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Codificada por: Sol ☀️

Última Atualização: 16/07/2025.

Turim, três anos atrás…

Eu nunca vou esquecer daquele dia.

Era o meu primeiro mês cobrindo futebol europeu. Eu ainda tropeçava no italiano, decorava os nomes dos seguranças do estádio e ensaiava na frente do espelho as perguntas que queria fazer. Não era uma iniciante no jornalismo, mas ali… Naquele universo frio, técnico e masculino da imprensa esportiva internacional, eu me sentia minúscula.

E naquela noite, eu tinha uma chance de ouro: uma entrevista exclusiva com , estrela da Juventus, logo após um clássico decisivo da Série A. O jogo tinha sido intenso, polêmico, e ele — como sempre — estava no centro de tudo.

A sala de entrevistas estava abafada, cheia de jornalistas italianos que me olhavam como se eu fosse uma figurante perdida no set errado. Mas eu estava ali. Com o microfone da emissora brasileira em mãos, a pauta decorada na mente e o coração batendo tão alto que fazia eco nos meus ouvidos.

Ele entrou com a calma ensaiada de quem já estava acostumado com os flashes. Ajeitou a camisa suada, deu aquele meio sorriso para as câmeras e sentou diante de mim com a expressão serena de quem sabia o próprio valor.

— comecei, mantendo a voz firme —, depois de um jogo tão acirrado, você sente que a sua atuação hoje respondeu às críticas que vêm surgindo sobre sua regularidade?

Talvez tenha sido o tom. Ou a escolha da palavra "críticas". Talvez ele já estivesse de cabeça quente, ou apenas… com o ego ferido por alguma coisa que eu desconhecia.

Ele me olhou como se eu tivesse acabado de dizer a coisa mais ofensiva do mundo e me ignorou. O jogador simplesmente me ignorou.

Eu pisquei, atônita. Foi rápido, mas intenso. Um golpe que não esperava.

A sala, que já estava cheia de olhos e ouvidos atentos, pareceu respirar mais alto. As câmeras captaram. Os celulares gravaram. Os títulos se escreveram sozinhos:

ignora repórter brasileira ao vivo”
“Climão na entrevista pós-jogo”

Não importava o contexto. Ninguém queria saber da minha intenção. Só do impacto.

E eu? Eu engoli seco, sorri profissionalmente e terminei a entrevista como se nada tivesse acontecido. Mas por dentro, eu queimava. Eu quis chorar, quis jogar o microfone na cabeça dele.

A partir daquele dia, virou sinônimo de frustração profissional. De antipatia gratuita. De soberba disfarçada de estrela.

E toda vez que a gente se cruzava desde então — e eram muitas, porque o destino tinha um senso de humor cruel —, a entrevista se repetia em pequenas variações da mesma coisa: ele com sua calma debochada, eu com minhas perguntas afiadas. Um jogo à parte. Uma rivalidade não declarada.

As luzes do Parc des Princes ainda piscavam como um lembrete cruel do espetáculo que acabava de acontecer. No placar, congelado no telão, os números diziam tudo: 2 a 1 para o Paris Saint-Germain. Um resultado que eliminava a Roma da semifinal da UEFA Champions League.

Era um fim amargo para uma campanha que tinha surpreendido todo mundo. A Roma vinha desacreditada, mas aos trancos e barrancos, com atuações coletivas sólidas e momentos de genialidade do seu camisa 21, tinha chegado longe. Mais longe do que qualquer um apostaria. E agora… caía em Paris.

Nos corredores frios do estádio, a zona mista fervia em outro ritmo. Câmeras tremiam nas mãos de operadores suados, jornalistas corriam atrás de depoimentos, e o som de vozes misturadas em diferentes idiomas criava uma espécie de caos organizado — o tipo que, com os anos, eu aprendi a navegar quase com os olhos fechados.

Mas hoje… eu estava mais alerta. Com o corpo tenso. Ciente de que, a qualquer momento, ele surgiria.

Eu ajustei o crachá da emissora brasileira pendurado no pescoço e me aproximei da divisória que separava os jogadores dos jornalistas. O cheiro de grama úmida ainda escapava dos vestiários, misturado ao perfume cítrico e amadeirado que muitos deles usavam. Era um tipo muito específico de cansaço no ar. O cansaço de quem quase chegou. E não chegou.

