Beauty and the Beast
Londres – 1847
Estava eu naquele momento…Sentindo-me como um pedaço de carne vindo ao abate. Jamais passou-me pela mente ser a peça central de um famigerado casamento arranjado, menos ainda para pagar as dívidas do meu pai. Meu conhecimento sobre o tal homem com quem havia me casado era o mais escasso possível, e só o tinha visto uma única vez, no altar, de frente para o padre. Difícil digerir tudo o que estava acontecendo comigo. Há pouco menos de dois meses, meus sonhos e planejamentos se resumiam ao pedido que Lorde Ulrich Meagher, o Conde de Limerick, faria ao meu pai, após um ano me cortejando. Seria um jantar histórico para o Lewis Castle, até o menu estava programado e muito bem escolhido, porém, meu pai desfez os laços de cordialidade que mantinha com o conde e vossa família.
Sem dar as menores explicações para mim e para Lorde Ulrich, não pude mais vê-lo ou sequer mencionar seu nome, até chegar-me o anúncio de que me casaria com um burguês regado a discrição e mistérios. Não conseguia entender que brincadeira o destino planejava para que meu pai tomasse uma decisão tão insensata para meu futuro. Afinal, desde sempre, nobres e burgueses não se misturavam em circunstâncias matrimoniais, e era aquilo que estava acontecendo em minha família. Uma nobre de sangue puro casando-se com um burguês, que poucos o tinham visto, mas todos sabiam qual era o vosso nome e a dimensão do vosso sobrenome.
Winchester.
O cavalheiro que havia desposado-me e, a partir deste momento, passaria o restante de vossos dias sendo o meu marido. Não sabia nada sobre ele, só o que havia ouvido escondida atrás da porta. Membro de uma família desconhecida e hereditariamente desprovida de riquezas, fora adotado quando criança por um açougueiro, após a esposa insistir muito, pois ela, sendo doente, tinha dificuldades em gerar filhos de seu próprio ventre. Detalhes que despertavam meu lado relutante, me fazendo sentir momentaneamente contrariada por ter aceitado contrair tal matrimônio. E todo aquele mistério que envolvia o vosso passado enigmático que ninguém conhecia, nem mesmo os pais adotivos, era como um ímã para minha curiosidade inconveniente.
Curiosidade esta que me levou a descobrir sua fixação por minha família, ou melhor, mais especificamente por mim. Um dos motivos de vossa oferta ao meu pai, comprando para si as suas dívidas de jogo.
Sua única condição?
Casar-se comigo!
— Que futuro este lugar me reserva — sussurrei para mim mesma, após a criada sair do quarto.
Meus olhos temerosos pelo futuro passaram lentamente pelas paredes daquele gélido lugar. A criada havia direcionado-me para o quarto principal da Wincher Hall, a mansão que ele havia mandado construir há três anos desde que voltou para Londres. Exclusivamente na melhor localização da melhor região da cidade. Seu estilo clássico, que lembrava os templos gregos, se misturava ao neogótico de algumas catedrais conhecidas, algo que havia tornando-se muito comum na arquitetura atual.
Confesso que esperava algo mais pomposo e extravagante, como nas casas francesas.
Afinal… Ele é um burguês.
A frieza do ambiente em minha volta logo fez-me sentir saudades da Lewis Castle, o lugar onde nasci e fui criada. Minhas memórias naquele pequeno castelo em Derbyshire estariam sempre presentes, dos momentos mais pequenos aos mais memoráveis. Com as memórias latejantes em minha mente, repentinamente voltei meu olhar para a camisola de seda branca bordada com fios de prata em meu corpo. Um tecido tão nobre que havia escolhido diligentemente e importado da China, há um tempo, como parte principal do enxoval que preparei desde a minha infância.
Respirei fundo enquanto passava a mão naquele tecido.
Como não imaginar como seria aquela primeira noite com ele? Minhas inquietações internas parecem incontroláveis neste dia. O pouco que consegui observar nos pequenos momentos que estivemos juntos, desde o altar até o nosso almoço íntimo de celebração pelo casamento, para a família e amigos mais próximos, parecia uma pessoa reservada e extremamente silenciosa. Em todo o momento, consegui ouvir mais a voz de seus pais e amigos, burgueses barulhentos, do que os poucos movimentos de minha família.
Contudo, mesmo na maior parte do tempo em silêncio, seu olhar profundo permanecia fixo em mim. Ainda que estivesse ao meu lado, algo que me deixou constantemente constrangida e envergonhada.
— Senhora Winchester — disse aquela voz grossa vindo da porta, em um tom forte que me fez arrepiar involuntariamente.
Senhora Winchester…
Seria este o meu sobrenome de agora em diante.
— Sim, meu senhor. — Virei-me com suavidade, a serenidade no olhar.
adentrou mais um pouco e fechou a porta, a trancando em seguida. Senti meu coração pulsar um pouco mais forte, porém mantive a respiração tranquila e ponderada. Estava vestindo com um kimono azul marinho, bordado com linhas prateadas, formando alguns arabescos. Pelo que tinha escutado de vossa mãe, aquele era um presente de casamento que tinha ganhado de um amigo, um nobre japonês. Forcei-me a não encará-lo, contudo, parecia que vosso olhar em mim era como um ímã que atraía o meu olhar para ele na mesma proporção.
Respirei fundo.
Precisava deixar minha mente vazia para aquele momento. Minha madrasta havia explicado algumas coisas básicas sobre nossas núpcias. Entretanto, as vossas palavras soaram-me com tanta indiferença às minhas curiosidades que não ajudaram como deveria. E encará-lo agora, em meio ao silêncio, fazia meus pensamentos fervilharem. Como um garoto adotado havia tornado-se um dos cavalheiros mais ricos de Londres? possuía influência sobre muitos da nobreza, além de importantes famílias estrangeiras, principalmente no oriente. Era notório sua inteligência e perspicácia para os negócios. Seu modo silencioso o permitia observar mais as pessoas e situações ao seu redor.
Talvez, em circunstâncias contrárias, certamente poderia despertar um pequeno interesse de minha parte, mas não naquela situação em que me encontrava. Entretanto, tinha que admitir, o cavalheiro à minha frente era realmente interessante, apesar de ser um burguês. Sendo capaz de arrancar olhares e suspiros em algumas senhoras e senhoritas, o que me deixou impressionada, algo que aconteceu com minhas primas em nosso almoço de casamento.
— Espero que esteja se sentindo confortável — disse ele, ao quebrar o silêncio, dando alguns passos até mim.
— Na medida do possível, meu senhor. — Abaixei o olhar.
— Diga-me, o que posso fazer para que sinta-se melhor? — Num tom baixo e aveludado, com vossa firmeza característica, mantendo o olhar em mim.
— Infelizmente, nada. — Forcei uma respiração mais leve e controlada, devido à proximidade dele. — Apenas faça o que o senhor deve fazer.
Fechei meu olhos, esperando vossa movimentação.
Aquela seria a hora em que nosso matrimônio enfim seria consumado e seríamos um do outro para sempre. Senti seu toque em meus cabelos, com o deslizar de vossos dedos suavemente até minha face. Um breve arrepio passou por meu corpo. Vossas mãos estavam quentes e surpreendentemente eram macias para um burguês filho de açougueiro.
— Não. — deu um repentino passo para trás, afastando a mão de meu rosto. — Não a forçaria a fazer tal coisa. Sei que não era eu com quem gostaria de estar agora.
— E… — Abri meus olhos e o olhei. — Acaso eu tenho outra escolha? Meu pai possui uma grande dívida com o senhor, então… — uma pausa, um suspiro — este momento deve acontecer.
— Não fora de vossa escolha, então… — Notei desapontamento em vosso olhar.
— Meu senhor, se estás a pensar que meu pai me obrigou, pelo contrário, ainda que haja tal compromisso entre ele e o senhor, concordei com este matrimônio por minha livre e espontânea vontade, apesar de jamais me imaginar casando por dinheiro.
— Saibas que jamais desejei que fosse assim. Gostaria de te libertar, mas não consigo imaginá-la nos braços de outro homem, não suportaria... — Vosso tom frustrado e um pouco baixo surpreendeu-me. — Contudo, sabemos que esta é a única forma de um matrimônio entre burgueses e nobres acontecer.
O que ele queria dizer com aquilo?
Que tinha mesmo a intenção de forçar nosso matrimônio com seu dinheiro?
— Senhor, como podes dizer estas palavras? — Senti-me confusa com a afirmação tão sincera e direta. — Como o senhor pode ter tais sentimentos se nem mesmo conhecer-me?
— Talvez… A conheça mais do que imagina. — deu um passo para frente, voltando à proximidade, então tocou novamente em minha face. — Em um passado distante e esquecido, talvez de uma realidade que tenha se tornado um sonho para… Lady .
Eu não sabia o que dizer...
Nem imaginava se o que ele dizia fazia algum sentido para mim, ou devesse fazer. Respirei fundo, sentindo os arrepios involuntários causados pelo deslizar sutil de vossos dedos até apoiarem-se em meu ombro. Em um movimento cauteloso de vossa parte, se inclinando para mais perto, vossos lábios tocaram meu pescoço, demorando segundos a mais do que parecia pretender. Aquele momento deu início ao meu alvoroço interno, com as inquietações que me faziam questionar se estava ou não preparada para o que aconteceria depois.
— Permita-me fazê-la se lembrar daquele passado… — sussurrou, em meu ouvido.
O tom de vossa voz fazia-me sentir como se correntes elétricas passassem por todo o meu corpo, o deixando em alerta vermelho.
— Senhor Winches… — Meu sussurro fora interrompido por um leve beijo dele, que fez meu corpo meio trêmulo se aquecesse.
Leve, porém com traços de desejo e desespero.
— Milady… — mais uma vez deslizou os dedos até a alça da minha camisola, do lado direito, a fazendo cair intencionalmente do meu ombro, e, mais uma vez, vossos lábios tocaram meu pescoço por um longo momento. — Permita-me amá-la sem reservas?!
Seu sussurro conseguia ser mais enfático ainda.
Fechei meus olhos de forma automática, sem saber como reagir àquele tom doce e envolvente, que parecia criar um magnetismo instigante entre nós. Com a aproximação de vosso corpo junto ao meu, e uma das mãos apoiada em minhas costas, seus beijos começaram de forma gradativa a se intensificar. A cada ação do senhor Winchester, em reação, meus pensamentos seguiam descoordenados e incontroláveis. Quanto mais ele pedia permissão para me amar, mais eu ambicionava entender de onde vinha todo aquele sentimento que parecia cada vez mais sincero e obstinado. De fato, não imaginava que seria assim, não imaginava que a muralha que tinha construído em volta de mim e do meu coração seria derrubada com apenas uma pergunta…
“Permita-me amá-la sem reservas?!”
Sempre que sussurrava em meu ouvido, era incontrolável minha resposta positiva em ceder ainda mais de forma automática, me fazendo perguntar o que estava a acontecer comigo. Externamente, meu corpo estava em sincronia com o dele, assentindo ao seu chamado de forma espontânea, internamente, me sentia aquecida e inesperadamente amada, formando um sentimento novo para mim.
Seria paixão, amor, ou apenas prazer?
Não!
O que estava sentindo era o misto de tudo aquilo e ainda mais. Havia uma pitada de descoberta. O que ele realmente representaria para mim a partir daquele momento? As indagações não haviam partido. Eu estava permitindo… E tudo o que imaginei sobre meu casamento no início poderia ser lançado no mar do esquecimento. tornava-se algo além do que apenas um enigma na minha vida. Lá no fundo, parecia que o conhecia de fato, e, de alguma forma, ele demonstrou conhecer minhas dores internas e muito esquecidas.
Dores essas que estavam gravadas em minhas costas em forma de cicatrizes.
A cada toque de vossos lábios em minhas cicatrizes, os arrepios se intensificaram. O deslizar de vossos dedos em minhas costas, formando os riscos de cada uma, reforçaram o pulsar mais forte do meu coração. Aquela era uma parte de mim que parecia não ser mais um segredo que eu mantinha em absoluto sigilo, uma parte da minha infância da qual não me lembrava. Contudo, ele demonstrava que também possuía algo gravado de igual modo e importância, e o vosso apontava-me ser um complemento da minha.
— Meu senhor… — um gemido não silencioso soou de mim. Mantive os olhos fechados, enquanto tocava o alto relevo que tinha em vosso braço direito, sua cicatriz.
Em meio às vossas carícias regadas a malícia, meu corpo, mesmo em pequenos sinais de desespero por fôlego, apenas seguia com o fluxo de vossas investidas, as quais faziam-me desejar que perdurasse ao longo de toda a noite.
— O que estás a fazer comigo, meu senhor? — sussurrei, ao finalmente conseguir olhá-lo nos olhos. Nossas respirações sincronizadas, ambos puxando o ar para os pulmões com certa necessidade agressiva. — O que estou sentindo!?
— O que sentes… — soou um tom baixo, mantendo a firmeza com aquele toque rouco e ponderado, o olhar de uma profundidade que parecia penetrar em minha alma. — É apenas o desejo de amar-me na mesma proporção.
Eu desejava amá-lo?
Sim!
Meu corpo inteiro dizia que sim, e meu coração, visivelmente rendia-se a isso, ao sentimento dele, que estava vindo ao meu encontro. Como poderia amar-me com tamanha veemência, e com pequenos e sutis gestos? Levar-me a retribuir na mesma proporção? Seu olhar intenso estava combinado ao toque de malícia de vossos dedos deslizando por meu corpo. Um sorriso discreto e sugestivo no canto de vossos lábios me dava sinais de que nossa noite estava apenas começando.
Se meus sentimentos estavam mesmo inclinando-se a ele…
Não me privaria de estar aninhada em vossos braços, sendo aquecida pela profundidade de vosso doce beijo.
“O 'para sempre', como todos dizem, talvez não exista,
Mas, pode ter certeza, independente de tudo, sempre te amarei.
Aos poucos entenderá isso.
Eu não sei por quê,
Esse amor é insubstituível, uma surpresa repentina,
Você tornou-se uma pessoa melhor,
Contanto que viva ao meu lado, à vida é colorida.”
— What Is Love / EXO
Derbyshire – 1833
- :Eu estava faminto…
Contavam-se três dias que estava caminhando pela beira da estrada. Não sabia para qual destino estava indo, mas tinha a certeza de que não voltaria para a workhouse do senhor Cooper e jamais seria escravizado novamente. Porém, isso não mudava minha situação atual, nem o fato de precisar encontrar comida para minha sobrevivência momentânea. Foi quando senti um cheiro vindo ao leste do campo de lavanda, que acompanhava toda a estrada, tão atrativo ao meu olfato que me fez ouvir os ruídos de movimentação em minha barriga. Pulei a cerca e adentrei o campo, seguia movendo-me de acordo com o aroma que sentia, do que parecia ser um pedaço de carne sendo assada.
Em uma certa distância, avistei algumas pessoas, e era notória a separação de classes entre elas. Apenas analisando vossas vestimentas, identifiquei os criados que serviam seus senhores, que esbanjavam orgulho e ostentação. Certamente os nobres da casa. Me locomovi de forma silenciosa, poderia até ser comparado a um animal em momento de caça. Me aproximando mais e mais para achar um ponto estratégico, me escondi atrás duma árvore que tinha perto do cercado.
— O que está fazendo? — Uma voz doce e melosa despertou-me no susto.
— Hum?! — Olhei para trás e depois olhei para frente novamente, confuso por não ver ninguém.
Será que, pela fome, estaria eu ouvindo vozes?
Uma risada baixa soou, até que uma garota caiu em minha frente.
— O que está fazendo? — perguntou ela novamente, um olhar curioso.
Com receio de represálias, me movi para trás, tentando não ficar nervoso. Era necessário retirar-me o mais rápido possível.
— Ei, espere! — ela gritou, sendo ignorada por mim.
Não olhei para trás.
Continuei seguindo pelo campo de lavanda, até sentir que estava longe o suficiente para não ser pego. Abaixado em meio às flores, permaneci esperando o tempo passar. Quanto mais o sol movia-se, mais sentia minha barriga doer. Com o passar das horas, surgiu uma movimentação repentina no meio do campo, abrindo espaço para a sensação de agonia em meu coração. Em sussurro, pedi a Deus para que não fosse um adulto.
— Boa noite… Imagino que tenhas te escondido em meio às lavandas. — Era a voz doce e aveludada da menina que pulou da árvore. — Ainda estás com fome?
Fechei meus olhos, colocando a mão na barriga. Os barulhos involuntários de fome intensa haviam retornado.
— Devo confessar que ouvi a vossa resposta — disse a voz bem próxima de mim, parecendo segurar o riso. — E, pelo som contínuo, vejo que estás mesmo com fome… Deixarei isto aqui.
Ergui de leve minha cabeça e vi a menina de costas, voltando para a direção da cerca. Quase engatinhando, me arrastei até onde ela estava e me deparei com um prato de porcelana com alguns pedaços de carne. Não me contive em salivar de imediato, sentindo o retorno do fundo em minha barriga. A menina havia deixado de bom grado para mim, então não recusaria e, internamente, estava torcendo para que não estivesse envenenado e que não fosse a última refeição da minha vida. Assim que peguei o prato para voltar ao meu esconderijo, notei uma chave caída.
Será que ela tinha perdido, ou deixado de propósito?
Peguei a chave e guardei no bolso da calça. Assim que comi todos os pedaços de carne, me mantive agachado novamente, esperando. Ao cair da madrugada, segui em direção ao que parecia ser um castelo. A primeira impressão? Avistando ao longe, certamente parecia uma grande construção, porém, o vendo de perto, me passou a sensação de ser pequeno para carregar o título de um castelo. Seguindo pelos pontos cegos, nos quais não havia a presença de criados. Com os nobres recolhidos em vossos aposentos, me veio o pensamento mais insano que poderia ter. Não deveria, contudo, se estava com a chave, deveria ao menos tentar abrir uma das portas para devolvê-la. Com os dedos cruzados e torcendo para que ninguém me ouvisse, me coloquei diante da porta mais importante de todas, a da cozinha. Assim que a tranca fez aquele barulho e a porta se abriu, contive a paralisia momentânea pela sorte inesperada.
Entrei silenciosamente, quase segurando minha respiração.
— Finalmente — disse a voz feminina, vindo de trás de mim.
— O quê? — Contive minha reação de susto, contudo, ela percebeu.
Um olhar curioso para mim, parada atrás da porta, mantendo o sorriso discreto e meigo no canto do rosto.
— Fez-me pensar que não tivesse visto a chave. — Continuou ela, correndo seu olhar por minhas roupas.
— Vim apenas para agradecer-lhe pela comida e devolvê-la. — Estiquei a mão, então a abri, mostrando a chave.
— Lady Lewis, o que fazes acordada a esta hora? — A voz de uma senhora ecoou pelo espaço, enquanto adentrava a cozinha. Logo ela lançou o vosso olhar para mim. — Oh, céus! O que… Quem é esta… — Notei vossos olhos focarem na chave em minha mão. — Seu ladrãozinho.
— Não! Eu posso explicar — disse a garota, pegando a chave de minha mão com rapidez, se colocando em minha frente.
— Venha, lady Lewis. — A senhora puxou-a pelo braço bruscamente. — Não deveria estar aqui, menos ainda com um ladrão.
— Mas ele… — A garota tentou argumentar.
— O que está acontecendo aqui? Estou ouvindo as vozes do corredor?! — reclamou um homem, entrando na cozinha.
— Senhor Rochefort, dê um jeito nessa criança. Ela roubou minha chave e invadiu o Lewis Castle — explicou, olhando para mim em fúria.
— Ah, seu ladrãozinho — disse o homem, vindo em minha direção.
Eu, que estava estático naquele momento, tentei me locomover para sair daquele lugar, mas o homem pegou forte em meu braço.
— Solte-me, senhorita Moore — gritou a garota, se debatendo como eu para se soltar. — Ele é inocente. Fui eu quem pegou sua chave e dei a ele.
— Lady Lewis?! — A senhora olhou-a com ar de decepção. — Não acredito que tenha feito isso. Ajudando um órfão rejeitado a roubar?
— Ele é uma pessoa como eu e a senhorita — retrucou ela, desviando seu olhar para mim. — Desculpe-me, só queria vos ajudar.
— Oh, que audácia. — A senhora segurou ainda mais forte no braço da menina, tanto que senti como se fosse em mim. — Lady Lewis, não deves desculpar-se com a plebe. Venha, terei que te castigar por esse ato de rebeldia.
A senhora saiu arrastando-a consigo.
Mesmo ameaçada, vossos gritos pedindo para que o tal senhor Rochefort me deixasse ir sem me machucar foram nítidos aos meus ouvidos. Aquela pequena donzela estava a colocar-se em meu lugar, assumindo a inteira culpa do ocorrido. Em meus nove anos de idade, nunca ninguém havia defendido-me como ela… Lady Lewis.
O homem, ainda me prendendo pelo pulso, me arrastou para fora da casa e, como castigo, fez um corte profundo em meu braço para que me lembrasse de nunca mais deixar uma dama fazer tal coisa por mim. Nem mesmo invadir a casa de um nobre para roubar. Corri o máximo que pude. Por mais que meu lado racional gritasse implorando para eu ir para longe daquele lugar, não conseguia parar de pensar naquela pequena dama. Parei no meio do campo e finalmente olhei para trás, ansiava saber se ela estava bem. Mantive-me naquela mesma posição por mais algum tempo, olhando as estrelas no céu. Repentinamente, uma movimentação surgiu em meio às flores de lavanda, e, abaixado em silêncio, o medo surgiu juntamente ao pensamento de que poderia ser o tal senhor Rochefort.
— Ainda estás aqui? — Era a voz dela, doce e aveludada, porém com um toque de tristeza. — Consegui pegar a chave novamente, porém, desta vez, achei mais prudente trazer a comida, assim não o colocarei em problema novamente.
Colocar-me em problema?
Mas fora eu o problema da noite.
Ergui meu rosto de leve. Ela, estando de costas para mim, vestida com uma camisola de linho. O brilho da lua em suas costas me permitiu ver algumas marcas de sangue em forma de traços. Vosso castigo também havia sido grande, por minha causa.
— Deixarei aqui, e espero que não fique com fome novamente. — Continuou ela, ao abaixar-se e deixar uma trouxa de tecido no chão. — A propósito, eu não sei o vosso nome, mas quero que saiba o meu. Sou a lady Lewis, filha do Conde de Carnarvon.
Esperei até que afastou-se o máximo possível, então caminhei até a trouxa de tecido e olhei superficialmente. Havia muita comida. Lancei meu olhar para frente novamente, vossa silhueta permanecia ainda em meu campo de visão, enquanto retornava ao castelo.
— Lady Lewis — sussurrei vosso nome.
Naquele momento…
Mais do que o vosso nome, eu a estava gravando em meu coração. Vosso gesto de caridade para comigo havia-me feito decidir que no futuro…
Ela estaria comigo e seria minha, sem reservas.
“Houve um evento que me fez feliz hoje, o momento quando
Te conheci e o fato de que eu sabia que tinha alguém para amar.”
— Creating Love / Personal Taste OST (4minute)
My Little Princess
Londres — Primavera de 1847
•Aquela noite havia se estendido em meus sonhos. A lembrança mais vívida foi dos sussurros de em meu ouvido. Comecei a me espreguiçar em meio aos lençóis que estavam ao meu redor. Aos poucos, a claridade da janela foi tomando conta do quarto, o que me fez abrir meus olhos. O motivo da claridade se chamava Isla, a governanta da Wincher Hall.
— Bonjour, lady Winchester — disse ela, ao abrir uma pequena fresta na janela para o ar adentrar.
