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Black Dagger

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Capítulo 01

Um segredo destinado apenas a ele

Todos nós sabemos como fingir, meu bem
We Must Be Killers — Mikky Ekko

O príncipe Aerion foi surpreendido pela visão deslumbrante de Targaryen quando a comitiva real chegou a Solarestival. Não esperava que a prima fosse acompanhá-los ao Torneio de Vaufreixo — era pequeno demais para ela. Nos últimos dias, porém, não conseguia parar de imaginá-la ali.
Era uma obsessão patética, é claro. A princesa nem sequer tinha os cabelos valirianos que deveria. Seus fios eram escuros como os do pai dela, o príncipe Baelor. No entanto, assim como seu irmão gêmeo Valarr, ela tinha uma mecha prateada-dourada. Mas diferente da dele, que se via de longe, a de ficava por baixo dos outros fios, além de ser maior. E, o pior de tudo: ela fazia questão de esconder aquela preciosidade que gritava que era do sangue do dragão. Até mesmo quando prendia o cabelo em penteados que ressaltavam sua máscara de princesa inocente, era impossível ver um fio claro o suficiente.
Aerion, contudo, a vira bem de pertinho uma única vez. No dia em que erguera os cabelos dela para beijar-lhe o pescoço e o ameaçara, aos risos, dizendo que o fatiaria com a adaga negra que sempre carregava com ela. Em vez disso, porém, havia permitido os beijos sedentos sem jamais sequer fazer menção de pegar a lâmina em seu cinto.
Aerion não conseguira parar de pensar naquilo desde então. No modo que ela gostava de morder-lhe o lábio com força, em como foi tê-la nos braços, tocá-la, beijá-la… Era ridículo demais. Ele odiava isso. Mesmo assim, pensava a respeito dia e noite.
Parado, de pé, próximo à entrada em arco do palácio, Aerion mantinha os braços cruzados e os olhos afiados — de um tom profundo de violeta — impenetráveis como pedra. A brisa agitava-lhe os cabelos louro-prateados — agora curtos e bem alinhados —, mas ele não se deu ao trabalho de ajeitá-los. Não estava ali para encantar ninguém, tampouco desempenhar o papel de anfitrião principesco. Estava ali por ela.
Algo rompeu-se dentro dele quando , enfim, afastou-se da carruagem com a graça natural que vestia como armadura. A adaga com cabo incrustado de ônix misturava-se ao cinto e ao vestido, visível apenas o suficiente para se parecer com outro detalhe bonito qualquer. Por dois malditos anos, ele havia se perguntado se ela um dia havia chegado a usá-la contra alguém ou se todas as suas ameaças eram vazias.
Sua mandíbula travou. A princesa continuava exatamente como ele se lembrava. Seus cabelos escuros caíam em cascata sobre um ombro como tinta derramada sob o luar. E, por baixo de tudo, aquela fita oculta do puro prateado valiriano que, exceto a família direta, somente ele fora agraciado com a oportunidade de ver.
Vestida em seda azul-clara bordada com fios de prata, caminhava ao lado do Príncipe Baelor e de Valarr. Ela não despendeu nem um mínimo olhar para Aerion, como se nada tivesse acontecido entre eles na Fortaleza Vermelha, dois anos antes, naquele encontro furtivo atrás daquela antiga tapeçaria. Aerion, entretanto, se lembrava muito bem, ainda que preferisse se esquecer. A lembrança que mais voltava era a da risada dela contra os seus lábios antes de mordê-lo com força suficiente para fazê-lo arfar.
A comitiva do príncipe Baelor passaria dois dias no palácio antes de seguir para o torneio. O caminho direto de Porto Real para Vaufreixo era muito mais curto; entretanto, como o intuito era demonstrar a força, a união e a estabilidade da Casa Targaryen depois de anos tão conturbados desde a Rebelião Blackfyre, por que não visitar Solarestival primeiro? Além do mais, ambos os ramos da família partirem juntos rumo a Vaufreixo seria ainda melhor do que apenas se encontrarem por lá.
E quando ouvira a ideia diretamente da boca de seu amado pai, insistira que deveria acompanhá-los naquela aventura até que ele, por fim, havia cedido. Valarr conversara com a irmã assim que saíram da presença de Baelor. Dissera, não desprovido de carinho, que sabia que ela estava tramando alguma coisa. Desde que eram crianças, seu irmão gêmeo sempre parecia capaz de farejar quando aprontaria outra de suas travessuras. E ele acertara de novo, só não fazia ideia da dimensão dos planos dela dessa vez — que começavam em reencontrar o primo e terminavam em dar adeus a Westeros.
Todo mundo que via a adorada princesa na comitiva se surpreendia com sua presença ali. Não à toa, o príncipe Maekar também ficara surpreso ao ver a sobrinha em sua casa.
— Ah, querido tio, o senhor sabe o quanto gosto de uma boa diversão — respondeu ela. Sua voz doce e gentil enganava a quase todos, fazendo-a parecer a perfeita princesa de comportamento exemplar. — Além do mais, quando soube que desceríamos a Solarestival primeiro, simplesmente não podia permitir que meu pai me deixasse para trás. — Lançou um breve olhar ao príncipe Baelor, que acenou em concordância, e então se voltou ao tio. — Eu não poderia perder a magnífica oportunidade de admirar Solarestival com meus próprios olhos.
O sorriso suave e a postura graciosa sugeriam somente um entusiasmo inocente em conhecer o palácio, mas ela não estava olhando para nada estático do lugar. Não. Seus olhos se dirigiram ao primo em um breve relance, tão carregado de significado que tornava impossível confundi-lo com um acidente. E demorou-se ali por um período a mais do que as conveniências permitiam, antes de virar o rosto e prosseguir a conversa com o príncipe Maekar como se nada tivesse acontecido.
E aquela foi toda a interação que existira entre eles naquela tarde. Apesar de serem primos, não eram próximos o suficiente para se afastarem do grupo e conversarem como velhos amigos. A única intimidade que já compartilharam era imprópria demais para servir de desculpa ali. E Aerion não era o tipo de homem que a procuraria no meio de uma reunião social porque queria conversar.
Assim, tiveram que se contentar com trocas de olhares ao longo do jantar e das festividades daquela noite. Olhares e olhadelas em excesso. Aerion se esforçava para desviar os olhos ao perceber que também o observava. No entanto, via-se procurando por ela sempre que não tinham contato visual.
Maldita mulher. Maldita obsessão.
O banquete foi um borrão de música, tilintar de taças e conversas vazias. Toda vez que entrava até mesmo em sua visão periférica — deslizando sob a luz das velas como fumaça ganhando forma em seda pálida —, seu pulso o traía.
Ela não havia se sentado muito perto dele. Claro que não. Estava posicionada entre o pai e o irmão, que lançava olhares furtivos e desconfiados na direção dele. Era óbvio que Valarr tinha noção de que algo acontecia, afinal, conhecia a irmã. agora ria baixinho de algo que ele dissera, um som tão leve que não deveria significar nada. Aerion, contudo, lembrava-se bem das risadinhas dela — ofegantes contra sua boca, logo antes de mordê-lo com força o bastante para deixar marca.
E agora estava ali, perto e longe ao mesmo tempo, e ainda radiante como sempre sob as chamas douradas que cintilavam na prataria polida. Cada olhar trocado entre os dois queimava com mais intensidade do que qualquer fogo de dragão jamais poderia almejar. E — maldito seja! — aqueles olhares haviam se tornado mais frequentes do que qualquer um deles pretendia.
Era patético.
O banquete prosseguiu noite adentro. O vinho fluía livremente e as vozes aumentavam a cada instante. Aerion distraiu-se com uma cena ridícula protagonizada por seu irmão Daeron — que, provavelmente, já estava bêbado antes mesmo do fim da tarde. Quando revirou os olhos e voltou-se para o salão, sua prima tinha desaparecido. Não estava nem perto do pai dela, nem do dele, nem de Valarr e sua esposa tyroshi. Varreu o recinto com o olhar. Nada. Olhou com mais calma, perscrutando entre os reunidos, mas não viu sinal algum da seda azul-clara dela.
A ausência o incomodava mais do que deveria. Para onde a maldita Targaryen fora? O que fazia? Pegou-se imaginando em que tipo de encrenca ela havia se metido dessa vez. Aquele rostinho doce e seus modos inocentes podiam ludibriar todos os outros, mas nunca o enganaram de verdade. Aerion sempre soube que existia algo por trás de toda aquela graça perfeita. Pelo menos um pouquinho de escuridão. E permitira que ele deslumbrasse um resquício disso dois anos atrás.
E agora, que estava tão perto outra vez, tinha simplesmente sumido? Inaceitável!
Continuou procurando. Seu olhar viajava de porta em porta, para todo canto na penumbra, cada vislumbre de seda clara. Era absurdo como a falta de no ambiente se tornara palpável de maneira tão rápida, como uma coceira sob a pele que não o deixava em paz. Dois malditos anos sem vê-la, e não conseguia suportar a ideia de não saber onde ela estava naquela noite?
