Capítulo 01
Um segredo destinado apenas a ele
Todos nós sabemos como fingir, meu bem
We Must Be Killers — Mikky Ekko
O príncipe Aerion foi surpreendido pela visão deslumbrante de Targaryen quando a comitiva real chegou a Solarestival. Não esperava que a prima fosse acompanhá-los ao Torneio de Vaufreixo — era pequeno demais para ela. Nos últimos dias, porém, não conseguia parar de imaginá-la ali.
Era uma obsessão patética, é claro. A princesa nem sequer tinha os cabelos valirianos que deveria. Seus fios eram escuros como os do pai dela, o príncipe Baelor. No entanto, assim como seu irmão gêmeo Valarr, ela tinha uma mecha prateada-dourada. Mas diferente da dele, que se via de longe, a de ficava por baixo dos outros fios, além de ser maior. E, o pior de tudo: ela fazia questão de esconder aquela preciosidade que gritava que era do sangue do dragão. Até mesmo quando prendia o cabelo em penteados que ressaltavam sua máscara de princesa inocente, era impossível ver um fio claro o suficiente.
Aerion, contudo, a vira bem de pertinho uma única vez. No dia em que erguera os cabelos dela para beijar-lhe o pescoço e o ameaçara, aos risos, dizendo que o fatiaria com a adaga negra que sempre carregava com ela. Em vez disso, porém, havia permitido os beijos sedentos sem jamais sequer fazer menção de pegar a lâmina em seu cinto.
Aerion não conseguira parar de pensar naquilo desde então. No modo que ela gostava de morder-lhe o lábio com força, em como foi tê-la nos braços, tocá-la, beijá-la… Era ridículo demais. Ele odiava isso. Mesmo assim, pensava a respeito dia e noite.
Parado, de pé, próximo à entrada em arco do palácio, Aerion mantinha os braços cruzados e os olhos afiados — de um tom profundo de violeta — impenetráveis como pedra. A brisa agitava-lhe os cabelos louro-prateados — agora curtos e bem alinhados —, mas ele não se deu ao trabalho de ajeitá-los. Não estava ali para encantar ninguém, tampouco desempenhar o papel de anfitrião principesco. Estava ali por ela.
Algo rompeu-se dentro dele quando , enfim, afastou-se da carruagem com a graça natural que vestia como armadura. A adaga com cabo incrustado de ônix misturava-se ao cinto e ao vestido, visível apenas o suficiente para se parecer com outro detalhe bonito qualquer. Por dois malditos anos, ele havia se perguntado se ela um dia havia chegado a usá-la contra alguém ou se todas as suas ameaças eram vazias.
Sua mandíbula travou. A princesa continuava exatamente como ele se lembrava. Seus cabelos escuros caíam em cascata sobre um ombro como tinta derramada sob o luar. E, por baixo de tudo, aquela fita oculta do puro prateado valiriano que, exceto a família direta, somente ele fora agraciado com a oportunidade de ver.
Vestida em seda azul-clara bordada com fios de prata, caminhava ao lado do Príncipe Baelor e de Valarr. Ela não despendeu nem um mínimo olhar para Aerion, como se nada tivesse acontecido entre eles na Fortaleza Vermelha, dois anos antes, naquele encontro furtivo atrás daquela antiga tapeçaria. Aerion, entretanto, se lembrava muito bem, ainda que preferisse se esquecer. A lembrança que mais voltava era a da risada dela contra os seus lábios antes de mordê-lo com força suficiente para fazê-lo arfar.
A comitiva do príncipe Baelor passaria dois dias no palácio antes de seguir para o torneio. O caminho direto de Porto Real para Vaufreixo era muito mais curto; entretanto, como o intuito era demonstrar a força, a união e a estabilidade da Casa Targaryen depois de anos tão conturbados desde a Rebelião Blackfyre, por que não visitar Solarestival primeiro? Além do mais, ambos os ramos da família partirem juntos rumo a Vaufreixo seria ainda melhor do que apenas se encontrarem por lá.
E quando ouvira a ideia diretamente da boca de seu amado pai, insistira que deveria acompanhá-los naquela aventura até que ele, por fim, havia cedido. Valarr conversara com a irmã assim que saíram da presença de Baelor. Dissera, não desprovido de carinho, que sabia que ela estava tramando alguma coisa. Desde que eram crianças, seu irmão gêmeo sempre parecia capaz de farejar quando aprontaria outra de suas travessuras. E ele acertara de novo, só não fazia ideia da dimensão dos planos dela dessa vez — que começavam em reencontrar o primo e terminavam em dar adeus a Westeros.
Todo mundo que via a adorada princesa na comitiva se surpreendia com sua presença ali. Não à toa, o príncipe Maekar também ficara surpreso ao ver a sobrinha em sua casa.
