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Camisa 7: #StetsonGirl

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CAPÍTULO 1

CAMISA 7


O plano original de Jillian West para aquele último semestre da faculdade envolvia relatórios muito bem detalhados, os fins de semana na fazenda da família nos arredores de Houston e o ar familiar de terra e feno seco, seus afazeres, paz e zero estresse. Futebol, muito menos a Copa do Mundo, não estava em nenhuma linha do seu caderno de anotações.
Mas tente explicar isso para Cami e Maya quando as duas colocam uma ideia na cabeça. Para elas, a iminência do diploma não era apenas o fim de um ciclo, era o fim do mundo como o conheciam, da jovialidade, e o começo dos traumas das responsabilidades.
Cami caminhava de um lado para o outro na cozinha, a unha do polegar sendo destruída por seus dentes, tendo zero atenção de Jill, que já havia dito vários ‘não’ em menos de dois minutos.
— É a nossa última chance, Jill — Maya argumentou, praticamente invadindo a cozinha de Jillian com o celular em riste, onde a tela brilhava com três ingressos digitais que pareciam valer mais do que ouro. — Depois que cruzarmos aquele palco de beca, você vai se enfiar de cabeça nos negócios de gado da sua família e nós duas vamos virar escravas de escritório! É agora ou nunca!
Jillian fez careta, movendo os lábios para cima, enrugando o nariz.
— E por que Atlanta? Por que futebol? — ela tentou contra-atacar, ajeitando os óculos enormes enquanto tirava uma torta de maçã do forno. — Eu nem sei as regras. Se a bola passar daquela linha branca, para mim é tudo igual.
— Pela atmosfera, sua caipira teimosa! — Cami completou, roubando um pedaço da crosta da torta. — É uma semifinal de Copa. O mundo inteiro vai estar lá. E nós também vamos.
Jillian resistiu o quanto pôde, tentou até ficar doente, mas a perspectiva de ver suas duas melhores amigas seguindo viagem sem ela pesou mais do que o cansaço e a falta de conhecimento.
E bem, ali estava ela, duas semanas depois, encarando a imensidão de Atlanta.
Deixar as estradas largas e o ritmo previsível do Texas para trás e mergulhar no trânsito caótico da Geórgia foi uma peleja. Todavia, quando finalmente pisaram no centro da cidade, o ceticismo de Jillian começou a desfazer. Atlanta não era apenas uma cidade grande naquela semana; era o coração pulsante do planeta.
As calçadas estavam inundadas por um mar de camisas azuis e brancas da França, que se misturavam ao vermelho vibrante e às bandeiras com o símbolo do Taegeuk da Coreia do Sul. Havia música vindo de todos os cantos, sotaques que Jillian nunca tinha ouvido na vida e um cheiro de comida de rua que abria o apetite de qualquer um.
— Eu não disse? — Cami exclamou, empurrando Jillian de leve com o ombro enquanto desviavam de um grupo de torcedores franceses que cantavam alto perto do metrô. — Olha pra isso! É ou não é melhor do que ficar lavando bunda de cavalo?
Jillian riu, levando a mão à cabeça de forma instintiva para ajustar a aba do seu inseparável chapéu Stetson de feltro claro. O acessório destoava completamente da moda urbana e das camisas de times ao redor, mas era o seu porto seguro, o pedaço de terra que ela tinha trazido consigo para não se perder naquele mundo novo, mesmo que só por uns dias.
— Eu ainda prefiro os meus cavalos — Jill admitiu, abrindo um sorriso genuíno enquanto olhava para os telões gigantescos espalhados pelas avenidas. — Mas tenho que dar o braço a torcer... a energia desse lugar é covardia. Vocês estavam certas.
Cami e Maya se entreolharam com pura expressão de deboche, Jill revirou os olhos e riu.
Seguiram caminho pelo estacionamento do Mercedes-Benz Stadium, verificando em um panfleto informativo onde ficava a entrada para a ala que haviam reservado os assentos, com Maya se dando conta só naquele momento que tinha adquirido os assentos na arquibancada da torcida sul coreana.
O caminho até os assentos foi um borrão de empurrões amigáveis, cheiro de comida e o eco ensurdecedor dos cantos das torcidas que reverberava no teto fechado do estádio. Maya tinha se superado. Quando finalmente alcançaram a fileira delas, Jillian engoliu em seco. Os lugares não eram apenas bons; elas estavam no anel inferior, a poucos metros do gramado, bem perto da linha de escanteio.
Antes mesmo do apito inicial, a fome bateu.
Jillian, pragmática como sempre, se voluntariou para enfrentar as filas dos quiosques de lanche enquanto as amigas tentavam aprender os nomes dos jogadores por outro panfleto. Quando voltou, trazia os braços carregados: três copos gigantes de refrigerante, duas bandejas de nachos transbordando queijo e um cachorro-quente que provavelmente era grande demais para ser real.
— Você vai comer tudo isso antes do primeiro tempo? — Cami perguntou, rindo alto por cima do barulho da multidão.
— Eu gastei uma fortuna para estar aqui, querida. Vou consumir cada caloria que a Geórgia tem a me oferecer — Jillian rebateu, já ajeitando a bandeja de nachos no colo e dando uma mordida caprichada, sem a menor cerimônia.
O jogo começou meio sem força, meio morno, só um bando de homens trocando as pernas pela bola. No entanto, alguns minutos depois, as coisas começaram a ganhar impulso.
Jillian não entendia absolutamente nada de tática, mas a velocidade daqueles homens correndo pelo gramado era impressionante. Toda vez que a França avançava, a torcida ao redor parecia sofrer um ataque cardíaco coletivo. Do lado coreano, o camisa sete se destacava. Ele corria com uma leveza impressionante, os olhos semicerrados de puro foco, comandando o time com gestos rápidos.
No final do primeiro tempo, após uma falta dura que paralisou a partida para o atendimento médico de um jogador francês, o estádio mergulhou em um compasso de espera. Para entreter o público, o sistema de som soltou uma música pop chiclete sul coreana, em homenagem aos visitantes, e a famosa Câmera do Telão começou a caçar reações espontâneas na plateia.
Jillian estava completamente alheia a tudo isso.
Ela tinha acabado de colocar um nacho extra queijo na boca e, embalada pelo ritmo animado da música que ecoava nos alto-falantes, começou a balançar os ombros em uma dancinha perfeitamente desengonçada, os olhos fechados saboreando a comida.
Primeiro Cami encarou o telão sem assimilar o que estava acontecendo, em seguida ela arregalou os olhos batendo no braço de Maya, apontando para a tela.
— Jill... Jill, pelo amor de Deus, para de mastigar e olha para cima! — Maya começou a esbofetear o braço da amiga, o rosto vermelho de choque.
Jillian abriu os olhos, piscando confusa, e olhou para o telão de alta definição que pairava no centro do estádio.
E lá estava ela, em tamanho monumental.
Uma garota de bochechas coradas, mastigando feliz da vida, com um chapéu Stetson gigante na cabeça, “dançando” como se estivesse sozinha na cozinha de casa.
O estádio inteiro soltou uma risada coletiva, um som caloroso que achou graça daquela espontaneidade genuína no meio de tanta tensão. Jillian congelou com o nacho no meio do caminho, as bochechas esquentando na hora, mas em vez de se esconder, ela apenas deu de ombros na tela, ergueu o copo de refrigerante em um brinde tímido e deu um sorriso aberto, ajeitando a aba do chapéu.
No gramado, a poucos metros dali, Son Heung-min estava com as mãos nos joelhos, recuperando o fôlego e tentando manter a cabeça fria diante do placar zerado. O barulho da risada da torcida o fez erguer os olhos para o telão.
O contraste foi imediato. No meio de um mar de rostos tensos e camisas de futebol, aquela garota americana com um chapéu de caubói estava vivendo no próprio universo particular, completamente feliz com seu lanche. O canto dos lábios do jogador subiu de forma involuntária.
Foi o primeiro sorriso genuíno que ele deu desde que pisara naquele estádio.
A câmera do telão cortou a imagem, mostrando o torcedor francês com peruca colorida, mas a mente de Son continuou nela. Ele piscou, limpou o suor da testa com as costas da mão e correu os olhos pela arquibancada do setor inferior, bem na direção de onde o take havia sido feito.
Não foi difícil encontrá-la.
O Stetson de feltro claro brilhava sob as luzes da arena.
Jillian ainda estava tentando se recuperar do mico, bebendo um gole longo do refrigerante, quando Cami a cutucou com força, o sotaque sulista quase sumindo pelo desespero.
— Jill... Não olha agora. Mas o asiático com a camisa sete, ele está olhando para cá.
Jillian franziu a testa e olhou em direção ao campo, Son estava parado perto da linha lateral, ajeitando a braçadeira de capitão. Quando percebeu que ela tinha olhado de volta, ele não desviou o olhar. Pelo contrário. Ele inclinou a cabeça de leve, deu um meio sorriso de canto e, com um gesto rápido e quase imperceptível para o resto do mundo, imitou o balanço de ombros que ela tinha feito no telão, antes de se virar e voltar a correr para a sua posição.
— Ele não fez isso — Maya sussurrou, boquiaberta. — Me diz que ele não acabou de flertar com você usando uma dancinha de nachos?!
Jillian sentiu o coração dar uma pirueta que não tinha nada a ver com o susto do telão. Ela engoliu em seco, os dedos apertando a aba do Stetson enquanto os olhos dela acompanhavam o Camisa Sete se posicionar no campo.
O futebol, de repente, tinha ficado muito mais interessante.