— Bom dia. — Em um sussurro, observando seus movimentos. — Onde está o senhor Winchester?
— No escritório, milady — respondeu, se virando para mim, com um olhar atento e analítico. — Em reunião com o lorde Lewis, conde de Carnarvon.
— Meu pai?! — sussurrei, pensando em qual possível motivo para que ele estivesse aqui a esta hora da manhã.
— Milady, deseja algo em especial?! — perguntou, ao manter-se parada de frente para minha cama.
— Não — respondi, me levantando da cama. — Apenas ajude-me a me vestir.
Ela assentiu com a face. Isla parecia uma pessoa relativamente agradável de se conviver, sempre dizia o necessário e se mantinha em silêncio, uma excelente profissional. Minhas roupas ainda estavam no baú que tinha trago de Lewis Castle. Demorei um pouco para escolher, pois não havia levado todos os meus pertences. Como estávamos na primavera, optei por colocar o vestido salmão pastel, com bordados em linha verde musgo.
— Deixe-me sozinha, por favor — pedi a ela.
— Como quiser, milady. — Isla fez uma breve reverência com a cabeça e se retirou do quarto.
Respirei fundo, ajeitando o vestido em meu corpo. Caminhei até o espelho e, pegando meu estojo de toilette, que estava na mesa ao lado, me sentei na cadeira. Minha maquiagem seria suave, evidenciando somente meus lábios, como o campo de lavanda na primavera. Ao final, peguei o frasco de metal com arabescos de ouro decorado, com meu perfume preferido, e borrifei com leveza.
Fiquei alguns minutos me olhando no espelho.
Desde que tinha acordado, me senti estranha, contudo, era um estranho bom, como se algo de diferente tivesse sido estabelecido em minha vida. Bem, oficialmente, estava casada. Oficialmente, tinha me tornado a esposa do homem mais influente e rico de Londres, porém meus sentidos não estavam tendendo para isso. O que eu sentia estava ligado diretamente a , descartando seu sobrenome ou tudo que envolvia ele socialmente. Talvez aquela sensação estranha que estava sentindo pudesse ser convertida em sensação de complemento, como se tivesse completado em mim, em uma única noite, o que eu sentia que faltava todos esses anos.
— Lady Winchester — disse uma voz grossa vindo da porta. Era ele, provavelmente para saber se eu já estava acordada.
— Senhor. — Desviei meu olhar para seu reflexo no espelho. — Bom dia.
— Bom dia — respondeu ele, se mantendo imóvel na porta.
Apesar de poder olhar meu reflexo, notei que seu olhar estava diretamente para mim, e, mesmo de costas para ele, a intensidade era a mesma. Aquilo me deixava ainda mais intrigada. Se ele podia olhar em meus olhos através do espelho, por que se contentava em olhar diretamente para mim, ainda que de costas para ele?!
— Acredito que já saiba que vosso pai veio esta manhã. — Continuou ele.
— Sim. — Me levantei da cadeira e me virei em sua direção. — Isla me informou que estavam no escritório.
— Ele a espera na entrada, para se despedir — confirmou, abrindo um pouco mais a porta para que eu passasse.
Disfarcei um breve sorriso no canto do rosto e caminhei em sua direção. Assim que passei por ele, fez uma breve reverência com a face, movendo seu corpo para o lado para que eu pudesse passar com mais liberdade. Retribuí a reverência com minha face e segui em direção às escadas. Assim que cheguei ao hall de entrada da casa, meu pai já estava parado perto da porta, olhando para o vaso chinês que estava na mesa em frente à porta.
— Papai! — disse, indo a seu encontro e lhe abraçando.
— Olá querida. — Ele retribuiu meu abraço. — Como está?!
— Venho de uma noite relativamente agradável — respondi, me mantendo reservada aos detalhes. — Não me diga que veio por estar com saudades de mim? Mal se fez vinte e quatro horas que fui desposada.
— Ah. — Ele riu de leve, mantendo seu olhar no vaso chinês. — Acabou descobrindo meu segredo. Estava mesmo com saudade de minha filha amada. Está se sentindo confortável nesta casa?
— Um pouco. Não é tão grande quanto a Lewis Castle, contudo, é maior e mais luxuosa que muitas casas em Londres.
— Fico aliviado em saber que minha filha estará vivendo bem.
— O senhor ficará para o desjejum? — perguntei, demonstrando um pouco de animação.
— Oh, não. Não quero atrapalhar seu primeiro dia como uma senhora casada. — Ele desviou seu olhar para trás de mim. — E tenho certeza de que o senhor Winchester gostaria de passar esta manhã sem convidados indesejados.
Eu virei minha face para . Ele estava parado no último degrau da escada, seu olhar estava fixo em mim, sua face séria, porém com traços suaves.
— Tenho certeza de que o senhor não é um convidado indesejado — retruquei, mantendo meu olhar em .
— Minha querida, teremos muitas manhãs pela frente. — Meu pai tocou em minha mão, me fazendo olhar para ele. — E tenho outro compromisso para esta manhã.
— Está sendo sincero? — reforcei.
— Claro que sim. — Assentiu ele, me abraçando novamente. — Prometo lhe visitar com frequência.
Assenti com um sorriso e o acompanhei até a porta. Assim que fechei, desviei minha atenção para , que continuava olhando-me fixamente. Respirei fundo, desviando meu olhar para o vaso chinês. Era complicado ficar encarando-o com toda aquela intensidade, parecia invadir minha alma e ver meus pensamentos.
— O que meu pai realmente veio fazer aqui? — perguntei, me mantendo parada no mesmo lugar.
— Ele não lhe disse? — retrucou.
— Disse que estava com saudade de mim, porém sei que é mentira — respondi.
— Se lorde Lewis não a quis contar, não serei eu a fazer isso — pronunciou, ao descer o último degrau, então dirigiu-se para a sala. — Venha, nosso desjejum será no jardim.
Ele estendeu o braço para que eu pudesse o acompanhar. Dei alguns passos até ele e, pousando minha mão em seu braço, seguimos para o jardim. Ao contrário da arquitetura clássica acompanhada do neogótico, que existia no interior da mansão, em sua fachada frontal e nas laterais, o jardim era mais gracioso e delicado. Algo que muito admirei. Saímos pela porta lateral da sala de jantar, seguidos por mais alguns passos silenciosos e lentos pela trilha de seixos claros entre a grama baixa. Havia alguns pequenos arbustos espalhados por todo o espaço, usados como contorno dos canteiros de margaridas, rosas, peônias e lavandas.
O que deixava o lugar ainda mais perfumado e colorido.
Aquela trilha nos direcionou a uma fonte bem ao centro. pegou em minha mão e me soltou de seu braço, então se afastou para se aproximar da mesa, que estava posta mais à frente, arrastou a cadeira e me olhou como se estivesse me convidando para sentar. Sorri de leve, caminhei até o lugar e me sentei na cadeira. Mantive meu olhar no jardim, observando os bancos que ficavam do outro lado da fonte.
— Senhor Winchester, me permita servi-los — disse o mordomo, ao se aproximar de nós.
— Agradeço, Lee — consentiu .
Enquanto o mordomo nos servia, desviei meu olhar para por algumas vezes e, como presumi, sua atenção permanecia fixa em mim. Impossível não ficar envergonhada com tamanha intensidade no olhar, o que me deixava em curiosidade. Desejava saber o motivo de sua aparente obsessão por mim.
— Com sua licença, senhor, milady. — O mordomo se afastou, permanecendo no jardim, porém um pouco distante de onde estávamos.
— O jardim é muito bonito — comentei, desviando meu olhar para o pedaço de bolo no prato de porcelana, que, pelos ornamentos desenhados, parecia de origem francesa.
— Sinto-me aliviado que tenha gostado. Foi feito para você, como tudo que existe nesta casa. — Seu tom de voz permanecia inalterado, firme e grosso, com aquele toque suave.
— Suas palavras ainda me deixam sem reação, senhor — disse, me sentindo um pouco desnorteada.
— Pode me chamar de , se preferir. — Ele tocou de leve em minha mão. — Não precisa ser tão formal assim quando estivermos sozinhos.
— Como quiser. — Assenti com um sorriso.
Permaneci em silêncio enquanto saboreava meu desjejum.
Ao mesmo tempo que queria perguntar sobre sua enigmática vida, ainda tinha um certo receio no que provavelmente poderia descobrir. Em alguns momentos, eu fechava meus olhos, sentindo a brisa tocar minha pele, me deixando envolver pelo aroma que deixava o lugar ainda mais confortável para se estar. Mantive minha atenção nas flores do jardim, pois sabia que estaria com a sua em mim, o que me fazia sorrir de forma involuntária em alguns momentos, me permitindo ter a sensação de que ele retribuía meu sorriso com outro um pouco discreto, atraindo meu olhar para ele.
Assim que tomei o último gole de chá que estava em minha xícara, o mordomo Lee se aproximou com uma bandeja de prata contendo uma carta dentro. Mantive-me em silêncio enquanto o observava entregar a . Sempre lutei contra a curiosidade que vivia em mim. Talvez fosse uma carta de felicitação por nosso casamento, ou alguma mensagem importante de alguns de seus muitos negócios.
— Algo urgente?! — perguntei, mantendo meu olhar fixo na carta.
— Não, apenas imprevistos que tenho que resolver — respondeu ele, se levantando da cadeira. — Perdoe-me por não poder apreciar esta manhã com você.
Ele desviou seu olhar para a carta, era visível sua frustração por ter que se ausentar logo em nossa primeira manhã juntos.
— Terei vossa companhia para o almoço? — perguntei, me levantando também.
— Sim — respondeu, com um sorriso disfarçado. — Tudo que quiser, não hesite em pedir ao Lee ou a Isla. Você é a nova dona desta casa.
Assenti com a face, mantendo meu olhar nele.
se aproximou de mim e, pousando sua mão em minha cintura, acariciou minha face de leve com a outra, o que me fez ansiar mesmo que de leve por um beijo dele. Fechei meus olhos lentamente e logo senti seus lábios tocando os meus. Em segundos, meu corpo se arrepiou. Seu beijo era doce e suave, com nuances de intensidade. Ao mesmo tempo que me aquecia por dentro, me deixava estática. Era estranho um simples beijo de uma breve despedida ser tão intenso, como se fosse o beijo de uma partida eterna. Comecei a me perguntar se ele tinha medo de voltar e não me encontrar naquela casa.
ainda manteve seu rosto encostado no meu por alguns instantes, o que me fazia ter a sensação de que aquele beijo era insuficiente para ele. Abri meus olhos, deixando meu olhar baixo. Percebi que nossas respirações estavam sincronizadas, recuperando o fôlego daquele beijo. Por dentro, meu coração se manteve acelerado todo o tempo, talvez estivesse concordando com ele que aquele beijo era, sim, insuficiente, mas consegui descobrir a primeira coisa sobre ele.
não queria se afastar de mim, nem por um segundo.
"Por favor, espero que você veja como eu cresci.
Quero ser um homem que combine com você.
Por favor:
Permita-me entrar em seu coração,
A qualquer hora que eu quiser."
— My Little Princess / TVXQ (Dong Bang Shin Ki)
Hug
Londres — 1847
•Ele se afastou de mim em silêncio, seguindo em direção à porta. Continuei imóvel onde estava, observando seus passos com meu olhar. Respirei fundo, sentindo meu coração se acalmar, porém uma certa melancolia por ele ter que partir logo em nossa primeira manhã juntos.
— Milady Winchester?! — disse Isla, ao se aproximar de mim.
— Sim?! — Eu a olhei, me despertando de meus pensamentos.
— Milady deseja que algo em especial seja preparado para o almoço? — perguntou ela, de forma natural, o que atestou ainda mais que eu era a nova dona daquela mansão.
Respirei fundo, não sabia o que responder, ainda mais por não conhecer os gostos e hábitos de . Aquela simples pergunta acabou me deixando um pouco insegura, pensando que se escolhesse de forma errada o cardápio a ser servido, talvez ele ficasse decepcionado ou irritado.
— Bem, eu ainda não… — A olhei. — Preciso de alguns minutos para me decidir.
— Como quiser, milady. Caso queira me chamar, basta tocar — disse ela, deixando o sino de mão sobre a mesa.
Isla fez uma breve reverência e se retirou.
Desviei meu olhar para a fonte ao meu lado, mantendo meu corpo de frente para ela. Um lado novo em ser a dona da casa, ter que decidir por tudo que acontecia. Por mais que tenha sido preparada para isso durante toda a minha infância, estar casada e ter uma família para cuidar era bem mais complexo quando não se conhecia o seu marido. O que me despertava a vontade de descobrir quem ele era, internamente. Seus gostos, desejos, seus pensamentos, quem era o por trás daquele olhar intenso e silêncio constante.
— Milady Winchester — disse Lee, retornando ao jardim. — O senhor e a senhora Winchester, e o senhor Aidan, estão no hall, aguardando a senhora.
— O quê? — sussurrei de leve.
O que a família de estava fazendo aqui? Perguntei para mim mesma, tentando não imaginar o que eles queriam. Acompanhei Lee até o hall de entrada da mansão. Eles estavam perto da porta, conversando entre si enquanto me esperavam.
— Bom dia — disse, no meu tom baixo e habitual de falar.
— Oh, aqui está ela! — disse a senhora Poppy, vindo me abraçar com euforia. — Confesso que contei as horas para vir aqui esta manhã. Estava curiosa para saber como foi a primeira noite do casal.
— Hum?! — No susto, tentei retribuir o abraço com mais suavidade e me afastei um pouco. — Foi tranquila, na medida do possível.
— Não seja tímida. Meu filho esperou tanto por esse casamento com a primogênita da família Lewis, tenho certeza de que tranquilo é um adjetivo que não classifica o que viveu esta noite. — Ela riu alto e deu um leve tapa em meu ombro.
Dei um sorriso meio tímido, desviando meu olhar para o senhor Zachary, pai de , e depois para o senhor Aidan, sobrinho deles.
— Oh, sim. — Ela riu ainda mais, olhando para seu marido. — Me esqueci que estamos na presença dos senhores.
— Não se contenha por minha causa. — Aidan deu um leve sorriso malicioso. — De minha parte, adoro saber sobre essas coisas. A visão feminina sobre o amor é tão atraente.
— Modere suas palavras diante de duas senhoras casadas — repreendeu o senhor Zachary, num tom mediano.
Eu me encolhi um pouco, me sentindo desconfortável com a presença deles e mais ainda com as indagações da senhora Poppy.
— Senhores, fiquem à vontade na sala — disse a senhora Poppy, me pegando pela mão. — Quanto a nós, vamos ter conversas femininas.
Ela me puxou em direção à escada sem que eu conseguisse me opor. Subimos correndo e entramos no quarto principal. A senhora Poppy fechou a porta assim que entramos, então me fez sentar no sofá que tinha em frente à janela, ao seu lado.
— Senhora... — Comecei a tentar fazê-la não se animar muito com o assunto.
— Minha querida, sei que está envergonhada. — Ela segurou minha mão e me olhou de forma gentil. — A primeira noite de uma mulher é como um marco em sua vida. Tenho certeza de que não é somente eu que estou curiosa sobre isso.
— Sim. — Assenti com a face.
Ela realmente poderia não ser a única, porém sabia que minha família conseguiria ser bem mais discreta que ela. Mesmo com costumes visivelmente diferentes, conseguia sentir que a senhora Poppy era muito gentil e queria ser minha amiga. Estava tentando encontrar alguma forma de retribuir seu carinho evidente por mim, só não sabia como iria retribuir.
— Senhora Poppy... — disse, num tom mais baixo que de costume. — A senhora disse que o senhor Win... me esperou por muito tempo. O queria dizer com isso?
— Minha querida, não sabes?! — indagou ela, me olhando surpresa.
— Não, senhora. — Neguei com a face.
— Bem. — Um sorriso disfarçado surgiu no canto de seu rosto. — Eu disse isso me referindo aos três anos que ele passou interessado em vossa pessoa, desde que retornou para Londres.
Sua explicação não me parecia convincente, menos ainda sincera. Parecia que algo a mais existia nesta história. A senhora Poppy passou a mão em seus cabelos e ajeitou um pouco a saia do vestido azul marinho que estava em seu corpo, suspirou um pouco, como se escolhesse suas próximas palavras.
— Bem, voltemos para sua noite de núpcias — disse, se animando novamente. — Como foi? Meu filho foi gentil convosco?
— Senhora Poppy, não quero ser indelicada com a senhora, mas gostaria de não mencionar sobre isso. É algo muito íntimo para mim. — Me encolhi um pouco mais.
— Ah, sim, eu imagino que esteja me achando muito curiosa. — Ela riu alto. — Mas, em partes, é preocupação de mãe. é um homem muito silencioso e pouco sociável, fico imaginando como poderia ser a convivência de ambos.
— A senhora não deveria se preocupar tanto. Já percebi algumas características do vosso filho, certamente me acostumarei com elas de acordo com o tempo. — Assegurei.
— Posso ver em seus olhos uma ponta de curiosidade. — Deu um largo sorriso. — Se quiser, posso lhe contar como encontrei ainda criança.
— A senhora faria isso? — disse, me surpreendendo por ela ter confirmado os boatos de ele ser adotado. — Sempre ouço comentários indiretos com este boato.
— Bem, eu chamo de meu pequeno anjo. Ele salvou minha vida em um momento que eu não queria ser salva — explicou ela, com um pequeno brilho nos olhos. — E mesmo tendo passado alguns anos longe de casa, estou feliz e orgulhosa por ele ser meu filho, mesmo que adotivo.
— A senhora não pôde ter filhos? — perguntei, meio receosa.
— Não. — Ela suspirou fraco. — Infelizmente, Deus não quis que eu tivesse esse prazer. Tenho um certo alívio por meu marido nunca ter me cobrado, mas fico triste.
— Eu lamento. — Coloquei minha mão sobre a dela e sorri de leve. Não sabia ao certo o que falar.
— Ah, mas a vida me deu dois filhos lindos de criação. — Ela sorriu também, era notável as pequenas gotas de lágrimas no canto de seus olhos. — Aidan às vezes me dá um certo trabalho, porém me divirto com ele.
— Soube que os pais dele morreram em uma tempestade — comentei.
— Soube de muitas coisas sobre nossa família. — Ela riu um pouco.
— Perdoe-me, senhora, se fui intrusa nos assuntos pessoais da família.
— Não precisa se desculpar. — Ela riu novamente. — Não é novidade que minha cunhada e seu marido morreram em uma viagem de navio para a Espanha.
Ela se levantou, respirando fundo.
— Mas vamos deixar o passado para trás e olhar para o futuro. — Ela pegou em minha mão e me levantou da cama. — Temos um almoço para preparar. Acredito que esteja curiosa para saber as preferências do seu marido.
— Um pouco, senhora. — Assenti.
— Vou adorar te contar tudo. — Ela riu ainda mais alto, me puxando para fora do quarto.
Descemos as escadas com suas gargalhadas, enquanto me contava algumas histórias de quando era criança. Passamos pela sala de visitas, indo diretamente para a cozinha. Fiquei um pouco próxima à porta, observando a senhora Poppy montar todo o cardápio do almoço de forma bem detalhada, explicando à cozinheira com a companhia da senhorita Isla, sempre reforçando como deveria sair o sabor dos alimentos.
O cardápio, segundo a senhora Poppy, seria Yorkshire puddings de entrada, roast beef ou, como ela costumava pronunciar, rosbife, acompanhado de purê e vegetais cozidos para o prato principal. Era um pouco engraçado ver como minha sogra pronunciava o nome dos pratos, e admirável a forma que ordenava tão bem os empregados. Nunca imaginei que uma mansão em Londres pudesse ter tantos empregados, além do que já havia visto. Ao chegar à sobremesa, segundo a senhora Poppy, seria uma surpresa para os recém-casados, e precisei conter minha curiosidade. Assim que todas as instruções foram passadas, retornamos para a sala de visitas. O senhor Zachary e Aidan estavam conversando, sentados nas confortáveis e luxuosas cadeiras que compunham o mobiliário.
— Estou surpreso que tenha saído logo pela manhã — comentou o senhor Zachary.
— Deve ter sido algum problema grave no porto para deixar sua esposa logo na manhã de recém-casado. — Aidan deu uma risada discreta, se levantando e caminhando em direção ao quadro de William Hogarth, que estava na lateral direita da sala.
Eu o segui com meu olhar e analisei um pouco a obra de arte que estava dentro da moldura. Vagamente poderia afirmar que já tinha visto este quadro quando criança, talvez na casa de algum aristocrata amigo do meu pai. Era curioso uma obra de arte de tanto valor estar na casa de um burguês. Será que teria comprado? O tempo foi passando, e o senhor Zachary continuava seus assuntos sobre os negócios da família com Aidan. Enquanto isso, a senhora Poppy, que se sentou na cadeira ao lado da minha, sempre puxava alguns assuntos triviais relacionados ao meu cotidiano em Derbyshire. Ela havia me contado que morou por anos em uma casa ao sul de Nottinghamshire, contudo, após Aidan ir morar com eles, decidiram vir para Londres.
— Oh, ! — A senhora Poppy se levantou da cadeira assim que o viu chegar e caminhou em sua direção. — Estávamos à sua espera.
— O que fazem aqui? — perguntou ele, num tom rude, porém com vestígios de surpresa.
— Viemos acompanhá-los para o almoço — respondeu a senhora Poppy, com um sorriso descontraído.
Ela parecia não se importar com o tom da voz dele, menos ainda com sua face séria. Seu olhar veio de encontro ao meu, estabelecendo assim aquela intensidade que sempre me deixava envergonhada.
— Não me lembro de tê-los convidado — retrucou , se mantendo sério.
— Ah, deixe de pedir formalidade com sua própria família, queríamos fazer uma surpresa. — A senhora Poppy fez que iria se irritar, porém se virou para mim e piscou de leve.
Como se sua reação fosse uma forma de ensinamento para mim. Logo me levantei da cadeira e caminhei até ele. Sorri de leve, desviando meus olhares pelo percurso.
— O senhor retornou cedo — disse no meu tom baixo de sempre.
— Assegurei que retornaria para o almoço. — Seu olhar em mim sem nenhum constrangimento de toda aquela intensidade que colocava. — Sempre cumpro minha palavra.
Senti um breve arrepio em meu corpo.
— Com este tom rude e de mau humor, vejo que não pode ter a companhia de sua família — pronunciou a senhora Poppy, que estava ao nosso lado, nos olhando. — Será que devemos ir embora?!
Aquele era seu lado dramático o qual ouvi os criados comentarem.
— Sejamos honestos, querida. Estamos invadindo a privacidade do casal em seu primeiro dia juntos — disse o senhor Zachary, de forma franca.
— É claro que estamos agradecidos pela presença de vocês — afirmei, mantendo meu olhar em .
— Eu já imaginava que sim. — A senhora Poppy riu um pouco e se dirigiu para o centro da sala, sentando ao lado do seu marido.
pegou em minha mão com suavidade e me guiou até o jardim.
Ele parecia um pouco nervoso e desconfortável, mas não conseguia identificar se era pela presença de sua família, ou pelo motivo que o fez sair pela manhã. De qualquer forma, parecia sério, pois, a cada instante, segurava minha mão ainda mais forte sem perceber.
— — disse, ao parar de andar, puxando um pouco minha mão para que percebesse o grau de sua força.
— Perdoe-me. — Num tom baixo, soltou minha mão e olhou para o céu. Parecia tentar controlar sua voz. — Eles não deveriam estar aqui.
— Eu gostei da visita deles — disse, tocando de leve seu rosto para que olhasse para mim.