— Ah, querido tio, o senhor sabe o quanto gosto de uma boa diversão — respondeu ela. Sua voz doce e gentil enganava a quase todos, fazendo-a parecer a perfeita princesa de comportamento exemplar. — Além do mais, quando soube que desceríamos a Solarestival primeiro, simplesmente não podia permitir que meu pai me deixasse para trás. — Lançou um breve olhar ao príncipe Baelor, que acenou em concordância, e então se voltou ao tio. — Eu não poderia perder a magnífica oportunidade de admirar Solarestival com meus próprios olhos.
O sorriso suave e a postura graciosa sugeriam somente um entusiasmo inocente em conhecer o palácio, mas ela não estava olhando para nada estático do lugar. Não. Seus olhos se dirigiram ao primo em um breve relance, tão carregado de significado que tornava impossível confundi-lo com um acidente. E demorou-se ali por um período a mais do que as conveniências permitiam, antes de virar o rosto e prosseguir a conversa com o príncipe Maekar como se nada tivesse acontecido.
E aquela foi toda a interação que existira entre eles naquela tarde. Apesar de serem primos, não eram próximos o suficiente para se afastarem do grupo e conversarem como velhos amigos. A única intimidade que já compartilharam era imprópria demais para servir de desculpa ali. E Aerion não era o tipo de homem que a procuraria no meio de uma reunião social porque queria conversar.
Assim, tiveram que se contentar com trocas de olhares ao longo do jantar e das festividades daquela noite. Olhares e olhadelas em excesso. Aerion se esforçava para desviar os olhos ao perceber que também o observava. No entanto, via-se procurando por ela sempre que não tinham contato visual.
Maldita mulher. Maldita obsessão.
O banquete foi um borrão de música, tilintar de taças e conversas vazias. Toda vez que entrava até mesmo em sua visão periférica — deslizando sob a luz das velas como fumaça ganhando forma em seda pálida —, seu pulso o traía.
Ela não havia se sentado muito perto dele. Claro que não. Estava posicionada entre o pai e o irmão, que lançava olhares furtivos e desconfiados na direção dele. Era óbvio que Valarr tinha noção de que algo acontecia, afinal, conhecia a irmã. agora ria baixinho de algo que ele dissera, um som tão leve que não deveria significar nada. Aerion, contudo, lembrava-se bem das risadinhas dela — ofegantes contra sua boca, logo antes de mordê-lo com força o bastante para deixar marca.
E agora estava ali, perto e longe ao mesmo tempo, e ainda radiante como sempre sob as chamas douradas que cintilavam na prataria polida. Cada olhar trocado entre os dois queimava com mais intensidade do que qualquer fogo de dragão jamais poderia almejar. E — maldito seja! — aqueles olhares haviam se tornado mais frequentes do que qualquer um deles pretendia.
Era patético.
O banquete prosseguiu noite adentro. O vinho fluía livremente e as vozes aumentavam a cada instante. Aerion distraiu-se com uma cena ridícula protagonizada por seu irmão Daeron — que, provavelmente, já estava bêbado antes mesmo do fim da tarde. Quando revirou os olhos e voltou-se para o salão, sua prima tinha desaparecido. Não estava nem perto do pai dela, nem do dele, nem de Valarr e sua esposa tyroshi. Varreu o recinto com o olhar. Nada. Olhou com mais calma, perscrutando entre os reunidos, mas não viu sinal algum da seda azul-clara dela.
A ausência o incomodava mais do que deveria. Para onde a maldita Targaryen fora? O que fazia? Pegou-se imaginando em que tipo de encrenca ela havia se metido dessa vez. Aquele rostinho doce e seus modos inocentes podiam ludibriar todos os outros, mas nunca o enganaram de verdade. Aerion sempre soube que existia algo por trás de toda aquela graça perfeita. Pelo menos um pouquinho de escuridão. E permitira que ele deslumbrasse um resquício disso dois anos atrás.
E agora, que estava tão perto outra vez, tinha simplesmente sumido? Inaceitável!
Continuou procurando. Seu olhar viajava de porta em porta, para todo canto na penumbra, cada vislumbre de seda clara. Era absurdo como a falta de no ambiente se tornara palpável de maneira tão rápida, como uma coceira sob a pele que não o deixava em paz. Dois malditos anos sem vê-la, e não conseguia suportar a ideia de não saber onde ela estava naquela noite?