⚽🏆

O segundo tempo começou com uma intensidade que fez o piso do estádio vibrar.
A França voltou do intervalo pressionando alto, sufocando a saída de bola da Coreia do Sul. O barulho das duas torcidas era como um ribombo contínuo dentro da arena fechada, mas, para Jillian, o foco do mundo havia se reduzido drasticamente para o retângulo verde logo à sua frente.
— Ele olhou de novo? — Maya perguntou pela décima vez, quase subindo na cadeira para ter uma visão melhor. — Jill, juro por Deus, acho que ele rastreou o seu chapéu.
— Fica quieta, Maya! O setor inteiro vai notar — Jillian sussurrou de volta, puxando a aba do Stetson um pouco mais para baixo, tentando em vão esconder o rubor que teimava em queimar em suas bochechas.
Apesar do aviso, os olhos dela estavam fixos no camisa sete.
Era fascinante ver a mudança de postura dele.
O homem que havia brincado com ela minutos antes agora era puro foco e agressividade tática. Ele corria, desarmava, orientava os companheiros com gritos rápidos e uma liderança que impunha respeito. Jillian, que nunca tinha dado importância para o esporte, muito mal tinha ido aos jogos do time da faculdade, se pegou prendendo a respiração a cada arrancada dele pela lateral.
Aos quinze minutos, a oportunidade perfeita surgiu, após um contra-ataque rápido da Coreia, o zagueiro francês desviou a bola pela linha de fundo.
Escanteio para a Coreia do Sul, exatamente no canto onde as três amigas estavam sentadas.
O estádio explodiu em um clamor de tambores e gritos.
Son caminhou calmamente em direção à bandeira de escanteio, com a bola debaixo do braço. A distância entre ele e Jillian agora era de pouco menos de dez metros.
A torcida francesa atrás do gol começou a vaiar e a fazer barulho para tentar desconcentrá-lo, mas o capitão coreano era imune à pressão. Ele curvou-se, ajeitou a bola milimetricamente na grama e deu alguns passos para trás, respirando fundo.
Foi quando ele ergueu a cabeça para analisar a área antes do cruzamento.
Os olhos dele varreram a primeira linha de torcedores e, inevitavelmente, encontraram o feltro claro do chapéu do Texas. Jillian segurava o copo de refrigerante com as duas mãos, completamente imóvel.
Dessa vez, Son não disfarçou, e com um brilho divertido nos olhos, ele levou a mão direita à testa e fez um gesto rápido de saudação militar, com dois dedos encostados na têmpera, direcionado especificamente para ela em um cumprimento de caubói, do jeito dele.
— Ai meu Deus, eu vou desmaiar — Cami murmurou ao lado, agarrando o braço de Maya.
Jillian, no entanto, foi tomada por aquela onda de espontaneidade que a trouxe até Atlanta. Deixando a timidez de lado, ela soltou uma das mãos do copo, levou os dedos até a aba do seu Stetson e a empurrou levemente para cima, inclinando a cabeça em uma resposta perfeita, sustentando o olhar dele com um sorriso aberto e ousado.
O canto dos lábios de Son subiu, ele deu um aceno sutil com a cabeça, correu para a bola e bateu o escanteio com precisão.
A bola viajou em uma curva perfeita, passando por cima da defesa francesa. O centroavante coreano subiu mais alto que todo mundo e testou firme, estufando a rede no canto esquerdo do goleiro.
Gol da Coreia do Sul.
O Mercedes-Benz Stadium quase veio abaixo.
Milhares de torcedores coreanos pularam das cadeiras, cerveja voou para o ar e o barulho se tornou ensurdecedor. Cami e Maya pulavam abraçadas, super animadas, gritando como se fossem torcedoras de berço daquela Seleção.
No meio da comemoração, enquanto os jogadores corriam para abraçar o autor do gol perto da linha de fundo oposta, Heung-min se desvencilhou do grupo por um segundo. Ele se virou para o setor onde Jillian estava, parou, olhou diretamente para ela e levou os dedos indicadores e polegares das duas mãos ao rosto, formando o desenho de uma moldura de câmera fotográfica.
Esse símbolo era sua marca registrada.
Ele "tirou a foto" dela no meio da multidão, exatamente como sempre fazia em suas comemorações icônicas, guardando aquele momento antes de voltar correndo para o meio de campo com um sorriso radiante no rosto.
Jillian caiu sentada na cadeira, rindo da pura loucura daquela situação, com o coração batendo no ritmo da torcida e os olhos brilhando fixos no gramado.
CAPÍTULO 2

