CAPÍTULO 1: CAMISA 7
O plano original de Jillian West para aquele último semestre da faculdade envolvia relatórios muito bem detalhados, os fins de semana na fazenda da família nos arredores de Houston e o ar familiar de terra e feno seco, seus afazeres, paz e zero estresse. Futebol, muito menos a Copa do Mundo, não estava em nenhuma linha do seu caderno de anotações.
Mas tente explicar isso para Cami e Maya quando as duas colocam uma ideia na cabeça. Para elas, a iminência do diploma não era apenas o fim de um ciclo, era o fim do mundo como o conheciam, da jovialidade, e o começo dos traumas das responsabilidades.
Cami caminhava de um lado para o outro na cozinha, a unha do polegar sendo destruída por seus dentes, tendo zero atenção de Jill, que já havia dito vários ‘não’ em menos de dois minutos.
— É a nossa última chance, Jill — Maya argumentou, praticamente invadindo a cozinha de Jillian com o celular em riste, onde a tela brilhava com três ingressos digitais que pareciam valer mais do que ouro. — Depois que cruzarmos aquele palco de beca, você vai se enfiar de cabeça nos negócios de gado da sua família e nós duas vamos virar escravas de escritório! É agora ou nunca!
Jillian fez careta, movendo os lábios para cima, enrugando o nariz.
— E por que Atlanta? Por que futebol? — ela tentou contra-atacar, ajeitando os óculos enormes enquanto tirava uma torta de maçã do forno. — Eu nem sei as regras. Se a bola passar daquela linha branca, para mim é tudo igual.
— Pela atmosfera, sua caipira teimosa! — Cami completou, roubando um pedaço da crosta da torta. — É uma semifinal de Copa. O mundo inteiro vai estar lá. E nós também vamos.
Jillian resistiu o quanto pôde, tentou até ficar doente, mas a perspectiva de ver suas duas melhores amigas seguindo viagem sem ela pesou mais do que o cansaço e a falta de conhecimento.
E bem, ali estava ela, duas semanas depois, encarando a imensidão de Atlanta.
Deixar as estradas largas e o ritmo previsível do Texas para trás e mergulhar no trânsito caótico da Geórgia foi uma peleja. Todavia, quando finalmente pisaram no centro da cidade, o ceticismo de Jillian começou a desfazer. Atlanta não era apenas uma cidade grande naquela semana; era o coração pulsante do planeta.
As calçadas estavam inundadas por um mar de camisas azuis e brancas da França, que se misturavam ao vermelho vibrante e às bandeiras com o símbolo do Taegeuk da Coreia do Sul. Havia música vindo de todos os cantos, sotaques que Jillian nunca tinha ouvido na vida e um cheiro de comida de rua que abria o apetite de qualquer um.
— Eu não disse? — Cami exclamou, empurrando Jillian de leve com o ombro enquanto desviavam de um grupo de torcedores franceses que cantavam alto perto do metrô. — Olha pra isso! É ou não é melhor do que ficar lavando bunda de cavalo?
Jillian riu, levando a mão à cabeça de forma instintiva para ajustar a aba do seu inseparável chapéu Stetson de feltro claro. O acessório destoava completamente da moda urbana e das camisas de times ao redor, mas era o seu porto seguro, o pedaço de terra que ela tinha trazido consigo para não se perder naquele mundo novo, mesmo que só por uns dias.
— Eu ainda prefiro os meus cavalos — Jill admitiu, abrindo um sorriso genuíno enquanto olhava para os telões gigantescos espalhados pelas avenidas. — Mas tenho que dar o braço a torcer... a energia desse lugar é covardia. Vocês estavam certas.
Cami e Maya se entreolharam com pura expressão de deboche, Jill revirou os olhos e riu.
Seguiram caminho pelo estacionamento do Mercedes-Benz Stadium, verificando em um panfleto informativo onde ficava a entrada para a ala que haviam reservado os assentos, com Maya se dando conta só naquele momento que tinha adquirido os assentos na arquibancada da torcida sul coreana.
O caminho até os assentos foi um borrão de empurrões amigáveis, cheiro de comida e o eco ensurdecedor dos cantos das torcidas que reverberava no teto fechado do estádio. Maya tinha se superado. Quando finalmente alcançaram a fileira delas, Jillian engoliu em seco. Os lugares não eram apenas bons; elas estavam no anel inferior, a poucos metros do gramado, bem perto da linha de escanteio.
Antes mesmo do apito inicial, a fome bateu.
Jillian, pragmática como sempre, se voluntariou para enfrentar as filas dos quiosques de lanche enquanto as amigas tentavam aprender os nomes dos jogadores por outro panfleto. Quando voltou, trazia os braços carregados: três copos gigantes de refrigerante, duas bandejas de nachos transbordando queijo e um cachorro-quente que provavelmente era grande demais para ser real.