E então finalmente a viu, parada de pé em um canto sombrio ao lado de uma das entradas do salão — semiescondida nas sombras, como um segredo destinado apenas a ele. O vestido azul-claro fundia-se à penumbra ao seu redor e o brilho tênue dos archotes refletido nos cabelos escuros lhe trazia uma aura divina. Seus olhares se cruzaram com uma intensidade diferente dessa vez. Aqueles olhos penetrantes e perspicazes… Pelos deuses! Aqueles olhos — castanhos com um toque de um roxo tão escuro que parecia índigo se não olhasse bem de pertinho e com atenção — revelavam inteligência demais para alguém que fingia tanta doçura.
ergueu a mão de leve e fez um único gesto de dois dedos, chamando-o. Aerion hesitou, afinal, aquilo o levaria a um terreno perigoso. Mas não era como se o orgulho fosse vencer tão facilmente depois de dois anos de obsessão. Então se levantou com elegância e ajustou a roupa por puro costume, sem nunca tirar os olhos da silhueta de , que o aguardava fora do alcance do brilho dos festejos.
Aerion Targaryen atravessou o salão com a graça natural de um príncipe que jamais precisara questionar se o mundo abriria espaço para ele. De presença marcante mesmo a pouca luz, alto, esbelto e de postura firme como uma adaga bem afiada, ele exibia uma autoridade espontânea que atraía os olhares mesmo sem dar motivo para tal.
esperou até que ele estivesse perto o suficiente para admirar o violeta profundo de seus olhos e, só então, virou-lhe as costas sem dizer uma palavra. Saiu pela entrada em arco e seguiu em direção aos corredores mais silenciosos. Ela sabia que, se ele tinha vindo até ali, com certeza a seguiria. E foi o que ele fez.
Adentraram mais a fundo nos corredores, deixando o ruído do banquete para trás. Olhou por cima do ombro uma vez para verificar o caminho percorrido, e depois repetiu a ação na curva seguinte. Parou apenas quando se certificou de que não havia, de fato, ninguém por perto.
— Aerion… — murmurou baixinho ao virar-se para ele. — Preciso de você.
Uma força peculiar o atingiu em cheio. O príncipe brilhante a imaginara dizendo aquelas três palavrinhas inúmeras vezes nos últimos dois anos, em mais situações do que gostaria de admitir. A simples lembrança o fazia se sentir um tolo. Passara tempo demais montando aquela imagem em sua cabeça: o tom de voz dela, a boca, a respiração contra sua pele e tudo o que as palavras poderiam significar quando ditas por ela.
Indiscutivelmente patético. Ele era Aerion Chamaviva; era tudo menos patético.
Agora que finalmente estava sozinho com ela outra vez e ouvira-lhe dizer que precisava dele, tinha soado diferente. Mais estranho. Qualquer que fosse o sentido por baixo daquela necessidade, estava claro que não era algo tão simples quanto as fantasias que passara anos tentando enterrar.
Seu estômago retorceu-se no silêncio do corredor. As paredes de pedra abafavam a música distante do salão, e as longas sombras dançavam no rosto sério e concentrado de . Ainda assim, a princesa o escolhera para compartilhar aquilo, fosse o que fosse. Um nó formou-se na garganta e, de repente, nenhuma palavra vinha com facilidade. Nenhum charme fluía naturalmente. E nenhuma máscara principesca era capaz de esconder o quanto aquilo o afetava lá no fundo, onde nem o orgulho cortante chegava rápido o suficiente.
Muito ciente da proximidade, Aerion atacou pela única via possível:
— Algo no seu tom me diz que, com isso… — Apoiou a mão na parede, bem ao lado dela, perto o suficiente para tornar o gesto sedutor e ainda manter uma distância deliberada entre seus corpos — não deve estar querendo dizer que me quer te prensando contra a parede do jeitinho que você gosta, com meus lábios na sua pele e seus sussurros ofegantes.
soltou o ar pelo nariz em uma risada baixa que mostrava que a provocação tinha funcionado. Os cantos de sua boca se curvaram em um sorrisinho que a denunciava até mais do que a mordida no lábio inferior.
— Você ainda se lembra — disse ela.
— Lembro-me de coisas que gostaria de esquecer — respondeu.
— Ah, eu duvido muito que queira me esquecer. — Estendeu a mão e alisou uma pequena dobra na frente do gibão dele. — Mas tem razão, não é isso que quero. Pelo menos não agora.
A familiaridade do gesto o pegou desprevenido. A maneira que ela estendeu a mão, como se fosse detentora de todo o direito de ajeitar as roupas dele; como se fizesse aquilo todos os dias, sendo que a única outra vez havia sido dois anos atrás, quando parte das roupas de ambos ficaram um pouco fora do lugar. o fazia agora como se tocá-lo fosse tão natural quanto respirar.
Ao se recuperar do impacto, Aerion passou a focar nas palavras dela; ou melhor, no termo mais importante… O que foi que ela quis dizer com “não agora”? Seria mais tarde? Talvez nunca? Ou quem sabe apenas algo adiado por um motivo que ele ainda não compreendia?
