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Blackthorn

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Capítulo Único

Capítulo Único

31 de outubro, 16h12

O GPS disse "continue em frente por quarenta e oito quilômetros" pela terceira vez em vinte minutos, e ninguém dentro do carro prestou atenção novamente.
O carro era do Noah, um SUV cinza e velho que cheirava a café e bala de menta, e que naquela tarde carregava cinco pessoas, cinco malas, um cobertor de oncinha e duas sacolas de salgadinho em direção a uma cidadezinha pequena para comemorarem o Halloween. Noah dirigia, Lizzie ia ao lado dele, com os pés de meias de cerejas em cima do painel e o celular na mão, no comando da playlist. Atrás, Lia ficou na janela esquerda, Kate na direita, e Logan, o novato, foi sentenciado ao banco do meio.
— Eu tenho um metro e oitenta e cinco.
— É tradição, lindo — explicou Kate quando ele tentou argumentar. — Quem é novo vai no meio. É como um batismo, só que sem água.
Logan dobrou as pernas e riu. Era fácil rir com eles. Ele e Kate estavam saindo há exatos dois meses e meio, e ele ainda se surpreendia com a quantidade de coisas que aquele grupo conseguia fazer ao mesmo tempo: terminar as frases uns dos outros, brigar por causa de música e contar histórias como se tivessem vivido mil vidas juntos.
— Eu ainda não sei como vocês dois se conheceram — disse Logan, esticando o pescoço entre os bancos da frente.
O carro inteiro mudou de clima. Kate puxou o cobertor até os olhos, Lia bufou e Lizzie fechou os olhos devagar, sorrindo.
— Ah, não… — disse Lia.
— Porque você fez isso, Logan? — Kate resmungou.
— Ele fez a pergunta, vocês viram! — disse Noah, e dava para ouvir o sorriso na voz dele. — Agora não tem mais volta.
— Eu já ouvi essa história umas quarenta vezes — avisou Kate, debaixo do cobertor. — E ele sempre muda o final.
— Eu aperfeiçoo o final. Logan, presta atenção. Eu tinha dezoito anos e uma missão: A caça ao tesouro da semana de orientação. O prêmio era um ano de pizza grátis na lanchonete do campus. Um ano, Logan. Para um garoto de dezoito anos com a geladeira vazia, aquilo era basicamente uma loteria.
— Ele treinou… — disse Kate.
— Eu me preparei. Estudei o mapa do campus três dias antes. Sabia onde ficava cada prédio, cada atalho, cada banheiro. Eu estava invencível. Aí começou o jogo, eu e mais três amigos corremos até o primeiro ponto e adivinha quem já estava saindo de lá?
— Eu — disse Lizzie, inocente.
— Ela. Com o mapa dobrado em quatro e uma caneta vermelha atrás da orelha. Dando instruções para cada pessoa do time. Eu nunca tinha visto aquilo. Era como assistir a uma operação militar de um país pequeno e extremamente bem administrado.
— Eu sou competitiva — ela completou, como se explicasse tudo.
— Segunda pista, ela de novo. Na terceira pista, chegamos no ponto e o cartão tinha um erro de pontuação. E ela, em vez de resolver o enigma, pegou a caneta e corrigiu o cartão.
— A vírgula estava no lugar errado. Mudava o sentido.
— Mudava o sentido! — repetiu Noah, num tom de quem lembrava de um milagre. — Foi aí, Logan. Eu encarei ela, olhando pra vírgula orgulhosa, e eu pensei: é ela. Eu nem sabia o nome dela, mas perdi uns bons minutos observando, encantado.
— E perdeu quase o próprio time — corrigiu Kate.
— Uns traidores! Aí, a última pista: a torre do relógio. Os dois times chegaram juntos, a bandeira estava lá em cima, e a gente começou a subir a escada, ela na frente e eu atrás. Eu era mais rápido, dava pra ganhar fácil. E aí eu olhei pra ela, com a caneta vermelha prendendo o cabelo em um coque, concentrada, e pensei: se eu ganhar, ela vai ficar chateada. Eu não podia permitir isso.
— Ele diz que me deixou ganhar.
— Eu deixei.
— Ele tropeçou no degrau e derrubou o próprio time.
— Foi um tropeço estratégico.
— No ano passado foi uma cãibra — disse Kate.
— No anterior, foi um degrau com defeito — completou Lia.
— Eu aperfeiçoo o final — repetiu Noah, com dignidade.
Logan estava com lágrimas nos olhos de tanto rir. Lizzie tinha virado o rosto para o lado, olhando Noah como quem ouvia a história pela primeira vez, com o sorriso aberto.
— E aí, você ficou com ela? — perguntou Logan.
— Eu levei seis meses pra ela me dar uma chance… — suspirou Noah, resignado. — Eu perdi um ano de pizza — continuou ele, e sem tirar os olhos da estrada estendeu a mão para o lado e encontrou a da namorada sem precisar procurar. — Perdi meu time, perdi a dignidade. E fechei o melhor negócio da minha vida. Eu faria tudo de novo.
Kate fez barulho de enjoo debaixo do cobertor, mas sorriu, e Logan enxugou os olhos com a manga do casaco.
— Eu estava com medo de vocês, sabiam? — confessou. — A Kate disse que o grupo era "intenso". Agora eu só estou com inveja.
— Intenso é a palavra certa — disse Kate, aninhando a cabeça no ombro dele. — Você ainda não nos viu brigando por causa de música.
— Eu já vi.
— Você viu a gente discutindo. Brigar é diferente.
Noah soltou uma risada baixa. Lizzie voltou a olhar o celular, mas não soltou a mão dele, e os dois ficaram assim por alguns quilômetros: ele dirigindo com uma mão só, ela escolhendo a próxima música com a outra, sem precisar dizer nada.
Aos poucos, a conversa foi diminuindo, como acontece nas viagens longas, quando todo mundo gasta o assunto ao mesmo tempo. A luz da tarde foi ficando mais dourada. Os postos de gasolina ficaram raros, depois os carros, depois as placas de propaganda, até sobrar só a estrada e a fileira de árvores dos dois lados. No banco de trás, Lia encostou a testa no vidro frio. Dentro do carro, só se ouvia o motor, a música baixa e o cobertor de oncinha farfalhando quando Kate se mexia.
— Noah — chamou Kate, inclinando-se entre os bancos. — Tem uma tartaruga ultrapassando a gente.
O velocímetro marcava exatamente cem. O limite mínimo da estrada era cem.
— É a lei, Kate. Alguém precisa respeitá-la, e a polícia me adora.
— A polícia nunca te viu.
— É por isso que me adora.
Havia um tempo em que Noah dirigia como se a estrada tivesse ofendido pessoalmente a família dele, mas depois do que aconteceu, dois anos atrás, ninguém ia reclamar da mudança. Lia olhou o velocímetro por um segundo e voltou para a janela.
— Tá bom, silêncio chato… — anunciou Kate, batendo palmas. — Jogo novo. Quem morre primeiro num filme de terror! Primeira vítima: você, lindo.
— Eu? — perguntou Logan.
— Você tem cara de quem diz "vou ver que barulho é esse".
— E sempre é o encanamento, ou qualquer coisa que não seja sobrenatural.
— Mas acaba morrendo primeiro mesmo assim — completou Lizzie, e Kate bateu na mão dela por cima do banco.
— E o Noah? — perguntou Logan, já pegando o jeito.
— Ele morre com a piada pela metade — continuou Lia, tirando os olhos da estrada. — E o assassino nem ri.
— Eu me recuso a aceitar essa crítica. Era uma piada boa!
— Qual era?
— Nunca saberemos.
Logan caiu na gargalhada. Kate se inclinou, com os olhos apertados.
— E eu?
— Você morre gravando vídeo. "Gente, olha o que tem atrás de mim."
— Eu ia ficar famosa!
— Postumamente.
— Eu te odeio.
— Você me ama — disse Lia, e sorriu de lado.
— A Lizzie sobrevive até o último ato. O assassino tem medo dela — fala Noah, com orgulho da namorada.
— Eu sobreviveria mesmo até o último ato — concordou Lizzie, com dignidade. — Aí eu voltaria pra te buscar.
— Romântico.
— E te daria bronca o caminho inteiro.
— E aí vocês morreriam abraçados — disse Kate. — No final do segundo ato. Com trilha sonora de violino.
— Eu morreria feliz — disse Noah, sem a menor vergonha.
— E Lia seria a que mata o assassino, no final — Lizzie completou, fazendo todos concordarem.
— Mas, pensando bem… — disse Kate, arregalando os olhos, como quem faz uma descoberta terrível — Estamos literalmente num filme de terror. Cidade pequena, floresta, festa de Halloween com mais de cem anos, casa alugada pela internet, aí um de nós se separa do grupo e...
— A gente não vai se separar — disse Noah.
— Pelo menos a casa tem nota boa — disse Lia. Ela quem tinha achado Blackthorn, a festa e organizado tudo, incluindo a reserva do Airbnb, e ninguém tinha questionado, porque fazia muito tempo que ela não pedia nada. — 4,9.
— Suspeito.
— Tem um comentário que diz "a casa é muito quieta".
— Isso é bom ou ruim em filme de terror?
— Ruim — responderam Kate e Noah ao mesmo tempo.
A estrada começou a se fechar em árvores altas e molhadas, num verde que já tendia ao laranja. Kate ergueu um dedo, como uma professora.
— Regras de sobrevivência. Número um: nunca responda quando alguém te chamar do escuro.
— E se for alguém pedindo ajuda? — perguntou Logan.
— Morreu — disseram os quatro, em coro perfeito.
Logan jogou a cabeça para trás, rindo.
— Número dois — disse Lia, ainda sorrindo. — Nunca diga "eu vou só dar uma olhadinha". O Theo dizia que era a frase mais perigosa da história do cinema.
— Ele tinha uma teoria para tudo — disse Noah, rindo baixinho, com os olhos na estrada. — Fazia maratona de terror todo Halloween e comentava cada cena como se fosse narrador de futebol.
— "Olha o violino. Esse violino é um exagero" — imitou Lia, e os quatro riram, de um jeito nostálgico.
— A gente nunca conseguia assistir em paz — disse Lizzie.
— Porque ele estragava o susto! — lembrou Kate. — "Agora vai aparecer alguém atrás do espelho." E aparecia.
Logan olhou de um para o outro, sorrindo meio perdido, e moveu os lábios na direção de Kate, sem voz: quem? Kate apertou a mão dele por baixo do cobertor. Depois eu conto, disse com o olhar.
Quarenta minutos depois, o GPS finalmente disse algo diferente: "Você chegará ao seu destino em 2 quilômetros."
A estrada fez uma curva em subida, e a luz da tarde, que vinha dourada, ficou de repente cinza-azulada entre as árvores. Noah baixou o volume da música sem que ninguém pedisse. Lizzie parou de mexer na playlist e até Kate ficou em silêncio, com o nariz quase colado no vidro.
Então a floresta se abriu, e entre as árvores apareceu uma placa de madeira, velha, com abóboras pintadas à mão nos cantos e as letras escuras já meio desbotadas:

BLACKTHORN
Desde 1892.
Aqui, ninguém comemora sozinho.