E então finalmente a viu, parada de pé em um canto sombrio ao lado de uma das entradas do salão — semiescondida nas sombras, como um segredo destinado apenas a ele. O vestido azul-claro fundia-se à penumbra ao seu redor e o brilho tênue dos archotes refletido nos cabelos escuros lhe trazia uma aura divina. Seus olhares se cruzaram com uma intensidade diferente dessa vez. Aqueles olhos penetrantes e perspicazes… Pelos deuses! Aqueles olhos — castanhos com um toque de um roxo tão escuro que parecia índigo se não olhasse bem de pertinho e com atenção — revelavam inteligência demais para alguém que fingia tanta doçura.
ergueu a mão de leve e fez um único gesto de dois dedos, chamando-o. Aerion hesitou, afinal, aquilo o levaria a um terreno perigoso. Mas não era como se o orgulho fosse vencer tão facilmente depois de dois anos de obsessão. Então se levantou com elegância e ajustou a roupa por puro costume, sem nunca tirar os olhos da silhueta de , que o aguardava fora do alcance do brilho dos festejos.
Aerion Targaryen atravessou o salão com a graça natural de um príncipe que jamais precisara questionar se o mundo abriria espaço para ele. De presença marcante mesmo a pouca luz, alto, esbelto e de postura firme como uma adaga bem afiada, ele exibia uma autoridade espontânea que atraía os olhares mesmo sem dar motivo para tal.
esperou até que ele estivesse perto o suficiente para admirar o violeta profundo de seus olhos e, só então, virou-lhe as costas sem dizer uma palavra. Saiu pela entrada em arco e seguiu em direção aos corredores mais silenciosos. Ela sabia que, se ele tinha vindo até ali, com certeza a seguiria. E foi o que ele fez.
Adentraram mais a fundo nos corredores, deixando o ruído do banquete para trás. Olhou por cima do ombro uma vez para verificar o caminho percorrido, e depois repetiu a ação na curva seguinte. Parou apenas quando se certificou de que não havia, de fato, ninguém por perto.
— Aerion… — murmurou baixinho ao virar-se para ele. — Preciso de você.
Uma força peculiar o atingiu em cheio. O príncipe brilhante a imaginara dizendo aquelas três palavrinhas inúmeras vezes nos últimos dois anos, em mais situações do que gostaria de admitir. A simples lembrança o fazia se sentir um tolo. Passara tempo demais montando aquela imagem em sua cabeça: o tom de voz dela, a boca, a respiração contra sua pele e tudo o que as palavras poderiam significar quando ditas por ela.
Indiscutivelmente patético. Ele era Aerion Chamaviva; era tudo menos patético.
Agora que finalmente estava sozinho com ela outra vez e ouvira-lhe dizer que precisava dele, tinha soado diferente. Mais estranho. Qualquer que fosse o sentido por baixo daquela necessidade, estava claro que não era algo tão simples quanto as fantasias que passara anos tentando enterrar.
Seu estômago retorceu-se no silêncio do corredor. As paredes de pedra abafavam a música distante do salão, e as longas sombras dançavam no rosto sério e concentrado de . Ainda assim, a princesa o escolhera para compartilhar aquilo, fosse o que fosse. Um nó formou-se na garganta e, de repente, nenhuma palavra vinha com facilidade. Nenhum charme fluía naturalmente. E nenhuma máscara principesca era capaz de esconder o quanto aquilo o afetava lá no fundo, onde nem o orgulho cortante chegava rápido o suficiente.
Muito ciente da proximidade, Aerion atacou pela única via possível:
— Algo no seu tom me diz que, com isso… — Apoiou a mão na parede, bem ao lado dela, perto o suficiente para tornar o gesto sedutor e ainda manter uma distância deliberada entre seus corpos — não deve estar querendo dizer que me quer te prensando contra a parede do jeitinho que você gosta, com meus lábios na sua pele e seus sussurros ofegantes.
soltou o ar pelo nariz em uma risada baixa que mostrava que a provocação tinha funcionado. Os cantos de sua boca se curvaram em um sorrisinho que a denunciava até mais do que a mordida no lábio inferior.
— Você ainda se lembra — disse ela.
— Lembro-me de coisas que gostaria de esquecer — respondeu.
— Ah, eu duvido muito que queira me esquecer. — Estendeu a mão e alisou uma pequena dobra na frente do gibão dele. — Mas tem razão, não é isso que quero. Pelo menos não agora.
A familiaridade do gesto o pegou desprevenido. A maneira que ela estendeu a mão, como se fosse detentora de todo o direito de ajeitar as roupas dele; como se fizesse aquilo todos os dias, sendo que a única outra vez havia sido dois anos atrás, quando parte das roupas de ambos ficaram um pouco fora do lugar. o fazia agora como se tocá-lo fosse tão natural quanto respirar.
Ao se recuperar do impacto, Aerion passou a focar nas palavras dela; ou melhor, no termo mais importante… O que foi que ela quis dizer com “não agora”? Seria mais tarde? Talvez nunca? Ou quem sabe apenas algo adiado por um motivo que ele ainda não compreendia?
Observou o rosto dela, desde a curva daquele lábio recém-mordido de que se lembrava tão bem, até os olhos escuros que guardavam mais segredos do que a política da corte. Algo amargo revirou-se em seu interior. estava, de fato, ali por ele, mas não por paixão. Ao menos não de imediato. E, de alguma forma, aquilo doía mais do que uma rejeição.
Manteve a mão apoiada na parede e o rosto levemente inclinado para fitá-la. A proximidade era propícia para qualquer coisa além de aguardar em silêncio e tentar manter o autocontrole. Aerion não queria nada além de reivindicar aqueles lábios provocativos após dois anos sem senti-los. Mas não o fez. Não agora.
percebeu, claro que sim. Se fosse em outras circunstâncias, ela mesma teria encurtado a mínima distância e o beijado até perder o fôlego. Não era como se já não tivesse tomado a iniciativa com ele antes, no fim das contas. Na Fortaleza Vermelha, havia sido quem rira contra a boca dele primeiro e mordera-lhe o lábio enquanto ele descobria com que facilidade ela era capaz de fazer Aerion Chamaviva perder a compostura.
Naquela noite, porém, seu foco estava em um lugar bem diferente, então ficou feliz em vê-lo composto. Ao menos por enquanto.
O plano que começara a bolar no dia seguinte ao que acontecera na estrada, quando ainda viajavam há algumas boas léguas da segurança de Solarestival, já estava em andamento. O primeiro passo fora dado. O segundo era envolver seu primo — o que faria agora. E ela confiava nele o suficiente para acreditar que não daria para trás quando finalmente visse do que se tratava.
havia encontrado um ótimo local enquanto vagava por Solarestival naquela tarde: um jardim murado, escondido atrás do palácio, a uma certa distância que o tirava dos caminhos habituais. Era magnífico, repleto de árvores e vegetação e, o melhor: parecia pouco frequentado. Em uma das extremidades, o terreno se elevava o bastante para que o muro ficasse mais baixo em relação ao solo. Além dele, do lado de fora do palácio, havia uma encosta íngreme.
Parecia o lugar perfeito para uma vingancinha particular com direito a um pouco de sangue. E jogar um corpo por cima do muro não seria tão difícil assim com a ajuda de alguém forte o suficiente para levantá-lo. Até o terreno jogava a favor dela nesse plano, tanto do lado de dentro, quanto do lado de fora — devido à encosta com aquele belo e longo declive. Se tudo corresse bem, o cadáver poderia nem ser descoberto até que todos que importavam tivessem partido para Vaufreixo.
Obviamente, não tinha mencionado essa parte a Aerion. Era cedo demais para isso. Na verdade, ela nem precisou explicar muito sobre onde desejava que ele a encontrasse. Solarestival era o lar de Aerion, afinal de contas. Ao começar a descrever o jardim, ele já sabia a qual se referia.
desapareceu nos corredores antes mesmo que ele pudesse insistir em perguntar o quê, exatamente, ela queria dizer com “preciso de você”. De qualquer modo, duvidava muito que ela o responderia.
O importante no momento era que queria vê-lo na calada da noite, em um jardim pouco usado nos fundos do palácio… depois de olhar no fundo de seus olhos e murmurar que precisava dele. E ela não estava falando de beijos, amassos ou sexo. Não… Ele conseguia sentir que havia algo estranho nisso. E o pior era que gostava ainda mais da sensação.
Passara dois malditos anos desejando a presença dela e se odiando por isso. Qualquer que fosse o propósito inusitado que a trouxera até ele e a fizera engolir o próprio orgulho para pedir-lhe ajuda, com certeza seria interessante. E Aerion não desperdiçaria tamanha oportunidade. Então voltou para o salão e esperou as horas passarem.
A noite avançou tão lenta quanto podia sempre que alguém esperava avidamente por algo que viria a acontecer. Aerion permaneceu no banquete por muito mais tempo que a própria , afinal, não adiantaria segui-la por aí feito um idiota antes da hora combinada. Ele manteve seu habitual porte de príncipe: sorria — sem vontade — quando se esperava que o fizesse, interagia ao buscarem sua atenção, erguia a taça com certa frequência, como se de fato se importasse com o vinho ou a conversa. Sua mente, no entanto, viajava para outro lugar.
Irritava-o profundamente o fato de ela tê-lo deixado no escuro a respeito do que queria… ou por quê. Mas a curiosidade ardia com uma intensidade que a frustração jamais conseguiria alcançar.
Então ele encontraria naquele jardim isolado, com muros cobertos de hera, para sabe-se lá o quê. Os deuses sabiam que uma parte dele desejava que fosse para toques e beijos, mas ele já aceitara que seria para algo completamente distinto. Algo sigiloso o bastante para exigir a escuridão em vez da luz.
E Aerion mal podia esperar para descobrir.