Observou o rosto dela, desde a curva daquele lábio recém-mordido de que se lembrava tão bem, até os olhos escuros que guardavam mais segredos do que a política da corte. Algo amargo revirou-se em seu interior. estava, de fato, ali por ele, mas não por paixão. Ao menos não de imediato. E, de alguma forma, aquilo doía mais do que uma rejeição.
Manteve a mão apoiada na parede e o rosto levemente inclinado para fitá-la. A proximidade era propícia para qualquer coisa além de aguardar em silêncio e tentar manter o autocontrole. Aerion não queria nada além de reivindicar aqueles lábios provocativos após dois anos sem senti-los. Mas não o fez. Não agora.
percebeu, claro que sim. Se fosse em outras circunstâncias, ela mesma teria encurtado a mínima distância e o beijado até perder o fôlego. Não era como se já não tivesse tomado a iniciativa com ele antes, no fim das contas. Na Fortaleza Vermelha, havia sido quem rira contra a boca dele primeiro e mordera-lhe o lábio enquanto ele descobria com que facilidade ela era capaz de fazer Aerion Chamaviva perder a compostura.
Naquela noite, porém, seu foco estava em um lugar bem diferente, então ficou feliz em vê-lo composto. Ao menos por enquanto.
O plano que começara a bolar no dia seguinte ao que acontecera na estrada, quando ainda viajavam há algumas boas léguas da segurança de Solarestival, já estava em andamento. O primeiro passo fora dado. O segundo era envolver seu primo — o que faria agora. E ela confiava nele o suficiente para acreditar que não daria para trás quando finalmente visse do que se tratava.
havia encontrado um ótimo local enquanto vagava por Solarestival naquela tarde: um jardim murado, escondido atrás do palácio, a uma certa distância que o tirava dos caminhos habituais. Era magnífico, repleto de árvores e vegetação e, o melhor: parecia pouco frequentado. Em uma das extremidades, o terreno se elevava o bastante para que o muro ficasse mais baixo em relação ao solo. Além dele, do lado de fora do palácio, havia uma encosta íngreme.
Parecia o lugar perfeito para uma vingancinha particular com direito a um pouco de sangue. E jogar um corpo por cima do muro não seria tão difícil assim com a ajuda de alguém forte o suficiente para levantá-lo. Até o terreno jogava a favor dela nesse plano, tanto do lado de dentro, quanto do lado de fora — devido à encosta com aquele belo e longo declive. Se tudo corresse bem, o cadáver poderia nem ser descoberto até que todos que importavam tivessem partido para Vaufreixo.
Obviamente, não tinha mencionado essa parte a Aerion. Era cedo demais para isso. Na verdade, ela nem precisou explicar muito sobre onde desejava que ele a encontrasse. Solarestival era o lar de Aerion, afinal de contas. Ao começar a descrever o jardim, ele já sabia a qual se referia.
desapareceu nos corredores antes mesmo que ele pudesse insistir em perguntar o quê, exatamente, ela queria dizer com “preciso de você”. De qualquer modo, duvidava muito que ela o responderia.
O importante no momento era que queria vê-lo na calada da noite, em um jardim pouco usado nos fundos do palácio… depois de olhar no fundo de seus olhos e murmurar que precisava dele. E ela não estava falando de beijos, amassos ou sexo. Não… Ele conseguia sentir que havia algo estranho nisso. E o pior era que gostava ainda mais da sensação.
Passara dois malditos anos desejando a presença dela e se odiando por isso. Qualquer que fosse o propósito inusitado que a trouxera até ele e a fizera engolir o próprio orgulho para pedir-lhe ajuda, com certeza seria interessante. E Aerion não desperdiçaria tamanha oportunidade. Então voltou para o salão e esperou as horas passarem.
A noite avançou tão lenta quanto podia sempre que alguém esperava avidamente por algo que viria a acontecer. Aerion permaneceu no banquete por muito mais tempo que a própria , afinal, não adiantaria segui-la por aí feito um idiota antes da hora combinada. Ele manteve seu habitual porte de príncipe: sorria — sem vontade — quando se esperava que o fizesse, interagia ao buscarem sua atenção, erguia a taça com certa frequência, como se de fato se importasse com o vinho ou a conversa. Sua mente, no entanto, viajava para outro lugar.
Irritava-o profundamente o fato de ela tê-lo deixado no escuro a respeito do que queria… ou por quê. Mas a curiosidade ardia com uma intensidade que a frustração jamais conseguiria alcançar.
Então ele encontraria naquele jardim isolado, com muros cobertos de hera, para sabe-se lá o quê. Os deuses sabiam que uma parte dele desejava que fosse para toques e beijos, mas ele já aceitara que seria para algo completamente distinto. Algo sigiloso o bastante para exigir a escuridão em vez da luz.
