— Espero que você saiba mesmo onde estamos indo…
Ahra relinchou em resposta à fala e toque de , que estava em seu lombo. Já havia passado um pouco da hora do almoço e decidiu que deveria levar algo para Yoongi comer, acreditando que o encontraria no lugar que ele mesmo tinha dito que passava a maior parte dos seus dias trabalhando. Por sorte, encontrou com Ahra pelo trajeto, ainda dentro da cidade, e conseguiu montar nela para não precisar andar a pé os tantos quilômetros de distância até chegar nele.
Continuou segurando na crina de Ahra, não muito forte para não machucá-la, e observando toda a paisagem ao seu redor com total atenção. Era completamente diferente do que estava acostumada em sua cidade — por mais que houvesse a diferença de morar num lugar de muito verde e estar ali em Ruthertown, uma cidade "do fim do deserto". Tinha uma atmosfera gostosa, peculiar.
E uma brisa suave.
Seu pai tinha tentado lhe convencer, inclusive, a não ficar ali e ir com ele para Nova Iorque, viver os dias de muito luxo enquanto ele tratava de negócios. Mas, em uma observação não necessariamente muito profunda, sabia que tinha feito a escolha certa em ir para o deserto; estava se sentindo bem e com uma escolha certeira. Em alguns dias, tinha mudado alguns parâmetros de suas perspectivas, o que a fez se sentir um pouco mais madura do que era quando chegou na Califórnia, e, certamente, não tanto quanto seria ao fim, quando fosse embora.
Estava sendo como tinha de ser.
E não teria nada tão importante ou mais belo em Nova Iorque do que estar na porteira, a alguns metros de um Yoongi concentrado escovando um cavalo caramelo, com seu sorriso gengival estampando o rosto que refletia a luz forte do sol.
Com certeza tinha feito a escolha certa.
Poderia ficar horas ali e não se entediaria, diferente do que as companhias nova-iorquinas tinham a oferecer com suas idas à lojas, artesãs, costureiras caras, etc.
Desceu de Ahra, tomando cuidado para não tropeçar, e se aproximou do arame da cerca baixa, apoiando-se na madeira que formava a porteira de mesma altura, batendo em sua cintura. Em todo o processo, claro, teve total cuidado para não derrubar a marmita enrolada em um pano comprido, com talheres bem presos para que Yoongi pudesse comer a torta que Morgana havia feito com tanto carinho — a favorita dele: morango, tendo um cantil com suco de laranja e algumas tangerinas para ele descascar e se deliciar; tudo organizado por , que foi descobrindo sobre esses detalhes com a governanta do hotel.
Também ficou bem claro para ela que Morgana o tinha como um filho.
Não quis fazer barulho algum e tomou cuidado para não perder a vista que estava tendo. Era um privilégio sem tamanho poder vê-lo imerso em seu mundinho.
Yoongi não tinha compartilhado sobre sua vida ainda e ela iria esperar que ele fizesse isso quando se sentisse pronto e quisesse, mas podia ver pelos olhos dele e a forma como se comportava sempre diante de Athus — e até mesmo com ela, embora não tenha merecido muito o seu cavalheirismo inicialmente — que aquilo era o seu momento de conectar-se a si mesmo.
Assim como ela. Ele podia ter desvendado que adorava livros para se sentir mais próxima de sua mãe, mas na verdade se tratava de uma forma para descobrir o que ela era. Que tipo de pessoa queria ser. Porque quando lia as páginas dos romances da grande estante de sua mãe, limpava a própria mente, moldando-se em um mundo só seu; sem pai e as imposições, sem a ausência da mãe que tão pouco esteve presente, sem a saudade de seu tio, somente ela com ela mesma.
Era importante.
Tanto quanto observar Yoongi. Isso estava lhe guiando por uma atmosfera nova.
E teria ficado muito mais tempo presa naquilo, numa hipnose arrebatadora, se não fosse por algo gelado em sua canela lhe assustando e arrancando de si um grito histérico.
— Ai, merda! — ralhou, sentindo o coração acelerar ao quase derrubar a trouxinha que carregava a marmita bem protegida. — Quem é você? — questionou para o pequeno cachorro de pelos num tom loiro bem claro e arrepiado. Ele abanava o rabo para ela, encarando-a como se estivesse lhe dando qualquer aprovação. — Você me assustou… garoto — observou bem, constatando ser um macho.
