c Bits of You by Soldada

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Codificada por Lua ☾
Última atualização: 24/05/2026

PARTE UM • YETI
“My tongue’s forgotten how,
To shape your name the way it sounds
We’re nothing but myths now
That neither of us believe in

No muscle memory, no lingering taste
I left you no note, you left me no sign
Of where I plan to go, of what you’ve gone to find
Sweet indifference, gentle apathy
Wholesome, quiet dispassion, restful neutrality”.

PARIS PALOMA. Yeti.

DE: von-brandt.edward@therunes.com
PARA:
misssunshine.Lulu25@gmail.com
ASSUNTO: Só me dê um minuto, , por favor!

Lembra daquele caderno velho que a gente compartilhava, logo quando você começou a faculdade? A banda ainda se chamava Dregs, acho que ainda morava com meu irmão, e você jurava que o caderno era seu… estava tão certo que foi você que tinha roubado o meu caderno! A gente nunca descobriu quem era o dono no fim, não foi? Foi mais fácil… sei lá, só dividir a guarda dele e seguir em frente. Lenny achava um barato, ele ainda acha, se quer saber, mas ele também é um chapado de merda na maior parte do tempo agora, então ele acha até a porra de uma rachadura na parede irada. Encontrei o caderno duas noites atrás, eu não sabia que estava comigo.
Acho que era seu mesmo. O caderno, sabe?
Tinha seu antigo endereço. Da casa do seu pai, aquela amarela…
Você ainda usa esse e-mail? Tá, certo, risca isso, eu to sendo um puta idiota, é claro que não tenho como saber, você definitivamente não quer falar comigo, porque mais não responderia…
Olha, eu não queria ter te magoado, é só que as coisas aconteceram e…
Porra você me odeia agora, não é?
Olha, eu sei que você me bloqueou em tudo, consigo ver (até no e-mail, , sério? Isso já é…) não culpo você por me odiar, se quer saber. Meio que fiz minha cama, agora tenho que deitar nela, tô ligado disso, na real mesmo. Se a situação fosse contrária, acho que faria o mesmo, não sei, gosto de pensar que teria te dado pelo menos a oportunidade de explicar… merda, olha, antes de clicar no botão de excluir essa aqui também, só leia até o fim. Está será a única, eu prometo! Tá certo, eu sei que minhas promessas não valem de nada para você, olha, , é sério, só, me dá essa única chance… tô ligado que meio que fiz minha cama, agora tenho que deitar nela, eu sei, eu sei. Se a situação fosse contrária, acho que faria o mesmo, não sei, gosto de pensar que teria te dado pelo menos a oportunidade de explicar… porra, eu não consigo fazer isso sem parecer um babaca. Então eu sou um babaca. Tá aí, admiti, se quiser posso falar isso ao vivo, as pessoas meio que acham que sou assim. Merda… teu silêncio é uma porra, . Não consigo lidar mais com ele, é sério, sei que mereço, sei que fiz por onde, e sei que você me odeia por tudo o que deixei você passar, mas isso… por favor, é bem amargo para engolir, saca? Achei que, com o tempo, a gente poderia… sei lá, sentar e conversar. Como amigos, a gente tem tanta coisa para resolver…
Logan ainda fala comigo. Ele sempre me encontra quando estamos em Los Angeles, a gente tá fazendo mais pausas com as turnês do que o normal por causa do Thommy, mas bem, não tô reclamando não. Comprei uma casa em Santa Mônica, em Point Dume, sabe? Perto do desfiladeiro, a visão é… deveria ser incrível, mas se quer saber é uma merda! Quando o vento bate forte, faz uma sujeira, tem cheiro de maresia o tempo todo, e as portas são de metal, então tem cheiro de maresia o tempo todo, e as portas são de metal, então tem que trocar a cada três em três meses quando começa a enferrujar. Não acredito que vou dizer isso, mas você tava certa até nisso! Além disso, mansão é coisa do Riggs, não minha. O Logan me leva pra pescar também, às vezes a gente cola no Arcade velho, do Mick Morsa. Eu sei que você cortou contato com ele por causa de mim. Entendo o porquê, , mas porra, isso também tá machucando ele. Não tem um santo dia que não veja ele encarando a porra do celular como um cachorro sem dono, ele corre para atender as ligações achando que em algum momento será você, mas nunca é. Ele é seu irmão,