E Aerion mal podia esperar para descobrir.
We Must Be Killers — Mikky Ekko
O príncipe Aerion foi surpreendido pela visão deslumbrante de Targaryen quando a comitiva real chegou a Solarestival. Não esperava que a prima fosse acompanhá-los ao Torneio de Vaufreixo — era pequeno demais para ela. Nos últimos dias, porém, não conseguia parar de imaginá-la ali.
Era uma obsessão patética, é claro. A princesa nem sequer tinha os cabelos valirianos que deveria. Seus fios eram escuros como os do pai dela, o príncipe Baelor. No entanto, assim como seu irmão gêmeo Valarr, ela tinha uma mecha prateada-dourada. Mas diferente da dele, que se via de longe, a de ficava por baixo dos outros fios, além de ser maior. E, o pior de tudo: ela fazia questão de esconder aquela preciosidade que gritava que era do sangue do dragão. Até mesmo quando prendia o cabelo em penteados que ressaltavam sua máscara de princesa inocente, era impossível ver um fio claro o suficiente.
Aerion, contudo, a vira bem de pertinho uma única vez. No dia em que erguera os cabelos dela para beijar-lhe o pescoço e o ameaçara, aos risos, dizendo que o fatiaria com a adaga negra que sempre carregava com ela. Em vez disso, porém, havia permitido os beijos sedentos sem jamais sequer fazer menção de pegar a lâmina em seu cinto.
Aerion não conseguira parar de pensar naquilo desde então. No modo que ela gostava de morder-lhe o lábio com força, em como foi tê-la nos braços, tocá-la, beijá-la… Era ridículo demais. Ele odiava isso. Mesmo assim, pensava a respeito dia e noite.
Parado, de pé, próximo à entrada em arco do palácio, Aerion mantinha os braços cruzados e os olhos afiados — de um tom profundo de violeta — impenetráveis como pedra. A brisa agitava-lhe os cabelos louro-prateados — agora curtos e bem alinhados —, mas ele não se deu ao trabalho de ajeitá-los. Não estava ali para encantar ninguém, tampouco desempenhar o papel de anfitrião principesco. Estava ali por ela.
Algo rompeu-se dentro dele quando , enfim, afastou-se da carruagem com a graça natural que vestia como armadura. A adaga com cabo incrustado de ônix misturava-se ao cinto e ao vestido, visível apenas o suficiente para se parecer com outro detalhe bonito qualquer. Por dois malditos anos, ele havia se perguntado se ela um dia havia chegado a usá-la contra alguém ou se todas as suas ameaças eram vazias.
Sua mandíbula travou. A princesa continuava exatamente como ele se lembrava. Seus cabelos escuros caíam em cascata sobre um ombro como tinta derramada sob o luar. E, por baixo de tudo, aquela fita oculta do puro prateado valiriano que, exceto a família direta, somente ele fora agraciado com a oportunidade de ver.
Vestida em seda azul-clara bordada com fios de prata, caminhava ao lado do Príncipe Baelor e de Valarr. Ela não despendeu nem um mínimo olhar para Aerion, como se nada tivesse acontecido entre eles na Fortaleza Vermelha, dois anos antes, naquele encontro furtivo atrás daquela antiga tapeçaria. Aerion, entretanto, se lembrava muito bem, ainda que preferisse se esquecer. A lembrança que mais voltava era a da risada dela contra os seus lábios antes de mordê-lo com força suficiente para fazê-lo arfar.
A comitiva do príncipe Baelor passaria dois dias no palácio antes de seguir para o torneio. O caminho direto de Porto Real para Vaufreixo era muito mais curto; entretanto, como o intuito era demonstrar a força, a união e a estabilidade da Casa Targaryen depois de anos tão conturbados desde a Rebelião Blackfyre, por que não visitar Solarestival primeiro? Além do mais, ambos os ramos da família partirem juntos rumo a Vaufreixo seria ainda melhor do que apenas se encontrarem por lá.
E quando ouvira a ideia diretamente da boca de seu amado pai, insistira que deveria acompanhá-los naquela aventura até que ele, por fim, havia cedido. Valarr conversara com a irmã assim que saíram da presença de Baelor. Dissera, não desprovido de carinho, que sabia que ela estava tramando alguma coisa. Desde que eram crianças, seu irmão gêmeo sempre parecia capaz de farejar quando aprontaria outra de suas travessuras. E ele acertara de novo, só não fazia ideia da dimensão dos planos dela dessa vez — que começavam em reencontrar o primo e terminavam em dar adeus a Westeros.
Todo mundo que via a adorada princesa na comitiva se surpreendia com sua presença ali. Não à toa, o príncipe Maekar também ficara surpreso ao ver a sobrinha em sua casa.