— Um pouco misterioso, né? — comentou Noah.
— Eu amei — disse Kate.
— Eu também — disse Lizzie, já tirando fotos pela janela.
— Isso é um bom marketing — disse Logan, com um sorriso. — Toda cidade pequena tem uma lenda para atrair turistas.
— E funcionou. Eu li que a festa é uma tradição centenária: a cidade inteira fica em volta de uma fogueira até a meia-noite, e ninguém vai embora antes disso — Lia falou.
— Por quê?
— Dá azar. — Ela deu de ombros.
— Claro que dá — disse Logan, cético, rindo.
Noah reduziu a velocidade e passou devagar por baixo da placa. Do outro lado, a estrada descia em direção a um vale, e a cidade foi se mostrando aos poucos: telhados inclinados, casas vitorianas de cores desbotadas, janelas já acesas, abóboras enfileiradas em todas as varandas e, no alto de uma colina, uma igreja de pedra escura, com a torre apontando para o céu.
— Meu Deus — disse Lizzie, baixinho.
— Parece um cartão-postal — disse Kate.
— Um cartão-postal bem sinistro — corrigiu Noah, e Lizzie o beliscou.
Foi então que a música, que tocava desde o começo da viagem, engasgou, travou e morreu. O GPS, que ia repetir a frase pela segunda vez, parou no meio. Lizzie olhou para o celular.
— Perdi o sinal.
— Eu também — disse Kate.
— Eu também — disse Logan.
— E lá se foi a civilização — declarou Noah, no tom dramático.
O rádio começou a chiar baixinho, um ruído branco e contínuo que ninguém se deu ao trabalho de desligar.
— Sem GPS, sem sinal… — resumiu Noah. — Como vamos chegar até o Airbnb?
— Eu sei — disse Lia, tirando do bolso um papel dobrado em quatro. — Imprimi as instruções da anfitriã. Segunda à esquerda depois da praça, e a casa é a verde, no fim da rua.
— Você imprimiu? — perguntou Kate.
— Uma das avaliações dizia que o sinal era péssimo.
— E você não contou?
— Queria que fosse surpresa.
Noah seguiu devagar pelas ruas estreitas. Na praça central, uma dúzia de moradores penduravam esqueletos de papel num coreto e passavam fios de lanternas entre os postes. Uma senhora que varria a calçada parou para ver o carro passar e acenou, simpática. Lizzie acenou de volta.
A casa era uma construção vitoriana verde-musgo, de varanda larga e janelas altas, com uma abóbora talhada em cada degrau da escada. Em todas as janelas, uma vela já acesa, apesar de ainda ser dia.
— Ai, que fofo — disse Kate.
— Eles acendem vela de dia? — perguntou Logan.
— Deve ser decoração — disse Lizzie, já fotografando.
A chave estava embaixo de uma abóbora de cerâmica, como a anfitriã tinha prometido, e havia um bilhete preso na porta, em letra cursiva e tinta azul:

“Bem-vindos a Blackthorn! Há lenha na varanda, comida na geladeira e uma vela em cada janela. Por favor, deixem-nas acesas até o amanhecer. É tradição por aqui. Boa festa! — Sra. Aldrich”

— "Até o amanhecer" — leu Noah. — Isso soa como regra de filme de terror.
— Regra número três — disse Kate, solene. — Nunca apague as velas.
— Ou o quê? — perguntou Logan.
— Você não teria que se preocupar, lindo, já teria morrido na primeira regra, lembra?
Lizzie gargalhou, e Logan fingiu se ofender.
Por dentro, a casa cheirava a cera e a livros velhos. O assoalho estalava a cada passo, e a escada de madeira escura rangia como se reclamasse de cada um deles. No andar de cima havia três quartos: o maior, de frente para a rua, com janelas altas; um médio, quase todo ocupado por uma cama enorme; e um pequeno, no fim do corredor, com duas camas de solteiro.
Antes que alguém falasse, Noah largou a mala na porta do quarto da cama enorme.
— Esse é nosso.
— Amor… — chamou Lizzie, já parada na porta do maior —, vem ver a vista. Olha que linda!
Ele foi, só para olhar. Da janela dava para ver, no alto da colina, a torre da igreja recortada contra o céu. Lizzie olhou para ele, sem dizer nada, mas ele sabia que ela tinha gostado mais de lá.
— Mudança de planos — disse Noah, sem pensar um segundo, e foi buscar a mala. — Esse é o nosso.
— Você escolheu o da cama grande trinta segundos atrás — lembrou Kate, parada no corredor.
— Eu tenho convicções flexíveis, e Lizzie queria ficar nesse, então...
— Então a cama grande sobrou? — perguntou Kate.
— Sobrou.
Kate foi correndo até o quarto e se jogou de braços abertos no meio do colchão.
— Eu moro aqui agora.
— A gente divide? — perguntou Logan, da porta, se aproximando dela.
— Hm… é, acho que faço esse esforço — ela brincou, mas aceitou o selinho do menino.
O último quarto, no fim do corredor, era o menor, com duas camas de solteiro e uma janela virada para a floresta. Lia ficou com ele sem discutir. Deixou a mala em cima de uma das camas, depois sorriu para si mesma e foi abrir a janela. Lá fora, as árvores já começavam a desaparecer no escuro, a poucos metros do quintal.
Ainda faltavam quatro horas para a festa, e o início da noite se desfez em pequenas coisas. Kate descobriu que na geladeira tinha tortas de maçã e uma jarra de cidra. Noah acendeu a lareira, mesmo sem frio, só para ver Lizzie se sentar na frente dela com um cobertor. Logan começou a montar um quebra-cabeça de mil peças que encontrou na estante e, aos poucos, os outros foram se juntando em volta da mesa, por falta do que fazer.
Às nove, a casa virou uma bagunça de maquiagem e secador de cabelo. Lizzie bateu na porta do banheiro duas vezes antes de Kate sair, com metade do rosto coberta por uma queimadura feita de cola, sombra marrom e muita paciência.
— Eu tô linda.
— Você tá assustadora… e linda — disse Lizzie, que era a parte do casal Addams que ainda precisava de ajuda com o laço do vestido preto.
— É a ideia.
Às nove e quarenta, desceram um de cada vez, como num desfile. Lizzie era Morticia, de vestido longo e seus cabelos pretos longos e lisos. Noah era Gomez, de terno listrado, um bigode desenhado com delineador que já estava um pouco borrado de um lado e uma mão de plástico presa no ombro.
Kate era uma versão feminina do Freddy Krueger: blusa listrada de vermelho e verde, saia preta, chapéu de feltro marrom e uma luva com garras de metal falso, que ela arrastou pela parede do corredor só para testar o som.
— E cadê o meu Michael Myers? — perguntou ela, olhando para a escada.
Logan desceu devagar, de macacão escuro, máscara branca e uma faca de cozinha de plástico na mão, respirando fundo atrás da máscara, como o personagem exigia.
— Tô aqui, linda — anunciou, abafado.
— O assassino que nunca fala — Kate disse, com orgulho.
— O assassino que nunca fala acabou de falar — observou Noah.
— Michael Myers é só um cara de macacão com problemas de comunicação — defendeu-se Logan, e a sala explodiu em risadas.
— Gente… — disse Lizzie, olhando em volta. — Cadê a Lia?
A luz do corredor de cima estava apagada. No topo da escada, havia uma sombra, parada. Devagar, uma mão apareceu, segurando uma faca de plástico, e Lia desceu os degraus de um em um: peruca ruiva, macacão jeans, camiseta listrada e o rosto cheio de cicatrizes desenhadas com delineador. Parou no último degrau e inclinou a cabeça.
— Vamos brincar? — disse, numa vozinha aguda.
Kate gritou e pulou para trás, quase derrubando o abajur. Noah levou a mão ao peito, como Gomez Addams teria feito.
— Chucky! — gritou Logan, pela máscara. — Maneiro.
— Eu planejei isso há semanas — disse Lia, orgulhosa, girando a faca no dedo.
— O Theo teria adorado — disse Lizzie, sorrindo.
— Eu sei — respondeu Lia, e o sorriso dela mostrava que havia sido justamente por isso sua escolha.
Saíram em fila desorganizada pela rua das velas acesas. A trilha para a festa começava no fim da vila, onde o asfalto virava terra batida e as casas davam lugar às árvores. Ninguém precisava de mapa: bastava seguir a correnteza de gente fantasiada, as risadas e o som distante de um baixo vindo do meio da floresta.
Lanternas de papel penduradas nos galhos marcavam o caminho a cada poucos metros, balançando de leve, e dava para ver o próprio hálito no ar. Kate arrastava as garras da luva pelos troncos que passavam, e o som metálico arrepiava a todos.
— Pode parar com isso? — pediu Noah.
— É o meu personagem.
— O meu personagem não enxerga nada — reclamou Logan.
— Segura meu braço, Michael.
Dois minutos depois, ele tropeçou numa raiz e quase levou Noah junto. A mão de plástico do Gomez Addams caiu do ombro e rolou pelo chão.
— Perdi um membro — declarou Noah, solene, e Lizzie a recolheu rindo, a prendendo de volta com um grampo de cabelo. Lia ia na frente com a faca de plástico no cinto, conversando com Kate e rindo de qualquer coisa.
Na entrada da clareira, uma moça com chapéu de bruxa e uma cesta nos braços distribuía pulseiras de raminhos de espinheiro, de flores brancas e espinhos desafiados pretos.
— Para dar sorte — explicou. — Tradição.
— Vocês têm tradição pra tudo — comentou Logan.
— A gente leva a sério — respondeu ela, e sorriu.
Então a floresta se abriu, e eles pararam.
Era como se alguém tivesse recortado um pedaço da noite e o enchido de luz. Um enorme campo circular, cercado de árvores altas, com milhares de lanternas laranja penduradas nos galhos como estrelas baixas. Barracas de comida e bebida em todo o perímetro, com cheiro de cidra quente, canela e maçã caramelizada.
Uma banda tocava num palco de madeira. Havia uma casa mal-assombrada que parecia bem real, uma roda-gigante pequena girando devagar, jogos de argola e, no meio de tudo, uma fogueira enorme, tão alta quanto uma casa, com chamas que lambiam o céu e iluminavam centenas de pessoas fantasiadas: zumbis, bruxas, esqueletos, palhaços, fantasmas de lençol e mil outras coisas.
— Meu Deus — disse Kate.
— Esse é o Halloween que os outros Halloweens querem ser quando crescerem — disse Noah.
— Eu já amei — disse Lizzie, e puxou o celular. — Fotos. Agora.
Enquanto as meninas tiravam fotos, Noah e Logan aproveitaram para dar um passeio, voltando minutos depois de uma barraca com cinco copos de cidra quente com "um toque de alguma coisa a mais", como disse o vendedor, e eles brindaram no meio da multidão.
— Ao Halloween! — gritou Kate e todos beberam após repetirem a saudação.
Depois disso, Logan sumiu por mais cinco minutos e voltou com uma batata frita em espiral, espetada num palito, em formato de fantasma.
— Quanto foi? — perguntou Kate.
— Quinze dólares.
— Quinze?!
— É artesanal — defendeu-se ele, com a máscara erguida no alto da cabeça, e mordeu o fantasma na cabeça.
A banda tocou “Somebody's Watching Me”, e a pista de terra batida se encheu. Noah e Lizzie dançaram de propósito muito mal, de mãos dadas, girando como Gomez e Morticia num salão imaginário. Kate arrastou Logan, de máscara de novo, e os dois dançaram como um casal de assassinos esquisitos. Lia dançava no meio, com a faca na mão, rindo alto, e por um tempo ninguém precisou pensar em nada.
Tiraram mais fotos, dessa vez com outras pessoas. Uma delas com um grupo de Caça-Fantasmas que tinha um aspirador de verdade nas costas, outra com um Pennywise que apareceu atrás de todos com um balão vermelho, com uma melindrosa que insistiu pela foto, e com um segundo Michael Myers, que encarou Logan em silêncio por cinco longos segundos. Os dois se cumprimentaram com um aceno de cabeça, respeitosos, e cada um seguiu o seu caminho. Kate chorou de rir.
Foi na volta de uma dessas fotos que Lizzie parou de repente.
No limite do campo, onde a luz das lanternas já se misturava com a escuridão das árvores, havia uma tenda de veludo roxo, bordada com luas e estrelas douradas. Velas altas queimavam dos dois lados da entrada, e uma placa pintada à mão pendia de um fio:

LEITURA DE TAROT — $20

— Gente — disse Lizzie, de olhos arregalados. — A gente precisa fazer isso.
— Eu não vou gastar vinte dólares para uma mulher fingir que sabe meu futuro — disse Logan.
— Você acabou de gastar quinze dólares numa batata em formato de fantasma — lembrou Kate.
— Aquela batata é uma batata de qualidade.
— Noah… — pediu Lizzie, já se virando pro namorado, com os olhos que ele nunca soube negar.
Noah já tinha tirado a carteira do bolso antes de ela terminar de falar.
— Eu pago a minha e a sua. Quem mais vem?
— Eu — disse Kate, de imediato.
— Eu também — disse Lia, animada.
— Logan? — Kate disse, manhosa.
Ele suspirou, enfiou o resto da batata na boca e ergueu as mãos.
— Tá bom. Mas se ela disser que eu vou ter uma morte horrível e dolorosa, eu vou querer o dinheiro de volta.
Noah afastou a cortina de veludo, e os cinco entraram.
Por dentro, a tenda era menor do que parecia, e mais quente. As paredes de veludo roxo abafavam a música da festa até virar um zumbido distante. Havia almofadas no chão, feixes de ervas secas pendurados no teto e, no centro, uma mesa redonda coberta por um pano escuro, iluminada por três velas altas.
Atrás da mesa estava sentada uma mulher de uns setenta anos, de cabelo prateado preso num coque impecável, vestido preto longo e um colar de prata no pescoço. Tinha a postura de quem estava num teatro, e não numa barraca de feira.
— Cinco… — disse, olhando um por um, sem pressa. — Faz tempo que ninguém aparece em tantos. Sentem-se.
— Ela é igualzinha à minha avó — sussurrou Kate. — Só que mais assustadora.
— Eu ouvi — disse a mulher, sorrindo minimamente. — Uma carta para cada um. Sentem-se e escolham sem pensar.
Eles se ajeitaram nas almofadas do chão e a mulher abriu o baralho em leque sobre o pano escuro, as chamas das velas fazendo as bordas douradas das cartas piscarem.
Noah foi o primeiro e estendeu a mão com a tranquilidade de quem não esperava absolutamente nada daquela experiência, tirou uma carta do meio do leque e a entregou, ainda virada para baixo.
Ela a revelou devagar.
O Hierofante. Um homem de manto sentado entre dois fiéis, com duas chaves cruzadas aos pés.
A mulher inclinou a cabeça, estudando a imagem por alguns segundos antes de erguer os olhos para ele.
— Você é um homem que pensa no futuro.
— Depende do futuro — respondeu Noah. — Se envolver imposto de renda, prefiro não pensar.
Kate abafou uma risada. A mulher, não.
— Você brinca quando está nervoso?
— Não estou nervoso.
— Naturalmente.
Lizzie encostou o ombro no dele, sorrindo.
— Ele faz isso desde que eu o conheço.
— O Hierofante fala de compromisso. De promessas que não foram feitas para serem quebradas e de tradições que escolhemos construir com alguém. — A mulher tocou a borda da carta. — E, no seu caso, vejo uma pergunta que ainda não foi feita.
O sorriso de Noah vacilou. Foi rápido, quase imperceptível. Mas Lizzie estava ao lado dele havia tempo suficiente para notar.
— Uma pergunta? — repetiu ela, curiosa.
A mulher continuou olhando para Noah.
— Você já imaginou o momento em que vai pedir a alguém para passar o resto da vida com você. Pensou no lugar, nas palavras… até na reação dessa pessoa.
Por um instante, Noah esqueceu como se respirava. Lizzie virou a cabeça para ele tão depressa que quase bateu o nariz no dele.
— Espera aí.
— Não.
— Eu nem perguntei nada!
— Mas ia.
— Noah!
— Ela está falando de um arquétipo, Lizzie. É simbólico. As cartas fazem isso.
— Ah, claro — disse Kate, inclinando-se para a frente. — E por que você está vermelho?
— Está quente aqui dentro.
— A tenda tem três velas e a gente está em outubro — observou Logan.
A mulher ergueu uma das mãos, pedindo silêncio. Quando voltou a falar, a voz estava mais suave.
— Não tenha pressa em encontrar o momento perfeito, meu jovem. O que torna uma promessa importante não é a beleza do pedido. É saber que você continuará cumprindo essa promessa quando os dias forem comuns, quando as coisas forem difíceis e quando a vida não se parecer em nada com o que você imaginou.
O humor de Noah foi se desfazendo aos poucos.
Ele olhou para a carta. Depois para Lizzie.
Ela já não estava rindo, mas havia algo luminoso em seu rosto, uma felicidade cuidadosa, de quem acabou de receber um presente e tenta não abri-lo antes da hora.
Lizzie segurou a mão dele, entrelaçando os dedos nos seus. Ele apertou de volta, meio atordoado, sem saber se estava mais assustado com a leitura ou com a ideia de que uma desconhecida tivesse acabado de revelar algo que ele nunca contara a ninguém.
Porque o pior era que ela estava certa.
Ele já tinha pensado nisso. Todos os dias, inclusive. Não escolhera a data nem decidira como faria, mas já havia começado a imaginar uma vida em que Lizzie não era apenas a pessoa ao seu lado, e sim a pessoa com quem ele queria construir tudo o que ainda estava por vir.
Lizzie foi a próxima, estava diante da mulher com um sorriso que tentava parecer casual, embora os olhos ainda brilhassem. Escolheu uma carta, entregou e esperou.
A mulher a virou.
Os Enamorados. Um homem e uma mulher sob um anjo de braços abertos.
— Ah, isso é bom, né? — perguntou Lizzie, depressa demais.
— Você sempre precisa saber se as coisas vão dar certo antes de se permitir aproveitá-las?
Lizzie piscou.
— Eu... não sei. Talvez?
— Os Enamorados não falam apenas de amor. Falam de escolhas. Daquelas que fazemos quando há mais de um caminho diante de nós e precisamos decidir quem queremos ser e quem queremos ao nosso lado. — A mulher observou a carta por mais um instante. — Você encontrou alguém com quem consegue imaginar o futuro. Mas não é isso que fará esse relacionamento durar.
O sorriso de Lizzie diminuiu, substituído por uma atenção genuína.
— Não?
— Não. É o fato de que vocês não vão precisar escolher um ao outro apenas uma vez. Vão escolher de novo amanhã. E na semana que vem. E nos dias em que estiverem cansados, irritados, ocupados demais tentando resolver a vida para lembrar de dizer o quanto se amam.
Noah, ao lado dela, parou de brincar com os dedos de Lizzie.
— Vejo muitos anos para vocês. E, quando olharem para trás, vão perceber que não foi um único momento que os manteve juntos. Foram todos os dias em que poderiam ter se afastado e escolheram ficar.
Lizzie ficou em silêncio.
Olhou para Noah, e a expressão dele havia mudado. Já não era a de quem procura uma saída pela piada. Ele a olhava com uma ternura tão desarmada que, por um segundo, ela esqueceu que havia outras quatro pessoas na tenda.
— Muitos anos? — perguntou, baixinho.
— Muitos — confirmou a mulher.
Lizzie soltou uma risada trêmula, de olhos brilhando, e apertou a mão de Noah.
— Eu gostei da minha leitura.
— Percebi — disse ele, aproximando para beijar a testa dela.
— E você, gostou da sua?
— A minha foi uma ameaça.
— Uma ameaça de casamento?
— Lizzie.
— O quê? Só estou perguntando.
Ele balançou a cabeça, mas o sorriso que tentou esconder entregou mais do que qualquer resposta.
Logan foi o próximo, porque Kate o empurrou para a frente.
— Vai lá, lindo. Quero descobrir o que o universo tem reservado pra você.
— Se o universo tiver alguma consideração por mim, vai me devolver os vinte dólares — ele resmungou, baixinho, e escolheu uma carta, a largando diante da mulher.
Ela a virou.
A Lua. Um cão e um lobo uivavam para um céu pálido, enquanto uma trilha se perdia entre duas torres distantes.
— É boa? — perguntou Logan.
— Não é boa nem ruim. É enganosa.
— Ótimo. Adoro quando começam assim.
Ela ergueu os olhos para ele.
— Você não acredita em nada disso.
— Não.
— Mesmo assim, preste atenção. — Tocou a carta com a ponta do dedo. — Esta noite, coisas que não são reais vão te chamar. E vão parecer muito reais. Tenha cuidado com as ilusões, meu jovem. Nem tudo que chama por você merece resposta.
O sorriso de Logan diminuiu ligeiramente.
— Tá, mas tipo o quê?
— Você vai saber quando acontecer.
— Obrigado, foi bem específico. Pode deixar.
Kate soltou uma risada, rompendo o clima e foi em seguida, escolheu uma carta e a virou com um floreio.
Dois de Copas. Duas taças se encontrando sob um céu claro e, acima delas, um leão alado, como se abençoasse a união.
— Um começo — disse a mulher. — Uma ligação que ainda está descobrindo o que pode se tornar.
Kate olhou para Logan, que fingiu estar muito interessado nas próprias unhas. Quando ele sorriu, ela o empurrou de leve com o ombro.
A mulher observou os dois com ar divertido.
— Vocês ainda estão no começo. Há coisas que vão descobrir um sobre o outro, pequenas surpresas, manias irritantes, e momentos em que vão perceber que gostam muito mais dessa pessoa do que pretendiam gostar.
— É, eu acho que já estou percebendo isso — confessou Kate, antes de perceber o que tinha dito.
Logan ficou quieto por um instante, mas o sorriso dele mudou. Ficou menor e mais verdadeiro, sem a camada de provocação que costumava usar como armadura.
— Eu também — admitiu.
Kate apertou a mão dele.
A mulher recolheu a carta, mas acrescentou:
— Não tenham pressa de descobrir como essa história termina. Aproveitem o que está começando. Algumas coisas ficam mais bonitas quando recebem espaço para crescer.
Kate assentiu, ainda sorrindo. Então a mulher inclinou a cabeça, como se tivesse se lembrado de algo.
— E, esta noite, segure a mão dele. E não solte.
Kate ergueu as mãos entrelaçadas, exibindo-as como prova.
— Já estou segurando.
Lia foi a última. Ficou um instante encarando o leque de cartas, com a faca de plástico ainda na mão. Passou a outra mão sobre elas, devagar, e parou numa que ficava um pouco afastada das demais. Hesitou. Depois a puxou e a entregou, ainda virada para baixo.
A mulher a revelou.
A Morte. Um esqueleto de armadura num cavalo branco e, ao fundo, o sol nascendo entre duas torres.
— Ai, meu Deus — Kate sussurrou.
E então ninguém disse mais nada.
A música da festa chegava abafada pelo veludo, distante, como se viesse de outra noite. Noah ficou imóvel, com a mão de plástico do Gomez ainda pendurada no ombro. Lizzie levou os dedos à boca. Kate olhava de Lia para a carta e da carta para Lia, como quem procura onde pôr os olhos.
Logan, que não sabia de nada, percebeu apenas que o clima tinha mudado. Olhou para Kate, que não olhou de volta, e ficou quieto, entendendo o suficiente para não falar besteira.
Lia não se mexeu. Ficou olhando o esqueleto no cavalo branco com uma expressão que ninguém conseguia ler, a faca de plástico esquecida na mão, e por um instante a tenda inteira pareceu prender a respiração junto com ela.
A mulher tinha erguido os olhos e percorrido o rosto de cada um, como quem percebe o que acabou de acontecer.