Eu já destruí tanta coisa na sua vida, você vai me fazer carregar mais essa? Eu não quero… não posso ser mais uma das razões para que você… pelo menos, o resto da tua família ainda me detesta, né? A Lisa me mandou uma carta de 22 páginas dizendo o quão burro, idiota, e nojento eu sou, e que se eu quisesse continuar respirando, eu deveria parar de tentar entrar em contato. A Marlyn cuspiu em mim numa sessão de autógrafos. Ela ficou umas duas horas esperando, só para cuspir em mim, na boa? Puta dedicação do caralho.
A gente nunca vai se resolver, né? Que merda cara, se você soubesse o quanto quero resolver isso, pelo menos isso, mas não vai rolar, vai? Não sei porque continuo voltando, você claramente não me quer aqui…
Odeio isso, . Odeio tudo isso. Destrui tudo, fodi com tudo e você foi o dano colateral, eu nunca planejei que você fosse acabar no meio disso tudo, você sabe que não era para ter sido assim! Éramos só nós, e então eu quis ser eu, e fodi com tudo. Fodi com a melhor coisa que já tive na minha vida… odeio que não há nada que possa fazer para consertar isso. Odeio que você não me deixe consertar. Você é a única ferida aberta que tenho ainda, e não vai cicatrizar.
Odeio que quando falo com Lenny, a primeira coisa que ele me diz é “não importa a intenção se o resultado é o mesmo”, porque é você que escuto. Não tenho direito algum de pedir alguma coisa, mas mesmo que você não acredite, me arrependo demais…
Não sei o porquê continuo assim tão apegado a você, e não sei porque to escrevendo isso. É quase meia noite aqui, considerando que você nunca me respondeu, nem entrou em contato comigo, uma vez sequer, eu sei que to falando com uma parede. É ridículo isso, acho que essa merda de e-mail virou meu terapeuta. Mas sabe o que é mais idiota? É que eu meio que fico esperando ainda, um dia, você abrir essa merda, ver a quantidade de e-mails que te mandei, e sei lá, talvez, só me mande para ir ao inferno… você não vai me responder, você nunca vai saber de nada disso, eu só precisava… colocar isso para fora, saca?
O Johnny saiu da banda. Faz uns dois meses já. Cara, você não tem ideia da falta que ele faz. Foi o certo, ele ter pulado fora, não dá para julgar ele, e mesmo que ele não esteja mais junto com a gente no palco, não é ruim viver como compositor e produtor, mas não é mais a mesma coisa. É uma merda! Porra, eu fico pensando nisso… irônico não é? Eu, Von Brandt, pensando nisso, é muita falta de…
Essa merda é vazia, .
É frio, esquisito, às vezes sinto que tá rastejando para fora de mim. Lenny diz que só to pensando demais, mas não parece, parece que to afundando nesse inferno todo dia e não tenho como escapar. Achei que seria incrível, e por um tempo, até foi, você meio que se sente como um deus, saca? Imparável, incrível, foda para um caralho… é uma merda total. Um papel em branco. Não gosto de nada, é só um bando de desgraçados repetindo coisas para te agradar, bajulação constante. Não é real, , nada aqui é real!
E a minha melhor parte, ficou com você.
Esquece tudo o que disse. Nada disso importa. Não é por isso que to aqui, mesmo que você não vá ler. Eu tinha certeza de que o caderno tinha ficado com você, você sempre gostou mais dele do que eu, só assumi que, quando fui embora, você o pegou, mas achei ele aqui, no meio das minhas coisas… não sei o que fazer com ele.
Passei horas lendo… tô sentado digitando aqui e parece um filme de terror. Não tem para onde olhar que não chame atenção. Você ainda desenha?... Invasivo, eu sei, foi mal. Só quero devolver seu caderno, é um completo desperdício manter ele aqui, comigo, você poderia aproveitá-lo melhor. É mais seu do que meu mesmo. A gente pode, não sei, conversar? Se quiser? Só por cinco minutos, , eu prometo que não vou demorar, só quero… só…
Não precisa me encontrar. Se enviar pro teu irmão o endereço, deixo com ele. Não vou ler, nem tentar descobrir onde você está vivendo agora. Eu entendi o recado, posso ser idiota, um filho da puta desgraçado, mas não sou burro… não nesse ponto. Só queria me livrar disso logo.
Não vou mais incomodar você. É isso.
Sinto muito, .
Por tudo.
Não tem um dia que não me arrependa.