— Ah, querido tio, o senhor sabe o quanto gosto de uma boa diversão — respondeu ela. Sua voz doce e gentil enganava a quase todos, fazendo-a parecer a perfeita princesa de comportamento exemplar. — Além do mais, quando soube que desceríamos a Solarestival primeiro, simplesmente não podia permitir que meu pai me deixasse para trás. — Lançou um breve olhar ao príncipe Baelor, que acenou em concordância, e então se voltou ao tio. — Eu não poderia perder a magnífica oportunidade de admirar Solarestival com meus próprios olhos.
O sorriso suave e a postura graciosa sugeriam somente um entusiasmo inocente em conhecer o palácio, mas ela não estava olhando para nada estático do lugar. Não. Seus olhos se dirigiram ao primo em um breve relance, tão carregado de significado que tornava impossível confundi-lo com um acidente. E demorou-se ali por um período a mais do que as conveniências permitiam, antes de virar o rosto e prosseguir a conversa com o príncipe Maekar como se nada tivesse acontecido.
E aquela foi toda a interação que existira entre eles naquela tarde. Apesar de serem primos, não eram próximos o suficiente para se afastarem do grupo e conversarem como velhos amigos. A única intimidade que já compartilharam era imprópria demais para servir de desculpa ali. E Aerion não era o tipo de homem que a procuraria no meio de uma reunião social porque queria conversar.
Assim, tiveram que se contentar com trocas de olhares ao longo do jantar e das festividades daquela noite. Olhares e olhadelas em excesso. Aerion se esforçava para desviar os olhos ao perceber que também o observava. No entanto, via-se procurando por ela sempre que não tinham contato visual.
Maldita mulher. Maldita obsessão.
O banquete foi um borrão de música, tilintar de taças e conversas vazias. Toda vez que entrava até mesmo em sua visão periférica — deslizando sob a luz das velas como fumaça ganhando forma em seda pálida —, seu pulso o traía.
Ela não havia se sentado muito perto dele. Claro que não. Estava posicionada entre o pai e o irmão, que lançava olhares furtivos e desconfiados na direção dele. Era óbvio que Valarr tinha noção de que algo acontecia, afinal, conhecia a irmã. agora ria baixinho de algo que ele dissera, um som tão leve que não deveria significar nada. Aerion, contudo, lembrava-se bem das risadinhas dela — ofegantes contra sua boca, logo antes de mordê-lo com força o bastante para deixar marca.
E agora estava ali, perto e longe ao mesmo tempo, e ainda radiante como sempre sob as chamas douradas que cintilavam na prataria polida. Cada olhar trocado entre os dois queimava com mais intensidade do que qualquer fogo de dragão jamais poderia almejar. E — maldito seja! — aqueles olhares haviam se tornado mais frequentes do que qualquer um deles pretendia.
Era patético.
O banquete prosseguiu noite adentro. O vinho fluía livremente e as vozes aumentavam a cada instante. Aerion distraiu-se com uma cena ridícula protagonizada por seu irmão Daeron — que, provavelmente, já estava bêbado antes mesmo do fim da tarde. Quando revirou os olhos e voltou-se para o salão, sua prima tinha desaparecido. Não estava nem perto do pai dela, nem do dele, nem de Valarr e sua esposa tyroshi. Varreu o recinto com o olhar. Nada. Olhou com mais calma, perscrutando entre os reunidos, mas não viu sinal algum da seda azul-clara dela.
A ausência o incomodava mais do que deveria. Para onde a maldita Targaryen fora? O que fazia? Pegou-se imaginando em que tipo de encrenca ela havia se metido dessa vez. Aquele rostinho doce e seus modos inocentes podiam ludibriar todos os outros, mas nunca o enganaram de verdade. Aerion sempre soube que existia algo por trás de toda aquela graça perfeita. Pelo menos um pouquinho de escuridão. E permitira que ele deslumbrasse um resquício disso dois anos atrás.
E agora, que estava tão perto outra vez, tinha simplesmente sumido? Inaceitável!
Continuou procurando. Seu olhar viajava de porta em porta, para todo canto na penumbra, cada vislumbre de seda clara. Era absurdo como a falta de no ambiente se tornara palpável de maneira tão rápida, como uma coceira sob a pele que não o deixava em paz. Dois malditos anos sem vê-la, e não conseguia suportar a ideia de não saber onde ela estava naquela noite?
