No fundo da mente de , ela tinha algumas poucas sensações. Uma brisa gelada arrepiando seus braços, contrastando com o calor quase efervescente que ela sentia em suas costas e suas coxas que repousavam no corpo de alguém. Tinha a sensação que estava se movendo rápido, muito rápido, mas pouco processava com apenas a luz do luar.
Sua consciência também não estava presente. Estava presa em uma menina loira morta no chão, sem mais uma única gota de sangue em seu corpo. Ela queria gritar mais, mas nada saía de sua garganta, arranhada e sem força. Não conseguia espernear, nem chorar, nem nada, presa em um medo paralisante. E, ainda presa nesses pensamentos, apagou.
Quando a consciência de enfim retornou, ela se sentou na cama, arquejando. Piscou várias vezes, ainda tentando se orientar. Estava no baile ainda há pouco. Olhou para baixo e percebeu que ainda estava com a chemise e o espartilho manchados de vinho.
Então, sua memória disparou em lembranças. O desconhecido em seu quarto. Sua tentativa falha de luta, como chegou perto de ser ferida. E, então, como ele apareceu.
E como afundou as presas no pescoço do já morto assassino.
Pequenas convulsões tomaram seu corpo e ela sentiu uma súbita vontade de vomitar ao lembrar de como, naquele momento, tudo o que ela via no chão era Maryon. Porém, antes que o pânico a tomasse de novo, ela se forçou a respirar e agarrou os lençois da cama, fechando a mão com força até doer, para que a dor a fixasse na realidade.
Maryon já havia morrido há mais de um ano. Aquele homem não era ninguém bom, ou importante, ou sequer vivo.
— Tente não matar a cama, ela não fez nada contra você.
A cabeça de se virou bruscamente para o canto direito do quarto, onde Caos estava apoiado como se fosse o dono do lugar — o que de fato ele era. Estava tão silencioso que, no meio do turbilhão de emoções, ela nem ao menos percebera que ele estava ali.
Outro arrepio tomou seu corpo ao perceber que ele a encarava. Aqueles olhos tão verdes e tentadores, ela já havia visto com o que eles de fato se pareciam: com escuridão e morte, porque era isso que restava nele afinal.
Desconfortável, se forçou a soltar os lençois.
— Há quanto tempo estamos aqui?
— Chegamos a apenas quinze minutos.
Um trajeto inteiro apagado da cabeça de . Ela poderia ter morrido e nem teria uma lembrança sequer de sua própria morte. Encontraria seus pais e Maryon, que perguntariam “o que houve?” e teria que responder com “esqueci”.
Mas ela estava viva. Porque, apesar de ter visto o vampiro dilacerando alguém na sua frente mais de uma vez, por algum motivo que ela ainda não entendia, ele não a matava. Se fosse honesta consigo mesma, antes daquela noite, estava começando a se esquecer que ele era de fato uma ameaça.
Caos esperava pacientemente a confusão na forma de pensamentos se organizar na cabeça de . Ela engoliu em seco, então, e olhou para baixo, para as pernas cobertas pela chemise branca.
— Onde está Delilah?
— Pedi que ela fosse na estalagem comprar comida para você. Saímos tão apressados que nem mesmo provamos o bolo.
O estômago de deveria se revirar de fome, mas era a última coisa que ela conseguia sentir.
O silêncio se instalou de novo no quarto, e Caos já não parecia tão paciente. Na verdade, se desapoiou da parede e começou a andar em direção a ela, parando apenas quando observou o corpo dela se contrair de leve.
O vampiro suspirou, passando a mão no cabelo, não mais penteado para trás elegantemente, mas agora caindo em mechas rebeldes na frente de seu rosto, deixando-o tortuosamente mais lindo.
— Peço desculpas pelo meu comportamento, deveria ter pensado no quanto isso iria afetar você.
E lá estava ele de novo. Um perfeito cavalheiro. Um possível príncipe, por sua teoria que parecia cada vez mais certa. Sua mente não conseguia conciliar aquele homem tão gentil com o monstro que ela já vira mais de uma vez.
voltou a encarar sua perna, revirando as palavras na língua, incerta de como falar.