— Eu sei o que essa carta parece. Quase ninguém a vira sem ouvir esse mesmo silêncio — disse, tocando a borda da carta com a ponta do dedo. — Mas ela raramente quer dizer o que as pessoas pensam. A Morte é a carta dos ciclos que chegaram ao fim. Daquilo que já cumpriu o seu tempo, para que outra coisa possa começar. Nenhuma porta se abre sem que uma outra se feche.
Alguém soltou o ar devagar. Kate, talvez.
— É uma carta de passagem — continuou a mulher, e agora olhava só para Lia. — E a sua diz que algo está terminando. Você vai ter a oportunidade de se despedir de um ciclo para iniciar outro.
Algo mudou no rosto de Lia. Não foi de uma vez. Começou pelos olhos, que ficaram mais claros, e desceu até a boca, que se abriu num sorriso pequeno, incrédulo, quase assustado de tanta esperança. Depois pensou nos últimos dois anos de manhãs iguais, daquele mesmo sentimento.
— Sério? — perguntou.
— Você já carregou isso por tempo suficiente — disse a mulher, e algo no canto da boca dela quase virou um sorriso.
Lizzie apertou o ombro de Lia, e dessa vez Lia riu e olhou para o lado, com os olhos brilhando. Kate levou a mão ao peito.
— Você quase me matou do coração.
— Valeu os vinte dólares — murmurou Noah.
A mulher começou a recolher as cartas, uma por uma, sem pressa, com o cuidado de quem arruma algo precioso. Todos pagaram e já se preparavam para sair, ajeitando fantasias, quando Kate parou.
— Ué. Sobrou uma.
No meio da mesa, afastada das outras, havia uma carta virada para baixo. Ninguém lembrava de tê-la visto antes.
A mulher olhou para ela sem tocar. Por um momento, pareceu medir não a carta, mas o grupo, e quantos ainda estavam ali.
Depois a pegou com as pontas dos dedos e a devolveu ao baralho, sem virá-la, como quem repõe algo que ainda não é de ninguém.
— Essa não foi escolhida por nenhum de vocês.
— Brinde da casa? — brincou Noah.
— Digamos que sim.
Lá fora, a música voltou de uma vez, alta e viva, como se alguém tivesse aberto uma janela. As lanternas balançavam sobre as cabeças, o cheiro de canela e fumaça pairava no ar, e a roda-gigante girava devagar contra o céu preto.
— Eu definitivamente preciso de uma bebida — anunciou Noah, esfregando o rosto.
A barraca ficava ao lado da roda-gigante: um balcão de madeira escura, fileiras de garrafas de vidro verde e uma placa pintada à mão que dizia “LICOR DE ESPINHEIRO — receita da casa, só nesta noite”. O rapaz atrás do balcão usava colete e cartola, e tinha o sorriso de quem já tinha repetido a mesma piada cem vezes.
— É feito com o fruto do espinheiro-negro — explicou, servindo cinco copinhos. — Doce no começo, forte no fim. O perigo é que desce fácil.
— Esse é sempre o perigo — comentou Logan.
Quando todos tinham um copo na mão, Lia ergueu o seu.
— Ao Theo — disse, com a voz firme e leve. — Que ia estar amando estar aqui agora, narrando a festa inteira como se estivéssemos dentro de um filme.
Por um segundo, ninguém se mexeu. Depois Noah riu, e a risada dele foi curta e calorosa.
— Ao Theo.
— Ao Theo — repetiram Lizzie e Kate.
Logan ergueu o copo sem dizer nada, só para acompanhar. Kate apertou a mão dele e sussurrou:
— Depois eu te conto tudo. Prometo.
Ele assentiu.
O licor era doce, de cereja, e o calor desceu pelo peito deles como uma lareira acesa. Noah pediu mais uma rodada antes que alguém tivesse tempo de reclamar.
Então Lizzie tirou o celular do bolso.
— Sem sinal, mas dá pra olhar as fotos. Quero escolher as melhores pra postar quando a gente voltar pra casa.
Todos se juntaram em volta da tela. Passaram pelos Caça-Fantasmas, pelo Pennywise com o balão, pelos dois Michael Myers se encarando em silêncio, e Kate gritou de rir. Então Lizzie parou numa foto.
— Esperem. Cadê a menina?
Era a foto dos cinco diante da roda-gigante, tirada por um esqueleto simpático, que se oferecera para registrar o momento. Os cinco estavam rindo. Entre Kate e Lia, havia um espaço vazio, e o braço de Kate estava dobrado no ar, no formato exato de quem abraça alguém.
— Que menina? — perguntou Noah.
— A de vestido de melindrosa. Dos anos vinte, com franja prateada. Ela pediu pra entrar na foto. Ficou bem aqui. — Lizzie apontou o espaço vazio.
— Eu lembro — disse Logan, devagar. — Ela me deu um high five.
— Ela disse que gostou da minha peruca — disse Lia.
— Verdade! — completou Kate.
Os cinco olharam para a foto. A menina não estava lá. Logan pigarreou.
— Deve ter saído antes do clique. Ou o esqueleto tirou a foto cedo.
— O esqueleto tirou três — disse Lizzie. — Ela não aparece em nenhuma.
Foi Kate quem perguntou ao rapaz da cartola sobre a garota. Ele ouviu com educação, as sobrancelhas erguidas.
— Melindrosa, com franja prateada? Não. Conheço todo mundo desta cidade, e ninguém se veste assim hoje. Se era turista, não passou por aqui.
— Ela estava com a gente — insistiu Kate.
— Então vocês devem estar bebendo bem — disse ele, rindo.
Mas os olhos dele escorregaram, só por um segundo, para a floresta atrás deles.
— Deve ter sido outra pessoa — disse Noah, com firmeza demais. — A festa está lotada. É fácil confundir.
— É — concordou Lizzie, sem convicção. Quando olhou para a tela de novo, parou.
— Gente.
— O quê?
— Que horas são?
Noah olhou o dele. Lia olhou o dela. Logan tirou o celular do bolso do macacão.
23:47.
— Ué — disse Kate. — A gente não saiu da tenda do tarot exatamente esse horário?
— Sim, mas sem sinal, o celular se perde — disse Logan.
— O meu também diz 23:47.
— O meu também.
— Provavelmente é a mesma coisa. Trava todo mundo no mesmo horário, sei lá.
Eles riram meio nervosos, concordando, e pediram mais uma rodada. A banda tocou duas músicas, depois mais uma. Noah dançou com Lizzie. Kate puxou Lia para o centro. Logan pagou uma maçã do amor e dividiu com Kate. Quando Noah tirou o celular do bolso de novo, por hábito, a tela ainda dizia 23:47.
Ele não comentou. Lizzie também não. Os dois se olharam e guardaram o celular.
Perto da fogueira, na outra ponta do campo, alguém começava a montar uma pequena plataforma de madeira, e as luzes foram baixando. A meia-noite estava chegando.
Foi nesse momento que Lizzie estendeu o celular para Kate, para mostrar uma foto, e ela, sem pensar, soltou a mão de Logan para pegá-lo. Foi um segundo. Os outros se juntaram em volta da tela, rindo, falando todos ao mesmo tempo.
Logan olhou o copo vazio na sua mão. Havia um barril de lixo ali perto, junto às árvores, a poucos passos da luz.
— Já volto — disse, para ninguém em particular.
Caminhou até lá. A música ficou atrás dele, e as lanternas penduradas nos galhos balançavam, e logo depois delas começava o escuro total, de um preto tão fundo que não dava para enxergar nada. Jogou o copo no barril e estava prestes a voltar quando ouviu:
— Logan?
Ele parou. Era a voz da Kate. Suave, divertida, vinda de escuro entre as árvores.
— Kate? — chamou ele, rindo, e a palavra saiu mais alta do que pretendia. — Isso não tem graça.
— Vai lá, lindo — disse a voz, do escuro.
Era exatamente a frase que ela tinha dito na tenda, no mesmo tom, com a mesma pontinha de riso. Logan sentiu um arrepio subir pelos braços. Mas era ela. Tinha que ser ela. Era a voz dela, o jeito dela.
Deu um passo na direção das árvores.
— Depois eu te conto tudo. Prometo — disse a voz, mais perto.
Logan engoliu em seco. O sorriso apareceu antes de ele perceber. Deu mais um passo, e o chão mudou de terra batida para folhas secas, e as lanternas ficaram para trás.
— Logan!
A voz dessa vez veio de trás dele, alta, rouca de susto, e era a de verdade.
Kate vinha correndo, com as garras de plástico batendo na perna, e o rosto branco. Os outros vinham atrás dela. Ela o alcançou e agarrou sua mão com as duas dela, com tanta força que ele fez uma careta.
— Eu soltei — disse ela, sem fôlego. — Eu soltei sua mão, e a moça do tarot...
— Calma. Eu só vim jogar o copo fora.
— Você estava dentro da floresta!
Logan olhou para trás. Estava mesmo. A luz das lanternas ficava a três ou quatro metros, e ele nem tinha percebido a distância.
— Você me chamou — disse ele, confuso.
— Eu estava lá! — Kate apontou para o meio da multidão.
— Eu ouvi você. Você disse... — ele parou, olhou para ela, e ficou vermelho até as orelhas. — Esquece.
— Disse o quê?
— Esquece, linda.
A mão dele estava gelada.
— Venham para perto da fogueira
A voz veio da esquerda. Era um homem de uns sessenta anos, de casaco de lã e boina, com uma lanterna na mão. Estava reabastecendo as velas das árvores quando eles passaram, e agora olhava para Logan com a lanterna tremendo.
— Fiquem juntos. Não saiam de perto das luzes.
— Por quê? — perguntou Noah. — O que está acontecendo?
— Não é nada — respondeu o homem. — É só uma noite longa.
Girou nos calcanhares e foi embora, quase correndo, com a lanterna balançando.
Os cinco ficaram parados, em silêncio.
— Que cara estranho — disse Noah, tentando rir, mas a risada morreu antes de sair.
— Provavelmente bebeu demais — disse Logan. — Todo mundo aqui bebeu demais.
Então o sino da igreja tocou.
Veio de longe, do alto da colina, grave e lento, e atravessou o campo como uma onda. A banda parou no meio de uma nota. Os risos diminuíram. Doze badaladas, uma a uma, e a cada uma delas as chamas das lanternas pareciam se inclinar na direção da fogueira.
00:00.
— Voltou — disse Lizzie, mostrando a tela do celular para Noah, que soltou o ar, aliviado. — Voltou, olha.
— Eu falei que era o sinal — disse Logan.
— Você falou que era a bebida — lembrou Kate, provocando-o.
— A bebida e o sinal.
Riram, mais tranquilos. Em volta deles, as pessoas começavam a se mover na mesma direção, sem pressa, como se tivessem combinado. Foram com a correnteza, rumo ao centro do campo, onde a fogueira ardia em toda a sua altura e a plataforma de madeira já estava iluminada.
Uma mulher de uns cinquenta anos subiu os degraus, de vestido preto vitoriano, gola alta e um lampião na mão. Um rapaz de colete anunciou ao microfone:
— A presidente do Comitê da Noite de Blackthorn, a senhora Margaret Huffrey!
— Boa noite, Blackthorn — disse a mulher, com uma voz que não precisava do microfone.
— Boa noite! — respondeu a cidade inteira, de uma vez só.
— Há muito tempo… — começou a mulher —, na casa que ficava à beira desta floresta, vivia Eleanor Blackthorn. Curava febres com ervas e cantigas. Cuidava dos doentes que ninguém queria tocar. E numa noite de Halloween ela desapareceu.
Ela ergueu o lampião, e do perímetro do campo veio um som de passos. Uma fila de voluntários, cada um com uma vara comprida e um abafador de bronze na ponta, começou a andar entre as árvores e apagar as lanternas, uma a uma. A escuridão avançava da floresta para dentro, como uma maré. A música, que já tinha parado, deixou um silêncio estranho no lugar. Dava para ouvir o crepitar da fogueira e a respiração das pessoas.