— Ele vai falar? — perguntei para Pierre, assessor da UEFA, que já me conhecia de outras coberturas.

— Dois minutos. Ele não quer estender. Disse que tá exausto.

— Claro — murmurei. — Depois de perder um pênalti numa semifinal da Champions, quem não estaria?

Pierre franziu os lábios, mas preferiu não comentar.

A Roma tinha feito uma partida corajosa. Dura. Tinha conseguido empatar no primeiro tempo, com um golaço de fora da área. Mas o PSG pressionou até o fim. E — o nome mais comentado da campanha italiana — teve nos pés a chance de ouro: um pênalti aos 82 minutos. Um empate levava o jogo para a prorrogação. Mas ele chutou pra fora.

Agora, o herói da temporada era também o rosto do fracasso.

Quando ele apareceu no fim do corredor, o murmúrio cresceu. Todos os olhos se voltaram pra ele. caminhava com aquela postura clássica: ombros retos, olhar ligeiramente para baixo, expressão indecifrável. O cabelo preso num coque frouxo, a camisa parcialmente desabotoada, deixando ver a pele marcada de suor. Exausto, sim. Mas não abatido. Nunca abatido.

Ele parou diante de mim com um leve arquear de sobrancelhas.

— Ora, ora… a imprensa brasileira mandou você de novo?

A voz dele estava baixa, mas firme. E o sotaque argentino era mais forte quando ele estava de mau humor. Como agora.

Levantei o microfone com um sorriso ensaiado.

— Achei que você gostasse de repetir jogadas. Ou já cansou de perder pra mim?

Um dos cinegrafistas segurou o riso. , por outro lado, apenas inclinou levemente a cabeça.

— Eu é que achei que você tivesse superado sua fase de perguntas provocativas. Mas pelo visto…

— É o meu estilo — respondi, mantendo o sorriso intacto. — Não sei se você conhece essa palavra.

O olhar dele prendeu no meu por um segundo a mais. Como se avaliasse se valia a pena continuar o jogo.

— Vai perguntar sobre o pênalti, né? — ele chutou logo, seco. — Quer saber se eu tô abalado, se vou dormir hoje?

— Na verdade… — falei, mirando direto na lente da câmera, com a voz treinada de quem sabe exatamente o que está fazendo — eu ia perguntar se você acha justo que a responsabilidade do resultado recaia só sobre você. Considerando que o time inteiro falhou. Ou… prefere que eu use a palavra “crítica”? Sei que tem um histórico com ela.

A provocação foi proposital. Eu sabia. E ele também.

Os olhos escuros dele se estreitaram levemente, como se pesassem minha intenção. Ele mordeu o canto do lábio inferior, mas não respondeu de imediato.

— Você gosta disso, né?

— De quê?

— De cutucar. Fazer jogo mental. Você devia estar em campo, não aqui.

— E você devia saber responder uma pergunta sem levar pro lado pessoal — retruquei, tranquila. — Mas talvez ainda esteja treinando isso.

O ar entre nós dois ficou mais denso. Por um instante, tudo ao redor pareceu diminuir. Os passos apressados dos outros jogadores, os flashes, os gritos dos repórteres espanhóis… tudo virou um fundo borrado. E éramos só nós dois naquele duelo silencioso.

— Você ainda é igualzinha — ele disse, com um meio sorriso que não chegava aos olhos. — Só aprendeu a disfarçar melhor.

— E você ainda é o mesmo. Mas o tempo tem sido gentil com você. Pena que o placar não.

Ele soltou uma risada curta. Sem humor. Mas algo nos olhos dele brilhava — talvez raiva, talvez respeito. Não importava. Eu estava pronta pra sair dali.

Recolhi o microfone com precisão. Dois minutos. Era tudo o que precisava.

Me afastei com passos firmes, mesmo sentindo as pernas mais trêmulas do que gostaria. As palavras tinham sido afiadas, mas o coração batia num ritmo estranho no peito. Algo entre adrenalina e irritação.

.

Meu maior desafio. Meu lembrete constante de que o profissional e o pessoal nem sempre sabem andar separados.