.

TWs: o capítulo a seguir possuí descrições gráficas de uma OVERDOSE, pule para o próximo capítulo caso se sinta desconfortável.



Agora.

DUAS SEMANAS ATRÁS. Não contenho um grunhido exasperado ao observar a marcação da maldita data de envio. É claro que faz duas semanas, e é claro que não recebi nenhuma resposta dela; os outros 704 e-mails que mandei continuam do mesmo jeito: enviados, provavelmente lotando a caixa de entrada dela, talvez estivesse até mesmo programados para irem para o spam, nunca respondidos, sequer visualizados. Só entregues naquele maldito vazio que não servia de nada. Eu nem faço ideia se ela ainda é capaz de entrar nessa maldita conta — provavelmente não, provavelmente se esqueceu da senha ou simplesmente nem se lembra da conta. Ela tinha feito outras, sabia disso. Ela havia trocado de número a quase oito meses atrás, quando minhas ligações pararam de ir para a caixa postal e algum desconhecido atendeu o telefone. Primeiro achei que aquilo só poderia ser brincadeira; uma forma dela se vingar de mim talvez, mostrar que havia seguido em frente ao deixar o novo namorado ou seja lá o que fosse, atendesse o celular dela para marcar território. Quase vomitei quando ouvi a voz do cara, mas então ele não tinha ideia de quem era , e percebi, como a quem de repente abre os olhos após andar por muito tempo em uma corda bamba sob um princípio infinito, que ela havia trocado de número. Simples assim: sem aviso, sem nenhuma resposta de “vá se foder, ” ou “me deixe em paz”. Ela havia cortado a última maneira que eu poderia ter de alcançá-la, e ocorreu-me que havia acabado. Acho que chorei aquela noite — não estou orgulhoso disso, mas se estou na miséria, que diferença faz admitir? O número pertencia a um tal de Kyle, e não servia para mais nada, mesmo que nossas mensagens ainda estivessem salvas na desculpa patética e antiquada do meu celular.
O aparelho já havia visto dias melhores, agora era um amontoado de tela rachada, cristal líquido se acumulando e obscurecendo o canto superior como uma pequena mancha, e desligava do nada — um aviso que não demoraria muito para que o aparelho quebrasse de vez, para meu total desespero. Ainda tinha as fotos salvas ali, as notas e listas que havia feito; a mensagem que havia mandado a quase um ano e meio atrás. “Acabou. Não me procure”. O gosto amargo ainda é pungente em minha boca quando lembro dessa merda; quando lembro que não havia escolha na época. Quando percebo o quão idiota eu era. Mas uma parte de mim tinha esperanças de que fosse… sei lá, tentar lutar por nós. Ela sempre foi esse tipo de pessoa de qualquer forma; a que lutava com unhas e dentes por aqueles que amava. Ela dizia me amar… mas sumir não foi difícil, solto um riso baixo nasalado amargo e dolorido ao perceber o quão idiota sou. Ela sumiu tão facilmente. Ela desistiu.
Ela havia mudado de emprego e cidade — ninguém me disse para onde ela havia ido —, fez novas redes sociais, tinha um tik tok privado, um instagram trancado, com apenas 8 seguidores. Lembro-me vividamente de ter perdido duas noites inteiras procurando fotos plausíveis para criar o perfil de uma loja de suplementos de arte que parecessem plausíveis, para conseguir acessar a conta dela. Logan havia virado a primeira noite comigo, dando ideias e sugerindo postagens e comentários que eu poderia fazer para deixar a conta “mais real”. Não deu certo. Na lista de seguidores, a quantidade permaneceu a mesma — comparado com as minhas, era sem dúvidas o lugar mais exclusivo do planeta, e eu, certamente, estou banido permanentemente. Marlyn, Lisa, o pai dela, Edgar, estavam lá, algumas pessoas cujos