Capítulo 02

Vingança antes do próprio Estranho

Há sangue em minhas mãos
Como o sangue em você
Blood On My Hands — The Used

Quando a hora enfim chegou e a maioria das pessoas já estava dormindo — exceto os mais animados que ainda festejavam aqui e ali —, Aerion Targaryen dirigiu-se ao jardim onde o pedira para encontrá-la. O luar filtrava-se pelos galhos densos acima e banhava de prata trechos de hera e pedra. O restante do local encontrava-se envolto em sombras. A não ser pelo farfalhar suave das folhas na brisa noturna, o ambiente era silencioso e isolado. O tipo perfeito de lugar para um segredo permanecer em segredo.
Então Aerion a viu, e ela estava acompanhada. À distância, o homem aparentava não ser muito mais velho que ele. A julgar por suas vestes e postura, não podia ser de uma Casa muito relevante. Decerto era um dos homens que chegaram com a comitiva real. E agora estava parado perto de . Perto demais.
Aerion diminuiu o passo, seus olhos aguçados e frios fixos no intruso antes de se voltarem para , que já o olhava de volta.
O homem percebeu que perdeu a atenção da princesa e, assim, seguiu seu olhar. No exato instante em que notou quem estava parado ali, seus olhos se arregalaram e a postura mudou. Os ombros se tensionaram e ele endireitou a coluna. E Aerion nem tinha feito nada além de encará-lo… ainda.
— Meu príncipe — cumprimentou em tom nervoso e ergueu as mãos num gesto defensivo. — Não é o que está pensando. A princesa me convidou para vir aqui. — Engoliu em seco quando fez questão de aparecer em seu campo de visão de sobrancelhas arqueadas. — Ela me convidou. Assim como fez na estrada.
pareceu quase contente com as últimas malditas palavras. Então voltou sua atenção a quem merecia.
— Sim, veja bem… — Deu de ombros. — Desta vez eu o convidei, assim como convidei você mais cedo. — Manteve os olhos fixos no príncipe Aerion. — Mas um convite foi mais genuíno do que o outro, é claro. E acredito que já saiba qual.
As palavras de o atingiram como uma lâmina entre as costelas. Já a voz do maldito homem — trêmula e apressada — não significava nada. falava como se anunciasse uma verdade óbvia em vez de desferir um golpe e, ainda assim, cada sílaba era como fogo lambendo a pele dele. Nenhuma diferença no método, sim, mas por que o convite feito ao homem sem nome seria menos genuíno do que o feito a ele? Qual era a intenção?
O violeta profundo de seus olhos vagou até o garoto que ele ainda considerava um intruso ali. Ombros largos, mas sem estatura imponente. Forte, porém não tanto quanto Aerion. Vestes que sugeriam que servia como um guarda qualquer; provavelmente um designado para ajudar a escoltar alguém durante a viagem. Ainda assim, estava ali, ao lado de , sob o luar, no que não parecia ser o único encontro que tiveram até agora. Algo sombrio se enroscou no seu peito, uma possessividade tão violenta que surpreendeu até a si mesmo. Desde quando, afinal, o príncipe Aerion Chamaviva se importava com quem se aproximava de alguém?
A princesa manteve-se perfeitamente calma e evitou o olhar do homem, temendo perder a compostura. Direcionou todo o seu foco para o príncipe Aerion.
— E quanto à tal outra vez, na estrada… Bem, este guarda aqui disse para metade da nossa comitiva que eu o convidei a se afastar dos outros por um tempo. Que o seduzi. Que ele me tomou com vontade, bem do jeitinho que pedi. Que implorei por mais depois. — Sua voz permaneceu composta, quase desapegada, e ela suspirou. — Foi aí que, pelo visto, cortei a mão dele com a minha adaga negra para que, caso alguém nos descobrisse, eu pudesse alegar que havia lutado contra. — ergueu as sobrancelhas. — Já que, nas palavras dele, eu sou uma puta maluca que gosta de fazer escândalo.
O guarda moveu-se de imediato ao lado dela.
— Isso não é…
— Não vou negar que é algo que eu faria — continuou, como se a voz do homem não fosse mais do que o zumbido de um inseto. — Mas não foi o que aconteceu.
— Foi, sim! — protestou o guarda sem nome. — Ela me cortou!
Ele ergueu a mão ferida e virou-a para que o luar iluminasse a cicatriz pálida e irregular que atravessava sua palma. Os olhos de desceram até a marca e se voltaram aos do primo.
Aerion nem piscava, o corpo imóvel. Era como um predador ao fixar o olhar na presa no instante em que sentia o cheiro de sangue no ar. nem recuara em ver a mão erguida do guarda, com a cicatriz imprecisa atravessando a palma. Não demonstrara raiva e muito menos culpa, só uma certa frieza. E ela lhe dizia que aquele homem mentira sobre o que acontecera entre eles na estrada. Que ele dissera que — uma princesa conhecida por sua compostura e elegância — o havia seduzido e implorado por mais? Ainda que Aerion soubesse que havia algo por baixo e que ela era perfeitamente capaz de fazer uma coisa dessas, Targaryen não implorava; tampouco para um qualquer.
— Meu príncipe, veja… — começou outra vez.
— Cale a boca — ordenou Aerion com calma, embora a raiva queimasse, lenta e profunda em seu peito, como brasas sob as cinzas antes de irromperem em chamas. — Então isso significa que realmente usa aquela bela adaga…? Que não faz apenas ameaças vazias? — Concentrou sua atenção na prima, usando o charme para manter a fúria sob controle.
— Sim. Ameaças vazias são somente para pessoas de quem gosto. — Ela piscou para ele, que quase riu.
— O que me diz que aconteceu, então, ?
— Foi bem simples, para falar a verdade. — Seu olhar se voltou para o homem por um instante antes de pousar novamente em Aerion. — Eu me afastei sozinha para explorar os arredores. Esse idiota me viu desacompanhada e pensou que seria uma presa fácil. — Sacudiu a cabeça com a imprecisão daquele pensamento. — Mas ele com certeza não me conhecia. Assim como todos os outros, exceto Valarr e você.
Você. A palavra ecoou em sua mente e se alojou em algum lugar sob suas costelas, carregando muito mais peso do que deveria.
Por dois anos, dissera a si mesmo que conhecia Targaryen mais do que a maioria das pessoas, mesmo que não fossem muito próximos. Recordava-se dos olhares, de todos os sorrisos provocadores, de cada toque daquela noite atrás da tapeçaria. Passara todo esse tempo convencido de que, por baixo da princesinha graciosa que todos viam, vivia algo mais sombrio que somente pouquíssimas pessoas eram capazes reconhecer.
E agora ela confirmara que Aerion, sim, era um dos que a conheciam de verdade. Apenas ele e o irmão gêmeo dela. E alguma coisa no olhar de expunha que ela sabia exatamente o tipo de presente que havia concedido a Aerion com aquele reconhecimento sutil.
Mas ele manteve o silêncio, afinal, sabia que ela não tinha terminado a história. Então ela prosseguiu, com a voz firme:
— Ele tentou me agarrar contra a minha vontade. Acreditou que sua força seria o suficiente para me fazer ceder; e quase foi. Ele é maior e mais forte que eu, óbvio. — Apontou para o guarda. — E foi arrogante o bastante para acreditar que isso significava que eu me submeteria sem luta enquanto ele me fodia.
Roçou os dedos pelas pedras de ônix como se fizesse carinho em sua adaga negra. Ela baixou o olhar para a arma.
— Consegui me soltar o suficiente para alcançá-la. Então cortei a mão dele, sim, embora preferisse ter cortado o pau fora, mas ele mal havia aberto as calças. — Retorceu os lábios, quase como se estivesse entediada. — Acredito que tenha achado divertido a surpresa desafiadora da minha reação. Quando percebeu, porém, que eu não era nem de longe tão dócil quanto parecia, decidiu que eu não valia o esforço e recuou.
— Não, não, não. Não foi isso que aconteceu. — O homem balançou a cabeça, em pânico. — Ela está mentindo, meu príncipe. Está inventando tudo, está sim. Sabe como ela é. Fica aí tentando fazer com que eu me pareça… — Engoliu em seco com o peso do olhar que Aerion lhe lançara. — Ela está mentindo — insistiu, mais desesperado. — Juro ao senhor, meu príncipe, juro.
Os olhos de Aerion — aquelas íris de um violeta profundo e penetrante, capazes de cortar pedra quando assim desejavam — tinham se tornado frios. Vazios. E isso bastou para que o guarda sem nome se desesperasse com as palavras.
O príncipe não falou nada, não avançou sobre o homem nem soltou um grunhido sequer. Ele continuou ali, perfeitamente composto, enquanto a tempestade se armava por baixo.
— Não vou lhe implorar para que acredite na minha versão — disse . — Sabe bem que eu não imploro.
Sim, era verdade. E por mais que fosse adorar que implorasse qualquer coisa baixinho em seu ouvido, ele gostava desse tipo de resistência que ela possuía.
Além disso, não precisava de mais argumentos. Aerion já tinha se decidido antes mesmo de ela terminar a história. Confiava nela, sim, apesar de não cegamente, mas tudo naquela situação gritava que o homem estava mentindo. O suor de nervoso poderia ser apenas porque estava diante de um príncipe e uma princesa que tinham mais poder que ele. No entanto, havia a precisão e a calma com que fazia seus relatos contra o desespero crescente nas negações frenéticas daquele tolo trêmulo. E também a naturalidade do toque dela no cabo da adaga, como se fosse uma extensão de si mesma a qual estava grata por ter consigo.