— Você vai comer tudo isso antes do primeiro tempo? — Cami perguntou, rindo alto por cima do barulho da multidão.
— Eu gastei uma fortuna para estar aqui, querida. Vou consumir cada caloria que a Geórgia tem a me oferecer — Jillian rebateu, já ajeitando a bandeja de nachos no colo e dando uma mordida caprichada, sem a menor cerimônia.
O jogo começou meio sem força, meio morno, só um bando de homens trocando as pernas pela bola. No entanto, alguns minutos depois, as coisas começaram a ganhar impulso.
Jillian não entendia absolutamente nada de tática, mas a velocidade daqueles homens correndo pelo gramado era impressionante. Toda vez que a França avançava, a torcida ao redor parecia sofrer um ataque cardíaco coletivo. Do lado coreano, o camisa sete se destacava. Ele corria com uma leveza impressionante, os olhos semicerrados de puro foco, comandando o time com gestos rápidos.
No final do primeiro tempo, após uma falta dura que paralisou a partida para o atendimento médico de um jogador francês, o estádio mergulhou em um compasso de espera. Para entreter o público, o sistema de som soltou uma música pop chiclete sul coreana, em homenagem aos visitantes, e a famosa Câmera do Telão começou a caçar reações espontâneas na plateia.
Jillian estava completamente alheia a tudo isso.
Ela tinha acabado de colocar um nacho extra queijo na boca e, embalada pelo ritmo animado da música que ecoava nos alto-falantes, começou a balançar os ombros em uma dancinha perfeitamente desengonçada, os olhos fechados saboreando a comida.
Primeiro Cami encarou o telão sem assimilar o que estava acontecendo, em seguida ela arregalou os olhos batendo no braço de Maya, apontando para a tela.
— Jill... Jill, pelo amor de Deus, para de mastigar e olha para cima! — Maya começou a esbofetear o braço da amiga, o rosto vermelho de choque.
Jillian abriu os olhos, piscando confusa, e olhou para o telão de alta definição que pairava no centro do estádio.
E lá estava ela, em tamanho monumental.
Uma garota de bochechas coradas, mastigando feliz da vida, com um chapéu Stetson gigante na cabeça, “dançando” como se estivesse sozinha na cozinha de casa.
O estádio inteiro soltou uma risada coletiva, um som caloroso que achou graça daquela espontaneidade genuína no meio de tanta tensão. Jillian congelou com o nacho no meio do caminho, as bochechas esquentando na hora, mas em vez de se esconder, ela apenas deu de ombros na tela, ergueu o copo de refrigerante em um brinde tímido e deu um sorriso aberto, ajeitando a aba do chapéu.
No gramado, a poucos metros dali, Son Heung-min estava com as mãos nos joelhos, recuperando o fôlego e tentando manter a cabeça fria diante do placar zerado. O barulho da risada da torcida o fez erguer os olhos para o telão.
O contraste foi imediato. No meio de um mar de rostos tensos e camisas de futebol, aquela garota americana com um chapéu de caubói estava vivendo no próprio universo particular, completamente feliz com seu lanche. O canto dos lábios do jogador subiu de forma involuntária.
Foi o primeiro sorriso genuíno que ele deu desde que pisara naquele estádio.
A câmera do telão cortou a imagem, mostrando o torcedor francês com peruca colorida, mas a mente de Son continuou nela. Ele piscou, limpou o suor da testa com as costas da mão e correu os olhos pela arquibancada do setor inferior, bem na direção de onde o take havia sido feito.
Não foi difícil encontrá-la.
O Stetson de feltro claro brilhava sob as luzes da arena.
Jillian ainda estava tentando se recuperar do mico, bebendo um gole longo do refrigerante, quando Cami a cutucou com força, o sotaque sulista quase sumindo pelo desespero.
— Jill... Não olha agora. Mas o asiático com a camisa sete, ele está olhando para cá.
Jillian franziu a testa e olhou em direção ao campo, Son estava parado perto da linha lateral, ajeitando a braçadeira de capitão. Quando percebeu que ela tinha olhado de volta, ele não desviou o olhar. Pelo contrário. Ele inclinou a cabeça de leve, deu um meio sorriso de canto e, com um gesto rápido e quase imperceptível para o resto do mundo, imitou o balanço de ombros que ela tinha feito no telão, antes de se virar e voltar a correr para a sua posição.
— Ele não fez isso — Maya sussurrou, boquiaberta. — Me diz que ele não acabou de flertar com você usando uma dancinha de nachos?!