E então finalmente a viu, parada de pé em um canto sombrio ao lado de uma das entradas do salão — semiescondida nas sombras, como um segredo destinado apenas a ele. O vestido azul-claro fundia-se à penumbra ao seu redor e o brilho tênue dos archotes refletido nos cabelos escuros lhe trazia uma aura divina. Seus olhares se cruzaram com uma intensidade diferente dessa vez. Aqueles olhos penetrantes e perspicazes… Pelos deuses! Aqueles olhos — castanhos com um toque de um roxo tão escuro que parecia índigo se não olhasse bem de pertinho e com atenção — revelavam inteligência demais para alguém que fingia tanta doçura.
ergueu a mão de leve e fez um único gesto de dois dedos, chamando-o. Aerion hesitou, afinal, aquilo o levaria a um terreno perigoso. Mas não era como se o orgulho fosse vencer tão facilmente depois de dois anos de obsessão. Então se levantou com elegância e ajustou a roupa por puro costume, sem nunca tirar os olhos da silhueta de , que o aguardava fora do alcance do brilho dos festejos.
Aerion Targaryen atravessou o salão com a graça natural de um príncipe que jamais precisara questionar se o mundo abriria espaço para ele. De presença marcante mesmo a pouca luz, alto, esbelto e de postura firme como uma adaga bem afiada, ele exibia uma autoridade espontânea que atraía os olhares mesmo sem dar motivo para tal.
esperou até que ele estivesse perto o suficiente para admirar o violeta profundo de seus olhos e, só então, virou-lhe as costas sem dizer uma palavra. Saiu pela entrada em arco e seguiu em direção aos corredores mais silenciosos. Ela sabia que, se ele tinha vindo até ali, com certeza a seguiria. E foi o que ele fez.
Adentraram mais a fundo nos corredores, deixando o ruído do banquete para trás. Olhou por cima do ombro uma vez para verificar o caminho percorrido, e depois repetiu a ação na curva seguinte. Parou apenas quando se certificou de que não havia, de fato, ninguém por perto.
— Aerion… — murmurou baixinho ao virar-se para ele. — Preciso de você.
Uma força peculiar o atingiu em cheio. O príncipe brilhante a imaginara dizendo aquelas três palavrinhas inúmeras vezes nos últimos dois anos, em mais situações do que gostaria de admitir. A simples lembrança o fazia se sentir um tolo. Passara tempo demais montando aquela imagem em sua cabeça: o tom de voz dela, a boca, a respiração contra sua pele e tudo o que as palavras poderiam significar quando ditas por ela.
Indiscutivelmente patético. Ele era Aerion Chamaviva; era tudo menos patético.
Agora que finalmente estava sozinho com ela outra vez e ouvira-lhe dizer que precisava dele, tinha soado diferente. Mais estranho. Qualquer que fosse o sentido por baixo daquela necessidade, estava claro que não era algo tão simples quanto as fantasias que passara anos tentando enterrar.
Seu estômago retorceu-se no silêncio do corredor. As paredes de pedra abafavam a música distante do salão, e as longas sombras dançavam no rosto sério e concentrado de . Ainda assim, a princesa o escolhera para compartilhar aquilo, fosse o que fosse. Um nó formou-se na garganta e, de repente, nenhuma palavra vinha com facilidade. Nenhum charme fluía naturalmente. E nenhuma máscara principesca era capaz de esconder o quanto aquilo o afetava lá no fundo, onde nem o orgulho cortante chegava rápido o suficiente.
Muito ciente da proximidade, Aerion atacou pela única via possível:
— Algo no seu tom me diz que, com isso… — Apoiou a mão na parede, bem ao lado dela, perto o suficiente para tornar o gesto sedutor e ainda manter uma distância deliberada entre seus corpos — não deve estar querendo dizer que me quer te prensando contra a parede do jeitinho que você gosta, com meus lábios na sua pele e seus sussurros ofegantes.
soltou o ar pelo nariz em uma risada baixa que mostrava que a provocação tinha funcionado. Os cantos de sua boca se curvaram em um sorrisinho que a denunciava até mais do que a mordida no lábio inferior.
— Você ainda se lembra — disse ela.
— Lembro-me de coisas que gostaria de esquecer — respondeu.
— Ah, eu duvido muito que queira me esquecer. — Estendeu a mão e alisou uma pequena dobra na frente do gibão dele. — Mas tem razão, não é isso que quero. Pelo menos não agora.
A familiaridade do gesto o pegou desprevenido. A maneira que ela estendeu a mão, como se fosse detentora de todo o direito de ajeitar as roupas dele; como se fizesse aquilo todos os dias, sendo que a única outra vez havia sido dois anos atrás, quando parte das roupas de ambos ficaram um pouco fora do lugar. o fazia agora como se tocá-lo fosse tão natural quanto respirar.
Ao se recuperar do impacto, Aerion passou a focar nas palavras dela; ou melhor, no termo mais importante… O que foi que ela quis dizer com “não agora”? Seria mais tarde? Talvez nunca? Ou quem sabe apenas algo adiado por um motivo que ele ainda não compreendia?