E por mais que eu tentasse, sempre que a gente se cruzava, era como se aquele dia em Turim nunca tivesse acabado.

A van da UEFA nos deixou duas quadras antes da sede da emissora, e eu nem reclamei. Paris à noite tinha aquele cheiro de cidade grande misturado com um toque de filme antigo: as ruas de pedra molhada, os postes amarelados refletindo nas poças, o barulho dos carros abafado pelo vidro do fone no ouvido.

Enquanto caminhava com minha mochila pendurada num ombro e o casaco amassado no outro, sentia o peso do dia se acumular nas costas como uma pedra dentro do peito. Não era só o cansaço físico. Era mental. Era emocional. Era... dele.

A sede da emissora brasileira na Europa ocupava três andares de um prédio envidraçado, meio escondido entre uma galeria de arte e uma loja de queijos caros no 8ème arrondissement. Não era grande, nem chamativo, mas lá dentro tudo cheirava a café forte, deadlines e fones de ouvido gastos demais.

Quando entrei, o térreo estava silencioso. Quase todo mundo da equipe ainda estava na cobertura da Champions, editando material no caminhão de transmissão ou terminando links ao vivo no estádio. Só o segurança noturno levantou os olhos do telefone e assentiu com a cabeça quando passei direto pelo detector.

O elevador subiu devagar, com aquele rangido sutil que só quem pegava ele todos os dias notava. No reflexo do espelho, eu vi meus cabelos soltos já sem forma, o batom quase apagado e os olhos — ah, os olhos — ainda com aquele traço de indignação que nem a noite fria conseguiu tirar. Eu odiava que ele tivesse esse efeito em mim. O .

Quando a porta abriu no segundo andar, senti o calor do estúdio me abraçar. Alívio.

A redação estava meio apagada, mas os monitores acesos denunciavam que alguém ainda estava ali. Um dos produtores de vídeo mastigava um pacote de biscoito enquanto cortava imagens do jogo. O som ambiente de chuteiras, torcida e narração baixa enchia o espaço como uma trilha fantasma.

— Sobreviveu? — ele perguntou, sem tirar os olhos da timeline.

— Por pouco — respondi, jogando a mochila na cadeira giratória que era minha desde o primeiro dia ali. — Mas minha dignidade está intacta. Mais ou menos.

Abri o laptop e conectei o microfone externo para baixar o material bruto da entrevista. A miniatura do vídeo apareceu logo: diante de mim, suado, tenso, com aquele olhar que perfurava. Me vi também, segurando o microfone com a segurança que eu só sentia da cintura pra cima.

Soltei um suspiro e me recostei na cadeira, encarando o teto.

Lá fora, Paris parecia tão distante. Aqui dentro, tudo girava em torno de prazos, cortes, e manchetes.

“Craque da Roma se irrita com pergunta e rebate jornalista brasileira.”
x imprensa: rivalidade antiga reacende em Paris.”

Eu já sabia o tipo de manchete que viria. Elas se escreviam sozinhas. E nenhuma contava a história completa. Nenhuma dizia que ele tinha me ignorado três anos atrás. Nenhuma mostrava o silêncio depois, as trocas sutis, as provocações disfarçadas de profissionalismo. Nenhuma dizia que, por mais que eu tentasse… havia algo em mim que estremecia quando ele me olhava daquele jeito.

Fechei os olhos por um instante, apoiando a testa na mão.

Não era cansaço. Era um turbilhão. Orgulho, raiva, frustração, e… curiosidade. Sempre curiosidade.

Peguei meu copo térmico na bancada — o mesmo de sempre, com o adesivo descascado da emissora — e fui até a cafeteira. O corredor do estúdio estava escuro, iluminado apenas pelas luzes fracas de emergência e o som baixo de um telejornal em francês vindo da TV da recepção.

Enquanto o café pingava lentamente na xícara, fechei os olhos por um segundo e deixei o cheiro me levar pra longe. Longe de Paris, da Champions, da tensão. Voltei pra mim. Pro que importava.

Continua...

Nota da autora: Oi, pessoal! Espero que vocês gostem e se animem com essa história tanto quanto eu!
Um beijo, Evie.


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