertando levemente o músculo na coxa esquerda, segurando o grunhido quando a dor dominou a patela, subindo para o quadril, sendo a consequência de ter aceitado sair para passar horas em pé com um joelho debilitado. Joguei o peso sobre a outra perna, usando dela e do cotovelo para sustentar o peso, a fúria começando a possuir minhas veias pela impotência.
Observei a multidão serpenteando pela pista, decidido a esquecer a lesão naquela noite, encontrando Rowan e Selene dançando, se entregando ao ritmo da música, os corpos se movendo em sincronia e as risadas misturando-se à batida. Ela gargalhava, jogando a cabeça para trás e apoiando-a contra o peito do homem, balançando o quadril, os cabelos escuros grudados na testa, enquanto ele segurava em sua cintura, parecendo leve apesar dos movimentos desajeitados. A cumplicidade estava em cada passo, uma sincronia rara que poucas pessoas possuíam, e vê-los me fez sentir uma sensação estranha que nem mesmo o calor do álcool conseguiu evitar.
Olhei para a mão que segurava o copo, o dedo batendo contra o vidro, enquanto me deixava mergulhar nas lembranças dos bombardeios, as armas pesadas que carregávamos, os uniformes camuflados, quentes e robustos. Rowan ao meu lado, planejando estratégias de guerra. A época do exército foi a última vez em que pensei em permitir-me acreditar na conexão como a do casal à minha frente. Depois de ser expulso por problemas de comportamento, a escuridão se alastrou, desmoronando tudo ao redor, não restando lugar para aquele tipo de liberdade e confiança.
O mundo cruel em que afundei, arrancou a última ponta da fagulha que restou.
Ergui a cabeça quando o tumulto do outro lado do bar chamou a minha atenção, desvencilhando-me dos devaneios. Percorri a boate, os olhos varrendo a multidão, as risadas altas e gritos acompanhados de assobios, atraindo-me para a armadilha. O cotovelo apoiava-se sobre o balcão, virando-me completamente para a pista de dança, o cenho franzido, a curiosidade consumindo cada pedacinho do meu corpo, parecendo infectado por uma doença.
E então a vi.
Em cima da mesa, os cabelos castanhos voando livremente como o vento, os ombros balançando para frente. Quando endireitou o corpo, ergueu o braço, segurando o copo com a bebida azul, o líquido molhando o vestido preto com a agitação. O sorriso estampava o rosto de traços finos e delicados. Ela remexia os quadris em um ritmo próprio, sensual demais para desviar os olhos, sua energia flamejando sob as luzes vermelhas, espalhando-se como uma droga delirante.
O tecido escuro abraçava cada curva, delineando a linha da cintura fina, o volume dos seus seios, realçando o quadril em cada movimento, enquanto descia o corpo, arrancando gritos ensurdecedores da plateia. A abertura na lateral deixava exposta um pedaço da coxa carnuda que apertava conforme rebolava, sua bunda cada vez mais marcada, me atraindo para um alçapão em que nunca pensei em cair.
Molhei os lábios, engolindo um longo gole do álcool, quando me peguei preso ao pensamento das mãos, tocando sua pele desnuda e pressionando o corpo pequeno contra o meu, enquanto se esfregava, atiçando-me de uma maneira que nunca imaginei. Aquela criatura tinha uma aura hipnotizante que parecia ter enlaçado uma corda ao redor do meu pescoço, impedindo que desviasse o olhar.
Ela era o centro, o objeto da minha total perdição e nada mais ao meu redor importava.
Os homens, eufóricos, gritavam a cada movimento o quanto era gostosa, batendo palmas e estendendo as mãos, quase a tocando. Contive um sorriso ao notar que ela parecia alheia a todos eles, ignorando-os como seres insignificantes. E eu continuava preso ao feitiço, que parecia ter sido feito exclusivamente para mim. Não se tratava de apenas uma dança, mas da exibição da sua alma para todos que quisessem ver, a audácia e a liberdade me prendendo com fascínio.
Jogou a cabeça para trás, os lábios curvados em um sorriso radiante, a risada soando como o som mais vibrante, sem encenação, apenas a mais pura liberdade. E foi nesse instante que seus olhos verdes — que prometiam atormentar a minha mente como brasa — pareceram se fixar nos meus, atingindo como uma bomba prestes a explodir. Um lampejo de desafio tomou seu olhar, a boca entreaberta, preservando o contato visual.
Engoli a saliva, a garganta clamando de tão seca, apesar de ter tomado quase metade da garrafa de vodka, enquanto a observava. A cada movimento seguinte do seu corpo, cada curva e rebolada, parecendo ser direcionado a mim, uma dança sensual e provocante que me prendia ainda mais àquela atração perigosa. Todo o meu corpo entrou em combustão, as chamas intensas me consumindo, queimando as veias, lutando com a impulsividade de ir até ela e mergulhar naquele feitiço tão poderoso.
Por um momento, o tempo parou e a boate inteira desapareceu, restando apenas a minha perdição dançando para mim.
A corda invisível afrouxou quando ela quebrou o contato visual e desceu da mesa para outra assumir o seu lugar, acabando com o pequeno espetáculo. O nó se formou em meu estômago, pouco me importando com a garota nova, varrendo a multidão em busca da figura de cabelos castanhos que teve a audácia de me desestabilizar. Busquei como um farejador, mas não a encontrei, a frustração tão inesperada começando a borbulhar.
Voltei-me para o balcão do bar, puxando o colarinho da camiseta, o elástico me sufocando, apesar dos primeiros botões abertos. O copo vazio logo se encheu de mais da bebida, ansiando por um reforço para evitar que entrasse naquela multidão e caçasse a mulher misteriosa que se cravou em minha mente, recusando-se a sair.