Ele latiu e ela riu, se abaixando com cuidado e esticando o braço para fazer carinho nele.
— Então você é falante… Me chamo , qual seu nome? — disse, como se conseguisse entender o que ele latia.
era apaixonada por cachorros.
— Esse é o Ruther.
Sentiu um solavanco em seu peito, sendo seu coração disparando ao ouvir a voz de Yoongi. Ainda na mesma posição, viu pela sombra dele que estava logo atrás de si.
Devagar, se levantou e virou-se para ele.
— Por que não me apresentou ele antes? — fez um bico de decepção. — Você teria encurtado muita coisa com uma simples companhia decente.
— Achei que o alazão ali teria mais efeito em você… Sabe, eu estar montado nele… — Yoongi respondeu fingindo pouco caso. — Na próxima eu coloco a cela no Ruther.
Em resposta, Ruther latiu, recebendo o polegar de Yoongi.
riu, franzindo o nariz. Sem nenhuma hesitação, inclinou o corpo para frente, selando os lábios nos de Yoongi rapidamente.
Certamente, ela ruborizou, mas logo ergueu a trouxa da marmita como medida de distração pelo o que fez.
— Ajudei Morgana a preparar.
Não totalmente distraído do que ela fez, mas respeitando a opção de agir naturalmente, Yoongi manteve o sorriso, pegando da mão dela o que lhe foi estendido.
— Eu já até imagino o que seja… Ela te contou? — assentiu, levando as mãos para trás do corpo. — Vamos pra outro lugar então, já acabei por aqui.
— Qual o destino?
— Você vai ver.
— Outro charme? — Ela arqueou a sobrancelha, desafiando-o com o olhar.
— Talvez. — Os lábios de Yoongi se fecharam, sendo puxado em uma só ponta num sorriso ladino. Ele se virou e viu Ahra mais a frente, pastando em volta da cerca. — Imaginei mesmo que vocês se dariam bem — falou conforme caminhava para o lado de dentro da cerca, onde Athus estava parado e mascando maçãs. o seguiu.
— Acho que a princípio ela teve ciúmes, mas viu que minhas intenções são boas — continuou com humor.
— Então eu sou o mocinho da situação? — Enquanto arrumava a cela de Athus, Yoongi deu continuidade, guardando a marmita dentro de uma bolsa presa no cavalo.
— Aparentemente nessa história eu sou a mocinha da cidade grande que só pensa em sapatos e roupas, casamentos e filhos… com um cara rico.
— E aí conheceu o caipira que cuida de gado…
— Eu colocaria o caipira com um estilo meio brega, porém charmoso. — As bochechas de enrubeceram, esticando o cantil para ele, depois de tirar de seu corpo. Yoongi se virou para ela, em silêncio, a olhando um tanto impassível.
Ele não disse nada, nem ela, até que a pegou de surpresa, pela cintura, a erguendo para que se sentasse de lado no lombo de Athus.
— O importante é que no final, o caipira sempre conquista a mocinha rica da cidade grande — disse ao subir, sentando-se atrás dela e passando os braços pelas laterais de seu corpo.
sorriu, com o rosto virado de perfil para ele e recebeu um beijo em sua bochecha.
O primeiro comando para Athus foi dado e ele começou a dar seus passos tranquilos para longe dali. Não demorou para que reconhecesse o caminho, ouvindo o barulho da queda d'água da cachoeira que tinha descoberto dias atrás, sozinha. Pelo caminho que tinham feito, ela entendeu porque ele havia mencionado que ninguém chegava até ali.
Parecia impossível que um conjunto de pedras escondesse uma trilha tão perfeita que dava em uma cachoeira com um lago pequeno numa parte aleatória do deserto.
Mas seus olhos estavam ali, comprovando mais uma vez que era real.
— Aqui é tranquilo, ninguém vai nos atrapalhar. — Yoongi disse assim que Athus parou, descendo e a puxando pela cintura.
— E a gente aproveita pra tomar um banho de cachoeira nesse calor… Aqui não é tão frio.