— Dizem que ela morreu. Dizem que foi assassinada. Dizem que simplesmente entrou na floresta e nunca mais voltou. Escolham a versão que quiserem. Todas terminam com a mesma frase, que ela disse antes de partir.
O campo inteiro pareceu prender o fôlego.
— "Quando a última chama se apagar, os que partiram encontrarão o caminho de volta."
Noah, que ia soltar uma piada, olhou em volta e percebeu que todos pareciam completamente sérios e prestando atenção, então desistiu no mesmo segundo.
— Hoje, temos três regras… — continuou a senhora Huffrey — e eu as digo só uma vez. Primeira: mantenham o raminho de espinheiro à vista. É assim sabemos de que lado vocês estão. Segunda: quem partiu vem até vocês, e vocês nunca vão até eles. Se ouvirem o seu nome vindo da floresta, não respondam. E, por favor, por favor, não entrem nas árvores. Quem entra esta noite, não volta.
Kate apertou a mão de Logan com tanta força que ele soltou um muxoxo. Logan não disse nada. Olhava, sem perceber, para o ponto da mata onde tinha estado, dez minutos antes.
— Terceira e última… — disse a mulher. — Eles ficam até a fogueira acender sozinha, às três e trinta e três. Não antes. E nem um minuto depois.
Alguns turistas riram, nervosos, achando que era parte do espetáculo. Os moradores continuaram em silêncio.
— E agora — disse ela — quem trouxe alguma coisa de alguém que partiu, que a segure. Contra o peito, de preferência. É assim que eles encontram o caminho.
Em volta, o campo inteiro se mexeu. Uma senhora tirou do casaco um par de óculos de aro fino. Um homem puxou uma aliança presa numa corrente. Uma menina de uns dez anos apertava um coelho de pelúcia gasto contra a barriga. O homem da boina, o mesmo que tinha mandado eles ficarem juntos, segurava um relógio de bolso, com a cabeça baixa.
Lia hesitou.
Depois levou a mão ao pescoço, puxou de dentro da camiseta listrada uma corrente fina de prata e a fechou na palma. Na ponta, uma medalhinha gasta de São Cristóvão. A que a avó do Theo lhe dera.
Noah a viu primeiro.
— É o colar dele — disse, baixinho.
— Eu sei — respondeu Lia.
Lizzie arregalou os olhos, entendendo tudo. Kate abriu a boca para dizer alguma coisa e a fechou.
— Eu sabia. Eu li sobre a lenda de que, essa noite, os mortos voltam e os chamei aqui sabendo disso tudo… — disse Lia, sem olhar para nenhum deles, com os olhos fixos na fogueira. — Achei que não custava. Eu sei que é maluquice. Eu sei. Me desculpem, mas eu precisava tentar.
Ninguém respondeu. Kate concordou com a cabeça, em silêncio, Lizzie pegou a mão livre dela e a apertou, e Noah pôs a mão em seu ombro, e ficaram assim, os quatro, juntos, enquanto Logan, um pouco de lado, tentava entender mais uma vez o que estava acontecendo.
— Deixem a última chama se apagar — disse a senhora Huffrey.
E soprou o lampião.
A fogueira começou a diminuir.
Não de uma vez. Devagar, como se alguém estivesse fechando uma torneira. As chamas altas como uma casa baixaram para o tamanho de um homem, depois para o de uma criança. Um vento surgiu do nada, frio, e arrancou faíscas que subiram em espiral e se apagaram antes de tocar o céu. As pessoas tinham parado de falar. A temperatura caiu.
A última língua de fogo tremeu sobre as brasas, hesitou, e apagou.
O campo inteiro mergulhou na escuridão.
Só restava o vermelho fraco das brasas e o branco das estrelas, e, do outro lado delas, as árvores, que pareciam mais próximas do que antes.
— Gente… — sussurrou Lizzie.
Entre os troncos havia pessoas.
Dezenas. Em pé, imóveis, na borda da floresta, pálidos na pouca luz, em roupas de épocas diferentes: um chapéu de feltro, um vestido de gola alta, um uniforme militar, um avental de cozinha. Todos olhavam para o campo, como se estivessem ali o tempo todo. Ninguém se mexia.
Então uma das figuras deu um passo à frente. Depois outra. E mais outra.
— Meu Deus — disse Kate, num fio de voz.
Os moradores não recuaram, e também não avançaram. Ficaram exatamente onde estavam, de objetos apertados contra o peito, com a cabeça erguida, esperando. Afinal, era uma das regras: quem partiu vem até vocês.
E eles vinham.
Atravessavam o campo devagar, em silêncio, de todos os lados, como se conhecessem de cor o caminho. O homem da boina, Harold, deixou o relógio de bolso escorregar pela corrente e não se mexeu, nem quando uma mulher pequena, de cabelo branco, saiu da floresta e foi na direção dele, com as mãos estendidas.
— Dora — disse ele, e a voz quebrou.
— Você ficou careca — disse a mulher, num tom de reprovação doce, e o abraçou.
A menina com o coelho de pelúcia não saiu do lugar. Ficou onde estava, apertando o bichinho contra a barriga, os lábios tremendo, até que um homem de casaco cruzou o campo, ajoelhou-se diante dela e abriu os braços. Só então ela soltou o coelho e se jogou no pescoço dele. Uma senhora de óculos esperou, imóvel, enquanto um rapaz de uniforme caminhava até ela e tocava seu rosto, e ela não conseguiu dizer nada.
O campo enchia-se de pequenos reencontros, e ninguém gritava com medo.
— Isso é teatro — disse Logan, rouco, os olhos arregalados. — Tem que ser teatro. Eles fazem isso todo ano, são atores...
Ninguém respondeu.
— Não é possível… — disse Noah, arfando. A voz dele estava estranha. Baixa e quebrada. — Eu acho que bebi demais, porque… Porque estou vendo o Theo.
Lizzie virou a cabeça tão depressa que quase perdeu o equilíbrio.
— Noah…
— Ali, ele está saindo da floresta.
— Meu deus, eu também vejo — disse Lizzie, e a palavra saiu como um soluço.
Kate agarrou o braço de Logan.
Lia ainda não tinha se virado. Mantinha os olhos fixos nas brasas, a medalha apertada na palma, e sentia o metal quente, quente demais, como se tivesse ficado ao sol. Tinha medo de olhar. Tinha o medo mais velho do mundo, o de que, se olhasse, aquilo desaparecesse.
— Lia — chamou Noah, com a voz embargada.
Ela se virou.
Ele vinha andando devagar, de mãos nos bolsos, como quem chega atrasado de propósito. Moletom escuro, o cabelo bagunçado, o mesmo jeito de entrar numa festa como se tivesse chegado exatamente na hora certa.
Lia quis correr. Todo o corpo dela quis. Mas os pés não saíram do lugar, porque a regra ainda estava na cabeça dela: vocês nunca vão até eles. Então esperou, com a medalha apertada na mão e o coração batendo nos ouvidos, e deixou que ele viesse.
Ele parou a dois passos, e o rosto se abriu naquele sorriso torto que ela via todas as noites quando fechava os olhos.
— Quem é esse? — murmurou Logan.
Kate demorou a responder.
— O Theo. Era o namorado da Lia — engoliu em seco. — Ele morreu há dois anos, num acidente de carro, voltando de uma viagem.
— O do brinde?
— O do brinde.
Logan olhou para o rapaz de moletom, depois para Lia, depois para as mãos de Kate, que tremiam, e não disse mais nada. Não havia nada a dizer.
Theo olhou para os quatro, um por um, e por último para Lia, e para a medalha na mão dela.
— Eu ouvi um brinde — disse ele. — E uma calúnia sobre a minha voz de documentário.
Lia abriu a boca e não saiu som nenhum.
Era a voz dele.
Ela a conhecia de cor. Tinha ouvido as mensagens de voz tantas vezes, no escuro, com o fone no ouvido e o celular no peito, que sabia onde ficavam as pausas, onde ele respirava, onde começava a rir antes de terminar a frase. Mas nenhuma gravação tinha guardado direito aquilo. A pequena engolida de riso no fim da frase, o jeito de arrastar a palavra “calúnia” para fazê-la parecer uma coisa gravíssima. Ali, a voz dele não era uma lembrança. Era uma coisa viva.
Alguma parte dela, a que sobrevivera aos dois anos, a que ensaiara para esse momento imaginário no banho, no carro, nas noites em que o outro lado da cama continuava frio, esperou que as palavras viessem. Ela sabia exatamente o que diria. Tinha repetido tantas vezes: Eu sinto tanto sua falta. Eu devia ter ido com você. Eu devia ter dito que eu te amo. Todas as frases estavam lá, em fila, prontas. E nenhuma passou da garganta.
Porque ele estava ali.
Não a foto da mesa de cabeceira. Não o contato no celular que ela nunca teve coragem de apagar. Não o buraco do tamanho dele que ela carregava na barriga, que fora o seu único jeito de continuar a tê-lo. Era ele, com o cabelo bagunçado que nunca ficava no lugar, o moletom escuro que ela reconheceria em qualquer lugar do mundo, o sorriso torto de quem acabou de fazer uma piada e está esperando você perceber. Exatamente igual. Nem um dia a mais, nem um dia a menos.
Ele estava a dois passos de distância, e ela sentia que podia dizer qualquer coisa agora, tudo, e que mesmo assim não bastaria.
Alguma coisa quente subiu pelo peito dela. Era uma alegria tão grande que machucava, uma felicidade que parecia fisicamente impossível de caber num corpo. Ao lado dela, como se fossem a mesma coisa, havia a dor: a saudade que durante dois anos não tivera para onde ir, e que de repente tinha rosto, e olhos, e estava olhando para ela. Ela tentou descobrir qual das duas era maior e percebeu que não eram duas coisas. Era uma só.
Teve medo de respirar. Se respirasse, ele podia desaparecer. Se piscasse, a floresta podia levá-lo de volta. As pernas tremiam, e ela mal as sentia. O barulho do campo, a fogueira morta, as vozes dos outros, tudo foi sumindo, como um som que se afasta numa estrada, até sobrar só o coração dela batendo nos ouvidos e o sorriso dele, aberto, esperando.
Na palma da mão, a medalha ardia. Parecia viva.
— Oi, amor — disse Theo, mais baixo, e a voz dele tremeu. Os olhos também brilhavam. — Sou eu.
Era a coisa mais simples do mundo. E foi isso que a quebrou.
A primeira lágrima desceu antes que ela soubesse que estava chorando. Depois a segunda, depois todas, sem som, sem soluço, só o rosto molhado e a boca aberta, tentando dizer um nome que ela não conseguia pronunciar.
Theo deu os dois últimos passos sozinho.
Abriu os braços, meio sem jeito, como quem não tem certeza de que é permitido, e Lia entrou neles antes que ele terminasse de abri-los.
Ele era sólido. Era isso que ela não esperava. Sólido, e um pouco frio, como alguém que passou muito tempo esperando na chuva. Mas os braços eram os mesmos, o jeito de apertar era o mesmo, e o cheiro... ela achava que tinha esquecido o cheiro, que o tempo o havia levado junto com todo o resto, e ali estava ele, na gola do moletom.
Lia enterrou o rosto no ombro dele e chorou como não chorava havia dois anos. Alto, feio, sem nenhuma elegância, com o corpo todo.
— Ei — disse Theo, com a voz falhando. — Ei. Estou aqui. Estou aqui.
— Você está... você está...
— Até onde eu sei, estou.
— Não ri de mim.
— Não estou rindo — disse ele, e estava, e chorava também, os dois ao mesmo tempo, sem conseguir parar.
