I - Uma refém valiosa
Quando você está perdido, mas não quebrado
É um longo caminho do fundo até o topo
“Almost Forgot”
Mest
Velaryon desfrutava o décimo nono dia de seu nome na estrada com alguns poucos guardas para protegê-la. Retornava para casa depois de uma quinzena com os Blackwood no Solar de Corvarbor. O melhor seria ter ido e voltado de barco, mas cavalgar em Bonita, sua amada égua, com um pequeno grupo chamava menos atenção, afinal, ela poderia ser tomada por uma qualquer. Seu padrasto Daemon a incumbira de parar em algumas casas para aumentar a proximidade e fortalecer os laços entre os Pretos e eles. Dissera à garota que seria bom se precave, pois, ainda que sua mãe acreditasse haver um jeito de ela suceder ao Trono de Ferro em paz, uma guerra iria acontecer. Então cumpriu seu dever, como a boa princesa que era.
Primeira filha de Rhaenyra Targaryen e Laenor Velaryon, os Verdes a chamavam de bastarda, alegando que o verdadeiro pai da garota era Sor Harwin Strong. E talvez fosse, afinal, era isso que seus cabelos castanhos e seus olhos escuros indicavam. Porém isso não fazia diferença alguma para ela. Era oficialmente da Casa Velaryon, e isso bastava. Como seu avô Lorde Corlys costumava reforçar: o nome era tudo o que importava.
jamais dera muita atenção ao que os outros pensavam. Sempre fora uma boa lady, sim, mas também uma menininha selvagem que gostava de lutar com espadas e amava, mais do que tudo, usar arco e flecha. Aprendera tudo isso quando se mudaram para Pedra do Dragão, onde não havia os olhos julgadores da corte real sobre ela e, é claro, havia o apoio do príncipe Daemon Targaryen.
E justamente por ter aprendido a se defender — ao menos um pouco —, fazia viagens com poucos guardas e montada em sua égua caramelo. Chegar aos castelos daquele jeito não causava a melhor das impressões a um possível pretendente à sua mão, mas ela era uma princesa da coroa, a filha da Princesa de Pedra do Dragão, então eles tinham de aceitá-la sob seus tetos. Com os Blackwood, contudo, fora diferente. Eles gostaram de vê-la vestida com roupa de montaria na chegada e, em seguida, sendo a perfeita lady que se esperava que fosse. E fora assim que a garota conseguira um acordo de casamento. Porém o garoto era um pouco jovem demais e, assim, teriam de esperar dois anos antes de realizarem a união.
E agora a princesa estava finalmente perto de casa. No entanto, muito mais perto de Porto Real do que de sua verdadeira morada. Olhou para cima e acompanhou um dragão que sobrevoava os arredores. Vhagar, com certeza. Era grande demais para ser qualquer outro. No início, não ligaram, mas então a dragão se aproximou com um movimento que se assemelhava a uma investida. gritou para seus companheiros correrem, e foi o que eles fizeram. Ela disparou na frente, então não assistiu enquanto os outros queimavam. Mas jamais se esqueceria dos seus gritos estarrecedores que invadiram os seus ouvidos.
— Maldito Aemond! — praguejou ao conseguir entrar no bosque.
Sabia que não teria muita chance se o príncipe descesse do dragão e viesse atrás dela, porém, se tivesse sorte, ele só sobrevoaria o local e iria embora. Mas aquele era Aemond Targaryen, afinal de contas; nunca desistiria de capturar a princesa. Ele pousou com Vhagar fora do bosque e foi atrás da garota, de espada em punho. Quando ela o viu chegando, desceu da égua e bateu no traseiro do animal para que galopasse para longe e se salvasse. Poderia ter ido com ela, mas assim que ficasse a céu aberto, Aemond a encontraria com Vhagar e o fogo de dragão lhe lamberia a pele. E a princesa não desejava morrer pelo fogo. Portanto, desembainhou sua espada também.
Aemond a observou com atenção, já que não se viam desde a fatídica noite em que Lucerys arrancara o seu olho em Derivamarca. Uma pobre criatura solitária, pensou. Seus guardas, seus cavalos, todos haviam se ido. Ainda assim, a garota permanecia ali, empertigada e de queixo erguido para enfrentá-lo… como se tivesse alguma chance. Ele quase sorriu.
— Está sozinha aqui, princesa. — Sua afirmação soou como um questionamento.
— Queria eu estar! — resmungou ela. — Mas parece que você vai me forçar a desfrutar de sua companhia, não permitindo que eu fique verdadeiramente sozinha.