UMA TROCA JUSTA

O jogo seguiu seu fluxo e os trinta minutos seguintes pareceram durar três horas.
A França, ferida pelo gol, partiu com tudo para o ataque, era uma blitz implacável. Bolas passavam raspando a trave coreana, o goleiro fazia milagres e a torcida no estádio assistia ao jogo de pé, com o coração na boca pela aflição dos minutos finais.
Jillian já não conseguia mais ficar sentada.
Ela estava agarrada à barra de proteção da arquibancada, os nós dos dedos brancos pela força do aperto. Ela empurrou o chapéu Stetson um pouco para trás na cabeça, revelando os fios de cabelo loiro meio bagunçados pelo suor e pelo nervosismo.
Lá embaixo, Heung-min estava visivelmente exausto.
Ele corria para ajudar a defesa, dava carrinhos, prendia a bola no ataque para ganhar alguns segundos preciosos, tentava dar oxigênio ao time, e recebia orientações gritadas pelo técnico. Toda vez que o jogo parava por um instante, ele olhava na direção da fileira dela. Não era mais um flerte descontraído, era um olhar de quem buscava um ponto de ancoragem no meio daquela confusão, e Jillian percebeu isso.
— Vai! Chuta isso para longe! — Ela gritou, batendo as mãos no corrimão, a voz já meio rouca.
Maya piscou de um jeito cômico.
— Olha ela, já virou técnica futebolística — Cami brincou, embora também estivesse roendo as unhas em aflição.
Um frio danado no estômago, uma inquietação ridícula no corpo inteiro.
Maya juntou as mãos em preces, porque só Jesus na causa.
O quarto árbitro ergueu a placa eletrônica: 5 minutos de acréscimo. Cinco minutos separavam a Coreia da final histórica da Copa do Mundo.
A França teve uma última chance concedida por um escanteio nos segundos finais. Até o goleiro francês foi para a área coreana. A bola foi lançada, uma confusão de corpos subiu, e o goleiro da Coreia conseguiu socar a bola para longe. Ela caiu direto nos pés de Son, que usou o resto de energia que tinha no corpo para dar um pique em direção à lateral, bem onde Jillian estava, protegendo a bola com o corpo enquanto o marcador francês tentava o desarme de forma desesperada.
Son prendeu a bola perto da bandeira de escanteio, usando os segundos restantes a seu favor. O zagueiro francês, frustrado, fez uma falta dura, empurrando o camisa sete direto contra as placas de publicidade bem abaixo do setor de Jillian.
O impacto foi feio.
O estádio inteiro prendeu a respiração, até o sistema de ventilação parou por uns segundos. Son rolou pelo chão, segurando a canela, o rosto retorcido de dor, sua perna doía de verdade.
Cami levou as mãos à cabeça, Maya cobriu a boca.
Jillian deu um passo à frente, debruçando-se sobre o parapeito, o coração dela errou uma batida.
— Ei! — ela gritou alto, a voz esganiçada sobre o barulho da torcida ao redor, os olhos fixos nele. — Levanta! Você consegue!
A menos de cinco metros de distância, deitado perto da linha branca, Son ouviu o sotaque texano nítido. Ele abriu os olhos, respirando de forma arfante, e olhou para cima. No meio do borrão de torcedores enfurecidos, a garota do Stetson estava com o corpo inclinado, os olhos cheios de uma preocupação genuína focada exclusivamente nele.
E essa atitude, de alguma maneira, deu um gás inacreditável para o capitão. Son sorriu tenso, apoiou as mãos na grama e se levantou devagar, limpando os pedaços de grama do uniforme. Ele olhou para ela, piscou um dos olhos e ajeitou a braçadeira de capitão no braço esquerdo.
Nesse exato segundo, o árbitro central levou o apito à boca e deu três silvos longos.
Fim de jogo. Coreia do Sul 1 x França 0.
A Coreia estava na final da Copa do Mundo.
O estádio explodiu em uma catarse de camisas vermelhas, os jogadores coreanos caíram no gramado chorando, agradecendo, os reservas invadiram o campo, e a festa era inacreditável. No meio daquela loucura, enquanto todos se abraçavam, Son Heung-min começou a andar de volta em direção à lateral onde o jogo tinha terminado. Ele sabia que o protocolo da FIFA exigia que ele fosse saudar a torcida do outro lado, mas ele tinha um negócio pendente ali primeiro.
Son caminhou a passos largos, sua bússola interna muito bem calibrada, ignorando educadamente duas câmeras da transmissão oficial que tentavam cercá-lo. O suor corria pelas têmporas, o cabelo úmido e bagunçado, mas o sorriso em seu rosto era enorme.
Ele parou exatamente abaixo do setor de Jillian.
O parapeito da arquibancada ficava a pouco mais de um metro e meio de altura em relação ao nível do campo. Dois seguranças do estádio se moveram rapidamente para criar uma barreira, temendo que a multidão esmagasse a grade, mas Son ergueu a mão, pedindo calma com um gesto respeitoso.
Incrivelmente, todo mundo o obedeceu.
Ele deu um impulso à frente, pisando na base de concreto do setor técnico, o que o deixou quase cara a cara com Jillian. Ela se inclinou para frente, agarrando o corrimão de metal, sentindo a adrenalina disparar de um jeito que nunca tinha sentido na vida.
Son olhou para ela, recuperando o fôlego, e quebrou a distância com uma naturalidade desarmante. Jill imediatamente notou a “pintinha” adorável em sua pálpebra inferior esquerda e para sua surpresa, o inglês dele era fluente, carregado por um leve e charmoso sotaque britânico, fruto dos seus muitos anos jogando por um grande clube londrino.
— Ei — ele chamou, a voz rouca pelo esforço físico, mas nítida o suficiente para ela ouvir por cima do barulho. — Obrigado pelo apoio. E pela dancinha do lanche feliz. Ajudou a aliviar a tensão.
Jillian soltou uma risada genuína, o sotaque arrastado do Texas saindo meio trêmulo pelo choque de tê-lo tão perto.
— Você joga muito e corre absurdamente rápido! — ela respondeu, os olhos brilhando. — Eu não entendia nada de futebol até duas horas atrás, mas agora sou sua fã. Parabéns pela final, vocês merecem!
Son abriu um sorriso deslumbrante, que fechava seus olhos em duas fendas expressivas. Sem dizer mais nada, ele levou as mãos à barra da camisa vermelha número 7, puxou-a pela cabeça e a retirou. O uniforme estava sujo de grama, úmido de suor e carregava o peso de uma semifinal histórica. Ele embolou o tecido com cuidado e o esticou para cima, entregando diretamente nas mãos dela.
— Um presente, para a torcedora mais autêntica de Atlanta — ele disse.
Jillian segurou o tecido levemente pesado contra o peito, completamente sem ação. Atrás dela, Maya e Cami pareciam estar prestes a ter um colapso nervoso, gritando e se abanando, incapazes de acreditar no que estava acontecendo.
Mas o capitão coreano ainda não tinha terminado, pois não se virou para ir embora. Em vez disso, ele olhou para o topo da cabeça de Jillian, onde o Stetson de feltro claro repousava, e apontou com o indicador.
— Uma troca justa? — ele perguntou, com um brilho desafiador e divertido nos olhos. — Eu preciso de um amuleto de sorte para a grande final no domingo. Me empresta o chapéu?
Jillian piscou, o coração dando um tranco violento no peito. Aquele chapéu era o seu companheiro de todas as horas na fazenda em Houston, o seu pedaço de casa, um presente de um ente querido. Mas olhar para o maior jogador da Ásia, no meio de um estádio de Copa do Mundo lotado, pedindo o seu Stetson, era uma proposta impossível de recusar.
Com um sorriso largo e os olhos cheios de audácia, ela levou as mãos à cabeça, tirou o chapéu e deixou o cabelo loiro voar livre e leve com o vento do sistema de ventilação do estádio. Ela se inclinou o máximo que pôde sobre o parapeito e esticou o Stetson para baixo.
— Cuida bem dele — ela pediu, enquanto ele segurava a aba firme de feltro. — Ele dá sorte de verdade.
— Eu vou cuidar. Prometo entregar de volta depois de erguer a taça — ele garantiu, com uma piscadela cúmplice.
Son deu um passo para trás e, diante dos olhos estupefatos de setenta mil pessoas e das lentes do mundo inteiro, ele colocou o legítimo chapéu de caubói do Texas na cabeça. O acessório ficou um pouco grande, mas ele não se importou. Encaixou-o com estilo, ajustou a aba exatamente como tinha visto Jillian fazer e deu mais alguns passos para trás.
Antes de se virar para se juntar à volta olímpica com o restante do time, ele parou, olhou para Jillian uma última vez e juntou os dedos indicadores e polegares na altura dos olhos, simulando novamente a moldura de uma câmera fotográfica.
Ele tirou a foto dela de novo. Só que, dessa vez, o caubói era ele.
Jillian sentou na cadeira, impactada, apertando a camisa dele contra o corpo, sentindo o cheiro de grama e vitória, enquanto assistia ao capitão da Coreia do Sul correr pelo gramado, celebrando a vaga na final da Copa do Mundo usando o seu chapéu. A viagem para Atlanta já tinha valido cada centavo, e a Copa ainda não tinha acabado.
CAPÍTULO 3

STETSON GIRL

Se Jillian achava que o maior choque de sua viagem tinha sido ver vinte e dois homens correndo atrás de uma bola, ela que se preparasse para o poder de um algoritmo mundial.
Na quinta-feira de manhã, seu celular quase derreteu. Ela acordou com setenta e duas chamadas perdidas de seu irmão mais velho, quatrocentas notificações do Instagram e um link enviado por Maya no WhatsApp com a legenda: “VOCÊ É UM MEME GLOBAL, ACORDA!”.
No TikTok, o seu vídeo mastigando o nacho com queijo, fazendo a dancinha desengonçada e, em seguida, o corte para o Son Heung-min abrindo o maior sorriso da vida dele já passava de trinta milhões de visualizações. A trilha sonora era uma música romântica do James Arthur em modo acelerado. A internet tinha decidido, em menos de vinte e quatro horas, que eles eram o casal oficial da Copa do Mundo.
— Meu Deus… Eu não posso sair na rua — Jillian lamentou, afundando o rosto no travesseiro do hotel. — Eu sou a Garota do Nacho. A Garota do Chapéu. Eu virei uma piada internacional.
— Piada? — Cami entrou no quarto, carregando três cafés e um saco de rosquinhas. — Jill, o apelido que te deram é Stetson Girl. E adivinha quem postou uma foto oficial no perfil do Instagram?
Jillian sentou-se na cama em um pulo, Maya praticamente jogou o celular em seu rosto.