Nenhuma princesa contaria tal história com tamanha franqueza, sem hesitação e nem um resquício de culpa, a menos que fosse verdade. E agora aquele maldito bastardo sem nome ousava chamar ela — a filha do príncipe Baelor, com sangue Targaryen correndo nas veias, a mulher que trazia a prata valiriana escondida sob cabelos escuros — de mentirosa? Ainda por cima, na frente dele?
— Não me importa se ela está mentindo ou não. Quem é você para pôr as mãos na princesa Targaryen? — Deu um passo na direção do homem. — Quem é você para tocar no sangue do dragão?
— Meu príncipe, peço perdão. — Começou a recuar. — Juro, eu não tive a intenção de… — Aerion o alcançou antes que ele pudesse terminar sua frase vazia. — Por favor, meu príncipe.
Aerion ignorou as súplicas. Fechou a mão em torno do braço do mentiroso e torceu-o bruscamente para trás das costas. O homem gritou e lutou em puro instinto. Tudo para tentar se soltar e se livrar da dor. Ele cerrou o punho e golpeou, atingindo em cheio a boca do príncipe. Então ele parou, em choque, dando-se conta do que acabara de fazer. Não podia simplesmente bater em um príncipe, ainda mais na própria casa dele. E com alguém de testemunha. Não havia o que dizer para sair impune daquilo.
O soco não doeu muito. Fora mais como um tapa, fraco e desajeitado pelo pânico. Ainda assim, fizera um corte fino se abrir no lábio inferior de Aerion. Ele tocou o local com a língua, provando o gosto do sangue, e então sorriu. Agora, enfim, estava furioso. Furioso demais para esconder quem era. Tudo o que via era o guarda sem nome, aquela escória que ousara tocar em como se ela fosse uma puta qualquer e depois ainda o atingira com um soco. Seus olhos permaneciam gelados como a própria morte enquanto Aerion apertava ainda mais o braço do sujeito e o puxava com força o bastante para fazer o osso ranger sob a pressão.
— Espere, Aerion, se acalma. — aproximou-se, a voz baixa chegava ao primo sem perturbar a estranha quietude que recaíra sobre o jardim. — Aerion… — Seu olhar se desviou por um instante para o homem e depois voltou-se ao príncipe. — Só preciso que o segure para mim, está bem?
Ela levou a mão ao cinto e agarrou o cabo de ônix. Quando a forma familiar acomodou-se sob seus dedos, desembainhou a adaga. A lâmina deslizou para fora com um som metálico suave, captando o luar por um breve momento. Era a mesma com a qual divertira-se o ameaçando, dois anos antes, sem fôlego nos braços dele. Agora, contudo, não havia nenhum tom brincalhão… e a adaga não era para ele.
Ela olhou para o primo.
— Pode fazer isso?
Aerion não hesitou. O guarda, ainda se contorcendo em seu aperto, não significava nada. Menos do que nada. Nem sequer uma sujeirinha nas botas polidas da Casa Targaryen. Mas e o modo como empunhava a adaga negra como uma extensão de sua vontade? Se ela precisava que ele segurasse aquele bastardo idiota para ela, é claro que o faria. Não havia nada mais a dizer.
Ajustou a pegada e torceu o braço com mais força. O homem soltou um arquejo agudo quando a dor atravessou seu ombro. Mas logo o príncipe mudou de posição com fluidez. Um braço forte imobilizou os pulsos do guarda — que estava mais para um garoto verde do que um homem-feito — com uma força brutal. Não havia chance de escapar sem antes quebrar algum osso. Então golpeou a parte de trás das pernas do homem, fazendo-o cair de joelhos, e pressionou a mão contra o ombro do homem para mantê-lo firme no chão.
Um vislumbre de satisfação cintilou pelo rosto de ao ver Aerion ali, inabalável como uma muralha de pedra sob o luar. Sempre soube que o primo era forte, mas o modo como derrubara o maldito com tamanha facilidade — reduzindo o homem que usara sua força contra ela a algo indefeso sob suas mãos — despertou uma emoção diferente dentro dela.
De alguma maneira, ele ficava profundamente atraente assim: belo, composto, implacável. Sua força, a certeza absoluta nos movimentos ao fazer o que ela pedia dele, o jeito que segurava o guarda no lugar como se não exigisse esforço algum.
E isso era só um bônus. O mais gratificante, de fato, era ver aquele homem nojento de joelhos, à mercê dela.
Ajeitou a pegada em torno da adaga negra que tanto amava e um leve sorriso surgiu em seus lábios. Caminhou, um pé após o outro, em direção a eles. A arma girava preguiçosamente entre os dedos enquanto o luar refletia no metal escuro. De perto, o homem parecia mais um garoto do que qualquer coisa. Tinha a idade próxima à deles, mas ajoelhado sob o domínio de Aerion — despido de toda aquela confiança — parecia ainda mais jovem. Como uma criança que se aventurara onde não deveria estar. Exceto que ele não era criança nenhuma. Havia tentado violentá-la e ainda a humilhara com mentiras.
— Você tocou no que jamais deveria ter tocado. — parou diante dele com seu olhar afiado. — Sou grandiosa demais para você. — Inclinou a cabeça e observou por um instante, um sorrisinho sutil tomando-lhe os lábios. — E agora vim cobrar a minha vingança antes do próprio Estranho reivindicá-lo para si.
O primeiro corte foi rápido e preciso. A lâmina negra beijou-lhe a bochecha, abrindo um risco fino e escarlate no belo rosto. O homem grunhiu e tentou se encolher. sorriu, em deleite. Então desceu a adaga e rasgou parte de suas vestes, somente o suficiente para expor parte da pele. O som do tecido rompendo ecoava, quase em tom zombeteiro, o modo como ele tentara rasgar suas roupas na estrada.
Pressionou a ponta da adaga no peito daquele guarda que ela nem fazia questão de lembrar o nome. Apertou até uma tênue gota de sangue brotar e escorrer devagar. saboreou a cena com um fascínio silencioso. Gostava daquilo. Adorava o sangue. Amava o poder de ter aquele maldito exatamente onde queria. Acima de tudo, porém, deliciava-se com o fato de que era Aerion quem ainda o mantinha ali.
Tirou os olhos do sangue para encontrar os do primo. O violeta profundo que ela sempre achou incrivelmente bonito a encarava de volta. E havia um brilho esplendoroso ali, ardendo com algo feroz e voraz, revelando-lhe algo que gostava ainda mais do que todo o resto: aprovação. Um reflexo sombrio de sua própria satisfação dançava lindamente naqueles olhos penetrantes.
E ele tinha a olhado assim o tempo todo enquanto cortava o homem sem vacilar. Admirara o modo como sua firmeza não havia oscilado um instante sequer ao cravar a adaga na carne. Mas sabia. É claro que sabia. Após vê-lo assim, com toda aquela intensidade no olhar, ela tinha a plena certeza de que ele a observara o tempo todo com a mesma admiração que lhe mostrava agora.
E ela amava aquilo. Adorava que Aerion não recuasse diante da violência provocada por suas mãos macias. E ele parecia quase orgulhoso por vê-la se vingar por conta própria — como se isso fizesse uma parte primitiva dele vibrar de admiração e desejo. Mas nada superava a compreensão silenciosa que se passava entre eles como um pacto selado por algo muito mais íntimo do que uma mera aliança poderia ser. Ele não iria impedi-la.
umedeceu os lábios, apreciando a conexão. Ela podia quase senti-lo em sua pele, embora não estivessem se tocando. Ainda.
Então ela arrastou a lâmina pelo peito do cavaleiro, ouvindo-o gemer de dor. Seu olhar jamais se desviou do de Aerion. E a sensação foi melhor, como nunca antes. Abriu um sorriso que alcançava os olhos. Apenas para ele.
A respiração de Aerion falhou quando sequer baixou os olhos para o homem cujos músculos se retesaram sob seu aperto de ferro em resposta à dor. E aquela pequena curva perversa em seus lábios deliciosos feita somente para ele fez fogo líquido correr por suas veias.
encenava sua linda vingança para uma plateia de uma pessoa só — e Aerion gostava de ser o agraciado. Todo movimento lento do aço raspando a pele, cada som sufocado arrancado da vítima… agia como uma dançarina ao som de uma música feita especialmente para ela. E Aerion sentia cada nota vibrar em seu próprio corpo, como se pertencesse a ele também.
E então veio um corte um pouquinho mais profundo e ela sorriu outra vez, com algo muito mais profundo do que sadismo ou crueldade. Era uma intimidade compartilhada, nascida de sangue e violência, diante da qual a maior parte das pessoas recuaria. Mas não Aerion. E não . Eles se compreendiam perfeitamente naquele momento, sob a luz do luar que se infiltrava através das árvores daquele jardim esquecido de Solarestival.
O príncipe que incendiava tudo o que tocava. E a princesa que gravava a vingança na carne sem hesitar.
parou por um instante, a adaga imóvel nos dedos firmes. Seus olhos escuros se detiveram no rosto do primo, na leve mancha de sangue que ainda manchava-lhe o lábio inferior. Como podiam ser tão convidativos mesmo assim?
Afastou a adaga do peito do homem — cujo nome não lhe importava tanto quanto não havia importado na estrada — e ergueu a mão livre, levando-a na direção do rosto de Aerion. O polegar roçou o lábio ferido dele, limpando o fino rastro de sangue em um toque suave como uma pena.
Ela ignorou o vermelho vivo em seu dedo, atraída pelo violeta profundo que a fitava com tamanha intensidade que quase a fazia esquecer-se do motivo de estar ali, com uma lâmina ensanguentada entre os dedos.