Aquilo arrancou uma risada dele. Impressionara-se em como crescera para se tornar uma garota de vontade implacável mesmo em uma batalha perdida como essa. Ainda assim, permanecia o enfrentando com uma atitude feroz. Como um verdadeiro dragão, pensou consigo mesmo, ainda que seja uma bastardinha.
— Acha mesmo que é capaz de me derrotar? — Deu passos lentos em direção a ela.
— Claro que não. — revirou os olhos de maneira petulante. — Mas não é como se eu tivesse outra escolha a não ser lutar.
— Ah, mas que honra — foi sarcástico. — Você tem outra escolha, sabia? Sempre pode se submeter.
— Jamais — rosnou entredentes. — Pensei que nós, Pretos e Verdes, ainda estivéssemos vivendo em nossa paz fingida. Mas parece que os corvos não me alcançaram na estrada com as novas notícias. — Observou, atenta, Aemond parar perto dela. — Seu ataque só pode significar uma coisa: vocês deram um golpe para colocar Aegon no Trono de Ferro. Roubaram o trono da minha mãe.
— Você é esperta. — Aemond estreitou o olho como que para ver melhor, tentando entender o modo como ela agia. Ele nunca pensou que tal coisa fosse possível. Esperava medo ou até lágrimas, mas essa garota era… excêntrica. — Você nos culpa e outros culparão sua mãe, que não aceitou a norma do filho homem mais velho suceder ao trono, sua arrogância selando o destino dela e o seu.
— Cale a boca, seu garotinho estúpido! — Ela o golpeou com a espada, mas ele usou sua própria para aparar o golpe. — A maldita da sua mãe tinha planos para isso por anos, até mesmo antes mesmo de você nascer. Sete infernos, aposto que Sor Criston Cole, aquele filho de uma puta, teve um grande papel nesse golpe. — Bufou. Ela ainda era assombrada pelo modo como Sor Criston tratara seus irmãos Jace e Luke no pátio de treino quando eram mais novos, priorizando os príncipes Aegon e Aemond, que tinham os cabelos prateados dos Targaryen. — Tanto faz! Saiba que você não vai me levar sem uma luta.
— Uma luta, você disse? — Riu, zombando. — Eu dificilmente chamaria assim.
— Eu cairei, sei disso, mas você terá que me fazer cair, porque não me jogarei no chão por vontade própria. Jamais dobrarei meus joelhos para vocês. — Cuspiu as palavras. — Sabe de uma coisa, meu príncipe? Você fala demais. Termine isso de uma vez por todas.
Atacou de novo, fazendo Aemond se defender mais uma vez. Ele riu outra vez, não conseguindo evitar. A garota era uma coisinha atrevida que, de fato, tinha um espírito desafiador. Ele não podia negar.
— Você pediu por isso — disse antes de, enfim, dispor-se a lutar.
A luta não durou muito. Logo depois de começar, ele já agarrava a trança da princesa e a forçava contra o chão, colocando o joelho sobre suas costas.
— Está feliz agora? — provocou, mesmo com a cara na terra.
— Não exatamente — respondeu em tom arrogante, inclinando-se para perto.
— E então, o que vai fazer? — perguntou ela. — Me matar ou me levar como refém?
— É um tanto tentador esperar um pouquinho antes de te entregar para o meu irmão. — Ele aumentou o aperto em sua trança. Sua voz escarnecedora assombraria os sonhos de por um bom tempo. — Mas estará segura sob meus cuidados.
— Segura — debochou ela. — Presumo que esteja pensando em me arrastar pelos cabelos até Porto Real. Estou certa?
A princesa não estava em uma situação boa para fazer zombarias, ainda assim, não conseguia evitar. Aemond deixou uma risadinha escapar.
— Por que, nos sete infernos, eu precisaria arrastar você pelos cabelos, princesa? — Ele a levantou, ainda com os cabelos castanhos da garota apertados sob seus dedos.
— Ora, para se certificar de que eu não vou fazer nada estúpido, tipo fugir para longe antes de chegarmos até Vhagar.
— É uma princesinha muito esperta — comentou ao arrastá-la com ele pelo caminho, uma mão presa em seus cabelos, a outra agarrando seu braço.
— Um dia, quando você menos esperar, eu irei te matar, caro tio — decidiu-se. — Guarde minhas palavras.
— Ah, é? — Aemond riu do rompante de ousadia. — Gostaria de ver você tentar, princesa.
— E verá — prometeu baixinho quando pararam perto de Vhagar. olhou para a criatura gigantesca com desconfiança. — Ela não vai me queimar ou me jogar no chão? — perguntou ao príncipe. — Apesar de toda essa porcaria, eu valorizo muito a minha vida.