O coração de Jillian deu uma pirueta dentro do peito, o estômago ficou agitado e suas mãos gelaram no mesmo instante.
— Ele me marcou? — ela perguntou, a voz sumindo.
— Não, porque ele não sabe o seu arroba — Maya respondeu, pegando o celular de volta. — Mas as coreanas já acharam o seu perfil, o da Cami, o meu, o do seu irmão e provavelmente o histórico escolar da sua primeira série. O seu direct deve estar um caos.
Antes que Jillian pudesse processar a informação, o celular emitiu o som de uma notificação de mensagem direta. O remetente tinha um selo de verificação azul bem ao lado do nome: son_hm7.
Jillian piscou três vezes.
— Meninas... — ela chamou num fio de voz. — Acho que o caubói coreano acabou de me mandar uma mensagem.
Maya e Cami se jogaram na cama, quase derrubando o café, os olhos arregalados, ambas falando eufóricas ao mesmo tempo enquanto Jillian abria a mensagem.
son_hm7: Espero que o chapéu não sinta saudades do Texas ainda. Ele está fazendo sucesso por aqui. Você vem no domingo? Tenho três ingressos na área VIP com o seu nome na bilheteria. Só preciso que você prometa não comer nachos no telão de novo (brincadeira, pode comer à vontade).
Jillian olhou para as amigas. Cami estava sem ar e Maya já estava procurando que roupa elas usariam no domingo.
— O que eu respondo? — Jillian perguntou, sentindo um frio na barriga que definitivamente não era fome.
— Você diz que vai, mulher! — Cami sacudiu os ombros dela. — Mas avisa que, como você está sem chapéu, vai ter que ir usando a camisa dele.
Jillian sorriu com a audácia que somente a proteção por detrás de uma tela podia emitir. Ela digitou rapidamente:
jill.mwest: O chapéu está em boas mãos. E sobre domingo, acho bom você jogar muito, Capitão. Porque eu vou usar a sua camisa e se vocês perderem, a culpa vai ser do meu Stetson.
A resposta dele veio em menos de um minuto:
son_hm7: Desafio aceito, Stetson Girl. Te vejo no domingo. 📷🤠
O silêncio que se seguiu após o último bipe do celular foi quase assustador. Jillian ficou encarando a tela, pasma, com o polegar congelado no ar.
Foi Maya quem rompeu a paralisia, soltando um guincho agudo que parecia o de uma chaleira fervendo, antes de se jogar para trás na cama, chutando as cobertas para o alto.
— Ele respondeu! Ele usou o emoji de caubói! — Maya gritava no travesseiro, abafando o som. — Jillian, o capitão da Coreia do Sul, o homem que para o continente asiático se espirrar, acabou de te desafiar no direct!
— Gente, pelo amor de Deus, respira — Jillian pediu, sentindo a própria espinha gelar. Ela colocou o celular na mesa de cabeceira como se o aparelho estivesse radioativo. — É só um jogador de futebol. Ele só foi educado por causa do chapéu.
Cami interrompeu a arrumação dos cafés com uma risada que beirava a insanidade. Ela caminhou até Jillian, pegou-a pelos ombros e a sacudiu com força.
— Só um jogador de futebol? Jillian West, você vive sob uma rocha no Texas ou o quê?! Esse homem não é só um jogador, ele é um herói nacional! Se ele pedir, as pessoas mudam o nome de Seul para Son-city! Ele tem outdoors gigantescos em Londres, Jill! Ele posa de cueca para a Calvin Klein!
Jillian piscou. Seu rosto mudando de vermelho para uma tonalidade completamente pálida.
— Ele... ele faz o quê?
— Ah, ela não sabe. Ela realmente não tem noção! — Maya se levantou da cama como um furacão, pegando o próprio celular e digitando freneticamente. — Olha aqui. Olha para essa tela, sua caipira alienada.
Maya estendeu o aparelho. Na tela, o perfil de Son Heung-min exibia dezenas de milhões de seguidores. Havia fotos dele em tapetes vermelhos com ternos de grife impecáveis, campanhas de relógios de luxo e vídeos de gols que pareciam desafiar as leis da física, tudo cercado por comentários em uns dez idiomas diferentes.
— Ele tem mais seguidores do que a população inteira do Texas, Jillian! — Maya apontou o dedo para o número, quase furando a tela. — E o direct dele deve ser um buraco negro de modelos, atrizes e misses do mundo todo tentando uma chance. E quem ele procurou? Isso mesmo, a garota que estava se engasgando com um nacho de seis dólares no telão!
Jillian cobriu o rosto com as duas mãos, a ficha finalmente caindo.
Seus pretendentes habituais eram rapazes da faculdade de agronomia ou fazendeiros locais cujas maiores conquistas eram ganhar um prêmio no rodeio do condado ou comprar uma picape nova. Ela não sabia como lidar com um superastro global.
— Eu mandei ele "jogar muito" — ela choramingou por entre os dedos. — Eu ameacei culpar o meu chapéu se eles perderem. Eu sou uma idiota. Eu vou apagar a mensagem. Como se apaga a mensagem?!
— Nem se atreva a tocar nesse botão! — Cami deu um tapa leve na mão dela. — Você foi perfeita! A internet está surtando exatamente porque você não agiu como uma fã desesperada. Você foi você mesma. Uma caipira abusada de Houston. E ele amou!
Nesse momento, o celular de Jillian começou a tocar de novo. Na tela, a foto de seu irmão mais velho, Benjamin, usando um chapéu de palha e segurando uma corda de laço, brilhava.
Jillian atendeu no viva-voz, desesperada por uma voz de bom senso.
— Ben, graças a Deus...
Jillian Mae West! — a voz do irmão ecoou grave e arrastada pelo quarto do hotel, competindo com o barulho de um motor de trator ao fundo. — Que diabos está acontecendo aí na Geórgia? Eu acabei de entrar no grupo dos criadores de gado e o velho Chad mandou um link dizendo que você deu o chapéu que o vovô te deu para um rapaz coreano no meio de um estádio!
— Ben, foi uma troca! Ele me deu a camisa dele! — Jillian tentou se defender, enquanto Maya e Cami se contorciam de rir no chão.
A camisa dele? Jill, o Dallas, que joga futebol na liga da escola, quase teve um treco quando viu o vídeo. Ele disse que aquela camisa vale mais que a nossa caminhonete nova! O pai quer saber se o rapaz vem passar o Dia de Ação de Graças aqui para ajudar na colheita ou se ele só vai ficar usando o seu Stetson por aí.
— Ben, desliga! — Jillian gritou, o rosto ardendo de vergonha, e encerrou a chamada, jogando-se de cama.
Maya se ajoelhou ao lado dela, seus olhos brilhando de pura diversão maliciosa.
— Amiga, aceita. O seu irmão já está planejando o casamento na fazenda. E quer saber do melhor? Domingo nós vamos para o camarote VIP. Você vai usar aquela camisa 7 como se fosse um vestido de alta costura, e nós duas vamos dar tchauzinho para as câmeras. Se o Son Heung-min quer uma cowgirl, ele vai ter a melhor do Texas.
Jillian olhou para o teto, o coração ainda batendo a mil por hora, mas um sorriso inevitável começou a desenhar no seu rosto. A loucura estava feita.
⚽🏆