Ele permaneceu em silêncio, me olhando. Comecei a constatar que o problema não era realmente sua família.
— Sua mãe é muito simpática — disse, suavizando ainda mais minha voz. — Ela me ajudou a descobrir suas preferências para a gastronomia, além de contar sobre sua infância...
Em um piscar de olhos, senti os lábios de tocarem os meus em uma profundidade incomum que fazia minhas pernas estremecerem. Suas mãos se envolveram em minha cintura, aproximando nossos corpos. Eu pousei de leve minha mão direita em seu tórax e senti seu coração um pouco acelerado.
— Pelo aroma, teremos um almoço especial — comentei, ao me afastar um pouco dele.
sorriu de leve, mantendo seu olhar em mim.
Voltamos para o interior da mansão. Ao chegar à sala, Aidan estava contando mais uma de suas aventuras vividas em sua última viagem para a Espanha. Eu caminhei até a cadeira do canto, me sentando de frente para a senhora Poppy. permaneceu de pé, ao lado da lareira, com sua atenção em mim. Sua face estava um pouco mais serena, o que me fez ficar estranhamente bem mais aliviada.
— , já mostrou à sua bela esposa, Milady Winchester, seus dotes artísticos? — perguntou Aidan, que estava de pé, em frente ao outro quadro de Rembrandt.
— Ah, sim. Toque para nós, — insistiu a senhora Poppy. — Tenho certeza de que minha nora ficaria admirada em ver como é talentoso.
Meu olhar, que estava na mesa de centro, se desviou para ele, encontrando os seus. Naquele momento não conseguiria reagir de uma outra forma, além de estar surpresa. Contudo, percebi uma certa movimentação na porta, era o mordomo Lee, que discretamente acenou sua face para , que, assim como eu, tinha olhado em sua direção.
— Vamos — disse , ao se aproximar de mim e estender sua mão. — O almoço está servido.
Assenti com a face, pousando minha mão em seu braço. O senhor Zachary estendeu seu braço para a senhora Poppy e nos seguiu em direção à sala de jantar, acompanhado de Aidan. Uma refeição genuinamente saborosa, constatando o que o suave aroma alertava. A surpresa especial para a sobremesa foi gelado de baunilha. Diferente do que costumávamos ver na sorveteria, havia sido encomendado com um sabor diferenciado, especialmente para aquele dia. Foi um momento descontraído, que contava sempre com os comentários espontâneos da senhora Poppy. Eles não demoraram muito para partir, após as xícaras de café que foram servidas na sala de visitas. Apesar de sempre se mostrar alegre para , ela havia percebido que ele precisava ficar a sós comigo.
Assim que me despedi deles na sala, deixei que os levasse até a porta.
Caminhei para o jardim e me sentei em um dos bancos com encosto que estavam na frente da fonte no lado esquerdo. Fiquei por um tempo olhando as águas que caíam do chafariz de escultura em mármore. Fechei meus olhos por um momento. Graças à presença da família dele, aquele dia havia sido um pouco agitado para mim. Logo senti alguém sentar ao meu lado, permanecendo em silêncio. De olhos fechados, tombei minha cabeça para o lado, encostando em seu ombro. Uma breve sensação de conforto passou por mim, o que me fez suspirar de leve. O aroma do seu perfume foi me envolvendo, acompanhado de suas carícias em meu cabelo, e me fez adormecer lentamente.
"Quero te ver dormir confortavelmente, carinhosamente nos meus braços,
Por você, resolvo todos os problemas e tudo o que te incomoda,
Inclusive o monstro dos teus pesadelos.
[...]
Fico curioso pensando o quanto você gosta de mim,
Quero ser como seu diário, para saber os segredos do seu coração."
— Hug / TVXQ (Dong Bang Shin Ki)
Destiny
Derbyshire — Outono de 1833
•Passei os dias racionando a comida que tinha na trouxa de tecido.
Não sabia quando iria encontrar mais. Não podia retornar ao castelo da Lady Lewis, não a colocaria contra sua preceptora novamente e nem queria que fosse castigada por minha causa uma segunda vez. Continuei caminhando pelas beiras das estradas, não sabia ao certo em que lugar da Inglaterra me encontrava. Tinha perdido toda noção de tempo e espaço. Em alguns momentos até pensava estar andando em círculos, quando me aventurei pelos bosques e vales. Se ficasse muito tempo nas estradas, poderia ser preso e levado novamente para algum workhouse por ser um órfão.
O pouco que consegui contar das noites que se passaram, desde que olhei lady de costas pela última vez, foram dez dias de caminhada, ou mais que isso. Continuei seguindo pela borda da nascente, que tinha encontrado ao leste daquela colina, era um final de tarde tranquilo, até que comecei a ouvir de longe uma voz que parecia de desespero. Fui seguindo em direção de onde a voz surgia. Quando cheguei próximo a uma árvore, avistei uma senhora na ponta do que parecia uma queda d’água. Eu conseguia ver nitidamente que estava chorando, mesmo que suas palavras fossem para o nada, ela agia como se estivesse falando com alguém.
Em um piscar de olhos, aquela senhora abriu seus braços e se jogou. Por um breve momento, meu corpo congelou, contudo, de forma automática, corri até a ponta e me joguei atrás dela. Mesmo que tudo estivesse mal, não seria certo deixar aquela senhora se matar. Mergulhei em meio ao impacto na água e nadei até ela, tentando segurar o máximo de fôlego que conseguia. Tinha nadado apenas uma vez até aquele momento, ou melhor, eu tinha lutado contra a morte para sobreviver quando o senhor Cooper me jogou no rio, após eu roubar a comida da despensa para dar às crianças mais novas.
Esse foi o principal motivo para ter fugido da workhouse dele.
Assim que consegui passar por algumas rochas que apareceram pelo caminho, alcancei a senhora e, a segurando pelo braço, deixei a correnteza nos levar até chegarmos à margem do rio. Com uma certa dificuldade, pois era um pouco robusta, a arrastei até chegarmos a um arbusto e tentei acordá-la, não sabia o que fazer e lutava contra o pânico que estava se formando dentro de mim.
— Hum… — disse ela, tossindo um pouco, abrindo seus olhos. — Vós és um anjo?
— Não — disse, num tom baixo, me encolhendo.
— Salvou-me a vida — sussurrou, erguendo seu corpo e me abraçando. — Meu anjo.
— Senhora, eu não sou um anjo — repeti, sem saber se deveria ou não retribuir seu abraço.
— É claro que és. — Ela sorriu de leve. — Oh, estamos bem molhados, precisamos nos secar antes que peguemos um resfriado.
— Hum. — Eu olhei para minhas roupas, até mesmo a trouxa de tecido que tinha amarrado em minhas costas estava encharcada e vazia.
— Venha, me ajude a levantar — disse, pegando em minha mão. — Vamos para casa.
Eu me levantei primeiro e a ajudei a se levantar, estava tentando entender a que casa a senhora estava se referindo, afinal, eu não tinha nenhum lugar para ir. Ela começou a seguir na frente, mas parou e se virou ao perceber que eu tinha permanecido no mesmo lugar.
— Por que não está andando? — perguntou ela.
— Desculpe-me, senhora, mas não tenho casa, nem mesmo família. Não posso ir para lugar nenhum.
— Mas é claro que pode. — Ela abriu um largo sorriso novamente. — Venha comigo. És o meu anjo e minha casa agora é sua casa.
Ela estendeu a mão para mim.
Seu nobre gesto e suas palavras de conforto fizeram minha memória refletir a face de lady Lewis, o olhar doce que me ajudou sem nem perguntar quem eu era. Uma gota de lágrima se formou no canto de meus olhos. Como minha face ainda estava molhada, facilmente a senhora não notaria que estava um pouco emotivo naquele momento. Segurei, ainda receoso, sua mão, e andamos mais algum tempo. Sua casa parecia ser longe, pois chegamos ao anoitecer. Quando entramos, um homem também robusto veio ao nosso encontro e abraçou a senhora. Em sua face, a preocupação resplandecia de forma curiosa.
— Oh, querida — disse ele. — Estava preocupado e atormentado pelo desespero de não a ver novamente.
— Eu estou bem agora, graças ao meu anjo — disse a senhora, ao desviar seu olhar para mim.
— Quem é este garoto? — perguntou o senhor, me olhando de cara fechada.
— Este é meu anjo. — A senhora se aproximou de mim e colocou sua mão em meu ombro. Ela sorriu de leve e olhou novamente para o senhor. — Ele será meu filho agora.
— O quê? — O senhor alterou sua voz. — Como pode dizer tal coisa? Mal sabe sobre ele, e se tiver família?
— Ele não possui — retrucou ela. — Agora somos a família dele. Foi graças a esta criança que eu tive uma segunda chance.
A face dela começou a aparentar tristeza.
— Quando me joguei no rio, estava desistindo da minha vida, mas ele me salvou. — Ela acariciou meus cabelos com carinho. — Meu anjo, e não aceito que digas o contrário.
— Mas ele… — O senhor se calou por um momento, permanecendo com seu olhar em mim. Respirou fundo. — Esta criança não vai substituir todos os bebês que perdemos.
— Eu sei. — Ela me abraçou. — Mas tenho certeza de que vai preencher o vazio que sinto dentro do meu coração, Já o considero meu filho, e se não fizer o mesmo…
— Tudo bem. — Concordou o homem, mesmo contrariado. — Qual o seu nome, garoto?
— , senhor — disse, em sussurro.
— Você tem família? — Continuou ele.
— Não, senhor — respondi.
— Quantos anos tem?
— Oito, senhor.
— A partir de agora, será nosso filho. — O senhor manteve seu olhar em mim. — Eu sou Zachary Winchester e essa senhora que deseja lhe dar o amor de mãe se chama Poppy.
— E a partir de agora, me chame de mãe — disse a senhora Poppy, com um largo sorriso em seu rosto.
Assenti com a face.
Mesmo com minhas desconfianças, no fundo estava feliz por ter encontrado uma família para chamar de minha, o que me fez sentir que aquilo estava relacionado a lady . Conhecê-la tinha me dado sorte. A senhora Poppy, ou melhor, minha mãe pegou em minha mão e me levou para o segundo quarto da casa. Em suas palavras, eu precisava de um banho quente para não pegar um resfriado.
— Obrigado — disse, assim que terminei de vestir as roupas novas que tinha me dado.
— Não precisa agradecer por isso, sou sua mãe agora, meu dever é garantir que esteja sempre confortável e amado. — Ela me abraçou novamente. — Sonhei tanto com este momento, poder abraçar meu filho! Prometa que será para sempre meu anjo, querido .
— Eu prometo, mamãe — disse, num tom baixo e tímido.
Ela soltou um grito de felicidade que me fez ficar assustado.
Contudo, era reconfortante que aquela senhora, que há poucas horas desejava a morte, estava feliz por eu ter entrado em sua vida. Lá no fundo, era eu que estava agradecido por ela ter entrado em minha vida, tinha ganhado uma família e um lar, além da esperança de poder ver lady Lewis novamente. Minha família morava ao sul de Nottinghamshire, e meu novo pai era um açougueiro, o que explicava ele sempre estar cheirando a carne. Mesmo não gostando de mim e disfarçando seu desconforto por uma criança estranha chamá-lo de pai, o senhor Zachary era muito gentil comigo e estava me ensinando tudo sobre sua profissão, ofício que tinha aprendido com seu pai.
Passei dois anos aprendendo o básico com ele, até que finalmente pude acompanhá-lo aos mercados de carnes para vender as poucas peças que tinha. Aparentemente, seu ofício lhe dava mais prejuízo do que lucro, além de alguns clientes que nunca lhe pagavam ou barganhavam a carne, dando outras coisas em troca.
— Conseguiu entender? — disse ele, ao levantar a mão que estava a faca. — É assim que se corta a carne de javali.
— Por que o senhor só mata alguns machos? — perguntei, um pouco curioso.
— Dizem que os javalis estão extintos aqui na Inglaterra desde mil e setecentos e alguma coisa, porém, atualmente, basicamente sou o único açougueiro da região que ainda vende dessa carne — explicou ele. — Então, para continuar o negócio, preciso ser esperto e inteligente. Não mato as fêmeas, pois procriam, e deixo alguns machos para o acasalamento.
— Hum. — Desviei meu olhar para o animal que estava ali morto em minha frente. — E as pessoas gostam de comer javali?
— É uma das melhores carnes para se ter em um banquete. — Ele deu um suspiro de satisfação.
— Se o senhor disse que está extinto na Inglaterra, como podem existir estes? — perguntei confuso.
— Digamos que tenho um amigo sueco que me presenteou com um casal de javalis há alguns anos — respondeu ele. — Fui criando, e hoje minha pequena criação é o suficiente para vender a alguns nobres, clientes antigos.
— Hum. — Me levantei do chão e arrastei a caixa de madeira até ele. — Senhor, o que sabe sobre eles?
— Eles quem? — indagou, desviando seu olhar para mim.
— Os nobres, o que sabe sobre os obres? — repeti a pergunta.
— Ah, o pouco que conheço, posso afirmar que esses aristocratas são esnobes, arrogantes e sempre pensam ser melhores que as pessoas que não tem título. — Ele suspirou fraco. — Ah, fique longe deles, ou então pode correr o risco de parar na forca.
— Mas, senhor, pensei que seus clientes fossem amigos.
— Ah, não. Esses aristocratas metidos só nos suportam porque a burguesia é o que movimenta a economia do país, mas um simples açougueiro como eu jamais teria espaço, além do mais nobres só socializarem com nobres.
— Mas e se alguém da burguesia quisesse ser amigo de um nobre? — perguntei, de forma inocente.
Ele começou a rir de mim, como se eu tivesse feito uma piada ou algo do tipo.
— Meu filho, um burguês só consegue ser notado por nobres se for realmente bem sucedido e muito rico. — Ele respirou fundo. — Alguém como nós nem chegamos perto dos grandes comerciantes.
Permaneci em silêncio, o observando manipular a carne do javali. Nossa conversa trouxe-me algumas reflexões. De certa forma, não éramos ricos. A casa da minha nova família era um pouco humilde e pequena, nem se comparava ao castelo da família Lewis. O que me deixou triste naquele momento, ao me lembrar dela. Um sentimento de frustração e revolta começou a tomar conta de mim. Comecei a perceber que tudo naquele mundo realmente girava em torno de ter ou não ter dinheiro. Eu não tinha, menos ainda minha família, então como eu poderia ser amigo dela? Respirei fundo, engolindo seco, e tentei manter minha atenção no que estava aprendendo. Aquele javali seria entregue na Morg House, que pertencia à família Morgan.
Os dias se passaram… Cada vez mais meus pensamentos continuavam borbulhando sobre meu futuro e como poderia ver lady novamente. Logo à noite, após me recolher em meu quarto, minha mãe veio para me desejar boa noite, uma rotina que tinha criado todas as noites desde que tinha me adotado.
— Mamãe — disse, assim que ela fechou as cortinas da janela.
— Sim, querido? — Ela me olhou com suavidade.
— Posso te fazer uma pergunta?
— Claro. — Ela caminhou até minha cama e se sentou. — O que deseja saber?
— As pessoas só respeitam aqueles que têm títulos de nobreza ou dinheiro? — perguntei, já sabendo vagamente a resposta.
— Infelizmente, sim, querido. — Ela pegou em minha mão, seu olhar era de curiosidade. — Por que a pergunta?
— Uma vez o papai disse que nobres jamais eram amigos de pessoas que não eram nobres, mas eles respeitavam os grandes comerciantes que tinham muito dinheiro — expliquei, de forma objetiva.
— Sua curiosidade tem alguma finalidade? Alguém te maltratou no mercado?
— Não — respondi, desviando meu olhar para a janela. — Hum, é sobre outra coisa.
— Que coisa? — perguntou ela. — Sou sua mãe, pode dizer.
— Uma garota me ajudou quando estava com fome — contei, quase em um sussurro. — Queria que ela fosse minha amiga.
— E ela é uma nobre? — perguntou ela, como se estivesse decifrando o real motivo de minha pergunta.
Assenti com a face.
— Querido, não fique triste, você ainda é uma criança, e a sua vida ainda não está traçada por completo — disse ela, com palavras de ânimo. — A vida de uma pessoa é como um vale cheio de relevos, altos e baixos. Se for seu destino ser amigo dessa pequena dama, tenho certeza de que nada e ninguém impedirá isso.
Ela deu um leve beijo em minha testa e se retirou, deixando a porta fechada e a vela ao lado da minha cama acesa. Deitei mais meu corpo e fiquei olhando para o teto. As palavras positivas de minha doce mãe haviam caído em meu coração como sementes férteis, e meus planos para o futuro seriam a água que regaria minhas esperanças. Minha vida ainda não estava escrita por completo, isso significava que eu não era obrigado a aceitar a vida simples que meus pais tinham, significava que eu tinha o direito de ser rico assim como os comerciantes importantes.
O sentimento de mudança estava vivo em meu coração. Se ser rico e respeitado pelos nobres significava poder ser amigo de lady …
No futuro eu seria o homem mais rico de toda a Inglaterra.
"Você é linda, eu sonhei com você,
Eu me apaixonei por você,
mesmo antes de saber seu nome."
— Destiny / TVXQ (Dong Bang Shin Ki)
My Answer
Londres — Primavera de 1847
•Duas semanas se passaram desde o nosso casamento.
Eu estava tentando me adaptar à rotina agitada que Londres me proporcionava, mas especificamente estava tentando me adaptar aos passeios constantes pela cidade, que a senhora Poppy me convencia a realizar em sua companhia. Mesmo sendo gentil e atenciosa comigo, ainda me sentia um pouco desconfortável com suas perguntas e curiosidades sobre minha vida íntima com seu filho.
Naquela manhã da primeira semana de maio, o sol estava formoso e convidativo a um breve passeio. Logo após me vestir, com a ajuda de Sophie, a acompanhante que o senhor Winchester tinha contratado para que eu não ficasse tanto tempo sozinha em casa, tomei meu desjejum no jardim juntamente a ela. havia partido cedo para o porto, afinal, não podia deixar seus negócios sem supervisão. Sophie era uma amiga de infância de minha prima, Emilly. Ambas cresceram juntas onde meu tio ainda mora, ao leste do condado de Northamptonshire, porém, naquele momento, a família de Sophie estava desamparada após a morte de seu pai. Ela e sua mãe haviam perdido todo o patrimônio para um parente distante. Um dos problemas de não se nascer um homem, nossa sociedade em alguns momentos era cruel com as mulheres.
Eu havia me sensibilizado com isso, quando Emilly me contou em sua breve visita, há três dias, então, ao saber que planejava contratar alguém para ser minha acompanhante, sugeri uma pessoa que eu conhecia e poderia, em parte, confiar. Sophie era discreta e muito educada, silenciosa quando necessário, o que era um ponto positivo em sua contratação, além de poder ajudá-la de alguma forma, principalmente consentindo em sua mãe morar conosco, nos aposentos dos criados.
— Espero que sua mãe esteja confortável em seu quarto — disse, mantendo meu olhar na fonte ao nosso lado.
— Ah, sim, milady. Estamos muito bem instaladas e lhe sou muito grata por ter me contratado e acolhido minha mãe em vossa casa também — agradeceu ela, com um olhar esperançoso.
— Fico feliz em ajudar uma amiga de minha prima. — Sorri com gentileza.
Passamos um longo tempo em silêncio, dava para se ouvir até mesmo os pássaros nas árvores.
— Milady, seria refrescante um passeio pelas ruas de Londres hoje — sugeriu ela, ao terminar de tomar seu chá.
— Sim. — Concordei, me levantando da cadeira. — Uma boa ideia. Estou admirada de minha sogra não ter aparecido ainda para me convidar.
— A senhora Poppy é muito divertida em seus passeios — comentou ela, disfarçando o riso, se levantando da cadeira.
— Ela é espontânea a todo momento. — Dei alguns passos em direção à porta de entrada da sala.
Sophie me acompanhou até a sala, eu a deixei por um instante e subi para meu quarto, precisava pegar minha bolsa. Assim que saímos, o cocheiro já estava com a carruagem preparada, nos esperando próximo à entrada da mansão. Entramos sem muita demora e seguimos em direção ao centro comercial de Londres. Não demorou muito para que avistasse um rosto conhecido caminhando pelas ruas. Pedi para que o cocheiro parasse e desci da carruagem. Sophie me acompanhou e, juntas, atravessamos a rua até que cheguei de surpresa atrás de minha querida irmã Margareth, que olhava para a vitrine com seus olhos brilhando.
— Aposto que está pensando em comprar — disse em seu ouvido, como uma forma de assustá-la.
— AH. — Ela se virou para mim, surpresa. — !!!
— Estava mesmo concentrada. — Eu ri de leve.
— Sim. — Assentiu ela, respirando fundo. — Que saudade.
Nos abraçamos por alguns segundos, então voltei-me para minha acompanhante.
— Margareth, acho que se lembra da Sophie — disse, desviando meu olhar para minha irmã novamente. — Uma amiga de infância de Emily.
— Hum, acho que me lembro, sim. — Margareth vez uma breve reverência. — Como está?
— Já estive um pouco melhor — respondeu Sophie, meio tímida. — Mas graças à lady Winchester, não estou tão mal assim.
— Oh, soube que perdeu seu pai, lamento por isso. — Margareth desviou seu olhar para mim. — Mas, mudando de assunto, adivinha quem está animada para passar uma temporada em Londres?!
— Hum. — Fingi estar pensando. — Para ser honesta, estou curiosa para saber o que fazes em Londres.
— Inicialmente, eu não viria, mas quando soube que minha mãe e Freya viriam, não me contive em desejar vir — explicou minha irmã caçula.
— O que vossa mãe e Freya estariam querendo em Londres? Lady Evelyn nunca gostou desta cidade — comentei, direcionando meu corpo para frente e começando a caminhar.
— Ah, ambas começaram a ficar cheias de segredos entre si. — Margareth apoiou sua mão em meu braço, ficando ao meu lado. — Isto está acontecendo desde que o papai veio te visitar.
Enquanto caminhávamos na frente, conversando, Sophie continuou nos seguindo, atrás de nós, em uma certa distância, respeitando nossa privacidade.
— Eu ainda tenho curiosidades sobre isso — afirmei. — Ele disse que estava preocupado. Queria saber se estava confortável em minha nova casa.
— Nem sabe mentir. — Margareth riu baixo. — Casou-se com o homem mais rico de Londres, desde quando não estaria confortável em vossa nova casa?
— Hum. — Desta vez, eu tinha que concordar. — Margareth, onde estão hospedados aqui?
— Estamos hospedados na casa de lorde Wood — respondeu ela, demonstrando um pouco de tédio. — Mas não posso afirmar que seja um bom lugar para se ficar, principalmente por sua adorável esposa.
— Ele é um grande amigo do papai — disse, mantendo meu olhar para frente. — Mas vós poderíeis ficar na minha casa.
— Sério?! — Uma ponta de esperança surgiu em seus olhos.
— Sim. — Assentiu com um sorriso. — Temos tantos quartos. Além do mais, vou ficar muito feliz em receber minha irmã.
— Mas e o senhor Winchester? — indagou. — Achas mesmo que seu marido vai gostar da ideia? Ainda estão em lua de mel.
— Ah. — Deu um suspiro fraco. — Não estamos em lua de mel. Para ser sincera, nem sei se teremos. Só o vejo à noite e vagamente pela manhã.
— Hum. — Ela me olhou. — Isso é triste. Não imaginava que os burgueses trabalhavam tanto assim. Nem mesmo almoçam juntos?
— Os primeiros dois dias, sim — sibilei um pouco. — Acho que houve um problema no porto, e ele está resolvendo isso há semanas.
