Parte I
Não tinha vista mais linda do que ver os raios do sol refletindo naquela imensidão de montanhas e gramas. Era o paraíso e nem mesmo a magia conseguia suprir toda aquela beleza.
Nunca nenhum outro amor tinha um tamanho tão grande que comparasse quando passou a conhecer um bebe de dragão húngaro. Desde cedo, ela gostava de cuidar dos animais mágicos, vendo sua mãe cuidar e dar atenção às criaturas. foi criada no meio do trabalho de sua mãe. Quando era a temporada do término do ano letivo, ela e sua mãe começavam as viagens para o santuário de dragões, ou até mesmo outros lugares que abrigavam as criaturas mágicas.
E, deste modo, seu amor pelas criaturas nasceu, principalmente pelos dragões.
Algumas horas antes, a equipe Gylden Skjell recebia um correio coruja urgente. Amarrado na perna da coruja, Elin soltou cuidadosamente, acariciando o local. e entregou um camundongo para ela. O papel envelhecido e o selo acobreado destacando o nome do Avdeling for Kontroll av Norrøn Magi.
“Distrikt for Kontroll av Magiske Kreaturer
Kjære dere. Team Gyden Skell.
Solicito uma reunião para o final desta tarde. É imperativo que todos estejam presentes e pontuais. Discutiremos o desligamento de dos cuidados da Smaragd.
øverste minister for Distrikt for Kontroll av Magiske Kreaturer
Kurtz Hagen.”
Elin avisou a todos, e Till começou todo o preparatório.
Naquela tarde, se despediria da sua rotina perfeita no santuário de Dragões. Até o momento, ela não tinha um motivo para seu suposto afastamento temporário, iria voltar para a cidade trabalhando dentro de um escritório. Odiava essa ideia, ficar trancafiada em uma sala, sem a luz do sol, sem o perfume da grama verde e o som das asas dos dragões era a pior maldição que poderiam “lançar” sob ela.
estava sentada na entrada da sua cabana, tomando seu chá, enquanto esperava Elin retornar da pequena vistoria com os ovos de dragões. Elin também fazia parte da equipe de Romana, composta por ela, Till e Elin. A equipe Gylden Skjell fazia de tudo e mais um pouco no santuário. Naquele momento, eles estavam dando uma atenção especial a um dos dragões-fêmeas.
Till se aproximava dela, que ainda estava sentada no chão.
— Rami, vamos? — Till a chamou. — A fogueira já está pronta. — Estava um pouco ofegante por subir a montanha.
A cabana dela ficava no topo de uma das montanhas, onde tinha uma das melhores vistas da região. Logo atrás — mais abaixo —, estavam as outras três cabanas: a de Elin e Till, com seu charme acolhedor, e a terceira, um espaço funcional, onde a equipe mantinha todos os documentos importantes. Era ali que se reuniam ao redor da fogueira para discutir estratégias e conversar com o ministro.
— Estou indo. — Se levantou e limpou a calça. — O ministério já está a par da situação daqui?
— Sim, Elin contou tudo em uma carta. Pode dizer adeus aos seus dragões — brincou com a garota.
— Por mim, eu moraria aqui. Você viu aquele sol? E os dragões? E as escamas deles? E os olhinhos dos bebês dragões? — tinha o olhar apaixonado a cada letra que falava sobre os dragões.
Se aproximaram da cabana.
— Você tem que parar com esse amor por eles. Não existe ninguém que possa entender isso — Elin disse calma e com sinceridade em sua voz. Ela tinha o conhecimento que um dos sonhos dela era ser pedida em namoro em pleno natal.
— Eu sei. — Sentou desanimada. — Porém eu não vou deixar de vir aqui por pouco tempo — disse convicta. — Eles demoram tanto para isso. — Revirou os olhos.
— Devem de estar puxando o histórico todo da missão. — Foi a vez de Elin falar.
— Till? — Uma cabeça apareceu na fogueira. — Till, está tudo certo? Podemos começar?
— Sim, senhor Ministro.
— Certo... Concluímos que o trabalho de vocês está encerrado. O cuidado com o dragão húngaro não é mais necessário, é melhor que se deem conta disso.
— Ele ainda não está melhor — Til começou a falar. — Sua asa ainda está machucada, e o dorso dele precisa ainda ser tratado, existem pontos de queimaduras sem a melhora adequada.
— Sendo assim, apenas você ficará. Senhorita Elin e podem voltar para suas casas.