O domingo da grande final da Copa do Mundo amanheceu em Atlanta, e para Jillian, a ficha de que ela estava prestes a presenciar a história passar diante de seus olhos e que, de alguma forma boba, ela fazia parte dos bastidores daquilo, ainda se recusava a cair totalmente.
O quarto de hotel parecia o camarim de uma turnê. Maya estava sentada no chão, cercada por três paletas de sombra diferentes, tentando acertar o delineado perfeito, enquanto Cami andava de um lado para o outro com um babyliss na mão, cantarolando uma música do Scotty McCreery que tocava na playlist do seu celular conectada ao som do quarto.
No centro de tudo, Jillian encarava o espelho de corpo inteiro.
Ela estava usando um par de shorts jeans de cintura alta, suas botas de couro de cano longo, com costuras intrincadas que ela mesma tinha limpado na noite anterior e, por cima de tudo, a camisa vermelha número 7 da Coreia do Sul. O tecido tecnológico da FIFA tinha um caimento diferente; era a camisa oficial que Heung-min havia usado no jogo de quarta-feira. Como ele era um atleta esguio e alto, a camisa ficava levemente folgada nela, o comprimento cobrindo parte dos shorts, exalando um estilo despojado que Cami jurava ser a coisa mais estilosa que já tinha visto.
— Jill, sério... você está um absurdo de linda — Cami parou com o babyliss no ar para admirá-la. — Essa camisa com essas botas... é o puro suco do charme country-chic encontrando o futebol global. Se as câmeras te pegarem hoje, a internet quebra de vez.
Jillian suspirou.
— Eu só me sinto estranha sem o meu chapéu — ela confessou, levando a mão à cabeça por puro reflexo, tocando apenas nos fios loiros que Maya tinha texturizado com spray. — Parece que esqueci de colocar as calças. É como se eu estivesse desprotegida.
— Considere que o seu chapéu está protegendo a cabeça mais valiosa da Coreia do Sul hoje — Maya brincou, levantando-se. — E falando no seu chapéu... você viu o vídeo do desembarque do time no estádio que saiu há dez minutos?
Jillian nem precisou responder. Maya já estava esticando o celular.
O vídeo mostrava a chegada oficial do ônibus da seleção coreana ao Mercedes-Benz Stadium. Os jogadores desciam de terno escuro, impecáveis, cercados por dezenas de fotógrafos. Mas quando o capitão apareceu na porta do veículo, a horda de repórteres disparou os flashes duas vezes mais rápido. Heung-min estava de terno, com a mala de viagem na mão direita, e na cabeça o Stetson dela. Ele não o tinha deixado no hotel. Ele fez questão de entrar no estádio da final da Copa do Mundo usando o chapéu de uma fazendeira do Texas. Na imagem, ele dava um meio sorriso para a câmera e ajeitava a aba com aquela arrogância charmosa que só os grandes craques têm.
— Ele não tem juízo nenhum — ela sussurrou, sentindo uma risada boba escapar junto com um frio na barriga que já estava virando seu companheiro constante.
— Ele sabe exatamente o que está fazendo, Jill — Cami comentou, piscando para ela. — Agora vamos, porque o nosso Uber VIP está chegando e eu não pretendo perder um segundo do all incluse daquele camarote.
Se o clima nos arredores do estádio na quarta-feira já parecia insano, o domingo da final era uma dimensão completamente diferente. Havia barreiras policiais a quilômetros de distância. O mar de torcedores era composto por uma mistura massiva de argentinos, os adversários da Coreia, vestindo branco e azul carregando latinhas de cerveja, e o bloco vermelho e vibrante dos sul-coreanos, que pareciam ter se multiplicado por dez.
Quando o carro parou na entrada exclusiva para convidados da FIFA, Jillian sentiu o poder do privilégio. O segurança na barreira, um homem enorme com um terno preto e um ponto eletrônico no ouvido, pegou os documentos delas. Assim que ele leu o nome de Jillian na lista, ele abaixou a prancheta e abriu um sorriso de lado.
— Ah, a senhorita West. O capitão deixou ordens expressas. Por aqui, por favor. As credenciais de vocês são de acesso livre ao lounge dos atletas pós-jogo.
Maya soltou um som de engasgo, e Cami teve que se apoiar no ombro de Jillian para não perder o equilíbrio.
— Credenciais de acesso livre ao lounge dos atletas? — Maya sibilou enquanto caminhavam pelos corredores acarpetados e silenciosos do setor VIP, longe do barulho da multidão. — Jill, se você não casar com esse homem, eu mesma me mudo para Seul e me ofereço para o cargo de esposa.
Cami concordou freneticamente.
— Parem com isso, vocês duas — ela pediu, embora suas próprias mãos estivessem úmidas de nervoso. — É só uma cortesia. Ele é um cara legal.
O camarote VIP da FIFA era algo saído de um filme sobre bilionários. Paredes de vidro do chão ao teto davam uma visão panorâmica e perfeita de todo o estádio. Garçons serviam champanhe em taças de cristal e havia estações de comida que iam de sushi fresco a pequenas porções de costela de boi defumada, acompanhadas de molho barbecue — uma clara homenagem ao paladar texano.
Jillian caminhou até a sacada de vidro, apoiando as mãos no parapeito. O gramado parecia um tapete perfeito sob as luzes da arena. Faltava pouco mais de uma hora para o jogo, e os times estavam prestes a entrar para o aquecimento. Quando os alto-falantes anunciaram os jogadores, a torcida coreana, que ocupava mais da metade do estádio, soltou um rugido que fez o vidro do camarote vibrar.
Ela deu um passo à frente, os olhos fixos no túnel de acesso. Os jogadores coreanos entraram correndo em fila, usando os coletes de treino. Son estava na liderança, como sempre. Ele correu para o centro do gramado, aplaudindo em direção às arquibancadas para saudar o público. Jill achou que, no meio de setenta mil pessoas e estando tão alto no camarote, seria impossível qualquer contato. Mas ela havia subestimado a visão de um atacante de elite.
Após dar duas voltas leves para destravar as pernas, Son parou no meio do campo, colocou as mãos nos quadris e ergueu os olhos diretamente para o setor dos camarotes VIP da FIFA. Ele sabia exatamente qual era o quadrante destinado às famílias e convidados especiais. Jillian estava bem na beira do vidro, com a camisa 7 vermelha se destacando contra o fundo meio escuro do camarote.
Lá embaixo, o jogador pareceu congelar por um segundo. Mesmo à distância, Jillian viu o momento exato em que ele a identificou. Ele não usava o Stetson no campo, claro, mas levou a mão direita à cabeça, imitando o gesto de tirar um chapéu invisível e fazer uma reverência profunda e dramática na direção dela.
— Meu Deus, as câmeras do estádio pegaram isso? — Maya perguntou, olhando desesperada para o telão central.
Não tinham pegado — a transmissão oficial estava focada no goleiro argentino —, mas para Jillian, aquilo não importava. Aquele pequeno teatro particular no meio do maior palco do esporte mundial era mais do que suficiente. Ela ergueu a mão, acenando de volta com um sorriso enorme, sentindo a adrenalina do jogo começar a invadi-la antes mesmo do apito inicial.
Son deu uma última piscada em direção ao camarote, virou-se de costas e chutou uma bola com força na direção do gol, pronto para a partida mais importante da sua vida.
Se a semifinal contra a França tinha sido tensa, a final contra a Argentina era uma guerra com literalmente muita pancadaria, porque os “hermanos” não eram só precisos em chutar para golear, mas também em chutar canelas, pisar em panturrilhas, e cavar faltas, além de tocar na bola e trocar passes com uma velocidade assustadora. A Coreia do Sul, por outro lado, jogava com o coração na ponta das chuteiras e de forma limpa, defendendo com tudo o que tinha e apostando na velocidade explosiva de Son nos contra-ataques. Eles também não estavam para brincadeira.
Aos trinta minutos do primeiro tempo, a Argentina abriu o placar. Um chute rasteiro, indefensável no canto esquerdo. O camarote VIP mergulhou em um silêncio tenso, exceto por alguns executivos latinos que comemoraram discretamente.
Jillian sentiu um aperto no peito. Ela olhou para o campo e viu Son caminhando até o círculo central para reiniciar o jogo. Ele estava sério, batendo palmas e gritando com os companheiros de equipe, recusando-se a deixar o ritmo cair.
O empate veio logo no início do segundo tempo, em uma jogada confusa de escanteio onde a bola sobrou para o volante coreano chutar de bica para o gol. O estádio quase rachou ao meio com o grito da torcida. No camarote, Jill, Maya e Cami pularam juntas, derramando um pouco de refrigerante no carpete, abraçadas como se fossem amigas de infância de todo o elenco sul-coreano.
O relógio corria irredutível. 80 minutos. 85 minutos. 89 minutos.
O fantasma da prorrogação pairava sobre o estádio. Os jogadores de ambos os times mostravam sinais claros de exaustão extrema, inclusive o camisa 10 argentino. Heung-min mal conseguia andar quando a bola saía pela lateral, mas bastava ela entrar em jogo para ele recuperar sua energia sobrenatural.
Aos 92 minutos, no último lance dos acréscimos, o destino resolveu intervir.
O meia argentino errou um passe curto no campo de ataque da Coreia. O zagueiro coreano recuperou a bola e, sem olhar, deu um chutão para frente, isolando a bola em direção ao campo adversário. Era a última jogada.
Heung-min, que parecia não ter mais nenhuma gota de energia no corpo, arrancou no meio de campo como um leopardo. Ele deixou dois defensores argentinos para trás na base do puro desejo e da força de vontade. A bola quicou duas vezes na entrada da área argentina. O goleiro adversário saiu desesperado, tentando fechar o ângulo.
No camarote, Jillian estava com as duas mãos coladas no vidro, os olhos arregalados, o coração parecendo parar de bater.
— Meu Deus. Vai... por favor, vai... — ela sussurrou com a voz sumindo na garganta.
Com um toque sutil e genial de bico de chuteira, Son deu um lençol leve sobre o goleiro. A bola viajou em uma parábola lenta, quase agonizante, enquanto o estádio inteiro prendia a respiração.
Ela tocou a grama e rolou mansa para dentro das redes vazias.
Gol. Coreia do Sul 2 x Argentina 1.
O apito final veio logo em seguida, engolido pelo maior estrondo humano que Atlanta já havia testemunhado: A Coreia do Sul era campeã do mundo.
⚽🏆

Duas horas depois, a cerimônia de premiação já tinha acontecido regada a muito choro de felicidade, os confetes dourados cobriam o gramado vazio e o estádio começava a esvaziar de forma lenta. No entanto, nos corredores internos do setor dos vestiários, o movimento ainda era frenético.
Jillian, Cami e Maya caminhavam escoltadas pelo mesmo segurança de terno de mais cedo. Jill segurava a bolsa com força, sentindo uma mistura de timidez extrema e empolgação. O corredor estava cheio de jornalistas internacionais, autoridades da FIFA e familiares de jogadores.
Quando as portas do lounge VIP dos atletas se abriram, o ambiente era de pura festa. Música pop coreana tocava ao fundo, jogadores bebiam champanhe com as medalhas de ouro brilhando no peito e riam alto.
Perto de uma das mesas de centro, cercado por alguns dirigentes, estava o homem da noite. Son já havia tomado banho, usava uma calça de moletom preta da seleção e uma camiseta branca simples. A medalha de ouro reluzia contra seu peito. E, ao lado dele na mesa, repousava o Stetson dela.
Assim que ele olhou para a porta e viu o trio de garotas americanas entrando, ele abriu o maior sorriso que Jillian já tinha visto na vida. Ele pediu licença aos dirigentes com um aceno rápido e caminhou na direção delas.
Maya e Cami deram um passo sincronizado para trás, deixando Jillian na frente, fingindo uma súbita e intensa fascinação pelos quadros decorativos na parede do lounge.
— Você conseguiu — Son disse, parando a pouco menos de um metro dela. Os olhos dele brilhavam de cansaço, mas havia uma energia vitoriosa impressionante ao redor dele. — E veio usando a minha camisa. Ficou bem melhor em você do que em mim, admito.
Jillian sentiu as bochechas corarem, mas sustentou o olhar dele com um sorriso divertido.
— Eu cumpro as minhas promessas, Capitão. E pelo que eu vi lá embaixo, o meu chapéu realmente faz milagres. Aquele último gol foi um absurdo.
Son soltou uma risada baixa e olhou para trás, pegando o Stetson da mesa. Ele caminhou de volta até ela e, com uma delicadeza que contrastava com a agressividade que ele tinha mostrado em campo há duas horas, colocou o chapéu de volta na cabeça dela, ajustando a aba milimetricamente para cima, deixando os olhos azuis dela visíveis.
— Promessa é promessa — ele disse num tom mais baixo, apenas para ela ouvir por cima da música do lounge. — Entregue de volta a legítima dona. Com um bônus de campeão do mundo.
Jillian tocou a aba do feltro familiar, sentindo o calor do tecido, e depois olhou para a medalha de ouro no peito dele.
— E o que o campeão do mundo faz agora que o torneio acabou? — ela perguntou, com uma pitada de audácia que fez o sorriso dele aumentar.
Son inclinou o corpo levemente na direção dela.
— Bom... o campeão do mundo está morrendo de fome. E eu ouvi falar que tem um lugar incrível em Atlanta que serve os melhores nachos da Geórgia. Você aceitaria ir comigo até lá? Prometo que, dessa vez, eu não vou ficar fazendo gracinhas do campo. Só se você me pedir muito.
Jillian deu uma risada leve, ajeitando a camisa no corpo e olhando para o capitão que tinha o mundo aos seus pés, mas que só queria comer um lanche com a garota do Texas.
— Só se você prometer usar o chapéu até lá, Heung-min — ela rebateu, estendendo a mão para ele.
— Negócio fechado, Stetson Girl — ele respondeu, envolvendo a mão dela com a sua.
Antes de realmente saírem, Son cumprimentou suas novas amigas, agradecendo muito pela ajuda delas em levar Jill até ele.
CAPÍTULO 4