De um simples passeio com minha acompanhante, minha caminhada se estendeu muito com a presença de minha irmã, tanto que até nos esquecemos da hora do almoço. Para nossa surpresa, encontramos minha madrasta, Evelyn, e nossa irmã, Freya, saindo de uma perfumaria com algumas sacolas. Fiquei um pouco intrigada e curiosa, já que papai estava em uma péssima situação financeira.
— Boa tarde, lady Evelyn — disse, ao nos aproximarmos delas. — Boa tarde, Freya.
— Olá, mamãe. Olá, Freya — disse Margareth, permanecendo ao meu lado.
— Boa tarde. — Freya não demonstrou satisfação em nos encontrar.
— Boa tarde, senhora Winchester. — Evelyn me olhou de cima para baixo, permanecendo seu olhar um pouco mais no colar de pérolas negras que estava em meu pescoço. — Margareth, não disse que iria ficar na casa do lorde Wood até retornarmos?
— Fiquei entediada — respondeu Margareth. — Mas estou feliz, pois encontrei no caminho.
— E como vai o casamento, minha querida enteada?! — Evelyn manteve seu olhar disfarçado em meu colar. — Está conseguindo sobreviver aos costumes dos burgueses?
— Meu casamento vai muito bem, afinal, os burgueses são tão normais quanto nós da nobreza — respondi a ela, deixando minha voz permanecer suave. — Hum, acho que em uma coisa eles são diferentes.
— Em quê? — Evelyn subiu seu olhar para meu rosto.
— Eles conseguem ser sinceros a todo momento, mesmo sendo julgados por isso — expliquei, de forma direta.
Claro que, tanto ela, quanto Freya, tinham pegado minha indireta, ambas conseguiam ser mais falsas que a cobra que enganou Eva no paraíso. Ainda não entendia como meu pai tinha se casado com aquela mulher após a morte de minha mãe, menos ainda como Margareth, tão gentil e legal, poderia ser filha dela. Desviei meu olhar para Freya por um instante e notei que no canto do seu rosto havia um disfarçado sorriso de deboche, o que me deixava um pouco irritada. Desde criança, Freya sempre era assim comigo, invejava tudo que eu tinha e tentava pegar para ela.
Passei minha mão de leve em meu colar e devolvi o seu deboche com um sorriso gentil.
— Já que nos encontramos aqui, gostariam de tomar um chá em minha casa? — perguntei, de forma natural e espontânea.
— Agradecemos, mas… — iniciou Evelyn.
— Oh, por favor, não aceito recusa — intervi, de forma suave. — Ambas ainda me devem uma visita.
Minha madrasta assentiu com a face.
— Vamos então — disse, me virando para trás. — Ah, acho que já conhecem Sophie, ela é minha acompanhante agora.
— Boa tarde, milady Evelyn. Senhorita Freya — cumprimentou Sophie.
Segurei um pouco meu riso, enquanto caminhavam pelas ruas. Logo avistei minha carruagem, nós quatro entramos e nos sentamos, Margareth ficando ao meu lado, enquanto isso, Sophie iria na frente, junto ao cocheiro. Assim que chegamos, Lee nos recebeu na porta. Pedi para Isla preparar a mesa do chá no jardim, enquanto isso, nos reunimos na sala de visitas. Era visível os olhares admirados de Evelyn para os muitos quadros que estavam nas paredes da mansão, além de algumas esculturas que já havíamos visto em casas de alguns aristocratas de renome. Ficamos sentadas conversando um pouco, ou melhor, Margareth era quem mais falava, contando sobre sua experiência ao explorar a pequena biblioteca da casa de lorde Wood.
Assim que Isla deu-me o sinal de que tudo estava pronto, guiei minhas convidadas até meu lindo jardim, as deixando ainda mais encantadas com minha nova casa. Nos sentamos ao lado da fonte, nosso chá seria acompanhado por deliciosos crumpets com geleias, queijos e compotas.
— Nossa — disse Margareth. — Isso é porcelana francesa?
— Não. — Segurei um pouco o riso e expliquei. — É porcelana chinesa, as cores são mais vibrantes.
— São muito bonitas — elogiou Freya. Por seu tom de voz, parecia estar engolindo sua inveja junto ao chá que tomava.
— Sim, foi um presente de casamento de um nobre chinês, acho que foi do sobrinho do imperador. — Continuei, de forma espontânea.
— Nossa, então são verdadeiros os boatos de que o senhor Winchester tem muitos amigos orientais — comentou Evelyn.
— Segundo minha sogra, sim. — Assenti sem medo. — Isso é bom, principalmente para os negócios.
Degustamos do nosso chá com paradas para breves comentários sobre meu jardim e a decoração da casa, até que Isla se aproximou de mim discretamente.
— Milady, o senhor Winchester retornou — disse, quase em sussurro.
Logo que assenti com a face, desviei meu olhar para minha madrasta, e ela estava olhando para trás de mim. Meu coração pulsou um pouco mais forte, de certo era meu marido que estava em seu campo de visão. Virei minha face para trás, e lá estava , com seu olhar intenso e fixo em mim.
— Senhoras, me deem licença. — Eu me levantei.
Fiz uma breve reverência para elas e me afastei, indo em direção a , que já havia entrado novamente para a mansão. Ao chegar à porta, respirei fundo. Era estranho meu coração estar daquela forma só por eu tê-lo visto, mas era um estranho bom.
— — disse, após adentrar a sala de visitas.
Ele, que estava de costas, se virou e estendeu sua mão para mim. Dei mais alguns passos até ele e segurei em sua mão. deu mais um passo, se aproximando ainda mais de mim, pousando minha mão em seu coração. De leve, acariciou minha face e, aproximando seu rosto do meu, nossos lábios se tocaram em um beijo intenso e aquecedor.
“Você é o meu tudo, eu tenho certeza,
Eu serei mais cuidadoso e te protegerei,
Então o seu coração nunca será machucado,
Eu nunca me senti assim antes,
Como se minha respiração fosse parar.”
— My Answer / EXO
Fallin in Love
Londres — Primavera de 1847
•Seu beijo estava tão doce que comecei a cogitar a ideia de não voltar para a mesa de chá, porém tinha que terminar o que havia começado, principalmente por causa de minha não tão querida madrasta.
— Estarei no escritório — disse ele, em sussurro, ao se afastar de mim. — Tenha um bom chá.
Eu sorri de leve em agradecimento e, após uma breve reverência, voltei para o jardim. Minhas convidadas estavam falando sobre enxovais de casamento. Freya fez questão de contar-me a novidade sobre seu possível noivado e casamento com um nobre, o que tinha me deixado curiosa em saber o nome do pretendente.
— Assim não vale — disse Margareth. — Conta-nos a novidade, porém, pela metade.
— Concordo com a Margareth, também estou curiosa para saber — disse, rindo de leve.
— Bem, esta informação somente será revelada em nosso jantar de noivado — explicou Freya, num tom de satisfação. — E tenho certeza de que ambas irão se surpreender.
— Esperarei ansiosa por meu convite oficial — retruquei, um pouco pensativa sobre quem poderia ser o “sortudo”.
— Vós e o senhor Winchester serão os primeiros da lista — confirmou Evelyn, dando um sorriso de superioridade.
— Agradeço a consideração. — Fiz uma breve reverência com a face e desviei meu olhar para Margareth. — Ah, Marg, disse para elas que ficará aqui em minha casa?!
— Oh, ainda não. — Margareth pegou em sua xícara. — Estava para contar sobre isso assim que retornasse.
— Margareth aqui?! — A face de Evelyn ficou mais séria.
— Sim, eu a convidei hoje mais cedo — confirmei. — Algum problema?
— Nenhum, porém… — Freya desviou seu olhar para o lado.
— Porém?! — insisti.
— Não acha que nossa irmã aqui atrapalha a vossa lua de mel?! — Freya terminou a frase.
— Bem, minha lua de mel foi adiada temporariamente — respondi, não demonstrando estar abatida por sua pergunta. — Meu marido tem estado ocupado com os negócios.
— Ah, burgueses e seus deveres. — Evelyn riu de leve do próprio comentário. — É uma pena, minha querida, que tenha se casado com alguém tão diferente de nós.
— Eu não acho — retruquei com segurança. — Pelo contrário, estou imensamente satisfeita com a minha escolha.
— Vossa escolha? — Freya riu. — Sabemos o real motivo de vosso casamento, a dívida do papai.
— Freya está correta — confirmou Evelyn.
— Não exatamente. Claro que existia, sim, uma dívida, mas nosso pai nunca me obrigou a dizer sim perante o padre, então a escolha foi minha. — Soltei um suspiro de satisfação. — E jamais farei uma escolha tão certa em toda a minha vida quanto a que fiz ao casar-me com o senhor Winchester.
Meu coração acelerou um pouco e senti que minhas palavras eram reais e verdadeiras. Eu não estava arrependida de ter me casado com , melhor ainda, eu ansiava conhecê-lo ainda mais do que já o conhecia. Minhas palavras tiveram um grande efeito sobre o sorriso de deboche, que se apagou na face de ambas.
— Bem, estou imensamente feliz por terem aceitado meu convite — disse, me levantando da cadeira. — Porém, agora irei me recolher. Isla irá acompanhá-las até a porta, e, Margareth, mandarei que busquem vossas coisas na casa do lorde Wood.
Eu fiz uma breve reverência a elas e segui em direção à mansão.
Ao passar por Isla, dei minhas ordens e pedi para que um dos cocheiros levasse minha madrasta e Freya para a casa de lord Wood e aproveitasse para pegar as bagagens de Margareth. Segui, indo diretamente ao escritório onde estava. Dei alguns toques na porta antes de entrar.
— . — Entrei, fechando a porta. — Estás ocupado?
— Não. — Ele fechou o livro que estava em suas mãos e manteve seu olhar em mim. — Desejas algo, minha senhora?
— Desejo saber se está tudo bem. Como foi o vosso dia?! — Continuei dando mais alguns passos até sua mesa.
Ele sorriu de canto disfarçadamente e se levantou de sua poltrona, se mantendo em silêncio e com o olhar fixado em mim. era de poucas palavras, o que me deixava intrigada pelo fato de ser filho de burgueses. Por mais que lhe perguntasse coisas sobre seu dia ou sobre sua infância, ele respondia da forma mais breve e direta possível.
— Está tudo bem. — Assentiu ele.
Silencioso e observador, eram as maiores e mais marcantes características dele, o que me deixava irritada. Sua voz grossa e marcante havia me deixado um tanto fascinada, principalmente quando sussurrava em meu ouvido. Mais dois passos até ele, tentava desviar um pouco meu olhar dele, ainda não conseguia confrontar toda a intensidade do seu olhar em mim.
— Eu… — Precisava dizer sobre meu convite a minha irmã. — Convidei Margareth para passar alguns dias em nossa casa, enquanto está em Londres.
Levantei meu olhar. Eu já havia percebido que ele não gostava muito de visitas inesperadas, a senhora Poppy era uma prova disso — suas aparições para o almoço ou jantar faziam atiçar os olhares de reprovação de .
— A casa é vossa, tens a permissão de convidar quem quiser. — Assentiu ele.
— Não quero deixá-lo desconfortável em vossa própria… — Ele tocou em meus lábios com seu dedo indicador.
— Só há um momento em que me sinto desconfortável. — Ele desceu sua mão até minha cintura, me deixando ainda mais próxima a ele. — Quando não está ao alcance dos meus olhos, ou longe o bastante para que eu não possa tocá-la.
Ele encostou seus lábios em minha testa por alguns instantes, até que enfim meu coração se acelerou um pouco com o gosto doce do seu beijo, suave no início e se intensificando ainda mais a cada segundo. Minhas pernas sempre bambeavam quando sentia suas mãos segurando em minha cintura, assim como meus sentimentos por ele estavam pouco a pouco crescendo e se fortalecendo. Eu já poderia admitir que estava apaixonada pelo meu marido.
— … — sussurrei, me afastando um pouco. — Quem é você?
— Por que a pergunta?! — Ele me olhou confuso. — Sou o vosso marido.
— És bem mais que isso. — Suspirei de leve. — Como pode saber tudo sobre mim, e eu não saber nem a metade sobre vós?!
Ele sorriu de canto, mantendo seu olhar em mim.
— Um dia saberá. — Ele segurou em minha mão e deu um leve beijo.
Assenti com um sorriso.
Não estava muito conformada, porém tinha esperanças de obter todas as respostas dele, mesmo que superficiais e sem nenhum tipo de detalhe. Permanecemos no escritório por um longo tempo, ele, sentado em sua mesa, concentrado nos documentos de seus negócios, e eu, sentada na chaise, lendo o livro de poesias que ele estava lendo quando entrei. Foi um pouco engraçado o ver tentando concentrar sua atenção nos papéis, pois seus olhos sempre vinham em minha direção. Mantive meu riso disfarçado, porém, sempre que o via me olhando, não conseguia deixar de sorrir para ele antes de desviar meu olhar e voltar à minha leitura.
— Senhor Winchester?! — disse Lee, ao bater à porta.
— Entre — respondeu .
— Senhor, milady. — Lee caminhou até ele e disse algo em sussurro.
Se afastando um pouco, fez uma breve reverência com a face para mim e saiu.
— Algum problema? — perguntei.
— Não. — se levantou e caminhou até mim, esticando sua mão. — Venha, o jantar nos aguarda.
Assenti com a face e segurei em sua mão, assim seguimos em direção à sala. Sophie e Margareth estavam sentadas no sofá, nos aguardando. Seus olhares para mim pareciam curiosos e cheios de perguntas sobre o que possivelmente eu estaria fazendo no escritório com o senhor meu marido. Nos sentamos à mesa e fomos servidos pelos valetes. Para minha surpresa, nosso jantar foi um pouco silencioso, acho que Margareth estava com um pouco de vergonha de , entretanto, mesmo que suas palavras não saíssem, seus olhares para mim diziam tudo. Após o jantar, permanecemos mais algum tempo na sala de visitas, e Margareth me fez tocar a canção da noite que meu pai tinha me ensinado quando criança.
Aquela foi a primeira vez que toquei na presença de .
— Ele é bem silencioso, — comentou Margareth, assim que entramos no quarto que Isla e uma das criadas havia preparado para ela.
— Sim. — Assenti, permanecendo na porta. — Acho que já estou me adaptando a isso. Em alguns momentos, sinto que seu olhar pode dizer mais do que mil palavras.
— Hum. — Ela sorriu de leve. — Seus olhos estão brilhando.
— Estão? — perguntei surpresa.
— Está gostando dele, não está? — indagou Margareth, se sentando na cama.
— Sinto que sim. A cada dia consigo gostar ainda mais de estar ao vosso lado. Será que posso considerar estar apaixonada por meu marido?
— Claro que sim. — Margareth riu de leve. — A maneira como o defendeu dos comentários da minha mãe e Freya hoje no chá já é o suficiente para perceber que está se apaixonando por ele.
— Ah. — Dei um suspiro forte. — Vou me recolher agora. Desejo-lhe uma noite confortável.
— Neste quarto maravilhoso?! Minha noite será encantadora — brincou ela, tombando seu corpo sobre a cama.
— Boa noite, Marg — disse, abrindo a porta.
— Boa noite, ! — Ela sorriu de leve.
Eu pisquei de leve para ela antes de fechar a porta do quarto. Assim que entrei em meu quarto, a criada já estava me esperando. Ela me ajudou a me banhar e colocar minha camisola nova de linho egípcio, um presente da senhora Poppy. Segundo ela, uma senhora casada não deveria repetir suas roupas íntimas nos primeiros meses do matrimônio.
— Agradeço, pode ir agora — disse a criada.
— Com sua licença, milady. — Ao se retirar.
Eu me coloquei em frente ao espelho e comecei a pentear meus cabelos com a escova. Por um momento, fiquei um pouco distraída e perdida em meus pensamentos. Estava pensando na notícia do noivado de Freya. Inegável minha curiosidade em saber quem seria o corajoso a se casar com a pessoa mais materialista que eu conhecia. Em meio a muitos pensamentos desnecessários, senti de repente um longo arrepio em meu corpo, proveniente de um beijo que tinha dado em meu pescoço. Toda minha atenção se voltou para ele de imediato, meus olhos direcionados para seu reflexo no espelho.
Respirei fundo, tentando manter meu coração calmo. Virei-me para ele.
— Pensei que demoraria mais — disse, com minha voz meio falha. — Sua conversa com Lee parecia séria e importante.
— Hum. — Ele acariciou minha face suavemente.
— Posso saber sobre o que conversavam? — perguntei, mordendo meu lábio inferior.
— Estava confirmando minhas ordens sobre… — Ele parou por um momento, seu olhar suavizou um pouco.
— Sobre?!
— Aprontarem minha casa em Paris. — Finalizou ele.
— Vais viajar para Paris?!
— Não. — Ele segurou em minha cintura, acho que já tinha descoberto meu ponto fraco. — Nós vamos a Paris, em lua de mel.
— Paris?! — sussurrei, sentindo meu coração acelerar um pouco.
— Perdoe-me por adiar tanto — disse ele, sorrindo de leve.
— Não há o que perdoar, sei que possui muitos compromissos. — Desviei meu olhar para o chão.
— Sim, tenho. — Ele tocou em meu queixo, erguendo minha face e me fazendo olhar para ele. — Contudo, a senhora é o mais importante que todos.
Me senti um pouco sem ar com aquela declaração. Senti sua aproximação e logo fechei meus olhos. Instantes depois, seus lábios já estavam tocando os meus. Era como se toda a intensidade que ele tinha em seu olhar se transferisse para seus beijos maliciosos e, ao mesmo tempo, doces, que faziam meu corpo se aquecer de forma incontrolável. O toque de seus dedos em minhas costas fazia meu corpo se arrepiar, e quando ele alisava todas as linhas das minhas cicatrizes, eu perdia até mesmo os sentidos. Todos os músculos do meu corpo se moviam em sincronia com os dele, principalmente minha respiração, que, a cada beijo, parecia ainda mais ofegante.
— Perguntou-me quem eu era — disse ele, assim que nossos corpos tocaram os lençóis de seda da cama.
— Sim. — Assenti, o olhando nos olhos.
Ele aproximou seus lábios do meu ouvido e sussurrou.
— Permita-me mostrá-la quem sou eu.
Senti meu corpo se arrepiar por inteiro. Eu queria, sim, saber quem realmente era e porque eu tinha me apaixonado tão rápido por ele. Por que meu coração acelerava simplesmente ao ouvir sua voz, por que minhas pernas ficavam bambas com o toque de suas mãos, por que de forma tão intensa meu corpo reagia ao amor dele sem nenhuma resistência.
"Estou apaixonada por você, eu devo ter perdido a cabeça,
No momento em que as pontas dos seus dedos tocaram meu corpo,
[...]
Meu coração,
Está batendo tão rápido."
— Falling In Love / 2NE1
Destination
Nottinghamshire — Inverno de 1837
•Havia passado alguns anos e recentemente nossa casa havia recebido mais um hóspede. Aidan era sobrinho dos meus pais e devido a uma fatalidade acontecida com seus pais, que vieram a falecer em um desastre, sua única opção além de um orfanato foi morar em nossa casa. Ele era um pouco mais novo que eu, porém nem sua pouca idade impediu meu pai de lhe ensinar o ofício da família. Claro que eu seria responsável por Aidan.
— Estou com fome — disse aquela pequena criança pela quinta vez, ao se sentar no chão.
— Não podemos comer agora. — Abaixei a faca que estava em minha mão e o olhei, precisava manter a paciência com ele. — Ainda estamos trabalhando, meu pai deixou tudo isso para fazermos.
— Mas estou com fome. — Suspirou fraco, me olhando como um cachorro abandonado.
— Hum, tudo bem, pode ir comer, eu termino de fazer isso. — Assenti, voltando meu olhar para os cortes do porco que estavam em minha frente.
— Obrigado, . — Ele se levantou mais que depressa e saiu correndo em direção à casa.
Respirei fundo e voltei ao trabalho.
A parte boa de finalmente aprender todos os segredos daquele ofício foi aprender também o básico sobre negócios, o que me levou a perceber que meu pai era um tanto ruim neste quesito. Além de não anotar todas as dívidas dos seus clientes, ele também não sabia negociar e nem cobrar o que lhe deviam, e o resultado era a nossa vida precária e miserável. Eu sentia lá no fundo que deveria fazer algo a respeito, mas não sabia o que, ninguém daria ouvidos a uma criança. Mesmo assim, já estava determinado a mudar meu destino. Uma vida de pobreza não estava nos meus planos para o futuro, principalmente por causa do meu propósito inicial, que era me aproximar da lady Lewis. Continuei meu trabalho em silêncio, fazendo minha mente funcionar constantemente, arquitetando soluções.
A primeira delas veio juntamente a um brilho no olhar.
Mesmo que inicialmente meu pai não quisesse seguir, eu estava decidido a insistir, então, assim que terminei de colocar todos os cortes dos porcos em seus lugares para conservar, corri para casa para compartilhar a ideia com minha mãe.
— Oh, anjo, pensei que não viria comer também. — Minha mãe me olhou com aquele doce sorriso em seu rosto, que sempre me fazia sentir acolhido.
— Estava terminando meus afazeres, mas confesso que estou mesmo com fome. — Desviei meu olhar para o chão, colocando a mão na barriga, a sentindo fazer alguns barulhos estranhos.
— Ah, estou percebendo. Você se dedica muito a este ofício, estou orgulhosa que esteja ajudando seu pai. — Ela manteve aquele sorriso no rosto. — Agora lave as mãos e venha comer.
Assenti e corri até o balde com água que estava em cima de uma cadeira ao lado da porta, lavei minhas mãos rapidamente e voltei para a mesa.
— Estaríamos muito melhor se o papai conseguisse receber dos seus clientes — comentei.
— O que está falando de mim?! — Logo sua voz soou, vindo da porta. Assim como eu, sua roupa estava suja de sangue.
— Nosso filho só está falando a verdade. — Consentiu minha mãe. — Os clientes do açougue são nobres, deveriam pagar pelo que compram.
— Não devemos reclamar… — Ele suspirou com um ar de cansado. Sua face parecia mesmo cansada, ele estava trabalhando nas entregas desde a primeira hora do dia. — Temos clientes e isso já é uma benção.
— Clientes que não pagam, e, quando fazem, são somente restos de seus castelos. — Mantive meu olhar para o prato, me sentindo frustrado.
— E o que sabe sobre isso? Ainda é uma criança. — Ele levantou seu tom de voz. — Acha que consegue fazer melhor que eu?
— Não, senhor — sussurrei.
— Deixemos de discutir, a hora do almoço é sagrada, então vamos nos sentar e agradecer a Deus pelo que temos. — Minha mãe se sentou na cadeira ao meu lado. — Tenho certeza de que mesmo sendo uma criança, quer fazer o melhor pela nossa família, isso me deixa ainda mais feliz.
Dei um sorriso fraco. Por dentro, me sentia incapaz de tudo por ser uma criança. Queria ser um adulto e poder resolver tudo no lugar deles. Para mim, aquele almoço foi amargo, ainda mais por todos os defeitos que meu pai ainda apontava em tudo que eu fazia. Talvez ele estivesse chateado por minha reclamação, mas eu estava certo, não seríamos pobres se ele fosse um bom comerciante. Passei o resto do dia pensando sobre como eu poderia ajudar minha família e minha única solução foi a mais perigosa.
Eu fugiria de casa.