rostos e nomes não faço ideia de quem sejam, mas que provavelmente fazem parte de sua nova vida em um lugar completamente distante. Nem mesmo Logan havia conseguido entrar naquela merda, e ele havia tentado, duas vezes; da primeira havia seguido com a conta oficial dele, da banda, o que gerou um certo burburinho, mas que foi facilmente abafado com algumas notas de dinheiro e uma polêmica idiota minha sobre conotaxão sexual em minhas entrevistas. Um porco narsista, chamaram-me, e bem, não estão lá assim longe da verdade — exceto que minha higiene é a única coisa da qual orgulho-me por possuir. Da segunda vez, Logan tentou segui-la com a conta privada dele, uma conta estúpida que tínhamos desde que éramos mais novos e estávamos na faculdade. Não deu certo. recusou todos os pedidos, e então o bloqueou em todas as redes sociais.
Edgar recusava-se a conversar comigo, é claro. Sou apenas o ex idiota que havia a largado no segundo que algo melhor apareceu, mas recusava-se a informar Logan também da vida da irmã mais nova, e isso era o que corroía, porque tenho certeza de que isso também é culpa minha. Não posso culpá-la por isso. Na verdade, é exatamente o que mereço, é uma merda que ainda queira mais do que mereço.
Tenciono a mandíbula passando pelos inúmeros e-mails enviados ao longo desses um ano e meio, com frustração. Em algum momento isso parou de ser uma tentativa de alcancá-la para tentar fazer as pazes com o passado, para ver se consigo ao menos concertar algo que quebrei tão futilmente, e tornou-se a porra do meu diário. Tenho escrito mais nessa merda de caixa de entrada do que em minha vida inteira na porra do caderno que deveria servir como apoio para nossas composições. Porra cara… fecho meus olhos com força, praguejando com um grunhido em tom de voz alta. Exalo bruscamente, arremessando para o outro lado do quarto a merda do aparelho. Me arrependo dois segundos depois, levantando-me bruscamente, cambaleando em direção onde o aparelho havia se espatifado. Posso sentir o desespero atingir-me ao perceber que posso tê-lo quebrado permanentemente, e então, uma onda de alívio me toma por completo ao ver que, não, ainda estava funcionado, só havia feito a porra de um estrondo mais alto do que deveria. Fecho meus olhos com força, ciente de que Charles, o nosso empresário, irá incentivar-me pela quinta vez comprar um aparelho novo, e o aparelho novo terá o mesmo fim que os outros 10 que ele havia comprado nos últimos seis meses; quando eu tivesse a brilhante ideia de tentar stalkear o facebook dela. A conta está abandonada desde maio do ano retrasado. Alguns dos amigos em comum que tínhamos até especula se ela morreu ou só desapareceu. Ninguém se importa o suficiente de ir atrás dela para saber mais. E ela? Tampouco parece se importar em deixar pistas para trás. Ela simplesmente havia sumido, simples assim.
Quero gritar. Quero acertar minha cabeça na parede e acertar-me com toda a fúria que acumula-se em meu peito. Porque a culpa é minha. Fui eu que fiz isso; quero bradar que aquilo não era justo e porra, céus sabem como quero culpá-la e odiá-la por isso. Seria simplesmente mais fácil se eu conseguisse odiá-la. Mas não posso; porque estou apenas enfrentando as consequências dos meus atos. As consequências que não eram exatamente o que eu esperava ter que lidar. Sou egoísta o suficiente para desejar que ela não tenha aceitado a situação. Se por ego ou desespero, queria que pelo menos ela tivesse me escolhido. Que tivesse lutado por mim, que tivesse dado um jeito de me encontrar e gritar por horas, que dissesse que odiava-me, que nunca mais queria me ver em sua vida. Eu poderia lidar com isso, eu poderia lidar com o ódio dela. Ela poderia me acusar, xingar, faria sentido. Ao em vez disso, ela apenas desapareceu. Não ligou, não xingou, não fez nada, apenas sumiu como se nunca tivesse existido, como se eu nunca tivesse feito parte de sua vida. Não era apenas um golpe traiçoeiro em meu ego, era também, a percepção dolorosa de que, porventura, eu não tenha sido tão importante assim para ela.
