I
— Disseram que seria esta tarde, mas não estou muito animada não — disse, mantendo minha atenção em minhas atividades.
— Por quê? — Seu olhar surpreso me impressionou um pouco.
Aquele sorteio era a atração da agência, esperada o ano inteiro por todos os funcionários e simpatizantes curiosos — os terceirizados.
— Eu não tenho muita sorte. — Eu suspirei fraco, voltando o olhar para a porta da loja.
— Que isso, menina, você é uma das melhores funcionárias de todas as lojas, está na lista top 10, você tem pelo menos dez por cento de chance de ganhar. — Ela deu um sorriso meio animado que mais parecia estar falando de si mesma. — Cruze os dedos, vai que é você a sorteada.
— Hum. — Voltei minha atenção a ela, dando um sorriso desanimado.
Realmente não acreditava em sorte, e o fato de eu estar entre os dez melhores funcionários não era por sorte e sim muito esforço e dedicação. Eu trabalhava em uma agência de viagens em São Paulo, e anualmente, nas férias de dezembro, eles selecionavam os dez melhores funcionários e sorteavam um pacote de viagem com acompanhante para qualquer país que o funcionário quisesse. A empresa fazia isso como um incentivo para todos se dedicarem mais no trabalho e nas vendas.
Aquele era meu quinto ano no top 10 em sete anos de empresa. Ainda não acreditava que estava lá desde os meus 16 anos, algo que seria temporário pelo contrato de jovem aprendiz e havia se tornado permanente até o momento. Passei a tarde em plena serenidade, concentrada nas ligações de retorno à pequena lista de clientes interessados na promoção do Cruzeiro Premium de fim de ano. Não acreditava mesmo que ganharia, nunca tive sorte, não seria agora que teria, por isso era mais lucrativo manter foco no meu trabalho, afinal a bonificação por pacotes fechados já valia a pena meu esforço.
Logo ao final da tarde, a gerente voltou de uma videoconferência com o RH da empresa e anunciou que haviam colocado o resultado no portal dos funcionários. Depois de muita insistência de Lola, entrei para conferir o ganhador.
“É com imenso prazer que anunciamos o vencedor do Funcionário do Ano:
Martins — Loja Boulevard
Estamos felizes em saber que a cada ano nossos funcionários se dedicam ainda mais e vamos sempre motivá-los a isso!!!”
Oi?!
Aquilo havia me deixado surpresa e estática por alguns instantes. Eu, , havia sido sorteada no ápice da minha incredulidade e nem imaginava que destino iria escolher. Tinha que me decidir e não me dariam muito tempo para pensar nas opções. Ao final do expediente, com todos os muitos comentários sobre minha conquista, voltei para o apartamento onde morava com minha amiga de infância, , e nosso gato chamado Bob. Meu lado cético não conseguia me deixar acreditar no resultado do sorteio. Assim que adentrei o apartamento, me deparei com sentada no sofá, vendo tv, com um balde de pipoca no colo. Seu olhar se voltou para mim, demonstrando certa confusão no rosto, talvez por não entender minha cara de incredulidade.
— O que houve, ? — ela perguntou, voltando a atenção para o desenho que estava passando na tv.
— Então, aconteceu algo surreal hoje — comecei a explicar, me sentando no sofá e jogando minha bolsa ao lado.
— Você encontrou um namorado? — Ela riu baixo.
Sabia que minha vida sentimental era tão dura quanto minha falta de sorte.
— Mais surreal que isso. — Eu a olhei.
— Mais surreal que isso? — Ela me olhou meio curiosa. — Ganhou na loteria?
Aquilo foi demais, ela sabia que eu não jogava.
— Fui sorteada na viagem do funcionário do ano. — Olhei para frente, meio estática ainda.
— Mentira! — Ela me olhou boquiaberta.
— Verdade! — Voltei a olhá-la, com seriedade.
— Não brinca com meu coração. — Ela se ajeitou no sofá, fazendo gestos de palpitação no coração.
— É sério! — reforcei.