Seu olhar desceu até a boca dele outra vez — como sempre fazia desde que percebera o interesse por ele —, antes de voltar a contemplar aqueles olhos vivos o suficiente para lhe roubar o fôlego. Então levou o polegar aos lábios e provou o sangue. Um sorriso de cumplicidade brotou em seus lábios como flores escarlates.
Aerion engoliu em seco. O gemido baixo do homem sob seu domínio era tão irrelevante que nem chamou-lhe atenção — quase esquecido, não fosse pelo aperto ainda mais forte para mantê-lo no lugar. De repente, tudo o que Aerion conseguia pensar era em deixá-lo de lado e beijá-la ali mesmo, com uma intensidade feroz capaz de apagar da existência qualquer vestígio de algo que não fossem os dois naquele precioso momento. Porque — a mulher que acabara de ferir um homem sem hesitar, que estava parada ali, com a adaga na mão e a violência marcada em cada respiração — ainda o tocava como se se importasse, como se ele lhe pertencesse.
manteve seu olhar sobre o primo. Seu peito subia e descia. Aerion segurava o homem com mais força cada vez que ele tentava se mexer mais — como se o punisse pela tentativa de estragar o momento que os dois partilhavam.
Dois anos atrás, ela mordera aquele mesmo lábio com força o bastante para fazê-lo arfar — de dor e desejo. Lembrava-se bem do gosto que permanecera em sua língua depois e, com ainda mais clareza, recordava-se da reação dele, o modo como retribuíra o beijo como um homem faminto diante de um banquete. amara ver o quanto ele tinha gostado daquilo e das mãos dela agarradas ao seu cabelo. Amava se lembrar do quanto fora capaz de deixá-lo selvagem, de romper toda aquela compostura principesca que ele mantinha na frente do príncipe Maekar.
E agora, de novo, podia sentir o gosto do sangue de seus lábios… e, dessa vez, enquanto ele segurava aquele nojento para que ela pudesse se vingar. Isso só tornou a situação ainda melhor. Mais eletrizante. Excitante, até.
Sua atenção voltou-se para o maldito que a havia tocado sem sua permissão. O calor em suas feições desapareceu em um piscar de olhos e ela baixou a adaga novamente.
Os cortes seguintes foram decididos e calculados. Cada um arrancava do homem um novo som de sofrimento contido. Os olhos de brilhavam em deleite para quem soubesse reconhecer. Concentrada, ela o observava com frieza, o rosto quase sereno em resposta ao sofrimento dele, que tentava se soltar.
não tinha pressa. Queria fazê-lo entender que não havia acidente algum em tudo aquilo, que não era nenhum impulso. Era vingança. Pura e simples vingança. Fria. Por ele tê-la tocado. Por ter tentado tomá-la à força. Por mentir a respeito dela.
E, no entanto, sempre que seus olhos escuros se voltavam para Aerion, algo diferente surgia. Calor. Reconhecimento. O mesmo fascínio doce e perverso que sentira ao provar o sangue do lábio dele… duas vezes.
Em seguida, olhava para o guarda sem nome de novo com um olhar tão gelado quanto a Muralha. Dois olhares inteiramente distintos. Um para o homem sob sua lâmina negra. Outro para o príncipe que o segurava ali para ela.
Aerion não conseguiria desviar o olhar nem se quisesse. Era melhor do que qualquer sonho que já tivera — molhado ou não — desde o encontrinho inacabado deles atrás da tapeçaria. Cada corte, cada reação de dor daquela escória que ele mantinha à mercê dela, cada mudança na expressão de … Era hipnotizante.
Ela nem se deixava levar pela fúria. Não havia gritado nem golpeado de forma desordenada como a maioria teria feito ao descontar sua raiva em alguém indefeso. Em existia uma graça fria que fazia parecer que aquela era a coisa mais natural do mundo para ela. Os movimentos da adaga eram perfeitamente controlados, firmes. Seus cortes, precisos. Era como se estivesse gravando a justiça na carne dele, em vez de apenas infligir dor por puro prazer. Ele admirava aquele foco frio, sob o qual ardia algo muito mais sombrio e belo.
E cada vez que seus olhares se cruzavam… Pelos deuses! Aerion não desejava nada além de beijá-la até perder os sentidos quando tudo aquilo acabasse.
cortou a carne do homem outra vez, o corte um pouco mais profundo e maldoso que os outros. Então parou e recuou dois passos lentos, com a lâmina frouxa na mão. Aerion arqueou a sobrancelha. Seria possível que ela tivesse desistido de ir até o fim? Poderia ele ter avaliado mal a profundidade daquela escuridão, no fim das contas?
— Solte-o — falou para Aerion. — Deixe-o ir.
— Tem certeza? — insistiu, de cenho franzido.
A princesa assentiu, então ele retorceu os lábios e o soltou, embora não quisesse fazê-lo.
O homem ensanguentado cambaleou, quase caindo enquanto lutava para se equilibrar em seus próprios pés. Lançou um último olhar por sobre o ombro — o terror estampado no rosto —, antes de se virar e correr.
permaneceu imóvel e observou-o partir com uma calma quase inquietante. Aerion, por outro lado, observava a ela. O homem corria, aumentando a distância. Quando finalmente parecia estar a salvo, o pulso de chicoteou para frente. A adaga negra brilhou, girando sob o luar ao cortar a escuridão. E o homem caiu.
Um silêncio tranquilo retornou ao jardim. inspirou profundamente, contemplando o corpo caído ao longe. Até o ar parecia muito melhor agora.
Capítulo 03

A parte que ela sempre escondeu

Eu provavelmente ainda te adoraria
Com suas mãos em volta do meu pescoço
505 — Arctic Monkeys

O baque da adaga ao penetrar a carne fora suave — quase gentil, comparado à violência que acabara de ocorrer. Ainda assim, ressoara nos ouvidos de Aerion como um belo trovão.
Havia estranhado quando recuara, pois desistir de ir até o fim não condizia com o que tinha mostrado ali. Sem contar que sua prima não era do tipo que deixava pontas soltas. E aquele homem a atacara na estrada e mentira a respeito do acontecido… Targaryen não o deixaria viver depois daquilo. Misericórdia final nunca combinara com ela.
Mas então ela fora além. Permitira que ele corresse, fugisse. Concedera-lhe uma falsa esperança de salvação antes de arrancar-lhe até a última gota. Depois, permanecera imóvel, encarando o que fizera do mesmo modo que alguém admirava sua própria obra.
As expectativas de Aerion Targaryen não apenas foram atingidas como também superadas. Que os deuses o ajudassem… A eficiência fria dela e o modo como parecia inabalada o excitava mais do que qualquer outra coisa. Uma risada baixa escapou de seus lábios — contida, um tanto divertida, com algo inconfundivelmente sombrio por trás.
— Quando se afastou, quase conseguiu me fazer acreditar que tinha me enganado a seu respeito. — Seu olhar violeta percorreu o corpo dela: o sangue nas mãos, a plenitude no rosto. O canto de sua boca se ergueu ao vê-la dar passos lentos na direção do homem caído. — Mas não. Eu só me enganei um pouco quanto à dimensão da escuridão que há aí dentro.
Ela quase sorriu em resposta ao comentário. Em vez disso, continuou seu caminho, sem pressa e com perfeita compostura. Abaixou-se ao lado do cadáver e fechou os dedos em torno do punho incrustado de pedras de ônix pretas. A lâmina resistiu ao puxão, mas logo se soltou. limpou o sangue da adaga nas roupas do homem com bastante cuidado.
Podia sentir os olhos de Aerion em cada movimento seu, e gostava disso. Adorava ser observada por ele daquele jeito, sem a máscara de princesa doce e bem-comportada que todos os outros conheciam. Levantou-se e deslizou a lâmina de volta para a bainha discreta no cinto do vestido. A adaga negra havia cumprido seu propósito.
— É grande o suficiente para a sua? — Virou-se para Aerion e caminhou na direção dele. — A minha escuridão, no caso.
O cabo de pedras escuras da adaga capturou o luar por um instante antes de desaparecer entre as dobras do vestido. O olhar de Aerion, porém, jamais abandonou seu rosto.
Ele levantou as sobrancelhas. A pergunta dela ainda pairava no ar como fumaça. Pelos deuses… Aquilo era algo perigoso de se perguntar. Conhecia bem a própria escuridão — ambição fria, orgulho implacável, a crença inabalável de que o poder justificava tudo. Ainda assim, ali estava , quase à altura.
Havia matado sem hesitação nem remorso, com uma precisão tão tranquila que fizera algo primitivo despertar em seu interior; afinal, tudo parecera natural para ela… e tão perfeito. Como se violência não fosse corrupção para , mas sim outra língua que falava fluentemente.
Ela parou a uma distância curta o suficiente para que seus corpos não se tocassem. O pequeno espaço entre eles estava carregado como o ar antes de uma tempestade quebrar. Aerion manteve-se em silêncio, ainda assimilando o quão bom tudo aquilo era. Quase bom demais para ser verdade.
Ele ergueu a mão e passou o polegar sobre a maçã do rosto dela, onde uma única gota de sangue havia respingado; mal dava para ver sob o luar. Seu toque era cuidadoso e reverente, apesar de tudo o que haviam feito naquele jardim.
— Vou considerar o seu silêncio como um “sim” ou um “quase”. — tocou o próprio rosto. — Era sangue? Seu lábio ainda está um pouquinho manchado também, mas pelo menos o sangue é seu. — Uma risadinha sombria lhe escapou. — Já entendeu porque falei que precisava de você mais cedo, não é? Acredito que não tenha sido o que imaginou.