JALAPEÑOS E CONFISSÕES

O lugar incrível e discreto que servia os melhores nachos da Geórgia, nada mais era do que uma pequena lanchonete de Tex-Mex aberta vinte e quatro horas nos arredores de Atlanta. Claramente alguém tinha mentido ao passar a informação, mas ela agradecia internamente por isso. O ambiente tinha paredes de azulejos coloridos, cabines de couro sintético vermelho e um cheiro maravilhoso de carne grelhada e coentro. Estava quase vazio, exceto por um casal no fundo e o chapeiro que parecia cochilar atrás do balcão.
Era o cenário perfeito para um crime, ou para o encontro mais improvável do ano.
Jillian insistiu para ir na frente, combinando que ambos se encontariam no local, para não chamar muita atenção. Ela estava sentada em uma das cabines tomando suco, observando a porta. Tinha deixado Maya e Chloe no hotel sob forte ameaça de que, se elas tentassem segui-la, ela venderia a camisa de Son no eBay.
O sino acima da porta tilintou, e Jillian quase engoliu o próprio canudo.
Heung-min passou pela entrada. Tinha trocado o moletom da seleção por uma jaqueta preta estilosa, mas o que realmente fazia a cena parecer um delírio febril era o topo de sua cabeça. Ele realmente tinha cumprido a promessa: ele usava seu chapéu.
Ele localizou Jillian, abriu um sorriso que fez seus olhos sumirem e caminhou até a mesa, deslizando para o banco estofado à frente dela.
— Eu sinto que estou quebrando alguma lei da moda do Texas — ele segredou, tirando o chapéu por um segundo e colocando-o cuidadosamente no banco ao seu lado. — Como eu me saí?
Jillian soltou uma risada, apoiando os cotovelos na mesa.
— Honestamente? Você parece um modelo que se perdeu a caminho de um videoclipe de música country. Mas ganhou pontos pela coragem. Poucos homens sustentam um Stetson com tanta dignidade depois de correrem por quase duas horas.
— Eu disse que cuidaria dele — ele rebateu, os olhos castanhos brilhando de diversão. — E eu levo meus amuletos de sorte muito a sério.
O garçom, um senhor de meia-idade que parecia cansado demais para se importar se o cliente era um jogador de futebol ou o presidente, deixou um cardápio plastificado na mesa. Son olhou para as opções com um interesse genuíno.
— Então, Stetson Girl... o que um campeão do mundo precisa pedir aqui para ganhar a sua aprovação gastronômica?
— Nachos de fajita de gado, extra queijo, e se você for realmente corajoso, muitos jalapeños — Jillian ditou. — Mas aviso: a pimenta deles aqui não é brincadeira.
Son deu uma risada curta, o sotaque britânico dando um charme absurdo à provocação.
— Você está desafiando a tolerância à pimenta de um coreano? Jillian, nós literalmente comemos pimenta no café da manhã. Acho que eu consigo dar conta de alguns jalapeños da Geórgia.
Vinte minutos depois, uma bandeja monumental de nachos fumegantes foi colocada entre eles. Ela observou, com os olhos semicerrados e um sorriso divertido, enquanto Son pegava um nacho estrategicamente carregado com três rodelas generosas de jalapeño e o levava à boca.
Ela esperou o colapso. Esperou ele tossir, pedir água ou ficar vermelho.
Em vez disso, ele mastigou calmamente, engoliu, lambeu os dedos e deu de ombros, pegando outro.
— Delicioso. Mas o jalapeño de vocês é meio doce, não é? — ele provocou, piscando para ela.
Jillian largou o próprio nacho na bandeja, fingindo uma indignação ultrajada.
— Doce? Você acabou de insultar a culinária do Sul, Heung-min. Isso é um crime federal no Texas.
— O que você vai fazer? Me prender com o seu laço? — ele rebateu na hora, inclinando-se um pouco mais para a frente sobre a mesa. A atmosfera descontraída da lanchonete parecia apagar o fato de que, do lado de fora, o mundo inteiro estava procurando por ele.
— Não me tente. Eu sei laçar um bezerro em quatro segundos, acho que com um jogador de futebol não seria tão difícil — ela sustentou o olhar dele, deixando o clima mais leve e sem o peso da formalidade que costumava cercar a vida pública dele.
— Sabe... — Son disse, o tom de voz ficando um pouco mais suave enquanto ele olhava para ela, os dedos batucando levemente na mesa. — Tem sido uma semana insana. A pressão para essa final estava me deixando sem dormir há dias. Mas quando eu olhei para aquele telão na quarta-feira e vi você dançando com a boca cheia, sem se importar com nada, foi como se o mundo ficasse mais leve.
Jillian sentiu as bochechas esquentarem, mas dessa vez ela não desviou os olhos.
— Eu estava morrendo de vergonha. Minhas amigas quase me mataram.
— Não sinta. Foi perfeito. Você é... incrivelmente autêntica, Jillian Mae. É revigorante.
O momento romântico foi interrompido pelo bipe insistente do celular de Jillian. Ela tentou ignorar, mas a tela acendeu com uma mensagem em caixa alta de Cami:
CAMI: JILLIAN MAE WEST. VOCÊS FORAM FOTOGRAFADOS NA LANCHONETE. JÁ ESTÁ NO TWITTER. SÓ OLHA ISSO.
Abaixo, havia o link de uma foto tirada de longe, mostrando Son usando o Stetson claro, e Jillian de perfil, rindo com um nachos na mão. A legenda da página de fofocas dizia: “Son Heung-min comemora o título da Copa do Mundo em um encontro secreto com a #StetsonGirl”.
Jillian arregalou os olhos e virou a tela para ele, de repente preocupada.
— Ai meu Deus. Me desculpa, os fotógrafos te acharam. Eu não queria estragar a sua noite de comemoração com privacidade.
Son olhou para a tela do celular, leu a legenda e, em vez de parecer irritado ou preocupado com as relações públicas, ele deu uma risada alta e relaxada. Ele pegou o Stetson do banco, colocou-o de volta na cabeça, ajustou a aba e olhou diretamente para ela.
— Estragar? Jillian, eu acabei de ganhar a Copa do Mundo. Nada pode estragar a minha noite. E honestamente? A foto ficou ótima. O seu chapéu realmente me deixa mais bonito.
Jillian soltou o ar que nem sabia que estava segurando, rindo da tranquilidade dele.
— Você não existe, Heung-min.
— Acho que isso significa que o seu irmão, Ben, vai mesmo me ver no Dia de Ação de Graças — ele estendeu a mão por cima da mesa, os dedos roçando os dela com uma promessa muda. — Mas até lá, você se importa de me ensinar a dançar como você fez no telão? Acho que preciso atualizar a minha comemoração de gol para a próxima temporada.
Jillian segurou a mão dele, sentindo o coração acelerar.
O relógio na parede do Tex-Mex marcava quase duas da manhã quando o chapeiro, que até então parecia ignorar a existência do universo, esticou o braço e mudou a estação do rádio atrás do balcão. Em vez do pop genérico, as notas arrastadas de uma guitarra de aço e o ritmo marcado de um country clássico começaram a ecoar pelo recinto quase vazio.
Heung-min inclinou a cabeça, os dedos ainda lambuzados com um pouco de farelo de nacho, escutando a melodia.
— Deixa eu adivinhar... — ele disse, apontando para o teto com o queixo. — Esse é o tipo de música que faz você querer limpar um estábulo?
— Larga de ser besta — ela riu, limpando as mãos no guardanapo de papel. — Isso aí é música de verdade. Tem alma, tem história, melodia e letra. É o tipo de ritmo que a gente dança nos salões de Houston depois de um dia longo de trabalho. Bem melhor do que os gritos da torcida argentina, vai dizer que não?
— Concordo — ele admitiu, encostando-se no banco de couro e cruzando os braços. O Stetson ainda estava na cabeça dele. — Mas você ainda me deve uma demonstração particular da dancinha.
Jillian olhou ao redor. O casal do fundo estava ocupado demais discutindo quem ia pagar a conta, e o chapeiro tinha voltado a encarar a chapa de ferro com um olhar distante. A lanchonete era deles.
— Você quer mesmo ver? — ela desafiou, os olhos brilhando com a audácia típica do interior. — Tudo bem. Mas se você rir, eu pego o meu chapéu de volta e vou embora a pé para o hotel.
— Prometo solenemente — ele colocou a mão no peito, prendendo o riso.
Jillian deslizou para fora da cabine. Ela ajeitou a camisa número 7 que usava como vestido improvisado, calçou novamente as botas de couro e parou no pequeno corredor entre as mesas. Ela esperou o refrão da música engatar, o ritmo era perfeito para duas pisadas e um balanço.
Com total espontaneidade, ela fechou os olhos, ergueu os braços como se ainda estivesse segurando a bandeja de nachos invisível e deu aquele mesmo balanço de ombros descontraído, jogando o quadril levemente para o lado com um sorriso aberto. Era uma dança boba, sem nenhuma técnica, mas cheia de uma energia brilhante que pertencia apenas a ela.
Quando abriu os olhos, Son estava observando-a com os cotovelos apoiados na mesa, o rosto iluminado por um sorriso genuíno.
— É a sua vez, campeão do mundo — ela chamou, esticando a mão. — Quero ver se essa coordenação motora toda funciona fora do gramado.
Heung-min não hesitou. Ele se levantou, a silhueta atlética e alta contrastando com o ambiente rústico da lanchonete. Ele parou na frente dela, ajeitando o chapéu Stetson na cabeça com dois dedos.
— Tudo bem. Quais são as táticas? — ele perguntou, sério, como se estivesse recebendo instruções do técnico na linha lateral.
— Não tem tática, esse é o seu problema! Você pensa demais — Jillian riu, dando um passo para frente e segurando-o pelos ombros. — Só relaxa os braços. Esquece que tem setenta mil pessoas olhando. É só... balançar. Assim.
Ela repetiu o movimento. Son tentou imitá-la. O resultado foi um homem de quase um metro e oitenta e cinco, com o controle corporal mais preciso do planeta, parecendo um robô tentando processar um curto-circuito nos ombros.
Jillian soltou uma gargalhada alta, que ecoou pela lanchonete.
— Meu Deus, Heung-min! Você não consegue mexer os ombros sem parecer que está tendo uma cãibra?
— Ei! É mais difícil do que parece! — ele protestou, rindo de si mesmo, as bochechas ganhando um tom avermelhado de pura diversão. — No futebol a bola está nos meus pés, não nos meus ombros. O centro de gravidade aqui é totalmente diferente.
— Deixa eu te ajudar — ela falou, dando mais um passo à frente.
A distância entre eles encurtou drasticamente. Jillian colocou as mãos diretamente nos ombros dele, sentindo a musculatura firme sob o tecido da camiseta e o cheiro incrível do perfume dele.
— Sente o ritmo. Um, dois... e balança — ela comandou baixinho, movendo os ombros dele no compasso da música de forma suave.
Son parou de tentar acertar o passo. Seus olhos, escuros e focados, desceram dos movimentos diretamente para o rosto dela. Ele relaxou os braços, deixando-se guiar pelas mãos pequenas e calejadas da garota da fazenda. O Stetson dele fez uma leve sombra sobre os dois.
— Acho que estou começando a entender... — ele sussurrou num tom mais grave, o sotaque britânico arrastado soando incrivelmente íntimo no meio daquela madrugada.
Ele deu um passo sutil para frente, diminuindo o espaço restante, e usou a mão direita para tocar de leve a cintura dela, acompanhando o balanço de um jeito muito mais natural. A química entre os dois, que tinha começado como uma faísca em um telão monumental, agora parecia queimar de forma mansa e real, entre uma mesa de fórmica e um balcão de Tex-Mex.
Jillian prendeu a respiração por um segundo, o coração errando a batida de um jeito que nenhuma corrida atrás de um bezerrinho jamais tinha causado.
No entanto, o momento de cinema foi quebrado por uma batida rápida no vidro da janela da lanchonete.
Eles olharam para o lado ao mesmo tempo. Do lado de fora, na calçada iluminada pelos postes de luz, o segurança particular de Son estava parado com um guarda-chuva na mão, embora não estivesse chovendo, apontando discretamente para o relógio de pulso e depois para um carro preto com os vidros fumês que tinha acabado de estacionar com o motor ligado.
As postagens no Twitter estavam cobrando o seu preço. Dois carros de paparazzi locais já tinham dobrado a esquina e estacionado do outro lado da rua.
Son soltou um suspiro leve, mas não pareceu nem um pouco contrariado. Ele olhou de volta para Jillian, desfazendo o contato devagar, mas mantendo o sorriso de canto.
— Parece que a nossa coletiva de imprensa improvisada vai começar se não sairmos daqui em dois minutos — ele disse, pegando a jaqueta.
— É... o dever te chama, Capitão — Jillian respondeu, de repente sentindo um leve peso de realidade voltar nos ombros. O conto de fadas da madrugada estava chegando ao fim. — É melhor você ir antes que o estádio inteiro apareça aqui para pedir autógrafo na chapa de hambúrguer.
Son retirou o Stetson da cabeça, olhou para o feltro claro, depois para Jillian, e com um gesto rápido, colocou o chapéu de volta na cabeça dela, ajeitando-o com o mesmo carinho de antes.
— Eu vou, mas você vem comigo — ele disse, usando o tom firme e decidido de quem está acostumado a comandar um time. — Eu não vou deixar a minha torcedora número um pegar um táxi sozinha com fotógrafos na porta. Além disso... você ainda não me ensinou o resto da dança.
Na verdade, ele não a deixaria sozinha naquele lugar, ainda mais naquele horário, de jeito nenhum.
Jillian olhou para o chapéu em sua cabeça, depois para a camisa que vestia, e finalmente para o homem que tinha acabado de parar o mundo do esporte e agora estava estendendo a mão para ela de novo.
— Tudo bem, Heung-min — ela sorriu, segurando a mão dele firme. — Mas só se a gente puder parar em um drive-thru no caminho para pegar mais nachos. — Brincou.
— Quantos você quiser, Stetson Girl. Quantos você quiser.
Eles caminharam juntos em direção à porta, prontos para enfrentar os flashes do mundo lá fora, mas com a certeza absoluta de que, no Texas ou em Seul, aquela história estava apenas começando.
CAPIÍTULO 5