— Vhagar não fará nada disso. Ela me escuta, afinal. — Ele estufou o peito, levando a princesa para ainda mais perto do animal, que se agitou um pouco com a presença estranha. — Lykiri, Vhagar — usou a palavra alto valiriana para mandar que ela se acalmasse. Então pegou a mão de e fez a garota tocá-la, senti-la, e repetiu: — Lykiri. — Desta vez, seu tom fora mais suave, e Vhagar começou a ceder. — Viu, princesa? Não há nada a temer.
Com um sorrisinho indecifrável, envolveu a cintura da garota e a colocou em cima do dragão.
— Nada além de você, é claro — comentou quando ele se juntou a ela.
Aemond falou para Vhagar voar e foi o que ela fez. Correu, bateu suas enormes e antigas asas e alçou voo. Era a primeira vez que subia em um dragão. Apesar de ter o sangue quente dos Targaryen, jamais tivera coragem de clamar um dragão para si mesma. Olhou para as terras abaixo, um nó se formando em seu estômago. Ela quis rir. Tinha medo de cair, de morrer. Seu destino era se tornar uma refém, ficar presa para sempre sob os olhos dos Verdes em Porto Real. Ainda assim, não pensava em pular e acabar com tudo. Apenas desejava que o voo acabasse e ela ficasse segura.
Detestava altura tanto quanto detestava os Verdes.
— Não se preocupe, princesa — Aemond sussurrou em seu ouvido. — Não vou te derrubar.
— Talvez eu queira que você me derrube — retorquiu ela.
— Não é bom ser suicida agora, . — Divertiu-se com aquilo e, como sabia de seu medo, completou com: — Ainda mais na altura em que estamos.
— Bem… — hesitou, fechando os olhos para não olhar ao redor. — Como eu disse antes: valorizo muito a minha vida.
— Bom — disse ele, deixando um sonoro “hmm” escapar logo depois. — Não gostaria que você pulasse e acabasse como nada além de uma mancha no chão.
— Não? — Abriu bem os olhos, surpresa. — Pensei que esse fosse o seu sonho.
— Não, princesa — respondeu à zombaria com seriedade. — Eu prefiro ter você viva e sob o meu controle.
E ali estava, a lembrança clara do que Targaryen era para o príncipe Aemond: um espólio de guerra. Quando pousaram, desceram de cima do dragão e cavalgam para Porto Real, ambos no mesmo cavalo. A princesa ponderava em silêncio se talvez não deveria mesmo ter pulado. Decidiu que não, que não poderia. Prometera a si mesma e ao príncipe que um dia tiraria a vida dele. Tinha que se manter viva se de fato quisesse tentar a proeza.
Ao finalmente chegarem na Fortaleza Vermelha, Aemond empurrou-a pelos corredores como se ela fosse apenas mais uma prisioneira qualquer. Ao entrarem na Sala do Trono, o aperto do príncipe no braço da garota ficou ainda mais forte. ergueu os olhos do chão e a primeira pessoa que viu foi Criston Cole, que usava sua armadura branca, limpa e polida como sempre. O homem tinha as mãos cruzadas atrás das costas e um olhar frio e impassível no rosto, que suavizou-se assim que virou-se para encarar a cena pomposa. Ele levantou as sobrancelhas, reconhecendo-a de imediato: a filha da princesa Rhaenyra, a garota Strong.
Mas não era mais uma menina. Ela conseguia expor sua beleza mesmo em uma roupa de montaria completamente desalinhada e suja do confronto anterior. A trança bagunçada em sua cabeça trazia um charme a mais. Era agora uma mulher-feita.
A princesa olhou ao redor. Havia pouca gente no recinto, talvez por um milagre dos deuses. De qualquer modo, a fúria da princesa aumentou com a presença de Criston e, ainda mais, por ver Aegon Targaryen sentado no Trono de Ferro, um trono que agora deveria pertencer à mãe dela. Era isso que o seu avô desejava. Mas Daemon estava certo, afinal de contas, uma guerra viria.
— Conseguimos uma refém valiosa — declarou Aemond, orgulhoso de seu feito. Ele arrastava a princesa com ele através da sala enquanto ela se debatia para tentar se soltar. — Encontrei a garota selvagem no bosque, que é quase tão selvagem quanto ela.
— Princesa — Aegon soou surpreso, o que arrancou uma risadinha de escárnio dela.
Uma expressão estranha perpassou seu rosto e ele não soube como proceder. A Mão do Rei estava resolvendo outros assuntos, então os olhos perdidos do rei buscaram o Senhor Comandante da Guarda Real, que tomou a frente do assunto.