— Você chegou a entrar na água aquele dia? — Ele franziu o cenho.
— Sim, antes de você chegar eu tinha tomado um banho.
As bochechas dela ficaram mais vermelhas do que o laço em seu cabelo; se bem lembrava, quando encontrou Yoongi ali num dia de clima meio chuvoso, estava totalmente seca, então, logo, para ter entrado na água e saído com as roupas sem nenhum resquício de umidade, só poderia ter feito de uma forma: nua.
Abaixou os olhos para as botas que usava, esperando qualquer comentário de Yoongi, mas não veio. Então decidiu dar o passo por si, fazer o que estava em sua mente e movimentar-se como seu corpo queria.
O efeito da causa em consequência seria algo para lidar no futuro.
— Você vai ficar aí?
Disse se afastando dele, indo para mais perto da beira do lago. Ao parar ali começou a tirar as botas, em seguida soltando o cabelo. Ficou aliviada por ter escolhido um vestido sem muitas camadas, apenas com uma anágua por baixo.
Se virou somente com metade do tronco, vendo que Yoongi ainda estava parado da mesma forma, embora Athus já tivesse ido caçar o que mastigar.
— Pode me ajudar aqui? Eu não alcanço o laço de trás… — pediu, o trazendo de volta para a realidade.
Devagar, Yoongi se aproximou, ainda em silêncio.
Suas mãos trêmulas começaram pelo primeiro laço que estava perfeitamente amarrado na cintura dela, eliminando uma primeira parte, um tipo de colete. Por baixo era mais fácil, somente desfazer o nó lhe deu facilidade para que as alças deslizassem pelos ombros dela e o vestido fosse ao chão.
O tecido da anágua era quase transparente, mas ele não queria olhar, não agora. Virou para si, beijando-a delicadamente na testa.
— Você pode entrar, eu vou ficar de costas ali naquela pedra.
— Não. — Ela rebateu rapidamente, soando contrariada. — Por favor, entra comigo. Eu confio em você.
Os olhos amendoados e suplicantes não precisaram de muito para convencer Yoongi. Tampouco teve tempo de contestar as mãos dela tirando seu casaco agilmente. abriu o restante dos botões quando a primeira peça caiu no chão e Yoongi terminou todo o resto, enquanto continuavam se olhando fixamente nos olhos, sem desviar por nenhum centímetro.
— Depois vamos estar cansados e famintos, aí podemos comer... — A voz dela soou um pouco lírica para ele, que apenas assentiu, se livrando da camisa.
não cortou a troca intensa de olhares, dando passos para trás, já sentindo a água em seus pés. Quando notou que precisaria prestar atenção por onde estava pisando, se virou por completo, ficando de costas para ele. Ao ter a água cobrindo um pouco acima de seus seios, parou, ficando ainda virada de frente para a queda de água.
Os respingos refrescavam sua pele e ela fechou os olhos, abrindo somente ao sentir a presença de Yoongi atrás de si, mas não tão perto.
Sem muito render o conflito interno, ela tirou a anágua, virando-se para ele, que estava paralisado e com a água um pouco abaixo do peito, diferente dela. fez um bolo com a peça removida e a jogou com toda força, a vendo cair numa pedra qualquer da margem. Deu um passo a frente, ficando mais perto de Yoongi.
— Eu queria te agradecer por…
— Não fala nada. — Yoongi a cortou, quando ela começou serenamente o que parecia ser um discurso. — A gente não precisa se agradecer de nada, somente aproveitar que agora podemos conhecer um ao outro sem nenhuma crise de infantilidade. Tudo foi como tinha que ser e… ainda bem que foi.
Ela assentiu, sorrindo suavemente.
— O que ficou lá atrás, ficou.
Yoongi concordou, também dando um passo à frente.
— Eu quero conhecer o Yoongi de Ruthertown. — colocou os dois braços nos ombros dele, um de cada lado. Seu corpo estava mais próximo do de Yoongi e ela estava começando a sentir um formigamento, inibindo toda e qualquer dúvida sobre o que estava fazendo.
— Ele não é tão interessante assim.
— Então quem seria?
— O Yoongi que está em sua frente e quer muito te beijar. — Dessa vez foi ele quem ruborizou.
— E por que ele não beija?