— Eu… — O bolo subiu na garganta, mas ela respirou fundo. — Eu vi Maryon. Naquela hora, eu não vi aquele homem. Eu vi você matando Maryon.
O ar no quarto ficou mais denso. O andar impaciente de Caos parou assim que as palavras o alcançaram, e ele se virou rapidamente para , que ainda se recusava a encará-lo. Sabia que logo teria que lidar com o inevitável: não poderia mais ficar ali, porque, por mais que tivesse ficado segura até então, sabia que essa condição tinha um prazo de validade.
O suspiro de Caos pareceu quase um grito no ambiente silencioso, e a garota se sentiu compelida a encará-lo, se surpreendendo com as emoções desconhecidas que observou em seu rosto.
— …
Mas três batidas na porta interromperam quaisquer palavras que iriam sair da boca do vampiro. Qualquer vulnerabilidade em seu rosto desapareceu em um instante, como se tivesse apenas imaginado. Ele logo tinha a postura do cavalheiro indiferente de sempre.
— Entre — disse, com a voz firme.
Os cabelos vermelhos de Delilah invadiram o ambiente, tirando toda a estranha tensão do ar. Carregava consigo um prato que cheirava a coelho com alecrim, tão bom que abriu um pequeno espaço no estômago enjoado de .
— Aqui está o jantar. — A vampira entregou o prato para ela, e trocaram sorrisos cúmplices, embora o de Delilah estivesse carregado de perguntas.
— Obrigada — respondeu educadamente, deixando a entender que aquelas perguntas teriam que ficar para depois.
Delilah então assumiu sua postura mais séria e indiferente, se virando para Caos.
— Adrian acabou de retornar, senhor. Encontrou o que você procurava.
— Excelente. Onde está?
Delilah então recolheu algo do bolso de seu vestido que fez um barulho metálico e estendeu para Caos. se inclinou para frente na cama, impelida pela curiosidade.
O vampiro segurou o objeto, revelando que era um medalhão, e trouxe o pingente para perto do rosto. Uma pequena ruga apareceu entre sua sobrancelha.
— Era o que eu imaginava.
— O que houve? — não se conteve e perguntou, sem entender o que era tudo aquilo.
Caos se aproximou dela e, dessa vez, ela conseguiu não recuar. Ele estendeu o medalhão e ela o segurou, tomando cuidado para não encostar nele.
— Você reconhece isso? — perguntou o vampiro.
trouxe o medalhão para perto do seu rosto. Era um metal prateado grosso, com um grande pentagram encravado no pingente. E, quanto mais perto olhava, mais sentia que ele parecia brilhar e esquentar. Sim, era familiar, e bem familiar. Mas de onde reconhecia aquilo?
Então, em um estalo, uma lembrança de sua infância tomou seus pensamentos. Se lembrou do dia em que não conseguia de jeito nenhum encontrar sua fita amarela bebê. Procurou pela casa toda: na cozinha, na sala, no próprio quarto, no jardim, no quarto do pai e no banheiro.
Restara apenas o quarto de Jeremy. Não devia, sob hipótese nenhuma, entrar no ambiente, mas era o único que lhe restava. Ela precisava encontrar a fita! Em sua cabeça de dez anos, era uma questão de vida ou morte.
Então, colocou o ouvido contra a porta e, não escutando nem um respirar, ela girou cuidadosamente a maçaneta. Espiou uma pequena fresta e soltou um suspiro ao ver o quarto livre. Entrou na ponta do pé, tremendo fazer barulho e atrair o meio irmão para sua companhia, então começou a revirar tudo em busca de sua fita favorita. Abriu gavetas, procurou embaixo da cama, no meio das roupas, até que encontrou uma pequena caixinha marrom. Com cuidado, tirou a tampa de madeira e apoiou na cama, sentindo-se decepcionada ao ver que nada restava ali dentro, a não ser um medalhão. Por que ter uma caixa inteira apenas para um medalhão?