Jillian sentiu o coração dar uma pirueta que não tinha nada a ver com o susto do telão. Ela engoliu em seco, os dedos apertando a aba do Stetson enquanto os olhos dela acompanhavam o Camisa Sete se posicionar no campo.
O futebol, de repente, tinha ficado muito mais interessante.
O segundo tempo começou com uma intensidade que fez o piso do estádio vibrar.
A França voltou do intervalo pressionando alto, sufocando a saída de bola da Coreia do Sul. O barulho das duas torcidas era como um ribombo contínuo dentro da arena fechada, mas, para Jillian, o foco do mundo havia se reduzido drasticamente para o retângulo verde logo à sua frente.
— Ele olhou de novo? — Maya perguntou pela décima vez, quase subindo na cadeira para ter uma visão melhor. — Jill, juro por Deus, acho que ele rastreou o seu chapéu.
— Fica quieta, Maya! O setor inteiro vai notar — Jillian sussurrou de volta, puxando a aba do Stetson um pouco mais para baixo, tentando em vão esconder o rubor que teimava em queimar em suas bochechas.
Apesar do aviso, os olhos dela estavam fixos no camisa sete.
Era fascinante ver a mudança de postura dele.
O homem que havia brincado com ela minutos antes agora era puro foco e agressividade tática. Ele corria, desarmava, orientava os companheiros com gritos rápidos e uma liderança que impunha respeito. Jillian, que nunca tinha dado importância para o esporte, muito mal tinha ido aos jogos do time da faculdade, se pegou prendendo a respiração a cada arrancada dele pela lateral.
Aos quinze minutos, a oportunidade perfeita surgiu, após um contra-ataque rápido da Coreia, o zagueiro francês desviou a bola pela linha de fundo.
Escanteio para a Coreia do Sul, exatamente no canto onde as três amigas estavam sentadas.
O estádio explodiu em um clamor de tambores e gritos.
Son caminhou calmamente em direção à bandeira de escanteio, com a bola debaixo do braço. A distância entre ele e Jillian agora era de pouco menos de dez metros.
A torcida francesa atrás do gol começou a vaiar e a fazer barulho para tentar desconcentrá-lo, mas o capitão coreano era imune à pressão. Ele curvou-se, ajeitou a bola milimetricamente na grama e deu alguns passos para trás, respirando fundo.
Foi quando ele ergueu a cabeça para analisar a área antes do cruzamento.
Os olhos dele varreram a primeira linha de torcedores e, inevitavelmente, encontraram o feltro claro do chapéu do Texas. Jillian segurava o copo de refrigerante com as duas mãos, completamente imóvel.
Dessa vez, Son não disfarçou, e com um brilho divertido nos olhos, ele levou a mão direita à testa e fez um gesto rápido de saudação militar, com dois dedos encostados na têmpera, direcionado especificamente para ela em um cumprimento de caubói, do jeito dele.
— Ai meu Deus, eu vou desmaiar — Cami murmurou ao lado, agarrando o braço de Maya.
Jillian, no entanto, foi tomada por aquela onda de espontaneidade que a trouxe até Atlanta. Deixando a timidez de lado, ela soltou uma das mãos do copo, levou os dedos até a aba do seu Stetson e a empurrou levemente para cima, inclinando a cabeça em uma resposta perfeita, sustentando o olhar dele com um sorriso aberto e ousado.
O canto dos lábios de Son subiu, ele deu um aceno sutil com a cabeça, correu para a bola e bateu o escanteio com precisão.
A bola viajou em uma curva perfeita, passando por cima da defesa francesa. O centroavante coreano subiu mais alto que todo mundo e testou firme, estufando a rede no canto esquerdo do goleiro.
Gol da Coreia do Sul.
O Mercedes-Benz Stadium quase veio abaixo.
Milhares de torcedores coreanos pularam das cadeiras, cerveja voou para o ar e o barulho se tornou ensurdecedor. Cami e Maya pulavam abraçadas, super animadas, gritando como se fossem torcedoras de berço daquela Seleção.
No meio da comemoração, enquanto os jogadores corriam para abraçar o autor do gol perto da linha de fundo oposta, Heung-min se desvencilhou do grupo por um segundo. Ele se virou para o setor onde Jillian estava, parou, olhou diretamente para ela e levou os dedos indicadores e polegares das duas mãos ao rosto, formando o desenho de uma moldura de câmera fotográfica.
Esse símbolo era sua marca registrada.
Ele "tirou a foto" dela no meio da multidão, exatamente como sempre fazia em suas comemorações icônicas, guardando aquele momento antes de voltar correndo para o meio de campo com um sorriso radiante no rosto.
Jillian caiu sentada na cadeira, rindo da pura loucura daquela situação, com o coração batendo no ritmo da torcida e os olhos brilhando fixos no gramado.