Agora, ela era o maldito fantasma que atormentava-me; que assombrava-me pelos cantos da casa e que corroía minha mente de dentro para fora, mas dúvido muito que ela pensasse em mim a essa altura. Duvido muito que tenha feito alguma diferença na vida dela, e a pior parte? Odeio-a por me fazer sentir-me invisível.
Fecho meus olhos com força. Meus dentes trincaram com um estalo alto, o gesto é um erro imediato. Minhas têmporas latejavam pela pressão que imprimo no gesto, como se não passassem de meros elásticos a muito tensionados beirando ao iminente rompimento causado pelo desgaste. Jogo o celular de volta a mesa de som a minha frente, números piscam, borrados e meu corpo está cálido demais — não é só a porra do alcool que corre por minhas veias que está atormentando meu raciocínio, tornando-o mais lento e defasado, é a mistura com a cocaína que martela em meus ouvidos. A música alta abafa meus ouvidos, transforma o latejar irritante que se instala ali em um amontoado desnorteador que apenas piora a dor em minha cabeça. A bateria de Viggo é enlouquecedora: está alta demais, com raiva demais, se sobressai sobre a guitarra de Logan, e o baixo de Asher é praticamente uma monotonia de notas repetidas, dum, dum dum, é como se estivessemos tentando encontrar uma sincronia em três direções diferentes. Começo a rir; essa música é um desastre. A banda é um desastre.
Eu sou pior ainda. Mas ao em vez de escutar o que estão dizendo, acho que começo a rir, mais alto do que poderia ocultar, porque os olhos de meus colegas de trabalho se voltam em minha direção. Passo minhas mãos em meu rosto, os dedos fincam-se nos cabelos desalinhados e grandes demais que não tenho tido tempo para cortar faz um ano — ou simplesmente não quis cortar. Desde que percebi que não iria voltar, desde que me contentei com a ideia de que minha existência atual era implorar para uma parede me ouvir, e sussurrar o nome dela toda vez que gozasse com outra mulher. Puta merda, acho que estou tendo um colapso emocional, e nem mesmo isso é o suficiente para me consolar no momento.
— Isso é uma merda — digo simples e direto, e posso ver a ofensa nítida no semblante de Logan. Johnny se tenciona ao meu lado, trocando um olhar com Lenny e tenho certeza que posso ler o que estão pensando: “código vermelho”. Haviam três códigos na banda que funcionavam como diretrizes para evitar potenciais brigas devastadoras: código azul, para quando eu estava chapado demais para lidar com alguma coisa, minhas respostas se tornaram excessivamente emocionais e começaria a explodir com todos sem importar com as consequências. Quando recobrou a consciência, seria o momento que a procissão de desculpas começaria e o arrependimento, apesar de sincero, me consumiria. Normalmente ninguém costumava levar para o lado pessoal quando essas situações ocorriam comigo; eles revelavam, de alguma forma, ou então retribuem na mesma medida tão bêbados e loucos quanto eu poderia estar. Então havia o Código Amarelo, que era quando meu humor estava tão sombrio que era impossível conversar comigo; simplesmente perdia o interesse de falar e isso resultava em um silêncio prolongado que ou terminaria com uma explosão minha, abandonando tudo para ficar