Momentaneamente distraída, esqueceu-se da fita e pegou o medalhão, curiosa. Nunca vira Jeremy usando antes, e era tão bonito! De metal pesado, com um grande pentagrama que brilhava em suas mãos, esquentando-as com um calor que formigava por suas mãos.
— Tire suas mãos imundas daí imediatamente.
A voz de Jeremy não era um grito, e por isso assustava muito mais. Com um susto, quase derrubou o medalhão, e correu para colocá-lo de volta na caixa, se embaralhando toda enquanto as mãos tremiam. Quando enfim conseguiu fechá-la, Jeremy arrancou a caixa de suas mãos, empurrando-a para o chão em seguida.
— Me desculpa! Eu…
Mas um chute em sua costela fez com que ela perdesse o ar e não conseguisse falar mais nada.
— Quais são as regras? — sussurrou o jovem.
— Nunca… nunca entrar no seu quarto.
— Mas você não consegue escutar, consegue? — Outro chute. — Que fique de aviso: na próxima vez, eu vou quebrar suas costelas, uma por uma. Agora saia.
Ela se esforçou tanto para se levantar e conseguir sair do quarto que nem mesmo se lembrou da fita amarela, e apagou aquele medalhão curioso de sua memória.
Até aquele momento.
— Meu irmão — sussurrou , voltando ao presente.
Os dois vampiros a escutavam atentamente.
— O que tem ele? — perguntou Caos, quase como se soubesse a resposta.
— Ele tinha um medalhão igual a esse, escondido em uma caixa de madeira.
— Não encontramos nada disso quando reviramos a casa de Jeremy , senhor — relembrou Delilah.
— Ele deve esconder com alguma magia de sangue. É um homem mais esperto do que eu imaginava. — A voz de Caos estava mais sombria, embora ele exibisse um pequeno sorriso.
— Eu… não compreendo — falou , se intrometendo na conversa. — Onde você achou esse medalhão?
— O homem que tentou assassiná-la o usava — falou Caos, calmamente.
Um arrepio perpassou o corpo da garota conforme sua mente começava a girar.
— Então… esse homem tentando me matar… pode ter sido mandado por meu irmão?
— Suspeito que os dois tinham sim uma relação — confirmou o vampiro. — Diga-me, já ouviu falar da Guarda da Estrela?
sacudiu a cabeça, se sentindo ainda mais desnorteada. O que mais poderia atingi-la naquela noite? Já não era suficiente?
— São homens perigosos e devotos ao arcano Estrela Caída, o pai de todos os Arcanos. Ele já dominou este mundo antes, e era muito temido por seu poder — explicou Caos calmamente, alheio ao turbilhão dentro de . — A Guarda da Estrela é um grupo secreto que há séculos se reúne, devotos ao arcano, leais a sua dominância.
— Recentemente, depois de uma tentativa de tomada de poder no Império Meridiano, ele foi eliminado, mas ao que parece isso não impediu o resto do grupo — continuou Delilah. — Isso é muito maior do que imaginávamos.
Os dois vampiros começaram a discutir, enquanto a cabeça de continuava girando. Jeremy era parte de uma sociedade secreta? Teria seu pai sabido de algo ou aquele segredo era tão imenso até para o homem que o chamava de filho? Como ele descobrira que ela estava viva? Por que acionar homens perigosos com propósitos tão maiores para matá-la? Teriam outros? Não era suficiente ela já estar longe da vida dele, precisava estar morta? Sabia que Jeremy a odiava, mas não àquele ponto.
— !
A garota deu um pulo, sua atenção voltando para Delilah e Caos, ambos a encarando depois que a primeira a chamara.
— Me desculpe, eu… estou apenas com a cabeça cheia.
— Entendemos, mas precisamos que você agilize.
franziu a testa para sua amiga.
— O quê?