AÇÃO DE GRAÇAS

A cozinha da fazenda West parecia uma praça de guerra naquela manhã de quinta-feira. O cheiro de canela, noz-moscada e assado de peru tomava conta de cada cômodo, mas o verdadeiro caos vinha da mistura de vozes que ecoava entre a geladeira e o fogão a lenha.
— Maya, se você roubar mais uma fatia de maçã, eu te coloco para descascar três quilos de batata — a mãe de Jillian avisou, sem sequer se virar do balcão onde sovava a massa da torta.
Ela era uma mulher de postura firme, olhos carinhosos e tinha uma autoridade natural para fazer até o marido e o filho andarem certinhos na linha.
— A culpa é da senhora — Maya acusou, dando um passo para trás com a fatia de maçã na mão, rindo. — A sua comida devia ser considerada ilegal de tão boa.
Ao lado dela, Cami tentava rechear a torta de abóbora sem sujar a camiseta nova, enquanto Jillian, encostada na pia com uma xícara de chá nas mãos, observava as duas com os olhos semicerrados.
— Eu ainda não entendi por que vocês duas resolveram passar o Ação de Graças aqui em casa em vez de irem para as suas famílias — comentou, desconfiada, olhando de Cami para Maya. — Não que eu não ame ter vocês aqui, mas a Maya odeia acorda antes das nove e hoje vocês estavam de pé às seis da manhã.
Cami e Maya se olharam por meio segundo. Um brilho cúmplice e perigoso passou pelos olhos das duas antes de Cami disfarçar, pegando o rolo de massa.
— Ah, qual é, Jill? Nossas famílias vão fazer jantares chatos com todos os parentes. O Ação de Graças na sua fazenda é mais tranquilo. E além disso... a gente precisava garantir que você não passasse o dia inteiro chorando as pitangas pelo seu jogador coreano.
Jillian sentiu as bochechas esquentarem e deu um gole longo no chá.
— Eu não estou chorando as pitangas. — Ela revirou os olhos. — A gente se falou por áudio hoje de manhã. Ele está em Londres, cheio de reuniões com o clube. O fuso horário é totalmente diferente.
Sua mãe parou de sovar a massa por um segundo, olhou para a filha por cima dos óculos de leitura e deu um sorriso de canto, trocando um olhar rápido com Maya.
— O rapaz trabalha duro, Mae — disse sua mãe, voltando a moldar a torta. — Um jogador famoso como ele não tem folga de uma hora para outra. Mas quem sabe Papai do Céu não te prepara uma surpresa, hum?
— Mãe, é Ação de Graças, não Natal — Jill riu, balançando a cabeça.
Nesse momento, seu irmão Benjamin entrou na cozinha fazendo barulho exagerado com as botas de trabalho. Ele passou direto pela mesa, pegou uma torrada e deu um tapinha no ombro da mãe.
— Mãe, a senhora pode ir lá na varanda da frente um minuto? O pai disse que precisa de ajuda para ajustar a bancada de madeira do quintal.
— Seu pai não consegue nem montar uma cadeira sem a minha supervisão — a mulher suspirou, limpando as mãos de farinha no avental. — Meninas, cuidem do forno. Jillian, vai lá fora ver se a encomenda que seu irmão pediu chegou na caixa de correio.
— De novo, Ben? — Jillian protestou. — Você me pediu isso há meia hora!
Benjamin fez cara de coitado.
— É que o caminhão das entregas do correio rural acabou de dobrar a esquina, Jill — ele piscou, um sorriso absolutamente descarado surgindo no rosto. — Vai logo, deixa de ser preguiçosa.
Jillian soltou um resmungo, ajustou o casaco de flanela sobre os ombros, colocou seu inseparável chapéu Stetson na cabeça e saiu pela porta dos fundos.
O ar de novembro no Texas era frio. Ela caminhou pela estrada de terra batida, chutando algumas pedrinhas pelo caminho. Ela conseguia ouvir o som dos tratores no galpão distante e o mugido suave do gado no pasto do lado leste.
Quando ela se aproximava da porteira principal da propriedade, não viu o caminhão dos correios, mas sim uma picape Ford F-150 preta, impecável, avançando devagar pela estrada de terra, levantando uma névoa fina de poeira contra o sol da manhã.
A picape parou bem em frente à porteira.
Jillian parou, franzindo a testa, esperando quem quer que fosse sair, em alerta total. A porta do motorista se abriu devagar. Primeiro, uma bota de couro escuro pisou na terra. Depois, um jeans ajustado, uma jaqueta de camurça marrom sobre uma camiseta branca... e um chapéu de caubói preto de feltro cobrindo o topo da cabeça.
O homem tirou os óculos escuros estilo aviador, segurou a aba do chapéu com dois dedos e abriu o sorriso que fechava seus olhos em duas fendas perfeitas.
— O trânsito de Houston para cá é uma loucura, né? — Heung-min a encarava com carinho, um pouco de suor brilhava em sua testa. — Mas eu ouvi dizer que a dona da casa faz a melhor torta de nozes do estado.
Jillian paralisou por um momento. A xícara de chá, agora vazia, que ela ainda segurava na mão quase escorregou dos seus dedos.
— Você... — sua voz sumiu por um segundo, ela piscava sem acreditar. — O quê?! Heung-min?!
Ele encostou a porta da picape e caminhou a passos tranquilos na direção dela.
— O próprio — ele falou com os olhos castanhos brilhando de pura diversão.
— Mas você... o áudio de hoje de manhã! As reuniões em Londres! — Jillian deu dois passos para frente, apontando o dedo para ele, dividida entre o choque absoluto e uma vontade enorme de chorar de alegria. — Você mentiu para mim!
— Eu não menti — ele riu, parando a meio metro dela. — Eu só omiti que as reuniões foram na semana passada e que eu estava no aeroporto de Houston gravando aquele áudio.
Antes que Jillian pudesse processar a informação, a porta da varanda da casa principal se abriu com estrondo.
Cami e Maya saíram correndo pelos degraus de madeira, gritando feito loucas, seguidas por Benjamin e senhora West, que vinha limpando as mãos no avental com um sorriso radiante.
— ELE VEIO! O SON VEIO! — Cami gritava, pulando na grama.
— EU FALEI QUE O PLANO IA DAR CERTO! — Maya berrava ao lado dela, abraçando Benjamin, que não reagiu, só aceitou seu destino.
Jillian olhou para trás, de queixo caído, e depois olhou de volta para Heung-min.
— Vocês... todo mundo sabia?
— Todo mundo — Heung-min admitiu, dando mais um passo, envolvendo sua cintura com os braços, puxando-a para um abraço apertado. Ele tirou o chapéu de caubói para não atrapalhar e enterrou o rosto no pescoço dela. — O Ben planejou, a Maya e a Cami garantiram que você não desconfiasse de nada e seus pais deram a bênção pelo telefone na semana passada.
Jillian escondeu o rosto no peito dele, sentindo o cheiro de perfume caro misturado ao ar frio da fazenda, rindo alto enquanto ouvia a bagunça das amigas se aproximando.