sozinho, ou acabaria comigo concordando com qualquer merda que me sugerissem, mesmo que me recusasse a fazer. Charles adorava quando estávamos em Código Amarelo. Servia bem ao propósito: “vocês são uma marca garotos” era o que sempre dizia. Uma marca. A porra de uma marca e nada mais; e que marca boa era essa. E então, havia o Código Vermelho que consistia basicamente em uma explosão de raiva consciente de minha parte; essas eram as piores, esses eram os momentos em que eu genuinamente decidia simplesmente largar tudo. Que se dane essa porra de celebridade, esse sonho estúpido de ser alguém, que se dane a música que de nada me serve mais. Que se dane fãs que se sentiam no direito de agirem como se eu fosse propriedade deles; minha única intenção era largar tudo, abandonar mesmo e sumir. Não sei para onde posso ir, nunca tive uma casa para voltar, e, depois de dois anos, a única pessoa que poderia me manter à deriva, havia me largado para afogar num oceano de erros e culpa criados por mim mesmo. Talvez o desaparecimento que desejasse com tanto afinco, não fosse apenas presencial, fosse igualmente físico. — É ridículo. Descordenado, que porra é essa? Se vamos trabalhar com isso então porque a gente tá aqui? Essa merda já acabou — Solto um riso nasalado, esfregando meu rosto com um pouco mais de força. Céus, quero tanto gritar.
— ‘Cê nem tá sóbrio cara, que porra ‘cê tá falando? — A acusação parte de Asher, e tenho vontade de arrebentar o rosto do garoto. Asher é um moleque, mais novo de todos nós, e foi escolhido a dedo por Charles para ocupar a vaga que Johnny havia deixado na banda. O problema era que o filho da puta se achava no direito de comentar e fazer apontamentos que tampouco lhe diziam respeito; ele não era parte dessa banda, era a porra de um subistituto.
Não consigo conter um sorriso afiado na direção do moleque. É bonito, claro, rosto anguloso e bem esculpido como a porra de uma estatua grega, tinha uma ou outra tatuagem e usava aquela regata insuportável que dizia ser seu estilo — preta, esfolada nas mangas, com alguns buracos calculados para ficar parecendo que era puída quando na verdade não passava de uma estratégia de marketing da marca; desde que ele havia passado a usar aquela merda, as vendas subiram. Era incrível que nem mesmo a roupa que usávamos era de escolha própria.
Imagino , ouvindo isso, e soltando uma gargalhada alta e satisfeita. Como seu rosto se iluminaria com a satisfação de que ela estava certa, de que ela havia sido vingada por quaisquer forças do universo; que o karma de fato havia encontrado em mim grande parceria. Frustração queima, cálida como lava por minha corrente sanguínea, e por um instante minha mente parece girar desconexa. É como se estivesse preso em duas extremidades opostas; uma está me puxando violentamente para a energia acumulada que a droga havia gerado, a outra parece aprofundar uma sensação de amortecimento crescente, tornando os músculos de meu corpo amortecidos, como se estivesse perdendo a sensibilidade dos membros a cada fôlego que perto. Meu peito dói, um peso esquisito se estabelecesse ali, comprimindo e sufocando tudo ao meu redor; meu coração martela, em disparada, como um pássaro preso em uma gaiola bem ao centro da caixa torácica, ao mesmo tempo que erra as batidas. Minha cabeça parece estar prestes a explodir. Esfrego minhas têmporas com mais força, sentindo um cheiro esquisito e pungente começar a aprofundar-se em minhas narinas: metálico, quase lembra a ferrugem.