Sem o menor remorso, eu teria que aprender longe de casa. Precisava crescer não somente fisicamente, mas também mentalmente, e não conseguiria fazer isso perto da minha família. Meu pai era um bom homem, mas tinha medo da nobreza. Eu não conseguiria aprender o que era ser respeitado ou temido com ele, precisava aprender com alguém que não tinha receio nenhum de enfrentar aqueles nobres. Eu precisava me tornar um homem forte e respeitado. No meio da madrugada, me levantei da cama, já havia deixado uma trouxa de tecido com alguns suprimentos escondida debaixo da minha cama e respirei fundo ao pegá-la, tentando não fazer muito barulho. Não queria acordar ninguém, pois daria uma enorme confusão.
— ?! — disse Aidan, se remexendo na cama. — Aonde está indo?!
— Na cozinha, pegar um pouco de água — sussurrei, ao olhar para ele. — Volte a dormir.
O cobri mais um pouco e me afastei de sua cama. Olhei novamente para minha cama, fixando meu olhar no pequeno bilhete. Meu coração estava apertado, pois a segunda pessoa que mais amava choraria com meus atos. Minha mãe ficaria triste sem seu anjo, mas faria isso por ela também. De alguma forma, beneficiaria a minha família. Respirei fundo pela última vez, deixando aquele quarto, aquela casa, aquela família. Eu voltaria, porém não como uma criança, mas como um homem de respeito.
Segui pela estrada secundária do condado, até que avistei algumas tropas da nobreza e me escondi no meio dos grandes arbustos. Já havia ouvido sobre a visita de um grão-duque ao condado de Nottinghamshire, primo de terceiro grau do príncipe, que vagamente se lembravam que estava na linha de sucessão, mas com um título de nobreza tão alto, já era o bastante para ser bajulado por toda a população.
— Odeio os aristocratas — sussurrei, vigiando a passagem das tropas.
Todos com sua impecável postura de cavaleiros da realeza, com o brasão britânico serigrafado em suas armaduras e o estandarte logo à frente, guiando os demais. Tive que continuar meu caminho pelos arbustos, pois a comitiva parecia grande. Aproveitei aquele momento para comer uma das frutas que estavam na trouxa, além de descansar também. Demorou vários dias, até que consegui chegar a Nottingham, considerado o centro administrativo do condado. Para mim, aquela cidade poderia representar uma oportunidade. Comecei aproveitando a estadia do tal nobre, para oferecer meus serviços a um mercador que precisava de mais funcionários. Apesar de ser uma criança, mostrei a ele o quanto poderia ser útil no esforço físico. Aproveitando, observaria como seu comércio funcionava e como ele comercializava seus produtos diante da nobreza. Aquele homem era um mercador de peles de animais, era conhecido como Jones das peles, e parecia ser muito famoso entre os outros comerciantes, principalmente alfaiates e costureiras.
Segundo o senhor Jones, suas peles eram as mais raras que as pessoas encontrariam, o que fazia seus produtos ficarem mais caros, já que todos procuravam. Esta foi a primeira coisa que aprendi longe de casa, um comerciante deve sempre valorizar seus produtos e fazê-los serem mais raros e preciosos aos olhos dos clientes. Isso me lembrava das criações de javali que meu pai tinha, eram raras e ele não as valorizava, já que estavam extintas em nosso país.
— Ei, garoto, vais ficar parado aí? — gritou o senhor Jones. — Se apresse e coloque as peles no baú.
— Sim, senhor. — Corri até a carroça onde estavam as peles, peguei as duas que o homem tinha comprado e levei até onde estava o baú, em sua carruagem.
Passei toda aquela temporada aprendendo sobre peles com o senhor Jones e principalmente como conservá-las. Aprendi também algumas coisas sobre como negociar com os clientes, aquilo havia me deixado maravilhado. Continuei trabalhando com ele durante alguns anos, indo de condado em condado, até que chegamos à grande capital, Londres. Meus olhos brilharam com todas aquelas construções monumentais e luxuosas. Fiquei ainda mais tentado a passar algum tempo naquele lugar para aprender um pouco mais como aquela desigual sociedade funcionava. Foi neste momento que comecei a trabalhar na mais famosa padaria da cidade.
— Tem certeza de que conseguirá fazer todas estas tarefas ao dia? — perguntou novamente a senhora Hill.
— Sim, senhora. Eu consigo fazer muitas tarefas ao mesmo tempo, tenho muito conhecimento em conservar mercadorias. — Assenti, me encolhendo um pouco.
A senhora Hill era uma mulher robusta e suas expressões faciais eram de causar medo. Mulheres independentes como ela eram consideradas pela sociedade má influência às damas da nobreza, porém, mesmo assim, todos faziam diversas encomendas à sua padaria. O segredo do seu sucesso eram os famosos pães de mel, que faziam toda a cidade reverenciar e aplaudir aquela padaria. E tinha que admitir que eram realmente gostosos, principalmente por serem feitos com puro mel de abelha das colmeias que ela cultivava no jardim, nos fundos da padaria.
— Você já trabalhou em açougue e com mercador de peles. Sabe que o tipo de alimento que eu produzo não é algo para se conservar. — Ela se levantou de sua cadeira, com aquele olhar sério que fazia minha espinha tremer. — Todos os pães, bolos, croissants, biscoitos que existem nessa padaria são feitos e vendidos diariamente, não guardamos nada.
— Então, o que a senhora faz com o que sobra? — perguntei confuso.
— Vendemos para um senhor, para alimentar seus porcos — respondeu, com um leve ar de superioridade, como se estivesse fazendo um bom negócio.
— Mesmo assim, senhora, tenho certeza de que conseguirei fazer todas estas tarefas — afirmei, com confiança.
— Muito bem, lhe darei uma chance. Se falhar no primeiro dia, te enxotarei daqui. — Assegurou ela, com aquele tom intimidador.
Assenti, pensando se aquilo era um bom negócio, pois havia visto alguns pães dormidos semelhantes aos da sua padaria sendo vendidos mais barato, o que me levou a acreditar que não eram porcos que comiam. Felizmente, consegui sobreviver ao primeiro mês, tinha certeza de que minha motivação estava nas duas pessoas que mais amava na vida, minha mãe e lady . A cada amanhecer, eu mantinha meus pensamentos nela para aguentar mais um dia.
— , já limpou toda a área pública da padaria? — perguntou Oliver, ao se aproximar de mim. Ele era o filho único da senhora Hill, que apesar desse grau de parentesco, era tratado da mesma forma que os demais funcionários pela mãe.
— Sim, é o primeiro lugar que eu limpo. Sei que a padaria abre para o público na primeira hora da manhã. — Confirmei minha tarefa inicial do dia, que me fazia acordar de madrugada. — Precisa de mais algo?
— Sim, que limpe o escritório. A senhora Hill receberá um cliente especial — pediu ele, dando demonstrações de estar cansado.
— Está tudo bem, senhor?! — perguntei preocupado.
— Não muito. Estamos com problemas de sobra, como se as pessoas estivessem parando de comprar em nossa padaria — explicou ele.
— Acho que sei a causa. — Eu estava guardando aquilo para mim, pois a senhora Hill jamais daria ouvidos a um subalterno como eu, mas seu filho talvez… — Eu acabei presenciando uma cena bastante curiosa, já vem acontecendo desde que comecei a trabalhar aqui.
— O que seria?! — Ele parecia curioso por minha informação.
Contei a ele sobre as vendas de produtos semelhantes aos da padaria. Oliver, por incrível que pareça, acreditou em mim de imediato e pediu para que eu comprasse um desses produtos para servir de prova. Eu o ajudaria a convencer sua mãe a acreditar e experimentar uma ideia que ele havia tido tempos atrás e, em troca, ele me daria uma recompensa além do salário que eu ganhava ao trabalhar lá. Assim que apresentamos a prova à senhora Hill e Oliver propôs novamente a solução de reutilizar as sobras como outros produtos, ela ficou um tempo em silêncio olhando para aqueles pães dormidos.
— Você acha que minha padaria deveria fazer isso? Somos seletos em nossos pães e derivados, como poderíamos vender algo passado? — Ela parecia confusa e furiosa ao mesmo tempo.
— Senhora, tenho certeza de que dará certo. Pelo menos da forma que desejo fazer — argumentou seu filho. — Dê-me esta chance que eu lhe mostrarei resultados positivos.
— O que este funcionário está fazendo aqui?
— Ele está me ajudando, senhora. Foi ele quem me contou sobre as vendas falsas — explicou Oliver.
— Darei somente uma oportunidade. Se falharem, já conhecem o caminho da porta — anunciou ela.
Um frio gelado passou por meu corpo.
A senhora Hill teria mesmo coragem de expulsar o próprio filho?!
Foi trabalhoso para Oliver conseguir colocar em prática suas ideias, porém, após cinco noites em claro de testes e mais testes, conseguimos chegar ao resultado esperado. Ele havia finalmente provado para sua mãe que seria o melhor padeiro de Londres, e eu, finalmente tinha aprendido todo o ofício deles, além de como funcionava a cozinha de uma padaria, o que resultou na segunda coisa que aprendi longe de casa, jamais se contentar com o que está fazendo e sempre se superar. Oliver superou todas as expectativas com os pães dormidos, os transformando em coisas melhores e mais saborosas. Finalmente a padaria voltaria à sua fama e riqueza inicial.
Os meses foram passando, quando finalmente o glamour de Londres começou a me deixar tedioso. Além da padaria, trabalhei em quase todos os comércios da cidade, sempre adquirindo mais conhecimento e experiência. Porém um mercador de peixes do porto cruzou o meu caminho, me deixando ainda mais curioso para saber como funcionava o comércio marítimo, algo que estava gerando muito lucro atualmente. Logo me ofereci para trabalhar em seu ofício, e, graças à toda minha experiência com os burgueses da cidade, ele me contratou sem o menor problema, e naquele trabalho eu ganharia bem mais. O que me fazia lembrar que tinha que ser mais cuidadoso com minha pequena fortuna. Como não tinha despesas e sempre comia as sobras, guardava cada moeda de prata que recebia de pagamento.
Foi no porto de Liverpool, no condado de Merseyside, que a coisa mais imprevisível aconteceu comigo, eu a vi ao longe, lady também estava naquela cidade. Por um breve momento, mas tinha certeza de que era ela. Estava linda como da primeira vez que a vi. Segui sua carruagem ao longe, até chegarem à casa do governador. Fui me aproximando aos poucos, até que percebi uma movimentação suspeita aos arredores da casa.
Pela primeira vez, me deparei com piratas, os mesmos das histórias que minha mãe me contava.
— Lady — sussurrei, já me preocupando com ela.
“Os golpes da bandeira ao vento, minha visão se torna mais escura
Eu serei capaz de ver o meu destino
O vento agitava a bandeira, os meus passos estão perdidos ao longo da frente
Eu seria capaz de chegar ao meu destino”
— Destination / SHINee
Black Pearl
Liverpool — Outono de 1842
•Mesmo de longe, eu conseguia ver algumas armas que estavam mal escondidas nas mãos de um deles. Me mantive escondido atrás de uma das carruagens que estavam estacionadas, respirei fundo, desejando que ele não adentrasse aquela enorme casa. Em minha mente, a imagem de lady se firmava de forma intensa, mesmo não sabendo ao certo se era realmente ela.
— Preciso fazer algo — sussurrei de leve, mantendo meu olhar em um dos piratas que parecia comandá-los.
Respirei fundo e, passando por alguns barris que estavam próximo a entrada dos criados, cheguei à cozinha. Pela posição dos piratas, tudo indicava que entrariam pela porta da frente, então só teria um lugar para que eu pudesse entrar. Como todos naquele lugar estavam aparentemente concentrados em seus afazeres, aproveitei para passar silenciosamente pelas beiradas do longo caminho que levava ao grande salão.
Ao chegar próximo de uma grande escultura de mármore, me escondi atrás e fiquei observando. Haviam muitas pessoas naquele lugar que deveriam ser importantes. Minha visão passou por cada um daqueles homens que falavam tão cordialmente e baixo, ao contrário dos comerciantes que eu estava acostumado a conviver. Depois voltei minha atenção para o lado onde se concentravam as mulheres, todas com seus vestidos monumentais e cheias de joias, eram belas e delicadas. Porém, uma bela dama que estava mais próxima à escultura, era essa que meus olhos procuravam. Seu olhar voltado para o vaso ao lado a fez se aproximar ainda mais do lugar onde eu estava. Foi neste momento que um estouro surgiu bem próximo à porta da frente, e logo os piratas adentraram o lugar, não me contive em meu desespero de pensar que algo aconteceria a ela. Peguei na mão de lady em um momento de distração que seus olhos se voltaram para os piratas que adentravam, então a impulsionei para minha direção, a envolvendo em meus braços, abaixando um pouco seu corpo.
— O que está… — Ela se remexeu, mas logo outro barulho do que seria de uma colt, o que a fez se encolher um pouco mais para perto de mim.
Meu coração acelerou um pouco com aquilo e ajeitei o capuz que estava em minha cabeça, escondendo um pouco mais meu rosto. Eu teria que tirá-la de lá o mais rápido possível. Como tinha muitas pessoas além dos diversos empregados, era uma oportunidade, segurei em sua mão de maneira firme, mas que não a machucasse e, tomando impulso, direcionei nossos corpos para um corredor lateral que estava mais escuro. Não sabia para onde nos levaria, mas era nossa oportunidade para sair dali ou nos esconder. Então chegamos a uma porta, que, sem maiores preocupações, abri. Saímos no que parecia um jardim lateral, diferente de todo jardim que eu já havia visto antes, o que foram poucos. Eu mantive minha mão segurando a dela e a guiei para longe da porta, até chegarmos a um alto arbusto.
— Espere, por favor — disse ela, de forma insegura. — Quem é você?
Me mantive em silêncio, virando minha face para o lado para que não visse meu rosto.
— Diga-me, por favor. Preciso agradecer adequadamente a pessoa que tanto me protege — insistiu ela com mais afinco.
Logo ouvi vozes perto da porta e então a afastei de mim para que ficasse atrás dos arbustos. Foi então que outro tiro soou atrás de mim.
— Ei, você — gritou um homem com voz rouca. — Pelas vestes, não é um nobre. Deve ser a plebe.
— Olha, ele parece não ter língua. — Um pouco robusto logo atrás deu dois passos em minha direção. — O que esconde aí?
Balancei minha face negativamente, recuando um pouco.
O homem robusto se aproximou de mim e, antes que segurasse minha capa com força, fiz um sinal com a mão direita para trás, para que lady não fizesse nenhum movimento que a denunciasse. O homem me arrastou por alguns instantes. Mesmo debatendo meu corpo e tentando me soltar, era um tanto inútil por seu tamanho.
— Coloque ele para dormir — disse o homem da voz rouca. — Temos que ir.
— Vou levá-lo comigo — disse o robusto. — O capitão vai gostar de um mascote.
Aquelas palavras fizeram a espinha do meu corpo estremecer. Antes que eu pudesse fazer mais algum movimento, senti um forte impacto em minha nuca, me fazendo perder os sentidos.
— x —
Acordei sentindo um leve enjoo que me fez vomitar assim que abri os olhos. Uma estranha sensação de instabilidade tomou conta de mim. Ao olhar em minha volta, estava em um lugar úmido e cheirando a mofo. Ergui meu corpo do chão, me colocando de pé e lancei meu olhar para frente. A poucos passos, havia uma grade diante de mim, me fazendo presumir que estava em algum tipo de cela.
— Olha só, o mascote acordou. — O homem robusto estava do outro lado. Fixei um pouco meu olhar naqueles dentes sujos e podres que me davam mais ânsia de vômito. — Vou te tirar daí. Vamos ver se diante do capitão continua mudo.
Ele deu uma gargalhada estranha e, destrancando a fechadura, abriu a cela e logo veio para cima de mim, me pegando desta vez pela camisa, já que haviam retirado a capa de mim, e me arrastou em direção à proa no navio.
— Vejam só nosso mascote. — Aquele homem da voz rouca estava bem próximo à escada que subimos. — Torça para o capitão ir com a sua cara.
Mantive minha face mais abaixada, ainda sendo puxado por aquele homem robusto e fedorento.
— Aqui está ele, capitão — disse o homem, me jogando no piso da proa.
— Ora ora… — A voz do capitão era áspera e firme, soava com um certo sarcasmo. — Vocês me trouxeram uma criança de mascote.
Criança? Eu já estava me aproximando de meus 18 anos, e ele me olhava como uma criança. Levantei meu corpo daquele chão grudento e respirei fundo. Com minha face abaixada, meu olhar continuava direcionado para as velhas botas daquele homem.
— Olhe para mim mascote. — Ele aumentou um pouco o tom de sua voz.
Meus olhos foram seguindo cuidadosa e atentamente, das botas até chegar aos seus olhos cheios de mistérios. Engoli seco, já imaginando que aquele poderia ser meu último momento em vida. Um aperto logo veio em meu peito, imaginando que não teria nem mesmo sequer uma gota de oportunidade de me aproximar adequadamente de lady . Soltei um suspiro de satisfação, pelo menos ela estava segura e longe de tudo aquilo que me acontecia.
— Você tem nome? — perguntou ele.
Mantive-me em silêncio novamente.
— Ele é mudo capitão — comentou o robusto. — Não soltou nenhum som desde o momento em que o vimos.
— Hum… — Ele me olhou de cima para baixo e sorriu de canto. — Acho que você tem sorte, criança. Bem-vindo ao Bella Donna.
Disse ele, enfatizando o nome do navio.
Com aquilo, pude respirar mais aliviado, ou melhor, era o que eu pensava, até me jogarem na cozinha. Não parecia ao certo uma cozinha e ficava próximo às celas bem abaixo do convés. Outra sorte minha foi ter aprendido a cozinhar com o Oliver, eu não seria um inútil naquele navio e poderia garantir alguns dias a mais de vida, apesar de começar a acreditar que morreria de tanto trabalhar naquele lugar. Algo que fazia voltar a memória meus dias na workhouse do senhor Cooper. Nem mesmo na casa de meus pais eu trabalhava tanto naquele açougue.
Os meses no mar foram passando. Aos poucos, consegui me acostumar com o balançar do navio, até mesmo havia feito algum tipo de amizade louca com os dois piratas que arrastaram-me para aquilo tudo. O de voz rouca era chamado de Sid. Já o robusto, se chamava Gibbs. Quanto a mim, fiquei sendo chamado por todos de Mascote, algo que me cansava.
— Mascote, mandei que lhe trouxessem, pois estou com um novo objetivo em vista — disse o capitão, ao pegar uma maçã verde que estava junto à bandeja de prata com as outras frutas.
Mantive meu olhar observando suas expressões corporais. No pouco tempo que estava ali, já havia percebido que o capitão era diferente dos outros. Mesmo com aquelas vestes sujas e fedorentas de um homem que estava ao mar há anos, ele tinha um porte que lembrava os nojentos nobres da Inglaterra. O que me fazia pensar sobre o passado do capitão, será que ele era da nobreza, ou conviveu com eles?
— Sou um homem que dispõe de muito tempo. Venho o analisando durante este tempo e percebi que, mesmo sendo mudo, és muito observador, ou que nos ajudaria muito. E como provaste ser de confiança, irei te ensinar algumas coisas sobre a vida, principalmente sobre as riquezas do mundo. — Seu olhar ficou mais intenso, como se estivesse imaginando algo para mim.
Senti-me receoso por isso, entretanto, uma breve palavra que me dissera havia atiçado minha vontade de aceitar seus ensinamentos: riqueza. Era aquilo que eu buscava acumular há muito tempo e não conseguia. Mantendo meu olhar no capitão, respirei fundo e assenti com segurança no olhar.
— Muito bem, começaremos agora mesmo, há muito para aprender em pouco tempo. — Ele sorriu de canto.
O capitão parecia mesmo muito animado. Todos os dias ele me acordava antes do pôr-do-sol, e meu treino se iniciava da forma mais cruel e brutal possível, desde manejar uma espada, ou atirar com armas mais modernas, como uma colt, a combates físicos contra os outros piratas em pleno sol do meio dia. Comecei a constatar que aqueles treinamentos eram mais cansativos que trabalhar o dia todo limpando o barco e cozinhando para toda a tripulação.
Eu sentia os ossos do meu corpo quererem se partir ao meio, minha carne ardia de dor e todos os dias eu dormia na ponta da proa sob o céu estrelado, sempre amarrado como um castigo por não ganhar nenhuma luta. Eu queria desistir, eu ansiava por algo que me tirasse daquela situação, mas quando me lembrava que o segundo nível do treinamento era conhecimento, sentia meu corpo se fortalecer instantaneamente.
— Congratulations, mascote. Sobreviveu a tudo até agora. — A ironia soava um pouco em seu olhar, batendo algumas palmas para mim.
Assenti, mantendo meu olhar voltado para ele.
— Vamos para a sua recompensa, vamos ao conhecimento. — Ele sorriu com satisfação.
Sim, conhecimento. Era naquele estágio que eu queria chegar, era conhecimento que os nobres tinham e eu queria ter.
— Eu lhe ensinei a ser forte e brutal, agora te ensinarei a ser cordial e cavalheiro. — Ele deu alguns passos até o fundo da cabine e alisou algo grande que era coberto por uma capa. — Este é meu segredo. Sei que não contará nem mesmo para os marujos. Eu não nasci no mar… Eu era… Em uma breve parte de minha vida, fui um nobre.
“Eu já imaginava, capitão.” Pensei comigo.
— Por que mudei o curso de minha vida? Por amor. O amor nos faz mudar de rota e causar grande destruição se assim desejar… — Ele suspirou fraco e, pegando na capa, a puxou, mostrando o grande piano que havia debaixo. — Mas minha vida não vem à situação atual. Vamos à sua primeira aula: um verdadeiro cavalheiro deve saber tocar este instrumento e lhe ensinarei.
Assenti novamente, deixando meu olhar voltado para o piano, aquilo era muito mais do que eu poderia imaginar aprender, mas estava ansioso para começar. Não somente o piano, mas tinha aulas sobre literatura, economia, ciências, filosofia e outras coisas a mais que o capitão havia estudado em seu passado. De tudo aquilo, o que mais me atraía era sobre economia, entender como funcionava realmente o mundo capitalista.
— Não sei por quanto tempo mais ficará conosco, entretanto, me sinto com o dever cumprido — disse o capitão, ao se aproximar de mim na ponta da proa do navio. — Não mais um menino, agora um homem completo.
Mantive meu olhar no mar, vendo o brilho da lua tocá-lo, permanecendo debruçado no beiral. Ele permaneceu a dois passos de mim.
— Confesso que sempre pensei em ter um filho, para ensiná-lo tudo o que ensinei-lhe, mas acho que posso considerar este jovem à minha frente uma pequena fração do que seria ter um filho. — Ele riu. — Acredito que teria sofrido bem mais.
Ele soltou uma gargalhada estranha.
— Enfim. — Seu suspiro pareceu cansado. — Chegamos à parte que realmente deve estar interessado: a riqueza.
Eu ergui meu corpo e voltei meu olhar para ele.
— Agora, sim, após todo o conhecimento e força, apenas te falta uma coisa. — Ele olhou para o céu. — Vou te ensinar a forma mais segura e rápida de conseguir.
Riquezas, finalmente havia chegado a esta fase de todo o treino. Finalmente, depois de quase dois anos, havia conquistado não só a confiança, mas também o respeito e lealdade do capitão, me deixando assim com boa esperança para o que aconteceria em minha vida daquele momento em diante. Como eu não participava de nenhuma das pilhagens, por ordem do capitão, porém ajudava muito em todos os planos, ele tinha um singelo presente para mim. Singelo e perigoso ao mesmo tempo.
— x —
— Aqui está — disse o capitão, ao me entregar um velho pedaço de pergaminho. — Seu presente.
Eu o olhei confuso ao pegar o pergaminho.