Atrás deles, alguém soltou um soluço. Kate. Depois Lizzie. E Noah, que tinha passado dois anos sendo o que segurava os outros, estava com o rosto escondido numa mão e os ombros sacudindo, a mão de plástico do Gomez Addams balançando ridiculamente no ombro.
— Vem cá, seus idiotas — disse Theo, por cima da cabeça de Lia, e esticou um braço.
Foi um abraço desengonçado, de cinco cabeças e dez braços, que tropeçaram nas fantasias, mas ninguém ligou. Ficaram assim por um tempo que não dava para medir, chorando e rindo, sem dizer nada que fizesse sentido.
Do lado de fora do círculo, parado, com a máscara pendurada no pescoço e uma faca de plástico na mão, Logan não sabia onde pôr os olhos. Foi Kate quem resolveu: esticou o braço, sem olhar, e o puxou para dentro do abraço, e ele deixou, desajeitado.
Foi Noah quem se afastou primeiro, limpando o rosto com o antebraço, e deu um soco fraco no ombro de Theo.
— Ai.
— Doeu?
— Não. Mas gostei da intenção.
— Você está aqui. — Noah balançou a cabeça. — Você está aqui.
— Eu também não entendo — admitiu Theo. — A última coisa que lembro é da estrada, e depois uma luz, e depois eu estava na beira da floresta e sabia o caminho. Do mesmo jeito que você sabe o seu nome. E sei que tenho até às três e meia.
— Três e trinta e três — corrigiu Kate, fungando.
— Isso. — Ele olhou para Lia. — Foi você que me trouxe.
Lia abriu a mão. A medalha estava ali, brilhando, quente.
— Eu li sobre a lenda — disse, com a voz rouca. — Eu sabia que era uma loucura.
— Foi como ser puxado por uma linha — disse Theo, tocando a medalhinha de leve. — No meio do nada, uma linha, e eu só tinha que seguir. — Sorriu. — Você veio até aqui por mim.
— Eu iria até o fim do mundo.
— Não precisa de tanto drama. A cidade fica a quatro horas de casa, amor.
Ela riu, no meio das lágrimas, e bateu no peito dele. Ele a segurou pelos pulsos e a puxou de volta, a abraçando novamente.
— Tá bom… — disse Theo, depois de um tempo, por cima do ombro dela, e ergueu as sobrancelhas. — Antes de qualquer coisa: quem é o assassino?
Todos se viraram. Logan se endireitou, com o rosto vermelho como o de quem foi pego num lugar onde não devia estar.
— Esse é o Logan — disse Kate, limpando o nariz na manga. — O meu... o Logan.
— O seu o quê?
— Namorado — disse Kate, depois de pensar. — Quase namorado. Oficialmente quase.
— Prazer — disse Logan. Estendeu a mão, percebeu o gesto, recolheu, estendeu de novo. — Eu... sinto muito. Pela situação. Quer dizer, não, eu... — Fechou os olhos. — Não sei o que dizer.
— Eu também não — respondeu Theo, sorrindo, e apertou a mão dele, e Logan olhou a mão apertada com um espanto absurdo. — Michael Myers. Clássico. Respeito. Foi a Kate quem escolheu?
— Foi.
— Bem a cara dela. — Sorriu para ela.
A banda recomeçou, uns vinte minutos depois, bem baixinho: uma valsa antiga, de violinos e acordeão. Os moradores acenderam velas dentro de potes de vidro, uma aqui, outra ali, e o campo ficou salpicado de pequenas luzes, como se as estrelas tivessem descido para ajudar. Mortos e vivos dançavam juntos, sem constrangimento: uma mulher de vestido antigo girava nos braços de um velho que chorava e ria ao mesmo tempo.
O grupo se acomodou num tronco comprido, perto das brasas, com Theo no meio, entre Lia e Noah. Ele fez todo mundo contar tudo.
— Qualquer coisa. Tudo. Eu perdi dois anos.
Contaram. Noah falou da vez em que bateu o carro na cancela do estacionamento. Lizzie, da promoção no trabalho. Kate, do desastre de um namorado anterior, que ela nem lembrava mais o nome. Contaram do Logan, de como ele conheceu Kate e até da batata em formato de fantasma que custara quinze dólares.
— Quinze? — Theo levou a mão ao peito. — Eu pagaria trinta.
— Viu? — disse Logan, vitorioso. — Ele me entende!
Depois de um tempo, quando o silêncio já era confortável, Theo apoiou os cotovelos nos joelhos e baixou a voz, no tom exato de um narrador de documentário.
— Isso tudo daria um bom filme, sabiam? Eu assistiria! "A câmera se afasta devagar. Cinco jovens vivos e um não tanto ao redor de uma fogueira apagada. O que eles ainda não sabem é que o maior perigo da noite..."
— Para — disse Kate.
— "...é o Noah tentar cantar."
— Ei!
Lia caiu na gargalhada e Noah também, e em pouco tempo todos riam. Foi então que a voz veio da floresta.
— Lia?
Era a voz do Theo. Suave, com a mesma pontinha de riso, vindo do escuro entre as árvores.
— Lia, vem cá.
Lia não se mexeu. Theo estava sentado ao lado dela, de boca fechada, agora com o sorriso apagado, os olhos fixos nas árvores.
— Não respondam — disse ele, num sussurro. — Nenhum. Mesmo que seja minha voz.
A voz chamou de novo, agora com o nome de Noah, e depois com o de Kate, e depois com o de Lizzie, sempre na voz de Theo. Kate agarrou a mão de Logan e ele apertou de volta.
Passou. Como uma onda, passou.
— Quem são? — perguntou Lizzie, baixinho.
— Os que não têm ninguém — disse Theo. — Eles aprendem a voz de quem escutam. Só querem companhia…
— Coitados — disse Lia.
— É. Mas vocês não podem ir. — Theo hesitou. — Quando eu cheguei, tinha uma mulher de vestido branco, na beira das árvores. Não falou nada. Só me mostrou o caminho. Acho que é ela que cuida deles.
Ele olhou então para Logan.
— Você foi chamado hoje, não foi? Eu vi de longe.
Logan engoliu em seco.
— Foi a Kate, eu achei que...
— Não era. Mas ela foi te buscar, isso te salvou. Fica com ela, Logan. — Theo sorriu, de lado. — Regra um: nunca responda quando alguém te chamar do escuro. Alguém te ensinou isso, imagino.
— Só repassei o que aprendi com você — disse Kate, melancólica.
— Pelo menos alguém aprendeu a lição.
Lia se aproximou mais de Theo, falando baixinho para ele, depois de conferir o horário no celular.
— Vai. Conversa com eles. Você só tem poucas horas. — Sorriu, os olhos ainda molhados, e apertou a mão dele. — Eu não vou a lugar nenhum.
Theo olhou para ela por um longo segundo e depois assentiu. Chamou Kate primeiro. Sentaram-se na base da roda-gigante, parada, apagada, com as cabines balançando ao vento como sinos mudos.
— Sabe, eu tinha medo de ser feliz — disse ela, de repente, antes que ele perguntasse. — Parecia errado. Todo mundo tão... e eu aqui, saindo com um cara que não te conhecia, rindo.
— Kate...
— Eu sei. Eu sei que é bobagem.
— Ele é legal... e agora me conhece, não do jeito que gostaríamos, mas acho que vale. — Theo bateu o ombro no dela, brincando.
Kate riu, fungando, e secou o rosto com as garras de plástico da luva, que ficaram presas no cabelo. Theo a ajudou a soltá-las, com a paciência de quem já tinha feito aquilo mil vezes.
— Eu sinto sua falta — disse ela, baixinho, olhando as mãos. — Não só como... sabe. Do jeito que todo mundo sente. Eu sinto sua falta como amigo. Ninguém mais olha para um cara que eu levo no jantar e diz "nem fodendo".
— Eu tinha um método. — Theo levantou o dedo, ofendido. — Em cinco anos, eu não aprovei nenhum namorado seu. Nem um. Você lembra do que eu dizia?
— Que eu só arrumava coisa ruim — disse Kate, e o riso dela virou um soluço, porque era exatamente a voz dele que ela tinha acabado de ouvir na própria cabeça. — Você dizia que eu tinha um radar às avessas. Que eu ia direto pro único cara errado do bar.
— E você ia.
— E eu ia. E aí eu chegava em casa, e você já tinha mandado mensagem: "Então? Qual foi o crime?"
Theo riu, de verdade, alto, e a risada dele ecoou entre as cabines paradas.
— Eu morria de rir da sua cara quando você chegava dizendo que dessa vez era diferente.
— Nunca era diferente.
— Nunca era diferente — concordou ele, e então ficou sério, e ficou olhando o campo, os pontinhos de vela, os casais girando devagar. — Eu sinto falta disso também. De ter alguém pra implicar.
— Eu sinto falta de ter alguém pra me implicar — disse Kate, com a voz embargada. — Ano passado eu saí com um cara que fazia podcast de criptomoeda e pensei: "o Theo me mataria". E eu saí com ele mesmo assim, só de teimosia.
— Kate.
— Foram dois anos de decisões horríveis, Theo.
— Eu imagino — ele balançou a cabeça, sorrindo. — Mas tem uma coisa…
Ela levantou o rosto.
— Eu aprovo o Logan.
Kate o encarou, de boca aberta, como se tivesse ouvido um idioma desconhecido.
— Ele claramente gosta de você de um jeito que eu sempre torci para acontecer, e eu gosto dele, não sei por que, mas é um instinto… alguma coisa relacionada a eu ser um fantasma agora? Sei lá, mas aprovo ele.
— Ah, Theo… — disse ela, limpando o nariz na manga, e olhou para ele, e pôs a mão no rosto dele, de leve, como quem tem medo de que ele desapareça. — Obrigada. Por tudo. Por ter sido o chato por tantos anos. Eu não sei quem eu seria se você não tivesse dito "não" tantas vezes.
— Uma pessoa mais cheia de ex-namorados esquisitos.
— Provavelmente.
— Espero que vocês sejam felizes e bons um pro outro — disse Theo, com a voz mais mansa. — Você merece.
Kate assentiu, de olhos fechados, e encostou a cabeça no ombro dele. Ficaram assim por um tempo, os dois, ouvindo o vento nas cabines da roda-gigante e a valsa distante, como sinos que alguém tocava devagar.
Logan foi o segundo, e não por acaso: foi Theo quem o chamou, com um gesto de cabeça, quando Kate foi buscar água. Caminharam, lado a lado.
— Eu não sei o que eu estou fazendo aqui — confessou Logan, depois de um silêncio longo, com a máscara nas mãos. — Quer dizer, eu estou muito feliz que você esteja… aqui?... E ao mesmo tempo eu não te conheci. Agora eu fico sentindo que estou ocupando um lugar que...
— Que é meu?
— Que é de alguém.
— Logan. — Theo balançou a cabeça. — Não existe lugar de ninguém. Eles são o tipo de gente que aumenta a mesa mais e mais. Eu cheguei nessa turma sem conhecer ninguém também. Aumentaram a mesa pra mim. Fizeram a mesma coisa com você.
Logan não respondeu, apenas sorriu.
Lizzie foi a terceira. Andaram até as barracas apagadas, onde os últimos copos de cidra esfriavam sobre o balcão.
— Eu achei que tinha perdido a Lia também — disse ela, sem rodeios, olhando as próprias mãos. — Depois que você… você sabe, ela se fechou. Não atendia, não saía, só dizia que não estava bem. Eu fiquei com tanto medo, Theo. De que ela fosse embora de dentro dela mesma. Então eu comecei a aparecer lá. Todo dia, quase. Com jantar, ou sem. Eu arrastava o Noah e a Kate junto. A gente invadia a casa dela, e ela reclamava, mas a gente ficava mesmo assim.
Theo ouviu sem interromper.
— Foi isso — disse ele, por fim, com a voz rouca. — Foi isso que fez ela não se perder naquele buraco de tristeza. Eu não sei como eu sei, mas eu sei. Obrigado, Lizzie. De verdade. Obrigado por não ter ido embora.
Lizzie levou a mão à boca, e ele a deixou chorar um pouco, em silêncio.
— No fim, foi isso que ajudou todo mundo — disse ela, limpando o rosto. — Ninguém sabia lidar com a sua falta. Nenhum de nós. A gente não sabia o que fazer com a dor, e aprendeu junto. Eu acho que, se não fosse por isso, a gente teria se perdido uns dos outros também.