— Porque ele não vai querer parar.
O sorriso ladino agora era de , como numa inversão de papéis. Em uma situação indo de 0 a 100 muito rápido, ela só soube seguir o que seu corpo estava clamando, como um imã atraindo metal.
Sentir seu corpo chocando-se contra o dele e ser abraçada por baixo da água a fez vibrar por completo, não contendo o ímpeto de beijá-lo com urgência. Tão urgente, que não soube calcular de onde veio a iniciativa de agarrar a cintura dele com suas pernas. A partir disso, ela não teve mais volta.
E não queria.
Nem mesmo as gotas finas da garoa a tiraram do fervor daquele momento, pelo contrário, pareceu servir como um gás a mais e os beijos que começou a receber no pescoço, até o seu busto, arrancaram qualquer sombra de dúvida que ela poderia gerar.
Estava entregue e, igual ao sonho que tivera, Yoongi a tocava gentilmente, até mesmo na forma como seus olhos perguntaram silenciosamente se estava tudo bem.
E ela respondeu sorrindo, deixando que continuasse.
— Quando você quiser que eu pare, você fala e eu paro na mesma hora.
Ele alertou, com o rosto um pouco afastado e os lábios inchados pelos beijos. O rosto com respingos da chuva aleatória estavam lhe deixando muito mais irresistível do que conseguia configurar em sua mente, estando inerte demais para desistir dos possíveis avanços. Já estava ansiosa por aquilo e sentia que ele também, não só atmosfericamente, mas pelo físico — e, estranhamente, era uma sensação gostosa, diferente e instigante vindo de sua região íntima.
Negou com a cabeça, fazendo seus fios de cabelo se molharem mais na água, e apertou tanto os braços em volta do pescoço dele, parcialmente apoiados nos ombros, quanto as pernas em sua cintura, forçando um quadril contra o outro.
— Não… — Seu pedido saiu junto de um arfar pela sensação da fricção e não conteve as pálpebras de se fecharem.
— …
— Não para, não me solta. — Ela implorou.
A mão que não estava ocupada lhe sustentando pela cintura foi para sua nuca, entrelaçando-se aos fios. Olhando-a nos olhos, Yoongi a beijou lentamente, de forma intensa, profunda, ritmada… Um beijo que ele jamais acreditaria ser possível cansar de dividir com . Foi um beijo tão imersivo, que não deu tanta vazão para o arfar ao senti-lo penetrando-a lentamente, com a explosão de sensações misturadas à ardência de seu primeiro contato.
Porém, não foi possível segurar por muito tempo, seu descontrole logo surgiu junto com a necessidade da respiração, e o beijo foi pausado por ora com uma leve mordida sua no lábio dele, mas sem reclamações. deitou a cabeça no ombro de Yoongi, apertando suas unhas na pele dele, conforme sentia esse novo prazer ficar menos ardido e mais proveitoso, assim como o ritmo que ele seguia.
Os lábios de Yoongi em seu pescoço a deram uma corrente elétrica a mais, sendo respondida pelos seus na pele dele, sugando-o como se tanspassasse ali o que estava sentindo. Assim como repetiu a mesma intensidade de resposta nos beijos que continuaram sendo divididos, até que Yoongi fosse diminuindo, depois de se desfazer após um longo gemido e um aperto forte dela em seu ombro, seguido com uma mordida leve.
Ofegante, mas ainda a segurando em seu colo, ele afastou os cabelos de , beijando-a carinhosamente pela bochecha até o pé de sua orelha. Deu um tempo a ela, mas logo se sentiu preocupado por ser tempo demais.
— Você está bem? ?
— Shhh… Eu tô tentando dormir. — Ela respondeu lenta e arrastado. — Você deveria tentar, como consegue se mover depois… disso?
Yoongi riu fraco, beijando a bochecha dela com mais demora.
— Só estava preocupado. Você está bem?
— Eu tô… Quem não vai estar é você se continuar falando.
Soltando um suspiro, Yoongi a abraçou mais forte, ajeitando-a para que se encaixasse mais confortavelmente em seus braços, com o rosto encaixado na curva de seu pescoço.
— … — A chamou, recebendo um "hum" resmungado, sonolento e baixo. — Não vai embora, por favor.