— Exatamente cara, eu estou drogado, e essa porra soa como lixo, o que você acha que vai acontecer se lançarmos essa merda? — Praguejo entre dentes, fechando meus olhos, há uma sensação sufocante e desconcertante que começa a palpitar no meu cérebro. Sinto as pontas dos meus dedos, amortecidas, formigar, pequenas agulhas invisíveis sendo fincadas contra a pele em um ataque consecutivo. O gosto amargo em minha boca parece aumentar com passe que algo cálido acumula-se em minha boca. Que porra… forço um riso que reverbera dolorosamente contra meu peito contraído, os músculos de meus braços se tencionando em pequenos espasmos. — Vamos ser sinceros, essa banda acabou antes de começar. Foi ótimo enquanto durou, mas acabou.
— Você não decide isso, Edward — Logan é ríspido, afiado como uma navalha.
Obrigo-me a abrir os olhos e encará-lo com raiva. Ele não desvia o olhar e odeio encarar seus olhos; são como os de , apenas dois tons mais claros que os dela, mais duros e enxergam-me pelo o que sou, e não com aquela expressão esperançosa que costumava a trazer-me tanto ansiedade quanto vã esperança de que poderia fazer algo que fosse bom uma vez em minha vida — é claro que não poderia; sempre vou foder tudo. É a sina dos , meu pai era assim, eu sou assim, não tem como escapar dessa merda tanto quanto posso escapar de minha própria pele e acredite, eu tentei.
— Vá se foder Logan! Você sabe que estou falando a verdade.
— Não porra, você tá falando como a merda de um drogado suicida! Foda-se que você está passando por alguma coisa agora, você tá sempre passando por alguma merda — Logan explode antes que possa registrar a crescente de sua raiva. Por algum motivo, sinto-me letárgico, como se o mundo estivesse desacelerando vagarosamente ao meu redor. Minha pele está quente, provavelmente da bebida, mas o tremor que se segue faz com que sinta frio. Pisco algumas vezes, tentando focar nele, mas mal consigo enxergá-lo. Minha visão está começando a ficar mais e mais embaçada, as cores ficam saturadas, vividas demais para que pareçam normais, e o som começa a soar distante, mesmo para mim. Preciso esforçar-me para conseguir ouvir o que Logan está dizendo. Ele está gritando, finalmente perdeu a paciência comigo, e tudo o que consigo fazer é rir.
O riso que escapa de meus lábios é quase histérico. Estou perdendo a cabeça e no final de tudo só consigo pensar em quanto precisava que estivesse aqui. É como se finalmente estivesse percebendo que havia perdido a única coisa capaz de apontar-me para o norte, como se tivesse perdido meus olhos por puro e mero capricho. Acho que Logan perde o controle e pula em mim, porque sinto a dor explodir na lateral de meu rosto. Minha cabeça é lançada para o lado. As vozes se tornam berros, mas estão distorcidas. Minha garganta se contraí, queimando, tento respirar fundo, mas o ar parece apenas queimar minhas vias respiratórias, o oxigênio não entra. A tosse que escapa de minha garganta é estranhamente molhada, o gosto pungente de ferrugem se espalha em minha boca. Preciso sair daqui, preciso quebrar alguma coisa, preciso… levanto-me de supetão antes que avance no pescoço de Logan e destrua a única coisa que ainda me resta nessa merda de vida, não que agora, tenha muitas esperanças de mantê-la. De todos nós, Logan era o mais calmo, se ele estava disposto a arrebentar a minha cara, então significava que eu havia fodido tudo a troco de nada.
Agarro minha jaqueta de couro do encosto da cadeira, chacoalhando minha cabeça, e cambaleando em direção a porta. Dou dois passos quando tudo escurece, de súbito. Em um momento estou presente, em outro, não há mais nada, só vazio.




Continua...


Nota da autora:- Oi deus, sou eu de novo, é que eu perdi o controle.


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