— Wolf — Rowan chamou, parando ao meu lado. — Já escolheu quem será a sortuda que vai passar a noite com a campeão invicto hoje? — Sua respiração estava ofegante.
— Nenhuma — beberiquei a bebida, enchendo o copo. A criatura misteriosa insistindo em me assombrar.
— Nenhuma é digna de você? — Virou-se para a pista de dança. — Não seja tão exigente. Precisa se divertir, escolha uma — insistiu, os olhos vidrados em Selene, que dançava despreocupadamente.
— Não são do meu interesse. — Abaixei a cabeça, as mãos esfregando os cabelos, querendo que a feiticeira parasse de dominar meus pensamentos e sussurrar o quanto estava me enlouquecendo.
— E quais interesses seriam? — Ele recostou no balcão, o sorriso travesso brincando nos lábios.
— Você faz muitas perguntas — revirei os olhos, a irritação começando a crescer.

Rowan bateu em meu ombro, um ato de lamentação.

— Tenho pena da mulher que, um dia, ousar se casar com você. — Franziu o rosto a cada palavra.

Ignorei-o, dando as costas para o bar e caminhando entre as pessoas quando o fluxo começou a aumentar. Precisava sair dali, ter um tempo sozinho, mas meus olhos traiçoeiros varreram a pista de dança mais uma vez e foi então que senti o solavanco no peito, cessando os passos quando encontrei a mulher misteriosa, a sua energia me envolvendo como um furacão. Ela, agora, dançava com a loira que havia subido na mesa, os corpos se movendo em sincronia divertida e descompromissada. Apertei o copo de vidro entre os dedos, tomando um grande gole, tão hipnotizado por ela que até mesmo a dor no joelho se tornou diminuta.
Arqueei as sobrancelhas, estudando o rosto delicado, os traços finos como um anjo. Ela exibia uma alegria genuína, um sorriso que manifestava a sua alma livre. Os olhos verdes, puros e cheios de uma audácia que me fascinava. Havia uma ousadia indomável em cada gesto, uma confiança que a fazia dona do espaço, ignorando o caos ao redor.

— Que tal uma partida de sinuca para espantar os fantasmas da mente? — Rowan passou na minha frente, seguindo para a área reservada da boate.

Balancei o copo, encarando a bebida, pensando que um jogo me ajudaria a controlar o impulso primitivo de querer ir até ela.
O ambiente relaxado e calmo era como um refúgio da agitação da pista de dança. A iluminação, predominantemente vermelha, suavizava-se pelas luzes brancas estratégicas no teto, garantindo a visibilidade perfeita para as jogadas. No centro, a mesa de sinuca estava disposta, as bolas coloridas agrupadas dentro do triângulo. E ao redor, poltronas escarlates possuíam a textura macia e confortável, junto de pequenas mesas, criando um lugar acolhedor para clientes que buscam privacidade.
Rowan assoviou, lançando o taco em minha direção. Agarrei a madeira lisa, pousando o copo sobre o feltro esverdeado da mesa, enquanto ele se inclinava, concentrado na primeira tacada. Mas nem mesmo o clique seco contra a bola branca foi o suficiente para prender minha atenção. Meus sentidos se aguçaram, o ar parecendo vibrar assim que a linha magnética me puxou novamente para ela, ficando cada vez mais difícil ignorar a obsessão.
Era como se o mundo silenciasse e restasse apenas a minha presa.

— Tudo bem por aí, campeão? — Rowan ergueu uma sobrancelha, um sorriso malicioso curvando seus lábios enquanto apoiava o taco no chão. — A mente vagando por terras mais... interessantes, talvez?

Pigarreei, a garganta seca, apesar da enorme quantidade de vodka que já havia engolido. Posicionei o taco, acertando a bola branca que deslizou sem direção, parando antes do alvo.

— Só pensando na estratégia para a próxima luta — menti.

E meus olhos, quase que por vontade própria, voltaram a se fixar na mulher. O descontrole começando a me irritar.

— E que estratégia seria essa? Enfeitiçar o adversário com a beleza alheia? — Rowan seguiu meu olhar, um brilho divertido nos olhos.

Balancei a cabeça bruscamente, decidido a recuperar o controle sobre meu corpo, e principalmente, sobre meus pensamentos.

— Você fala demais e joga de menos, Rowan — rosnei, encaçapando algumas bolas com uma força desnecessária.
Rowan apenas riu, o som ecoando pelo ambiente, e retornando ao jogo. Eu, por outro lado, apoiei o taco no chão e esfreguei o dedo pela ponta, retornando a olhar para a mulher. Ela deslizava as mãos pelos flancos, acentuando a silhueta esguia antes de arquear o corpo para trás, os cabelos balançando como uma cascata escura. Crispei as sobrancelhas. Havia algo nela, uma força enigmática, um magnetismo que me atraía de forma avassaladora.
Eu precisava descobrir quem era ela. O seu nome. O som da sua voz. A maciez da sua pele sob os dedos.
Um rugido primordial estava aprisionado no meu peito, a curiosidade perigosa faminta para escapar e mergulhar no mundo dela. Esfreguei o polegar no queixo, pela primeira vez, sentindo a escuridão ser perfurada por uma chama abrasadora. Eu tinha que conhecê-la.


Continua...


Qual o seu personagem favorito?


Nota da autora: Oiie, leitor! Estava ansiosa para apresentar essa história, trazendo o mundo do MMA que é tão fascinante!
Espero que estejam gostando dos nossos protagonistas indomáveis. Estou amando escrever essa fic e posso prometer que teremos muitas emoções por vir!!
Me diga do que mais estão gostando e deixar aquele comentário que irei amar ler!
Para ficar por dentro de tudo sobre essa fic e as minhas próximas obras, siga meu Instagram (@autora_larissas.)

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