Quando lhe dissera aquelas três palavrinhas, tinha a plena consciência de que ele pensaria em qualquer coisa próxima ao encontro intenso que tiveram na Fortaleza Vermelha. Não podia evitar. Era injusto com ele, mas precisava que fosse daquele jeito.
Aerion soltou o ar pelo nariz em algo próximo a uma risada. Havia esperado — desejado — que a declaração significasse que ela o puxaria para as sombras para mais um beijo e para terminarem o que haviam começado dois anos antes. Queria os dedos dela entrelaçados nos seus cabelos de novo, a mordida aguda em seu lábio, o fogo e a fome que ardiam entre eles. Naquela noite, porém, precisava que segurasse um homem qualquer para que ela pudesse gravar sua vingança na carne.
De alguma forma, aquilo era ainda melhor do que qualquer fantasia que já tivesse criado. Porque a verdadeira — a criatura implacável e destemida que não hesitava nem recuava e, além disso, conseguia fingir ser a princesa perfeita na frente de todos… Era ela quem, de fato, combinava com a escuridão dele.
— Não teria conseguido fazer isso sozinha — admitiu em voz baixa. — Precisava de alguém forte o bastante para que ele não pudesse usar a força sobre mim de novo… Alguém que pudesse segurá-lo enquanto eu me divertia um pouquinho com o maldito. — Ela caminhou devagar, contornando uma das árvores perto do muro. A barra do vestido azul-claro roçava suavemente na grama. — Sabia que você seria o único capaz de lidar com o que veria aqui. — Olhou para trás, com um sorriso leve e cúmplice brincando em seus lábios. — E talvez até apreciaria.
Continuou se locomovendo nas proximidades e, ao espiar por sobre o ombro, notou que Aerion a acompanhava. Tinha certeza de que ele a seguiria, senão não teria se movido. Não o deixaria para trás agora, tanto quanto ele não a deixaria ir. parou e o fitou. Seu olhar demorou-se nele, absorvendo cada parte do homem que a ajudara com um tipo de coisa sombria que nenhum outro jamais faria.
— Além do mais… — acrescentou em tom provocante. — Nunca precisei que você me segurasse. — Seus olhos escuros desviaram-se para os lábios convidativos dele antes de retornarem ao mar violeta profundo em que queria mergulhar e se perder. — Eu só sempre quero que o faça.
Aerion fora atingido como se tivesse levado um golpe físico. O jeito que confessava aquilo com o mesmo divertimento sombrio e poder silencioso em torno dos quais dançara a noite toda… Eram palavras que somente ela era capaz de fazer soarem perigosas e inebriantes ao mesmo tempo. A admissão e a olhadela para os lábios dele eram quase um desafio. Um que ele aceitaria sem hesitar.
Em dois passos, acabou com a distância. Suas mãos envolveram o rosto dela ao mesmo tempo em que selou seus lábios.
Por dois malditos anos, recordara a sensação da boca de Aerion contra a dela. Lembrava-se do calor, da intensidade dos beijos. Todo aquele tempo não fora capaz de apagar-lhe a memória. E agora, depois de tudo o que viveram juntos ali — entre sangue, segredos e a revelação do que ainda escondiam um do outro —, ele a beijava com ainda mais vontade do que na Fortaleza Vermelha.
jogou os braços ao redor dele meio que por instinto. Os dedos subiram para enroscar-se nos cabelos louro-prateados, agora curtos. Ela retribuía o beijo com uma familiaridade que fazia parecer que tinha feito isso todos os dias desde a primeira vez que seus lábios se chocaram. Os corpos recordavam muito bem tudo aquilo que as mentes haviam tentado cansativamente se esquecer.
Em um piscar de olhos estavam se movendo. Aerion a conduzia para trás, mas também o puxava com ela. Era impossível distinguir onde terminava a intenção de um e começava a do outro. Moveram-se juntos, em passos pequenos e lentos, até que as costas dela estivessem a uma curta distância do muro de pedra.
, enfim, interrompeu o beijo, mantendo o rosto perto o suficiente para suas respirações se mesclarem. Seu peito subia e descia e seus lábios roçavam nos dele enquanto ela recuperava o fôlego.
— Gosto de notar que aparentemente passou dois anos obcecado por mim — murmurou, com um sorriso ofegante.
As mãos de Aerion ainda emolduravam-lhe o rosto, os polegares acariciando-lhe as faces. Seu rosto afastou-se nada mais que o suficiente para contemplar aqueles lábios que acabaram de beijá-lo como se fossem donos dele e, ainda por cima, pronunciaram aquela acusação disfarçada de comentário.
Pelos deuses… Ela tinha tanta razão que ele nem podia contrapor. Todas as malditas noites desde aquele encontro atrás da tapeçaria, povoara seus pensamentos. O jeitinho que ela rira antes de morder-lhe o lábio; a crueldade e a beleza que exibia sem esforço quando se irritava; e até mesmo a lembrança daquela mecha de fios prateado-dourados bem escondida sob cabelos escuros o deixava louco de vontade de senti-la em sua mão enquanto lhe beijava o pescoço como um homem sedento.
Mas ele não podia admitir uma coisa dessas em voz alta. Jamais. Ainda assim, ela sabia. E mais… gostava disso.
Aerion esboçou um sorriso de canto e beijou-a de novo, com mais avidez e força. Queria despejar cada momento daqueles dois anos perdidos em um único beijo sob o luar.
Algo em seu interior havia se aquietado de um jeito que ele nem pensava ser possível. Tinha odiado aquela obsessão e a si mesmo por se achar patético; detestara a frequência com que invadia sua mente e a facilidade com que essas lembranças abalavam sua compostura. Agora, porém, com a boca dela ainda quente na sua, os sorrisos e olhares que ela lhe dava e a sede com que o tocava… o ódio havia desaparecido. Não existia mais culpa por desejá-la. Ele a queria. Ela o queria de volta com a mesma intensidade. E isso bastava.
Uma de suas mãos deslizou para a lateral do pescoço dela, e a outra firmou-se em sua cintura, puxando-a para perto. Então ele pressionou o corpo contra o dela, prensando-a contra a parede de pedra como fizera dois anos antes.
Aerion parou o beijo mais uma vez e inclinou-se na direção dele para reencontrar sua boca. Ele recuou o rosto, fugindo só um pouquinho. Um traço sutil e quase malicioso de diversão surgiu em suas feições. Era delicioso vê-la passando vontade também.
Sua mão acariciou o lado esquerdo do pescoço dela e subiu para os cabelos, afastando-os dali e revelando outra coisa da qual sentia falta. Lá estava aquele prateado-dourado oculto. O mesmo belo segredo que descobrira na última vez. A visão que permanecera em sua memória por muito mais tempo do que deveria. Passou os dedos pela mecha clara de puro cabelo valiriano.
— Você ainda a esconde. — Sua voz era mais baixa agora, e o tom, carinhoso.
Levou a boca até o pescoço exposto em um beijo faminto. soltou um suspiro e sua respiração falhou. Lábios, língua e dentes faziam o trabalho do jeitinho que sabia que ela gostava; da maneira que ele acreditava ser a ideal.
— Algo tão belo não deveria ser escondido. — Apertou os dedos nos cabelos dela, pressionando mais e mais beijos na pele. — Isso prova o quão poderoso o seu sangue de fato é.
quase riu, deliciada com a intimidade. Sua mãe, seu pai e Valarr sabiam da existência da mecha, obviamente, mas eram apenas eles. Ela a escondia e mal deixava as próprias criadas e damas de companhia tocarem em seus cabelos. Era algo que gostava de pensar como sendo dela e apenas dela. E foi só quando se entregou à atração que sentia por Aerion que isso havia mudado. poderia ter impedido que ele erguesse aqueles fios e o direcionado para beijar o outro lado do pescoço naquela vez, mantendo seu segredo intacto. Mas não, escolhera compartilhar aquela parte de si com ele… a parte que ela sempre escondeu de todos os outros.
E agora ele tocava aquele segredo de novo como se isso importasse mais do que qualquer coisa enquanto reverenciava a pele sensível logo abaixo. Sem contar que via aquilo como algo belo.
Aerion não cultuava o legado às cegas. Era uma mistura de admiração e assombro contemplar a linda mecha prateada que transformara em um segredo compartilhado, pois, para ele, até mesmo um detalhe pequeno servia para provar o quão extraordinária ela era. E aquele, em especial, só mostrava o que Aerion já sabia: que mesmo com cabelos comuns, Targaryen era tão dragão quanto ele. E isso só havia ficado mais explícito agora, que tinha testemunhado o tamanho da escuridão dela.
Ele a queria para si. E não somente por aquela noite.
Roçou os dentes na pele abaixo da orelha — um toque terno, mas com pressão o bastante para fazê-la estremecer. Os dedos de apertaram-se nos cabelos dele quando um calor concentrou-se na parte baixa de seu ventre — diferente da sensação proporcionada pela vingança mais cedo. Antes, apesar de bom e excitante, era sobre poder e crueldade. Aqui, era pura intimidade despida pelo luar e por segredos compartilhados.
— Deveríamos nos casar — Aerion sussurrou no ouvido dela, finalmente.
deixou uma risadinha de puro deleite escapar.
— Não — respondeu.