— Mas isso é trabalho para três pessoas, não uma — disse , inconformada. — Não podem simplesmente deixar uma única pessoa cuidar de um dragão.
Inteligente. não deixava nada passar.
Conhecia os riscos, os cuidados, as formas, como deveria ser, bem mais que o próprio Till.
— Muito bem. — Pensou rapidamente, com um sorriso desdenhoso. — Você vai fazer isso apenas com a Elin. — Ele olhava apenas para Till. A moça ouvia atentamente, como se fosse a única opção. — E você, , volte imediatamente! Não tenho tempo para os seus discursos.
E logo o Ministro sumiu das chamas. saiu aos nervos da cabana. Não ouviu nenhum de seus amigos, seu corpo fervia de raiva e queria pular no pescoço do Ministro e o fazer desmaiar. Os outros membros da equipe foram atrás dela para se despedirem.
Na sua cabana, ela passou a arrumar todos os seus pertences, as fotos que ela registrou dos bebês dragões e até mesmo do dia a dia saíram voando até entrarem em uma caixa. Deixaria lá todas as coisas que ganhou do ministério, não queria levar nada que recebeu pelas mãos do Kurtz.
— Não acredito. — Balançou a varinha, fazendo todos seus pertences entrarem na mala. — Deixar apenas duas pessoas nesse santuário. — Não falava pelo seu amor pelos dragões, mas, sim, o cuidado. — É trabalho para três pessoas ou mais, e o sensato — soou irônica — mantém duas pessoas, duas! — enfatizou. — Além de ignorar minha carta e você também, Till.
— Qualquer coisa, chamamos você. — Elin tentou tranquilizá-la.
— Qualquer coisa — resmungou. — Eu só venho pelos dragões não pelo ministério.
— E nós? — Till questionou. Sua pergunta soou mais na forma do seu amor à bruxa.
— Você sabe se virar. — A mala parou ao lado dela. — Vou indo, e espero que tudo dê certo, Elin. Qualquer coisa, você deve me chamar.
— Sim, sim, Rami.
O trio caminhava junto de até a chave do portal — um patinho de borracha esverdeado, ele seria ativo dali a alguns minutos. Se despediu calorosamente de Elin e avisou que seria a primeira a enviar um correio coruja para assim ter o endereço certinho, estava receosa de deixar Elin sozinha com Till, ele podia ter a aparência de um bom homem, mas sua experiência trabalhando ao lado dele nunca foi uma das melhores.
Ao se despedir de Till, ela foi bem breve, não quis prolongar nada, muito menos aquele abraço em que ele fazia questão de decorar todos os mínimos detalhes das curvas delas com o olhar.
Ela ainda estava irritada, nervosa e incrédula com a atitude deles. Como eles podiam tirar a mulher mais experiente do cuidado do dragão? Conhecia tão bem a fama de Kurtz. Por hora, manteria seu foco em visitar sua mãe e saber como lidar com a nova rotina.
Neste momento, já estava de frente para a entrada do escritório do Ministro. Suas malas estavam ao lado dela, e não estava nem aí para os bruxos que passavam olhando para ela e a mala. batia o pé contra o piso de porcelanato acinzentado, com o olhar fixo na porta marrom envelhecida. Quando a maçaneta girou, ela parou de bater o pé e esperou o homem baixo, barbudo e barrigudo a chamar.
— Ianevski. — O sorriso estava nos lábios.
— Kurtz Hagen, eu não esperava vê-lo tão cedo — disse disparadamente. — Você tem algo a me dizer?
— O Ministério decidiu afastá-la de suas funções.
— E qual é a justificativa para isso? — A voz de , embora firme, revelava a tensão que sentia.
pensava precavidamente para não cometer um equívoco. Não existia uma forma mais educada de se falar que o ministro da Bulgária era machista. Não havia uma mulher que trabalhava no Ministério que suportava olhar para a cara barbuda de Kurtz, e até mesmo alguns homens também não suportavam as atitudes dele.
Kurtz estava no cargo supremo de cuidado das criaturas mágicas dois anos antes da senhora Margareth sair da atividade de campo — e ficar apenas nos escritos. Desde então, ele deixou claro que familiares não poderiam trabalhar no mesmo caso juntos. Sendo assim, e Margareth passaram a trabalhar em horários distintos. Além deste pequeno absurdo, outras normas também foram incrementadas, normas que deixavam vermelha de tanto ódio.
— Espero que não seja o que estou pensando — murmurou.
Kurtz carregava um semblante sério, o ar arrogante que sempre levava consigo dava espaço para uma pessoa preocupada e, pela primeira vez, transmitia um por cento de empatia.