— Por todo este tempo, você conseguiu chegar a um nível que nenhum desses marujos conseguirão. Se considere abençoado por isso, Mascote. — Ele sorriu de leve. — Este pedaço de pergaminho é meu maior tesouro, porém não precisarei dele.
Assenti, mantendo meu olhar no capitão.
— Em dois dias, vamos atracar no mar do Leste, em um porto desconhecido do Japão. Estará bem próximo a rota que te levará a Kyoto, lá você seguirá seu destino.
Respirei fundo, mantendo meu olhar no pergaminho.
“Eu não preciso de um mapa, meu coração me leva a você,
Mesmo que o caminho seja perigoso, eu não posso parar agora,
Eu nunca me esqueci de você por apenas uma hora,
Se eu só posso vê-la no final do horizonte distante.”
— Black Pearl / EXO
Colorful
Paris — Primavera de 1847
•Assim como o prometido, estávamos desembarcando no porto de Le Havre, na França, para nossa planejada lua de mel.
Pelo que havia notado, aquele era o único porto do país que recebia os navios mercantes de . Ele tinha uma singularidade para os negócios que o fazia ser um tanto quanto seleto em suas negociações, além de escolher a dedo para quem venderia seus carregamentos. E toda essa exclusividade fazia seus negócios serem ainda mais prósperos, o tornando ainda mais rico do que já era.
— Uahhhh… Não me lembro nem mesmo de como foi a última vez que estive em Paris — comentou Margareth, deslumbrada, ao finalmente chegarmos à carruagem. Seus olhos pareciam sem rumo certo, olhando para todos os pontos importantes daquele lugar.
— Eu também não. Vagamente posso afirmar que nossa última estada aqui faz uns dez anos — observei, procurando discretamente com meu olhar.
— Freya deve estar morrendo de inveja de mim agora. — Marg deu uma risada baixa, desviando seu olhar para a carruagem que nos aguardava. — Vamos esperar pelo senhor Winchester?
— Não sei — sussurrei, mantendo minha atenção na direção em que ele se encontrava. — Quanto a Freya, ela irá se casar com alguém rico, certamente. Aposto que pedirá por uma lua de mel em Paris também.
— Freya sempre teve inveja de você. — Ela bufou de leve. — Não entendo o porquê. Você sempre foi legal conosco. Além do mais, te considero mais minha irmã do que ela.
— Que sua mãe jamais a ouça dizendo tal coisa, te colocaria no convento ao sul da Itália. — Ri baixo.
— Verdade. — Ela riu junto. — Andas muito silenciosa, Sophie.
— Oh, senhorita Margareth. É minha primeira vez na França, ando um pouco impressionada com tudo o que meus olhos alcançam. — Ela deu um sorriso tímido. — Fico honrada por ter me convidado a vir juntamente.
— Por mais que esta seja minha lua de mel, aposto que não passarei as quatro fases do dia com o senhor meu marido. — Nisso eu não tinha dúvidas.
— Isso é verdade, os burgueses sempre estão tão ocupados trabalhando — comentou Marg.
— Ainda nessas circunstâncias, agradeço a oportunidade. — Sophie tinha uma leve humildade que me deixava confortável e, ao mesmo tempo, me fazia querer ajudá-la ainda mais.
Era um tanto quanto estranha minha necessidade de sempre ajudar pessoas menos abastadas. Talvez seria uma forma de gratidão à minha mãe, que morreu ao dar à luz a mim, somente preocupada se eu ficaria bem e saudável. Uma maneira de retribuir a ela por tal amor e cuidado. Mesmo tendo uma saúde frágil, optou por ter um filho com meu pai. Eu jamais conseguiria chegar ao seu nível de afeto ao próximo, algo que meu pai sempre me contou sobre ela. Lady Mary Lewis, uma mulher caridosa e admirada por toda sociedade londrina. Espero um dia conseguir fazer o mesmo.
Desviei meu olhar por um momento para o cocheiro, que organizava com tanto cuidado nossas bagagens no bagageiro da carruagem. Este pequeno tempo de distração foi o suficiente para que se aproximasse de mim sem que percebesse. Ele se colocou ao meu lado, e logo senti o aroma de seu perfume, assim como os movimentos discretos nas mãos de minha irmã.
— Iremos agora? — o perguntei, num tom ainda mais baixo.
— Terei que deixá-la ir na frente, mas em três dias estarei em Paris. — Sua voz tinha traços de frustração, porém a entonação de firmeza continuava a mesma, além do seu olhar fixo em meus olhos.
— Eu ficarei bem. — Assenti sem demora. — Estarei bem acompanhada.
— Acredito que sim. — Ele sorriu de canto e foi se aproximando aos poucos de mim, até encostar seus lábios em minha testa, demorando um pouco para se afastar. — Tenho que ir agora. Divirtam-se.
se afastou de nós sem mais demora, indo até um senhor, que o esperava junto a um outro homem que parecia comerciante. Voltei meu olhar para Marg, que escondia um sorriso no canto do rosto.
— Você ainda fica tímida perto dele, me pergunto o motivo. — Ela riu. — Será o olhar intenso, ou a voz estremecedora?
— Marg?! Olha os modos. Deixe-me em paz com esta parte de meus sentimentos. — Dei de ombros e olhei para o cocheiro, que já nos aguardava com a porta da carruagem aberta. — Vamos agora, serão algumas horas de viagem.
— Claro, irmã preferida. — Ela riu ao me seguir até a carruagem.
Foram mesmo longas horas até que chegamos à bela cidade de Paris.
Após um dia na estrada e duas paradas somente para as tocas de cavalo, a carruagem finalmente estacionou em frente à Cher House, a mansão que, segundo a senhora Poppy, havia construído há pouco mais de dois anos, no melhor bairro de Paris, bem próximo ao Jardin du Luxembourg. Lembro-me dela frisando várias vezes o quanto o imóvel velho que ficava no lugar havia custado ao filho, que, sem menores problemas, pagou a quantia exigida. Esse tipo de comentário feito pela senhora Poppy, principalmente nos momentos em que estava na presença da minha família, me fazia acreditar que não era somente capricho em ostentar a fortuna do filho, mas mostrar que sua família também tinha seu valor apesar de pertencer à burguesia.
Suspirei fraco ao avistar os empregados todos enfileirados à minha espera. Apesar de sempre dizer que eu era a dona de tudo que ele possuía, ainda tinha alguns receios sobre até que parte de tudo eu poderia tocar.
— Está tudo bem, senhora? — perguntou Sophie.
— Sim. — Assenti, mantendo meu olhar na mansão.
— Uau, seu marido realmente tem dinheiro, não são apenas boatos — comentou Marg boquiaberta. — Esse lugar é lindo, ainda mais lindo que a Wincher Hall.
— Arquitetura francesa — sussurrei.
Sim, a mansão tinha traços mais limpos de clássicos do que a de Londres. O jardim era na frente da casa, compondo toda a entrada, que tinha um caminho de pedras ornamentais que levava à entrada da mansão. Logo o mordomo abriu o portão e se curvou de leve, desviou seu olhar para os lacaios que estavam atrás, fazendo um gesto para que pegassem nossas bagagens.
— Bem-vinda à Cher House, milady Winchester — disse o mordomo de traços e roupas indianas, voltando seu olhar para mim.
— Agradeço. — Me curvei de leve e respirei fundo.
— Eu sou Patel, o mordomo, e esta é Aimee, a governanta. Tudo que milady precisar, basta ordenar. — Ele se curvou novamente e estendeu a mão para que eu entrasse.
Assenti, me movendo para entrar. Marg e Sophie seguiram atrás de mim, ainda deslumbradas com o jardim, que seguia pela extensão até chegarmos à fileira de empregados. Patel pronunciou o nome de cada um para mim, porém estava com meus pensamentos tão longe daquele lugar que não consegui nem mesmo memorizar o nome do primeiro.
A mansão era realmente luxuosa, com todos os seus cômodos amplos e decorados de forma que atraía leveza. Aimee me acompanhou, mostrando cada um dos ambientes. Demorou algum tempo até chegarmos ao terceiro andar, onde ficavam os quartos. Ainda havia o quarto andar que estava em reforma. Ao chegarmos ao quarto principal, Sophie, que estava atrás de mim, continuou sendo guiada por uma criada até seu quarto, que ficava um pouco mais afastado. Marg, por sua vez, acompanhada por outra criada, escolheu um bem próximo ao meu. Assim que adentrei o quarto principal, me deparei com um ambiente claro e visualmente confortável. As diferenças entre o da Wincher Hall eram notórias à primeira vista.
— Todas as bagagens referentes à milady e ao senhor Winchester estão aqui. Logo mandarei uma criada para guardar os pertences. — Ela se manteve próxima à porta. Sua postura, assim como a de Isla, era impecável, seu tom de voz baixo e olhares discretos. — Deseja algo mais, milady?
— Gostaria que servisse o chá da tarde no jardim, por favor, em vinte minutos — ordenei.
— Como desejar. Com sua licença. — Assim que ela abriu a porta, Marg apareceu com sua empolgação adentrando o quarto.
Esperamos até Aimee sair, fechando a porta, para que os surtos de minha irmã se iniciassem.
— , eu estou encantada com sua casa. Quero definitivamente morar em Paris. — Ela deu alguns rodopios pelo quarto enquanto falava, até que se jogou em minha cama. — Isto é um sonho, não quero acordar.
— Margareth, só estamos no primeiro dia. — Ri de leve de minha irmã, voltando meus passos para perto da extensa janela que tomava quase toda a parede da varanda do quarto. — Apesar de…
— Apesar de quê? — Ela ergueu seu corpo e saltou da cama, vindo até mim. — Oh… Isso é mais que um sonho, estamos no paraíso?
— Claro que não. Isto é simplesmente Paris — a corrigi delicadamente.
— O senhor Winchester deve mesmo ter muito prestígio até em Paris para lhe proporcionar uma vista tão linda — comentou ela, impactada pelo que via.
— Sim — concordei em sussurro.
Passamos algum tempo admirando a deslumbrante paisagem do Jardin du Luxembourg, era mesmo uma surpresa que a janela do quarto principal desse vista para aquele colorido lugar, que era ainda mais perfumado na primavera. Se era um sonho, estava a cada dia não querendo acordar dele.
— Já me decidi. — Marg se afastou um pouco e voltou a sentar sobre a cama.
— Sobre o quê? — A olhei curiosa.
— Quero me casar com um francês. — Havia uma entonação forte de certeza em sua voz.
— Um francês? Acha que papai aceitaria desposá-la a um francês? — Aquilo admirou-me um pouco.
— O que tem? Se ele for um nobre, melhor ainda. — Ela deu me ombros. — Além do mais, a primogênita da família casou-se com um burguês, por qual motivo não posso?
Mesmo sabendo que eram palavras inocentes, aquilo feriu-me um pouco, como se fosse vergonhoso ter um marido burguês. Talvez eu tenha achado isso há alguns meses, quando recebi o pedido de casamento, ou até mesmo estivesse chateada por um casamento arranjado em minha noite de núpcias. Porém, agora, me sentia um pouco mais leve sobre o assunto. De fato, a escolha havia sido minha de qualquer forma, e estava em paz com isso.
— Perdoe-me as palavras inoportunas que usei — disse Marg, com uma carinha de arrependida. Talvez tivesse pensado no peso de suas palavras.
— Está tudo bem. — Dei um suspiro cansado. — Sei que não foi intencional.
— Você está mesmo bem com este casamento — comentou ela. — Apesar da diferença entre ambos.
— Sim. Em alguns momentos, consigo perceber esta diferença. Em outros, é como se algo muito além do casamento nos unisse. É loucura isso.
— Eu diria que é amor. — Ela sorriu. — Dizem que os opostos se atraem.
— Somos mesmo muito opostos. — Admiti a realidade. — Mas é tão… Não encontro adjetivos para classificar isso. conhece todos os meus gostos.
— Todos?! — A surpresa pairou em seu olhar.
— Todos, que eu me lembre. — Mordisquei o lábio inferior de leve. — Incomum, mas comparando a época em que o sir Ulrich me cortejava, ele não conseguia nem mesmo gravar em sua memória minha cor favorita.
— Que loucura. — Ela riu de leve. — Há pouco tempo, era fascinada por ele, desde o momento em que a salvou na cachoeira naquele verão, achei mesmo que se casaria com sir Ulrich.
— Eu também, até o senhor Winchester aparecer. — Desviei meu olhar para a janela, olhando o jardim da frente da mansão. — Sinto meu coração acelerar quando menciona algum detalhe sobre mim. Ele sabe até mesmo quando estou apreensiva com algo.
— Em tão pouco tempo de casados, ele já consegue ler suas expressões corporais?!
— Como eu disse, parece loucura… — Eu a olhei novamente. — Mas ele demonstra me conhecer de uma forma mais profunda ainda.
— Seria invejoso desejar um marido assim? — Marg me olhou com uma cara sapeca, se levantando da cama.
— Um pouco. — Nós rimos de leve. — Vamos descer, um chá nos aguarda.
— Sim, milady Winchester. — Ela fez uma breve reverência, brincando.
Eu a abracei, lhe fazendo algumas cócegas. Era divertido estar com a Marg naquele momento. Mesmo ainda estando no início de um casamento, ter alguém familiar por perto me passava mais força e coragem. Assim como desejado, nosso chá da tarde foi em meio ao perfume das flores do jardim. Estávamos em meio a uma conversa nada tendenciosa sobre o possível perfil do noivo de Freya, quando Aimee se aproximou.
— Milady, a pouco chegou este convite para a senhora. — Ela segurava uma bandeja de prata com um envelope prateado.
— Agradeço. — Peguei o envelope e o cortei com a pequena faca de prata que havia ao lado.
Era mesmo um convite para um jantar de recepção, pela vinda de a Paris e também com algumas felicitações por nosso casamento. Dizia também que já haviam enviado este convite a ele no porto, para que não pudéssemos ter oportunidade de recusar. Eu não estava tão confortável assim com a ideia, mas Marg já estava sonhando em conhecer algum aristocrata francês de muitas posses neste jantar.
Uma casa tão grande pareceu ainda mais solitária e vazia nos dias que se passaram. Mesmo com a companhia de Margareth e Sophie durante todo o dia, lá no fundo, algo estava incompleto em meu tempo. O que me fazia passar a maior parte do tempo na biblioteca, enquanto Marg sequestrava Sophie e a forçava a andar pelas ruas de Paris. Era um fato que os livros me distraíam mais do que elas, apesar dos assuntos aleatórios que Marg propunha.
— O Conde de Monte Cristo — sussurrei, ao ler o nome do livro que estava em minha mão.
— Devo dizer que este é o melhor livro entre todos que se encontra nesta biblioteca?! — A voz firme e grossa do meu marido ecoou na direção da porta.
Senti minha respiração parar de imediato e então soltei um suspiro fundo. Me virei em sua direção e sorri de leve. Seu olhar intenso em mim continuava o mesmo, não… Parecia ainda mais desejoso em olhar para mim.
— Levarei em consideração vossa sinceridade ao lê-lo. — Desviei meu olhar dele por um momento e voltei para o livro. — Quando chegou?
— Há pouco tempo. Gostaria de ter vindo em vossa companhia. — Ele deu alguns passos até mim de forma tranquila e lenta, mas sentia sua pressa em se aproximar. — Espero que tenha se divertido.
— Eu não fiquei sozinha, já foi um começo… — Pensei por um instante no que havia dito. — Bem, agradeço por não se importar com a presença da Marg. Sei que Sophie é minha dama de companhia, mas minha irmã também veio…
Eu não estava muito atenta à sua aproximação ao tentar encontrar a explicação certa se realmente me diverti ou não nestes três dias sem ele, até que ele me beijou de surpresa, sem que eu terminasse de falar. E ali estava o complemento. Não era somente seu beijo intenso e doce, nem a forma como envolvia seus braços em minha cintura como demonstração de segurança, mas o conjunto de tudo o que acontecia quando ele estava presente me fazia sentir mais completa. era um dos motivos pelos quais eu era ainda mais grata a Deus pela minha vida. Um casamento com um burguês, que significava uma maldição para muitas das garotas que um dia se nomearam minhas amigas, desde o primeiro dia havia se mostrado uma bênção que talvez eu não fosse merecedora.
Logo que meu coração acelerou ainda mais com o gosto do seu beijo, senti uma lágrima se formar no canto do meu olho, me fazendo afastar dele.
— Algum problema? — perguntou ele, um pouco preocupado.
— Não. — Me virei de costas para ele e limpei rapidamente aquela lágrima. — Estou bem.
— Não deveria esconder vossos sentimentos de vosso marido — insistiu ele, ao segurar de leve em minha mão. — Bons ou ruins.
— Não quero preocupar-lhe. — Sorri de leve. — O único sentimento que tive foi... saudade.
— Tenha a certeza de que este sentimento é recíproco — sussurrou, me envolvendo ainda mais em seus braços.
Nem mesmo terminei e logo ele me abraçou. Foi confortável sentir seu perfume e ouvir os batimentos acelerados do seu coração. Cada pequeno detalhe que descobria dele era uma conquista para quem não sabia nada sobre o próprio marido.
— x —
— Estamos de fato muito honrados por ter aceitado nosso convite. — A senhorita Belle, filha do conde Remy Chermont, abriu um sorriso largo, mantendo seus olhos em , direcionando seu comentário de forma singular.
— Winchester — disse o conde Remy, ao se aproximar com uma taça de champanhe em sua mão. — Finalmente. Esta é a primeira vez que aceitas um convite para um jantar de recepção.
— Apenas aceitei desta vez para que pudesse ter a oportunidade de conhecer minha esposa. — voltou seu olhar para mim. — Lady Winchester.
Senti uma certa satisfação em sua voz assim que pronunciou seu sobrenome.
— Oh, madame. — Conde pegou de forma respeitosa em minha mão e deu um suave selinho, cortesia vinda do charme dos franceses. — Sinto-me honrado em poder conhecer-te, a tal famosa lady .
— Famosa?! — Olhei para um tanto curiosa.
— Vamos omitir algumas partes. — manteve seu olhar suave, o voltando para o conde Remy.
— Oh… Oui, como quiser. — O conde se colocou um pouco mais sério e voltou seu olhar para Marg. — E quem é esta mademoiselle?
— Esta é Margareth, minha irmã caçula — respondi prontamente, ainda intrigada.
— Prazer, milorde. — Marg fez uma breve reverência.
— Oui, prazer.
— E esta é Sophie, minha dama de companhia — completei, apresentando a Sophie, que reverenciava em silêncio.
— Uma dama de companhia. — Belle desviou seu olhar de surpresa de para mim. Aquilo já estava começando a me incomodar.
— Como já viram, esta é minha bela e doce Belle, minha caçula, e aquele boêmio ao fundo, a jogar sinuca, é meu filho Pierre.
— Tens uma bela família, milorde — elogiei de forma cordial.
— Agradeço. Bem, são muito bem-vindas em minha casa. — Conde Remy estendeu a mão para que entrássemos um pouco mais ao pequeno salão. — Espero que se divirtam esta noite.
Diversão…
Não diria ao certo se conseguiria me divertir com os constantes olhares que Belle lançava em de forma pretensiosa, o que, ao longo da noite, passou a me deixar ainda mais desconfortável. Porém, ao contrário de mim, Margareth parecia mesmo estar se divertindo ao conhecer algumas jovens damas da nobreza francesa. Até mesmo arriscou a aprender a jogar sinuca, algo totalmente fora de nosso cotidiano.
— Se Evelyn visse isso — sussurrei, observando minha irmã. — Certamente mataria-me.
— Vossa madrasta parece ser uma pessoa de difícil convivência — comentou Sophie.
— Difícil ainda seria um adjetivo suave para ela. — Suspirei fraco. — Aquela senhora foi o pesadelo da minha infância.
— Ela realmente não demonstra muito afeto por vós — admitiu Sophie, de forma discreta. — Pude observar isso nos chás que participei.
— Acho que esta falta de demonstração só não é vista por meu pai. — Desviei meu olhar para a janela ao lado. — Entretanto, isso não me afeta mais.
— Acredito que este olhar triste não seria por causa do que sua madrasta pensaria sobre o comportamento de vossa irmã neste jantar. — Sophie realmente era perspicaz em suas suposições.
— Observaste bem. Meu desconforto está sendo gerado por outro motivo. — Engoli seco ao lançar novamente meu olhar para Belle, que havia se aproximado propositalmente de . — Creio que não estou me sentindo bem.
Me encostei de leve na parede para manter o equilíbrio de meu corpo. Talvez minha mente não estivesse preparada para tal situação. Talvez eu nem imaginasse que em algum momento poderia, por menor que fosse a intensidade, sentir ciúmes do meu marido. Principalmente por começar a considerar que a senhorita Belle o conhecesse a mais tempo que eu.
— Milady?! O que está sentindo?! — Sophie pegou em minha mão, me fazendo apoiar sobre seus ombros.
— Eu… — respirei fundo. — Não sei, como se o ar estivesse sendo tirado de mim à força…
Antes que eu pudesse pedir para que Sophie me tirasse daquele lugar, já surgiu ao meu lado e, me pegando no colo, me tirou daquele ambiente que me causava mal. Um tanto quanto surpreendente para mim, porém um gesto assim somente poderia ser esperado de um burguês.
— , não deverias… — sussurrei.
— Logo chegaremos ao lugar que deseja estar — disse ele, me interrompendo.
Assim que me colocou dentro da carruagem, me acomodei adequadamente e tentei ouvir as ordens que dava a Sophie do lado de fora. Não demorou muito até que ele subisse. Encostei minha face na janela da outra lateral e fiquei olhando para rua, não sabia ao certo o que poderia dizer em explicação ao meu mal estar, seria tolo dizer que era emocional devido a uma crise de ciúmes.
— Patel, nos leve um pouco de chá — ordenou , assim que entramos na mansão, e fomos recebidos pelo mordomo.
— Como desejar, senhor. — Assentiu, já se retirando em direção à sala de jantar, por onde dava passagem para a cozinha.
me guiou até o primeiro quarto principal, considerado não meu, mas sim nosso, pois, diferente dos casamentos tradicionais, meu casamento não era nada tradicional, e ele testificou isso ao insistir que deveríamos dormir no mesmo quarto.
— Agora podes me dizer. — Iniciou ele com tranquilidade ao ajudar-me a sentar na cama.
— Dizer o quê? — O olhei um pouco confusa.
— O que estava lhe perturbando?! — Seu olhar se intensificou mais, como se analisasse cada movimento e expressão minha.
— Poderia algo perturbar-me? — retruquei, sentindo o desconforto voltar.
— Acredito que tenha ficado desconfortável com algo. Seu olhar estava triste e seu sorriso um tanto quanto artificial. — Direto e descritivo, realmente me conhecia melhor que eu mesma.
— Conseguiu perceber tudo isso?! — Desviei meu olhar para a porta, sentindo uma movimentação ao lado de fora.
Logo dois toques na porta soaram.
— Entre — disse , mantendo seu olhar em mim.
— Senhor. — Patel entrou rapidamente, parecia reconhecer na voz de que deveria ser preciso.
Assim que ele deixou a bandeja com o chá na mesa de canto, saiu em silêncio, nos deixando novamente a sós, tudo ocorrendo com aquele olhar fixo em mim.
— Não vai mesmo dizer?! — insistiu ele. — Ou prefere que eu suponha?
— Belle Chermont. — Um nome e muitos significados.
— Como esperava — sussurrou ele, num tom que me permitisse ouvir. — O que vossa mente fez parecer?
— Não me pareceu nada, mas fiquei desconfortável por ver que o olhar dela estava sempre em vós — admiti sem receios.