A mesa de Ação de Graças foi montada na varanda coberta da casa. A comida era abundante: o peru assado no ponto perfeito, purê de batatas com alho, milho grelhado, pães caseiros, gratinados, tortas e os nachos de jalapeño que Cami e Maya fizeram questão de preparar só para provocar o jogador.
O pai de Jillian, o velho senhor West, sentou-se na ponta da mesa, observando Heung-min com seu olhar clínico de pai protetor.
— Então... — o homem começou, servindo uma fatia generosa de peru para o jogador. — Me disseram que você corre noventa minutos sem parar atrás de uma bola.
— Sim, senhor — Heung-min respondeu com extrema educação, arrumando a postura na cadeira.
— Pois aqui no Texas a gente gosta de ver se o sujeito aguenta o tranco é na mesa — ele disse, sério, antes de abrir um sorriso largo. — Come, rapaz. Você tá muito magro para quem usa um chapéu do tamanho do que a minha filha te deu.
A mesa inteira caiu na risada.
A mãe de Jill sentou-se ao lado de Heung-min, enchendo o copo dele com chá gelado doce e observando o jeito respeitoso como ele lidava com a família.
— A Mae me contou que você mora em Londres, Heung-min — a mãe perguntou, com a voz carinhosa. — Não sente falta da comida da sua mãe por estar tão longe de casa?
— Sinto e muito, senhora West — Heung-min respondeu, olhando sinceramente para ela. — Mas estar aqui hoje... o cheiro dessa comida me lembrou muito a minha casa em Seul. A senhora é uma anfitriã incrível.
A mãe de Jill colocou a mão sobre a dele na mesa, com um olhar maternal, aprovando completamente o genro.
— Você é um bom rapaz. Pode vir quando quiser. E a Mae vai te ensinar a andar a cavalo mais tarde, porque eu sei que ela está doida para te dar um show.
— MÃE! — Jillian protestou, o rosto queimando de vergonha, enquanto Maya e Cami já riam do outro lado da mesa.
— O quê? Eu menti? — Ela deu de ombros, piscando para o marido. — Você passou a semana inteira checando a previsão do tempo para ver se o dia ia estar bonito!
— A senhora está coberta de razão — Heung-min provocou, olhando para Jillian com o olhar cúmplice. — Eu mal posso esperar pelas aulas de montaria, Stetson Girl.

Ao fim da tarde, enquanto o sol começava a se pôr no horizonte pintando o céu do Texas de laranja e violeta, a bagunça se acalmou.
Benjamin e seu pai estavam perto do celeiro mexendo no motor de uma picape antiga, enquanto senhora West, Maya e Cami conversavam animadamente na cozinha, dividindo as sobras e organizando os doces.
Jillian e Heung-min se afastaram até o pequeno deque de madeira que ficava atrás da casa, de frente para o pasto principal. Ele estava sentado no parapeito, segurando uma fatia de torta de abóbora. Ela estava encostada ao lado dele, com uma nova caneca de chá quente nas mãos.
Uma caixinha de som que Heung-min tinha trazido na picape estava ligada em um volume baixo sobre uma mesa próxima. Tocava uma playlist de country suave que Cami tinha montado.
— Elas são malucas, não são? — Jillian falou de repente, olhando para a janela da cozinha onde dava para ver Maya e Cami dançando com os panos de prato na mão.
— Elas são incríveis — Heung-min corrigiu, dando um gole no próprio chá. — Se não fosse por elas insistindo para você ir àquela semifinal em Atlanta, eu nunca teria olhado para aquele telão. Eu nunca teria visto a garota do chapéu de caubói comendo nachos.
Jillian sorriu, inclinando a cabeça para trás, olhando para ele.
— E se não fosse pelo meu irmão ser um conspirador, você estaria no Reino Unido agora.
Son balançou a cabeça.
— Eu viria de qualquer jeito, Jill — ele afirmou, com sua voz calma, profunda e extremamente verdadeira. Ele colocou o prato de lado, virou-se para ela e segurou sua mão, seus dedos estavam quentes. — O mundo inteiro acha que o meu lugar é num estádio lotado. Mas estar aqui com você, com a sua mãe brigando por causa da torta, o seu pai e irmão me encarando e as suas amigas rindo, fez eu me sentir em casa de um jeito que eu não sentia há anos.
Jillian sentiu o peito aquecer de um jeito muito gostoso. Ela deu um passo à frente, ficando entre as pernas dele enquanto ele estava sentado no parapeito, e levou as mãos até as lapelas da jaqueta de camurça que ele usava.
— Você fica muito bem no Texas, Capitão — ela sussurrou, ajeitando a gola dele.
— Eu fico melhor ainda quando estou perto de você — ele sussurrou de volta, os pêlos do braços dela se arrepiaram instantaneamente.
Heung-min se inclinou para frente, quebrando a pouca distância que restava entre eles, beijando-a calmamente, sentindo o gosto de canela e do ar frio do entardecer, selando aquele dia de Ação de Graças de um jeito perfeito.
Atrás do vidro da janela da cozinha, Maya, Cami e sua mãe espiavam bobíssimas por detrás da cortina.
— Eu disse que eles faziam um casal lindo — Maya sussurrou, orgulhosa.
— Uhum. Agora sai da janela, antes que ela veja a gente e jogue uma pedra na nossa cabeça — Cami riu, puxando a amiga para trás.
Sob o céu infinito do Texas, Jillian e Heung-min continuaram abraçados ao som da música suave, sabendo que aquela história estava longe de ser um evento passageiro de Copa do Mundo, estava apenas no seu primeiro e mais bonito capítulo.
Fim
Nota da autora
Foi a primeira fanfic que escrevi voltada ao universo futebolístico, ainda mais com o Sonny, que é meu amorzinho! Confesso que quis desistir dela depois que a Coreia foi eliminada da Copa, mas quando vi a forma terrível que a Seleção Coreana foi recepcionada em seu próprio país, me deu gás para continuar. Em breve verão histórias com o Haaland e o Bellingham por aqui também (obcecadíssima estou ahaha). Agradeço de coração a todas que leram, e principalmente a Lightyear   pelo designer e a codificação da estória, você é incrível, querida!  Beijão e até as próximas! [E sim, a música que fez a Jill balançar os ombros no estádio foi Butter do BTS, só porque o craque coreano é super fã deles]
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