— Uma refém valiosa, de fato — concordou Sor Criston, a voz fria e firme. Seus olhos vagaram para a princesa altiva e ele acrescentou: — Observe-a de perto.
— Sor Criston — cumprimentou-o e então cuspiu no chão.
Aegon arregalou os olhos com a ousadia de sua sobrinha. Criston, por outro lado, franziu o cenho, deixando toda a sua antipatia pela garota transparecer em seu rosto bonito.
— Deveria mostrar respeito, princesa — disse ele. — Ainda mais que é uma refém aqui, não uma convidada.
— Assim como você, então, Senhor Comandante — zombou ela. — Sempre um manto branco, nunca fazendo qualquer coisa além disso.
— Cuidado com a língua. — Seus olhos escureceram em um claro alerta. — Não fale de coisas das quais você não tem o mínimo conhecimento.
— E o que vai fazer se eu não tomar cuidado? — o desafiou, sabendo que não poderiam a ferir, ao menos não muito, porque ainda era uma princesa, e isso sempre seria uma vantagem naquele joguinho político. — Vai cortar a minha língua?
— Temo que não chegaremos a isso. — Ele deu um passo na direção dela, sua mão descansando no punho da espada, uma sutil ameaça. — Seria sensato se lembrar do seu lugar aqui.
— Certo, eu mantenho minha língua. E então o quê? — enfureceu-se, fazendo com que o rosto do cavaleiro se contraísse, irritando-se com a arrogância da garota. — Vão me levar para as masmorras?
— Não, princesa — disse entredentes. — Será mantida em aposentos só seus por causa de quem você é, mas não confunda isso com liberdade. Você ainda é uma refém, e cada movimento seu será vigiado.
— Por você, eu presumo — suspirou teatralmente, como se aquela fosse a pior coisa que poderia acontecer na vida dela. Talvez seja a pior coisa, pensou ela, ou talvez eu possa me aproveitar disso.
— Sim, por mim — assentiu ele, seu olhar inabalável. — Eu guardarei sua porta, princesa. Então nem pense em tentar nada tolo. — Deu mais um passo para perto, de olhos fixos nela. — É uma refém valiosa, e garantirei que continue desse jeito.
— Então está decidido — declarou Aegon, como se tivesse tomado qualquer parte no assunto.
Aemond resmungou um “hmm” antes de soltar a garota, empurrando-a com força para fazê-la estatelar-se no chão da Sala do Trono. Um ato de clara humilhação. Criston cerrou o maxilar, mas não disse nada. Tinha algo na garota que o tirava do sério, ainda assim, não era certo tratá-la daquele jeito. No entanto, não podia disciplinar o príncipe ali, na frente dos outros. Além do mais, não era como se Aemond fosse deixar de fazer o que o deliciava por causa das palavras de Sor Criston Cole.
— Está decidido — ecoou as palavras do novo rei, voltando-se para ele. — A princesa será mantida em seus aposentos e eu guardarei a porta. Ninguém entrará ou sairá sem a minha autorização.
Aegon assentiu, novamente sem saber muito bem o que dizer. Era novo nisso e jamais desejara a posição. Agora tentaria dar o seu melhor, mesmo que não fosse grande coisa. Mas Velaryon ainda não havia acabado a sua pantomima. Podia estar no chão, esfarrapada e humilhada, mas nunca manteria sua cabeça baixa. E Sor Criston era o escolhido da vez. Ela virou o rosto para ele, encarando-o lá de baixo.
— E agora começa a sua vigia — debochou, fazendo alusão aos votos da Patrulha da Noite.
— E não terminará até a minha morte, né? — Seus lábios se curvaram em um sorriso de escárnio. — Muito engraçado, princesa — retrucou, sua voz pingando sarcasmo. — Deveria guardar suas forças para tentar escapar em vez de fazer piadas. — Olhou, então, para os guardas que estavam perto e ordenou com rispidez: — Levem-na para seus novos aposentos. Logo a seguirei.
Os guardas a levantaram do chão em movimentos não tão zelosos assim, mas ela nem percebeu. Ainda permanecia focada em Sor Criston.
— Você é mais traidor do que todos eles, Senhor Comandante — gritou. — Está servindo no lado errado da história.
Os olhos do cavaleiro nublaram-se como o céu antes de uma dura tempestade. Ainda que fosse verdade, a acusação doía.
— Cuidado, princesa — alertou em um tom baixo e perigoso. — Você não sabe nada do que me levou a esse caminho.
Ele pensou em Rhaenyra, a mãe da garota. O adeus deles. Ele revelando seu segredo à então rainha dos Sete Reinos, implorando por uma execução rápida que nunca viera. Os guardas puxaram através da sala, mas o olhar de Criston se manteve sobre a garota, seus nervos tensos e sua mente conflituosa.