Observou o rosto dela, desde a curva daquele lábio recém-mordido de que se lembrava tão bem, até os olhos escuros que guardavam mais segredos do que a política da corte. Algo amargo revirou-se em seu interior. estava, de fato, ali por ele, mas não por paixão. Ao menos não de imediato. E, de alguma forma, aquilo doía mais do que uma rejeição.
Manteve a mão apoiada na parede e o rosto levemente inclinado para fitá-la. A proximidade era propícia para qualquer coisa além de aguardar em silêncio e tentar manter o autocontrole. Aerion não queria nada além de reivindicar aqueles lábios provocativos após dois anos sem senti-los. Mas não o fez. Não agora.
percebeu, claro que sim. Se fosse em outras circunstâncias, ela mesma teria encurtado a mínima distância e o beijado até perder o fôlego. Não era como se já não tivesse tomado a iniciativa com ele antes, no fim das contas. Na Fortaleza Vermelha, havia sido quem rira contra a boca dele primeiro e mordera-lhe o lábio enquanto ele descobria com que facilidade ela era capaz de fazer Aerion Chamaviva perder a compostura.
Naquela noite, porém, seu foco estava em um lugar bem diferente, então ficou feliz em vê-lo composto. Ao menos por enquanto.
O plano que começara a bolar no dia seguinte ao que acontecera na estrada, quando ainda viajavam há algumas boas léguas da segurança de Solarestival, já estava em andamento. O primeiro passo fora dado. O segundo era envolver seu primo — o que faria agora. E ela confiava nele o suficiente para acreditar que não daria para trás quando finalmente visse do que se tratava.
havia encontrado um ótimo local enquanto vagava por Solarestival naquela tarde: um jardim murado, escondido atrás do palácio, a uma certa distância que o tirava dos caminhos habituais. Era magnífico, repleto de árvores e vegetação e, o melhor: parecia pouco frequentado. Em uma das extremidades, o terreno se elevava o bastante para que o muro ficasse mais baixo em relação ao solo. Além dele, do lado de fora do palácio, havia uma encosta íngreme.
Parecia o lugar perfeito para uma vingancinha particular com direito a um pouco de sangue. E jogar um corpo por cima do muro não seria tão difícil assim com a ajuda de alguém forte o suficiente para levantá-lo. Até o terreno jogava a favor dela nesse plano, tanto do lado de dentro, quanto do lado de fora — devido à encosta com aquele belo e longo declive. Se tudo corresse bem, o cadáver poderia nem ser descoberto até que todos que importavam tivessem partido para Vaufreixo.
Obviamente, não tinha mencionado essa parte a Aerion. Era cedo demais para isso. Na verdade, ela nem precisou explicar muito sobre onde desejava que ele a encontrasse. Solarestival era o lar de Aerion, afinal de contas. Ao começar a descrever o jardim, ele já sabia a qual se referia.
desapareceu nos corredores antes mesmo que ele pudesse insistir em perguntar o quê, exatamente, ela queria dizer com “preciso de você”. De qualquer modo, duvidava muito que ela o responderia.
O importante no momento era que queria vê-lo na calada da noite, em um jardim pouco usado nos fundos do palácio… depois de olhar no fundo de seus olhos e murmurar que precisava dele. E ela não estava falando de beijos, amassos ou sexo. Não… Ele conseguia sentir que havia algo estranho nisso. E o pior era que gostava ainda mais da sensação.
Passara dois malditos anos desejando a presença dela e se odiando por isso. Qualquer que fosse o propósito inusitado que a trouxera até ele e a fizera engolir o próprio orgulho para pedir-lhe ajuda, com certeza seria interessante. E Aerion não desperdiçaria tamanha oportunidade. Então voltou para o salão e esperou as horas passarem.
A noite avançou tão lenta quanto podia sempre que alguém esperava avidamente por algo que viria a acontecer. Aerion permaneceu no banquete por muito mais tempo que a própria , afinal, não adiantaria segui-la por aí feito um idiota antes da hora combinada. Ele manteve seu habitual porte de príncipe: sorria — sem vontade — quando se esperava que o fizesse, interagia ao buscarem sua atenção, erguia a taça com certa frequência, como se de fato se importasse com o vinho ou a conversa. Sua mente, no entanto, viajava para outro lugar.
Irritava-o profundamente o fato de ela tê-lo deixado no escuro a respeito do que queria… ou por quê. Mas a curiosidade ardia com uma intensidade que a frustração jamais conseguiria alcançar.
Então ele encontraria naquele jardim isolado, com muros cobertos de hera, para sabe-se lá o quê. Os deuses sabiam que uma parte dele desejava que fosse para toques e beijos, mas ele já aceitara que seria para algo completamente distinto. Algo sigiloso o bastante para exigir a escuridão em vez da luz.
E Aerion mal podia esperar para descobrir.