— Sua mãe estava no trabalho conosco. Como de costume, tínhamos uma reunião. Cinco minutos depois, ela desmaiou. Nós fizemos todos os procedimentos adequados para ajudá-la e, dois dias depois, ela retornou e trouxe um parecer médico, entretanto achamos melhor afastá-la.
— Mamãe. — Em um sussurro, a palavra saiu. — Desde quando isso?
— Esta semana. Inclusive, ontem ela tornou a passar mal e seguimos as medidas cabíveis. No entanto, agora ela está bem, foi levada para o hospital.
— Vou até lá, mas o cargo ainda é nosso. Espero que, quando eu voltar, não tenha homens no lugar.
— E tem como evitarmos os Ianevski?
— O senhor está ficando sábio. — Ironicamente sorriu. — Volto quando minha mãe melhorar, e ela também vai voltar. Senhor Ministro — despediu-se, com um aceno.
— .
Acompanhou a mulher até a porta. Encostado no batente, ele viu a mulher se afastar às pressas com a mala em seu encalço. Um outro homem que veio no sentido oposto se aproximou do ministro; cabelo comprido, nariz pontudo e o rosto medianamente fino.
— Você não vai tirar elas do Ministério? — A olhava se distanciar.
— Estou tentado, Igor, estou tentando. — Cansada, foi assim que saiu sua fala.
O hospital Herr Vladislav Alkemist era um dos mais renomados da Noruega. Não havia um bruxo que fosse para lá e não saísse melhor do que o dia que nasceu.
Andar por aqueles corredores imaginando como seria o estado de sua mãe a deixava aflita. Esfregando suas mãos uma na outra, ela parou na frente da porta do quarto, o número duzentos e oito, e colocou seu sorriso mais sincero, numa tentativa de afastar sua preocupação do semblante.
adentrou no quarto quando obteve a permissão da sua inspiração. Ela estava calma, com aspecto pálido dando mais realce aos dourados do cabelo. As bochechas rosadas que ela tinha sumiram. Apenas o brilho no olhar estava consigo.
— Oi, mamãe.
— Minha pequena , oi! — surpresa, ela falou. — Como foi com o dragão?
— Bem, ela está melhor — omitiu. — Com mais ânimo, as escamas estão perfeitas e a saúde impecável. Quer dizer, nem tanto, tenho que cuidar dela ainda, mas, no momento, tem que ser longe. Falei que é fêmea, porém todos ignoraram. — Revirou o olhar.
— Foi só acidente nas escamas?
— Na asa também. Não sei de onde esses bruxos idiotas tiraram a ideia de que jogar fogo em um dragão seria adequado para ele fugir.
— Você sabe que não é isso.
— E como sei. — Puxou a cadeira para sentar. — Não sei como Newt conseguia.
— Da mesma forma que você. O cuidado com a organização, carinho e atenção. Eles sabem que você vai lá para cuidar, eles sentem, mas a dor é maior, então claro que vai reagir.
— Não é tão fácil como eu imaginei quando era pequena. — Riu.
— Não mesmo. Qual dragão é?
— É uma Smaragd, a mais linda que eu já vi.
— Concordo — recordou. — Eu deixei alguns papéis de pesquisa na mesa, você pode concluir?
— Posso, sim. — Deixou o sorriso aparecer. — E como a senhora está?
— Bem. Estou meio irritada por não poder sair. Eu só tive uma leve fraqueza, nada de mais.
— Você não pode mentir para mim, mamãe.
— Senhora Ianevski? — A médica apareceu na porta e entrou depois de ter a atenção para ela. — Podemos conversar?
— Olá, doutora, essa é minha filha, .
— Boa noite, prazer em conhecê-la — cumprimentou a doutora.
— Obrigada por estar cuidando da minha mãe.
— Só estou fazendo meu trabalho. — Sorriu. — Acho que não tem problema conversar com ela aqui, certo? — séria, ela questionou. Não queria passar informações para a sua paciente com a acompanhante sem a autorização.
— Claro que não, doutora, pode falar.
O timbre da voz preocupou , sabia que a conversa seria longa e com diversos detalhes. A cada frase terminada, surgiam inúmeras dúvidas, dúvidas que nem sempre eram respondidas de forma positiva. Sentiu seu estômago embrulhar, a vontade de sair dali era imediata, mas seu amor pela melhor pessoa que já conheceu em toda a sua vida lhe deu forças para se manter ao lado dela.