— Então ficou alguma coisa boa.
Theo sorriu, de olhos molhados.
Noah foi o quarto. Foram mais longe, até onde a luz das velas quase não alcançava, e pararam diante do coreto desmontado, com as luzinhas apagadas e os esqueletos de papel balançando.
Noah respirou fundo antes de falar.
— Eu estou pensando em pedir a Lizzie em casamento — disse, de uma vez, olhando para o chão. — Não é... eu ainda não sei como, nem quando. Mas eu estou pensando. E aí eu me senti um idiota. Um traidor. Porque você não pôde, e eu posso, e eu...
— Noah.
— ...e eu fico achando que, de algum jeito, eu estou ficando com uma coisa que devia ser sua.
— Noah. — Theo esperou que ele levantasse os olhos. — Eu pensava nisso o tempo todo. Pedir a Lia. Tinha até um plano, bem ridículo, envolvia fogos de artifício e... enfim, nunca deu tempo.
Noah ficou imóvel.
— Você nunca me contou.
— Eu ia. — Theo sorriu, com o canto da boca. — E estou te dizendo isso agora pra você entender uma coisa: o pior jeito de honrar quem a gente perdeu é viver menos. Não existe momento perfeito, existe um momento que você decide e um que você faz. Não deixa o "ainda não" virar "nunca".
— Você está certo… — disse Noah, a voz embargada.
— Eu adoraria estar lá. — Theo olhou para longe, para os pontinhos de vela. — No casamento. Ver você chorando no altar ao vê-la entrando, e a Lizzie te olhando apaixonada, como sempre faz. Eu ia estragar o discurso de padrinho, com certeza.
— Mas você vai estar — disse Noah, de repente, com firmeza. — Mesmo que seja só nos nossos pensamentos. Do mesmo jeito que você está todos os dias. Em cada vez que a gente dá risada de uma coisa que só você diria.
— Noah...
— E eu vou contar pros meus filhos sobre o tio Theo. Todas as histórias. Até as que você me proibiu de contar.
— Ah, essas não — disse Theo, rindo e chorando ao mesmo tempo.
— Essas principalmente.
Noah o abraçou, e Theo o abraçou de volta, e ficaram assim, os dois, junto do coreto sem luz, por um bom tempo.
Passava das três da manhã quando Lia se levantou do tronco, onde estivera esperando.
Theo voltou até ela e parou na sua frente, com as mãos nos bolsos.
— Dança comigo?
— Você nunca dançou.
— Nunca é tarde para começar — ele brincou e ela riu fraco.
A banda tocava uma valsa lenta. Ele a puxou pela mão, devagar, para o espaço aberto onde outros casais giravam sob as velas, e Lia se deixou levar, com a cabeça encostada no peito dele, o moletom frio sob a bochecha. Dava para ouvir o coração dele. Ela não sabia se era um coração ou a lembrança de um, e descobriu que não importava.
— Dois anos — disse ela, depois de um tempo, baixinho. — Eu fingi que estava bem por dois anos.
— Eu sei.
— Como?
— Eu te conheço. Conheço o seu sorriso de quando está bem, e conheço o outro. — A mão dele afagou as costas dela. — Aquele que você usa pros outros, pra eles ficarem tranquilos.
Lia fechou os olhos.
— Eu trouxe a medalha porque eu não sabia como parar — disse. — De sentir que você estava em algum lugar, esperando, e eu aqui, atrasada, sentindo sua falta todos os dias.
— Lia, olha pra mim.
Ela levantou o rosto.
— Eu não estou esperando em lugar nenhum. Eu não estou preso. Eu estou bem. Eu só vim buscar uma coisa.
— O quê?
— Eu preciso ver você viver.
— Eu estou vivendo.
— Está sobrevivendo — disse ele, com ternura. — É diferente.
Ela riu, num soluço, e escondeu o rosto no peito dele.
— Você foi o amor da minha vida — disse Theo, com a boca perto da cabeça dela. — Você é, e vai ser sempre. Ninguém tira isso, nem o tempo, nem outra pessoa, nem mesmo a morte. Mas eu quero que você ame de novo. Eu quero que alguém te leve em viagem, e dirija com muito cuidado, e te conte piada ruim, e te faça rir mesmo assim.
— Eu não sei fazer isso, amar outra pessoa.
— Você vai aprender. Você é muito boa nisso, em amar.
— Eu não quero te perder duas vezes.
— Você não está me perdendo — disse Theo, afastando-se para olhar o rosto dela. — Você está me deixando ir.
Lia ficou em silêncio por muito tempo, balançando devagar com ele, no meio das velas e dos casais que giravam.
Às três e trinta, o celular de Kate vibrou no bolso com o alarme que havia colocado, e ela o puxou, tremendo.
03:30.
— Gente… — sussurrou.
Os cinco se juntaram junto às brasas, e ao redor deles todos os campos se moviam na mesma direção, devagar, em silêncio. A banda tocava a última valsa. Os casais haviam parado de dançar. Do outro lado das brasas, entre as árvores, uma figura de vestido branco apareceu, quieta, e ergueu uma mão.
— É ela — disse Theo.
A fogueira estava morta, o círculo de cinzas escuro como um olho fechado.
— Eu tenho que ir — disse Theo.
— Eu sei — disse Lia.
Ele abraçou primeiro os outros, um por um. Noah, que o segurou com tanta força que parecia querer impedir o tempo. Kate, que não conseguia falar. Lizzie, que lhe deu um beijo no rosto. Por último, apertou a mão de Logan, que respondeu com um abraço que ninguém esperava, e Theo riu, surpreso.
— Eu amei muito todos vocês e tudo que vivemos juntos. Cuidem um dos outros, por favor — disse ele a todos. — Ah, e Logan, Kate é barulhenta, mas vale muito a pena.
— Entendido — disse Logan, a voz presa.
Então Theo se virou para Lia, e todos se afastaram, devagar, deixando-os a sós.
Ficaram de frente um para o outro e ele pegou o rosto dela entre as mãos.
— Eu te amo, Lia — disse, simplesmente. — Eu te amei em cada dia que a gente teve, e vou te amar de onde eu estiver. Isso não vai acabar. Não é uma coisa que acaba.
— Eu também te amo — disse ela, e as lágrimas caíam sem que ela tentasse impedir. — Eu vou te amar para sempre. Mas...
— Mas?
— Mas eu vou viver, Theo. Eu prometo. — A voz dela tremeu e firmou. — Eu vou viver por mim e por você. Pelas coisas que a gente não pôde. Eu vou viajar, e rir alto, e deixar alguém me fazer rir de novo. E um dia, quando eu estiver velha, eu vou lembrar de tudo isso e vou saber que cumpri um pedido seu.
Theo fechou os olhos, e uma lágrima desceu pelo rosto dele, e ele sorriu.
— É tudo que eu precisava ouvir. — Ele beijou a testa dela, devagar, demorado.
O sino da igreja tocou uma vez. Uma só.
Algo se acendeu no meio das brasas. Primeiro um ponto, depois um fio, e depois uma chama, que subiu sozinha, sem lenha nova, nem vento, e se abriu em fogo alto e quente e dourado. A música da banda subiu mais um pouco e foi se desfazendo, até sobrar só o crepitar das chamas.
Os mortos já caminhavam de volta, de todos os lados, em fila lenta, rumo às árvores, soltando devagar as mãos de quem tinham ido ver. Lia deu um passo à frente quando Theo começou a andar também, e o corpo todo quis correr, mas ela lembrou a regra: vocês nunca vão até eles.
Ficou onde estava. Com a medalha na mão, com o rosto molhado, com o coração em pedaços e inteiro ao mesmo tempo, ela o deixou ir.
Ele andou até a borda das árvores, de mãos nos bolsos, do mesmo jeito que tinha chegado. Antes de entrar na sombra, virou-se, e sorriu e ergueu a mão num aceno simples e perfeito.
E então a floresta o levou e o campo ficou em silêncio.
Lia respirou fundo, e foi uma respiração diferente, que desceu até o fundo e voltou, leve, sem o peso de dois anos de um aperto no peito que ela nem lembrava de ter. Passou a corrente pelo pescoço e deixou a pequena medalha de São Cristóvão pender sobre o peito.
— Ela estava certa — disse, num sussurro, olhando para as chamas.
— Quem? — perguntou Kate.
— A cartomante. Eu me despedi, encerrei um ciclo.
Lizzie a abraçou pelo lado. Noah, pelo outro. Kate apertou a mão de Logan, e foi ele quem falou, depois de um tempo, baixinho, sem jeito:
— Eu não conheci o Theo em vida, mas acho que eu teria gostado muito dele.
Kate se virou para ele, com os olhos vermelhos.
— Ele gostou de você — disse. — Ele me disse.
Logan sorriu, e esfregou o rosto com a manga do macacão, sem vergonha.
Ninguém tinha vontade de falar.
A fogueira ardia baixa e tranquila, como se nunca tivesse se apagado. Em volta, os moradores se abraçavam e se despediam, tirando os chapéus, recolhendo as velas dos potes de vidro. A banda guardava os instrumentos devagar, sem pressa.
Voltaram a pé, em fila desorganizada, agarrados uns aos outros. O céu tinha deixado de ser preto e virava um azul muito escuro, quase tinta, com a primeira faixa cinzenta atrás da colina. A trilha, sem as lanternas, parecia mais curta. Kate caminhava com a cabeça no ombro de Logan, e Lizzie e Noah iam de mãos dadas, bem juntinhos, e Lia, um pouco à frente, olhava as árvores como quem passa por um lugar onde passou algo importante.
A rua das velas estava em silêncio. Finalmente chegaram à casa verde, onde havia uma vela na janela da sala, que queimava no pote de vidro, assim como outras seis, mais acima.
Subiram a escada de madeira, que rangeu como se também estivesse cansada. Ninguém tirou a fantasia direito. Kate se jogou na cama grande com Logan ao lado, de capa e chapéu de feltro, e os dois estavam dormindo antes que ele terminasse de dizer "boa noite". Noah e Lizzie entraram no quarto da janela para a igreja e ficaram um instante diante do vidro, vendo o céu clarear sobre a torre de pedra, abraçados, sem falar.
Lia foi a última. Entrou no quarto pequeno, tirou a peruca ruiva, deitou-se em uma das camas de solteiro de roupa e tudo, e fechou os dedos em volta da medalhinha de São Cristóvão que pendia sobre o peito.
Pela primeira vez em dois anos, adormeceu antes de ter tempo de pensar.
Acordaram quase ao meio-dia, um de cada vez, com o sol entrando pelas janelas e o cheiro de café vindo da cozinha. Noah tinha acordado primeiro e estava na frente do fogão, de camiseta amassada e cabelo para o alto, queimando panquecas com muita dignidade.
Foram descendo devagar e se sentando em volta da mesa, com a maquiagem borrada e os olhos inchados. Não houve grandes conversas. Falaram pouco, e quase só de coisas pequenas: se o café estava forte, quem tinha dormido de fantasia, onde estava o outro pé da bota.
Porque o essencial já tinha sido dito, na noite anterior, a cada um, a seu modo. Cada um deles tivera a sua última conversa com o Theo, a sós, e a levaria dali para a frente.
Lia pousou a xícara na mesa e sorriu.
— Acho que podemos marcar nossa próxima viagem. — disse.
— Eu topo! — disse Kate.
— Eu também — disse Lizzie.
— Conta comigo — disse Noah.
— Dessa vez, uma praia — disse Lia. — Sem lenda nenhuma.
— Sem lenda nenhuma — concordou Logan, rindo, por fim.
Depois de comerem, arrumaram as malas devagar, sem pressa de partir. Deixaram a casa limpa, a chave embaixo da abóbora de cerâmica e, na bancada da cozinha, um bilhete na letra de Lia:

“Obrigada por tudo.”

Colocaram as malas no porta-malas. Noah ao volante, Lizzie ao lado, com os pés de meias de gatinhos em cima do painel. Atrás, Lia na janela esquerda, Kate na direita e Logan no meio, de pernas dobradas, dessa vez, sem reclamar.
— Batismo concluído, lindo — disse Kate. — Você agora faz parte do grupo, oficialmente.
— Eu até gostei do banco do meio.
— Mentiroso.
Noah girou a chave. O rádio ligou sozinho, sem chiado, tocando a playlist da Lizzie, e a música continuou exatamente onde tinha parado no dia anterior.
Passaram devagar pela praça, onde os moradores já tiravam as lanternas dos postes e desmontavam o coreto, e saíram da cidade por baixo da placa de madeira, velha, com as abóboras desbotadas nos cantos:

BLACKTHORN
Desde 1892.
Aqui, ninguém comemora sozinho.

Lia olhou para ela pelo vidro, até que as árvores a engoliram.
A estrada se abriu à frente deles, longa e dourada, com o sol entre os troncos. Noah dirigia com uma mão só, relaxado, a outra entrelaçada à de Lizzie.
Kate adormeceu no ombro de Logan. Lizzie escolheu a próxima música. E Lia, com a testa encostada no vidro e a medalha quente sobre o peito, sorriu para a paisagem que passava, sem nenhum motivo. Ela sentia o peito leve, como se alguém tivesse aberto uma janela que estava fechada havia muito tempo.
Seria um ano, e depois outro, e muitos mais. Haveria viagens, casamentos, filhos, mesas grandes e cheias de gente. Haveria dias bons e dias difíceis, e quase sempre, no meio de uma risada, alguém diria “o Theo ia adorar isso”, e todos sorririam.
E nenhum deles esqueceria dele, e nem daquela noite.
A noite do dia 31 de outubro, em Blackthorn, quando os que partiram encontravam o caminho de volta por algumas horas.
Continua… ou Fim
Nota da autora
Blackthorn foi uma shortfic que saiu bastante da minha zona de conforto. É uma história original que surgiu na minha cabeça e, no dia seguinte, já estava escrita. Foi tudo muito doido, rápido e meio inesperado, mas fiquei muito feliz por ter tirado essa ideia do papel e espero de coração que vocês tenham gostado de ler tanto quanto eu gostei de escrever!

Nunca tinha escrito uma história que mergulhasse tanto no lado emocional dos personagens, e foi uma experiência muito especial para mim. Espero que vocês tenham conseguido sentir um pouquinho de toda a dor, felicidade e intensidade que eles carregam ao longo da história. ♡

Obrigada por terem lido e dedicado um tempinho a essa história! E, por favor, me contem nos comentários o que acharam. Vou ficar MUITO feliz em saber a opinião de vocês e ler o que sentiram durante a leitura. ❤️
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