Aerion tirou os lábios de cima dela e afastou a cabeça para encará-la, genuinamente ofendido. A ferida era profunda. Ansiara por ela durante dois anos. Facilitara para que torturasse e matasse um homem a sangue-frio. Beijou-a como se jamais tivesse parado de fazer isso, como se fosse dela e , dele. Afagara a mecha prateada que tanto amava enquanto beijava-lhe o pescoço do jeito que ela gostava. Depois de tudo isso e de toda aquela conexão inegável que compartilhavam, havia sido rejeitado tão rápido? Simples assim?
Absolutamente inaceitável.
— Não? — repetiu em tom grave e perigoso. — Você está brincando.
Afirmou ainda mais seu aperto na cintura dela e não fez sinal de desemaranhar os dedos de seus cabelos. A audácia daquela mulher em rir e ainda negar o casamento quando era tão claro quanto água que sentia o mesmo que ele…
— Não — reiterou.
— …
A mandíbula de Aerion se contraiu. Havia algo mais profundo que um lampejo de raiva ali. Era o tipo de frustração que nascia da rejeição de alguém que você desejava mais do que tudo. E não apenas isso: instantes antes tinham compartilhado sangue e violência como se fossem coisas comuns para se fazer em cortejos ou encontros secretos.
O violeta profundo de seus olhos parecia ter escurecido alguns tons com seu orgulho ferido misturado a uma obstinada obsessão. E então tomou sua boca na dele em um movimento voraz e quase punitivo. Já que não poderia tê-la como esposa, sempre com ele, ao menos queria garantir que se lembrasse perfeitamente do quanto desejava isso.
Seus lábios colidiram repetidas vezes com os dela antes de recuarem para traçar uma trilha de beijos quentes ao longo da linha do maxilar.
— Por quê? — exigiu, descendo os beijos pescoço abaixo.
olhou de maneira breve para o cadáver, tentando se concentrar em algo que não fosse a sensação das carícias de Aerion sobre sua pele.
— Porque eu não quero — disse, e não era uma mentira completa.
O modo displicente da fala atingiu Aerion como um tapa na cara. A resposta viera carregada de tamanha indiferença que era como se aquele casamento em questão fosse algo trivial enquanto ele ardia de desejo por isso.
Mesmo assim, não o afastava. Ela acariciava-lhe os cabelos com a mesma delicadeza e ternura que usara ao limpar o sangue de seu lábio… como amantes compartilhando um momento de preciosa tranquilidade, e não duas pessoas que haviam acabado de orquestrar um assassinato juntas.
Não fazia nenhum sentido para Aerion. Como podia ser fria assim em relação a algo tão importante? Em relação a eles?
Sua boca demorou-se no pescoço dela. Os beijos, contudo, perderam o ritmo. Eram menos apaixonados e muito mais carregados de uma tempestade de frustração que quebrava sobre a curva do ombro de , buscando uma explicação. O que, por óbvio, falhou em encontrar.
Era impossível não se frustrar, afinal, ele estava acostumado a querer algo e presumir que o mundo se reorganizaria para atender a esse desejo. Caminhava de mãos dadas com a expectativa de que tudo que desejasse se concretizaria. De que o poder, a linhagem e a pura força de vontade poderiam dobrar a realidade a seu favor. Sem contar que todos os sinais de reciprocidade entre eles indicavam que aquela era a direção óbvia a seguir.
Mas não se importava com nada disso. Recusava o casamento como se não significasse nada, como se ele significasse menos para ela do que tinha o feito acreditar que significava. Enquanto isso, o tocava com carinho e permitia que ele a beijasse e a tocasse com avidez. Aquilo o deixava louco — da pior e da melhor maneira possível.
Quanto mais a prima resistia a formalizar a união dele, mais possessivo ele se tornava. Ao corpo e a tudo o que a definia: a mecha prateada escondida; a frieza implacável com que se vingara; e até mesmo a maldita crueldade casual com que agia naquele momento, ao rejeitar algo pelo qual a maioria das mulheres mataria.
Apesar de não fazer sentido, isso provocava um desejo ainda maior nele. Queria Targaryen. Intensamente. Ferozmente. Muito.
— Seria uma união perfeitamente adequada do ponto de vista político — insistiu mais uma vez, usando a maior verdade de todas como argumento, pois de fato seria um ótimo arranjo: o segundo filho do príncipe Maekar e a filha da Mão do Rei e herdeiro do Trono de Ferro.
— Sim, justamente por isso — respondeu, como se aquilo explicasse tudo.
— … — reclamou em tom de reprovação. — Como isso pode ser um problema?
— Não é — falou. — É só um tantinho entediante.
Aerion grunhiu em resposta e optou por deixar as palavras de lado. Beijou-a com força — do jeito que ela gostava — e colocou mais firmeza e voracidade nos toques, deleitando-se com seus suspiros e arquejos. Deslizou a mão para baixo, apertando-a em todo o caminho até suas saias.
Aprofundou o beijo, a boca quente e possessiva tomando a dela para si. Uma das mãos permaneceu entrelaçada em seus cabelos, e a outra ergueu devagar e com clara intenção o tecido do vestido.
A respiração de falhou quando os dedos dele roçaram a pele nua sob a seda azul clara, subindo pela coxa em um toque que queimava. Uma sensação de triunfo percorreu o corpo de Aerion com os pequenos sons que ela emitia. podia não querer o casamento, mas com certeza queria aquilo.
— Estou sendo entediante para você agora, ? — perguntou baixinho.
— Ah, Aerion, você nunca seria, nem de longe, qualquer coisa próxima de entediante para mim. — beijou-lhe o maxilar e, em seguida, o pescoço, até que os lábios roçassem na orelha enquanto ela sussurrava em seu ouvido: — Eu facilmente teria você na minha cama pelo resto da vida.
E então os dedos de Aerion, enfim, encontraram seu destino entre as coxas de . Ela soltou um suspiro profundo. Tudo para ele.
O sangue de Aerion ferveu com aquela entrega. permitindo que ele a tocasse daquela maneira pela primeira vez, sussurrando desejos obscenos em seu ouvido, beijando o seu pescoço como se jamais se cansasse… Parecia melhor do que um sonho.
Ele adorava ver como ela demonstrava uma confiança absoluta e sem reservas nele, entre todas as pessoas. E, pelos deuses, a forma como reagia ao menor toque de seus dedos — com a respiração falha e o corpo inclinando-se ainda mais contra o dele — desfez qualquer resquício de autocontrole que Aerion julgava possuir.
Seus lábios colidiram novamente e ele explorou mais a fundo por baixo do tecido. soltou um suspiro sufocado em meio aos beijos e rebolou os quadris, buscando por mais contato. A boca dele abafava os sons doces que ela deixava escapar.
— Quero que saiba que não estou recusando a ideia de um casamento com você apenas por causa do que falei — murmurou, ofegante, sem afastar os lábios. — Eu não me importaria de me casar com você, de dormir e acordar ao seu lado, de lhe dar filhos… Na verdade, gostaria de compartilhar toda uma vida com você. — Deslizou os dedos pelos cabelos dele com ternura, e um sorriso sincero dançou em seus lábios. — Especialmente depois do que compartilhamos esta noite.
Aerion paralisou, exceto pela mão, que apenas diminuiu o ritmo do toque. Para um homem que sempre tinha algo a dizer — uma resposta mordaz, uma declaração de autoridade —, de repente, não conseguia articular uma palavra sequer.
queria o casamento, então. Desejava filhos e até compartilhar uma vida com ele. Além disso, havia mencionado o modo como compartilharam essa noite de sangue, violência e paixão como algo de grande relevância nisso tudo. E falara daquilo como algo real.
A respiração dele ficou mais lenta e o coração martelava no peito. Ele assimilava cada palavra devagar, e a frustração se dissolvia em um silêncio atônito. Afinal de contas, Targaryen — a mulher por quem nutrira uma obsessão durante dois anos acreditando não haver tamanha reciprocidade — estava lhe oferecendo tudo, de livre e espontânea vontade… ao menos através de palavras.
Sua mente fervilhava. Ela o desejava, assim como queria um casamento com ele, filhos, uma vida a dois e tudo o que vinha com isso. Ainda assim, o recusara. E agora ainda fizera aquela ressalva — “não apenas por causa do que falei”. Sua mente girava com perguntas que não sabia como pronunciar sem parecer um tolo apaixonado.
Qual seria o real motivo? Orgulho, independência, o medo de se aprisionar nas políticas Targaryen para sempre? Ou será que ela só não acreditava naquilo, mesmo que quisesse viver algo do tipo com ele?
Buscou resposta no rosto dela, mas tudo o que encontrou foi um lindo sorriso e os olhos escuros que se prendiam aos dele como se se pertencessem de uma forma que cerimônia nenhuma poderia comprovar.
— Me conte — pediu, por fim, seus dedos ainda dançando contra a pele sensível.
— A verdade é que pretendo partir para as Cidades Livres depois do torneio, e conheço você o suficiente para saber que não embarcaria comigo nessa pequena aventura. — Deixou as palavras pairarem entre eles. — É apegado demais a isso tudo: o sangue do dragão, o legado, tudo o que vem com o fato de sermos da Casa Targaryen.
Sua mão percorria os cabelos dele, às vezes puxando-o com um pouco mais de força quando o prazer de seu toque era intenso demais para ser ignorado. Seu olhar sustentou o dele e o sorrisinho suave brilhou com o lampejo de algo quase travesso.
— Não deixaria tudo isso para trás por uma boceta. — prendeu o lábio inferior dele, ainda levemente machucado, entre os dentes e mordeu com força o bastante para deixar uma ardência persistente. — Mesmo por uma que você deseje tanto assim.