— Uau! — Ela colocou o balde de pipoca na mesa de centro e virou seu corpo para mim, os olhos brilhando. — E para onde vamos? Porque eu vou com você!!!
A viagem era com acompanhante.
— É claro que você vai — confirmei, rindo de sua reação imediata. — Só não resolvi o destino.
— Vamos para Vegas!!! — disse ela empolgada. — Estou com vontade de jogar, vai que consigo juntar grana extra lá? Posso comprar meu carro.
— Sua louca, não quero ir para Vegas. — Eu remexi minha bolsa e retirei meu celular dela, liguei e comecei a checar minhas redes sociais. — Estava pensando na Europa, o inverno europeu deve ser lindo!!!
— Então vamos para Monte Carlo! — Ela me lançou um olhar de imposição. — Tem cassinos lá também.
— Oh, obsessão. — Eu ri dela, enquanto me levantava do sofá, então peguei minha bolsa. — Lembrou de comprar a ração do Bob?
— Sim, o que aquele gato mais faz é comer. — Ela soltou uma gargalhada maldosa. — E por falar no gato, vamos ter que deixá-lo em um hotelzinho, porque ele não vai poder ficar sozinho.
— Então você resolve isso. — Olhei para a janela da sala e lá estava o gato, dormindo tranquilamente. Sorri automaticamente e fui para o meu quarto.
Ao entrar, caminhei até a cama e joguei minha bolsa nela, coloquei meu celular na mesinha ao lado, retirei minha jaqueta, já pegando a toalha que estava no cabideiro de parede ao lado da porta. Uma espreguiçada de leve, segui em direção ao banheiro, precisava de uma ducha quente para relaxar meus músculos. Graças a , eu já tinha meu destino, só faltava informar à minha gerente. No dia seguinte, comuniquei a ela minha decisão e passei no RH da empresa para saber quando seria minhas férias. Tudo foi marcado para a primeira semana de janeiro, assim eu poderia ainda ver as decorações de natal da cidade e, de quebra, ver a neve.
Contraditório eu ser sorteada para desfrutar de umas calorosas férias de verão e acabar indo para um país com a estação contrária.
— Não acredito que vou viajar! — deu um pulo animada, indo para a cozinha.
— Me agradeça depois — eu brinquei, rindo dela, ao olhar para as passagens que estavam em cima da mesa de centro.
— Agradeço, sim. — Ela retornou para sala com um copo de suco na mão. — Prometo te apresentar alguns amigos do meu baby.
— Ha… ha… ha… Dispenso. Apesar de considerar muito o estava mais animada do que eu, já fazendo planos e roteiros da viagem para aproveitar ao máximo seu tempo nos cassinos da cidade. Foram 14 horas de vôo até Paris, na França, e mais 25 minutos até Monte Carlo em Mônaco.
Nosso desembarque foi tranquilo. Um guia turístico, chamado Francis, de uma agência credenciada, já estava nos esperando com uma plaquinha com nossos nomes. Era de noite e a cidade, mesmo com a neve, o frio e o clima meio úmidos, estava tão linda e iluminada pela lua, assim como as luzes de natal que ainda estavam nela. Ele nos levou até o hotel que estava reservado para nós duas. Por uma surpresa nossa, ficaríamos em quartos separados, achei isso sensacional. Como previsto, a primeira pergunta de era onde e como ela poderia chegar ao Cassino de Mônaco, minha amiga estava obstinada a gastar algumas moedas nos caça-níqueis, com a esperança de conquistar o triplo.
Quando entrei em meu quarto, fiquei admirada com o conforto e a beleza do lugar, por mais que o hotel fosse simples, de quatro estrelas, ainda assim, enchia os olhos de qualquer pessoa. Mais luxuoso que qualquer cinco estrelas do Brasil e com uma vista sensacional.
Pela primeira vez em anos, eu estava gostando de ser a funcionária do mês.
“É a ideia de ser jovem
Quando seu coração é como um tambor
Batendo mais alto, sem nenhuma maneira de impedir.”
— Permission To Dance / BTS