— A Guarda da Estrela, um grupo que nem deveria mais existir, está atrás de você, provavelmente a mando do seu irmão — continuou Caos. — Precisamos alertar a Imperatriz do Império Meridiano.
concordou, mas continuou sentada, apesar dos olhares ansiosos dos vampiros em cima dela.
— Qual parte de agilizar você não entendeu? — perguntou Delilah, revirando os olhos, mostrando mais de sua personalidade forte do que geralmente deixava escapar perto de Caos.
— Não entendi. Agilizar para quê? — questionou, confusa.
— Para irmos ao Império Meridiano — disse Caos, o olhar firme sobre ela fazendo com que ela desviasse o próprio.
— Você pode ir, eu vou ficar.
— Não vai. Você vai comigo — disse, resoluto.
— O quê?! — Ela se sobressaltou. — Por quê?
— Porque, caso não tenha escutado, tenho que relatar a presença de um grupo perigoso para a rainha. E você não vai ficar aqui sem mim.
— Delilah pode cuidar de mim — respondeu teimosamente, puxando a amiga para perto de si, mas a vampira se afastou.
— Meu senhor tem razão — disse Delilah.
— Traidora — sibilou baixinho .
Mas então, Caos deu um passo a frente, se aproximando da cama.
— Acho que você não está entendendo a situação, srta. . Se eu não tivesse chegado no quarto naquele momento, você… — As palavras morreram na boca dele, mas as entendia: ela estaria morta. — Você não vai mais se afastar de mim, porque eu não vou deixá-la em perigo. Nunca mais.
sentiu o peso daquelas palavras. Há poucos minutos, estava certa que precisava ir embora daquele lugar, se afastar ao máximo possível de Caos, mas agora tudo estava mudado. Um vampiro assassino que não estava tentando assassiná-la parecia menos pior do que um grupo assassino que estava, de fato, tentando assassiná-la. Então, pelo próprio bem (que ironia), teria que continuar ali ao lado dele. Porque, por mais que o odiasse e o temesse, no fundo ela sabia que ele a protegeria, como havia a protegido naquela noite.
Não havia mais escolhas.
— Tudo bem — sussurrou, derrotada.
Caos pareceu genuinamente surpreso com seu aceite, mas logo recuperou a postura indiferente e se virou para Delilah.
— Chame Adrian e peça-o para buscar a carruagem na festa. Também chame Garrett, preciso enviar um errado por ele. Depois, ajude a se preparar para a viagem. Quando ela terminar de jantar.
Todos olharam para o prato já frio em cima da escrivaninha onde Delilah o havia apoiado. É, não haveria jantar naquela noite. Caos então pigarreou.
— Sairemos amanhã de manhã para o Império Mediterrâneo, assim que todos estiverem prontos. — Ele lançou um olhar para a vampira de cabelos vermelhos. — Delilah, você está no comando até meu retorno.
se sobressaltou.
— Ela não irá comigo? Mas ela é minha protetora!
— Ela te protege de outros vampiros, e isso não será necessário lá.
— Ela poderia me proteger de você — rebateu , sem pensar.
Caos congelou com a resposta e prendeu a respiração. Por Deus, passara de todos os limites!
Mas ficou completamente chocada quando os olhos de Caos se fecharam e de sua boca saiu uma risada.
E claro que, como todo o resto naquele homem, a risada era maravilhosa. O coração de errou uma batida.
— Prometo que não irei atacá-la, srta. , como não a ataquei até então. Mas, caso a tranquilize, teremos companhia na viagem, se eles assim aceitarem. — O vampiro começou a se retirar do quarto, deixando as duas mulheres.
— Quem? — questionou , tentando se distrair do quanto ainda estava abalada com uma pequena risadinha.
Caos, já quase fora do quarto, se virou para ela, sorrindo, e respondeu:
— Duas pessoas que conhecem a Imperatriz. Você os conheceu nessa noite. — Ele abriu um pequeno sorriso, algo entre desgosto e empatia, aquela pontada de humanidade ressurgindo em seus traços. — Evangeline Fox e Jacks. Lembra-se deles?