Quando estavam quase na saída, a rainha-viúva entrou.
— Princesa !? — Alicent olhou bem para ela, em choque não apenas por ela estar ali sem a rainha-viúva saber, mas também por seu estado. Ela ergueu os olhos para além da princesa. — Posso saber o que está acontecendo aqui?
— Capturamos Velaryon, Vossa Graça. — Criston foi se aproximando delas e dos guardas, sua voz firme e formal. — A princesa será mantida em aposentos próprios como o seu título pede. Eu guardarei sua porta e, nos momentos em que eu não puder ocupar o posto, meus cavaleiros o farão.
— Chame pelo que é, Senhor Comandante — reclamou . — Eu sou uma porra de uma refém.
— Tenha modos, criança — disse a rainha-viúva, antes de voltar-se para Criston Cole: — Deve mantê-la aqui, sim, mas também deve mantê-la segura. Ela é uma princesa, afinal de contas. Jamais se esqueça disso.
— Garantirei a segurança dela, Vossa Graça — assentiu ele. — Tratarei ela com o respeito que seu status de princesa exige, mas ela precisa entender que é uma refém e, por isso, não é livre para sair quando quiser.
Alicent assentiu e seguiu seu caminho.
— Deuses! — resmungou . — Não vão me deixar nem andar pelo castelo?
— Não, princesa. Não terá liberdade de andar pelo castelo. — Balançou a cabeça firmemente. — Ficará confinada em seus aposentos e, caso se comporte bem, pode vir a ter permissão para ir ao Bosque Sagrado, ao septo para fazer suas orações e talvez até para se exercitar do lado de fora. Mas tudo isso sob forte supervisão. — Olhou bem para a garota, anos mais nova que ele. — É para a sua própria proteção, assim como para a segurança dos outros.
— Minha proteção. — Ela forçou uma risada. — É claro.
— Sim, princesa, sua proteção — respondeu de maneira severa. A princesa o irritava com sua teimosia. Era obstinada de um jeito que mexia com algo dentro dele. — É uma refém valiosa e, por isso, será protegida de perto o tempo todo, quer goste ou não.
— E então a minha vigia começa — fez troça. — E não terminará até a minha morte.
— Poupe-me, princesa . — Franziu a testa, cansado das brincadeirinhas afrontosas dela. — Seu sarcasmo não vai mudar nada. Continuará sendo tratada como uma refém.
— Eu mal posso esperar para passar o resto da minha vida com você por perto. — Revirou os olhos de modo teatral. Criston cerrou o maxilar em resposta. O jeito que a garota era sarcástica o tempo todo aborrecia-o mais do que deveria.
— Confie em mim, princesa, o sentimento é mútuo — grunhiu. — Também não tenho o mínimo desejo de passar meus dias sendo sua babá.
— Parece que estamos no mesmo barco, então, Senhor Comandante. Nenhum de nós teve escolha. — A garota suspirou e olhou para os guardas. — Vão me mostrar o caminho ou terei de esperar para sempre?
Os guardas trocaram olhares, incertos sobre como lidar com o tom exigente da garota que era uma princesa, sim, mas também uma refém. Um deles deu um passo à frente.
— Sim, princesa. — Ele gesticulou para que ela os acompanhasse e, assim, não precisassem arrastá-la a contragosto pelos corredores. — Vamos levá-la aos seus novos aposentos.
olhou para Sor Criston e sorriu, vitoriosa por ter mostrado àquele maldito Senhor Comandante que ela tinha poder sobre os empregados da realeza mesmo sendo uma refém. Era um tipo de poder que ele jamais teria. Ela seguiu os guardas como uma boa refém deveria fazer. Sor Criston logo se juntará a mim, pensou, resignada, sem saber se aquilo poderia ser bom de algum jeito ou não.
Criston observou enquanto ela se afastava com os guardas, a expressão presunçosa em seu rosto era uma lâmina cortando o ar. Soltou um grunhido baixo que era quase uma risada escarnecedora. Maldita seja, princesinha, pensou, um tanto exasperado. A garota se considerava intocável, uma princesa com poder sobre todos, até mesmo sobre seus captores — o que incluía ele. Mas Criston sabia bem que esse poder era uma ilusão, especialmente na situação dela. De qualquer modo, teria que aguentar sua arrogância e sua atitude por um longo tempo.
— Tsk — murmurou baixinho, quase rindo ao se recordar dos trocadilhos da princesa com os votos da Patrulha da Noite. — Esta vai ser uma longa vigia.