A mordida cortante, quase punitiva e completamente perfeita, fez o pulso de Aerion disparar. E as palavras o atingiram como uma adaga nas entranhas. A adaga negra dela.
iria embora, e não era apenas uma viagem qualquer para se divertir. Ela estava indo para um lugar onde o nome Targaryen não significava a mesma coisa e o sangue do dragão já não importava tanto. A recusa ao casamento viera disso: ela achava que ele ficaria ali, agarrado a títulos e ao legado enquanto ela vagava sozinha por terras estrangeiras sem ele… o que era verdade, em grande parte.
Aquilo só mostrava o quanto o conhecia bem o suficiente para prever como as coisas seriam. E isso doía mais do que qualquer rejeição.
— Não pare — resmungou ela, impelindo-se contra ele.
Aerion não parou. A mão, ainda sob o vestido, continuou a se mover. Seus dedos traçaram um rastro de calor na pele dela com uma lentidão deliberada, porém, aumentaram a pressão, arrancando suspiros de . O corte no lábio latejava em um claro lembrete dos dentes dela e da verdade cruel que havia lhe dito. Concentrou-se, então, na maneira como tremia quando o polegar dele subia… e em como a respiração falhava de um modo delicioso toda vez que a tocava de um certo jeito.
Pois bem. Se partiria em breve para as Cidades Livres e o casamento não aconteceria de forma alguma, então ele aproveitaria qualquer tipo de intimidade que lhes restasse antes que ela desaparecesse do outro lado do Mar Estreito. Beijou-lhe o pescoço com ímpeto, deixando toda a frustração e o desejo transbordarem em cada toque.
— Por que quer ir para lá? — murmurou, sem jamais parar.
soltou uma risadinha baixa e ofegante contra a pele de Aerion, entregando-se às sensações. Seus dedos se fecharam nos cabelos dele conforme outro arrepio percorria seu corpo.
— Sei que não será fácil para uma mulher sozinha, mas quero me divertir um pouco. Não desejo passar o resto da vida indo de Pedra do Dragão para Porto Real… ou para onde quer que seja enviada quando meu pai decidir com quem devo me casar. — Selou seus lábios de novo e sorriu de leve. — Além disso… por que Valarr deveria ser o único a provar um gostinho das Cidades Livres?
O pequeno deboche carregava um significado maior do que as palavras sugeriam. O casamento do irmão gêmeo com Kiera de Tyrosh lhe dera uma conexão própria com aquele mundo; e não tinha a menor intenção de fingir que interessava-se apenas nas ruas, palácios e mercados de lá.
— Talvez eu queira conhecer Lys. Dizem que ainda há muito sangue valiriano por lá. — Sua respiração continuava irregular. — E depois, quem sabe, algum outro lugar. Myr, Tyrosh. Por que não?
Aerion tensionava o maxilar a cada nome mencionado. Cidades de seda, comércio e prazer — lugares onde o Império Valiriano governara séculos atrás; dias que, agora, eram apenas memória. queria vagar por lá como uma aventureira qualquer de espírito livre, em vez de permanecer aqui como uma princesa presa ao dever. A sua princesa.
Era imprudente e perigoso — em especial para uma mulher com tamanha beleza e fogo viajando sozinha… Mas também parecia fascinante. Seus dedos deslizavam, devagar e constantes, sobre ela enquanto ele a imaginava percorrendo ruas estrangeiras com sua adaga negra no cinto, livre das amarras políticas de Westeros.
Os lábios de se entreabriam e seu peito subia e descia mais rápido agora. Ele não conseguia deixar de contemplá-la daquele jeito. Ela estava tão linda assim. Nas mãos dele. Entregue às carícias. Sem se esconder atrás dos modos perfeitos de princesa ou sorrisos corteses… somente desejando-o. E, ainda assim, planejava deixar tudo para trás — deixar Aerion para trás — em busca de uma vida incógnita para a qual Aerion jamais poderia acompanhá-la sem sacrificar o que acreditava definir quem ele era.
Sua boca encontrou a dela novamente, no intuito de despejar frustração, anseio e desejo não ditos sobre ela. Aerion queria mais do que aquela noite. Mais do que um momento roubado atrás de uma tapeçaria e outro no jardim sob o luar após derramamento de sangue. Mas, se ela não ficaria nem para um casamento com ele, o que mais restava além disso?
Então ele a tocou, de novo e de novo, aumentando a precisão e movimentando os dedos da maneira que a fazia responder melhor. se agarrava a ele com mais ímpeto, como se precisasse daquele apoio para se manter. Ela buscava sua boca para beijos curtos e desesperados enquanto tremia de prazer, presa entre ele e a parede.
— Aerion… — arquejou, sem fôlego.
O modo como ela pronunciou seu nome, com a voz desafinando levemente, fez uma onda de calor percorrer cada parte de seu corpo. Ele engolia os lindos sons entrecortados que ela emitia. prendeu o lábio inferior dele entre os dentes daquele jeitinho especial que ele amava, e Aerion grunhiu contra a boca dela.
Pelos deuses, nada jamais fora assim. Nada. Nenhuma dança ou aliança política algum dia seria capaz de se comparar a se entregando por inteiro em seus braços naquele momento. E talvez fosse isso o que mais o aterrorizava, afinal, ela partiria. Em breve. Ainda assim, manteve seus dedos trabalhando, firmes e intensos. Os beijos tornavam-se cada vez mais vorazes… sedentos. E ele buscou sugar até a última gota do que ela pudesse lhe oferecer naquela onda de prazer.
E sentiu. Tudo o que pôde. Permaneceu nos braços dele conforme a tensão ia abandonando o seu corpo aos poucos. A respiração se acalmou de maneira gradual, mas ela não tirou a mão dos cabelos dele — ainda que agora não os puxasse. Ela aproveitou o silêncio que os encobria o máximo que pôde, desejando se lembrar da bela intimidade de apenas existirem juntos.
— Se um dia você acabar indo parar em Essos, seja lá o motivo, deveria me procurar. Me encontrar. — Ela sorriu, erguendo os olhos para Aerion. — Então teríamos mais disso enquanto estivesse por lá. E poderíamos passar nossos dias e noites juntos, fazendo o que quiséssemos, indo aonde bem entendêssemos. Ah, sim, e nos divertiríamos da maneira que mais nos agradasse… — Desviou o olhar até o cadáver não muito distante e, quando voltou a encarar Aerion, a diversão sombria tomara sua expressão. — Talvez encontrássemos jeitos bastante interessantes de nos divertir.
O coração de Aerion disparou de uma forma que nada tinha a ver com a adrenalina do assassinato e da vingança, sentida pouco antes. Pela primeira vez, um convite de não parecia um desafio; era pura e simplesmente um convite sincero. E ela não queria somente mais um momento roubado — dessa vez do outro lado do Mar Estreito —, desejava tantos dias e noites quanto possível do período em que ele ficasse por lá.
— a sua — o fazia ansiar pelo caos envolto em prazer que oferecia, mesmo que ambos soubessem que aquela aventura sem amarras provavelmente nunca viesse a acontecer.
— …
Tristeza flutuava em seu tom, e ele não pronunciou nada além disso. Não conseguia. Seu polegar roçou a maçã do rosto dela em um carinho reverente, antes de subir a mão para afagar-lhe os cabelos. Inclinou o rosto e selou seus lábios em um gesto lento e carregado de ternura, como se selasse uma promessa.
— Eu sei. Eu também ia amar — sussurrou ela. — Mas, por enquanto… Pelo menos você pode me ter esta noite e na próxima. Por inteiro. De verdade.
Aquilo foi tudo o que Aerion precisou ouvir. A contenção a qual se apegava no último instante despedaçou-se em um piscar de olhos. Ela não ficaria e, infelizmente, não se casaria com ele. Então que fosse! Essa noite em Solarestival seria dele. Targaryen era dele. Somente dele.
— Dois anos, … Venho pensando nisso há dois anos — disse. — Você tem alguma ideia do que está me oferecendo?
— Ah, sim. Tenho uma ideia bastante boa. — Abriu um sorriso doce e deslizou o polegar pelo lábio inferior dele. — Também foram dois anos para mim, Aerion. Ou você acha que é o único que ficou obcecado?
Ele grunhiu com o comentário e capturou os lábios dela de novo, em um movimento repleto de posse. Mais ainda agora que confirmara com todas as letras que correspondia sua obsessão de igual para igual. Beijaram-se profundamente, sem joguinhos nem provocações, envolvidos por puro anseio. Ele queria tê-la de todas as maneiras possíveis essa noite, e sempre que pudesse. E ela queria o mesmo.
permitiu-se mergulhar naquele beijo até se perder. Dois anos de lembranças se fundiam ao calor da boca dele, à pressão familiar de suas mãos, ao som de sua respiração ofegante. Ela o abraçou com mais força, como se nunca mais quisesse soltar. Seus dedos apertaram-se nos cabelos dele. Queria recordar exatamente qual era a sensação de tê-lo tão perto assim.
Quando, enfim, se separaram, nenhum dos dois se afastou muito. Suas testas repousavam uma na outra e tudo o que eles sentiam se misturava ao silêncio do jardim. o observou por um longo momento, uma ternura quase insuportável dançava por trás da malícia que ainda brilhava em seus olhos.
— Ah, sim — lembrou-se de repente. Desviou o olhar para além do ombro dele, para o homem morto, e então tornou a fitar Aerion com um sorrisinho divertido. — Primeiro, temos que jogar o corpo encosta abaixo.
Fim.
Nota da autora
Sem nota.
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