— E o meu olhar estava onde? — perguntou ele, tranquilamente.
Respirei fundo, me mantendo em silêncio.
— Diga-me. — se aproximou de mim e, segurando minha mão, me fez levantar da cama. — Permitiu-se ficar sem equilíbrio por estar preocupada com uma pessoa que olha para vosso marido. Por que fizeste isso?
— , eu…
— Não importa quem está olhando para mim, o que importa é para quem eu estou olhando. — A firmeza em sua voz estremeceu meu interior e minha insegurança.
— Peço que somente releve o que lhe causei esta noite. — Me senti um pouco envergonhada.
— Não me causaste nada. Não gosto de festas, somente aceitei ao convite, pois vi o quanto vossa irmã ficou empolgada, então percebi que aceitaria ir para deixá-la mais alegre. — Ele acariciou meu rosto. — Para ser sincero, o melhor lugar para eu estar é aqui, com minha esposa em meus braços.
Ele me puxou para mais perto e envolveu seus braços, me abraçando de forma que me transmitia ainda mais segurança e carinho, com sua leve mão acariciando meu cabelo.
“Por causa de você, meu coração é colorido,
No mundo em preto e escuro,
No momento em que tento fechar meus olhos,
Você faz minha vida colorida.”
— Colorful / SHINee
Evanesce
Limerick — Verão de 1847
•Já havíamos completado pouco mais de quatro meses de casados. Era a estação mais quente do ano, porém, em raros momentos, sentia uma certa frieza rondando minha vida. Isso se iniciou assim que recebi o convite formal para o noivado de Freya, em um papel branco, com letras douradas e bem adornadas. O nome de seu noivo ainda era uma incógnita, porém a estranheza veio ao ver que o evento seria recepcionado no castelo de Meagher, em Limerick.
A princípio, percebi que um desconforto pairou na face de quando leu o convite, contudo, não havia nenhum motivo para recusar nossa presença, pelo contrário, Freya era minha irmã e minha presença era demais necessária. O ponto mais crítico e assombroso foi o fato do meu marido ter que se ausentar. Por uma semana, teria que resolver alguns assuntos em Nottinghamshire, onde ficava os terrenos que sua família criava animais. Aquela ausência significava que eu ficaria uma semana em Limerick, algo que, de alguma forma, o perturbava visivelmente, mas seu cavalheirismo era maior em relação a não me manter afastada de minha família.
Não era somente pela distância vossa frustração. O fato é que havia uma parte do meu passado em Limerick, porém meu presente, , importava bem mais para mim.
— Ainda me lembro da última vez que estivemos aqui — comentou Marg, sentada ao meu lado na carruagem.
— Sim, o dia que seria meu noivado com sir Ulrich e acabou sendo o anúncio do meu casamento com . — Dei um suspiro ao me lembrar nitidamente daquela noite.
— Verdade, todos fomos pegos de surpresa. — Marg me olhou. — Papai foi um tanto direto ao dizer que você estava prometida ao , mesmo sem lhe perguntar se queria.
— Talvez ele já imaginasse que eu aceitaria. — Desviei meu olhar para a janela, olhando para o sol, que já se punha atrás das colinas do campo. — Somente hoje percebi que realmente não sentia algo forte por Ulrich que valesse a pena lutar naquela época.
— Mas você teria coragem de falar não, milady? — Sophie, que estava sentada em nossa frente, me perguntou em um tom curioso.
— sempre teve coragem para enfrentar nosso pai e estabelecer seus sentimentos — respondeu Marg prontamente, com um leve sorriso nos lábios. — Gostaria de ser assim.
— Marg, nem sempre dizer não é o melhor caminho, mas estou feliz por ter dito sim ao . — A olhei e sorri junto. — Deixemos o passado para trás. De fato, também estou curiosa para saber o motivo pelo qual o noivado será feito no castelo dos Meagher, entretanto, não me importo mais com Ulrich e seu destino.
— Pois eu já suspeito do motivo — disse Marg.
— E qual seria?!
— Sabes que a Lewis Castle está em ruínas de tão vazia e sem adornos. Quase todas as nossas obras de arte já foram vendidas, somente restam lá dois quadros que são herança da família de vossa mãe — explicou Marg, num tom amargurado. — Tenho certeza de que o orgulho do papai não o deixaria fazer nenhuma recepção em nossa casa.
— Faz sentido e, além do mais, o falecido pai do conde sir Ulrich era um grande amigo de nosso pai, talvez seja por cavalheirismo que esteja sendo planejado neste lugar. — Concordei.
— Pelo menos poderemos estar em um lugar que conhecemos — disse Marg empolgada. — Não vejo a hora de poder andar a cavalo novamente, tivemos que vender os nossos.
— Hum… — Desviei meu olhar para a janela. — Espero ser bem recebida após todo aquele constrangimento.
— Ah, tenho certeza de que irá. És casada com o homem mais rico da Inglaterra, acha mesmo que vão te maltratar? — Marg riu. — Se não for por naturalidade, acredite, será por interesse. Já sabemos que todas as pessoas em nossa volta querem sempre agradar o senhor Winchester.
— Não sei se devo levar isso como algo positivo ou negativo. — Dei um suspiro fraco. — Nunca sabemos quem está sendo sincero e quem está sendo falso. Fico feliz que pelo menos a família de não me julga por eu ter me casado inicialmente por dinheiro.
— Acho que o argumento de ter sido por dinheiro já foi quebrado há muito tempo. Basta olhar em seus olhos para ver o brilho que aparece quando fala o nome dele. — Marg riu. — Está mesmo muito apaixonada pelo senhor Winchester, já é visível.
— Acho que sim. — Dei um suspiro esperançoso ao sentir a carruagem parar. — Acho que chegamos.
Logo que o cocheiro abriu a porta para que saíssemos, a mãe de Ulrich já estava ao lado de fora do castelo, bem na entrada, acompanhada de minha madrasta, nos aguardando. Respirei fundo ao desembarcar da carruagem e segui com Marg e Sophie pelo caminho de pedras ornamentais até chegar a elas.
— Seja bem-vinda, senhora Winchester. — A ênfase que a lady Lira havia dado ao sobrenome do meu marido causou-me um certo desconforto. — Seja bem-vinda também, Margareth. E quem é esta jovem ao lado?
— Esta é Sophie, minha dama de companhia — respondi, mantendo meu tom de voz baixo, porém firme. Acho que estava absorvendo um pouco da superioridade que meu marido exalava perto dos nobres.
— Uma dama de companhia. — Ponderou a surpresa no olhar, o desviando para Sophie por um momento e depois voltou para mim. — Pensava que somente a realeza se agraciava com isso.
— Foi um singelo presente de casamento do meu marido — expliquei, segurando o sorriso de satisfação que queria sair.
— Imagino, o senhor Winchester é muito conhecido em Limerick também. — Lira tentou-me jogar um olhar de desdém, porém não conseguia.
— Bem, quem no Reino Unido que não o conhece. — Sorri de leve. — Ainda assim, agradecemos pela estadia. Tenho certeza de que ficarei muito confortável em seu castelo, mas devo anunciar que só poderei ficar enquanto o senhor Winchester estiver longe.
— Então ele não se hospedará aqui? — Evelyn me olhou curiosa.
— Como sabe, ele possui suas próprias propriedades onde quer que necessite — expliquei tranquilamente. — Somente permitiu que ficasse no castelo de Meagher para que pudesse estar perto de minha irmã em um momento tão importante.
— Não é surpreendente saber que ele tenha alguma propriedade em Limerick. — Lira desviou seu olhar para Evelyn.
— Pois, quanto a mim, estou demasiadamente surpresa. — Ela deu um sorriso forçado. — Se seu pai soubesse, talvez tivesse pedido para que o casamento fosse planejado…
— Oh, não. Isto também foi uma surpresa para mim, afinal, foi adquirida recentemente — completei, a interrompendo.
— E podemos saber qual propriedade ele comprou? — perguntou Lira.
— Ah, digamos que ele não comprou… — Mordi de leve meu lábio inferior.
— Não?! — Evelyn me olhou curiosa.
— Não, bem… A família do marquês James Allen contraiu uma grande dívida com o senhor Winchester, dívidas de muitos anos que não poderiam ser pagas de outra forma.
— Este é o pior lado dos burgueses, sempre querem tudo o que pertencer aos nobres. — Lira finalmente conseguiu me lançar aquele olhar de superioridade.
Eu engoli seco, pensando por um breve momento se deveria ao não responder à altura seu projeto de humilhação.
— Bem, é uma via de mão dupla. — Respirei fundo, mantendo meu olhar tranquilo sobre Lira. — Já que os nobres também desejam ter a fortuna dos burgueses.
— Ah…. Está me dando uma fome — disse Marg, querendo quebrar o clima de confronto. — Tenho certeza de que a senhora nos preparou um delicioso chá, como quando éramos crianças.
— Ah, sim, claro. — Lira se virou para Marg e sorriu. — Venham, os servos irão acomodar suas bagagens nos devidos quartos. — Lira se voltou para mim. — Como não sabíamos que traria uma serviçal, espero que não sinta desprezo se ela ficar na ala da criadagem.
— Está tudo bem, lady Meagher, sou apenas uma criada. — Sophie manteve sua face levemente abaixada em forma de respeito.
— Pois eu gostaria que Sophie fosse instalada no quarto ao lado do meu. — Intervi, sem o menor receio.
Senti todos os olhares virem de encontro a mim, porém mantive meu olhar em Lira. Acho que estava sendo divertido a confrontar em sua própria casa.
— Milady?! — Sophie me olhou desacreditada.
— Tenho certeza de que com mais de duzentos quartos neste castelo, não haverá problema, não é mesmo, lady Lira? — Dei um sorriso pretensioso.
— Claro que não. — Ela deu um sorriso forçado. — Não queremos causar nenhum desconforto em sua estadia. Mandarei a governanta cuidar disso pessoalmente.
— Agradeço a gentileza. — Retribui com um sorriso singelo, daqueles que sempre fazia meu pai se lembrar de minha mãe.
— Lady — disse uma voz masculina que bem conhecia, vinda de trás de mim, me causando um repentino e desnecessário aperto no coração — Há quanto tempo.
Era a voz de Ulrich. O cavalheiro do qual estive parte de minha vida solteira fascinada, com quem um dia sonhei que me casaria e teria filhos. Alguém do meu passado, que há muito havia decidido esquecer, mas como poderia esquecer completamente dele, já que me salvara de um afogamento quando criança? Respirei fundo de forma discreta e me virei com leveza em sua direção. Logo meu corpo paralisou ao ver Freya ao lado, de braços dados com ele, como um casal feliz.
— Sir Ulrich… — Voltei meu olhar para minha irmã, que dispunha de um sorriso de satisfação, como se tivesse vencido algo ou alguém. — Boa tarde, Freya.
— Boa tarde, . — O olhar de Freya exalava vitória. — Fico feliz por ter vindo.
O que me fazia de fato constatar que o noivo de Freya era ele, pior lembrar de como sua face superior estava quando anunciou que se casaria. Agora estava entendendo por que a pressa. O noivado seria celebrado formalmente no sábado à noite e logo pela manhã teríamos a cerimônia na catedral da cidade. Senti até mesmo minha face ficar rígida e imóvel. Meu olhar não conseguia se desviar dos braços deles, que estavam entrelaçados.
— Nos sentimos honrados por voltar de Paris só pelo nosso casamento. — Ulrich parecia sem graça com a situação, por certo deve ter entendido que eu não sabia que ele era o noivo. — Soube que esteve todo este tempo lá com o senhor Winchester.
— Sim, Paris também é bela no verão, mas, após quatro meses longe, já estava sentindo falta de casa. Londres, sim, é o melhor lugar para mim — expliquei, ponderando minha voz e tentando achar equilíbrio interno. — Além do mais, não poderíamos prolongar ainda mais nossa lua de mel, o senhor Winchester tem muitos negócios.
— Por mim, teríamos ficado ainda mais — comentou Margareth, sem pudor. — Sua casa em Paris é como um sonho de verão, principalmente por causa da vista.
— Vejo que se divertiu muito, pequena Margareth. — Ulrich deu um breve sorriso de canto, mantendo seu olhar em mim. — Paris é realmente mágica.
— Sim, fomos convidados a todos os bailes e recepções organizados durante esse tempo, apesar de e o senhor Winchester não aceitarem participar de todos. — Ela deu um suspiro frustrado.
— Ainda assim, conseguiu se divertir, Marg. — A olhei com repreensão.
— Desculpe-me. Sim, me diverti muito mesmo. — Ela olhou para Freya. — E vós, já escolheram onde passarão a lua de mel?
— Não nos olhe assim, pois não a levarei como . — Ela se agarrou um pouco mais a Ulrich. — Prezo por minha privacidade.
Ulrich deu uma risada baixa e se afastou um pouco dela, lhe beijando a mão.
— Adoraria desfrutar do chá com as belas damas, mas tenho outro compromisso agora. — Ele se voltou para mim. — Espero que possa se acomodar confortavelmente, deve estar acostumada com lugares mais luxuosos oferecidos pelo senhor Winchester.
— Agradeço a preocupação. — Fiz uma breve reverência.
Ele se afastou de nós em direção à carruagem da família, que já o aguardava pronta.
— Bem, vamos ao nosso chá — disse Lira, estendendo a mão para a direção onde a mesa já estava posta, nos esperando.
A seguimos pela lateral até o centro do jardim. Nos acomodamos devidamente, apesar de Sophie ter que ficar de pé, um pouco mais afastada, o que me deixou um tanto incomodada pela forma que tratava minha dama de companhia.
— x —
— Está mesmo tudo bem? — perguntou Marg, ao entrar no meu quarto.
— Sim. — Eu me encolhi um pouco. Estava encostada na parede ao lado da janela, olhando para o jardim. — Não deveria estar tão preocupada, tivemos uma longa viagem até aqui, deveria estar descansando.
— Eu sei, mas não consegui deixar de pensar na vossa cara de surpresa. — Ela fechou a porta e deu alguns passos para se sentar na cama. — Confesso que também fui pega de surpresa, mas já era de se esperar algo assim…
— Não consigo entender como papai pôde fazer isso. — Segurei todas as lágrimas que queriam rolar em minha face. — Não me importo que seja o Ulrich, me importo que não tenham me contado. O pior foi o olhar de vitória, de superioridade…
— Freya e sua inveja. — Marg bufou. — Não consigo acreditar nisso. Pelo menos tinhas mesmo o direito de ser a primeira a saber.
— Não quero pensar mais sobre isso, pelo menos até amanhã, já que terei que conviver com ambos juntos durante esta semana. — Voltei meu olhar para minha irmã. — Nunca desejei tanto que o tempo passasse rapidamente.
— Vais ficar bem? — Marg se levantou da cama e veio me abraçar.
— Tentarei. — Retribuí o abraço e sorri de leve. — Agora já para a cama, Marg.
— Boa noite.
— Boa noite.
Eu a acompanhei até a porta.
Antes de me deitar, certifiquei que a porta estava devidamente trancada para não ter nenhuma visita indesejada, seja por Freya, ou pelo próprio sir Ulrich. Assim que meu corpo tocou o fino lençol, senti como se um peso tivesse saído de mim e logo fiquei relaxada, isso possibilitou que meu sono não demorasse a chegar.
Os dias que seguiram foram monótonos. Quando não estava em meu quarto, lendo o livro que havia me indicado, eu estava na biblioteca, folheando outros livros para passar o tempo. Havia momentos em que me esquivava de Ulrich, que sempre tentava orquestrar um encontro a sós comigo. Em outro momento, me sentia entediada com os assuntos das mulheres na mesa de chá, ou na sala de música. Piores ainda eram os momentos em que Freya sentia sua necessidade habitual de demonstrar que sabia tocar melhor que eu, apesar de sempre falhar miseravelmente.
— Graciosa como sempre — elogiou Lira, ao aplaudir.
— Agradeço, milady. — Freya sorriu com satisfação.
— Tocas melhor do que ela — cochichou Marg, que estava ao meu lado, me fazendo segurar o riso.
— O que disse, Margareth? — Evelyn a olhou atravessado.
— Nada, mamãe, só pensei que Freya tocaria algo como Mozart — respondeu Marg, segurando o riso.
— Todos sabemos que Freya tem dificuldades com Mozart — expliquei de forma natural.
— Não deveria — retrucou Marg. — Até mesmo um burguês sabe tocar.
— Do que está falando? — Freya se levantou do banco que sentava em frente ao piano.
— Margareth, não deveria dizer tal coisa. — Olhei para Marg, tentando repreendê-la, mas por dentro estava aplaudindo sua ousadia. — Não deve espalhar a intimidade dos outros.
— De quem estão falando? — Sir Ulrich apareceu da porta e me olhou curioso, dando alguns passos para mais perto de onde Freya estava.
— Nada de mais importante. — Freya sorriu.
— Como não. — Marg o olhou. — Só estava falando que o senhor Winchester sabe tocar Mozart.
Eu senti a afronta que aquelas palavras causaram não somente em Freya, mas em todos os outros presentes.
— Ele sabe… Não acredito que um burguês consiga ser assim tão suave com as teclas de um piano. — Lira me olhou.
— Acredito que se surpreenderia ao ouvi-lo tocar — comentei tranquilamente.
Logo o mordomo entrou na sala.
— Sir Ulrich, miladies — ele se curvou de leve —, anuncio milorde, conde Lewis e o senhor Winchester.
Meu olhar se voltou para a porta automaticamente. Assim que ele apareceu, meu coração acelerou de forma inesperada.
— Agora vai ficar mais interessante — sussurrou Marg.
— Meus cumprimentos, senhores. — Sir Ulrich se aproximou deles e os cumprimentou com um aperto de mão.
Mesmo tendo aceitado o cumprimento, seu olhar se manteve fixo em mim, como sempre. Eu que me sentia ainda tímida com aquela intensidade, agora estava sentindo um conforto inexplicável. Como esperado, em menos de vinte minutos de conversa, , em poucos movimentos, se retirou da sala, um sinal de que queria estar sozinho em minha presença. Levantei-me discretamente e segui em direção à porta, ouvindo alguns cochichos vindos de trás. Caminhei por toda a extensão do corredor até chegar à escada principal. Lá estava ele, olhando o grande estandarte na parede, com o brasão dos Meagher bordado com fios de ouro.
— Meu senhor — disse, quase em sussurro. — Está tudo bem?
Ele deu alguns passos até mim e pegou em minha mão.
— Agora estou melhor. — Um sorriso leve e sutil surgiu em seu rosto. — Perdoe-me por todo este tempo longe.
— Infelizmente, devo me acostumar com suas breves ausências. Agradeço por sempre ter uma companhia.
— Hum. — Ele moveu seu olhar para o carpete do chão.
— Claro que nenhuma companhia se compara a vossa. — Minha voz saiu tão natural.
Ainda segurando em minha mão, entrelaçou nossos dedos e se virou para a escada.
— Que tal um passeio? Sei que gosta de jardins — convidou ele.
— Seria um prazer passear com meu marido — respondi, sorrindo de leve. — O jardim .do castelo do Meagher é lindo.
— Não estava me referindo a este jardim. — Ele me olhou tranquilamente. — Estava me referindo ao jardim que construí para vós.
— Para mim?! — O olhei surpresa.
— Sim. — Ele sorriu de canto e respirou fundo. — Vamos.
Assenti, me deixando ser guiada por ele. Ao chegarmos à entrada do castelo, nossa carruagem já nos aguardava. Nos acomodamos e silenciosamente seguimos o caminho até o castelo que ele havia comprado, mesmo ainda passando por reformas internas, mantinha sua vontade de se instalar em algo que é dele. Assim que a carruagem parou e ele me ajudou a desembarcar, meu coração paralisou e pulsou mais forte. Era lindo o jardim que compunha a entrada do castelo. Ele segurou minha mão, entrelaçando nossos dedos, e começou a me guiar em direção à entrada. Vossa paisagem era como um leve desenho de formas em arabescos, com os canteiros precisamente posicionados da forma para que o caminho de pedras ornamentais traçasse esse desenho.
— Camélia… — disse ele, com serenidade. — São suas flores favoritas.
— Não me lembro de ter comentado sobre isso com… — sorri de leve, me lembrando vagamente de uma conversa que tive com sua mãe — a senhora Poppy lhe contou.
— Minha mãe é uma boa pessoa para contar informações. — Ele riu baixo. — E margaridas eram as preferidas de vossa mãe.
Senti um breve arrepio em meu corpo e uma emoção tomou conta do meu coração de maneira surpreendente. Poucas pessoas sabiam daquilo, ou melhor, apenas eu e meu pai sabíamos. era mesmo uma caixinha de surpresas, e aquela havia sido a mais intensa de todas. Ele realmente me conhecia além do que eu poderia saber.
— Presumo que desta vez tenha sido meu pai. — Sorri naturalmente, sentindo uma paz grande ao olhar aquele jardim.
— Sim. — Assentiu. — Achei que gostaria de ter algo que lembrasse vossa mãe aqui, já que ela nasceu em Limerick.
— Sabes tantas coisas sobre mim. — Observei. — Gostaria de saber algo a mais sobre vós.
— Saber que vos amo não lhe é suficiente? — Ele parou e me olhou. — O que mais desejas saber?
— Como sabes tanto sobre mim? Quando exatamente me viu pela primeira vez? A senhora Poppy menciona tanto sobre vosso amor e a forte vontade de me desposar quando retornou a Londres aos dezenove anos. Fico a me perguntar sobre isso. — Suspirei fraco. — Às vezes sinto que há algo mais profundo que nos une.
— Sim, o nosso amor. — Ele sorriu. — Sou grato a Deus por nosso amor.
Ele foi se aproximando pouco a pouco de mim, até que seus lábios tocaram os meus. Senti meu corpo estremecer de imediato assim que ele envolveu seus braços em minha cintura. O beijo de ainda me deixava sem direção e totalmente entregue, fosse em qualquer momento ou lugar que acontecesse.
— x —
— Milady. — Sophie se aproximou de mim discretamente e me entregou um bilhete.
Eu peguei sem que Margareth que estava ao meu lado percebesse.
— Distraia minha irmã, por favor — sussurrei para ela, que assentiu sem problemas.
Olhei para a direção em que estava. Naquele momento, sua atenção se voltava para os nobres que meu pai o apresentava. De fato, sua presença estava sendo o destaque da noite. Me aproximei mais das laterais. O grande salão estava cheio de nobres convidados, então seria fácil conseguir me afastar sem que percebessem. Assim que cheguei ao corredor, senti uma mão segurar a minha e me puxar.
— O que… — Tentei me soltar, mas sem sucesso.
— Não lhe farei nenhum mal. — A voz era de Ulrich.
— Para onde está me levando?
— Em instantes, verás.
Subimos alguns lances pela escada dos serviçais, até que entramos na biblioteca.
— Sir Ulrich, tens a noção de vossos atos? — Olhei para o bilhete que estava em branco. — Presumo que isso lhe pertença.
— Perdoe-me por meu impulso. — Ele pegou o bilhete. — Mas devo-lhe minhas desculpas.
— Não me deves nada, sir Ulrich. — O olhei.
— Eu realmente pensei que soubesse sobre a eu e Freya. — Seu tom estava um pouco mais baixo. — Sinto que lhe devia algumas explicações, já que…
— Repito que não me deves nada. — Respirei fundo. — Sei que tivemos algo no passado, mas não estamos mais no passado. Hoje sou uma senhora casada, e vós, o noivo de minha irmã.
— Me casar com ela não significa que meu coração pertence a ela. — Ele segurou em minha mão. — Ainda penso em vós.
— Sir Ulrich, pedirei apenas uma vez. — Respirei fundo, segurando sua mão para que soltasse a minha. — Esqueça o passado. Seu coração deve pertencer somente a Freya, assim como seus olhos devem estar na direção dela.
— Ulrich, eu… — Freya adentrou na biblioteca de forma repentina. — .
Me afastei dele mais que depressa para que ela não imaginasse coisas erradas.
— O que está havendo aqui? — Seu olhar fuzilante para mim era intenso.
— Não está havendo nada. — Ulrich fez uma breve reverência com a face e saiu da biblioteca.
— Não deveria estar com vosso marido, ? — perguntou ela, dando dois passos para frente.
— Não gosto de participar de conversas políticas ou econômicas. Além do mais, isso não é assunto para uma dama. — A olhei com tranquilidade. — Temos que concordar que meu marido está sendo o centro das atenções de todos os convidados em seu próprio noivado. Devo pedir desculpas por isso?
— Não, ele tem um singelo crédito neste dia — ela deu um sorriso de satisfação —, já que foi ele quem deu dinheiro ao papai pelo meu dote, hum… Devo agradecer por isso?
Meus punhos se fecharam automaticamente. Senti uma forte raiva pairar em meu interior.
— Tenha uma boa noite. — Freya saiu rindo da biblioteca.
Passei um longo momento paralisada, remoendo todas as palavras que Freya havia dito. era o responsável pelo dote e provavelmente sabia que o noivo era Ulrich. Logo me lembrei da visita que meu pai fizera no dia seguinte à minha noite de núpcias. Não era exatamente para me visitar, ou por preocupação, certamente sua visita foi para obter dinheiro para o dote de Freya.
— Milady?! — Uma voz me despertou de meus pensamentos, era Sophie.
— Sim?! — A olhei, respirando fundo. — Algum problema?!
— Estava a vossa procura, o senhor Winchester…
— Entendi. — Tomei impulso para a direção da porta.
— Está tudo bem? — perguntou ela.
— Não, mas ficarei bem.
Dei um sorriso forçado e segui em direção ao corredor.
já nos aguardava perto da carruagem, meu pai estava ao seu lado, e ambos pareciam falar sobre assuntos rotineiros. Me aproximei em silêncio deles e me despedi do meu pai. Entrei na carruagem primeiro, sendo seguida por Sophie, e pedi para que se sentasse ao meu lado. entrou instantes depois e, mesmo sabendo que seu olhar ficaria em mim por todo o caminho, mantive meu olhar direcionado para a janela e minha atenção bem distante dali.
— Está tudo bem? — perguntou , assim que adentrou o nosso quarto.
— Por que não estaria?! — Eu, que estava de frente para o espelho, olhei seu reflexo.
— Talvez pela vossa voz não estar normal, vosso olhar distante… — Ele respirou fundo. — Está assim por Freya estar se casando? Ou pelo noivo ser ele?
— Talvez esteja assim por ter sido a última a saber que meu marido foi o financiador de tudo. — Não resisti em dizer o real motivo. — O que sinto não é referente a sir Ulrich.
— Pode realmente confirmar isso? Posso acreditar que se não fosse ele a desposar vossa irmã, também reagiria assim?
— O que pretendes afirmar com isso?! — Me virei e o olhei.
— Que ainda não o esqueceu, por isso está agindo com tanta indiferença a mim. — Sua voz tinha um pouco de amargura. — Mas como eu poderia competir, mesmo que tenhamos nos casado, continuo sendo um mero burguês, não é mesmo?
— Como podes insinuar tal coisa? — Um sentimento de chateação tomou meu coração. — O que me deixou assim não foi pelo fato dele ser o noivo. O que me deixou assim foi saber que escondeste de mim por achar que meu sentimento por vosso senhorio é leviano e frágil. Vejo que ainda sentes que o que nos une é somente o vosso dinheiro. Sinto-me por completo indignada por ainda pensar tal coisa.
— Perdoe-me, não queria lhe causar este tipo de sentimento. — Ele deu alguns passos até mim, estendendo sua mão para me tocar, porém recuei.
— Não sei se consigo perdoar-lhe, não neste momento. — Me virei em direção à janela. — Preferiria que não me tocasse durante este tempo.
— Como desejar. — Sua voz ficou seca e áspera.
Instantes depois, ouvi o som da porta bater, fazendo meu corpo se arrepiar e minha alma estremecer. Senti como se tivesse atiçado o pior lado do meu marido, entretanto, estava chateada demais para me importar com os sentimentos dele. Respirei fundo e mantive meu olhar no jardim ao lado de fora. Mesmo que o dia seguinte fosse algo especial para meu pai e os outros, eu não seria tão cordial assim e não colocaria meus pés naquela igreja.
“Não sei por quê (não sei por quê)
Me diga por quê (me diga por quê)
Por que o amor acaba?
Por que as coisas
Desaparecem?
Tão bonito?
É apenas um sonho,
O amor é como um sonho
— Evanesce / Super Junior
Islands
Kyoto (Japão) — Inverno de 1843
•Assim como o planejado, o navio atracou em um porto desconhecido ao norte de Hyogo. O plano dos marujos seria saquear as cidades do litoral. Já o capitão, me levou até uma trilha secreta que estava entre os bosques. Nem mesmo os outros sabiam sobre aquela trilha, pois fazia parte do pergaminho que ele havia me entregado.
— Chegamos, Mascote — disse o capitão Salazar. — A partir desta trilha, Kyoto está à leste daqui. Basta somente seguir de acordo com o pergaminho.
— Obrigado por tudo, capitão — disse quase em sussurro.
— Você fala?! — O capitão me olhou surpreso e logo riu exageradamente. — É por isso que ganhou minha confiança. Continue sábio assim que ganhará o mundo.
Assenti com a face. Durante todo aquele tempo com os piratas, aprendi que ficar em silêncio poderia ser uma qualidade útil, além de me fazer mais observador, minha audição havia se tornado bem mais aguçada que o normal. Porém toda a minha evolução ao longo dos anos não estava relacionada ao poder, só havia um motivo para eu querer ser uma pessoa importante e respeitada na sociedade, ou melhor, uma palavra determinava todo o meu esforço: .
Eu havia perdido minhas poucas economias quando fui levado ao navio dos piratas. Nesses meses que estive com eles, não consegui juntar muita coisa e tudo o que possuía além daquele velho pergaminho, que já havia decorado totalmente, estava em uma trouxa de pano juntamente a um cantil de água. Me despedi do capitão, que voltou pela mesma rota em que viemos. A partir daquele momento, eu estava sozinho novamente. Andei por dias sem saber onde estava e nem exatamente onde chegaria, entre bosques e montanhas, até que decidi sair da trilha principal e pegar o caminho alternativo, que estava indicado com uma fina linha tracejada no pergaminho. Mais dias de caminhada, percebi que até a água do cantil havia acabado. Meu corpo quase desidratado não conseguia mais se manter de pé.
Em pleno sol que se encontrava bem ao centro do céu, minhas vistas escureceram e logo que meu corpo desabou sobre a terra, perdi a consciência. Fui despertando aos poucos, sentindo meu corpo balançar, como se estivesse sendo carregado por algo ou alguém. Nem mesmo meus olhos tentaram se abrir e desmaiei novamente. Não sei quanto tempo permaneci desacordado, mas despertei novamente, sentindo alguém me dar água de um cantil.
— O senhor está bem agora! — Era uma voz feminina, transmitia calma. — Cuidamos de vós.
— Onde estou?! — sussurrei, abrindo os olhos.
Minha visão embaçada foi tomando forma. Diante de mim, a figura de uma jovem dama surgiu. Seus traços orientais de sua face eram mais finos e delicados que as nobres damas de Londres. Até mesmo seus trajes eram diferentes, e, de acordo com o que tinha aprendido, deveria ser uma jovem japonesa. Ela mantinha um sorriso singelo nos lábios, enquanto me olhava com serenidade.
Retirando com cuidado o tecido que estava em minha testa e o umedecendo, colocou novamente sobre mim. Curiosamente, aquilo me fazia sentir refrescância, já que minha temperatura parecia elevada além do normal.
— Senpai, ele acordou — disse a senhorita, assim que um homem entrou na tenda.
— Onde estou?! — sussurrei novamente, tentando me levantar, porém meu corpo ainda estava sem forças.
— Nós é que perguntamos. Quem és?! — retrucou ele, parando em frente ao lugar onde estava deitado.
— Meu nome é — respondi, ainda sentindo um pouco de tontura. — O que aconteceu comigo? Quem são vocês?
— Eu sou Michimiya — disse a jovem. — E este é Daichi senpai. Nós te resgatamos na trilha secreta ao oeste.
— Trilha secreta?! — Não conseguia entender o que eles queriam dizer com aquilo.
— Como conseguiu achar aquela trilha? — perguntou o homem, de nome Daichi. — O que veio fazer aqui?
— Eu tenho um pergaminho que me trouxe até aqui — expliquei.
O homem se afastou.
— Fique de olho nele, Michimiya.
Assim que ela assentiu com a face, ele se retirou. Voltei meu olhar para ela, parecia ser uma pessoa caridosa e gentil, e aparentemente estava cuidando de mim, então, mesmo que de forma receosa, poderia confiar nela.
— Michimiya, onde estou? — perguntei.
— Estamos no vilarejo Akaashi — respondeu ela. — Como conseguiu seu pergaminho?! Poucas pessoas sabem da nossa localização.
— Ganhei de um amigo — respondi. — Mas por que este lugar é tão escondido e secreto?
— Porque o homem do mundo externo não sabe conviver com nossas riquezas — respondeu um outro homem, um pouco mais velho e de cabelos brancos ao entrar na tenda.
— Papai. — Michimiya se levantou e o olhou. — Daichi foi avisar sobre…
— Agradeço sua dedicação, minha filha, mas acho que, a partir de agora, nosso hóspede conseguirá se mover sozinho — disse ele, num tom de ordem, mas não era para mim.
Logo a jovem entendeu aquilo como se fosse um recado para ela, então em silêncio e discreta frustração se retirou da tenda.
— é seu nome. — Continuou ele e, elevando sua mão direita, mostrou estar segurando meu pergaminho. — Isto?! Devo presumir que não lhe pertence.
— Atualmente, sim, mas antes, não. — Concordei. — Ganhei de um amigo.
— Foi o que presumi. Por acaso sabe para onde este caminho o leva?! — perguntou novamente.
— Não, senhor. Só tem um caminho ao qual eu quero chegar e não é aqui. — Fui claro e um pouco verdadeiro em minhas palavras.
— Consegue se levantar?!
Assenti com a face, mesmo sem saber se realmente conseguiria. Apoiando minhas mãos onde estava deitado, ergui meu corpo e me levantei com um pouco de dificuldade. O senhor continuou me olhando atentamente em cada movimento.
— Venha, meu jovem, vamos conversar um pouco — disse ele, caminhando em direção à saída da tenda.
Assenti com a face, o seguindo. Do lado de fora, me deparei com um lugar encantador. Haviam várias tendas montadas pelos arredores. A mistura entre a natureza e as simples construções do homem traziam uma harmonia incomum ao lugar. À direita, onde estávamos, haviam alguns arbustos que davam flores e frutos. À esquerda, ao longo do monte, haviam várias plantações do que parecia ser arroz. Me peguei impressionado com tudo o que via ao meu redor. Consegui sentir que não somente o lugar era puro e aconchegante, mas as pessoas que ali moravam, mesmo eu sendo tão diferente, não me olhavam com preconceito ou superioridade, só conseguia enxergar a curiosidade neles.
— Presumo que seja de muito longe — disse o senhor.
— Sim, sou, mas tem muito tempo que não volto para casa. — Assenti, me lembrando vagamente da minha família. — O senhor é o líder deste vilarejo?
— Não diria assim… — Ele riu baixo. — Porém, sou o ancião mais velho, por isso sinto que devo proteger a todos.
— Um lugar tão lindo, deve mesmo ser protegido. — Concordei. — Agora entendo vossas palavras sobre as riquezas daqui. Um lugar que nenhum ouro pode comprar.
Senti o olhar admirado do ancião vir sobre mim.
— Me parece ser um jovem muito sábio — comentou, ao dar um suspiro de alívio. — Acho que podes ficar aqui até melhorar por completo.
— Agradeço por poder ficar.
Após algumas horas de longos passeios pelos arredores do vilarejo sendo apresentado para os moradores, acabei descobrindo o nome daquele ancião, o senhor Takashi havia me acolhido com gentileza, e eu ficaria naquela mesma tenda, sob a companhia de Daichi, que seria responsável por mim. Passei algumas semanas aprendendo um pouco mais sobre a cultura deles, desde o idioma e sua escrita até a agricultura. Eram ainda mais fascinantes meus momentos de conversa com o senhor Takashi ao pôr do sol.
— Então seu desejo é se tornar importante para conquistar esta jovem. — Concluiu o senhor Takashi, assim que terminei de contar sobre minha história.
— Sim, meu coração tem batido por ela desde o primeiro momento em que a vi. — Confirmei serenamente, enquanto mantinha meu olhar para frente, vendo o sol de pôr. — É um dos motivos de ter saído de casa. pertence à nobreza, e eu não era ninguém no mundo.
— Te conhecendo um pouco mais através desses dias, começo a perceber que ainda é uma criança pura e inocente — comentou, com seu tom suave de sempre.
— Criança?! — O olhei confuso.
— Sim, ainda é uma criança sob o olhar dos gananciosos — explicou ele. — Espero que seu coração jamais se corrompa pela ambição das riquezas e do poder. Para isso, mantenha sempre seu olhar nesta jovem que te motiva a ser melhor.
— Me lembrarei deste conselho, senhor. — Me curvei de leve, em forma de respeito. — Irei primeiro.
Assim que ele assentiu, me afastei, indo em direção a Daichi, que já se preparava para fazer sua ronda noturna pelo perímetro dos bosques. Eu havia me oferecido para ajudá-lo e, mesmo relutante em aceitar minha companhia, teve que acatar a ordem do senhor Takashi.
— Estou aqui, podemos ir agora — disse, num tom respeitoso, já que Daichi era o segundo no comando por ser o guerreiro mais forte e corajoso do vilarejo.
Ele era considerado um protetor por todos, tão silencioso e observador como eu. Seguimos pela nascente primeiro até chegar ao rio. Caminhamos por mais algumas horas entre as árvores do bosque, e me afastei um pouco de Daichi ao ouvir um barulho estranho ao sul perto da trilha. Quanto mais próximo do som eu chegava, mais nítido dava para entender que eram vozes de homens. Me aproximei de um arbusto e fiquei abaixado observando.
— São piratas orientais — sussurrou Daichi, aparecendo misteriosamente ao meu lado. — Não é a primeira vez deles aqui.
— Estão bem perto do nosso perímetro, não vamos fazer nada? — perguntei, mantendo meu olhar naqueles homens.
— Não. Enquanto estiverem longe de nós, ficaremos longe deles — respondeu, mantendo a firmeza em sua voz.
Ficamos por um longo tempo observando aqueles homens, até que adormeceram. Aproveitamos para sair daquele lugar. Ao chegar à metade do caminho, eu que estava caminhando na frente e senti Daichi me empurrar forte. Assim que olhei para trás, ele já estava caído e sendo preso por uma armadilha estranha, sua calça de linho estava rasgada e o sangue já se escorria pela roupa.
— Vá embora, volte e não deixe ninguém te seguir — disse ele, num tom preocupado.
— E te deixar aqui? Jamais. — Me levantei depressa e, indo até ele, comecei a analisar como era feita aquela armadilha. — Eu já vi uma assim antes.
— Deixe-me aqui, à minha própria sorte. — Ele me empurrou novamente. — De certo não valerei mais nada.
— Pare de dizer tal coisa, sempre há como reverter algo. — Mexi em alguns pinos que compunham a armadilha e, desprendendo uma ponta solta, consegui abri-la sem que fizesse algum barulho ou machucasse mais ele. — Vamos agora.
O ajudei a se levantar e o fiz se apoiar em mim. Tinha que levá-lo imediatamente ao vilarejo, assim Michimiya, com sua sabedoria em ervas, poderia ajudar de alguma forma.
— Acho que te devo essa — sussurrou ele, sua cara demonstrava o quanto era forte a dor que sentia.
— Me salvou antes, quando me empurrou. — Ri de leve. — Estamos acertados.
Assenti e parei por um momento para que ele pudesse descansar. Não estávamos muito longe da trilha que levava ao vilarejo, porém Daichi não estava conseguindo andar. O ajudei a se sentar e, rasgando uma parte de sua calça, amarrei o tecido na região em que sua perna estava ferida para estancar o sangue. Meus conhecimentos de medicina eram poucos, mas o básico conseguiria fazer para ajudá-lo.
— Onde aprendeu tudo isso? — perguntou ele.
— Eu tenho uma vida fora daqui — disse, de forma descontraída. — Passei um tempo com alguns marujos, pude aprender muita coisa.
— Perdoe-me — sussurrou ele.
— Pelo quê?! — O olhei confuso.
— Por achar o pior de vós. — Ele suspirou fraco. — Talvez por ciúmes.
— Fique tranquilo, jamais haverá algo entre mim e Michimiya. — O assegurei, com confiança. — Meu coração já está ocupado por alguém. Mesmo que ela venha não me querer, serei apenas dela.
— Vejo a sinceridade em vosso olhar, desejo que consiga o amor a quem segue amando. — Daichi desviou seu olhar para trás de mim e suas pupilas se dilataram.
— Levante-se. — Uma voz grossa surgiu.
Eu me levantei cautelosamente, precisava de uma ideia para mudar aquela situação. Se aquele homem estivesse acompanhado, poderia ser um perigo para nós e mais perigoso ainda se eles encontrassem a trilha. Assim que virei para o homem, fiz um movimento rápido para derrubá-lo. Antes mesmo que ele perdesse completamente o equilíbrio, peguei sua espada e cortei sua mão. Era a minha primeira vez ferindo alguém em uma luta. Em muitas batalhas que enfrentávamos no mar, o capitão sempre me deixava trancado em sua cabine para que eu não me machucasse, mesmo sendo o melhor em armas de toda a tripulação. Em segundos, os outros vieram, e Daichi, mesmo machucado, levantou e, com sua força e coragem, me ajudo a desarmar e ferir todos.
Era admirável como Daichi me superava de todas as formas em um manejo com a espada, talvez por seu modo de lutar ser um tanto diferente do meu, entretanto, suas habilidades, mesmo machucado, não estavam sendo afetadas.
— Pela contagem, estão todos aqui — disse, assim que empurrei o último corpo pela colina abaixo. Todos estavam feridos e desmaiados. — Analisando agora, acho que sabiam que estavam sendo vigiados.
— Talvez, ou deve ter sido pela armadilha. — Daichi se escorou em uma grande rocha e colocou a mão na altura da barriga.
— Oh, não — disse, ao ver uma ponta de sangue surgir. — Está mais ferido ainda.
— Penso em desistir agora — disse ele, cambaleando um pouco.
— Não vai. — O segurei firme. — Você irá continuar, e ainda o verei se declarar para Michimiya.
— Acha mesmo que ela aceitará?! — Ele me olhou, suas pálpebras pareciam pesadas. — Michimiya anda com seu olhar em outra pessoa.
— Ela já sabe o que penso sobre isso. — Assegurei. — Já disse, ainda quero vê-lo se declarando para quem está em vosso coração...
Seu corpo desfaleceu antes mesmo que pudesse terminar o que dizia. O joguei em minhas costas e segui em direção à trilha. Uma noite em claro de caminhada, até que cheguei ao vilarejo, gritando por socorro. Os homens vieram ao meu encontro e, sem demora, levaram Daichi para a tenda. Meu corpo também desfaleceu no chão, porém permaneci consciente. Vi ao longe Michimiya sendo solicitada e correndo para a tenda.
Permaneci lá mesmo, na terra onde havia caído, pedindo a Deus para que meu novo amigo sobrevivesse. Assim que Takashi veio até mim, contei a ele tudo o que havia se passado, desde o momento em que saímos do vilarejo até nosso retorno. Ele havia confirmado que não era a primeira vez daqueles homens ali. Assim como todas as outras pessoas que já se aproximaram da trilha para o vilarejo, eles estavam à procura das riquezas daquele lugar.
— Sua coragem foi admirável — disse o senhor Takashi, ao se aproximar de mim. — Muitos deixariam Daichi para trás.
— Não costumo fazer isso. — Assegurei. — E ficarei mais aliviado quando vê-lo em segurança novamente.
— Mesmo ele te tratando com indiferença todo este tempo, vejo que ainda o respeita e considera. — O ancião era sempre direto e sincero em suas palavras, fossem elas quais fossem.
— Sim, sempre serei. — Suspirei fraco. — Além do mais, não queria privá-lo de receber os cuidados de Michimiya.
— Ah, sim. Todo este tempo que esteve aqui, Daichi sempre lutou para despertar o interesse de minha filha. — Ele manteve seu olhar na direção da tenda. — Agora ele terá. Me entristece que seja nessas circunstâncias.
— A mim também.
As horas foram se passando. Eu descansei um pouco na tenda do ancião e, quando acordei, recebi a notícia que Daichi estava bem e já havia acordado. Meu coração se alegrou por isso e logo fui vê-lo pessoalmente.
— Vejo que está realmente bem — disse, ao entrar na tenda. — E pronto para outra aventura.
— Por favor, deixe-me mais um pouco aqui. — Brincou ele. — Estou em meu melhor dia.
— Imagino o motivo. — Desviei meu olhar para fora da tenda, onde Michimiya estava pegando mais água. — Então se declarou?
— Quando pensei que realmente iria morrer — respondeu ele.
— E a reação?
Assim que terminei minha pergunta, Michimiya adentrou na tenda.
— Meu pai o aguarda lá fora — disse ela, ao se aproximar de mim.
Assenti em silêncio e me afastei dela, indo em direção ao ancião.
— Espero que esteja melhor hoje, meu jovem — disse ele.
— Sim, senhor.
— Venha, quero lhe mostrar algo — disse ele, seguindo para o leste.
Assenti, o seguindo. Não sabia ao certo para onde estávamos indo, mas confiava no ancião. Foi uma longa caminhada entre as colinas, até que chegamos a uma escadaria que parecia ainda mais infinita. Ao topo, uma espécie de templo que estava em ruínas. Virei meu olhar para trás e contemplei um pouco o horizonte rico de belezas naturais. O ancião me fez esperar sentado por um tempo. Segundo ele, só poderíamos entrar naquele lugar quando a lua surgisse no céu.
E assim aconteceu. Ao anoitecer, ele acendeu a tocha que havíamos levado e, encontrando em uma velha pira, logo o fogo a tomou, seguindo por toda a extensão da lateral. Deste modo, adentramos o lugar que, já se encontrava totalmente iluminado pelo fogo. Meu corpo congelou e minha mente parou assim que coloquei meus olhos em todo aquele tesouro que ocupava o salão principal do templo.
— Um dia eu lhe disse sobre nossa riqueza — se pronunciou o ancião. — Mas não me referia às belas paisagens que nos rodeiam.
Agora, sim, eu entendi, principalmente sobre o modo que mencionava sobre a ganância do homem por ouro e prata. Me fez imaginar que todo este tempo em que Takashi me deixou ficar no vilarejo, era um teste para saber se eu era ou não digno de saber sobre a verdade que se escondia naquele lugar.
“A estrada é longa e a água era profunda,
Meus pés estão congelados e houve luz além do oceano,
O tempo flui, mesmo em dias que não são calmas,
Você estava comigo durante todo o meu tempo."
— Islands / Super Junior
Para saber quando essa fanfic vai atualizar, acompanhe aqui.